31.1.15

Uma história triste

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Para "encerrar" o mandato á frente da RTP, o dr. Alberto da Ponte não resistiu à sua legítima vaidade e concedeu uma entrevista ao Expresso. A dado passo "dividiu" a sua administração por "fases", como se pode ver na foto, e faz esta espantosa afirmação em relação à "primeira" delas: «foi quando conseguimos travar a privatização ou concessão da RTP..» Não fosse estar equivocado, fui ver as minhas "notas". Para resumir, o dr. Ponte foi convidado para presidir à RTP após a demissão do seu antecessor, Guilherme Costa, que não se mostrou concordante com as diligências para encontrar, nos termos do programa do governo, um modelo de gestão alternativo ao exclusivamente público. O dr. Ponte contratou assessores técnicos, financeiros e jurídicos, com o apoio da então tutela, para o estudo de "cenários" verosímeis para esse efeito. Quando se colocou a hipótese da concessão da gestão a privados em vez da pura e simples privatização de um qualquer activo da empresa - uma hipótese acarinhada pelo primeiro-ministro e bem defendida pelo malogrado prof. António Borges, conselheiro do governo para as privatizações, e pelo ministro Relvas -, o dr. Ponte secundou-a e apresentou-a numa reunião em São Bento como sendo a sua preferida. Essa reunião, aliás, representou o "ponto de chegada" do "modelo privatização/concessão". Pouco tempo depois, em meia dúzia de linhas deixadas cair no mesmo Expresso, o então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, igualmente presente nessa reunião, "matou" a hipótese em causa sugerindo que se ela avançasse o CDS teria de rever os termos do acordo de coligação. Prevaleceram, do programa original do governo, as pernósticas "condições de mercado" para não mais se falar em mudar o modelo de gestão da RTP e substituir a indemnização compensatória pela taxa audiovisual. O dr. Ponte, por consequência, não "travou" nada. Limitou-se a fazer o que lhe mandaram: esquecer quaisquer "cenários" de concessões ou privatizações. O resto da história é triste e relativamente conhecido.

30.1.15

Um erro


 


O dr. Costa mal apeou o dr. Seguro, substituiu a liderança parlamentar do PS por Ferro Rodrigues. O antigo secretário-geral é uma sombra daquilo que representou, mal ou bem, no princípio da década. Obteve um resultado honroso, depois de Guterres, contra Barroso e ganhou-lhe umas europeias. Zangou-se com Sampaio e bateu galhardamente com a porta. Com a emergência de Sócrates, Ferro voou até Paris onde foi um apagadíssimo embaixador na OCDE. Com a queda do "socratismo" regressou a deputado e a vice-presidente do parlamento. Não se distinguiu especialmente a não ser na intendência partidária ao ser dos primeiros a declarar o seu acrisolado apoio a Costa contra Seguro. Costa devolveu a gentileza oferecendo-lhe um lugar que já tinha sido seu quando Ferro mandava no partido. Acontece que o tempo, esse cruel escultor, é impiedoso. A "imagem" do ersatz do secretário-geral do PS na AR é a de um homem fatigado que lê umas fichas, sob a forma de discursos, sem rasgo, entusiasmo ou convicção. É evidente que a "sorte" do PS me é indiferente. Mas ao próprio PS não deveria ser uma vez que aspira o poder daqui a uns meses. Se ainda não perceberam que a escolha de Ferro para líder parlamentar foi um erro, arranjem quem lhes explique porquê,

Ele anda por aí


 


O dr. Ricardo Salgado andou a rever as suas agendas. E decidiu revelar, mais do que à comissão parlamentar de inquérito, ao país encontros com o PR, o PM e o vice PM no auge do desastre anunciado. Não me parece que o Parlamento possa "chamar" o PR a depôr, mesmo por escrito, na comissão. Todavia o PR decidiu falar e mal. Crispado, o Doutor Cavaco referiu as quase três mil audiências que já concedeu e o carácter entre o sigiloso e o discreto das mesmas. Isto para concluir ser "mentira" ter feito um voto público de confiança no então BES à beira do abismo. As palavras que proferiu na altura, numa visita ao estrangeiro, foram repetidas nas televisões. Cada um, se lhe apetecer, tirará as suas conclusões. A minha é mais prosaica. O dr. Ricardo Salgado, para usar uma recorrência trivial na política, pode ter sido forçado a abandonar o regime. Mas não há meio de o regime "sair" do dr. Ricardo Salgado.

Do pior do Crato


 


«Dezenas de analfabetos que gostam de se dar ares fizeram um escândalo com o aparente excesso de erros de ortografia, pontuação e sintaxe dos 2490 professores que se apresentaram à “Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades” (PACC). Deus lhes dê juízo. Para começar, não há em Portugal uma ortografia estabelecida pelo uso ou pela autoridade. Antes do acordo com o Brasil – um inqualificável gesto de servilismo e de ganância –, já era tudo uma confusão. Hoje, mesmo nos jornais, muita gente se sente obrigada a declarar que espécie de ortografia escolheu. Pior ainda, as regras de pontuação e de sintaxe variam de tal maneira que se tornaram largamente arbitrárias. Já para não falar na redundância e na impropriedade da língua pública que por aí se usa, nas legendas da televisão, que transformaram o português numa caricatura de si próprio; ou na importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas. De qualquer maneira, a pergunta da PACC em que os professores mais falharam acabou por ser a seguinte: “O seleccionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol (para que seria?). Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes. Supondo que o seleccionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes (é inferior, superior ou igual) ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos.” Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido. Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder. O dr. Crato perdeu a cabeça. Na terceira pergunta em que os professores mais falharam, o dr. Crato agarrou nas considerações tristemente acéfalas de um cavalheiro americano sobre “impressão e fabrico” de livros. Esse cavalheiro pensa que há “livros em que a beleza é um desiderato” (ou seja, a beleza do objecto) e outros “em que o encanto não é factor de importância material” (em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga). E o homenzinho acrescenta pressurosamente: “Quando tentamos uma classificação, a distinção parece assentar entre uma obra útil e uma obra de arte literária”. A obra de arte pede beleza ao tipógrafo (ao tipógrafo?), a obra útil só pede “legibilidade e comodidade de consulta”. Perante este extraordinário cretinismo, a PACC exige que os professores digam se o “excerto” “ilustra” os dois termos de uma comparação, o primeiro, o segundo ou nenhum deles. Uma pessoa pasma como indivíduos com tão pouca educação e tão pouca inteligência se atrevem a “avaliar” alguém.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

29.1.15

A "formiga" e a "cigarra"


 


No final do conselho de ministros doméstico, o dr. Marques Guedes - um homem afável, trabalhador e generosamente imaturo enquanto político - recorreu à famosa fábula para falar de nós e da Grécia. Segundo o ministro da presidência, Portugal seria a "formiga" e a Grécia uma "cigarra". Ninguém tem, ou deixa de ter, de louvar-se nos resultados das eleições gregas seja a título de mimetismos inaplicáveis, seja porque apenas concebe a "Europa" enquanto "tratado orçamental" e pouco mais. Mas, no mínimo, pode esforçar-se por tentar entender o que se passou. Por outro lado, um módico de cultura democrática manda que se respeite sufrágios mesmo quando, a final, não nos agradam. Todavia, e até agora, o governo de Portugal não tem feito outra coisa pela boca dos seus mais elevados dignitários do que apoucar o seu homólogo helénico. Não lhe dá, sequer (o que é ainda mais ridículo vindo de onde vem), o benefício da dúvida. O dr. Marques Guedes devia estar "embalado" pelas redução, em décimas anãs, das estatísticas do desemprego onde a sua formosa "formiga" ainda tem muito caminho pela frente. Porque a "notícia" continua a ser um patamar de quase 700 mil desempregados e um aumento do desemprego entre os mais jovens. Em matéria de insectos, rastejantes, estamos conversados.

28.1.15

Draghi sentado nos bancos


 


«Num ponto crucial os alemães conseguiram vencer. Esse ponto é o da repartição das perdas resultantes de eventuais "defaults". Draghi teve de aceitar que 80% dessas responsabilidades fossem assumidas pelos bancos centrais dos 19, ficando o BCE apenas com 20%. Esta opção é uma derrota clara para os países que defendem que eventuais prejuízos de políticas do BCE deveriam ser assumidos pelo BCE, dado haver uma zona monetária unificada. Itália e Irlanda manifestaram de imediato o seu desacordo acerca da repartição de riscos pelos 19. Portugal ficou calado, como de costume. A Espanha optou por um silêncio que, tal como o silêncio de Lisboa, só pode ter uma raiz ideológica desfasada da realidade... Agora, uma questão se coloca: será o QE suficiente para atingir os grandes objectivos pretendidos, ou seja, retoma económica, crescimento, combate ao desemprego? Uma primeira resposta é não. A compra de dívida pública e privada pelo BCE, mesmo em larga escala, por si só, não será suficiente. O que faltará então? Uma reforma inadiável: que a banca aproveite esta oportunidade para mudar o seu "mindset". Focando-se menos em operações de capital financeiro a curto prazo e na compra de dívida soberana. E centrando-se mais no financiamento às empresas e à economia real. Esse reposicionamento estratégico dos bancos implicará o desejo de assumirem um maior papel no "funding" de projectos - públicos ou privados - de desenvolvimento e criação de emprego. Essa mudança de foco da banca é crucial para o sucesso do QE na Zona Euro. E, naturalmente, também para o futuro do euro e da União Monetária.»


 


Carlos Vargas, Jornal de Notícias


 

27.1.15

O terrível cortejo de sombras


"Por que permaneceste em silêncio, Senhor?", questionou Ratzinger perante o "terrível cortejo de sombras" de Auchwitz. "Num lugar como este faltam as palavras. No fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado, um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte. Todavia este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante". Como é possível continuar a crer depois "daquilo"? O Papa Emérito respondeu. "Por detrás destas lápides encontra-se fechado o destino de um número incontável de seres humanos. Eles pertencem à nossa memória e estão no nosso coração. Não têm qualquer desejo que nos enchamos de ódio. Pelo contrário, revelam-nos o efeito terrível do ódio. Pretendem ajudar a nossa razão a encarar o mal enquanto tal e a rejeitá-lo. O seu desejo é que se instale em nós a coragem para fazer o bem e para resistir ao mal. Querem que vivamos os sentimentos expressos nas palavras que Sófocles colocou nos lábios de Antígona face ao horror que a cercava: "estou aqui não para que nos odiemos todos mas para que nos amemos".

26.1.15

Mudar de explicadores


 


Com o governo em mera gestão corrente, o dr. Passos só vivifica politicamente com a impossibilidade e não admite que terceiros tentem, mesmo errando, ir além dela. Deve, aliás, ter sido o primeiro político mundial a fazer tremelicar o novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, a par com o sempre inspirado dr. Lima. O chefe do nosso governo, invariavelmente desastroso nos seus improvisos moralistas, "ameaçou" o homólogo com o fardo do austeritarismo e o não menos fantástico "tratado orçamental". Falou, até, em "contos de crianças". Não se deu, porém, conta que presumivelmente ninguém, mesmo antes das Linhas de Torres Vedras, lhe presta a mais vaga atenção. Nem a ele nem ao atarantado dr. Costa. Mas se o dr. Passos estava a falar para os autoctónes, então a coisa é um pouco mais séria. Quer dizer que tenciona não apenas continuar a pregar o retorcido evangelho dos "pobrezinhos e honrados" como fazer dele uma cartilha eleitoral da putativa maioria renovada nos seus desamores e enlaces improváveis. O que não deixa de fazer algum sentido. Sentou-se, impávido e silencioso, em todos os Conselhos Europeus previamente "decididos" pela admirável senhora Merkel. Acatou e, no que pôde, mais do que acatou o que a senhora o mandou fazer. Qual prestimoso devoto, achou agora por bem fazer de prolegómeno ambulante da senhora. Custa-lhe entender uma Europa diversa de soberanias. Deve mudar rapidamente de explicadores.

O enviado especial enquanto cabotino


 


Não vi a "cobertura" das eleições gregas na RTP mas parece que o "escritor" Rodrigues dos Santos, para lá enviado, perpetrou além da chinela. Percebe-se assim aquela imaginação transbordante, tão cabotina quanto prolixa no que rende nas "grandes superfícies", do "sonhar em fazer sopa de peixe com leite das mamas", entre outros delírios que, no fundo, resumem a sua extraordinária "fúria divina": “estão a passar-se coisas de grande gravidade” e "tem de haver uma explicação para estes comportamentos". Ou talvez não e, aí, o melhor é despejar-lhe os milhares de exemplares da sua profícua tijoleira pela cabeça abaixo e acabar com quaisquer dúvidas.

25.1.15

Hubris

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Aparentemente a Grécia decidiu deslaçar, em modo soberano, o pastelão político que reina por toda a "Europa". Dá vontade de rir, se não fosse revelador da pobreza de espírito doméstica, ler nos rodapés nas nossas queridas televisões (a que só acedem os tudólogos maioritariamente nulos do costume) "o partido da extrema-esquerda Syriza ganha...". Se ganhou com cerca de 40% dos votos, quer dizer que não foi a extrema-esquerda que açambarcou o escrutínio. O "povo" usou o Syriza para "mudar" o "grande centrão" do falecido PASOK e do sr. Samaras. Por cá ainda só estamos habituados a "trocar" de partidos e não exactamente a "mudar". É claro que quem por aí se reclama da irmandade com o Syriza, tipo o Bloco e mais meia dúzia de almas penadas, vai ter uma enorme desilusão. Até o PS do dr. Costa, desprovido de ideias e de iniciativa, se "colou" a esta vitória anunciada quando o seu homólogo grego roça uns patéticos seis por cento. O "sentido" deste resultado não é apropriável por quem é ou foi complacente, na periferia, com a "Europa" da oligarquia dos "conselhos europeus" indecisos Tão mais indecisos quanto prometiam "decisões" que mais não eram, e são, uma espécie de "nep's" da tropa para aplicação acrítica por "inferiores".

Um pequeno passo na floresta


 


«A entrevista do presidente do Conselho Geral Independente (CGI), António Feijó, à RTP Informação foi uma lufada de ar fresco no discurso público de Estado sobre a RTP e o serviço que deve prestar aos portugueses. Pela primeira vez desde sempre, um responsável pela empresa disse com clareza que o interesse público da programação deve sobrepor-se à estratégia comercial e de concorrência com os privados. Se outros já o disseram, não o praticaram nem queriam praticar: era língua de trapos. Feijó falou com convicção. Quem, como eu, defende essa mudança há décadas, terá sentido o conforto de não ter clamado no deserto. Embora não estejamos no ponto de não-retorno, dificilmente se poderá voltar totalmente atrás. Em Portugal, o Estado, os governos, as instituições e seus responsáveis são muito temerosos e não conseguem dar grandes passos, mas parece ser previsível que, em termos de delineação oficial de estratégia, se avançou um passo. Não é pouco. Na entrevista, Feijó, cuja profissão nada tem a ver com os media, mostrou que tem estudado os dossiers e uma visão clara de aspectos fulcrais. Todavia, nem tudo o que é essencial parece ser correcto na visão do CGI, nomeadamente questões práticas que têm o condão maçador de deitar grandes teorias abaixo. Dado que o entrevistador, Vítor Gonçalves, insistiu em pontos menos importantes e tinha uma paleta demasiado limitada de perguntas, ficámos sem saber o que o CGI pensa de algumas questões, como a do convite do CGI à ilegalidade no que toca à gestão dos conteúdos. Como referi na semana passada, o CGI nomeou um "administrador de conteúdos", na perspectiva de que ele possa intervir na programação, o que seria uma clara violação da lei. Será que pretendem mudar a lei para servir a pessoa nomeada? Por outro lado, Feijó revelou alguma ingenuidade em certas matérias, nomeadamente quando passou por cima de metade dos curricula de dois dos administradores indigitados para elogiar a outra metade. Essa denegação costuma desiludir quando já é tarde e, no caso, pode custar caro ao bom projecto do CGI e aos nossos impostos. Também me pareceu ingénuo assumir que, com publicidade, a RTP pode conseguir a estratégia de sobreposição do interesse público ao comércio e concorrência nos conteúdos. Ultrapassar esse imbróglio, a que Feijó chamou e bem uma quadratura do círculo, não está de forma alguma assegurado, quer com a administração indigitada, quer com a oligarquia actual nos conteúdos ou, previsivelmente, a próxima.»


 


Eduardo Cintra Torres, CM


 


Nota: A RTP "descrita" por Feijó, e glosada por Eduardo Cintra Torres, é ainda a RTP cujo estatuto empresarial (público) se sobrepõe à "ideia" de disponiblização de conteúdos de serviço público independentemente desse estatuto. Não tenhamos ilusões. "Esta" RTP não deixará completamente de ser "controlável" até pelos perfis escolhidos para a administração. Foi, a batalha da concessão a privados ou de privatização, uma abdicação deliberada deste governo (do PSD mais adequadamente) ao mais alto nível. Suspeito que nunca haverá "condições de mercado"  (isto é, de regime, de interesses e partidárias) para o efeito. Pague-se, pois, em conformidade.

22.1.15

O país dos "acordos amigáveis"


O dr. Alberto da Ponte está muito contente por "por ter chegado a um acordo", "por ter sido reposta a reputação e, sobretudo, por ter poupado a RTP das consequências negativas que de outra forma não poderiam ter sido evitadas". Segundo o Expresso, "o braço de ferro que se viveu até agora deu entretanto lugar a um acordo amigável e sublinhado por vários elogios, movidos pela "salvaguarda do superior interesse da empresa". Este é, afinal, um sucinto retrato de um certo Portugal de pequeninos (haverá outro?). Todos, quase sempre os mesmos que geralmente não se podem ver, chegam a "acordos amigáveis" para salvaguardar as respectivas "reputações" (cuidado, diz Jorge de Sena num famoso Prefácio, «com a segunda e a terceira sílabas daquela palavra tão honrada como as outras, nestes tempos em que tais luxos de honra se vão perdendo no universo»). Quem não está para "acordos amigáveis" é invariavelmente pago em isolamento e indiferença. Vem a propósito citar umas linhas de Pier Paolo Pasolini. «A única coisa que dá verdadeira grandeza ao homem é o facto que ele morre. Há dois ou três dias entrei numa trattoria romana cheia de imbecis, de mulheres insuportáveis, elegantes, de homens ricos e odiosos. Todavia eram "grandes". Eu também sentia neles a "grandeza" do homem e isso simplesmente porque dentro de cem anos serão esqueletos! O que quer dizer que a única grandeza do homem é a sua tragédia. Se não fosse assim, ainda estávamos na pré-história."

21.1.15

Não tem emenda


 


Em Aveiro, o dr. Portas - que aparentemente passou a dedicar-se à economia com o mesmo entusiasmo com que, jornalista ainda adolescente, se dedicava a lançar reputações ao canil municipal - afirmou achar "que a palavra que as pessoas vão perceber nos recibos dos salários, nos recibos do IRS e nos recibos das pensões é recuperação, porque nos meses de Janeiro e Fevereiro os funcionários públicos vão recuperar 20% face ao corte que tinham tido e o IRS das famílias com filhos desce consideravelmente.» O dr. Portas não consegue "recuperar" do lastro demagógico que tem percorrido toda a sua vida política, insuperável em longevidade e imoderação. Porque se os visados olharem para além dos recibos e repararem depois nas contas, a coisa resulta diversa. O que disse, porém, revela que, fora o trabalho partidário, o dr. Portas há muito que desconhece o que tem sido trabalhar por conta de outros de há uns anos para cá. Se conhecesse saberia que a "recuperação dos salários e pensões" de que se gaba ou é inconsequente, ou se for um pouco mais do que inconsequente é "comida" pela tributação. Depois insiste em separar portugueses com filhos de celibatários, apresentando a sua gloriosa "reforma do IRS" como uma vénia que a virtude presta a quem aprecia reproduzir-se "como coelhos", para usar um termo papal. Não tem emenda.

20.1.15

"Essa classe humana que é necessariamente numerosa"


 


Este é um abraço em forma de post dedicado ao Manuel Maria Carrilho que eu trato invariavelmente por professor e que estimo como amigo. Os autores são também do seu agrado. E são sempre actuais na sua acutilância. Como Jorge de Sena, numa entrevista: «Sou uma espécie de exilado profissional. Eu acho que já o era em Portugal, antes de lá sair, visto que tantos acharam que eu era uma pessoa horrorosa, altamente incómoda, desagradável, etc., etc. – e apesar dos muitos amigos, eu tinha criado à minha volta um grande isolamento. Mas devo dizer que nunca senti este isolamento inteiramente porque o meu isolamento foi sempre o isolar-me dos medíocres, procurar não ter contacto com essa classe humana que é necessariamente numerosa… Aliás foram sempre eles as pessoas que menos gostaram de mim (...) Não perdoo a ninguém a mediocridade, a estupidez, a vileza, a malignidade, a incultura, a suficiência, a intolerância, o espírito de compromisso, a cobardia moral.» Ou como Carlo Cippola, em Allegro Ma Non Troppo, sobre as cinco leis da estupidez humana: «1ª - Cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação; 2ª - A probabilidade de uma certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa; 3ª - Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para sí, ou podendo até vir a sofrer um prejuizo; 4ª - As pessoas não estúpidas subestimam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem-se constantemente que em qualquer momento, lugar e situação, tratar e/ou associar-se com indivíduos estúpidos revela-se, infalivelmente, um erro que se paga muito caro; 5ª - A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.»

Entrevero


 


Em 1970, Marcos André (António Marques André) editou um livro de poemas no Brasil. Ofereceu-me um exemplar que dedicou "a um leitor que gostou de "coisas" que nele vão escritas". Nas palavras que antecedem os poemas, André pergunta por que os decidiu editar. Seria «por ter sido surpreendido, ao iniciar a minha carreira de livreiro, com a chamada elite cultural, emaranhada e desgastando-se inutilmente em intriguinhas provincianas?" Seria porque foi acometido pelo "vómito mental que sentia por ver e constatar tanta estreiteza e mesquinhez?" As questões deixadas em aberto andam por aí como andavam na altura em que André, por São Paulo, as formulou. Marcos André faleceu no passado fim de semana e não sei se chegou a ver a Lácio "recuperada". De qualquer modo "sobrevive" no seu livro e na memória daqueles que o conheceram e que com ele partilhavam idêntica paixão inútil (como todas as paixões) pelos livros. E que não se conformam com a sobrevivência, praticamente em regime de exclusividade, dos pulhas e dos anacoretas. António Marques André passou definitivamente a fazer parte  dos "céus desabitados" da frase de Aparição, de Vergílio Ferreira, que escolheu como epígrafe para o seu livro:«que mais há na tua vida que o teu canto, a angústia do teu grito contra os céus desabitados?»


 


Foto: Quadro de João Vieira

19.1.15

O frenesim


As patéticas danças e contra-danças sobre as próximas eleições presidenciais - até a fatal "D. Constança" de outras lides já foi chamada à colação -, à distância de um ano e depois de uma opção minimalista do actual dignitário, só se justificam precisamente por causa da forma como, a partir de dado momento, o Doutor Cavaco decidiu "presidir" e menoscabar a função presidencial. Os proto-candidatos da "direita" sofrem nos "estudos de opinião" com o deliberado recúo do protagonismo presidencial por parte daquele que, aquando da apresentação da sua candidatura em Outubro de 2005, defendeu um "Presidente protagonista" e, depois, perpetrou uma "inversão de marcha" que se acentua a cada dia que passa. Isso "paga-se", como explicou Marcelo, quer nas legislativas quer nas presidenciais. Se a "direita" não apostar em alguém que cresça da desacreditada coligação para o país, e vice-versa, bem pode arrumar as botas numas e nas outras. E as candidaturas lambe-botas, venham de onde vierem, também.

17.1.15

"Abanões"


 


O dr. Costa anda agarrado à sua "agenda da década" como gato a bofe. "Prega" generalidades e exibe a coisa, com capa verde e vermelha, como se fosse o derradeiro romance da sra. Rowling. Ao "evangelismo" do dr. Passos o dr. Costa contrapõe o seu que, à falta de melhor, comporta a retirada de cadáveres políticos do jazigo no qual estavam adequadamente depositados há anos. É o caso da regionalização rejeitada em referendo realizado em 1997. Se o PS fosse ler o que o dr. Soares disse dela, talvez não fosse má ideia. Juntou-se-lhe o dr. Rio que manifestamente se transforma de dia para dia no "homem desfocado" de uma personagem famosa de Woody Allen. Quer dar "abanões" no regime mas ainda não percebeu que tem de começar por ele. Não espanta, pois, que o dr. Costa de Maio de 2014 se tenha eclipsado nas sondagens de Janeiro de 2015. Os "estudos de opinião" devolvem o partido ao estado em que se encontrava com Seguro há precisamente um ano. Como diria o seu compagnon de route Rui Rio, está a precisar de um "abanão".

16.1.15

O aborto


 


O pouco que vi, ouvi e li sobre a "paz social" que o governo teria estabelecido com sindicatos da TAP que representam cerca de 30% dos seu trabalhadores - e que deixou eufóricos Sérgio Monteiro e Pires de Lima, para meu espanto em relação ao primeiro já que do segundo pouco há a esperar -, relativamente ao "caderno de encargos" da privatização, revelaram-me um aborto jurídico, social e político. Qual será o tótó disponível para "comprar" uma coisa nas condicionantes absurdas anunciadas pelo governo? E quem terá sido o brincalhão que "aconselhou" o governo a fazer esta figura? Que pobreza de país, afinal, é este?

15.1.15

Possibilidades de mundo


 


Estava a ler esta notícia e lembrei-me de um texto recorrente (pelo menos para mim) de Vasco Pulido Valente. No concurso público externo - com provas escritas e entrevistas, realizado em 1991, com cerca de duzentos e tal oponentes - em que estivemos juntos, eu e o actual Inspector-Geral de Finanças, "calhou-me" o segundo lugar da lista de classificação final. O primeiro foi para um quadro da então Direcção-Geral das Contribuições e Impostos, que desistiu, e que é hoje o "número dois" da Autoridade Tributária e Aduaneira. Dos licenciados em direito dessa lista de dez ou onze, outros foram dirigentes da administração pública por aqui ou ali. Até eu, ainda que por breves instantes, quando era vivo. O Vítor Braz chega agora, por mérito próprio, à liderança da IGF. Trabalhador, sério e perspicaz  vai certamente, e desde que os crápulas de serviço o deixem, fazer um bom lugar. Estes meus amigos tentaram e tiveram sucesso, tentaram melhor e tiveram ainda mais sucesso. Contrariamente a eles todos, sou mais "beckettiano" nestas como em quase todas as "matérias": o fracasso seguinte é sempre melhor que o anterior. Todavia não me "queixo". Se tivesse seguido, certinha e videirinha, uma "carreira", fosse ela qual fosse, não teria tido outras possibilidades de mundo que acabei por ter mesmo que não haja mais. Não sei, aliás, se me serviram para alguma coisa a não ser naqueles precisos momentos em que ocorreram: lugares, pessoas, circunstâncias, riscos, risos, um pouco de felicidade. Mas, dizia, lembrei-me de Vasco Pulido Valente ao entrar na década dos cinquenta e ao olhar para isto tudo. «Penetrei na impropriamente chamada meia idade desta maneira: ou seja, aflito. O céu caiu-me em cima sem aviso. Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me. Deus sabe que eu nunca fui assim.»

14.1.15

Dos tempos de lixo*


 


Tal como o António Araújo não o tem por um canalha, também não tomo o dr. Magalhães e Silva - ilustre causídico e antigo assessor de um Presidente da República - por um vulgar monte de merda.


 


*copyright José Pacheco Pereira

13.1.15

Ronaldo, o país longínquo


 


O Doutor Cavaco foi dos primeiros a felicitar o "bola de ouro". Marcelo antecipou-se e esteve na casa do jogador, em Madrid, onde almoçou na semana passada e aparentemente o terá entrevistado. Não percebi bem para quê no meio da última salganhada dominical: Marcelo não podia falar de política e o futebolista não podia falar de futebol. Terão falado de quê, da sobremesa? Santana Lopes, no Facebook, sentiu-se "orgulhoso" tratando o rapaz por "tu". O primeiro é PR e os outros aspiram a poder aspirar a ser. O Doutor Cavaco é selectivo nas suas "felicitações" as quais costumam ser distribuídas ou não, como as prebendas, em função de velhos "amores" ou "ódios" de estimação. Marcelo e Santana jogam na ambiguidade mediática que os constitui enquanto agentes político-comunicacionais, "chegando-se à frente" sempre que podem. A apropriação doméstica de Ronaldo, em que estes são meros episódios elucidativos (e ainda falta a "chave da cidade" do dr. Costa), evidencia a carência simbólica em que pastamos. Ronaldo, em determinado sentido, representa tudo o que gostaríamos de ser. Os outros - Cavaco, Marcelo, Santana ou Costa - são o que nós somos.

12.1.15

O "bloco central" em Cabo Ruivo


 


O regime, como abundantemente tenho escrito, não permitiu a privatização ou, sequer, a concessão de quaisquer activos da RTP a privados. Nunca cheguei a perceber bem a quem é que a RTP "apetece". Mas compreendo por que é que o "meio" demonstra, sempre que pode, um acrisolado amor ao "serviço público" que deliberadamente confunde com a empresa à qual está concessionado. Sei, porém, quanto é que custava na versão indemnização compensatória e, agora, mediante a incorporação da taxa do audiovisual nas facturas da electricidade. Em 2011 uma das maiores "facturas" provinha da rubrica "fornecimento de serviços externos". E uma das maiores "beneficiadas" era a produtora "Produções Fictícias" que, se não erro, recebera no exercício anterior à volta de dois milhões de euros. Um passado que Nuno Artur Silva tem, natural e legalmente, de deixar para trás por causa das "incompatibilidades" enquanto administrador para os conteúdos da RTP proposto pelo Conselho Geral Independente. Todavia não haveria mais ninguém, não tão anteriormente comprometido com os ditos conteúdos e com outros operadores, para o lugar? Haveria mas, como diz o outro, não era a mesma coisa. Quanto a Gonçalo Reis, que presidirá, já passou pela "RTP Almerindo Marques" (nas versões "sarmentista" e "socratista") e é um compagnon de route do PSD, amigo de Morais Sarmento e de Carlos Moedas e bom rapaz. Nuno Artur Silva, por outro lado, é um conspícuo apoiante de António Costa que, imagino, lhe retribui o afecto. Falta o administrador com o pelouro financeiro embora Luiana Nunes, a incumbente, devesse permanecer porque trabalha, um pormenor que dá sempre jeito. Tudo visto e ponderado, a RTP fica onde sempre esteve - nas mãos do "bloco central". Parabéns à prima.

11.1.15

Não tem cura


 


Não vi mas parece que "palpitou" ao dr. Marques Mendes ("intuições") que o dr. Rio também pode ser candidato presidencial. O dr. Santana Lopes, por seu lado, já "deixou cair" vários murmúrios sobre idêntica matéria e, com a mesma rapidez com que o fez, veio a seguir dizer que não era bem aquilo que queria dizer. Um auspicioso começo. Daqui a pouco Marcelo comentará isto tudo consigo dentro e fora disto tudo simultaneamente. Este ridículo frenesim não comove o dr. Passos Coelho que muito justamente o ignorou. A famosa "direita mais estúpida do mundo" pelos vistos não tem cura.

Manifestações republicanas


 


Os franceses manifestam-se com frequência. Estava em Paris na semana que precedeu a segunda volta das presidenciais, em 2002, entre Chirac e Le Pen. Todos os dias houve uma manifestação. No dia 1 de Maio, fora as habituais alusivas ao dia, também a Frente Nacional atravessou a capital para se deter em frente à Ópera para ouvir, para aí durante cerca de três horas, o pai da actual líder. Em 45, imediatamente após a "Libertação", De Gaulle desceu os Campos Elísios com uma multidão atrás dele. Vinte e tal anos depois, com o país dividido na sequência dos episódios de Maio de 68, o "povo gaullista" juntou-se aos milhares numa "marcha patriótica" liderada por André Malraux de apoio ao presidente. No dia da sua posse, em 1981, Mitterrand subiu a Rua Soufflot a caminho do Panteão rodeado pelo "peuple de gauche" finalmente admitido na V República fundada por De Gaulle. Até o pobre Hollande encheu a Bastilha na noite da sua vitória. As "manifestações republicanas" são, pois, uma constante em França sobretudo desde a "diluição" do regime gaullista nos seus sucedâneos híbridos e nas "coabitações". Chirac arrecadou quase oitenta por cento dos votos na reeleição à conta disto. Apesar de Marine Le Pen ter sido recebida pelo Presidente no Eliseu, os "manifestantes republicanos" não a quiseram ver, ou aos seus, por perto nas ruas em defesa da liberdade. Erraram. Le Pen foi, e adequadamente, criticada pela sugestão acerca de um referendo sobre a pena de morte num país que só a aboliu com a emergência presidencial de Mitterrand. Mas também por ter reivindicado a revisão de Schengen. Aparentemente muitos responsáveis governamentais europeus pelas pastas da administração interna concordam com ela e pretendem "estudar" a matéria. Depois de vencer as "europeias", Marine Le Pen persiste desprezada pelos oligarcas da V República. Os avoengos haviam feito o mesmo a Mitterrand entre 1958 e 1981. Oxalá não se arrependam.

9.1.15

"Viver habitualmente"


 


Portugal entrou o ano no seu "viver habitualmente" recomendado pelo Doutor Salazar. É claro que decorre algum frisson motivado pelo terror em França. O dr. Costa não perdeu tempo a juntar os "seus" em frente à "sua" Câmara, o Doutor Cavaco declamou o seu denodado amor pela liberdade e pela democracia aos embaixadores e o governo, através do MNE, emitiu um comunicado patético que declarações posteriores do dr. Passos e do dr. Machete tentaram temperar (o dr. Portas não é visto desde a sua incursão brasileira de final de ano). Também decorreu uma manifestação "eu sou Charlie" (até já há um "negócio" de t-shirts) nos Restauradores em nome da liberdade de expressão. Suponho que do não inscrito nessa manifestação faria parte a solidariedade para com os agentes policiais (um deles, de ontem, uma rapariga de 25 anos) que tombaram em serviço. Mas o Doutor Cavaco fez mais. Continuou a sua prédica acerca do que espera de uma política doméstica que ele, voluntariamente, não controla. Prevê, e bem, que não haverá maiorias monocolores ou coligatórias antecipadas. E não se importa (que pode ele fazer nessa altura?) que decorram "negociações" demoradas para que da eleição resulte um belíssimo e tranquilo arranjo governativo que, presumo, consiga fazer o que em quarenta anos tanta gente não conseguiu fazer, ele incluído. Mesmo assim o Doutor Cavaco reconhece que "estamos no bom caminho", presumo de novo, com os incumbentes. O dr. Costa apareceu imediatamente a verberar esta tese com a sua da putativa "maioria absoluta" do PS. O dr. Costa recusa-se a aceitar - pelo menos publicamente como lhe compete, aliás - que, de Maio passado até agora, a "realidade" dele mudou. Não é mais o príncipe encantador que os jornais, e uma televisão em especial, trataram de produzir. É mais um secretário-geral do PS com uma fraqueza congénita de tropas e de "agenda". É um perfeito holograma do dr. Seguro de há um ano com a vantagem de este ter saído com duas vitórias eleitorais a seu crédito e da anunciada dele, para o ano em curso, ir deslustrar as "expectativas" dos idos da pretérita época primavera-verão. Até pode "chegar" à frente da proto coligação como é natural que chegue. Pouco mais, no entanto, passará disso. As pessoas não têm a menor saudade de maiorias absolutas sobretudo da derradeira. Preferem, de facto, "viver habitualmente".


 


Foto: Eduardo Gageiro

7.1.15

Soldados da liberdade


 


 


Robert Badinter - o homem que em 1981 anunciou a abolição da pena de morte em França - apelidou as vítimas da barbárie que ocorreu em Paris de soldados da liberdade. Como é de praxe, quando caem soldados outros, multiplicados, erguem-se para ocupar o seu lugar. Ninguém é de mais na defesa intransigente da liberdade.

6.1.15

A cloaca


 


Parece que foi Augusto Santos Silva que disse ser este um ano perdido. E parece que tem razão. Por causa dos cálculos eleitorais o governo não governa, a coligação jaz morta e apodrece (mesmo que seja renovada já está "minada": rançoso só mesmo o bolo) e António Costa limita-se a sorrir displicentemente para as câmaras, até agora com manifesto proveito. No meio desta cloaca política generalizada, a que o Doutor Cavaco preside com equanimidade e desdém, o país "real" vai sofrendo silenciosamente as suas "dores": mais desemprego, menos esperança, menos saúde, menos qualificação e cada vez mais estupidez sistémica. Nada justifica que se prolongue este estertor colectivo até ao derradeiro trimestre de 2015 apenas porque sim. Assim, a continuarmos basbaques, a "maioria silenciosa" fará um real manguito a veleidades absolutistas de quem quer que seja. E seguir-se-á uma trapalhada qualquer de circunstância para salvar as aparências e o Doutor Cavaco de uma retirada pela esquerda baixa. Estamos bem tramados.

5.1.15

Logo se vê


 


Em 1985, vésperas da mais disputada eleição presidencial em quarenta anos disto, os candidatos começaram a aparecer cerca de seis a oito meses antes da primeira volta de Janeiro de 1986. Freitas do Amaral foi o primeiro a lançar-se. No famoso congresso da Figueira da Foz, em Maio, Cavaco Silva declarou-lhe o acrisolado apoio do "novo" PSD - que, nesse momento, ainda estava coligado com Soares no "bloco central" - e Freitas, em cinco minutos no então Hotel Penta, afirmou ir "lutar com alegria pela vitória". Desfeito o "bloco" em Junho, com o governo em gestão até Outubro, Mário Soares foi em Julho ao Hotel Altis declarar-se candidato. Também veio Lurdes Pintasilgo (que esperou em vão pelo apoio de Eanes) e, no cair da folha outonal, Zenha emergiu e nele "convergiram" vários "ódios" o que lhe foi fatal aquando da escolha entre ele e Soares para uma segunda volta com Freitas. A direita tinha um candidato apenas. A esquerda e o centro-esquerda tinham três. Foi a última vez em que a fractura esquerda-direita se fez sentir. Soares ganhou a Freitas com os votos da esquerda toda e mais alguns social-democratas que, aliás, estiveram com ele desde o início. Desta eleiçõão presidencial resultaram várias coisas: o rápido desfazer do PRD de Eanes, que se empenhou em Zenha, dez anos de solidão política do PS que Soares "esvaziou" e a primeira maioria absoluta de Cavaco. Os protagonistas de então, derrotados ou vitoriosos, não se comparam aos de agora. Mesmo Cavaco, quando sair, será uma sombra do que representou durante a sua década em São Bento. Para lhe suceder já se ensaia um pequeno frenesim. Ao quinto dia de Janeiro, Pedro Santana Lopes chegou-se à frente sugerindo que, ao contrário do que sucedeu há trinta anos, a "direita" pode ter mais do que um candidato - ele e Marcelo. E que o "estimula" a eventualidade de ter Guterres do lado de lá porque é um nome "forte". Também considero a presença de Santana Lopes "estimulante" em qualquer acto eleitoral. É intuitivo (o mais parecido, por esse lado, com Soares à "direita"), polémico e audacioso. Todavia, e em relação ao papel do Presidente da República, Santana Lopes não só nunca conseguiu "libertar-se" da "ferida narcísica" deixada pelos eventos de 2004, com Jorge Sampaio, como passou, por causa dela, a defender uma espécie de "presidente parlamentar" ou "governamental" que jamais ponha em causa a extraordinária figura do primeiro-ministro em torno do qual toda a acção politico-institucional deve assentar. Algum direito constitucional chama a isto o "presidencialismo de chanceler" com a diferença, em relação ao Estado Novo dos últimos tempos, da eleição por sufrágio directo do Presidente. Por exemplo, praticamente desde meados de 2011 o incumbente tem, na prática, desenvolvido este "presidencialismo de chanceler": o PR "apagou-se" para o PM "brilhar". Sinceramente não vejo Santana Lopes a "apagar-se", seja quem for que estiver em São Bento, mas é isso que ele colocou em livro. Percebe-se, no entanto, que o homem veio para ficar (nem que seja a falar sozinho durante uns meses) neste território das presidenciais correndo o risco de criar um pequeno "pântano" em torno de si do qual, na hora da verdade, será mais difícil sair (os "dados disponíveis" revelam que Guterres abandonou airosamente o dele). Marcelo tem, sem ter, encontro semanal com esse território todas as semanas: ainda ontem o calendário que dissecou para Guterres era uma perfeita metonímia do seu. E Guterres provavelmente guardar-se-á, e bem, para o fim. Se forem dois ou três da "actual" direita a votos, e Guterres também, talvez haja uma segunda volta. Ou talvez não. Logo se vê.

4.1.15

A "sua verdade" e o direito adjectivo das liberdades


 


Sócrates talvez tivesse informado Costa de que pretendia "defender-se" da forma como o fez junto da TVI. Só isso, ou o mais puro cinismo, poderá explicar a referência de Costa ao direito do primeiro à "sua verdade". O pronome possessivo é eloquente. Certo é que Sócrates efectivamente acabou por contar parte - a sua, naturalmente, aqui sem o "peso" das afirmações do secretário-geral do PS que incluíram algumas notas sobre a justiça - do que se terá, ou não, passado consigo por detrás do espelho do tribunal. O que distingue aqui Sócrates do restante universo dos detidos preventivamente é que, enquanto agente político, participava há anos no processo legislativo. Primeiro como deputado, a seguir como governante. Depois, em consequência disso e contrariamente a esse universo, ser-lhe-ia embaraçoso, para não dizer uma hipocrisia, escrever coisas do género "à justiça o que é da justiça e à política o que é da política" como se ignorasse a existência de uma "política criminal". O que Costa tem de separar pelo seu dever de ofício, Sócrates tem de juntar pelo seu dever de consciência. Ao fazê-lo (calhou ser ele) acaba por prestar um serviço ao universo daqueles que não pensam que o "dever ser" do direito processual penal se destina, a final, a produzir uma sociedade "moralmente" pura onde só haja lugar para os "honestos" definidos a partir do "apuramento" desse importante ramo do direito das liberdades. Seria uma perigosa deriva essa de colocar o direito adjectivo das liberdades fora da definição constitucional da "administração da justiça em nome do povo", interpretando-a num sentido limitativo, ou essencialmente burocrático, dos direitos, liberdades e garantias em nome da utopia dos mais "aptos", social e moralmente falando. Se os operadores optarem uma vez mais, e inflamadamente, pela burocracia e menos pelas liberdades, então teriam de andar muito para trás e chegar porventura até à longínqua manga do aeroporto de Lisboa de uma noite de Novembro. Teriam de passar a pente fino horas de televisão e metros de colunas de jornais entre essa noite e o dia de hoje. O processo, como a poesia no verso famoso de Sophia, está na rua. E não foi numa rua fria de Évora que passou agora a estar.

2.1.15

A via Arriaga do Doutor Cavaco


 


O Senhor Presidente da República abriu o ano com uma mensagem desprovida de qualquer interesse político ou outro. Mal tinha começado e já se ouvia falar em "exportações", "competitividade" e nas fatais "contas públicas". Também surgiram os "compromissos" e uma jura pelos partidos contra o populismo. Só não foi tão "frio" como Passos Coelho porque se avistava uma foto de família com os  netos. Aliás, o "humanismo" da mensagem esgotou-se nessa fotografia: não existem pessoas concretas na fala presidencial. Nem uma palavra para os que estão sós, para os  que sofrem, física, material ou moralmente, para os que nunca pertenceram a "meio" algum. Nada a não ser a continuação do "caminho" mesmo que que seja o "caminho de floresta". A maioria, no estado de necedade coligatória em que se encontra, disse que apreciou as "ideias" expressas pelo Presidente. A oposição discordou delas e "colou" o PR ao governo. Erro dela. O Doutor Cavaco só se "cola" à sua extraordinária pessoa. E já só pensa naquele glorioso momento constitucional em que fica limitado na sua intervenção institucional. Aí, como frisou, é preciso preparar o "pós-eleições". Mas isso não é com ele. O Doutor Cavaco optou definitivamente pela "via Manuel Arriaga". Ainda há-de escrever as suas "Harmonias Sociais" uma vez que anda a sonhá-las acordado.


 


Foto: Jorge Amaral/Global Imagens