Wagner, Die Walküre: Nina Stemme, Vitalij Kowaljow, Daniel Barenboim. Teatro alla Scala, 2010.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
Wagner, Die Walküre: Nina Stemme, Vitalij Kowaljow, Daniel Barenboim. Teatro alla Scala, 2010.
Vitor Constâncio desceu do seu glorioso olimpo para nos vir dizer que "tem de estar sempre em avaliação" a hipótese de um segundo resgate a Portugal. Constâncio, famosamente, é daquelas pessoas com maior "autoridade" para perpetrar cenários deste ou de outro género qualquer. Afinal, não foi essa a sua "especialidade" nos longos anos que levou à frente do Banco central português?
Medeiros Ferreira lembra que a questão da liberdade de voto parlamentar foi sustentada pelos Reformadores em 1979. Por causa do código laboral, a coisa voltou a ser discutida. Ironicamente o PS, cuja actual direcção defendeu como regra a referida liberdade, impôs a disciplina de voto neste caso concreto. E na maioria, mais exactamente no CDS, a disciplina que estava pressuposta desde o ínicio (bem como no PSD) acabou por ser quebrada pelo deputado Ribeiro e Castro à conta do anunciado fim do feriado do 1 de Dezembro. Agora Ribeiro e Castro vai ser "avaliado" pelo seu grupo parlamentar que determinará o consequencialismo adequado. Ninguém é obrigado a ser deputado. Todavia, uma vez eleito, tem obrigação de saber ao que genericamente vai. E não vai, em primeira linha, para votar livremente salvo em duas ou três sofisticadas "questões de consciência". O que não deixa de ter a sua graça porque se há algo que se exige a um representante político, do nível de um deputado, é que tenha alguma consciência. A disciplina de voto parlamentar (por oposição ao "risco" da liberdade de voto) decorre da "evolução" que o parlamento conheceu nestes trinta e tal anos, sobretudo no que concerne à composição das bancadas. É suposto as pessoas levantarem-se em bloco quando é preciso que se levantem ou que se deixem ficar sentadas quando é preciso que fiquem. Estes singelos movimentos corporais não admitem, por princípio, discussão e, muito menos, sobressaltos anímicos individuais baseados em actos de consciência. Ribeiro e Castro devia saber isto de cor.

A novela das audiências televisivas, apenas acessível a iniciados, está bem ponderada para leigos espectadores pelo Manuel Falcão. «Esta situação descredibiliza a medição de audiências – tanto mais que o serviço era suposto estar a funcionar a 1 de Janeiro e três meses depois está no estado que infelizmente se conhece. O pior que podia acontecer era criar a sensação de que os resultados das audiências são afinados com lápis e borracha ao sabor das conveniências.»

Os adversários do governo, sobretudo os anónimos, estão sempre atentos a nomeações e a realizar sobre elas os mais desenvolvidos exercícios de semiótica crítica. Há, porém, determinadas "reconfirmações" que não lhes merecem elogio. Por exemplo, a do presidente da entidade reguladora para a energia ou do administrador da Anacom, Filipe Baptista, ex-chefe de gabinete do ministro do Ambiente do governo Guterres, José Sócrates, e ex-secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, o referido José Sócrates, entre 2005 e 2009. Mais generosidade pascal do que esta é impossível.
Como o Nuno Morais Sarmento salientou na tvi24, o primeiro-ministro, mais do que conceder uma entrevista à sra. dra. Judite de Sousa, foi sujeito a um exame sobretudo de macroeconomia e de economia de empresa a meias com finanças públicas. Foi, para citar o parceiro do Nuno, o insuspeito Augusto Santos Silva, sereno e seguro nas respostas. Em menos de um ano, não só mudou o ruído de fundo (não se ouviu o pupilar dos pavões dos jardins de S. Bento) como se alterou o registo. Não há mistificação, não há ilusões e, muito menos, ficção científica a cores e exibida nas mais sofisticadas plataformas de acesso. Isso explica o crédito que Passos Coelho recolhe num país que, mais do que dinheiro, percebe que precisa de realismo para sobreviver.

«Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome». Veio então do Céu uma voz que dizia: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». A multidão que estava presente e ouvira dizia ter sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou». Disse Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim» (João 12, 20-33)
(via João Távora)
É, de novo, Angola a dizer o que é preciso dizer sobre o "acordo ortográfico", a língua portuguesa e a lusofonia. Sem tergiversações. «O meu país, Angola, tem, por opção e não por imposição, o orgulho de ter a Língua Portuguesa como língua oficial e de escolaridade. Uma língua que, a par de outras línguas africanas, é património de todos os angolanos que a falam, independentemente do facto de a terem adquirido como primeira ou segunda língua. Angola assinou o novo acordo ortográfico, mas, por razões de ordem, essencialmente, científica e cultural, ainda não o ratificou e tem todo o direito de querer voltar a discuti-lo, pelo facto de, em alguns aspectos, não se rever nele. De nenhum modo terá de ser obrigado a consumi-lo, tal como, no seu todo, o mesmo se apresenta. Moçambique também não ratificou o novo acordo ortográfico e há outros países africanos de expressão portuguesa que, apesar de o terem feito, juridicamente, ainda vão a tempo de reponderar sobre determinados aspectos. Em Portugal, por exemplo, o novo acordo ortográfico terá, oficialmente, de conviver com o antigo, pelo menos, até 2015. Assim sendo, o acordo ortográfico de 1945 mantem-se ainda em vigor.(...) Face aos embaraços constatados no novo acordo, não só em Angola, mas também em Portugal, no Brasil e em outros países da Comunidade, só os asnáticos fogem para a frente e procuram impor pela força o que não conseguem convencer pelo uso da argumentação. O jeitinho do “tomem lá o Acordo e não piem”, é uma forma muito pouco urbana, democrática e sensata de tentar resolver o problema. Assim, dificilmente, em português, seremos capazes de nos entender.»
Leio numa breve do Correio da Manhã que Carlos Costa Pina (julgo não errar o nome), antigo secretário de Estado do Tesouro e Finanças do prof. Teixeira dos Santos, vai integrar o conselho de administração da Galp. Antes disso, e depois do governo, Costa Pina esteve (está) na empresa Onging. A questão que se coloca em relação a Costa Pina e similares é saber onde é que trabalhavam antes da passagem pelos governos e por que é que, à semelhança do comum dos mortais, não podem regressar a esse trabalho e devem "honrar", com a sua extraordinária presença, os conselhos de administração das empresas do regime. Estariam desempregados?
Aí por volta das dezanove e trinta de ontem, teminava para mim o breve regresso a um congresso do PSD. Ouvi o presidente do partido ler os nomes que escolheu para os órgãos estatutários. Tenho pena que, por exemplo, Teresa Morais não estivesse entre eles. Todavia não tenho nada com isso: saí tão independente como entrei na Sala Tejo do Pavilhão Atlântico. Agora segue-se o país para o qual, daqui a umas horas, o primeiro-ministro falará. A luta continua.
A mitologia da "competência técnica" tem servido um pouco para tudo num regime demasiado autocomplacente como o nosso. A mesma mitologia pode ser aplicada à política. Por exemplo, não se pode dizer que Sócrates tivesse sido tecnicamente incompetente enquanto político até sensivelmente um ano atrás. Ou que um presidente de uma instituição universitária que anda a "reformar" o Estado a mando de governos distintos, à conta da sua "competência técnica", seja anódino politicamente a partir do momento em que é rotulado de "independente". Teixeira dos Santos, ministro das finanças durante os últimos seis anos, junta um pouco desta parafernália epistemológica na sua gloriosa pessoa. Penso que basta a reflexão do Gabriel Silva para ponderar "tecnicamente" Teixeira dos Santos enquanto putativo dirigente de uma instituição (que tutelou por via de uma golden share), sabendo-se que "politicamente" é sempre possível tudo e o seu contrário.

Ao fim de dez anos - a última vez foi no Coliseu e presidia à coisa e ao governo o dr. Barroso - regresso a um congresso do PSD. Alguns ex-presidentes do partido advogam a separação entre o PSD e o governo. Estive a rever as comissões políticas nacionais do dr. Cavaco e os seus braços direito e esquerdo no partido eram os mesmos no governo, nomeadamente Eurico de Melo, Fernando Nogueira e o referido dr. Barroso. Julgo que a próxima direcção do PSD deve reflectir o compromisso político com o país que foi sufragado nas últimas eleições legislativas realizadas há menos de um ano. Compromisso esse que está representado maioritariamente no governo através do PSD. Dito isto, há espaço para todos e, ao contrário do que imagina o dr. Capucho, não há insubstituíveis.
Disclaimer: Isto é uma opinião rigorosamente pessoal.

No próximo sábado, 24, pelas 20.30, estarei no Restaurante Mercatudo, a Santos, num jantar promovido pelo amigo Amado Estriga que me convidou a abrir as "noites mercatudianas". Não há "agenda" prévia mas julgo, pela minha parte, que quatro temas serão servidos à mesa: o congresso do PSD, a economia, o governo/oposição e o Presidente da República. Apareçam.

Dominique Strauss-Kahn, cuja cabeça que se soergue acima dos ombros é considerada particularmente brilhante, já mal pode sair à rua e, muito menos, falar do que sabe em locais "selectos" como universidades ou o parlamento europeu onde uma cretina qualquer sugeriu que o homem pretendia "refazer a sua virgindade". O mundo foi subitamente varrido pela castidade mental - um "estado fascista da mente", nas palavras de Christopher Bollas citado hoje pelo Esteves Cardoso no Público - que é coisa bem mais sinistra que a outra. A "correcção", perdoem-me o plebeísmo, até já o sexo conseguiu fornicar.
Cada vez que vejo e oiço o Ricardo Costa na televisão - ou calha lê-lo no Expresso -, assalta-me invariavelmente o mesmo desejo: quando for grande, quero ser um sábio completo como ele. Se o país tivesse mais Ricardos Costas, estava salvo.

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina

Em democracia os governos mudam por força da eleição. Mas o pior do regime tende a perdurar por força da inacção. E quando o regime se sobrepõe ao governo - através da mesmice, da complacência ou da trivialidade - podem ter a certeza que não vamos a lado algum.

«Há homens que têm a ventura ou a desventura de viver entre dois mundos. Giuseppe Tomasi, Príncipe de Lampedusa, o homem que fora o rapaz que dizia preferir a companhia das coisas à companhia das pessoas, é uma dessas figuras trágicas. Luchino Visconti di Modrone, Conde de Lonate Pozzolo, alma eternamente perdida entre a estética aristocrática da sua infância (Senso, O leopardo, Morte em Veneza, Ludwig) e o apelo neo-realista do seu ideário comunista (La terra trema, Ossessione) é outra dessas almas penadas do entre dois mundos. Talvez por isso seja filha de ambos essa obra maior sobre a decadência. Decadência de que Visconti dizia ter uma opinião “muito favorável”. Decadência que é simultaneamente luto e esperança e que é, precisamente, o nome do angustiante lugar que é o de entre dois mundos.»
É preciso acabar com os aumentos arbitrários dos preços dos combustíveis.

Na apresentação do livro do José Gomes André, Viriato Soromenho-Marques resumiu o "decálogo" de Madison. Devia aplicar-se, como uma luva branca, ao actual tempo político, europeu em especial. O primado da política, o realismo, a ousadia intelectual e moral, alicerçada na tradição, sem a "novidade" da ignorância, a racionalidade na política, a compreensão do federalismo (na circunstância o dos EUA) como forma superior do republicanismo e da democracia representativa, o juízo sobre a usurpação advém da força das coisas e não necessariamente da letra da lei, a essência da política é o interesse comum (a "salvação pública"), a prevenção de conflitos inúteis (a essência do federalismo), os pequenos poderes podem atingir alguma grandeza, juntar a paixão pela política com a paixão pelo conhecimento e pela cultura ("regressar" aos livros e ao silêncio da leitura), em suma, conhecer a herança mundial. Todavia, Madison não podia prever que, afinal, o conhecimento não viria a governar para sempre sobre a ignorância. Ou seja, o seu "combate" ainda não terminou.
Na sicn observo António José Seguro a "admirar", em directo, as "convicções" do presidente da câmara de Leiria, Raúl Castro. A qual delas é que ele se referia? Às do tempo em que ele presidiu a outra câmara pelo CDS? Às actuais, de edil em Leiria pelo PS? O dr. Seguro - que estimo pessoalmente - passou o fim de semana a falar de saúde. Até o profeta Arnaut foi convocado na qualidade de "pai" do SNS. O que nunca se ouviu ao dr. Seguro foi uma palavra sobre o SNS gerido quase ininterruptamente, durante os últimos quinze anos, pelo PS. Não lhe ocorreu que o SNS não se "salva" com retórica ou com demagogia? Não se lembrou de pedir aos oficiantes presentes um "retrato" do SNS legado pela maioria deles e delas, paizinhos e mãezinhas da coisa? Não sou adepto do abandono do sector da saúde aos famosos "mecanismos de mercado" ou aos interesses rapaces das várias "indústrias" que nele se movem. E duvido que, num país com as nossas características, toda a gente consiga perceber perfeitamente o que é a "livre escolha" para poder "escolher". Sobretudo porque há muita gente que, pura e simplesmente, não tem como ou com que escolher. É por isso que, da banda do Estado, a coisa não pode ser tratada com a leviandade de uma cartilha partidária falsamente ideológica como o dr. Seguro pretendeu fazer durante os oito dias de "branqueamento" dos anos passados de uma dívida acumulada insustentável. O SNS e a sua "saúde" financeira existem para servir as pessoas e não para que alguns, dos partidos a interesses mais ou menos obscuros, se sirvam dele.
«Ler os jornais já não é uma boa maneira de começar o dia. Ver as notícias da televisão já não é uma boa maneira de começar a noite. (...) A televisão e os jornais também foram contaminados por este gosto pelo "horrível", e a RTP, por exemplo, não hesita em nos receber à hora de jantar com meia hora de um acidente ou de um crime de preferência com muitos mortos. Lá por aquelas bandas deve existir a convicção de que lhes pagam para isto. E, com o futebol (em obsessivo pormenor) e uns tiros na Síria, a festa está feita. E é o que, em princípio, os portugueses sabem, ou querem saber, da terra inteira. A pobreza não criou só uma distância material entre o que nós somos e a "normalidade" da "Europa" e da América. Criou também uma distância cultural. Verdade que uns tantos jornais se continuam a lembrar de que o mundo por enquanto não desapareceu e que a Rússia, a América, a China, Israel, o Irão e o Afeganistão continuam a ser sítios de uma considerável importância para a nossa vida. (...) A crise acabou por nos tornar uma tribo que não se vê no mapa, numa periferia de uma periferia.»
Vasco Pulido Valente, Público
Estive a ler a entrevista do ministro da economia e do emprego ao hebdomadário Expresso. Apreciei particularmente a sua atenção contra interesses instalados, contra a protecção excessiva concedida pelo regime a certos sectores em que alguns se comportam como verdadeiros marajás e a sua determinação reformadora. E apreciei os números que apresentou relativos ao seu trabalho anti-espectáculo em matéria de parcerias público-privadas, transportes, energia, apoio às PME's e concertação social. Mas, como escreve o Rui Ramos no mesmo hebdomadário, «as orações fúnebres dedicadas a Santos Pereira dizem-nos mais sobre a indústria do comentário do que sobre o caso em si» porque «é sempre mais fácil uivar com a alcateia.»

Independentemente das qualidades pessoais e políticas dos intervenientes, parece um bocado esdrúxulo andar a pôr as eleições presidenciais de 2016 na "agenda". Por dois singelos motivos. O primeiro, porque está longe de ser uma prioridade nacional e apenas revela um exercício frívolo de empurrões mútuos na disputa pela primeira fila. O segundo, porque Cavaco está praticamente no início do segundo mandato e nunca deve ser subestimado. Diria, aliás, que o famoso prefácio é mais um ponto de partida do que de chegada. Mitterrand, na primeira coisa que disse quando foi eleito em Maio de 1981, mencionou: "nous avons tant à faire ensemble". Julgo que Cavaco pensa o mesmo.
Ligo a televisão. Passam cerca de 15 minutos das 22 horas. Nos três canais de notícias por cabo comenta-se a bola com a sofisticação intelectual de uma noz. Mudo para o segundo canal generalista da RTP. O telejornal está a ser dirigido pela competente Sandra Felgueiras. Vejo Álvaro Santos Pereira no Parlamento e admiro-lhe a seriedade e a combatividade políticas que surpreendem o adversário, o verdadeiro "elo mais fraco", ali, diante dele, cercado pelos seus herdados inimigos internos. O ministro da economia trabalha mesmo, não exibe "corninhos" com as mãos na direcção dos deputados. Passaram mais uns minutos e, nos canais de notícias por cabo, persiste a triunfal demonstração da derrota do pensamento. E o meu respeito por Álvaro Santos Pereira - por pessoas autênticas como Álvaro Santos Pereira - aumenta.
Se acaso um dia o raio que te parta
(enfim obedecendo às fervorosas preces
dos teus muitos amigos e inimigos),
baixa de repente gigantesco
e fulminante sobre ti, e mesmo se repete:
e não te quebra todo, e como desasado,
ou quem morto regressa à sobrevida,
tu sobrevives, resistes e persistes,
em estar vivo (ainda que à espera sempre
de novo raio que te parta em cacos) —
— tem cuidado, cuidado! Arma-te bem
não tanto contra o raio mas principalmente
contra tudo e todos. Sobretudo estes.
Ou sejam todos quantos pavoneiam
o consolo inocente de pensar que a morte
não os tocou nem tocará jamais.
Porque não há ninguém por mais que te ame,
ou por mais que seja teu amigo (e,
com o tempo, os amigos, mais que as criaturas
fiel ou infielmente bem-amadas, gastam-se),
que te perdoe que tu não tenhas estourado,
no momento em que se soube que estouravas.
É uma «partida» (ou um «regresso» sem piada nenhuma)
absolutamente e aterradoramente inaceitável,
humanamente e vitalmente imperdoável.
Pelo que, sobrevivente, pagarás, como se diz,
com língua de palmo. Se és um pobretana,
solitário, abandonado, entregue aos teus fantasmas
que são um palpitar, um estertor, uma opressão no peito
uma tontura, um como que silêncio negro,
podes estar certo e seguro que nem amigo nem amante
está livre de ocupações prementes para te acudir.
Uma que outra vez apenas, para alívio
dos borborigmas morais dos seus estômagos,
irão visitar-te carinhosos. Outros
tentarão acudir-te, ajudar-te, como podem,
e quando em desespero tu reclamas.
Não contes com mais nada senão morte.
Se tens família, amando-te sem dúvida,
inteiramente delicada a ti que seja ou é,
não penses que não és constante imagem
sem desculpa alguma de andar pela casa,
um pouco vacilante, às vezes suplicando
uma pílula, alguma companhia, ou mesmo atrevendo-te
a fazer referências tidas de mau gosto
à espada que para onde vás segue suspensa
sobre a tua cabeça. Porque ninguém, ninguém,
até contraditoriamente porque te amam,
suportam que não sejas quem tu eras,
mas só morte adiada, o que é diverso
do horror de um cancro que não se sabe
quando matará mas é criatura de respeito,
crescendo em ti como se estiveras grávido.
Assim, meu caro, com coração desfeito
sem metáfora alguma, és apenas uma
indecorosa e miserável chatice.
Portanto, irmãos humanos, se estourais,
estourai por uma vez aliviando
quem vos quer ou não quer por uma vez.
Jorge de Sena

«A última coisa com que [Cavaco] deve estar preocupado é com as sondagens.»
José Pacheco Pereira, Sábado
«A prova de que escolheu muito bem a ocasião está no esganiçamento desvairado da guincharia que se levantou.»

O dr. António Costa, de longe o melhor candidato das esquerdas numas quaisquer presidenciais, lançou um livro que celebra 20 anos de vida política e que, de acordo com o título, é um "caminho aberto" para outros tantos vinte anos por vir. Costa manda na minha cidade e jamais com o meu voto. Conheci-o no MASP 1, em 1985, e considero-o um politicão de primeira linha independentemente de não lhe louvar o mandato camarário ou de não esquecer o "socratismo" pífio estilo (que até lhe fica mal) "zé, estamos contigo". É corajoso e firme nas suas posições o que só o beneficia precisamente por causa dos tais vinte anos seguintes. Uma carreira a seguir.
O professor Rosas, do Bloco, que é comentador numa televisão, diz que é exclusivamente com base no que leu nos jornais que está a comentar um determinado assunto. Não vai longe.
Eu, em matéria de energia eléctrica, prefiro a "pequenina luz bruxuleante" de Jorge de Sena. Porque é a única que verdadeiramente brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

Mas o grande acontecimento da semana é, sem sombra de dúvida, a presença de Fanny Ardant na Gulbenkian para interpretar a obra de Honneger, Jeanne d'Arc au bûcher. No meu "tempo" no São Carlos, e por instâncias do Paolo Pinamonti, Ardant esteve quase a vir protagonizar a coisa numa encenação de Luís Miguel Cintra. Veio a isabel Huppert. Joana d'Arc na fogueira, pois então.
Como o nosso augusto Senhor D. Pedro V, com apenas vinte anos, nos topava tão bem. Começo a achar que o envenenaram. Nem que tivesse sido só com o cheiro.

Depois de ouvir um famoso comentador glosar o prefácio de Cavaco, fui ponderar melhor o texto. E espantou-me que o referido comentador tivesse lá visto que o Presidente sugeria uma visão "minimalista" dos seus poderes. E que não tivessse demitido, em consequência dessa "visão minimalista", um primeiro-ministro por falta de lealdade institucional porque tal poderia - conjecturava o comentador - configurar um irregular "funcionamento das instituições democráticas". Sucede que, salvo o devido respeito, o Presidente da República tem toda a razão quando convida a ler o texto todo sem os preconceitos típicos de alguma da opinião que se publica, levezinha e superficial. Não é o caso do mencionado comentador que sabe perfeitamente duas coisas aludidas no prefácio. A primeira, que a revisão constitucional de 1982-1983, feita ad hominem contra Ramalho Eanes, acabou com a dupla dependência política do Governo, a saber, perante o PR e perante o Parlamento. Daí em diante, os PR's só podem actuar, no limite, junto do Parlamento dissolvendo-o e não junto do Governo, demitindo-o. Foi o que Eanes fez em 1985, ou Soares em 1987, ou Sampaio em 2001 e em 2004. A segunda, que o pendor parlamentar do regime é de tal forma uma realidade que, durante o governo minoritário de Sócrates, o Parlamento não aprovou sistematicamente todas as moções de rejeição apresentadas contra o dito governo. Ou seja, não foi o PR que manteve Sócrates. Foi a AR até, por fim, decidir rejeitar o chamado "pec IV" vai para um ano. Cavaco, a partir daí, fez o que lhe competia após a demissão entregue por Sócrates. Isto firma uma "doutrina"? Firma, mas tão somente a que consta do sistema político decorrente da revisão de 1982-1983 e que Cavaco (e os que o antecederam) jurou cumprir. Eu não gosto do sistema. Prefiro um regime presidencialista. Todavia isso não interessa nada. O que interessa é que o Presidente "descreveu" o sistema político implantado há anos pelos partidos do chamado "arco governamental" a partir de um caso concreto. E, num balanço de 2011, o que tornaria decepcionante o prefácio de Roteiros era ter evitado essa "descrição". Nem sequer passou um ano sobre o "caso concreto". Não sejam hipócritas.
«Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus. Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem. (João 2. 13-25)
Já o disse aqui várias vezes. Quando conheci Medeiros Ferreira eu tinha 18 anos. Ele tinha saído do PS e fundado o movimento reformador a que aderi. Nunca estivemos juntos no PRD ou no PS ao qual Medeiros regressaria mais tarde. E não partilho, evidentemente, as suas opiniões sobre o actual governo num momento em que parece estar em curso, por comando à distância e por uma série de cumplicidades internas, uma espécie de "revisionismo" tosco de uma "situação" que ainda existia há apenas um ano. Devemos-lhe, a ele e a um punhado de homens do centro-esquerda, a rápida recalibragem do regime através do acordo dos Reformadores com o PSD, negociado directamente entre Medeiros e Sá Carneiro, em 1979, no âmbito da Aliança Democrática. Hoje coincidimos na preservação da figura institucional do Presidente da República. Podia ter sido, em 2005, membro do conselho de Estado se o então primeiro-ministro, e secretário-geral do PS, tivesse mantido a palavra que então lhe dirigiu nesse sentido. Mas Medeiros Ferreira é de outras alturas - um homem livre, portanto - e soube sempre o que valia a palavra em causa. Um grande.

«O país, numa espécie de ‘síndrome de Estocolmo’ que só a psiquiatria explica, continua a sentir uma gratidão sincera pelo exilado de Paris que nos levou a todos para o buraco: um homem que, nas palavras de Cavaco (indesmentidas e temo que indesmentíveis), mentiu e manipulou as contas públicas; e, pior, adiou o pedido de ajuda financeira para não perder as eleições. Estas acusações, que estão para lá do imaginável, foram consideradas "deselegantes" pela maioria dos opinativos; e trouxeram mesmo alguns órfãos socráticos, tipo Lello ou Silva Pereira, a chorarem em público pela memória do seu defunto. Um país que ainda respeita Sócrates não merece grande destino.»
É a segunda vez em menos de dois anos que o jornalista Mário Crespo se vê privado das crónicas que escrevia em jornais. Em 2010, aconteceu-lhe isso no Jornal de Notícias. Agora foi a vez do Expresso o que motivou uma gigantesca "nota da direcção" em dezoito (18) pontos. Por doze desses pontos, a referida direcção pediu ao jornalista que "alterasse o seu texto" (13º). No 14º ficamos a saber que Crespo "mantinha integralmente tudo o que tinha escrito". A seguir, 15º ponto, o Expresso - nas pessoas de Ricardo Costa, Nicolau Santos, João Garcia, João Vieira Pereira, Miguel Cadete, Marco Grieco e com a "unanimidade do conselho de redacção" (18.º ponto) - jura pela sua "larga tradição de permitir aos seus colunistas que critiquem o jornal". Todavia, e uma vez que o citado Crespo alegadamente ignorou "factos", manteve "falsidades" e tomou o Expresso por "um blogue de maledicência e arruaça", capaz de ter um comportamento "deplorável" (coisa - o comportamento deplorável - que toda a gente no Mundo e arredores sabe que o Expresso é incapaz de ter), aquelas entidades (da direcção e do conselho) consideraram estar o homem de "má-fé" e de exibir, não uma "deslealdade" qualquer mas uma "deslealdade surpreendente"(16.º). Vai daí, Crespo foi "libertado" da "colaboração com um jornal que, pelos vistos, tanto o desaponta" e que, por consequênca e 17º ponto, prescindiu das suas crónicas. Nunca aqui perdi tempo em gentilezas com Mário Crespo. E, muito menos, com o Expresso que não me inspira o menor temor reverencial apesar destas impressionantes 18 "teses". Por isso sinto-me perfeitamente confortável em registar, sem comentários, um episódio apenas infeliz.
Enquanto não se realiza uma romagem de saudade e de desagravo a Paris, os acólitos - e alguns opinadores que se publicam, ouvem e vêem, aparentemente esquecidos do que representou, para o sector onde trabalham ou peroram, o consulado em causa - andam por aí "indignados", sem a demonstração de um pingo de vergonha, num misto de evidência da histórica estupidez do indígena (para usar palavras de V. Pulido Valente no Público de hoje) e de manha como se coisas tipo a Parque Escolar nunca tivessem acontecido. Mas como escreveu um leitor, «já está em marcha a campanha seguinte: esmiuçar até à exaustão o facto de o Presidente ter dito o que aconteceu, omitindo o conteúdo das acusações, que é gravíssimo, a começar por um PM que brincou com o interesse nacional para benefício eleitoral próprio e do partido. Isto sim, deveria estar a passar nos telejornais. Até agora, não houve um único comentador a referir-se a isto, que é apenas a substância. Como de resto era de esperar.»

you are welcome to elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Estive a visitar o site da Estradas de Portugal. É uma empresa de capitais inteiramente públicos, para citar os estatutos, e está entregue a très vogais do conselho de administração depois da renúncia do presidente (Almerindo Marques) e do vice-presidente (Andrade Gomes) em Abril do ano passado. Terminam (os órgãos sociais) o respectivo mandato em Julho próximo. Até lá (e, quem sabe, se para além disso) mandam amplamente na coisa. Um deputado falou em "braço armado". Só há este?
«Na semana passada, com o triplo doutoramento “honoris causa” - onde é que isto já se viu? - atribuído simultaneamente a Paul Krugman, a nossa elite universitária exibiu um penoso, e escusado, provincianismo. De certo modo na mesma linha, vejo entretanto aparecer um projecto de fusão das Universidades Clássica e Técnica de Lisboa. Trata-se de uma falsa boa ideia, como são frequentemente as ideias confusas. A Universidade Portuguesa precisa sem dúvida de reformas profundas e radicais. Devíamos, por exemplo, ter um terço das universidades e dos cursos que existem, há muito tempo que isso se sabe. Mas o problema não é de “escala” ou de “número” de alunos. Nem o seu projecto pode ser o de gerir imobiliário para “gerar mais-valias”, como se pode ler na entrevista conjunta que os dois reitores daquelas Universidades deram ao DN no domingo passado. Entrevista em que – estranhamente – se fala muito de imobiliário e pouco de saber, numa conversa que em momento nenhum traduz um pensamento inovador ou uma visão de ruptura sobre o futuro da Universidade, como seria de esperar e de desejar. O problema da Universidade portuguesa é de autonomia e é de meios, ponto final. O que é que adianta vir a ter o dobro dos alunos de Harvard ou o triplo de Stanford, se o orçamento for – como se prevê – dez ou doze vezes inferior? E já que agora falam tanto da importância dos “campus” universitários, porque é destruíram os que havia, nomeadamente o do magnífico Instituto Superior Técnico, concebido pelo Arquitecto Pardal Monteiro (a seu tempo classificado) com uma medonha proliferação de construções sem nexo nem autorização, transformando uma pérola da arquitectura de Lisboa numa espécie de periferia terceiro-mundista no coração da capital?» (Manuel Maria Carrilho)
«Naquele tempo, Jesus falou à multidão e aos discípulos, dizendo: «Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens: alargam as filactérias e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’. Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste. Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’, porque um só é o vosso doutor, o Messias. Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado». (Mt 23, 1-12)
A política não se compadece com estados de alma. Mas, para haver nela alguma grandeza, é preciso estar na dita com um módico de dignidade. Olho para Álvaro Santos Pereira e vejo isso. Leio o que alguns dizem dele, sobretudo na chamada opinião que se publica, e vejo estrumeira moral. Esta, sim, é irrecuperável.
Adenda (de um leitor): «Ontem na SIC houve um espectáculo de enchimento de alheiras com MST no noticiário da noite, sobre Álvaro Santos Pereira. Um penoso espectáculo de amplificação e multiplicação de coisa nenhuma. Uma fotografia do estado sedento e piroso-espectacular a que a informação chegou. Começo a ter saudades do Cunhal e das suas cassetes.»
«O nosso país está demasiado "cheio" (de informações, imagens, bugigangas de toda a espécie) e quanto mais se enche mais se enterra o vazio essencial a que não se dá a importância que tem. Acreditamos que a informação que, por definição, vive da positividade do dado, do pleno, que nos enche os olhos e o cérebro criando a ilusão de pensamento, pode ser tratada de outra forma. A massa de informação a que hoje temos acesso contribui para uma espécie de visão global que faz da realidade um conjunto de coisas e factos objectivos - de que decorre ao mesmo tempo a despoetização do mundo e um crescente caos afectivo. Contra isso, acreditemos nas virtudes do vazio.»
Adenda: Por falar nas "virtudes do vazio", este post de Os Comediantes.

Ontem li na revista suplementar do Expresso uma reportagem sobre uns meninos e umas meninas com dezoito anos. A "ideia" era retratá-los "sociologicamente" (o que em linguagem de jornal quer dizer superficialmente) no "contexto" do país: o que andam a estudar, a família, a política, as ambições, o sexo. Estes ainda não fazem parte da mitológica "geração mais bem preparada de sempre" mas é para isso que querem caminhar e, muito patrioticamente, de preferência daqui para fora. Na capa vinha um rapaz politicamente correcto, algures "entre o PS e PSD", em metonímia saltitante de jogador de basquetebol, filho de pais separados (são praticamente todos os entrevistados), praticante de sexo com preservativo e que ambiciona casar e ter filhos. Na mochila carrega Maquiavel e estuda (o que é que ele havia de estudar?) direito. Depois há um "beto" de Cascais, silencioso em matéria sexual, mas muito interessado no "empreendedorismo" e na sua "scooter". Ou um outro do interior que queria ser modelo e umas raparigas mais dadas a preocupações sociais e "artísticas". Embirro com esta monomania de apresentar a geração mais nova como "especial". A minha, para não ir mais longe, está hoje nas empresas, nas universidades, nas magistraturas, na função pública e no governo. Não é nem foi mais nem menos "especial" do que qualquer outra e, perdoem-me a vaidade, foi seguramente muito mais bem apetrechada na escola, da primária ao ensino superior, do que jamais poderá alguma vez vir a ser a "geração Bolonha", tão vitimada pelo desemprego como casais de 40 ou 50 anos de idade, necesssariamente menos mediáticos, mais feios e com menos hipóteses no "terreno" que os primeiros. A única coisa que se pode "invejar" a esta gente é a juventude mas, sobre isso, a estética literária e o fast food social, cultural e sexual já disseram o que tinham a dizer. Mas como dizia a Magnani, não me tirem as minhas belas rugas que tanto trabalho deram a arranjar.

Ocorreu uma alteração no cálculo das audiências televisivas e no respectiva metodologia. Aparentemente todos os canais generalistas foram penalizados e o cabo terá ganho qualquer coisa com o exercício. Dos generalistas, a RTP terá sido a mais prejudicada. Independentemente das falhas de quem calcula e dos "descontos" a fazer, há um facto inelutável relativamente ao qual os três operadores televisivos generalistas não conseguem dar resposta: a objectiva e contínua perda de audiência por comparação com a oferta no cabo. Nos úlimos meses, e antes deste episódio, os canais alternativos fornecidos pelo cabo - coisas como o canal FOX, por exemplo - ultrapassaram frequentemente as generalistas salvo em momentos gloriosos como são sempre, por exemplo, as transmissões da bola, o telejornal da RTP ou um concurso idiota. Tipicamente, e para lá das contingências do mercado publicitário, é a realidade que acaba sempre por se impor para além de qualquer contabilidade de audiências mais ou menos fiável. Isto devia obrigar as empresas em causa a repensar o que andam a fazer, com quem, com quê e por que preço. Ou mudam ou morrem. Não há meio-termo.

Custa muito ser-se simplesmente decente neste "país relativo" que tanto aprecia viver de "imagens" e de fantasmas.
Apanhei, de repente, o final desta reportagem na sicn sobre o fim da Livraria Portugal, acontecido ontem. Comoveu-me ver aquele punhado de seres humanos, amigos dos livros, à porta da Livraria e um deles dizer que, agora, não mais se ia levantar às sete e meia da manhã para subir a Rua do Carmo como sempre fez durante dezenas de anos. E comoveu-me ver o mais novo deles todos com lágrimas nos olhos. Entretanto, o país ululante está enfiado aos molhos num estádio de futebol e os coitadinhos que não estão acompanham a coisa pela televisão ou pela rádio enquanto se anunciam "debates" sobre o extraordinário "tema", pela noite fora, com hordas de comentadores da especialidade. Definitivamente não pertenço a este "país". O meu país é o daqueles homens e daquelas mulheres à porta da Livraria Portugal, na Rua do Carmo em Lisboa, pelas 19.40 do dia 29 de Fevereiro de 2012. Nas palavras de Rui Cinatti - que lhes dedico - «somos poucos mas vale a pena construir cidades e morrer de pé.»
Será que vão ser servidas, como repasto, as famosas favas acaralhadas?

«Très mauvaise semaine pour Nicolas Sarkozy qui espérait dépasser François Hollande dans les intentions de vote des sondages. C’est le contraire qui se passe si l’on en croit le baromètre Ifop Fiducial Paris Match Europe 1 publié chaque jour à 18 heures. Ce jeudi 1er mars au soir, Nicolas Sarkozy recule d’un point dans les intentions de vote à 25,5 points tandis que François Hollande progresse d’un point à 29 %. Après avoir été réduit à un point, l’écart est de nouveau de 3,5 points, le même que celui du 17 février, deux jours après la déclaration de candidature du président. Cette mauvaise nouvelle intervient alors que des manifestants ont fortement perturbé la visite du candidat président à Bayonne. Cette semaine devait être celle où M. Sarkozy continuait d’imposer ses thèmes, avec un discours sur l’éducation annoncé pour mardi 28. Il a été surpris par le coup de Jarnac de lundi soir : la proposition de François Hollande de taxer les plus hauts revenus à hauteur de 75 %. Dès le petit-déjeuner de la majorité, mardi, M. Sarkozy dénonce une « improvisation dangereuse » du candidat socialiste. Mais c'est la droite, totalement prise de court, qui doit improviser. Car M. Hollande a fait, à gauche, un coup gagnant similaire à celui joué par M. Sarkozy en 2007, lorsqu'il avait proposé un ministère de l'immigration et de l'identité nationale, parvenant ainsi à dominer le débat. Dans ce contexte, les propositions de M. Sarkozy sur l’école sont devenues peu audibles. Selon l'institut CSA ses propositions (moins de professeurs mieux payés) n'ont convaincu qu'un quart des Français. Mardi, il a accumulé les déconvenues. Il a fait une bourde, en annonçant que la journaliste française blessée Edith Bouvier avait été exfiltrée de Syrie. A tort. « Je me suis montré imprécis, je m'en excuse auprès de vous », dira-t-il aux journalistes. Puis viendra une troisième déconvenue, la censure par le Conseil constitutionnel de la loi pénalisant les génocides, adoptée dans la précipitation pour s'attirer les bonnes grâces de la communauté arménienne. S’y ajoutent les cafouillages de ses troupes. Au cours du dernier week-end, Nathalie Koscisuko-Morizet a commis une énorme bourde, évaluant le coût d’un ticket de métro parisien à plus de quatre euros. Le ministre de l'intérieur Claude Guéant a cru utile de qualifier le Front national de national et socialiste. Quant à Henri Guaino, la plume volubile du président, il a explosé d’autoritarisme devant le président du conseil général de l’Essonne le socialiste Guedj au cours d'un débat sur France 3. M. Sarkozy lui aussi a fait des erreurs. Après avoir attaqué deux actionnaires du Monde sur RTL , Pierre Bergé et Matthieu Pigasse, il a eu la critique de trop, s’en prenant sans la nommer à la compagne de François Hollande, Valérie Trierweiler, coupable d’avoir une émission télévisée sur Direct 8.»
A noite passada, pela primeira vez, assisti na RTP1 a um episódio da saga "dr. Mário Soares ortónimo". A conversa é a de sempre e os ódios de estimação também. Delicadamente havia "gajos" a torto e a direito e o actual PR, tido pela veneranda figura como "intratável", era "o" Cavaco, uma designação em que o artigo definido, como se costuma dizer, constitui todo um programa. Em menos de 48 horas, a RTP1 elegeu o dr. Soares como seu factotum. Primeiro numa "gala" inqualificável e, depois, nesta série autocomplacente. Há um limite para tudo. Nem que seja o elementar do bom senso e do bom gosto.