30.9.12

O mês mais cruel


Setembro chega ao fim. Nem cá, nem na Europa, nem em lado algum foi um mês brilhante. Há dias perguntavam-me como é que se devia designar os países não emergentes. Ocorreu-me "os países que estão na mesma", "os países que não crescem", etc., etc., até que ouvi alguém falar, com razão, em países decadentes. Em breve a Europa entrará na ruminação a que se habituou nos últimos anos, entre conselhos, cimeiras, duetos, teleconferências e declarações algures entre o piedoso e o cínico. Já esta semana, o encontro dos ministros das finanças da Alemanha, da Finlândia e a da Holanda, em certo sentido "contra" a Espanha - estilo "desenrasquem-se" -, obrigou a Senhora Merkel a mais uma profissãozinha de fé na "Europa" e no euro. O próprio "povo" europeu não sabe bem o que quer ou o que não quer, isto apesar das manifestações e dos barulhos. As elites esfarelam-se ou inexistem e o espaço político-partidário, por natureza aquele em que, numa democracia representativa, as coisas valem, cada vez vale menos. Nos EUA, Obama ainda é o mal menor para a Europa depois dos sucessivos shows de cretinice bíblica do sr. Romney. E os tais países emergentes andam por todo o lado, como lhes compete, a fazer pela vida à conta desta decadência geral do "Ocidente". Por cá, o panorama é devastador. Depois do disparo infeliz de 7 de Setembro, o ciclo das infelicidades governamentais e da coligação não parou mais. Fazer "tábua rasa" desta constatação com certeza conduzirá a que, daqui a precisamente um mês, esteja a escrever a mesma coisa em pior. Há um profundo trabalho político a realizar que não se compadece com o caprichismo "financês" ou com o persistente alheamento da realidade. Sem oposição à altura - a não ser a que lhe é movida metodicamente pelos media ou por intriguistas "internos" dispostos a colaborar com o primeiro alucinado que lhe aparecer pela frente -, o Governo tem a obrigação política e moral de redescrever o seu registo de actuação política. Não existe um cargo (um sequer) no Governo que não seja, antes de ser outra coisa qualquer, um lugar político. Aparentemente pouca gente tem a noção disso. Daí que Setembro tenha sido o mês mais cruel. Não pode repetir-se.


 


Foto: iStockphoto

O "jornalismo de matilha"

«Quando o "jornalismo de matilha" acerta o passo com os movimentos emergentes, que trabalham para encher tanto a rua como o ecrã, o peso político das manifs é inflacionado. As notícias não só as antecipam sem cessar, como implícita e até explicitamente as promovem (se a manif for "má" não dá "boa TV"); fazem-se transmissões-lençóis em directos favoráveis e emocionados; retomam-se mais tarde as mesmas imagens vezes sem conta. A sobre-informação inflaciona o peso político e uma imaginada legitimidade representativa de certas manifs. Acaba por se causar uma dupla insatisfação: a criada pelo exagero (duas horas de rua transformadas em centenas de horas de TV) e a resultante de, no final, se lhes atribuírem efeitos imaginários, como a queda dum governo, que não se efectivam.»


 


Eduardo Cintra Torres, CM


 


 

29.9.12

As coisas são o que são

Quando a realidade não "encaixa" nos "modelos" não vale a pena fazer de conta que ela não existe. Ou, em alternativa, dizer que os outros são "ignorantes" porque estão mais próximos da realidade do que dos "modelos". As coisas são o que são.

O povo no Terreiro do Paço


 


Noutros tempos era o Doutor Salazar quem enchia o Terreiro do Paço com as suas "manifestações espontâneas". E a RTP também já lá estava embora sem helicóptero. Mudou porventura o "povo" e as camionetas. Se calhar, como ele dizia, está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.

28.9.12

Dois vez um dois

Quando vejo alguns jornalistas e comentadores com idade suficiente para a frequência da antiga 4ª classe, onde seguramente aprenderam aritmética, penso neles como boas alternativas para aquilo que Marques Mendes designou, numa epifania em Fátima, por "refrescadela de caras" no governo. É que eles e elas sabem tanto, mas tanto, de contas que seria uma perda irreparável para a nação não poder aceder aos conhecimentos - repito, pelo menos ao nível da excelente aritmética ministrada na velha 4ª classe - destas luminárias para a completa e definitiva salvação de todos nós. Ámen.

«A mão no saco»

«Uma pessoa entra no mundo das fundações (de qualquer género) e fica estupefacta com a desordem e a estranha ambiguidade a que ele chegou. Que se trata de meter a mão no saco do Estado e no bolso do contribuinte: nenhuma dúvida. Mas não se esperava os requintes de invenção e tortuosidade da coisa. O assunto, em que a imprensa mal tocou, merecia um livro de mil páginas não um artigo de 30 linhas. Comecemos pela Gulbenkian (pedindo desculpa a Artur Santos Silva que só lá entrou ontem). Mas quem me explica a mim por que misteriosa razão a Gulbenkian (que é uma das fundações mais ricas da Europa) recebeu do Estado, entre 2008 e 2010, 13 483 milhões de euros? E quem me dá uma justificação aceitável do facto inaceitável de a Gulbenkian continuar a ser uma "fundação pública de direito privado", em vez de ser, numa sociedade democrática, simplesmente uma fundação de direito privado, quando com o estatuto que tem agora o governo pode, quando quiser, "designar ou destituir a maioria dos titulares dos órgãos de administração"? E quem me explica a inexplicável existência da Fundação Caixa Geral de Depósitos (a Culturgest)? Não é a Caixa um banco do Estado? Não há no Estado uma Secretaria ou um Ministério da Cultura? Ou a existência da Fundação Batalha de Aljubarrota (que nos gastou desde 2008 a 2010, um milhão e 900 mil euros) dedicada a "reconstruir" (palavra de honra) o "campo militar" e as "circunstâncias" (não estou a inventar) desse memorável combate (que, de resto, a tropa inglesa ganhou por nós? Ou a da Fundação Navegar (800 mil euros no mesmo prazo), que pretende o "desenvolvimento cultural artístico e científico de Espinho"? Ou a Fundação Carnaval de Ovar (750 mil euros), que sempre foi, como se sabe, um acontecimento mundial? Ou dezenas de outras fantasias, quase todas sem o mais leve senso e todas sem o mais leve escrúpulo. Este espaço não basta para contar e analisar a história aberrante das fundações. Mas basta para dizer que o Estado (ou seja, a maioria dos governos democráticos) deixou crescer este monstro e o alimentou durante mais de 30 anos, sobre as costas  do cidadão que hoje resolveu patrioticamente espremer. E também chega para notar que os pretextos mais comuns desta razia silenciosa e prática, sempre invocada em tom indiscutível e beato, são dois, cultura e artes, com a ciência a grande distância. Isto é, as fundações servem fundamentalmente para recolher e sustentar a iliteracia e a ignorância indígena (por exemplo 13 672 funcionários nas fundações que Passos Coelho pensa fechar). E o que é que sucedia ao país se ele amanhã parasse de estipendiar esta turba sem nome? Nada, queridos portugueses, rigorosamente nada. E talvez, com isso, o governo adquirisse alguma confiança e dignidade.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


Adenda de sábado, 29 de Setembro, por causa das patrulhas: «Fonte fidedigna garante que a Gulbenkian é uma fundação privada. A fonte oficial a que recorri, a própria "ficha de avaliação", garante que não. É a ficha, naturalmente, que está errada.» (Vasco Pulido Valente, Público) O trabalho de levantamento do "estado da arte" das fundações, a cargo da IGF, tem defeitos que foram evidentes desde o primeiro dia. Todavia, o fantástico mundo das fundações - e de outras coisas erguidas à sombra do Estado e dos contribuintes pelo regime - é uma realidade cuja gramática começou a ser decifrada a partir dali. O resto é a habitual conversa de chacha.

27.9.12

E o resto?

Na apresentação do livro de Carrilho, Eduardo Lourenço aludiu à propalada inutilidade da filosofia. E recordou Vieira de Almeida que, uma vez confrontado com esta ideia, perguntou: "e então o resto?" Olhamos para o mundo, olhamos para nós, olhamos para a "estupidez sistémica" e, de facto, perguntamo-nos: e o resto não é inútil?

Ética?

Tenho vergonha disto.

Pensar o mundo e repensar Portugal






«Pensar o mundo é o que tem faltado à União Europeia desde que se deixou embalar na miragem de uma moeda única que só traria benefícios e não teria custos, hiperbolizando a sua capacidade e ignorando olimpicamente as dificuldades, tanto internas como externas, que entretanto se multiplicavam. Até ao ponto em que os desafios exteriores e os seus desequilíbrios e impasses interiores a colocaram à beira do colapso, onde estamos. De um colapso a que agora só um improvável federalismo político e um prudente proteccionismo estratégico nos poderão poupar. Pensar o mundo é também o que Portugal precisa de fazer, se quisermos "dar a volta" aos seus problemas, de modo a que o futuro seja realmente diferente do passado. Portugal precisa de um novo projecto, ousado e realista, que não pode ser dirigido nem pelos lobbies habituais nem pelos cleptocratas do costume, que nos últimos anos atiraram Portugal para o indigenato europeu e para a irrelevância internacional.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN







Nota: Pensar o Mundo reúne em dois volumes a obra de M.M. Carrilho dos últimos trinta anos. A sua apresentação, por Eduardo Lourenço, decorre no Palácio Galveias pelas 18.30. Carrilho foi o último ministro da Cultura de Portugal. Estes livros resumem o seu "combate" pelas ideias contra o pensamento débil que nem sequer chega propriamente a fazer "escola" num país onde não há "pensamento" algum. O seu  registo é o do ecletismo intelectual, logo evidenciado em 1982, em O Saber e o Método. É socialista mas nunca se deixou atrapalhar pelo proselitismo partidário ou pela indigência oportunista do aparelhismo e do caudilhismo saloio. É, sobretudo, um amigo que me enobrece com a sua amizade e com quem aprendo todos os dias a pensar melhor o mundo.


 

26.9.12

Fazer pouco do presente

«A distracção é a forma mais exaltante da vida. Quem se pode distrair — amando, lendo, pintando, trabalhando, coleccionando, politicando — não pode ser inteiramente triste, não por não estar apenas simplesmente não-morto e vivo, mas por ter encontrado a maneira de fazer pouco do presente, em atenção ao passado ou ao futuro lembrado ou desejado, como momento e movimento em direcção a eles. Restam as consolações. Quando é ser momento ou movimento a única coisa, para se ser feliz, que se quer.»




M. Esteves Cardoso, via Malomil

Nem tudo mexe pelas melhores razões mas...

«Há poucos pontos fixos.» (Medeiros Ferreira)

25.9.12

As coisas são o que são

Num total de duzentas e trinta fundações estudadas, quatro foram encerradas. Foi sugerido a quem de direito - autarquias, regiões autónomas - o fecho de umas quantas. E a muitas foi "cortada" a subvenção pública. É pouco mas é um caminho a percorrer para disciplinar a despesa sem ser quase exclusivamente por conta das pessoas singulares ou morais. Os próximos meses vão ser muito difíceis pelo que nenhuma "facilidade" pode ser concedida, por omissão, aos grandes "eixos" da despesa pública que praticamente ainda não foram tocados. As coisas são o que são.

Pensar o mundo...



Faz falta.

Outra conversa




O meu caríssimo Carlos Vidal apoda-me de "direita profunda e obtusa" a propósito do episódio de vaudeville iniciado por Maria Teresa Horta quando, publicamente (realço o "publicamente" porque foi isso que Horta quis, uns vastos minutos de comício político e de assuada panfletária primitiva que nada tem a ver com valias literárias), revelou ao mundo que não recebia nada das mãos de um primeiro-ministro chamado Passos Coelho. Aceito o elogio, a saber, a alegada profundidade do meu direitismo. Nunca fui adepto da técnica das meias-doses e se as esquerdas são as Hortas, então eu sou das direitas profundíssimas. Quanto à obtusidade, não posso rejeitar em absoluto porque nasci e hei-de morrer cheio de dúvidas apesar de não ser um cartesiano. Imagino, todavia, que o ar esteja pejado de obtusos que não conhecem a Horta de lado algum e que, até agora, sobrevivem sem esse acrescento cósmico-epistemológico. A Horta, no seu "devir" literato ou outro qualquer, limitou-se a acrescentar palavras e ruídos ao mundo sem que, no entanto, o mundo se engrandecesse extraordinariamente com isso. Num mundo como o dos livros da Alice, há glória para a Horta mas apenas naquele sentido que Humpty Dumpty atribuía à palavra "glória": nenhum. E, sim, parece que o cheque vai mesmo para casa. Não tem mal. A literatura não circula entre cheques, apertos de mão e comícios. É, como eu e o Carlos sabemos, outra coisa. Outra conversa.

"Go next door"

Peço imensa desculpa por interromper a cadeia de lugares-comuns em curso, aquilo a que, com propriedade, Vladimir Nabokov definia como um cruzamento de cavalos com elefantes. Ora essa cadeia de lugares-comuns decidiu incluir nela a chamada coordenação do Governo como subtexto fundamentamente dirigido a uma pessoa concreta. Make no mistake. Nada mudou. No fundo, apetece responder à dita cadeia de lugares-comuns com a frase que Joan Crawford invariavelmente reproduzia a quem lhe sugeria que, quando saía de casa, fosse para o que fosse, ia sempre vestida como se dirigisse a uma estreia ou a um jantar no Sardi. «If you want to see the girl next door, go next door.»

23.9.12

Uma entrevista sensata


 


No meio do barulho, vale a pena ler/ouvir a entrevista de Paulo Rangel no Público de domingo. Não há nada que ele diga que não releve do mais elementar bom senso. «No fundo, cada país tem os regimes que merece. Os portugueses indignam-se de quando em vez, mas demitem-se da sua participação diária muitas vezes. Olhe, poderiam não ter caído na ilusão do eng.º Sócrates em 2009. Que tenham caído em 2005, acho normal; que caíssem em 2009 não acho. As pessoas já tinham muito a noção que viviam a crédito, já tinham experiência democrática suficiente para perceberem tudo o que estava em jogo.»

Pior não há

 



 






«1. Mário Soares propôs sem se rir a nomeação de um governo de iniciativa presidencial e, ao contrário do que aconteceu após a famosa e irónica sugestão de Manuela Ferreira Leite, ninguém se levantou a chamar-lhe "fascista" e a acusar o "pai" do regime de querer abolir o dito. Alguns dos exactos media que então crucificaram a dra. Ferreira Leite agora levaram a ideia a sério e uma ou duas eminências pardas da nação emprestaram ao dr. Soares sincero apoio.


2. A consagrar o hospício, temos o jornalismo de "causas", no qual repórteres excitados cobrem manifestações e vigílias em registo partisan, a assumir acriticamente as dores dos oprimidos (com ou sem aspas) em detrimento dos privilegiados (idem). A verdade é uma: o proverbial povo saiu à rua e, de modo a aproveitar o embalo, toda a gente decidiu decretar o falecimento do Governo. Ninguém parece notar o risco de que, no fim da história, as vítimas mortais sejam outras, e um nadinha menos irrelevantes.


3. O resto é o trivial. Uma escritora ávida de publicidade resolve transformar uma mera decisão pessoal num grito vagamente ideológico contra quem, cito, está "empenhado na destruição do país". Como o tipo de país desejado pela dona Maria Teresa se encontra explícito nos rascunhos que dedicou ao PREC, entre os quais um poema (?) a partir de mote de Vasco Gonçalves (Refiro-me/sobretudo às mulheres/que exaustas de silêncio/são tímidas no falar//Mas a força que têm/dentro delas/faz do impossível já/seu caminhar...), o assunto não merece comentários adicionais. O que talvez mereça alguma coisa é a declaração com que a senhora justificou a recusa da cerimónia alusiva ao prémio (mas não o prémio: o cheque segue no correio): "os portugueses é que mandam no país." Quais portugueses? Os 2 159 742 que, há cerca de um ano, depositaram o partido do dr. Passos Coelho no Governo? Os 300 mil (ou 400 mil, se quiserem) que marcharam contra as alterações na TSU? Provavelmente, dadas as saudades de 1975, as 200 alminhas que se reúnem em "assembleias populares" aqui e ali? Ou uma dúzia de amigos da dona Maria Teresa? Engraçado. As luminárias de uma certa "cultura", que a dona Maria Teresa representa com propriedade, são sempre avessas ao poder, logo que este seja eleito, e indiferentes ao público, logo que este seja livre. Em compensação, adoram o "povo", logo que este não passe de uma alucinação abstracta, repleta de multidões sedentas de consumir os subprodutos engendrados pelas luminárias. Num lugar menos exótico, o primeiro-ministro é que recusaria a proximidade com gente assim. Pior não há.»


 


Alberto Gonçalves, DN

22.9.12

Coordenações

Pedro Santana Lopes recorda aqui o coordenador geral da AD de 1979-1980, o saudoso Francisco Lucas Pires, a propósito do recém instituído "conselho para a coordenação da coligação" (a designação podia ter sido mais feliz). E acrescenta que «esta nova entidade pode ser útil, se bem gerida e, nas actuais circunstâncias, se dispensar presidências» pois «quanto mais informal, melhor.» Tem razão. A coordenação política do governo é outra coisa.

O país das maravilhas


 


Uma forte dor de garganta reteve-me a contemplar as televisões durante a primeira noite, quente, de Outono. Com o Facebook ligado, aproveitei para "registar" o que ia vendo e ouvindo. Fica aqui por ordem cronológica:


 


 


A anónima Helena Roseta voltou a aparecer na arruaça - chamar vigília a uma arruaça é um tropismo curioso - que decorre em frente ao Palácio de Belém. Com um ridículo capacete bicicleteiro, Roseta falou pelo "nós" da arruaça como se não pertencesse ininterruptamente ao regime desde 1974. Bardamerda.




As televisões, essas extraordinárias "escolas da moral e religião" correctas, conseguem sempre a proeza de se "manifestarem" mais do que qualquer manifestação. É o chamado milagre da multiplicação dos manifestantes no meio de meia dúzia deles, sem grandes planos não vá o espectador ficar com más ideias.




As forças policiais democráticas têm uma paciência notável diante de labregos disfarçados de cidadãos.




O Expresso da meia noite podia decorrer nos jardins de Belém que não se dava pela diferença.




A Dona Flor Pedroso parece estar com saudades dos tempos em que apresentava biografias de "meninos de oiro" exilados em Paris.




Quando Peter Sloterdijk definiu o grosso da comunicação social - pela qual tenho respeito mas jamais temor reverencial - como a "vociferante matilha do espectáculo", nunca esteve tão certo.




O José Adelino Maltez não há meio de largar a Rotunda do 5 de Outubro. Mesmo depois do António Costa ter arranjado duas, ele permanece agarrado intelectualmente ao armamento de 1910 cujo desfecho, como se sabe, foi radioso. É a política enquanto miosótis.




As pessoas que estão no Expresso da meia noite deviam dobrar a língua ao falar do General Ramalho Eanes. Não têm altura para ele.




A Dona F. Pedroso até se louva na D. Heloísa Apolónia e "evidentemente que a remodelação já devia ter acontecido", sic. Como dizem os espanhóis, alimenta os corvos que eles te comerão os olhos.




A forma como o director do Expresso termina invariavelmente o da meia noite, anunciando com gravidade "temos de ir à 1ª página do Expresso", parece que vai lançar uma Fatwa sobre os espectadores, em particular, e sobre o país, em geral.

21.9.12

Sentido de Estado democrático

Uma vez mais as forças policiais da democracia demonstram uma notável paciência, também democrática, perante labregos puros a fingir de cidadãos.

"Espírito Pinheiro de Azevedo"

Ir para casa ler

Todos os dias







«Cada português pode imaginar o que é que sucederia a Portugal, país que depende enormemente, todos os dias, do financiamento das instituições internacionais para o desempenho das funções do Estado, para o funcionamento das empresas e dos bancos, se juntássemos a essa situação uma crise política.»


 


Cavaco Silva, Évora, 21.9.12

20.9.12

O nosso transe


 


De acordo com o calendário, o Verão chegou ao fim. Não foi famoso. A água do mar mais fria do que o costume, as pessoas de uma forma geral mais parvas do que o costume, a indiferença mais indiferente do que o costume. Medeiros Ferreira arranjou em tempos um termo adequado para isto, embora aplicado a  Portugal - transe. Mesmo Portugal, neste final de Verão, está positivamente em transe. Começa, apesar do calor e do sol, o entardecer da terra de que falava Pessoa. Em inglês, Philip Roth conta em duas linhas esse "entardecer". O nosso. «Daylight, he thought, penetrating everywhere, day after summer day of that daylight blazing off a living sea, an optical treasure so vast and valuable that he could have been peering through the jeweler's loupe engraved with his father's initials at the perfect, priceless planet itself - at his home, the billion -, the trillion-, the quadrillion-carat planet Earth! He went under feeling far from felled, anything but doomed, eager yet again to be fulfilled, but nonetheless, he never woke up.(...) He was no more, freed from being, entering into nowhere without even knowing it.»

A saga de um pobre país


 


O acrisolado amor dos portugueses pelo futebol tem-lhes sido devolvido em horas e horas de bola - na versão bola propriamente dita e nos debates "profundos" que se seguem - pelos canais de notícias, no cabo, das três televisões generalistas. Confesso que nunca imaginei que o futebol merecesse tanto empenho linguístico, tanto "saber", em suma, tanta conversa de chacha. Pobre país.

A "coerência" vai pelo correio

«O presidente da Fundação Casa de Mateus, Fernando Albuquerque, decidiu cancelar definitivamente a sessão de entrega do Prémio D. Dinis: "Não haverá cerimónia solene." Fernando Albuquerque adiantou que Maria Teresa Horta, a autora premiada pelo romance 'As Luzes de Leonor', receberá o cheque em casa e fica encerrado o caso.» (a propósito disto).

Grandeza

19.9.12

Boa noite e boa sorte

Tenho pena que o único gestor que apareça publicamente a defender a famosa "medida tsu", na "pureza" da sua enunciação inicial, seja o dr. Mexia da edp. Feitas as contas, são de facto empresas como a edp as que mais "lucram" com a "medida" tal como ela foi apresentada. Enquanto os representantes do mundo do trabalho e do mundo empresarial domésticos surgem praticamente "unidos" na discussão do assunto, Mexia, como provavelmente lhe compete, é a evidência prática da "excepção" que a edp é, foi e será. Eu não aprecio mas admito que haja quem aprecie. Boa noite e boa sorte.

Coisas que interessam

O Estado colocou 1.291 milhões de dívida em Bilhetes do Tesouro, na linha com maturidade a 18 meses, a segunda vez que o faz com este prazo. Na operação com o prazo mais longo, o juro baixou consideravelmente face ao último (e primeiro) leilão com prazo semelhante, realizado a 4 de Abril, conseguindo-se agora uma taxa de juro média de 2,967% quando, nessa altura, havia sido de 4,537 %. No prazo mais curto, a seis meses, Portugal colocou 709 milhões de euros, pagando uma taxa de juro de 1,7 %, contra os 2,292 % registados na última operação com prazo semelhante efectauda em Julho último. Uma operação bem sucedida de emissão de dívida por contraposição à emissão de barulhos despropositados ainda em curso.


 

18.9.12

Um Soares lamentável

Mário Soares anda lastimável como democrata. Torna irreconhecível o Mário Soares de 1974, 1975, 1976, 1977, 1978, 1983, 1984, 1985, 1986 a 1996 e, mesmo, o candidato a eurodeputado de 1999. O Mário Soares de 2005 já era uma sombra dos outros todos e, por isso, o eleitorado reduziu a sua recandidatura presidencial a uns humilhantes treze por cento. Até Alegre o derrotou. Em 2012, um "novo" Soares manifesta-se a favor de um governo que derrube o actual sem eleições. O essencial, diz ele, é acabar com o que está seja lá como for. Um antigo primeiro-ministro de Portugal, um antigo Chefe de Estado de Portugal devia ser maior do que isto que nem o mais obtuso comentadeiro ou escrevinhador se atreve a prodigalizar. Assim, vale a pena recordar o Mário Soares de 1984, então primeiro-ministro, quando dizia na Gulbenkian (eu estava lá, no Grande Auditório, e ouvi) que o governo deve «recomeçar, pacientemente, quantas vezes forem necessárias, tomar decisões, não se deixar perturbar por agressões verbais, por incompreensões ou por injustiças, aguentar de pé.» Onde pára este Soares?

"Coerência"

Anda por aí a ser apresentado como um acto de "coerência" - o que já motivou uma corrida inusitada às lojas de conveniência para comprar lencinhos de papel para enxugar as competentes lágrimas - a circunstância de Maria Teresa Horta ter recusado receber um prémio literário das mãos do primeiro-ministro. A "coerência" foi acompanhada de um panfleto enviado para as redacções digno da literacia de um Vasco Lourenço. O ponto, todavia, não é esse. Horta não recusa evidentemente o prémio como, por exemplo, Sartre recusou o Nobel que não era propriamente uma pechincha. O que ela recusa é as mãos que supostamente lhe iam entregar o prémio. "Coerência" seria recusar tudo. Mas isso era exigir à paróquia uma altura que não existe.

Uma renovação cultural

«Estabilidade política. É exigida pela própria natureza da democracia e da responsabilidade dos seus actores, requerendo a busca permanente do maior consenso social e político. Numa democracia adulta, as “crises políticas” deverão ser sempre excepção. Em momentos críticos, podem comprometer soluções e atrasar dinamismos na sua busca. Todos sabemos que, para superar as presentes dificuldades, não existem muitos caminhos de solução. Compete aos políticos escolhê-los, estudá-los e apresentá-los com sabedoria. Respeito pela verdade. O discurso público tem de respeitar a verdade do dinamismo das situações e da procura de soluções.(...) A superação da crise supõe uma renovação cultural»


 


Conferência Episcopal Portuguesa

17.9.12

A realidade é seca

Estava a observar a "nova" Gabriela. Um diálogo entre o Coronel Ramiro Bastos, o intendente quase eterno de Ilhéus, e uma puta, a Zarolha. Ramiro quer impedir as "mulheres-damas" de participar numa procissão que ele pediu ao padre e às senhoras piedosas para ver se chove. O sonho da Zarolha e das "meninas" é colocar um manto bordado por elas no altar de Santa Maria Madalena. Ramiro gostou da coragem da Zarolha e do seu sonho. "Também tive sonhos, mas troquei-os pela realidade", disse-lhe o velho Coronel. E, acrescentou, "a realidade é seca". É.

Sentido de Estado



Adequadamente assegurado no "15 de Setembro".

Capuchices

Capucho - o homem que em Maio de 1985 acreditava tão convictamente na proto liderança de João Salgueiro (outra alma penada que, volta não volta, nos brinda com a sua melancolia) que, em pleno congresso da Figueira da Foz, acabou "naturalmente" a aclamar Cavaco - nunca perdoou a Passos Coelho não sei bem o quê. A presidência da AR? A cadeirinha no Conselho de Estado? Não interessa. O que interessa é Capucho sonhar-se subtil e, por consequência, indispensável à pátria. Estagia quase diariamente em todas as televisões onde derrama o seu clarividente e "karambático" saber. Oferece ao mesmo Passos que execra os seus préstimos autárquicos, em directo e a cores, onde quer que seja, do Pico à Buraca, sem um átomo de vergonha. Finalmente parece que também não se importaria de integrar um putativo "governo de salvação nacional", sem Passos evidentemente, não sei bem em que qualidade mas nunca menos que qualquer coisa "de Estado" que é o que concorda com o seu embotamento nulo. Coisas como Capuchos só são possíveis porque o regime, e em particular o PSD, não aprendeu nada. É dar-lhe com a competente estátua do comendador. Em cima. 

16.9.12

Grandeza

Pobre país

Ainda não passaram 24 horas sobre a minha sugestão para a realização de uns "estados gerais" da maioria com independentes para revisão geral da matéria e do vocabulário, quando assisto, afinal, ao anúncio da abertura de uns "jogos florais" entre o PSD e o CDS (que é, aliás, o que estava a fazer mais falta ao país) depois do pronunciamento, substancialmente correcto, do dr. Portas. Como dizia o outro (vão lá ver quando e em que circunstâncias ele o escreveu), pobre país.

O Criador e as criaturas

Portugal - sempre naquela ânsia pirosamente periférica de imitar toda a gente - já arranjou um "7 de Setembro" e um "15 de Setembro". Com alguma generosidade, até podíamos arranjar um "16 de Setembro", dia da enunciação do dr. Paulo Portas e de uma entrevista gravada em Marte pelo dr. Seguro, um "17 de Setembro" e um "19 de Setembro", dias da enunciação do PSD face ao "16 de Setembro" e, finalmente, um "21 de Setembro", dia da prova oral extraordinária do dr. Gaspar perante o Conselho de Estado. Talvez não cheguem todos os trinta dias de Setembro para tanta coisa e tanta "originalidade". Valha-nos este maravilhoso fim de verão, pura obra do Criador cujos dias felizmente são todos os dias. Ámen.

15.9.12

Libertar do jargão


 


É importante realizar uma espécie de "estados gerais" da maioria que juntasse o PSD, o CDS e independentes. O Presidente convocou, e bem, o seu, o de Estado. Mas a maioria tem o dever indeclinável de redescrever politicamente a sua, como agora se diz, "narrativa" em fase de elaboração do orçamento para 2013, com novas medidas (discutíveis) anunciadas, perante as conclusões da 5ª avaliação da "troika" e por causa da Europa. A realidade é sempre mais rica e complexa do que qualquer "modelo" mais ou menos académico. E a política serve precisamente para debater isso - para prosseguir a conversa, e não para a fechar, que é uma bela ideia dos filósofos pragmatistas norte-americanos. Se alguma coisa boa resultou dos ruídos, falados ou silenciosos, dos últimos dias é que esta maioria democrática não é apologista do pensamento único. Encontrar-se consigo mesma, encontrar-se com o país e encontrar-se com alguns daqueles que, das esquerdas e das direitas ou independentes sem partido, possuem pensamento próprio, só pode fazer bem à coligação e ao governo. A maioria, parafraseando Harold Bloom, precisa libertar-se do jargão.

O resumo

O Fado Alexandrino explica como um hebdomadário pode, numa só edição, resumir a língua de pau dos donos do regime. E quem se atreve a tentar mudar isso, corre risco quase de vida.

Sous les pavés, o Guincho


 


Depois de umas boas horas de praia, ligo a televisão. Reparo que as televisões "estão" nas manifestações - ou seja, não se limitam a cobrir os eventos com dezenas de recursos no terreno e no ar - e não vejo nenhum jornalista perguntar aos manifestantes do "que se lixe a troika" se têm noção que é a "troika" quem garante o pagamento dos salários e das pensões ao grosso dos referidos manifestantes (não me refiro ao pessoal circense sempre de serviço). Sem a "troika", daqui a uma semana ninguém - pelo menos os funcionários públicos e os trabalhadores do sector empresarial em que o Estado é accionista maioritário - receberia o seu vencimento ou pensão.  A RTP, por exemplo, não teria meios para colocar treze (13) equipas "no terreno" com tudo (e todos) o que isso implica. Espero que nenhum dos responsáveis pela falência do país tenha a pouca vergonha de aparecer na rua como se tivesse nascido apenas no último ano. Fora isso, estejam à vontade. Sous les pavés, la plage. A do Guincho

13.9.12

Impressiva e instrutiva

A entrevista do Primeiro-Ministro. Previsível e mandatória a declaração de Seguro. A vida continua.

É o fim da estação


 


«Agora a praia está deserta.(...) Memória do que morreu, subtil, do que vibrou - e a indiferença da terra, da luz. Do mar. (...) Ao longo da praia o mar bate na areia em breves ondas de espuma. É um mar de brinquedo e as crianças sabem-no. Metem-se com ele como com um cão velho, ele deixa - de quando estou a falar? Os últimos banhistas desapareceram atrás das arribas, agora estou só. (...) Depois, o silêncio a toda a extensão da areia, alguns bancos, a estacaria dos toldos ao sol, é o fim da estação.»


 


Vergílio Ferreira, Nítido Nulo, Portugália Editora, 1971

Agnotologia






«O economês/financês tornou-se a mais resistente forma de ignorância contemporânea sobre as pessoas, a sociedade e o mundo. Devia, por isso,  ser estudado pela "agnotologia", essa recente disciplina criada por Robert N. Proctor, da Universidade de Stanford, para estudar a ignorância, entendida esta não como algo destinado a ser superado, mas como algo de intencionalmente fabricado, produzido com a devotada colaboração de diversas formas de informação e de conhecimento. É por isso urgente questionar seriamente, e em todas as dimensões, esta disciplina e os seus dogmas, com o objectivo de quebrar a arrogante ortodoxia que a estrutura, e de introduzir um verdadeiro pluralismo no seu interior, nas suas abordagens e nas suas propostas.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN


 


Foto: "Caixa" que reúne, em dois volumes e em sequência cronológica, os vinte livros publicados por Manuel Maria Carrilho no decurso das últimas três décadas (1982-2012) e que estará mas livrarias a partir de 27 de Setembro (Grácio Editor)

Ironias e cansaços


 


Há dias, a propósito da anunciada colaboração de Manuela Ferreira Leite no blogue 4ª República, escrevi que Ferreira Leite foi a minha escolha para primeiro-ministro, em 2009, e que esse era melhor elogio que lhe podia fazer. Não deixa, pois, de haver "nos olhos meus ironias e cansaços" (José Régio) quando, de televisões a jornais, passando pelas inevitáveis "redes sociais", Ferreira Leite emerge hoje como a "heroína" de alguns farsolas irresponsáveis que, apenas há três anos, preferiram deixar ficar Sócrates com os resultados que se conhecem. Ferreira Leite, em Setembro de 2009, confrontou o país com uma verdade que ele recusou ouvir. Talvez não fosse mau escutá-la, de novo, com atenção.

As coisas são o que são

A gloriosa "primavera árabe" - em bom rigor, tantas quantos os países em causa -, tão acarinhada nos clarividentes corredores diplomáticos ocidentais, em alguma opinião que se publica e nas "redes sociais", já custou a vida a um alto funcionário norte-americano. Não saber nada de história e imaginar que a democracia e a civilização podem exportar-se para todo o lado, dá nisto. As coisas são o que são.

12.9.12

Atentamente

Estive a ver e a ouvir Manuela Ferreira Leite na tvi24. Atentamente.

Mães e patriotismo

A minha mãe é pensionista, aposentada da função pública onde cumpriu - com um inexcedível brio profissional que nunca terei - as suas funções durante mais de trinta e muitos anos. Quando chega a factura do IRS - que este ano foi antecipada um mês -, uma vez que a CGA não lhe faz a retenção na fonte por qualquer razão misteriosa mas que, todavia, permite que a pensão não fique mais ridícula do que já é, no dia seguinte ela vai ao serviço de finanças requerer o pagamento do imposto em prestações. Andamos (ando eu porque, evidentemente, não a deixo ficar sem dinheiro) nisto até Março. Pela minha parte, costumava ser reembolsado em qualquer coisa insignificante e, desde o ano transacto, pago a dobrar ou a triplicar o equivalente que vinha no reembolso. É o resultado das mudanças nas alíneas obscuras do Código do IRS que são introduzidas através do Orçamento de Estado. Mesmo que o imposto não aumente directamente (como vai aumentar com a "compressão" dos escalões), ele acaba sempre por aumentar de outras maneiras a partir do momento em que se "mexe" na despesa fiscal, nos detalhes onde normalmente o chamado diabo está. A minha mãe não dispõe de um blogue ou de outro qualquer instrumento em redes sociais para desabafar e, presumo, o mesmo sucede com a larga maioria dos pensionistas e aposentados que auferem menos que o plafond ontem referenciado que sofrerá um corte adicional ao que já tem entre os 3,5 e os 10%. Esta larga maioria não tem outras fontes de rendimento da mesma forma que não tem quaisquer outras vias de "pronunciamento" enquanto assiste, indemne, ao puxar do seu final de vida para baixo. Esta conversa não é nem fashion nem cínica. Não há alternativa à austeridade como insinuam os sonsos e os prosélitos. O que existe é alternativas "na" austeridade que não esmaguem a economia e que, simultaneamente, favoreçam os "negócios", domésticos ou estrangeiros, de meia dúzia de peralvilhos com ou sem rosto definido. E a despesa pública tem já pouca ou nenhuma  margem social para continuar a ser "cortada" quase fundamentalmente à base das pessoas. A coligação no Governo tem de "crescer" para a nação (para a não perder) e não enredar-se em solipsismos mesquinhos e em tacticismos caprichistas de carácter paroquial que só interessam aos parasitas das crises. Isto é, numa palavra, patriotismo. O resto, a maioria silenciosa onde a minha mãe se encontra, não entende nem está interessada em entender.

11.9.12

A conclusão de Alexandre Herculano

Como, nas derradeiras palavras de Herculano - um indisputável patriota - antes do evento terminal propriamente dito, "isto dá vontade de morrer", aproveito os finais da tarde para mergulhar no Guincho. Por consequência, perco - perderei alguma coisa? - os telejornais. No da tvi passou Medina Carreira segundo percebo aqui. Medina é um dos pessimistas que mais prezo dentro do princípio que desconfio estruturalmente de optimistas e de farsantes que é uma modalidade espertalhona dos optimistas. O regime não aprecia Medina, como lhe compete, o que, aliás, Medina devolve na mesma moeda. Mas parece que sugeriu uma coisa pesadamente óbvia: «atacar a sério as PPPs, as autarquias, as rendas do sector eléctrico, enfim, todo um conjunto de interesses instalados que têm passado quase incólumes face ao que está a suportar e vai continuar a suportar o grosso da população.» Julgo que não desejamos uma maioria silenciosa a chegar à mesma conclusão de Alexandre Herculano.

Funcionar

 



 






«The test of a first-rate intelligence is the ability to hold two opposed ideas in the mind at the same time, and still retain the ability to function. One should, for example, be able to see that things are hopeless and yet be determined to make them otherwise.»


 


F. Scott Fitzgerald, The Crack-Up

10.9.12

Etecetera e tal

Sem noção

As viúvas, os viúvos e os cristãos-novos daquela magnífica "tese" de que "o dinheiro aparece sempre" ainda não perceberam que ele não só não aparece sempre como pode mesmo deixar de aparecer. Não, ainda não saímos da emergência em que a referida "tese" nos meteu. E não é com bravatas à la prec que vamos sair tão depressa. Ou, como se diz aqui, grassa o sem noção.

9.9.12

Pastoral portuguesa


 


Depois de duas horas dentro do mar do Guincho - com leves intermitências para ver as ditas horas -, olho para os jornais. Um deles, o Público, há muito que deseja ser a "Enciclopédia" dos media escritos pelo que trocou o jornalismo (coisas triviais como notícias, etc.) por "teses" (a diferença em relação ao Expresso, outro pretendente "enciclopédico", é que no Público escrevem em português). Página sim, página não, o Público divulga meritoriamente as "teses" de umas quantas pessoas sobre uma série indeterminada de temas, embora nos últimos dias a RTP e o Rui Ramos tenham merecido particular atenção, a primeira com uma manchete parva a meio da semana quando foi conhecido o nome do seu presidente. Pacheco Pereira não conta neste género de dispositivo porque ele próprio "é" o dispositivo e a sua única "tese". Apesar desta parafernália, leio o Público todos os dias (o meu ler jornais é coisa rápida porque a previsibilidade merece-me um átomo de atenção) e atendo o telefone a qualquer um dos seus profissionais quando me procuram. Agora, por causa de um evento conspícuo, as "teses" correm todas no sentido único de tentar interpretar o primeiro-ministro. Neste exercício, até o primeiro-ministro se interpretou a si mesmo no facebook para o que recorreu ao último título de Sousa Tavares, "a história não acaba assim" - «esta história não acaba assim. Não baixaremos os braços até o trabalho estar feito, e nunca esqueceremos que os nossos filhos nos estão a ver, e que é por eles e para eles que continuaremos, hoje, amanhã e enquanto for necessário, a sacrificar tanto para recuperar um Portugal onde eles não precisarão de o fazer.» A minha "tese" - como não tenho filhos e, por consequência, "contribuo", e não é pouco, para sustentar os filhos dos outros - é que mal andaria o país se os ditos filhos viessem a perder a noção de sacrifício e, sobretudo, a noção "do" sacrifício que as gerações presente e preteritamente activas estão a fazer . O Keynes - de que gosto menos pela "teoria" do que por outros escritos dele - lembrou que oportunamente estaremos todos mortos o que convém ter sempre presente em qualquer tentativa doutrinária ou "ideológica" em torno de inevitabilidades. Isto para regressar à tese das "teses", as do catastrofismo e do anti-catastrofismo vigentes que, confesso, não me estimulam nada. Ofereço para a troca os primeiros versos de Lycidas, de Milton, em que o poeta se dirige, não a pessoas, mas a árvores. É por isso, aliás, que um poema é um mundo, enorme, sem exterior que dura até para além das árvores que declina. É, na realidade, a do poema, a única "história" que nunca acaba. Nem assim, nem assado.


 


Yet once more, O ye laurels, and once more

Ye myrtles brown, with ivy never sere,

I come to pluck your berries harsh and crude,

And with forc'd fingers rude

Shatter your leaves before the mellowing year.

Bitter constraint and sad occasion dear

Compels me to disturb your season due;

For Lycidas is dead, dead ere his prime,

Young Lycidas, and hath not left his peer.

Who would not sing for Lycidas? he knew

Himself to sing, and build the lofty rhyme.

He must not float upon his wat'ry bier

Unwept, and welter to the parching wind,

Without the meed of some melodious tear.

8.9.12

Uma desgraça nunca vem só

O Expresso informa-nos que há em Portugal um milhão de analfabetos. Decerto a cifra não inclui analfabetos funcionais, imbecis superficiais e imbecis profundos. Uma autêntica "população" infinitamente mais perigosa que a desgraçada fatia do milhão.

Nem louvor nem simplificação

Não consigo escrever uma linha "em louvor e simplificação" das medidas anunciadas em relação aos trabalhadores por conta de outros. Mas a limitação é evidentemente minha. Fica guardada - a linha - para outras coisas com "simplificação" anunciada tais como fundações, institutos, observatórios, parcerias, rendas, combustíveis, empresas públicas, etc., etc.

7.9.12

Ela é que sabia


 


O restaurante na outra esquina, recentemente remodelado, com dois andares, duas salas em baixo, uma grande no primeiro piso e um "avançado", estava cheio quando cheguei a casa. À porta, grupos aguardavam a sua vez. A esta hora continua cheio. Pelos vistos é como dizia a outra, a fungar: "after all, tomorrow is another day".


 


Animação: atomyc.tumblr.com

Os fins do argumento

Com o fim das férias, os comentadeiros regressaram aos jornais e às televisões. E com eles regressaram os chamados fins do argumento. Fundamentalmente os referidos fins são monotemáticos apenas variando em função do emissor que, em geral, não tem afinidades com a autoridade política (e o consequente poder) representada pelo actual chefe do governo. Isto quer dizer que sobreleva na qualidade do emissor (até pode ser de "direita") o fim do argumento (dele) e não uma atribuição, isenta, de intenções àquele que é objecto do argumento. Neste sentido, o flanco da autoridade representada pelo primeiro-ministro está desvalido. Do outro lado, pessoas provavelmente informadas, para não prejudicar o fim do seu argumento - bater no ceguinho metafórico personificado em duas ou três pessoas concretas do elenco governativo -, fazem tábua rasa da informação que eventualmente possuem, e que até pode coincidir com a verdade, com uma língua (e cara) de pau digna da Feira da Luz. Marques Mendes tem, pois, razão quando na tvi24 afirma que falta pedagogia e combate políticos por parte daqueles que podem (e devem) secundar a autoridade representada pelo primeiro-ministro no meio político que, na paróquia, pouco se distingue do meio comentadeiro. No fundo, o cenário em causa pode ser ilustrado por esta história de Palmerston sobre o "affair Schleswig-Holstein" por alturas de 1863. «There are only three men who have ever understood it—one was Prince Albert, who is dead; the second was a German professor, who became mad. I am the third—and I have forgotten all about it.» Entre mortos, loucos e "esquecidos", os fins do argumento lá vão fazendo o seu caminho pela mão dos prosélitos de sempre.

6.9.12

Um tratado simbólico


 


«Um desenho que ilustra as actividades do Manifesto em Defesa da Cultura é todo um tratado simbólico do pensamento sobre a "coisa". Há dois glutões armados de dentes e ferrões, com vários olhos, que atacam uma menina indefesa que cai de alto, com os seus longos cabelos, a dita "cultura". "Acorrei que matam a cultura!!!", nem mais nem menos do que com três pontos de exclamação. O texto do Manifesto de Dezembro de 2011 revela bem a imbricação desta "cultura" com a burocracia governamental, nele se refere o PRACE, o PREMAC, o INOVART, o ICA, a DG Artes, todos os acrónimos usados com o à-vontade de quem conhece bem estes meandros do Estado. O Manifesto é um longo e palavroso exercício dominado pelo dinheiro "não mercantil", ou seja, o do Estado, o célebre 1% no Orçamento para a "cultura". Dinheiro e o modo burocrático como é concedido são as preocupações fundamentais: "Destruição e perversão do princípio de serviço público; estrangulamento financeiro; desmantelamento, redução e desqualificação de serviços; centralização e agregação burocrática de instituições; mercantilização: as políticas de agressão à Cultura seguidas pelos últimos governos criaram uma situação insustentável". A preocupação não se afasta nunca do Estado. Repare-se que não se trata de uma queixa contra a censura, contra perseguições a artistas individuais pelo que fazem ou dizem, mas uma queixa geral sobre a falta de encomendas: ""Austeridade" na cultura não destrói só o que existe, destrói o que fica impedido de existir". E o que "fica impedido de existir" é, entre outras coisas, "a criação contemporânea". O que temem é uma "área cultural (...) inteiramente colonizada, sem alternativa, pelos produtos mercantis, rotineiros e homogeneizadores das indústrias culturais". Dono por dono, preferem o Estado e os governos.»


 


José Pacheco Pereira, Revista Sábado

5.9.12

Soares em Almada






Lamentável este "momento comício de Almada de Vasco Gonçalves dos últimos dias" do dr. Soares. Então o dr. Soares, ao fim destes anos todos de pedagogia democrática, acha que os governos eleitos não devem cumprir os seus programas? Também anda a disputar algum terceiro lugar honorário na futura liderança bloquista?

4.9.12

Pensar

Em relação ao (pouco) debate sobre serviço público de conteúdos televisivos - que não pode ser confundido, como tem estado a ser, com a empresa a quem ele foi concessionado -, e como sou insuspeito em relação à jornalista em causa, Fátima Campos Ferreira está a dar um bom exemplo do que são, por exemplo, esses conteúdos com a "edição especial" que passa a seguir ao Telejornal da RTP1. Isto nada tem a ver com os entrevistados. Tem a ver com a ideia subjacente aos programas. Pensar, de facto, nunca faz mal a ninguém.

«Sôdade»?

Mesmo pessoas inteligentes como Paulo Rangel têm os seus momentos de fraqueza. Num artigo no Público, Rangel recorre a algum populismo infantil para explicar as suas posições sobre o debate em torno da RTP. Pega em coisas como "mobília" e "família" para concluir que a RTP "é como se fosse da família" e, por consequência, não se pode "mexer" na família ao contrário da "mobília" relativamente à qual sempre se pode mudar alguma coisinha (para que tudo fique na mesma). Este artiguinho a preto e branco - Rangel tem todo o direito a ser contra a privatização da RTP, mesmo que seja de parte da "mobília" dela, como é claro - foi bem resumido num mail que um amigo me remeteu sobre ele: «Se têm saudades do passado, vão ao álbum de fotografias de família. Saudades de quê? De que programas concretos? De que programas de "variedades" com "corpo de baile"? De que documentários?»

A necessidade de um rijo instinto






«Numa crise destas, de que o económico-financeiro é apenas um espelho negro, o país precisa dum pacto patriótico com um rijo instinto de salvaguarda, que a esquerda, fixada no aqui e agora tudo, não consegue interpretar devidamente, porque lhe falta o sentido nacional de uma comunidade muito antiga que não pode acabar. O que precisamos é de conversar e de criar uma base de entendimento em que todos «trabalham» para defender o país, como se vivêssemos um pós-guerra de que é preciso renascer. Temos ao lado a Espanha que nos dá um exemplo já secular disso mas nem sequer esse vemos. Vai ser duro, vai ser feroz, vai ser demorado, mas sem esse sentido nacional nada se alcançará. A esquerda que entenda isso, se puder!!»


 


Vasco M. Rosa, Corta-Fitas

3.9.12

«Uma obra que ajuda os portugueses a libertarem-se de fantasmas»

Ainda por causa disto, de uma carta do António Barreto no Público: «já não esperava que ainda houvesse demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa.»

A cadeira não está vazia


 


Como costumam dizer, as notícias sobre a "morte" de certas pessoas muitas vezes são manifestamente exageradas. Esta pessoa, em concreto, tem sido cirurgicamente "liquidada" em várias dimensões temporais, desde do "morto do dia" ao "morto da semana". Todavia, como escrevem os insuspeitos Pedro Santos Guerreiro e Fernando Sobral no Jornal de Negócios, «Miguel Relvas é um trabalhador incansável e não se abaterá por causa dos reveses e das críticas contundentes. No Governo continua a ser o número 2.» Estou à vontade quanto às "críticas contundentes", para parafrasear a citação num contexto anterior e para descanso das patrulhas de serviço. E estou ainda mais à vontade quanto ao resto. A cadeira não está vazia.


 


Foto: quadro de Charles Murdock Lucas, 2008

2.9.12

As coisinhas e os coisinhos






No fundo, no fundo, o "ideal" era clonar o país tal como estava em Junho de 2011, com as suas coisinhas e os seus coisinhos indemnes, guardar o clone e plantá-lo entre o Atlântico e a fronteira espanhola depois de cumprido o acordado com a UE e o FMI. Boa noite e boa sorte.




Foto: Dali, 1929, O Grande Masturbador

Nunca há um centro

Almoçava para o tarde e reparava no inevitável plasma "pendurado" num canto do restaurante. Anunciava - o canal era a SIC - para dia 10, de amanhã a oito dias, o "regresso" de Gabriela, a telenovela baseada no romance homónimo de Jorge Amado. A primeira Gabriela passou na RTP (não havia mais nenhuma) nos idos de 1977, a preto e branco. Espalhou-se o mito da paragem obrigatória do país, político incluído, para assistir aos episódios então protagonizados por Sónia Braga. Talvez fosse verdade. Com as novas "plataformas" de acesso, a televisão é uma coisa que se pode ver, até, no duche e, cabo incluído, com alguns duzentos canais à escolha. Na altura o monopólio pertencia a dois canais concessionados à RTP e Gabriela "passava", lânguida, entre segunda e sexta, a seguir ao telejornal no "canal 1". Esses trinta a quarenta e cinco minutos justificavam um serão o que hoje dificilmente se pode compreender à luz do que acontece na RTP1 depois do telejornal. Na prática, o serviço público prestado pela RTP1 em horário nobre, salvo um dia ou outro, "pára" no telejornal por volta das nove da noite. Mas não era da RTP que me apetecia falar. Era de Gabriela ou do que ela denota enquanto tempo imóvel imperceptivelmente perdido - "le temps perdu", literalmente, entre a adolescência e o agora. Para o efeito colho ajuda nas palavras de Marguerite Duras, em O Amante, na tradução portuguesa de Luísa Costa Gomes e Piedade Ferreira. «A história da minha vida não existe. Isso não existe. Nunca há um centro. Não há caminho, nem linha. Há vastos lugares onde se faz crer que havia alguém, não é verdade, não havia ninguém. (...) Nunca fiz nada senão esperar diante da porta fechada.»

Realismo e modéstia


 


Estava a ouvir o dr. Seguro em Évora e ocorreu-me Vasco Pulido Valente no Público: «Portugal não precisa de palavras. Precisa de realismo e modéstia.»

1.9.12

Não cair na tentação

«A ministra da Justiça disse ainda que quando se fala na reforma do Estado e em cortes de estruturas da administração não se pode também "cair na tentação de decapitar constantemente aquilo que é a massa crítica que existe na administração pública em detrimento do sector privado". «Está por provar que o sector privado, ao contrário do que se diz muitas vezes, tenha maior eficiência que o sector público. Temos áreas de negócio onde isso é patente.»


 


Paula Teixeira da Cruz, via tsf (na universidade de verão da JSD)

A deturpação de um livro

Num país que geralmente não aprecia polémicas por causa do "respeitinho" - uma doença infantil que ataca indiferentemente as esquerdas e as direitas e que surge associada a défices sinápticos irremediáveis -, a relativa à História de Portugal coordenada por Rui Ramos, suscitada por uma absurdidade em letra de forma prodigalizada por uma pessoa que escreve quinzenalmente no jornal Público, evidencia perfeitamente que a estafada "reforma das mentalidades" tão cara, por exemplo, aos "seareiros" ou a quatro quintos do pessoal deste regime, nunca passou de uma bravata retórica sem grandes consequências. A coisa teve desenvolvimentos e Rui Ramos não pôde deixar sem resposta a atoarda loffica. Algures esta semana, o quinzenal "historiador" replicou mas não tive pachorra para ler aquilo ou o antecedente. Todavia, e indo ao socorro da História propriamente dita (cuja entrada nos textos de Loff não tem lugar), Maria Filomena Mónica, espero, colocou um belo ponto final na coisa no Público de hoje. «Basta ver o que diz sobre as liberdades fundamentais na I República e a mistura que faz entre Salazarismo, Fascismo italiano e Nazismo alemão para se constatar o que vai naquela cabeça. Se fosse apenas estúpido, não estaria a escrever este artigo. A coisa é pior. Loff é um fanático que só concebe duas espécies de filiação ideológica: o comunismo e o fascismo. Uma vez que Rui Ramos não é comunista, aquele deduz ser ele "um empenhado relativizador da leitura histórica da ditadura salazarista." Relativizador? Mas que diabo quer isto significar? Rui Ramos teria ainda cometido o pecado de "desmontar a natureza ditatorial do Estado Novo", uma frase com um sentido inverso ao que ele imagina possuir. (...) Não se trata de uma polémica entre historiadores, um de esquerda e outro de direita, mas da deturpação de um livro.»

Aconteceu no oeste


 


Leio no suplemento Actual do Expresso - sim, às vezes, em algum dos suplementos do Expresso lê-se informação interessante - que um canal de tv no cabo, em "alta definição, passa amanhã à tarde o filme Once Upon the Time in the West, de Sergio Leone, de 1968. Claudia Cardinale, Henry Fonda, Jason Robards e Charles Bronson são os protagonistas desta espécie de grande ópera em forma de película. Bronson encarna a personagem "Harmonica". Fala pouco, tem uma excelente memória, toca um pequena gaita de beiços e é extremamente eficaz, discreto e eficiente naquilo que tem a fazer. A não  perder ou a rever este "aconteceu no oeste".