31.10.11

A ELEGANTE MECÂNICA DAS DESCULPAS


«En París las librerías siguen siendo librerías. La semana pasada llovía y soplaba un viento frío en el bulevar Montparnasse y me refugié en la Tschann, y de inmediato me sumergí en una calma envolvente, rodeado de libros de todo el mundo y de las eternas revistas literarias francesas de siempre. Lo mejor de esos lugares de París es que en ellos no puedes dar ni un paso. En la librería Tschann no hay un solo hueco o espacio desperdiciado y las personas están allí tan apretadas que nuestro más inmediato vecino, por ejemplo, es todo un peligro potencial. Casi inmóviles en un espacio mínimo, he visto en más de una ocasión en la Tschann a dos o más personas pugnar al unísono por un mismo libro, y poco después he podido escuchar, con extraordinaria satisfacción íntima, los educados y maravillosos "pardon, pardon" de rigor que siempre me recuerdan que al menos en esa ciudad pervive la elegante mecánica de las disculpas, que no es otra cosa que la constatación de que se ha visto al otro. Pensé por unos instantes: habrá un día en que nadie sepa que una vez existieron lugares que se llamaban librerías.(...) Cuando salí de la librería Tschann, había aparecido el sol y algunos cafés del bulevar lucían magníficos. Me senté en la galería circular de La Rotonde y espié a tres matrimonios mallorquines que desayunaban con sonoro apetito y que, al abandonar el café, no pararon de decir "pardon, pardon" a los camareros, como si sintieran nostalgia de la educación de otros días.»

Enrique Vila-Matas

A ELEGANTE MECÂNICA DAS DESCULPAS


«En París las librerías siguen siendo librerías. La semana pasada llovía y soplaba un viento frío en el bulevar Montparnasse y me refugié en la Tschann, y de inmediato me sumergí en una calma envolvente, rodeado de libros de todo el mundo y de las eternas revistas literarias francesas de siempre. Lo mejor de esos lugares de París es que en ellos no puedes dar ni un paso. En la librería Tschann no hay un solo hueco o espacio desperdiciado y las personas están allí tan apretadas que nuestro más inmediato vecino, por ejemplo, es todo un peligro potencial. Casi inmóviles en un espacio mínimo, he visto en más de una ocasión en la Tschann a dos o más personas pugnar al unísono por un mismo libro, y poco después he podido escuchar, con extraordinaria satisfacción íntima, los educados y maravillosos "pardon, pardon" de rigor que siempre me recuerdan que al menos en esa ciudad pervive la elegante mecánica de las disculpas, que no es otra cosa que la constatación de que se ha visto al otro. Pensé por unos instantes: habrá un día en que nadie sepa que una vez existieron lugares que se llamaban librerías.(...) Cuando salí de la librería Tschann, había aparecido el sol y algunos cafés del bulevar lucían magníficos. Me senté en la galería circular de La Rotonde y espié a tres matrimonios mallorquines que desayunaban con sonoro apetito y que, al abandonar el café, no pararon de decir "pardon, pardon" a los camareros, como si sintieran nostalgia de la educación de otros días.»

Enrique Vila-Matas

30.10.11

GRANDEZA OU O ENSINO DA ALTURA



Estava aqui de volta de alguns livros e pego nas Crónicas no Fio do Horizonte, do Eduardo Prado Coelho. Reúne algumas crónicas do Público sob aquele título. Assisti à apresentação do livro (dia 7.10.04: sei-o porque foi no D. Maria e, a seguir, houve a estreia de No Papel da Vítima e o bilhete está dentro do livro) feita pelo José Manuel Fernandes, à altura director do jornal. Gosto muito deste pedaço que contrasta perfeitamente a grandeza declinada no clip com quase tudo (todos) o resto. «Michaux: "Sempre que a gente esquece o que são os homens, caímos na facilidade de lhes querer bem". Felizmente, há os ingénuos. São eles que nos ensinam a altura.»

GRANDEZA OU O ENSINO DA ALTURA



Estava aqui de volta de alguns livros e pego nas Crónicas no Fio do Horizonte, do Eduardo Prado Coelho. Reúne algumas crónicas do Público sob aquele título. Assisti à apresentação do livro (dia 7.10.04: sei-o porque foi no D. Maria e, a seguir, houve a estreia de No Papel da Vítima e o bilhete está dentro do livro) feita pelo José Manuel Fernandes, à altura director do jornal. Gosto muito deste pedaço que contrasta perfeitamente a grandeza declinada no clip com quase tudo (todos) o resto. «Michaux: "Sempre que a gente esquece o que são os homens, caímos na facilidade de lhes querer bem". Felizmente, há os ingénuos. São eles que nos ensinam a altura.»

A IGREJA E O "ESCRITOR"


Leio nos jornais que José Rodrigues dos Santos perpetrou mais uma coisa em forma de livro. Parece que desta vez o homem quer contar a "verdadeira história" da vida de Jesus. Ignoro o título do objecto. Todavia, e perante a "grandeza" do tema, a Igreja portuguesa - cujas manifestações mediáticas raramente se distinguem pela subtileza - decidiu interpelar o ilustre "escritor" e criticou-o em público. Ao fazer isto, a Igreja caiu na armadilha do "escritor" e ajudou a promover o objecto, porventura tão "profundo" e "interessante" como os calhamaços que o precederam. Ratzinger, o actual Papa, já explicou, até a crianças de cinco anos, que a Igreja não faz proselitismo. Muito menos literato, acrescento. Dos Santos é bom para ler nos transportes públicos ou numa viagem transatlântica se o leitor não for exigente. Se for, deve pura e simplesmente evitá-lo e limitar-se a piscar-lhe o olho quando o vir a apresentar telejornais. Nisso - mas só em Cabo Ruivo e não armado em Sandokan da reportagem - ele é, de facto, menos mau.

A IGREJA E O "ESCRITOR"


Leio nos jornais que José Rodrigues dos Santos perpetrou mais uma coisa em forma de livro. Parece que desta vez o homem quer contar a "verdadeira história" da vida de Jesus. Ignoro o título do objecto. Todavia, e perante a "grandeza" do tema, a Igreja portuguesa - cujas manifestações mediáticas raramente se distinguem pela subtileza - decidiu interpelar o ilustre "escritor" e criticou-o em público. Ao fazer isto, a Igreja caiu na armadilha do "escritor" e ajudou a promover o objecto, porventura tão "profundo" e "interessante" como os calhamaços que o precederam. Ratzinger, o actual Papa, já explicou, até a crianças de cinco anos, que a Igreja não faz proselitismo. Muito menos literato, acrescento. Dos Santos é bom para ler nos transportes públicos ou numa viagem transatlântica se o leitor não for exigente. Se for, deve pura e simplesmente evitá-lo e limitar-se a piscar-lhe o olho quando o vir a apresentar telejornais. Nisso - mas só em Cabo Ruivo e não armado em Sandokan da reportagem - ele é, de facto, menos mau.

29.10.11

ABSOLUTO DISPARATE


À semelhança de António Costa, presidente da CML, também me parece um absoluto disparate a possibilidade de fechar estações do Metro de Lisboa às 21 ou às 23 horas. A frota da Carris já tinha sido significativamente reduzida a partir das 20.30 e restava o Metro. Só a quem não usa transportes públicos entre a madrugada e noite alta para ir e vir dos locais de trabalho, ou que apenas conhece Lisboa de a ver da janela do carro, é que lhe pode passar uma "ideia" destas pela cabeça. Lisboa morre a partir do crepúsculo, é certo, porque a maior parte das pessoas vive na sua periferia. Mas é justamente esta gente - e não os meninos e as meninas que exigem automóvel próprio ou o dos papás para a "noite" - que precisa do Metro ou do autocarro para as "ligações" com essa periferia, a partir, por exemplo, das estações do Campo Grande, do Jardim Zoológico, do Cais do Sodré ou do Colégio Militar. Por outro lado, não é assim que se pode apelar para deixar o carro à porta de casa. Haja, pois, bom senso.

ABSOLUTO DISPARATE


À semelhança de António Costa, presidente da CML, também me parece um absoluto disparate a possibilidade de fechar estações do Metro de Lisboa às 21 ou às 23 horas. A frota da Carris já tinha sido significativamente reduzida a partir das 20.30 e restava o Metro. Só a quem não usa transportes públicos entre a madrugada e noite alta para ir e vir dos locais de trabalho, ou que apenas conhece Lisboa de a ver da janela do carro, é que lhe pode passar uma "ideia" destas pela cabeça. Lisboa morre a partir do crepúsculo, é certo, porque a maior parte das pessoas vive na sua periferia. Mas é justamente esta gente - e não os meninos e as meninas que exigem automóvel próprio ou o dos papás para a "noite" - que precisa do Metro ou do autocarro para as "ligações" com essa periferia, a partir, por exemplo, das estações do Campo Grande, do Jardim Zoológico, do Cais do Sodré ou do Colégio Militar. Por outro lado, não é assim que se pode apelar para deixar o carro à porta de casa. Haja, pois, bom senso.

A ANA, SEMPRE A ANA E CADA VEZ MAIS SÓ A ANA

«Cavafy, o grego, não conheceu Kadhafi, o líbio. Este, chefe de Estado entre 1969 e 2011, foi assassinado a 20 de Outubro último. A sua morte foi registada em directo; a não ser que — à semelhança de No Palácio do Fim de Martin Amis — Senad el Sadýk el Ureybi — o rebelde líbio que disse perante as câmaras não lhe agradar “a ideia de ele ser capturado vivo” e daí ter-lhe dado dois tiros, “um na cabeça, outro no peito” — se tenha enganado no alvo e atingido tão-só um sósia. Não vi o vídeo e para o caso tanto faz. Não vi, como não vi o da criança chinesa atropelada, do enforcamento de Saddam ou da decapitação de Daniel Pearl. Em jovem assisti, por militância cultural, a 120 Dias de Sodoma de Pier Paolo Pasoloni. Enouhg is enough. Leio agora que foram divulgadas mais imagens dos últimos momentos do alucinado, que apenas acrescentam crueldade à crueldade. Entretanto, o Ocidente festejou a queda do ditador — um “líder carismático”, nas palavras de José Sócrates (convidado de honra do 41º aniversário da revolução líbia), que ainda em finais de 2007 acampava no Forte de São Julião da Barra, era recebido com pompa pelo governo português e até dava “aulas” sobre os “Problemas da Sociedade Contemporânea” na reitoria da Universidade Clássica de Lisboa. Não se pense, porém, que a hipocrisia foi exclusivo da “diplomacia económica” de Sócrates/Amado. Aznar,González, Prodi, Berlusconi, Sarkozy, Putin, Barroso, Lula, Chávez, Fidel, Condoleezza Rice, Obama… nenhum faltou ao beija-mão. A alguns narizes, o smell do petróleo cheira melhor que o nº 5 da Chanel. A indiferença com que reagiram à ignomínia do assassínio do homem diz bem do novo paradigma que assinala o caminho do declínio: em vez das públicas virtudes, Estado de Direito e tal, acção directa, no caso, versão kiss, kiss, bang, bang. É o regresso ao Far West, mas sem bons — só feios e maus. Citando Cavafy, o poeta que não conheceu Kadhafi: “E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros? Essa gente, mesmo assim, era uma solução”.»

A ANA, SEMPRE A ANA E CADA VEZ MAIS SÓ A ANA

«Cavafy, o grego, não conheceu Kadhafi, o líbio. Este, chefe de Estado entre 1969 e 2011, foi assassinado a 20 de Outubro último. A sua morte foi registada em directo; a não ser que — à semelhança de No Palácio do Fim de Martin Amis — Senad el Sadýk el Ureybi — o rebelde líbio que disse perante as câmaras não lhe agradar “a ideia de ele ser capturado vivo” e daí ter-lhe dado dois tiros, “um na cabeça, outro no peito” — se tenha enganado no alvo e atingido tão-só um sósia. Não vi o vídeo e para o caso tanto faz. Não vi, como não vi o da criança chinesa atropelada, do enforcamento de Saddam ou da decapitação de Daniel Pearl. Em jovem assisti, por militância cultural, a 120 Dias de Sodoma de Pier Paolo Pasoloni. Enouhg is enough. Leio agora que foram divulgadas mais imagens dos últimos momentos do alucinado, que apenas acrescentam crueldade à crueldade. Entretanto, o Ocidente festejou a queda do ditador — um “líder carismático”, nas palavras de José Sócrates (convidado de honra do 41º aniversário da revolução líbia), que ainda em finais de 2007 acampava no Forte de São Julião da Barra, era recebido com pompa pelo governo português e até dava “aulas” sobre os “Problemas da Sociedade Contemporânea” na reitoria da Universidade Clássica de Lisboa. Não se pense, porém, que a hipocrisia foi exclusivo da “diplomacia económica” de Sócrates/Amado. Aznar,González, Prodi, Berlusconi, Sarkozy, Putin, Barroso, Lula, Chávez, Fidel, Condoleezza Rice, Obama… nenhum faltou ao beija-mão. A alguns narizes, o smell do petróleo cheira melhor que o nº 5 da Chanel. A indiferença com que reagiram à ignomínia do assassínio do homem diz bem do novo paradigma que assinala o caminho do declínio: em vez das públicas virtudes, Estado de Direito e tal, acção directa, no caso, versão kiss, kiss, bang, bang. É o regresso ao Far West, mas sem bons — só feios e maus. Citando Cavafy, o poeta que não conheceu Kadhafi: “E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros? Essa gente, mesmo assim, era uma solução”.»

A ESTÁTUA DO COMENDADOR



Passa na Gulbenkian, directamente do Lincoln Center (Met) em Nova Iorque, o Don Giovanni de Mozart. Mais do que a exibição da frivolidade da personagem e das suas "vítimas", é a hubris do conquistador, no momento final da emergência do comendador, que resume bem a coisa. Na vida amorosa como na política (e estão mais perto uma da outra do que se pode imaginar), há sempre uma estátua do comendador à espreita para ajustar os costumes.

A ESTÁTUA DO COMENDADOR



Passa na Gulbenkian, directamente do Lincoln Center (Met) em Nova Iorque, o Don Giovanni de Mozart. Mais do que a exibição da frivolidade da personagem e das suas "vítimas", é a hubris do conquistador, no momento final da emergência do comendador, que resume bem a coisa. Na vida amorosa como na política (e estão mais perto uma da outra do que se pode imaginar), há sempre uma estátua do comendador à espreita para ajustar os costumes.

A BOA TENDÊNCIA DE QUERER DIZER A VERDADE


Segundo julgo saber, o jornal Público vai dispensar a colaboração de Eduardo Cintra Torres, Helena Matos e Luís Campos e Cunha nas suas colunas de opinião. Não deixa de ser irónico. Qualquer deles distinguiu-se por evitar cair na tentação, dolosa ou ingénua, da "redacção única" que predomina, independentemente dos poderes do momento, nas matérias que trataram. Sobretudo nos derradeiros anos. Estou certo que outros media os saberão aproveitar nem que seja para desenjoar da mesmice predominante, alguma dela com acesso a praticamente todos os meios de comunicação social disponíveis e, a outra, apenas analfabeta, cretina ou irrelevante. Este blogue deve uns quantos dos seus posts ao Eduardo Cintra Torres ao reproduzir, com admiração e amizade, textos seus, ou parte deles, a partir do Público. Assim acontece desta vez que, seguramente, não será a última.

«Escrevi sempre com frontalidade, que é característica dos independentes. Não usei a crítica para recados ou subentendidos. Fui a direito. Ser frontal e independente, porém, tem um preço enorme em Portugal. É-se alvo de despedimentos, ataques e de insultos; muitas pessoas não entendem, ou não têm a educação para entender, que a frontalidade é, por natureza, bem educada; a frontalidade não dá "tachos", ao contrário do que tantas vezes li a meu respeito, antes rouba oportunidades e traz dissabores, incluindo processos judiciais e a interrupção de colaborações mediáticas, como me sucedeu há anos. Sempre considerei que o poder político não apreciava o meu trabalho nesta coluna, dado que os independentes, ao contrário dos lambe-botas, dos intolerantes e dos medrosos, são imprevisíveis e têm tendência a querer dizer a verdade, mesmo que sofram as consequências disso.»


Adenda: Ouço na antena1, rádio pública, duas criaturas (uma em Lisboa e a outra no Porto onde existe quase uma outra RTP) congratularem-se e rirem-se alarvemente com o fim da crónica semanal de Cintra Torres no Público. Mais. Um deles estava superiormente satisfeito por ter podido ir a tribunal testemunhar contra Cintra Torres. E o outro sugeria que o papel onde vinha impressa a crónica de CT nem para outros propósitos serviria. Não revelo nenhum segredo (vem nos relatórios e contas que são públicos) que a componente "rádio" da RTP custa presentemente à volta de 40 milhões de euros aos contribuintes. Para, entre outras coisas, exercícios de autocomplacência como estes?

A BOA TENDÊNCIA DE QUERER DIZER A VERDADE


Segundo julgo saber, o jornal Público vai dispensar a colaboração de Eduardo Cintra Torres, Helena Matos e Luís Campos e Cunha nas suas colunas de opinião. Não deixa de ser irónico. Qualquer deles distinguiu-se por evitar cair na tentação, dolosa ou ingénua, da "redacção única" que predomina, independentemente dos poderes do momento, nas matérias que trataram. Sobretudo nos derradeiros anos. Estou certo que outros media os saberão aproveitar nem que seja para desenjoar da mesmice predominante, alguma dela com acesso a praticamente todos os meios de comunicação social disponíveis e, a outra, apenas analfabeta, cretina ou irrelevante. Este blogue deve uns quantos dos seus posts ao Eduardo Cintra Torres ao reproduzir, com admiração e amizade, textos seus, ou parte deles, a partir do Público. Assim acontece desta vez que, seguramente, não será a última.

«Escrevi sempre com frontalidade, que é característica dos independentes. Não usei a crítica para recados ou subentendidos. Fui a direito. Ser frontal e independente, porém, tem um preço enorme em Portugal. É-se alvo de despedimentos, ataques e de insultos; muitas pessoas não entendem, ou não têm a educação para entender, que a frontalidade é, por natureza, bem educada; a frontalidade não dá "tachos", ao contrário do que tantas vezes li a meu respeito, antes rouba oportunidades e traz dissabores, incluindo processos judiciais e a interrupção de colaborações mediáticas, como me sucedeu há anos. Sempre considerei que o poder político não apreciava o meu trabalho nesta coluna, dado que os independentes, ao contrário dos lambe-botas, dos intolerantes e dos medrosos, são imprevisíveis e têm tendência a querer dizer a verdade, mesmo que sofram as consequências disso.»


Adenda: Ouço na antena1, rádio pública, duas criaturas (uma em Lisboa e a outra no Porto onde existe quase uma outra RTP) congratularem-se e rirem-se alarvemente com o fim da crónica semanal de Cintra Torres no Público. Mais. Um deles estava superiormente satisfeito por ter podido ir a tribunal testemunhar contra Cintra Torres. E o outro sugeria que o papel onde vinha impressa a crónica de CT nem para outros propósitos serviria. Não revelo nenhum segredo (vem nos relatórios e contas que são públicos) que a componente "rádio" da RTP custa presentemente à volta de 40 milhões de euros aos contribuintes. Para, entre outras coisas, exercícios de autocomplacência como estes?

28.10.11

A DECADÊNCIA DO HOMEM


«Queria falar da «decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma alteração do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contra-religião, na qual já não importa o homem, mas só o lucro pessoal. O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como se manifesta, por exemplo, no domínio da droga com as suas formas diversas. Aí estão os grandes que com ela fazem os seus negócios, e depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na alma. A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude. Uma vez que a violência se torna uma coisa normal, a paz fica destruída e, nesta falta de paz, o homem destrói-se a si mesmo. A ausência de Deus leva à decadência do homem e do humanismo. Mas, onde está Deus? Temos nós possibilidades de O conhecer e mostrar novamente à humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflexões feitas até agora. Disse que existe uma concepção e um uso da religião através dos quais esta se torna fonte de violência, enquanto que a orientação do homem para Deus, vivida rectamente, é uma força de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de diálogo e falei da purificação, sempre necessária, da vivência da religião. Por outro lado, afirmei que a negação de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o à violência. Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível.»

Bento XVI, Assis, 27.10.11

A DECADÊNCIA DO HOMEM


«Queria falar da «decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma alteração do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contra-religião, na qual já não importa o homem, mas só o lucro pessoal. O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como se manifesta, por exemplo, no domínio da droga com as suas formas diversas. Aí estão os grandes que com ela fazem os seus negócios, e depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na alma. A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude. Uma vez que a violência se torna uma coisa normal, a paz fica destruída e, nesta falta de paz, o homem destrói-se a si mesmo. A ausência de Deus leva à decadência do homem e do humanismo. Mas, onde está Deus? Temos nós possibilidades de O conhecer e mostrar novamente à humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflexões feitas até agora. Disse que existe uma concepção e um uso da religião através dos quais esta se torna fonte de violência, enquanto que a orientação do homem para Deus, vivida rectamente, é uma força de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de diálogo e falei da purificação, sempre necessária, da vivência da religião. Por outro lado, afirmei que a negação de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o à violência. Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível.»

Bento XVI, Assis, 27.10.11

27.10.11

É A POLÍTICA


«A Europa está hoje refém dos mercados e do poder financeiro. Por isso, a opção decisiva que se nos coloca é entre abandonar cada vez mais a sua soberania aos mercados, ou transferi-la parcialmente, de acordo com objectivos políticos bem estabelecidos, para a União Europeia. Trata-se de uma opção política de fundo, que infelizmente o eixo franco-alemão tem procurado iludir com a crescente imposição de um poder de facto, tipo "directório", ao arrepio de diversos equilíbrios vitais da União Europeia. Como ontem mesmo observou J. Habermas, esse federalismo a que chamou "executivo" pode de facto permitir transferir, sob a ameaça de sanções e de pressões de todo o tipo e sem qualquer legitimação democrática, os imperativos dos mercados para os orçamentos nacionais. Mas se isso acontecer, sublinhou e bem Habermas, é o próprio projecto europeu que se transformará no seu contrário: de primeira comunidade supranacional democraticamente legitimada, a União Europeia tornar-se-ia num puro arranjo ao serviço de uma "dominação pós-democrática". Não haja ilusões: sem um salto federal democrático, sufragado pelo "povo europeu", a Europa não sairá do atoleiro da crise. Esta é talvez a maior das dificuldades, mas é também a condição sine qua non da sua sobrevivência e da sua afirmação no mundo global do futuro.»

M. M.Carrilho, DN


«Muito para além do corte de 50% na dívida grega, e da participação da banca privada, do reforço do FEEF, da «governação económica» da UE, fica a certeza do empenhamento da Alemanha e da França na continuação da zona euro vinte anos depois da UEM. Essa ratificação do acordado entre Mitterrand e Kohl há vinte anos recentra a UE na lógica anterior ao grande alargamento, mas tem em conta as consequências da unificação alemã entretanto desenvolvidas. Compete agora aos outros Estados membros portarem-se como adultos. Sem isso a opinião racional não vence.»

J. Medeiros Ferreira. Córtex Frontal

É A POLÍTICA


«A Europa está hoje refém dos mercados e do poder financeiro. Por isso, a opção decisiva que se nos coloca é entre abandonar cada vez mais a sua soberania aos mercados, ou transferi-la parcialmente, de acordo com objectivos políticos bem estabelecidos, para a União Europeia. Trata-se de uma opção política de fundo, que infelizmente o eixo franco-alemão tem procurado iludir com a crescente imposição de um poder de facto, tipo "directório", ao arrepio de diversos equilíbrios vitais da União Europeia. Como ontem mesmo observou J. Habermas, esse federalismo a que chamou "executivo" pode de facto permitir transferir, sob a ameaça de sanções e de pressões de todo o tipo e sem qualquer legitimação democrática, os imperativos dos mercados para os orçamentos nacionais. Mas se isso acontecer, sublinhou e bem Habermas, é o próprio projecto europeu que se transformará no seu contrário: de primeira comunidade supranacional democraticamente legitimada, a União Europeia tornar-se-ia num puro arranjo ao serviço de uma "dominação pós-democrática". Não haja ilusões: sem um salto federal democrático, sufragado pelo "povo europeu", a Europa não sairá do atoleiro da crise. Esta é talvez a maior das dificuldades, mas é também a condição sine qua non da sua sobrevivência e da sua afirmação no mundo global do futuro.»

M. M.Carrilho, DN


«Muito para além do corte de 50% na dívida grega, e da participação da banca privada, do reforço do FEEF, da «governação económica» da UE, fica a certeza do empenhamento da Alemanha e da França na continuação da zona euro vinte anos depois da UEM. Essa ratificação do acordado entre Mitterrand e Kohl há vinte anos recentra a UE na lógica anterior ao grande alargamento, mas tem em conta as consequências da unificação alemã entretanto desenvolvidas. Compete agora aos outros Estados membros portarem-se como adultos. Sem isso a opinião racional não vence.»

J. Medeiros Ferreira. Córtex Frontal

26.10.11

OPINIÕES ADULTAS

Uma sociedade adulta é uma sociedade mais aberta e mais cosmopolita. Mas é, simultaneamente, uma sociedade mais exigente e mais crítica, ou seja, avessa a fórmulas mais ou menos disfarçadas de pensamento único. Aliás, sob a capa do pluralismo esconde-se demasiadas vezes o pensamento único malgrado as aparências comunicacionais contraditórias em razão de filiações partidárias. Não é por ser seu amigo há décadas, mas vejo com agrado que o José Medeiros Ferreira é, neste momento, um dos comentadores mais estimulantes dos que têm acesso às televisões. E nem sequer preciso estar sempre de acordo com ele ou vice-versa.

OPINIÕES ADULTAS

Uma sociedade adulta é uma sociedade mais aberta e mais cosmopolita. Mas é, simultaneamente, uma sociedade mais exigente e mais crítica, ou seja, avessa a fórmulas mais ou menos disfarçadas de pensamento único. Aliás, sob a capa do pluralismo esconde-se demasiadas vezes o pensamento único malgrado as aparências comunicacionais contraditórias em razão de filiações partidárias. Não é por ser seu amigo há décadas, mas vejo com agrado que o José Medeiros Ferreira é, neste momento, um dos comentadores mais estimulantes dos que têm acesso às televisões. E nem sequer preciso estar sempre de acordo com ele ou vice-versa.

HIPER-SOCRATISMO DE PACOTILHA

«Num país que tinha uma taxa de desemprego de 4% à entrada do novo milénio e passados 11 anos, 8 dos quais com governação do partido pelo qual o senhor Basílio "homem às direitas" Horta foi eleito deputado, essa mesma taxa já vai nos 12,3%, atirar para cima de Santos Pereira o rótulo de "ministro do desemprego" é do domínio do ridículo. Antes disso, no mínimo, era preciso identificar todos os ministros do desemprego que o antecederam. Mas a falta de seriedade da bicharada a que o PS está entregue dá para tudo.»

Os Comediantes (sem ironia uma vez que o maior parece ser o retratado)

HIPER-SOCRATISMO DE PACOTILHA

«Num país que tinha uma taxa de desemprego de 4% à entrada do novo milénio e passados 11 anos, 8 dos quais com governação do partido pelo qual o senhor Basílio "homem às direitas" Horta foi eleito deputado, essa mesma taxa já vai nos 12,3%, atirar para cima de Santos Pereira o rótulo de "ministro do desemprego" é do domínio do ridículo. Antes disso, no mínimo, era preciso identificar todos os ministros do desemprego que o antecederam. Mas a falta de seriedade da bicharada a que o PS está entregue dá para tudo.»

Os Comediantes (sem ironia uma vez que o maior parece ser o retratado)

«É PARA A SUÉCIA, MEU BEM»

À atenção da parolice académica nacional.

«É PARA A SUÉCIA, MEU BEM»

À atenção da parolice académica nacional.

A LINHA


«Melville: (...) gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais... Os mergulhadores do pensamento voltaram à superfície com os olhos injectados de sangue desde o princípio do mundo.» Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos.»

Gilles Deleuze

A LINHA


«Melville: (...) gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais... Os mergulhadores do pensamento voltaram à superfície com os olhos injectados de sangue desde o princípio do mundo.» Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos.»

Gilles Deleuze

25.10.11

NEM DADO


Leio num rodapé televisivo que o sr. Blair vai aconselhar o Cazaquistão em matéria energética. O sr. Blair é uma personagem detestável que inspirou, nos idos de 90, a esquerda moderna pelo mundo fora. Era a "terceira via". Em Portugal, Guterres foi o epígono mais notável mas Sócrates e o seu "empreendedorismo" (ainda agora tão loquazmente explicado por essa mente brilhante chamada Paulo Campos) não lhe ficaram atrás. Encerrada a referida "via" com os custos que se conhecem, o sr. Blair decidiu tornar-se multimilionário à conta da sua própria caricatura. Como o mundo é cada vez mais menos exigente, há quem compre o sr. Blair e a sua falácia por alto preço. Por mim, nem dado.

NEM DADO


Leio num rodapé televisivo que o sr. Blair vai aconselhar o Cazaquistão em matéria energética. O sr. Blair é uma personagem detestável que inspirou, nos idos de 90, a esquerda moderna pelo mundo fora. Era a "terceira via". Em Portugal, Guterres foi o epígono mais notável mas Sócrates e o seu "empreendedorismo" (ainda agora tão loquazmente explicado por essa mente brilhante chamada Paulo Campos) não lhe ficaram atrás. Encerrada a referida "via" com os custos que se conhecem, o sr. Blair decidiu tornar-se multimilionário à conta da sua própria caricatura. Como o mundo é cada vez mais menos exigente, há quem compre o sr. Blair e a sua falácia por alto preço. Por mim, nem dado.

PENSÁ-LO


«Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas «pensá-lo» — ou seja, pôr-lhe um penso...»

Virgílio Ferreira, Conta-Corrente 2 (via Notas Verbais)

PENSÁ-LO


«Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas «pensá-lo» — ou seja, pôr-lhe um penso...»

Virgílio Ferreira, Conta-Corrente 2 (via Notas Verbais)

24.10.11

UMA SEMANA DE TELESPECTADOR EM PORTUGAL


«Esta semana fiz uma curiosa pesquisa: ver, em cada um dos três canais comerciais, quais os cinco programas mais vistos. Na RTP 1, o TOP 5 é preenchido com quatro programas de informação (três deles Telejornais) e um jogo de futebol. Na SIC, regista-se uma emissão do Peso Pesado, três programas de informação (todos Jornal da Noite) e um jogo de futebol. Na TVI, diversas emissões da casa dos Segredos ocupam quatro lugares do top 5 e a restante pertence a um Jornal das Oito. Se avaliarmos por tipologias os 20 programas mais vistos da semana encontramos sete reality shows (seis Casa dos Segredos e um Peso Pesado), 3 jogos de futebol, 7 programas de informação e três de ficção (novela Remédio Santo). A TVI continua a liderar com 25,8% de share médio durante a semana, seguida da SIC com 21,8% e da RTP 1 com 19,8%. O conjunto dos canais de cabo registou 26,8% de share, com a SIC Notícias, Hollywood, AXN, Sport TV e Disney a ocuparem os cinco primeiros lugares.»

Manuel Falcão, Lugares-Comuns

UMA SEMANA DE TELESPECTADOR EM PORTUGAL


«Esta semana fiz uma curiosa pesquisa: ver, em cada um dos três canais comerciais, quais os cinco programas mais vistos. Na RTP 1, o TOP 5 é preenchido com quatro programas de informação (três deles Telejornais) e um jogo de futebol. Na SIC, regista-se uma emissão do Peso Pesado, três programas de informação (todos Jornal da Noite) e um jogo de futebol. Na TVI, diversas emissões da casa dos Segredos ocupam quatro lugares do top 5 e a restante pertence a um Jornal das Oito. Se avaliarmos por tipologias os 20 programas mais vistos da semana encontramos sete reality shows (seis Casa dos Segredos e um Peso Pesado), 3 jogos de futebol, 7 programas de informação e três de ficção (novela Remédio Santo). A TVI continua a liderar com 25,8% de share médio durante a semana, seguida da SIC com 21,8% e da RTP 1 com 19,8%. O conjunto dos canais de cabo registou 26,8% de share, com a SIC Notícias, Hollywood, AXN, Sport TV e Disney a ocuparem os cinco primeiros lugares.»

Manuel Falcão, Lugares-Comuns

DOS DIREITOS ADQUIRIDOS

Ouvi de manhã, na rádio pública, uma destas pessoas a dizer duas coisas interessantes. A primeira, que ninguém pode ser prejudicado na sua carreira profissional por ter estado ao serviço da nação, num cargo político. A segunda, que não tenciona abdicar de um direito adquirido. Se juntarmos as duas afirmações, dá qualquer coisa como a pátria deve continuar a servir os seus precários servidores (em democracia são todos precários) porque foi uma honra (para ela, pátria) ter tido a possibilidade de contar com os préstimos deles. Daí o "direito adquirido". Ora isto encerra uma lição. Há direitos adquiridos mais adquiridos do que outros direitos adquiridos. Bem haja tal ex-servidor da causa pública que nos recordou esta evidência.

DOS DIREITOS ADQUIRIDOS

Ouvi de manhã, na rádio pública, uma destas pessoas a dizer duas coisas interessantes. A primeira, que ninguém pode ser prejudicado na sua carreira profissional por ter estado ao serviço da nação, num cargo político. A segunda, que não tenciona abdicar de um direito adquirido. Se juntarmos as duas afirmações, dá qualquer coisa como a pátria deve continuar a servir os seus precários servidores (em democracia são todos precários) porque foi uma honra (para ela, pátria) ter tido a possibilidade de contar com os préstimos deles. Daí o "direito adquirido". Ora isto encerra uma lição. Há direitos adquiridos mais adquiridos do que outros direitos adquiridos. Bem haja tal ex-servidor da causa pública que nos recordou esta evidência.

23.10.11

PÁRE, ESCUTE, OLHE

PÁRE, ESCUTE, OLHE

EM NOME DE UM GRANDE AMOR


«É preciso perceber que o amor universal pelo livro, a ideia de que o livro é, em si, uma coisa boa, encerra uma mentira: a de que muitos deles são nefastos e não deviam gozar de nenhuma prerrogativa. Como nefasto é este contrato público que prescreve a bondade dos livros e permite aos seus "agentes" (autores, editores, difusores, livreiros) prosseguirem uma tarefa de destruição em nome de um grande amor por eles.»

António Guerreiro, Expresso

EM NOME DE UM GRANDE AMOR


«É preciso perceber que o amor universal pelo livro, a ideia de que o livro é, em si, uma coisa boa, encerra uma mentira: a de que muitos deles são nefastos e não deviam gozar de nenhuma prerrogativa. Como nefasto é este contrato público que prescreve a bondade dos livros e permite aos seus "agentes" (autores, editores, difusores, livreiros) prosseguirem uma tarefa de destruição em nome de um grande amor por eles.»

António Guerreiro, Expresso

O REGRESSO DO "MELENA E PÁ"

O que era preciso dizer dele.

O REGRESSO DO "MELENA E PÁ"

O que era preciso dizer dele.

O PRINCÍPIO E A SUGESTÃO

Um jornal, o DN, dedica duas páginas ao fascinante tema das subvenções vitalícias requeridas por pessoas que durante doze ou oito anos (duas legislaturas mesmo que não tenha sido tudo de seguida) exerceram cargos políticos nos últimos trinta e sete anos. Os nomes pouco interessam porque, em quase 40 anos, o regime já conheceu milhares de servidores. O princípio, sim. Ridículo. Sócrates acabou com esta parvoíce em 2005 embora os efeitos só se viessem a repercutir em 2009. E, tal como o actual 1º ministro, prescindiu da sua subvenção. Santana Lopes sugeriu outro dia que os "subvencionados" que ainda estão em "actividade" (privada) deixem de receber enquanto subsistir o presente estado de emergência nacional. Vamos ver quantos seguem a sugestão.

O PRINCÍPIO E A SUGESTÃO

Um jornal, o DN, dedica duas páginas ao fascinante tema das subvenções vitalícias requeridas por pessoas que durante doze ou oito anos (duas legislaturas mesmo que não tenha sido tudo de seguida) exerceram cargos políticos nos últimos trinta e sete anos. Os nomes pouco interessam porque, em quase 40 anos, o regime já conheceu milhares de servidores. O princípio, sim. Ridículo. Sócrates acabou com esta parvoíce em 2005 embora os efeitos só se viessem a repercutir em 2009. E, tal como o actual 1º ministro, prescindiu da sua subvenção. Santana Lopes sugeriu outro dia que os "subvencionados" que ainda estão em "actividade" (privada) deixem de receber enquanto subsistir o presente estado de emergência nacional. Vamos ver quantos seguem a sugestão.

22.10.11

OS "MONSTROS"


«Se o Estado português quisesse resgatar todas as concessões, e pagar, a preços de 2012, todos os investimentos que contratou através do modelo de parceria público-privada (PPP), precisaria de alocar 15,7% de toda a riqueza nacional produzida durante esse ano. Ou seja, toda a actividade produtiva conseguida durante os primeiros dois meses do ano teria de ir directa para pagar uma factura que ultrapassa os 26 mil milhões de euros, e onde as concessões rodoviárias assumem um peso de quase 80%. Mas se a factura é desde já muito pesada, uma das poucas conclusões que se pode retirar do relatório entregue pela Direcção-Geral de Tesouro e Finanças (DGTF) à troika, de acordo com o calendário imposto pelo memorando de entendimento, essa factura só pode piorar, dado os "riscos significativos" que o Estado assumiu em alguns contratos de PPP. Neste relatório, a DGTF limita-se a fazer uma primeira análise aos contratos de PPP já em vigor (22 em fase de exploração e 14 em fase de construção). As conclusões e as recomendações deverão aparecer mais tarde, até Março de 2012, altura em que "uma empresa de auditoria internacionalmente reconhecida" irá produzir um novo relatório, com o acompanhamento do Instituto Nacional de Estatística. Durante os próximos quatro anos, e num período crucial de contas públicas, os encargos previstos com as PPP vão absorver cerca de 1% do PIB. No relatório da DGTF, é feita a previsão dos gastos durante a execução dos contratos, bem como uma análise das respectivas matrizes de risco. É pela análise dessas matrizes de risco, e onde se demonstra como é que ele está distribuído entre o parceiro público e o privado, que se percebe as fragilidades a que está sujeito o Estado. Essa matriz de risco surge particularmente desequilibrada nos contratos de PPP no sector dos transportes, já que assentaram em modelos de project-finance, em que os privados assumiram o financiamento do projecto, com base em projecções de procura (número de veículos que passam em cada quilómetro de estrada, ou número de passageiros que frequentam os transportes ferroviários), projecções de taxas de juro e previsões de rentabilidades que, lê-se no relatório, são "substancialmente optimistas" e que se revelam "desactualizadas, especialmente face à actual conjuntura económica". Tendo como boas essas projecções optimistas, o relatório da DGTF refere que, quando introduzidas nas contas as previsões de receita estimadas nesses contratos, o valor dos encargos líquidos totais seria de 15,1 mil milhões de euros, ou seja, 8,8% do PIB previsto para 2012. Os privados assumiram o financiamento dos projectos com base numa série de pressupostos que o Estado tem vindo a alterar, sobretudo no sector rodoviário, e que agravam esta factura. No ano de 2010, essa derrapagem chegou aos 28%, com o Estado a pagar mais 200 milhões de euros do que tinha previsto, para acomodar pedidos de reequilíbrio financeiro entregues pelas concessionárias - a maior desta factura foi para as concessões em portagem real da Ascendi, do grupo Mota-Engil, e que passaram a ser remuneradas em rendas por disponibilidade. Este acordo foi feito no âmbito da negociação para a introdução de portagens em três Scut, que estão em vigor há já um ano, duas das quais deste grupo (Costa de Prata e Grande Porto). Há ainda quatro auto-estradas Scut para introduzir portagens, e outros projectos que estão em reavaliação, como a PPP em Alta Velocidade entre Poceirão e Caia, ou que vão entrar em renegociação, depois de o Governo ter anunciado a intenção de cortar no investimento em todas as subconcessões. Também por isso, diz a DGTF, o resultado dessas renegociações terá, no futuro, impactos financeiros e no risco para o concedente e/ou concessionária, o que implicará alterações de dados constantes no relatório. E, se aumentam os custos, também poderão diminuir as receitas que foram contabilizadas nesta análise da DGTF, já que a conversão das Scut em vias com cobrança de taxas de portagem ao utilizador trará uma expectável diminuição do tráfego.»

«Os encargos do Estado com as PPP na Saúde vão ultrapassar os quatro mil milhões de euros até 2041. De acordo com o relatório do Ministério das Finanças, só o custo dos seis projectos já contratualizados atinge os 3983 milhões de euros. Mas este valor não abrange os gastos dos futuros hospitais de Lisboa Oriental e Central do Algarve, que ainda estão em fase de concurso. De acordo com as contas do PÚBLICO com base nos dados que constam no documento, o hospital de Braga - cujo concurso foi ganho pelo consórcio liderado pela José de Mello Saúde (JMS) e já está em funcionamento - é o que irá absorver a maior fatia, com um total de 1272 milhões de euros até 2039. A seguir, surge o de Loures - adjudicado ao grupo BES por 86 milhões de euros e com conclusão prevista para 2012 -, com 1130 milhões até 2040. O futuro hospital de Vila Franca de Xira, ganho também pela JMS, irá representar um encargo de 830 milhões até 2041 e o novo de Cascais, inaugurado em Fevereiro com a gestão da HPP (grupo CGD), custará 681 milhões até 2038. O modelo de PPP destas unidades abrange a construção e manutenção da infra-estrutura e a gestão clínica do hospital. Já em relação aos hospitais de Lisboa Oriental e Central do Algarve, o objecto concursal abrange apenas, e ao contrário do inicialmente previsto, a vertente da infra-estrutura hospitalar e serviços complementares.»

Jornal Público, 22.10.11

OS "MONSTROS"


«Se o Estado português quisesse resgatar todas as concessões, e pagar, a preços de 2012, todos os investimentos que contratou através do modelo de parceria público-privada (PPP), precisaria de alocar 15,7% de toda a riqueza nacional produzida durante esse ano. Ou seja, toda a actividade produtiva conseguida durante os primeiros dois meses do ano teria de ir directa para pagar uma factura que ultrapassa os 26 mil milhões de euros, e onde as concessões rodoviárias assumem um peso de quase 80%. Mas se a factura é desde já muito pesada, uma das poucas conclusões que se pode retirar do relatório entregue pela Direcção-Geral de Tesouro e Finanças (DGTF) à troika, de acordo com o calendário imposto pelo memorando de entendimento, essa factura só pode piorar, dado os "riscos significativos" que o Estado assumiu em alguns contratos de PPP. Neste relatório, a DGTF limita-se a fazer uma primeira análise aos contratos de PPP já em vigor (22 em fase de exploração e 14 em fase de construção). As conclusões e as recomendações deverão aparecer mais tarde, até Março de 2012, altura em que "uma empresa de auditoria internacionalmente reconhecida" irá produzir um novo relatório, com o acompanhamento do Instituto Nacional de Estatística. Durante os próximos quatro anos, e num período crucial de contas públicas, os encargos previstos com as PPP vão absorver cerca de 1% do PIB. No relatório da DGTF, é feita a previsão dos gastos durante a execução dos contratos, bem como uma análise das respectivas matrizes de risco. É pela análise dessas matrizes de risco, e onde se demonstra como é que ele está distribuído entre o parceiro público e o privado, que se percebe as fragilidades a que está sujeito o Estado. Essa matriz de risco surge particularmente desequilibrada nos contratos de PPP no sector dos transportes, já que assentaram em modelos de project-finance, em que os privados assumiram o financiamento do projecto, com base em projecções de procura (número de veículos que passam em cada quilómetro de estrada, ou número de passageiros que frequentam os transportes ferroviários), projecções de taxas de juro e previsões de rentabilidades que, lê-se no relatório, são "substancialmente optimistas" e que se revelam "desactualizadas, especialmente face à actual conjuntura económica". Tendo como boas essas projecções optimistas, o relatório da DGTF refere que, quando introduzidas nas contas as previsões de receita estimadas nesses contratos, o valor dos encargos líquidos totais seria de 15,1 mil milhões de euros, ou seja, 8,8% do PIB previsto para 2012. Os privados assumiram o financiamento dos projectos com base numa série de pressupostos que o Estado tem vindo a alterar, sobretudo no sector rodoviário, e que agravam esta factura. No ano de 2010, essa derrapagem chegou aos 28%, com o Estado a pagar mais 200 milhões de euros do que tinha previsto, para acomodar pedidos de reequilíbrio financeiro entregues pelas concessionárias - a maior desta factura foi para as concessões em portagem real da Ascendi, do grupo Mota-Engil, e que passaram a ser remuneradas em rendas por disponibilidade. Este acordo foi feito no âmbito da negociação para a introdução de portagens em três Scut, que estão em vigor há já um ano, duas das quais deste grupo (Costa de Prata e Grande Porto). Há ainda quatro auto-estradas Scut para introduzir portagens, e outros projectos que estão em reavaliação, como a PPP em Alta Velocidade entre Poceirão e Caia, ou que vão entrar em renegociação, depois de o Governo ter anunciado a intenção de cortar no investimento em todas as subconcessões. Também por isso, diz a DGTF, o resultado dessas renegociações terá, no futuro, impactos financeiros e no risco para o concedente e/ou concessionária, o que implicará alterações de dados constantes no relatório. E, se aumentam os custos, também poderão diminuir as receitas que foram contabilizadas nesta análise da DGTF, já que a conversão das Scut em vias com cobrança de taxas de portagem ao utilizador trará uma expectável diminuição do tráfego.»

«Os encargos do Estado com as PPP na Saúde vão ultrapassar os quatro mil milhões de euros até 2041. De acordo com o relatório do Ministério das Finanças, só o custo dos seis projectos já contratualizados atinge os 3983 milhões de euros. Mas este valor não abrange os gastos dos futuros hospitais de Lisboa Oriental e Central do Algarve, que ainda estão em fase de concurso. De acordo com as contas do PÚBLICO com base nos dados que constam no documento, o hospital de Braga - cujo concurso foi ganho pelo consórcio liderado pela José de Mello Saúde (JMS) e já está em funcionamento - é o que irá absorver a maior fatia, com um total de 1272 milhões de euros até 2039. A seguir, surge o de Loures - adjudicado ao grupo BES por 86 milhões de euros e com conclusão prevista para 2012 -, com 1130 milhões até 2040. O futuro hospital de Vila Franca de Xira, ganho também pela JMS, irá representar um encargo de 830 milhões até 2041 e o novo de Cascais, inaugurado em Fevereiro com a gestão da HPP (grupo CGD), custará 681 milhões até 2038. O modelo de PPP destas unidades abrange a construção e manutenção da infra-estrutura e a gestão clínica do hospital. Já em relação aos hospitais de Lisboa Oriental e Central do Algarve, o objecto concursal abrange apenas, e ao contrário do inicialmente previsto, a vertente da infra-estrutura hospitalar e serviços complementares.»

Jornal Público, 22.10.11

21.10.11

PONTO, CONTRAPONTO

«Nós chegámos perto da bancarrota com uma política orçamental em 2008, 2009 e 2010 que foi suicidária e anti-nacional. Em Junho de 2005 eu chamei à atenção que se não controlássemos a dívida pública e o défice público teríamos ‘spreads’ a subir, mais tarde ou mais cedo, e que isso teria consequências para o financiamento da economia e para o financiamento das famílias». Mas nessa altura "reinava" no Governo Sócrates o super-ministro Costa que, cedo, começou a "explicar" aos seus colegas que, com Campos Cunha, "não iam lá". Aí foi chamado o orador de sapiência que ontem as televisões exibiram como um verdadeiro herói nacional. Foram "lá" - com ele e de que maneira - já com o referido Costa prudentemente fora do barco. Ponto, contraponto.

PONTO, CONTRAPONTO

«Nós chegámos perto da bancarrota com uma política orçamental em 2008, 2009 e 2010 que foi suicidária e anti-nacional. Em Junho de 2005 eu chamei à atenção que se não controlássemos a dívida pública e o défice público teríamos ‘spreads’ a subir, mais tarde ou mais cedo, e que isso teria consequências para o financiamento da economia e para o financiamento das famílias». Mas nessa altura "reinava" no Governo Sócrates o super-ministro Costa que, cedo, começou a "explicar" aos seus colegas que, com Campos Cunha, "não iam lá". Aí foi chamado o orador de sapiência que ontem as televisões exibiram como um verdadeiro herói nacional. Foram "lá" - com ele e de que maneira - já com o referido Costa prudentemente fora do barco. Ponto, contraponto.

CONTRA AS POLÍTICAS SUPERFICIAIS


«As restrições financeiras severas a que o Estado e a economia portuguesa estão sujeitos são hoje o principal problema de curto-prazo que enfrentamos. Uma vez perdido o acesso ao financiamento em condições normais de mercado, as necessidades de financiamento do Estado português passaram a ser satisfeitas pelas transferências previstas no Programa de Assistência Económica e Financeira. É por todos reconhecido que estas restrições financeiras limitam fortemente a capacidade de acção do Estado e sobretudo estão a asfixiar a iniciativa privada. Neste sentido, o processo de consolidação orçamental é um caminho incontornável, e tem de ser associado à profunda reestruturação do Sector Empresarial do Estado. (...) Desde há muito até a esta parte que tem sido tolerado ao Estado que cometesse erros e desvios nos seus compromissos e na sua acção. Ao contrário do que sucede noutras instituições da nossa sociedade, como as empresas, as universidades ou as famílias, ao Estado não tem sido exigido que paute as suas contas e a sua conduta por critérios de rigor e de previsibilidade. Temos de corrigir este hábito perverso que penetrou a nossa cultura política. Acarreta e tem acarretado custos consideráveis. Mina a confiança dos investidores e corrói a confiança dos cidadãos. Gera um clima de incerteza que deteriora as condições de vida das nossas empresas, e afasta as empresas estrangeiras que poderiam investir em Portugal. E danifica a confiança dos nossos parceiros internacionais no cumprimento dos objectivos estabelecidos de consolidação orçamental e de transformação estrutural da economia.(...) Durante muitos anos, e com as melhores intenções, insistimos em medidas tradicionais de incentivo ao crescimento que produziram resultados muito decepcionantes e até contraproducentes. Quanto mais crescia a despesa pública, mais decrescia o nosso PIB potencial. Quanto mais se multiplicavam as políticas superficiais, menos descolava a nossa produtividade. Passou tempo suficiente para fazer um balanço razoável. Agora chegou o momento de uma acção englobante e estrutural de preparação do crescimento económico.»
P. Passos Coelho, 21.10.11

CONTRA AS POLÍTICAS SUPERFICIAIS


«As restrições financeiras severas a que o Estado e a economia portuguesa estão sujeitos são hoje o principal problema de curto-prazo que enfrentamos. Uma vez perdido o acesso ao financiamento em condições normais de mercado, as necessidades de financiamento do Estado português passaram a ser satisfeitas pelas transferências previstas no Programa de Assistência Económica e Financeira. É por todos reconhecido que estas restrições financeiras limitam fortemente a capacidade de acção do Estado e sobretudo estão a asfixiar a iniciativa privada. Neste sentido, o processo de consolidação orçamental é um caminho incontornável, e tem de ser associado à profunda reestruturação do Sector Empresarial do Estado. (...) Desde há muito até a esta parte que tem sido tolerado ao Estado que cometesse erros e desvios nos seus compromissos e na sua acção. Ao contrário do que sucede noutras instituições da nossa sociedade, como as empresas, as universidades ou as famílias, ao Estado não tem sido exigido que paute as suas contas e a sua conduta por critérios de rigor e de previsibilidade. Temos de corrigir este hábito perverso que penetrou a nossa cultura política. Acarreta e tem acarretado custos consideráveis. Mina a confiança dos investidores e corrói a confiança dos cidadãos. Gera um clima de incerteza que deteriora as condições de vida das nossas empresas, e afasta as empresas estrangeiras que poderiam investir em Portugal. E danifica a confiança dos nossos parceiros internacionais no cumprimento dos objectivos estabelecidos de consolidação orçamental e de transformação estrutural da economia.(...) Durante muitos anos, e com as melhores intenções, insistimos em medidas tradicionais de incentivo ao crescimento que produziram resultados muito decepcionantes e até contraproducentes. Quanto mais crescia a despesa pública, mais decrescia o nosso PIB potencial. Quanto mais se multiplicavam as políticas superficiais, menos descolava a nossa produtividade. Passou tempo suficiente para fazer um balanço razoável. Agora chegou o momento de uma acção englobante e estrutural de preparação do crescimento económico.»
P. Passos Coelho, 21.10.11

O FIM


Como previsto, a "cimeira europeia" de domingo não deverá passar de uma luxuosa declinação do "davam grandes passeios aos domingos" de José Régio onde todos os que não a inefável dupla Merkel-Sarkozy irão fazer fazer figura de corpo presente, para ser delicado. Já não é domingo. Agora é quarta-feira. Depois será outro dia qualquer. E, para rematar, há-de marcar-se o fim.

O FIM


Como previsto, a "cimeira europeia" de domingo não deverá passar de uma luxuosa declinação do "davam grandes passeios aos domingos" de José Régio onde todos os que não a inefável dupla Merkel-Sarkozy irão fazer fazer figura de corpo presente, para ser delicado. Já não é domingo. Agora é quarta-feira. Depois será outro dia qualquer. E, para rematar, há-de marcar-se o fim.

AQUELAS CABECINHAS POPULARES

«Ontem, teria ajudado os nossos jovens a não se surpreenderem com o alívio pela morte não do nosso aliado, que nunca foi, mas do nosso sócio, que foi (de Lisboa, Madrid, Paris, Londres, Washington...) Mas, repito, que lhe escondam o corpo! Mal comparado, o tirano Júlio César também foi morto pelos seus (até Brutus...), mas no enterro o amigo Marco António fez um discurso que mudou a opinião da populaça romana sobre César, que de tirano morto virou saudoso chefe. Todos os cuidados são poucos com aquelas cabecinhas populares que ontem nas ruas de Tripoli saudavam a troika salvadora: "Alá, o Comité Revolucionário e a OTAN!"»

Adenda: A generalidade dos "sócios" aplaudiu o morte do homem tal qual as televisões a transmitiram. Dá bem a noção da indigência mental da maior parte das actuais "elites" ocidentais que parece que ainda não entenderam que a democracia onde eles são apascentados não é exportável para aquelas zonas. O MNE português, Paulo Portas, reagiu como lhe competia. Como um homem civilizado.

AQUELAS CABECINHAS POPULARES

«Ontem, teria ajudado os nossos jovens a não se surpreenderem com o alívio pela morte não do nosso aliado, que nunca foi, mas do nosso sócio, que foi (de Lisboa, Madrid, Paris, Londres, Washington...) Mas, repito, que lhe escondam o corpo! Mal comparado, o tirano Júlio César também foi morto pelos seus (até Brutus...), mas no enterro o amigo Marco António fez um discurso que mudou a opinião da populaça romana sobre César, que de tirano morto virou saudoso chefe. Todos os cuidados são poucos com aquelas cabecinhas populares que ontem nas ruas de Tripoli saudavam a troika salvadora: "Alá, o Comité Revolucionário e a OTAN!"»

Adenda: A generalidade dos "sócios" aplaudiu o morte do homem tal qual as televisões a transmitiram. Dá bem a noção da indigência mental da maior parte das actuais "elites" ocidentais que parece que ainda não entenderam que a democracia onde eles são apascentados não é exportável para aquelas zonas. O MNE português, Paulo Portas, reagiu como lhe competia. Como um homem civilizado.

20.10.11

UMA EQUAÇÃO SIMPLES


Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho são dois patriotas e dois homens sérios. Nenhum deles é um vulgar tagarela de corredor ou de televisão. Dois patriotas sérios e com um indeclinável sentido das responsabilidades, em tempos de emergência nacional, entendem-se perfeitamente.

Adenda de sexta-feira, 21: Vasco Pulido Valente, na crónica do Público, sova metodicamente Cavaco Silva. Não é nada de especialmente novo na, como agora se diz, "narrativa" do autor sobre o PR vai para mais de trinta anos. Apoda mesmo a sua eleição de 2006 como uma "desgraça", presumindo-se que o país seria hoje coisa bem mais comestível por terceiros se tivesse sido entregue na altura à dupla Soares, 3ª versão, ou Alegre e Sócrates. Numa coisa, porém, tem razão. Cavaco foi complacente com Sócrates praticamente até ao dia em que ele foi e veio de Bruxelas sem lhe dar palavra (o PEC IV). Mas - e a coisa é recente e qualquer patrulheiro pago ou desempregado pode averiguar - quem é que não foi?

UMA EQUAÇÃO SIMPLES


Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho são dois patriotas e dois homens sérios. Nenhum deles é um vulgar tagarela de corredor ou de televisão. Dois patriotas sérios e com um indeclinável sentido das responsabilidades, em tempos de emergência nacional, entendem-se perfeitamente.

Adenda de sexta-feira, 21: Vasco Pulido Valente, na crónica do Público, sova metodicamente Cavaco Silva. Não é nada de especialmente novo na, como agora se diz, "narrativa" do autor sobre o PR vai para mais de trinta anos. Apoda mesmo a sua eleição de 2006 como uma "desgraça", presumindo-se que o país seria hoje coisa bem mais comestível por terceiros se tivesse sido entregue na altura à dupla Soares, 3ª versão, ou Alegre e Sócrates. Numa coisa, porém, tem razão. Cavaco foi complacente com Sócrates praticamente até ao dia em que ele foi e veio de Bruxelas sem lhe dar palavra (o PEC IV). Mas - e a coisa é recente e qualquer patrulheiro pago ou desempregado pode averiguar - quem é que não foi?

OUTRAS ALTURAS

«Portugal tomou as medidas necessárias, mas entretanto deve fazer face, como os outros países, ao abrandamento da economia europeia, e a questão dramática que se coloca é de como aplicar um plano de rigor necessário, cortando nas despesas públicas, sem que haja crescimento económico. Não há resposta possível (por parte dos governos), é preciso que seja a UE a fornecer os meios do relançamento.»

Jacques Delors

OUTRAS ALTURAS

«Portugal tomou as medidas necessárias, mas entretanto deve fazer face, como os outros países, ao abrandamento da economia europeia, e a questão dramática que se coloca é de como aplicar um plano de rigor necessário, cortando nas despesas públicas, sem que haja crescimento económico. Não há resposta possível (por parte dos governos), é preciso que seja a UE a fornecer os meios do relançamento.»

Jacques Delors

2040


Quando os actuais, antigos e futuros funcionários públicos, pela natureza das coisas, já tiverem passado todos ao Oriente Eterno, ainda a conta das PPP custará aos sobreviventes cerca de 500 milhões de euros por ano. É em 2040. Por agora, custa a cada um de nós dois mil euros o que quer dizer que, para quem os mantém, um, dois ou três subsídios de natal ou de férias (consoante o que aufere, reformado ou activo), e para os outros (aqueles cujo nome não pode ser pronunciado), uma, duas ou três pensões ou outros tantos ordenados dos chorudos que auferem. Em 2012. Também em 2012, pelo sim, pelo não, o sector empresarial do Estado tem "acomodados" 6,4 mil milhões de euros no OE. Aguardemos, pois, por 2040.

2040


Quando os actuais, antigos e futuros funcionários públicos, pela natureza das coisas, já tiverem passado todos ao Oriente Eterno, ainda a conta das PPP custará aos sobreviventes cerca de 500 milhões de euros por ano. É em 2040. Por agora, custa a cada um de nós dois mil euros o que quer dizer que, para quem os mantém, um, dois ou três subsídios de natal ou de férias (consoante o que aufere, reformado ou activo), e para os outros (aqueles cujo nome não pode ser pronunciado), uma, duas ou três pensões ou outros tantos ordenados dos chorudos que auferem. Em 2012. Também em 2012, pelo sim, pelo não, o sector empresarial do Estado tem "acomodados" 6,4 mil milhões de euros no OE. Aguardemos, pois, por 2040.