30.12.15

Presidenciais curtas


 


A "lógica" encontrada para os debates televisivos entre candidatos presidenciais é nenhuma. Quem é que, mesmo gravando e vendo depois, está para gramar três debates num dia? E trinta ou quarenta e tal por junto, atamancados a correr entre o dia 1, sexta-feira, e o dia 10, data do início da campanha oficial? Até à campanha de 1985 -1986 (a de 1991 não conta porque era uma recandidatura), a última de jeito e digna de se chamar campanha política, só havia a RTP. Agora as três generalistas multiplicam-se por dois e o grosso dos debates tem lugar nas de "informação". Falta juntar aos sete previstos nos vários curtos espectáculos (45m) três candidatos que têm tanto direito aos seus minutinhos de fama como os outros. Tudo ocorre a correr na ressaca das "festas" e na vertigem dos saldos. Os principais candidatos a incumbente desdobram-se a comentar o diarismo noticioso. Fui sempre defensor da liderança institucional do PR pelo que este estado da arte superficial, "presencista" e sem um desígnio vigoroso, incomoda-me. Se há eleição em que o meio tem sido a mensagem (e a massagem) é esta. É curto.

29.12.15

Que "tempo novo"?


 Começou mal o "tempo novo" anunciado pelo primeiro-ministro no Natal. A maioria aritmética que suporta o Governo no Parlamento quis abrir o cordão às bem-aventuranças materiais e espirituais caras às esquerdas: costumes, aumentos meramente simbólicos em prestações sociais e recuperação faseada de salários. Já quanto à sobretaxa, um imposto atípico e inconstitucional, e em relação à chamada "contribuição extraordinária de solidariedade" (que nome extraordinário) as esquerdas torceram o panfleto e aceitaram a manutenção suavizada do austeritarismo. As direitas opuseram-se a tudo como se alguém lhes viesse agradecer mais adiante o exercício. Sucede que o fatal elefante penetrou com estrondo na sala. O bicho acudia por Banif, era alimentado desde 2012 por dinheiros públicos - apesar de ser quinto ou sexto em ordem de importância para o "sistema" - e não havia meio de o conseguirem "reestruturar" ou vender. O anterior Governo enviava planos sobre planos para Bruxelas. E Bruxelas devolvia-os por serem alegadamente inconsistentes. A "autoridade de supervisão e de resolução", o Banco de Portugal, jurava pela saúde do estabelecimento. Depois começaram os mistérios. (continua no Jornal de Notícias)

28.12.15

Importúnios da virtude


 


Entrou em vigor em Agosto, mas como as "festas" são geralmente insossas de notícias, um jornal, o DN, deu capa à nova legislação que proíbe e penaliza criminalmente a chamada "importunação sexual", vulgo "piropo" ou "boca", e os apalpões ou "amassos", na letra cómica da lei "contactos de natureza sexual". E penaliza especialmente se a vítima for rapariga menor de 14. Por que não de 13, 15 ou 16 e rapaz? E por que não um beliscão nas bochecas da cara e uma palmadinha no rabo vestido? E o "linguado"? Esqueceram-se do "linguado", tipo "uso inapropriado da língua" ou "importunação sexual da boca pela língua"? Ou da "importunação sexual pela visão", tipo "galanço"? Uma vez que o conceito de "contacto de natureza sexual" se alarga ao verbo e aos olhos, convém manter ainda maior distância do outro como recomendam várias igrejas, departamentos sanitários e policiais, e andar sempre com os olhos ferrados no chão. Numa biografia recente de Gore Vidal conta-se que o biografado e Leonard Bernstein a dada altura partilharam sexualmente um mesmo bailarino, Harold Lang. Bernstein, aliás, definia o rabo de Lang como a sétima ou oitava maravilha do mundo. Se fosse agora iam todos presos. Não pelo rabo mas pela língua.

22.12.15

Não, drs. Costas e Passos Coelho


 


Tudo indica que, amanhã, o PSD juntará de alguma maneira os seus votos aos do PS para viabilizar um orçamento rectificativo. Na "base" desta geringonça intercalar está a decisão política de, através de dinheiros públicos, "confortar" a venda do Banif por 150 milhões de euros. O "conforto" custa à cabeça mais de 2 mil milhões e pode chegar ao dobro. Parece que Bruxelas - que sistematicamente vetou todas as propostas de reestruturação que lhe chegaram - também ficou muito feliz com esta "inteligente" (o termo é do dr. Passos) medida. Ou seja, por ter mudado o governo não mudou a obsessão financista que domina o "pensamento" europeu à custa da manobra fiscal. Aquando do BES o Estado andou bem ao proteger à cabeça os contribuintes embora a novela persista inconcluída. Agora foi ao contrário aparentemente sob a direcção e complacência do "tempo novo". Só o PC se demarcou claramente do esbulho anuncicado. O Bloco, qual Pilatos, põe "condições" sem se rir. E sem meditar nas consequências para as intervenções ardilosas a perpetrar pela dra. Mortágua em futuras comissões parlamentares. No centro desta calamidade de final de ano está a "autoridade de resolução", o BdP que, há anos, pelo menos desde o sorriso permanentemente idiota de Constâncio, aprecia apascentá-la deflectindo sobre o inerme pagador de impostos. Não, drs. Costas e Passos Coelho. Resolvam lá isso entre V.Exas. Não façam peso.

21.12.15

Vão bardamerda


 


Nem eu nem muitos dos contribuintes temos culpa de haver pessoas com depósitos bancários superiores a 100 mil euros. E, muito menos, que essas pessoas tivessem escolhido o Banif para os lá pôr. É claro que os haverá com valores muito inferiores. Tal como não consta das funções de soberania do Estado a salvação de companhias aéreas comerciais, também não se vislumbra que as ditas funções abranjam contas bancárias. Fala-se na salvaguarda da "diáspora", uma conversa de chacha que toca por igual aos aviões. Porque o que releva verdadeiramente é ter de se reconhecer que o sistema financeiro português e a sua supervisão são, por junto, duas imensas falácias. Como aos mortais nada é dado de graça, as "facilidades" que os bancos vinham "oferecendo" desde os anos 80 mais tarde ou mais cedo acabariam por ser pagas pelos tansos. Mesmo pelos que nunca usufruíram dessas "facilidades", tipo carro, casa e frigorífico "chave na mão". Ou pelos que nunca tiveram "poupanças" a render aqui ou ali porque "dava mais". No reino da rapacidade e da usura, a "diáspora" é identificável. Foi assim no BPN, no BES e agora no Banif. Neste o Estado estava estupidamente a 60%. Agora chegou-nos a factura de algo que não pedimos. Vão bardamerda.

19.12.15

E os nomeados são


 


Quando entrou em funções o governo de Passos Coelho alguém achou por bem, em nome da "transparência", colocar no portal do Executivo as nomeações para os respectivos gabinetes. Entre o Verão de 2011 e até há umas escassas semanas assim foi em nome desse ditoso escrúpulo. O que valeu, desde respeitáveis órgãos de comunicação social até às chamadas redes sociais, uma atenção permanente às pessoas em causa. Sobretudo valeu a alguns dos nomeados uma exposição inusitada na qual toda a gente parecia "mais igual" do que o comum dos cidadãos. Estava tudo: nome, idade, cargo no gabinete e vencimento bruto. Como não se podia andar a explicitar caso a caso, houve "casos" em que os ditos eram sovados volta não volta. Eu próprio, dias depois de ter ido para a Gomes Teixeira, andei na capa de um jornal, em blogues e nas redes profusamente "apontado" por causa de uma imagem com uma alforreca. E por ter escrito "horrores" a propósito do homem com que fui trabalhar. Em ambos os casos só serviu para reforçar a confiança mútua e lealdades políticas, e até pessoais, indisputáveis. Fosse porque "ganhavam" muito, fosse porque eram muito novos ou não sabiam nada a não ser na "escola" do partido, os membros dos gabinetes dos governos da coligação estiveram sempre sob a mira dos patrulheiros. Raramente houve o cuidado de separar o trigo do joio, ou seja, quem já tinha uma carreira (na administração pública ou no sector privado) de quem, por assim dizer, era "profissional de gabinete" sem nunca ter feito nada de substantivo na vida. Sabiamente o PS acabou, para já, com isso. Ignoramos, até aparecer no Diário da República, quem é quem nos gabinetes ministeriais. Todavia nota-se uma preocupação "escrupulosa" com a comunicação naquela muito batida adaptação democrática do "em política o que parece é", uma coisa em que actual "primeiro" é especialista. Algo, pelo contrário, que não se sente nos "meios" que tanto apreciavam policiar os dois governos anteriores mais em ardente e alucinada coscuvilhice do que por dever estritamente deontológico. Agora não interessa?

16.12.15

O "centro" acabou



 


Prosélitos de extracção variada andam preocupados com as desventuras de uma coisa a que chamam "centro". O "centro" andaria desaparecido. Sobretudo nos antecedentes e no lastro das eleições legislativas. Ora porque António Costa o desfez ao acabar com a mitologia do "arco da governação", encostando-o à sua esquerda, ora porque Passos Coelho e Paulo Portas representariam a "direita radical". E teriam esvaziado esse magnífico "centro". A lamechice é perpetrada com propósitos óbvios, quase sempre pelo mesmo coro de órfãos e órfãs do "centrão" da política e da maquinaria inerme do regime. Acontece que o "centro" é uma ficção utilitarista do activo comunicacional e da aposentadoria política prospectiva, usada para desgastar as "situações" internas partidárias. De um lado, para "obrigar" Costa a "pedir a mão" que ele manifestamente não tenciona pedir. Do outro, para "cortar" a putativa mão de Passos se ele agora decidisse "ir à vida" sozinho.


De resto, é contar pelos dedos da dita mão as vezes que o "centro" decidiu o poder no regime por se ter colocado contra quem se colocou. Em 1976, contra os resquícios revolucionários, elegeu Eanes. Em 1979, contra o "país das maravilhas" que só existia na cabeça do dr. Soares, escolheu a Aliança Democrática. Em 1987, contra o alvoroço "eanista" do PRD e contra a pusilanimidade de Constâncio, confiou-se a Cavaco. Antes, em 1986, permitiu que Soares fosse à segunda volta depois de ajudá-lo a derrotar Zenha.


Neste século, o "centro" apenas consentiu um poder absoluto: o primeiro de Sócrates. É claro que elegeu Cavaco duas vezes tal como irá eleger, em Janeiro, Marcelo Rebelo de Sousa. Vai ser a última. Porque o que Costa percebeu melhor do que ninguém foi que a retórica do "centro" esvaíra-se. Ignorou-a quando viu que ia perder e instaurou, com sucesso, a dicotomia "esquerda-direita", ou melhor, esquerdas e direitas. Daqui em diante, e não é preciso ir buscar Alain para isso, quem não se afirmar das esquerdas é das direitas. E não vem mal ao Mundo por tal circunstância aparentemente ominosa. Salvo os candidatos presidenciais que, neste sistema de meias-tintas semi qualquer coisa, são obrigados a reclamar-se "de todos os portugueses" para chegar a Belém. Ao menos que estas provações outonais de 2015 tenham servido para chamar o nome às coisas. Longa vida, pois, às esquerdas e às direitas. O "centro", tal como o papagueiam, acabou.


 


Jornal de Notícias, 14.12.2015



 

15.12.15

O lugar do morto


 


António Costa "fundou" um novo PS. Não se sabe quanto tempo durará mas, para já, é o que há. Ao fazê-lo, e pela forma como o fez, indirectamente acabou com quaisquer vestígios de supremacias alheias sobre a sua pessoa. A brutalidade que aplicou a Seguro serviu-lhe, de caminho, para "dessocratizar" o partido. Integrou como seus os que achou que devia integrar e afastou tentações mitómanas. Por consequência, ele que nunca falou em ter "perdido as eleições" certamente não deve ter apreciado ouvir de outro notório que as perdeu. Mais. Ou que havia uma relação causa-efeito entre esse outro e a dita derrota como alegadamente "pretendia" uma instituição judiciária. Para uns propósitos a instituição judiciária vencera (a derrota do PS), para outros perdera ("o triunfo da vontade" do visado). Este oxímoro desenlaça-se com a acusação a um PS "frouxo" e timorato em solidariedade como se os partidos fossem obras de misericórdia jurídico-política. Mal ou bem Costa é hoje primeiro-ministro. Representa uma instância nacional e não apenas partidária. Não só não deve estar interessado em desenterrar o passado como lhe colocou uma pesada laje em cima. Não se trata do "se queres viver faz-te de morto" mas, antes, "se queres viver ignora o morto". E Costa não é homem para ceder o lugar, mesmo o do morto, a ninguém.

13.12.15

Pacheco no jardim do bem e do mal


 


Foi preciso esperar dez anos para Pacheco Pereira dar à estampa o quatro volume da biografia política de Álvaro Cunhal. Que não se espere outros dez pelo último. Este é inequivocamente o "bom" Pacheco. O da história, o arguto, o divulgador, o coleccionador, o amante dos livros e dos papéis, o intelectualmente inteiro, minucioso e livre. O que estimula. Depois há o "mau". Aquele que soberba e contraditoriamente não aceita a liberdade de expressão dos outros e que não suporta que não sigam as suas "orientações". O actual primeiro-ministro bebeu ardentemente deste "mal" anos a fio na Quadratura do Círculo. Em plena campanha para as legislativas Pacheco não se coibiu de sugerir que o tinha "formado". E não escondeu a seguir a sua satisfação (ia a dizer alegria mas Pacheco não abunda em sentido de humor) pela maneira como Costa contornou a derrota. Ter sido um dos mais intensos e consistentes "costistas" valeu-lhe agora um prémio na Fundação de Serralves. Tem mais do que biografia evidente para o efeito. Não é isso que está em causa. Podia era ter esperado pelo arrefecimento do cadáver da coligação. Por isso a melhor homenagem que o PSD pode prestar ao vício e à virtude, ao contrário do que alguns militantes mais aguerridos possam pensar, é tê-lo como militante. Mostra que é tão ou mais livre do que ele.

Cavaco corrige


 Cavaco Silva vai condecorar Ramalho Eanes com o Grande Colar da Ordem da Liberdade. Dos antigos Presidentes da República, apenas ele - o primeiro a ser eleito por sufrágio universal e directo em 1976 - ainda não tinha sido. Logo ele, o operacional do 25 de Novembro que se ergueu contra o medo e pelas liberdades públicas enquanto outros se esconderam, como escreveu Medeiros Ferreira. Sampaio tinha decorado Soares e Cavaco decorou Sampaio logo em 2006 com o dito Colar. Ao lado de Eanes será igualmente condecorado, mas com a Torre e Espada, o General Rocha Vieira. O Estado na pessoa do seu então Chefe, Jorge Sampaio, ficara-se pela Ordem do Infante. Aos olhos de Sampaio, o governador de Macau na transferência da coisa para a China não esteve à altura do momento. Na verdade Sampaio nunca gostou muito de Rocha Vieira. E pretextou divergências com uma fundação para apoucar, através de venera "menor", o ex-governador. Não é que a dignidade do militar e do homem Rocha Vieira precisasse da comenda para nada. Mas o Doutor Cavaco faz bem em a reconhecer, "corrigindo" Sampaio.

12.12.15

Passos feliz na oposição

ppc.jpg


 Não tive pachorra para ler a longuíssima entrevista de Passos ao jornal Público. Vi os títulos online. E retive algumas coisas. O presidente do PSD continua naturalmente candidato ao cargo para que foi escolhido a 4 de Outubro: o de primeiro-ministro. A partir de Abril, após congresso, estará relegitimado para o efeito. Esperará por eleições e, apesar de tudo, espera por estabilidade. Ver-se-á se as eleições e a estabilidade também esperam por ele. O PSD não dispõe evidentemente de melhor, ou de diferente, neste transe imprevisto. E Passos, pareceu-me, falou sobretudo para diante como lhe competia. Politizou, e bem, o orçamento para 2016, o tal que será apresentado, atrasado, "o mais cedo possível" e que Marcelo também considera "fundamental". Estava feliz.

11.12.15

Marcelo, uma nação independente


 


Uma nova sondagem mostra um Marcelo todo-o-terreno. Ganha à primeira, fartamente, ganha à segunda, largamente. Nóvoa e Belém somam 29% das intenções de voto contra as 6% que cabem a Edgar e Marisa (3 cada um). Neto e Morais chegam individualmente à unidade. Marcelo paira sobre todo o regime como nunca nenhum candidato antes dele pairou, salvo nas recandidaturas (a de Soares, sobretudo). Isto  sem a habitual parafernália das campanhas. Pelo contrário, Marcelo optou por uma campanha imaterial sobre todos os aspectos. Ele é simultaneamente candidato, porta-voz, cartaz, pendão, rede social, jornal, televisão, rádio, Ipad, livro, comissão política, mandatário nacional, regional e distrital, director de campanha, manifesto eleitoral, esquerda, direita, centro e telemóvel. É, em suma e nas palavras de Fernando Pessoa, uma "nação independente". 


 


Foto: Pedro Azevedo

O PS com vergonha da sua história


 


O parlamento aprovou um voto de saudação pela passagem dos quarenta anos do 25 de Novembro de 1975. Não fez mais que a sua obrigação. Sem o 25 de Novembro, ou seja, sem os militares do chamado "grupo dos Nove", sem Costa Gomes (sim, Costa Gomes), sem Mário Soares no plano civil, aquela que é hoje a Assembleia da República teria tido uma "história" bem distinta da que ficou estabelecida. Aliás, os famosos "acordos" de Novembro de 2015, bilateralizados entre o PS, o PC e a extrema-esquerda, só foram possíveis porque houve o 25 de Novembro de 1975. Mesmo assim seis deputados do PS aliaram-se ao PC e à extrema-esquerda contra o voto. O grosso do PS  absteve-se envergonhadamente. O que quer dizer que o PS actual convive mal com o seu lastro social-democrata. E que privilegia temores reverenciais perante outros que jamais os terão por ele. O limite para as "convergências objectivas" devia ser o da literacia democrática. Pelos vistos já não é.


 


Foto: Expresso

10.12.15

Nóvoa noves fora nada


Enquanto comia uma maçã, assisti de pé à entrevista de António Nóvoa à SIC ontem à noite. Reparei que foi mais curta que a de Marcelo. Não se perdeu nada. O homem referiu-se mais do que uma vez a antigos Presidentes que o apoiam. A Eanes, pelo menos duas. Aliás, nos cartazes que espalhou por aí Nóvoa nem sequer aparece. O que se lê são frases dos três: Soares, Sampaio e Eanes. De resto, nada. Nóvoa pretende cavalgar o chamado "novo ciclo" pelo que se deixou de "desassossegos". O respeitinho é bonito e no "tempo novo" manda Costa que ele babujou o tempo inteiro. Mesmo assim o que transpareceu foi um tipo atarantado com aquilo em que se enfiou. Que divide efusivamente o país entre "esquerda" e "direita". Da mesma maneira que, num lindo momento folclórico, o dividiu entre o Norte e o Sul: "tudo no meu corpo é Minho, todo o meu corpo é Norte". Até me engasguei. Não ressuma ali um vestígio de uma ideia ou do que quer que seja que justifique um putativo voto. Como escreve Manuel Maria Carrilho, "nunca foi politicamente nada, a não ser, aos 60 anos, um ilustre desconhecido da política promovido a candidato presidencial por uma “ardente” brigada do reumático."

9.12.15

o bom do marcelo

Uma sondagem coloca Marcelo Rebelo de Sousa vencedor a 24 de Janeiro. Dele para baixo é tudo muito mau. Os candidatos Nóvoa e Belém não chegam juntos a 27% das intenções de voto. Os restantes não passam de um dígito. E Neto não atinge sequer a unidade. Não será bem assim mas não será muito diverso. Marcelo alegadamente "come" em todos os eleitorados. O que significa ser o que melhor cresce da sua área política originária para o país. Sozinho, sem dar troco aos apoios, Marcelo saiu do estúdio da televisão sem nunca verdadeiramente ter de lá saído. Sai em Janeiro.


 


Adenda, a propósito: O artigo de 7.12.2015 no Jornal de Notícias.

portugal dos pequeninos - same place, other room

Graças à Teresa Alves, webdesigner da SAPO, o blog Portugal dos Pequeninos mudou a montra. A partir de agora qualquer post escrito no dito blog é imediatamente reproduzido no Facebook. O que obriga a uma assiduidade a que ele já não estava habituado. Nem eu. A Teresa pediu-me uma auto-descrição que lá consta. Ficou assim:



Jurista. Mau jurista.


Leitor mais do que razoável.


Escreve algumas coisas sobretudo sobre as desventuras nacionais.


Não se leva excessivamente a sério e muito menos os outros.


Aprecia um bom vinho, uma boa ópera e um bom banho de mar.


Não gosta de restaurantes barulhentos com crianças a berrar. Grandes ou pequenas.


Lamenta ter nascido num país com pouca gente crescida.


2.12.15

As frentes de Costa


 


Tomou posse e entrou em funções, para recorrer à consabida expressão do PC, o Governo de António Costa. A propósito, passou despercebida uma alusão curiosa de António Lobo Xavier. O PC teria vetado a entrada do Bloco no Governo e acabaram todos por concordar no minoritário do PS. Junte-se a isto a entrevista de Jerónimo de Sousa ao "Expresso", na qual o secretário-geral afirma desconhecer a ideologia do Bloco e sugere, até, que Catarina Martins anda sempre de dedinho no ar: "primeiros". Uns "primeiros", aliás, que fizeram questão de o sublinhar no plenário parlamentar da passada sexta-feira com intervenções e votações subsequentes geridas por eles. O que nos conduz à "húbris" de António Costa. O homem formou um Governo "moderado" de altos funcionários públicos e de pessoal politicamente fiel recrutado no partido e na Câmara de Lisboa. Recuperou as chamadas funções de soberania do Estado quando o hierarquizou: Negócios Estrangeiros, Defesa, Administração Interna e Finanças. Incluiu o Ministério da Cultura na primeira metade do Executivo e não na cauda, como tem sido costume desde Manuel Maria Carrilho. Compôs, em suma, um ministério político onde ele é indisputavelmente coordenador e chefe. Sucede que tem a apoiá-lo, na frente parlamentar, um híbrido desconchavado que já não deixa margem para dúvidas: também quer governar. O que obrigou Costa a "formar" um desdobramento governamental na Assembleia da República presidido por César e Pedro Nuno Santos. Não é fácil gerir um condomínio que vai desde quem pretende discutir a qualidade da alpista dos periquitos, ou a correcção política das trelas dos cães, até às famosas ténias de Céline que zelam pela moral e pelos bons costumes "progressivos". Pelo meio pairam os dispensáveis deputados do PC (se eles se abstiverem, ou estiverem contra, qualquer milho a pardais fideliza o senhor do PAN) cujos objectivos "terrenos" sempre foram claros e ligados pelo umbigo ao "movimento social", um eufemismo para o sr. Arménio. A "técnica" consiste em "baixar à especialidade" e às comissões tudo de que desconfia a vanguarda parlamentar. Aí, avança a dupla César-Pedro Nuno Santos, numa primeira fase, e depois (talvez mesmo durante) sobe tudo fatalmente até Costa. Se, como afirmou Nuno Morais Sarmento, ele agiu sempre nos limites da moralidade política até ser indicado primeiro-ministro, então daqui para diante não pode actuar muito diferentemente com os acólitos. É que eles não o vão poupar.


 


Jornal de Notícias, 30.11.2015

26.11.15

Oposição


 


 


No Jornal de Notícias de 26.11.2015


 


As eleições legislativas de 4 de Outubro findam esta semana com a posse do governo de António Costa. Está, pois, aberto um outro "ciclo" que, ironicamente, encerra o aberto pelo 25 de Novembro de 1975. A "originalidade", uma palavra muito em voga até àquela data, regressou à política portuguesa pela mão do campeão civilista da luta pelas liberdades públicas, o PS. Costa é o mandatário exclusivo de um entendimento político-partidário até agora negativo. Qualquer "desvio" social-democrata ser-lhe-á devidamente apontado pelo radicalismo dos seus dois outros pilares parlamentares. A mínima tergiversação financista "europeia" também. O deve e o haver fica, como tem estado, por conta de Bruxelas porque aqui não existem desculpas planetárias para derrapagens orçamentais ou para frivolidades com a receita e a despesa. O primeiro-ministro, tacticista e habilidoso, sabe melhor do que nós tudo isto. Quando algum apoio dos prometidos fatalmente lhe falhar, ele será o primeiro a reclamar em eleições a maioria absoluta da "vítima". Aí concorre com o PSD e o CDS que apenas em coligação, e entretanto atraindo outras franjas não limitadas ideologicamente e descontentes com a deriva esquerdina do PS, pode aspirar à vitória inequívoca que lhe escapou antes desta "revolução de Outubro". Daqui em diante não há lugar a qualquer confusão. Os consensos governativos estão encontrados e legitimados pelo nosso inigualável regime semipresidencial. De um lado está o executivo minoritário do PS pela primeira vez suportado integralmente pelas esquerdas. E do outro estão o PSD e o CDS, exclusivamente na oposição, sem tergiversações oportunistas que lhes seriam fatais. Porque este governo, mais coisa menos coisa, destinar-se-á no essencial à preparação da próxima campanha eleitoral do PS e a manter até ao limite a precariedade do equilíbrio parlamentar maioritário. Sobra pouco espaço para impulsos reformadores. O que confere mais responsabilidades e uma extraordinária oportunidade à oposição (não há outra) liderada por Passos e Portas, apanhados de surpresa pelas artes de prestidigitação política do adversário. Não basta o Parlamento e jamais se deve ficar sentado à espera do novo Godot presidencial. A fractura exposta do regime precisa de consequências democráticas como é adequado a sociedades adultas. Não pode ser ignorada depois de aberta às escâncaras pelo estulto primeiro-ministro do PS. O tempo é de ficar do outro lado. Por todo o lado e bem à vista.

18.11.15

Os candidatos presidenciais e a situação


 


Jornal de Notícias, 18.11.2015


A pirueta perpetrada no resultado das legislativas mantém as atenções centradas na chamada governabilidade. E em Cavaco Silva. Os mais inquietos, sobretudo os "transformistas de 4 de Outubro", abundam na necessidade de "rapidez" na decisão e nos insultos mais ou menos velados ao presidente. Mas, com os poderes cerceados pelos zelotas da revisão de 1982, este tem de decidir com a ponderação que as circunstâncias exigem. Circunstâncias que são da mais diversa natureza. Desde as formais impostas pela Constituição - Governo demitido e em gestão e impossibilidade de dissolução do Parlamento até 4 de Abril - até às políticas: emergência de uma maioria informal, atípica, que apenas aceita a "entrada em funções" de um Governo minoritário do PS devidamente "vigiado" pela ala mais minoritária da aritmética parlamentar. Onde existia uma coligação eleitoral e de Governo vencedora, sem maioria absoluta, passou a estar uma frente não eleitoral perdedora, disposta a somar votos de deputados para sustentar precariamente um segundo Governo minoritário. Se o PR não precisasse de tempo para avaliar estas subtilezas do espírito e da engenharia partidária é que seria preocupante. Tudo isto conduz a que as eleições presidenciais marchem a reboque destas circunstâncias. E que os candidatos presidenciais sejam rebocados pelo tacticismo que as mesmas impõem a todos os agentes políticos. Não há dia ou hora em que os candidatos não apareçam para comentar o curto termo como se não estivessem a candidatar-se a um mandato de cinco anos. E, mais relevante do que isso, para exercer em plenitude as competências que a Constituição prevê para o chefe do Estado. Julgo que um candidato presidencial não se propõe minimizar o seu papel político e institucional enquanto PR. Não se candidata, decerto, para poucochinho ou para "valet de chambre" de qualquer partido ou facção. Percebe-se assim que Marcelo, o mais provável sucessor de Cavaco Silva, não diga mais sobre o tempo que passa do que aquilo que pretende dizer. Mesmo que isso incomode a coligação e muitos dos seus putativos eleitores. Por falar em directo para o país, sem mediadores, é inevitável que o iconoclasta Marcelo desagrade a alguns por querer agradar a praticamente todos. Faz parte do guião. E Marcelo, até por ser o mais livre dos candidatos verosímeis, é o mais "natural" de todos eles. Quem de direito tome nota. Até porque não há outro no deserto das presidenciais.

12.11.15

Cavaco e o pessoal das papeletas


 


No Jornal de Notícias de 11.11.2015.


Uns papéis assinados à pressa numa sala vazia do Parlamento, longe dos olhares da Comunicação Social e do país, determinaram ontem a queda do XX Governo constitucional. Só foi "histórico" porque conta uma história que só lá mais para diante se entenderá. E, se for plenamente consumada, em piores condições do que aquelas em que os contratantes, e os destinatários involuntários da peripécia inaudita, a redigiram. O sentido do voto de 4 de Outubro está, pois, eliminado pelas circunstâncias e apenas novas eleições legislativas poderão repor o espírito da democracia representativa. As papeletas subscritas pelo PS, PC e Bloco constituem agora a "base" da vida política nacional das próximas semanas ou meses. Esteve bem o vice-primeiro-ministro demissionário quando afirmou que os autores das papeletas, em particular o PS, não contam com os 107 deputados da coligação para os percalços. Nas próximas semanas ou meses a "estabilidade" fica a cargo do Comité Central do PC e da Mesa do Bloco. O PS é meramente instrumental apesar de aparentemente liderante da aventura. Porque não emerge diante dos seus parceiros como o primeiro legitimado nas urnas, ao contrário do que sucedeu até ontem em situações minoritárias, mas como uma espécie de cavalinho de Troia que eles tencionam empurrar e conduzir até ao limite das respectivas vontades. Dos bonzos do comentadorismo aos apagados candidatos presidenciais - estes foram submersos pela nova "acção nacional popular m-l" e, em geral, circunstancialmente coniventes com ela -, todos parecem convergir na fatalidade de o chefe de Estado ter de empossar o pessoal das papeletas. Não obstante a crença e o desejo, felizmente não é a este mandarinato que compete interpretar o papel do PR num sistema semipresidencial. Para citar a generalidade dos perplexos candidatos presidenciais, depois do "tempo dos partidos" regressa o "tempo do presidente" de que eles apreciam fugir como de gato a bofe. É Cavaco Silva quem tem de apreciar as condições de governabilidade "estável, credível, coerente e duradoura" inscritas no atomismo panfletário das papeletas antes de um eventual programa de Governo ser de novo apresentado à Assembleia. Não estou a defender que o presidente as deva recusar. Confio no seu julgamento político e, também, nas suas contas independentemente do que decidir. Pelo menos sabemos que o sufrágio que o mandatou não foi rasurado.

29.10.15

Os tempos e os dias

nazaré.jpg


Passos Coelho, quando tomar posse amanhã, tem de sinalizar inequivocamente que não chefiará qualquer "governo de gestão". Quem votou PàF votou num governo para quatro anos e, na circunstância, minoritário. Tudo o mais no parlamento deve ser deixado nas mãos daqueles que decidiram rasurar, pela 1ª vez depois do "25 de Abril", o resultado de uma eleição legislativa. Quem bebe pelo gargalo compra a garrafa.


Dá-me ideia que os meus amigos PàF no parlamento ainda não se aperceberam que foram cercados "dentro" do próprio parlamento e não foi por operários da construção civil da cintura industrial de Lisboa. Vem tudo explicado, por exemplo, na monografia de Vasco Pulido Valente sobre a 1ª República. No Observador de certeza é que não vem.


No lugar da "esquerda" ávida não mostraria tanta indignação com a escolha de Sérgio Monteiro para o que foi escolhido. É que um dia destes pode sair por aí uma "biografia política" do homem e consta que o prefaciador é o "senador" Jorge Coelho.


Parece-me que o que Jerónimo de Sousa tem andado a dizer hoje é mais ou menos isto: em matéria de "palavra dada é palavra honrada" à esquerda só mesmo o PC. O que não surpreende.


Como a "esquerda" proibiu a realização de sessões plenárias na AR durante uma semana - o cerco da Constituinte foi mais curto - é natural que não apareça nenhum deputado com uma tshirt ou um cartaz com o logotipo do CM. Tudo é explicável como o José Pacheco Pereira não se cansa de explicar.


Está certo que se trata de decisão judicial, recorrível e discutível como, aliás, o próprio demandante não se cansa de recordar em actos e perorações quando lhe diz respeito. Dito isto não vamos ter direito àquele friso inesquecível de prosélitos da liberdade de expressão e de imprensa, à porta da CML, erguendo cartazes a dizer "je suis Correio da Manhã" e "je suis Sábado"?


 


Foto: Bruno Aleixo. Nazaré, Outubro de 2015


 

28.10.15

Defesa de Cavaco Silva


 


Dissesse o que dissesse o chefe de Estado seria sempre atacado. A vida pública portuguesa está prisioneira de um tacticismo indescritível cujo cume terá sido atingido nas audiências que Cavaco Silva concedeu aos partidos por causa da formação do novo Governo. Ao recusar ceder a esse tacticismo, com uma das melhores mensagens políticas dos seus mandatos, o presidente da República desarmou aqueles que, à esquerda e à direita, sobrevivem no regime à custa do colaboracionismo, da má-fé e da dissimulação. Cavaco devolveu o sistema semipresidencial à sua "natureza" tal como Maurice Duverger a viu (para não ir buscar nenhum constitucionalista português, agora que andam para aí a brotar como papoilas): "não é totalmente parlamentar, nem totalmente presidencial, mas une estes dois aspectos", dependendo da "relação de forças políticas". Mais. "Os deputados não podem reduzir o presidente às funções de um chefe de Estado parlamentar se não revelarem no seu seio uma maioria coerente e estável. Na ausência de uma tal maioria, o presidente pode e deve desempenhar um papel importante". Foi o que Cavaco fez ao indigitar Passos Coelho, líder do partido com o maior grupo parlamentar, para formar um Governo que, nos termos constitucionais (art. 190.º da CRP), é tão responsável perante ele como perante a Assembleia da República. E foi também o que fez quando alertou o Parlamento e os deputados, de acordo com o n.º 1 do art. 191.º da CRP, para a sua exclusiva responsabilidade em aprovar ou rejeitar o Governo minoritário que vai tomar posse. O que quer dizer que, apesar do berreiro e da "indignação", ninguém foi a Belém apresentar-lhe "uma maioria coerente e estável". O presidente, ao contrário do Parlamento e dos governos que dele emanam, só o é absolutamente, ou seja, a legitimidade presidencial apenas se adquire através do sufrágio universal directo de mais de metade dos eleitores. O que lhe confere o dever, e o direito, político e institucional de avaliar e de ponderar, perante o país e sem intermediários, todos os pressupostos que considera fundamentais para a melhor solução governativa. Não é neutro - algum antecessor o foi? - nem se "excedeu" ou criou "instabilidade". Cavaco preside a uma democracia representativa até 9 de Março de 2016 pela escolha livre dos portugueses. Quem se excedeu e criou instabilidade, perdeu a 4 de Outubro. Não ganharam propriamente "todos". É bom que todos se lembrem.


 


Jornal de Notícias

27.10.15

Crónica do tempo que passa


 


Está formado um governo patriótico em resultado das eleições legislativas. Todos o são, claro, mas pelas circunstâncias este é-o famosamente.


Se há altura para Passos recuperar o Ministério da Cultura é esta (escrito no domingo)


Se dúvidas houvesse quanto ao que vem a novíssima "arca da aliança" parlamentar é só atentar no que disseram os representantes de tão ilustre saco de gatos no programa da Fátima Campos Ferreira. Sobretudo os do Bloco, os mais recentes "donos disto tudo".


Dizem-me do Bloco, mas sobretudo do PC, que não há como não existir acordo com o PS: Costa, para espanto das criaturas, aceita tudo. E, acrescento eu, o outro PS (o dos bananas e do Assis preguiçoso) também.


A não-esquerda, para não lhe chamar direita como a esquerda gosta, está frouxa, timorata, complacente, ambígua e acívica perante o assalto da nova "arca da aliança" pós-eleitoral. Até as presidenciais andam a toque de caixa desta mistificação não tarda muito "consensual". Aliás, pergunto-me se a não-esquerda, ou a direita como preferem os filisteus, terá algum candidato que não tenha vergonha em se assumir dela.


Marcelo revê-se na presidência Sampaio. Tal como, suponho, mais dois ou três candidatos.Tanto que lhe copia o slogan da primeira campanha: "todos por um" e "um por todos". Convinha, porém, tal como fez em relação ao incumbente pela negativa, esclarecer que partes da presidência Sampaio o encantaram. Digamos que é um conselho amigo.

25.10.15

O cisne negro


 


Noto, com alguma perplexidade, que Pacheco Pereira não tem parado na sua cruzada pela "frente popular". Nos jornais, nas revistas, na rádio ou nas televisões tem-se vindo a revelar dos mais ensebados adeptos da alegada "justiça poética" que a aritmética parlamentar aparentemente ditou. Lá vai disfarçando com umas tiradas sobre a "legitimidade" de Passos mas não passa daí. Marcelo, apesar da manifesta beatitude e equanimidade perante a escalada absurda em curso, também não escapa. Sem se rir, porque é limitado em matéria de sentido de humor, acusa-o de ser pouco "ético". E a Cavaco, por sinal o único que não desertou, já lhe apontou o dedinho inquisidor da "instabilidade". Pacheco andava há muito a pregar que era preciso "fúria". Pois bem. Ele espalha a dele com a ventoinha permanentemente ligada. Tem de conceder o direito aos outros de lhe atirarem à cara a sua.

22.10.15

Não há bipolarização


É provável que hoje ou amanhã o presidente da República diga ao país como viu os jogos florais dos derradeiros 15 dias. E que indigite o primeiro-ministro que, pela "lógica" que não prevaleceu neste interregno, deverá ser Pedro Passos Coelho. A partir daí o "cenário" criado pelos resultados eleitorais de 4 de Outubro passa a ter de ser encarado com realismo e sem estados de alma. Julgo que não vale a pena "acreditar", nem que seja a título de refrigério ou de dissimulação, que a legislatura durará os quatro anos da praxe. Um Governo minoritário da coligação precisa pelo menos da abstenção do PS no essencial. O que significa o abandono de grandes veleidades "ideológicas" ou de "engenharia social", quer por parte do centro-direita - que terá agora de "carregar" nas matrizes reformadoras, a social-democrata e a democrata-cristã, dos partidos que o compõem -, quer por parte de um PS até ao momento refém do tropismo bonapartista de António Costa aparentemente disposto a qualquer coisa para se manter à tona. Se isto funcionasse não seria inverosímil ponderar a não interrupção da legislatura como aconteceu, por exemplo, entre 1995 e 1999. Mas os sinais têm sido confrangedores como se estivéssemos à vontade para brincar às casinhas. Não me surpreenderam as jogadas tácticas do secretário-geral do PS nem a sua manifesta impreparação para liderar um Governo nas presentes condições como se constatou na entrevista que concedeu à TVI. Tal como não me admirei com a "disponibilidade" do PC, traduzida na frase emblemática "o PS tem todas as condições para formar Governo" ou na variante "o PS só não forma Governo se não quiser", numa disputa inteiramente privada com o BE que recorre à sonsice "no que depender de nós". Partidos tipicamente de protesto, e que medram com o protesto, não aderem de repente à democracia liberal por acharem que o PS é que "bipolariza" à Esquerda. Pelo contrário, sabem que se isso acontecesse acabariam "engolidos" à semelhança do que aconteceu nos anos 80 e 90 com sectores do PC e velhos radicais. Da mesma maneira, o PS (o que não aprecia o frenesim costista) não ignora que estes cantos e silêncios de sereias à sua esquerda só "valem" para uma precária aritmética parlamentar e não enquanto legitimação política substantiva. Para assim ser, o PS teria de ir a eleições com esta novíssima "solução". E a coligação também para alcançar a maioria. Não há bipolarização.


 


Jornal de Notícias (21.10.2015)

20.10.15

Pensar o mundo


 


«O que se passa em Portugal desde a noite eleitoral de 4 de Outubro passado é, neste sentido, tão evidente que todos os comentários se tornam supérfluos e dispensáveis. E a evidência é só uma: o socialismo democrático (ou, se quisermos, a social-democracia europeia, mas o mesmo se pode dizer do socialismo “tout court”) é hoje apenas o nome de uma marca sem um conteúdo identificável, o retrato de uma posição sem estratégia, a confissão de uma ambição sem convicções. O canibalismo político tem por isso, aqui, um dos seus pastos de eleição, como os próximos tempos não deixarão de confirmar.»


 


Manuel Maria Carrilho

16.10.15

As "divisões" de António Costa


 


Nunca se tinha assistido a uma coisa assim nestes quarenta anos. Em 1975, é certo, as eleições foram para a Assembleia Constituinte mas logo ali se definiu um "padrão". Corria o processo revolucionário, o MFA, dominado pelo PC e pela extrema-esquerda, desconfiava de sufrágios representativos e, todos juntos, pareciam muitos. Viu-se que não eram. A "dinamização cultural" levada até às mais remotas aldeias de Portugal - por vezes com direito a transmissão na televisão única -, feita na rua, em agremiações locais ou em cima de carros de combate, falhou a tentativa de usurpação do voto livre. Os governos provisórios atingiram o número de seis e foi um deles, chefiado pelo militar e engenheiro Vasco Gonçalves, que presidiu àquela eleição. Não se sucedeu um executivo concordante com os resultados eleitorais favoráveis aos socialistas e aos populares-democratas. Pelo contrário, a "vanguarda" ancorada em parte do MFA, no PC e na extrema-esquerda precipitou-se em fazer seu o poder político-militar ao arrepio daquilo que o "povo" ditara nas urnas. PS e PPD/PSD deixam a revolução ao abandonarem o Governo provisório que a defendia e, em certo sentido, "guiava". Só regressariam com Pinheiro de Azevedo e, mesmo assim, foi preciso esperar pelo 25 de Novembro para, aos poucos, a legitimidade revolucionária se acalmar para dar lugar à democrática. Em todas as eleições legislativas subsequentes foi sempre a legitimidade democrática que prevaleceu. Sabia-se quem é que ia chefiar o Governo, com ou sem maiorias parlamentares, e jamais voltou a ser posta em causa essa legitimidade. Mas parece que estávamos, afinal, condenados a rever o historial do regime de 1974-1975 pela mão de quem menos se esperava: o líder do partido que na altura mais se bateu pela causa da democracia representativa contra a deriva "vanguardista". António Costa - derrotado em 4 de Outubro, aspirante a governar em maioria absoluta do PS sem nunca ter afirmado perante o "povo" que podia tentar o "frentismo" voluntarista proposto pelo PC e pelo Bloco se perdesse, ao arrepio do lastro democrático-liberal que o seu partido determinantemente ajudou a fundar a partir de 1975, primeiro nas ruas e na opinião pública e, depois, nas instituições e no Estado - preferiu confinar o PS a um organismo de tipo soviético submetido à vontade do líder. Costa, qual Estaline, anda de porta em porta a perguntar quantas "divisões" têm os outros. Não quer compromisso. Quer guerra.


 


Jornal de Notícias

10.10.15

"Espírito de convergência e afecto"


 


Há uns meses imaginei que Henrique Neto pudesse protagonizar uma candidatura presidencial por uma Nova República. Com uma biografia respeitável, Neto parecia estar em condições de mobilizar algumas elites do centro-esquerda ao centro-direita, sem apoucar a função partidária, e de chamar a elas correntes da opinião pública não completamente confortáveis com a "situação" e com a "oposição". A sua declaração de Março era inovadora e potenciava um papel diferente ao PR. Mas rapidamente Neto triturou esse potencial com uma obsessão ensimesmada, não pela ponderação desse papel, mas antes por um hipotético "programa de governo" que nenhum PR, nos pressupostos constitucionais em vigor, pode dirigir. Neto ficou assim capturado pela sua vaidade e limitado como candidato necessário a Belém. Na realidade tem dado permanentes sinais de que preferia candidatar-se a um cargo executivo e num sector específico. Em suma, "encalhou" no Porto de Sines e nunca mais de lá saiu. Ontem à tarde, todavia, chegou o Presidente. Se existissem dúvidas, o notável discurso de apresentação da sua candidatura presidencial cessaram com elas. Marcelo, como sempre previ contra a opinião do meu saudoso Amigo Medeiros Ferreira, "saiu" do estúdio para o país. «Conheço muito bem a Cconstituição que nos rege. Sei qual é nela o papel do Presidente da República. Estou consciente de como o estado do mundo e da Europa não deixam antever anos fáceis e de como Portugal tem de sair claramente de um clima de crise financeira, económica e social, pesada e injusta, que já durou tempo de mais. Para isso considero essencial que haja, como nas democracias mais avançadas, convergências alargadas sobre aspectos fundamentais de regime. Considero ainda que não há desenvolvimento, nem justiça, nem mais igualdade com governos a durarem seis meses ou um ano, com ingovernabilidade crónica e sem um horizonte que permita aos governados perceberem aquilo com que podem contar no quadro da composição parlamentar resultante daquilo que votam. Mas a estabilidade e a governabilidade têm de estar ao serviço do fim maior e o fim maior na política é o combate à pobreza, é a luta contra as desigualdades, é a afirmação da justiça social.» É isto: «uma caminhada feita por Portugal, com independência, com sentido nacional, com espírito de convergência e com afecto.»

Força


 


No dia 23 de Janeiro de 1983 o então Presidente Eanes dissolveu a AR e convocou eleições para 25 de Abril. Estava em funções o VIII Governo Constitucional, chefiado por Pinto Balsemão, e a AD, maioritária no parlamento, desagregava-se. Naquelas eleições, o PS ganhou sem maioria e foram encetadas negociações para a constituição do chamado "bloco central" com o PSD de Mota Pinto. O governo subjacente a este acordo tomou posse a 9 de Junho de 1983, ou seja, praticamente seis meses depois da dissolução parlamentar. E o governo de Pinto Balsemão esteve praticamente outro tanto em gestão. O caos até agora calmo que se instalou no regime por causa dos resultados do passado domingo - com o principal derrotado à chefia do próximo governo e a a sua fiel oligarquia partidária entregues a jogos florais irresponsáveis com a desculpa que é preciso "conversar" com tudo e todos sobre tudo e todos como se o sufrágio pudesse ser lido de cima para baixo e de baixo para cima exactamente da mesma maneira - pode ter como desfecho uma situação parecida com a que descrevi. Nada impede o XIX Governo Constitucional de permanecer em funções de gestão política do Estado até estarem criadas as condições jurídico-políticas para o novo Presidente poder dissolver o parlamento votado há uma semana. É tão verosímil como os "cenários" que correm por aí, um dos quais tem Jerónimo de Sousa como maior entusiasta na sua qualidade de líder da quinta força partidária mais votada. Querem tempo para "falar"? Têm seis meses pela frente. Força.

7.10.15

O PS perdeu a Fonte Luminosa


 


Para descaso de alguns prosélitos, no meio dos quais se incluem formas de vida moderadamente inteligente, Portugal não é uma democracia popular. A Constituição, por muito que lhes custe, fundou uma democracia representativa. A seguir os partidos - com destaque para o PS, o então PPD e o CDS conforme os primeiros actos eleitorais - ajudaram a "estabilizar" essa democracia representativa. O presidente Eanes também. Mais rapidamente do que se supunha, o Centro-Direita representado na AD de 1979 integrou-se sem mácula no regime. Ficou logo claro que os adeptos da democracia popular não "passavam" no teste das urnas. Assim voltou a acontecer no passado domingo. O "povo" foi votar e ditou o que queria: o dr. Passos como primeiro-ministro e a coligação PSD/CDS a suportar um Governo minoritário no Parlamento. Não quis decididamente maiorias absolutas, muito menos do PS, nem maiorias fictícias alicerçadas na rejeição da democracia representativa. Foi um belo esforço, o das meninas do Bloco e de Jerónimo de Sousa, mas menos de 20 deputados em ambos os casos não é exactamente o mesmo que mais de 100 ou de 80. O PS pagou cara a factura da ambiguidade e do tacticismo. Costa sofreu uma dupla derrota: interna e no país. Alcandorou-se a candidato a primeiro-ministro e a secretário-geral, atropelando uma pessoa e dois sucessos partidários nacionais, para quase nada. Nem sequer conseguiu mais deputados do que o PSD "separado" do CDS. Arranjou um sarilho doméstico que o obriga a disputar a legitimidade da liderança no momento em que as circunstâncias exigem conversa democrática séria e estabilidade. A fractura do PS dá nota de um ponto de chegada sem ponto de partida à vista. Em certo sentido o PS perdeu a Fonte Luminosa e estatelou-se humilhantemente à conta do seu pior adquirido e do lixo acumulado nos derradeiros anos. A situação de maioria relativa estipula um ónus quer para a coligação quer para o PS. A coligação já sinalizou a sua inequívoca percepção da realidade. Costa, não contente com o desastre, persistiu na ambiguidade apesar da recusa de "maiorias negativas". Sucede que o lastro do PS da Fonte Luminosa nunca hesitou entre a democracia representativa e a popular. Enquanto for secretário-geral, Costa tem pelo menos a obrigação moral e política de não desonrar esta história antes que o PS "vire" dois: um para acomodar a tralha e outro para servir o país.


 


Jornal de Notícias


 


Nota: Mais no Facebook.


 

30.9.15

Votos certos e incertos

ppc.jpg


 


 


Há um ano, mais coisa menos coisa, o antigo cinema Roma, presentemente a sede da Assembleia Municipal de Lisboa, recebia em euforia o ainda presidente da Câmara. O homem tinha acabado de remover António José Seguro da liderança do PS após vencer as "primárias" abertas a "simpatizantes". Este demitiu-se de tudo e, com a maior dignidade, saiu de cena para que Costa pudesse exibir em paz todo o seu esplendor bonapartista. O novo chefe ignorou-o, e aos três anos precedentes da história do partido, sem um vestígio de consideração ou agradecimento. Seguro, o "poucochinho", sempre tinha arrebatado o poder autárquico para o partido e as "europeias". Mas isso não interessava nada porque só Costa podia redimir as hostes da humilhação de 2011, justamente a partir daquele excitado serão na Avenida de Roma. Na segunda-feira, uma pequenina parte do delirante apostolado juntou-se ao candidato a primeiro-ministro do PS em nome da "cultura" e da soberba "moral" que os justifica. Era, no essencial, a velha guarda cortesã do antigo presidente de Câmara cujas qualidades enquanto relações públicas alguns dos presentes - sempre atentos, venerandos e obrigados - notabilizaram como sempre a pensar no futuro deles. Se evoco estas peripécias é porque elas resumem eloquentemente a deslocação da campanha do PS, e eventualmente do destino próximo do partido, numa direcção incerta que a perdeu. Costa e os seus "estrategas" erraram ao pensar que "isto" era o mesmo que Lisboa. Bastava dominar o "meio", menorizar a outra esquerda e contar com meia dúzia de tresmalhados da "situação" para a coisa funcionar. Não bastava. Pelo contrário, preparou-se mal para o embate com a realidade, não estudou o programa que pediu, convocou o pior jacobinismo para as arengas demagógicas e, sobretudo, não logrou incutir um "poucochinho" de confiança num eleitorado que a coligação acabou, pelos vistos, por reconquistar. António Costa, a desilusão desta campanha como Catarina Martins o apelidou, chega a domingo num caos voluntário e a prometer por ele. Impreparado, inseguro e falaz, Costa dá sinais de ter dividido o PS para muito pouco ou nada. O país não lhe agradecerá a frivolidade do exercício. Passos, para já, ganhou a batalha da estabilidade, da confiança e da moderação "natural" sem precisar dar saltos, falar demasiado alto ou afogar-se num mar de inconsistências e de bem-aventuranças improváveis. É, pelo menos, um voto certo.


 


Jornal de Notícias, 30.9.2015


 


Nota: Passei a privilegiar, para já e por preguiça, o Facebook. Lá está, no fundo, tudo o que nao escrevi.


 

27.9.15

A campanha


 


Sob o espectro de uma relativa indiferença, a campanha eleitoral propriamente dita anda por aí. O "meio" - televisões, rádios, jornais e redes sociais - bem se espreme por tornar intrusivo um debate eleitoral que concorre todos os dias, mesmo no da eleição, com a bola. Só os fiéis, e os obrigados por natureza de função, comparecem. As mobilizações populares de 1986 a 1991 desapareceram. Confia-se que a cibernética comunicacional faça o resto. A "rua" talvez venha a ter uma relevância que não tem tido até agora, salvo numa ou outra conversa ou barulho filmados pelas televisões. Como os programas têm de ser suficientemente vagos para não serem demasiado comprometedores, sobram os jogos florais em torno de um ou dois temas "sérios" com manifesta supremacia para os números da segurança social. É, aliás, nesta "base" que os dois candidatos à chefia do governo "dialogam" surdamente um com o outro a partir dos respectivos comícios e refeições partidárias. Todavia há uma diferença que os leigos não terão deixado de notar. O primeiro-ministro Passos Coelho que, por dever de ofício, é obrigado a saber com o que conta, deixou desarmado o candidato do PS ao conseguir surpreendê-lo com o seu próprio programa: percebeu-se que Costa o leu mas não logrou assimilá-lo. Seguiu-se a fuga em frente com uma tão inútil quanto irresponsável "promessa" a juntar às diárias perpetradas a torto e a direito em razão das circunstâncias de modo, tempo e lugar: votar contra um eventual próximo orçamento de Estado preparado pela coligação se esta vencer. Costa provavelmente não se deu conta da rasura que causou na "confiança" e no crédito que pede. As campanhas eleitorais não se medem apenas pelo que as sondagens, as "tracking pools" ou as acções personalizadas contam. Existe um elemento psicológico associado a estes instrumentos de análise que puxa para baixo ou para cima quer os candidatos quer o eleitorado. Neste campo julgo que Passos Coelho está "à frente". O tandem com Portas funciona e a mensagem é parecida com a de Cavaco em 1987: "Portugal não pode parar". Costa errou ao optar, na campanha e nos propósitos, pela imoderação e pela instabilidade. Lembra Fabrizio del Dongo, em A Cartuxa de Parma, depois de ter andado perdido em Waterloo ao lado, julgava ele, de Napoleão. "A carreira militar para Fabrizio é a vida do esquilo na gaiola que anda à roda: muito movimento para nenhum progresso".


 


Jornal de Notícias, 23.9.2015


 


Nota: Alguns leitores amáveis perguntam-me por que é que o blogue "parou". A todos respondo com sinceridade: por falta de paciência. E porque passei a privilegiar, por preguiça, o Facebook. Lá está, no fundo, tudo o que nao escrevi.

2.9.15

Um bom princípio


 


A administração da LUSA, pelos vistos no âmbito de uma "reorganização" geral da casa, substituiu o director de informação, Fernando Paula Brito, por Pedro Camacho. Saem os directores adjuntos de Paula Brito mas Camacho já deu a entender que se governará com a "prata da casa". Quando Teresa Marques assumiu a presidência da Lusa, escrevi que se tratava de uma boa escolha. Ora o argumentário com que defendeu estas alterações confirmam essa conclusão. "Apesar do excelente trabalho desta direcção de informação, foi entendido que a Lusa precisava de um director que fosse também um gestor, como já vai acontecendo em muitas empresas privadas", uma decisão tomada "numa altura em que ninguém sabe sequer quem vai ser o próximo Governo". Mais. "No dia em que um Governo diga a este Conselho de Administração que tem de mudar a direcção de informação, o Conselho de Administração demite-se". A avaliar pelas experiências mais recentes no que resta de comunicação social sujeita a tutela técnica e financeira do Estado, parece-me definitivamente um bom princípio.

Merkel não foi a Castelo de Vide


 


Agosto, mês de férias, feiras e festas, manteve o país em remanso relativo. Só não foi absoluto por causa das eleições o que obrigou os protagonistas delas a alguma movimentação. O "povo", pareceu-me, absorveu as férias, as feiras e as festas até ao tutano e desprezou os ruídos que, de vez em quando, lhe chegavam do folclore partidário. O que pode ser um sinal interpretável para Outubro: a política não consta "inequivocamente" da lista de prioridades do "povo" como desejam os principais candidatos à pastorícia directa da nação. Mesmo assim houve esforços.


O PS acampou a juventude. O PSD ofereceu-lhe a habitual academia de Castelo de Vide. Apareceu uma candidata presidencial e desapareceu outro que antes de ser já não era. O dr. Passos, por força das circunstâncias, anda mais "social" na retórica mas carrega o Novo Banco às costas. O dr. Costa anda o que for preciso e mesmo assim pode não chegar. O dr. Portas, e como estão perfeitos um para o outro, prepara um talk show com a D. Heloísa Apolónia. Jerónimo espera mais deputados. E o Bloco é a Mariana Mortágua e basta. Não se dá praticamente pelos "novos" que, aliás, não fizeram muito para que se dê por eles. Sucede que fora desta pequenez caseirinha a Europa, a que nós estamos ligados mais pelo tratado orçamental do que por qualquer outra coisa, ficou obrigada a encontrar-se consigo própria (história, "valores", "princípios", economia, etc.) por causa dos chamados migrantes e refugiados.


Durão Barroso, o mais bonzo presidente da Comissão Europeia dos derradeiros tempos, passeou por Castelo de Vide a frivolidade que o tornou internacionalmente famoso. Sobre isto referiu que a Europa terá sempre as portas abertas mas não escancaradas. A Hungria ou a Sérvia - países cujo passado não os recomenda especialmente em matéria de direitos humanos - "aprenderam" mais depressa a "lição" de Barroso do que a rapaziada laranja. Foi preciso Merkel para retomar um olhar europeu, sensato e cosmopolita, sobre esta catástrofe. A Alemanha política e "da indústria" dispõe-se a receber 800 mil pessoas e reprova sem hesitações comportamentos xenófobos. Desafia, com a autoridade de quem pagou o preço elevado da devastação física e moral, a restante Europa, a que cabe na indigência oportunista dos Barrosos de Castelo de Vide. A chanceler, para já, devolveu uma "ideia de Europa" à Europa. E é dos textos que quem salva uma vida salva a humanidade inteira.


 


Jornal de Notícias


 

20.8.15

A quinta dos animais ou o triunfo dos porcos


Passam 70 anos sobre a primeira edição de "Animal Farm", de George Orwell, que, à letra, intitulava-se "A quinta dos animais, uma história de encantar". Por cá, e noutras línguas, também foi recebido como "O triunfo dos porcos", "O porco triunfante" ou "A revolução dos bichos". Esta extraordinária fábula política, escrita antes do final da guerra, metaforizava o universo concentracionário do regime estalinista e, de certo modo, o fracasso "humanista" da revolução russa. Todavia o ironismo da obra tem permitido que se recorra a ela para denunciar, ou simplesmente ilustrar, qualquer organização ou sistema aberrantemente totalitário criado à sombra das melhores intenções. Orwell, numa carta posterior, explicou o propósito com meridiana clareza: "Não há revoluções a menos que sejamos nós próprios a fazê-las uma vez que inexiste algo parecido com ditadores, ou ditaduras, benevolentes". Quem diz revoluções, diz democracias liberais e democratas liberais. Os maus hábitos de civilidade entranhados nos regimes pós-guerra, do Atlântico aos Urais, fazem de grande parte deles autênticas "quintas dos animais" no sentido orwelliano do termo. Os burocratas das administrações públicas, da economia, da finança, dos partidos e das corporações triunfam alarvemente enquanto a liberdade e a iniciativa crítica recuam. Aos cavalos sucederam os porcos: "os porcos não trabalhavam efectivamente, antes dirigiam e supervisionavam os outros" e "toda a administração e organização desta quinta repousam sobre os (seus) ombros". E a bravura? "A bravura não chega - disse Tagarela. A lealdade e a obediência são mais importantes". Por isso - e aqui podemos entrar, por exemplo, pelo calçadão de Quarteira, por "agendas para a década" ou pela "reforma do Estado" reflectida num grosso de pequeninos e grandes chefes sem mundo ou biografia - dá "a impressão de que a quinta enriquecera sem que os próprios animais tivessem enriquecido - exceptuando, é claro, os porcos e os cães". É que os porcos têm de "labutar todos os dias para completar coisas misteriosas chamadas "arquivos", "relatórios", "minutas" e "memorandos" a fim de zelar pelo bem-estar da quinta onde todos somos iguais embora uns sejam mais iguais do que outros. Afinal, como escreveu Orwell num prefácio premonitório que nunca chegou a sair, "são os liberais que temem a liberdade", esse "direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir".


 


Jornal de Notícias


 


 

14.8.15

Uma entrevista inteligente


 


Marcelo a Nuno Saraiva no Diário de Notícias. Alguns excertos de uma entrevista inteligente.


A questão da notoriedade já não se coloca, não há quem não o conheça.


Coloca-se em termos muito diferentes. Estando há 14 anos sistematicamente na televisão e com as audiências que tenho tido, há um reconhecimento relativamente generalizado de quem sou. De vez em quando, ainda tenho esse bálsamo, essa alegria que é ir a um sítio em que há uma pessoa ou duas que não me conhecem. E isso é um bálsamo porque, quando me conhecem, isso significa a pessoa ter o dever de falar, ouvir, aconselhar, partilhar e, quando são várias pessoas ao mesmo tempo, de fazer selfies… Enfim, tudo aquilo que imagina. E não me resguardo, o que é um comportamento muito diferente de outras pessoas que conheço e que estão na política ou estão, por exemplo, na televisão; não é que não façam uma vida normal, mas não se expõem tanto.


Com a capacidade de mobilização que toda a gente lhe reconhece porque é que adia para outubro a decisão sobre as presidenciais?


Não se é candidato por uma questão de notoriedade. Se fosse por isso, teríamos aí uma série de figuras a quererem ser candidatos à Presidência da República. Só a referi no caso de Lisboa [autárquicas de 1989] porque era dramaticamente baixa. Não havia a televisão que há hoje, não havia internet. Era tudo mais lento em termos de ganhos e, do outro lado, estava uma pessoa [Jorge Sampaio] que tinha notoriedade porque aparecia todos os dias como líder da oposição. Mas não basta. A pessoa quando avança para uma candidatura tem de ponderar uma série de factores importantes. Há uns que são intemporais. A visão que tem do país, da Constituição, do Presidente da República. Mas não basta, porque há muita gente com uma visão sobre o país – é natural que tenha, cada um tem a sua –, há até alguma gente, menos, com uma visão sobre a Constituição, implica conhecê-la. E há alguma gente, bastante, com uma visão sobre o que é o Presidente. Mais difícil é ver o que é o Presidente na Constituição. Depois isso cabe ou não no perfil constitucional? Isso não se muda do pé para a mão e o Presidente sozinho não a muda. Quem muda são os partidos por revisão constitucional, e exigindo um amplo acordo. Há outros factores importantes e entre eles a noção de que, no quadro das hipóteses disponíveis num determinado momento, há um dever de avançar por se considerar que se está em melhores condições para desempenhar o cargo. E isso implica apreciar o quadro das várias hipóteses disponíveis, implica comparar, implica também fazer uma autoavaliação: como é que a pessoa está fisicamente? E psicologicamente? E a sua disponibilidade familiar? Imagine-se os filhos ou os netos, no meu caso, que estão num país muito distante. Há vários factores ponderados em conjunto. Além destas razões todas, há uma outra, a meu ver muito importante, que é não misturar eleições. As legislativas são eleições para o governo do país. Embora se elejam deputados, acaba por se querer eleger um primeiro-ministro e um governo. Eleger um Presidente é coisa diversa. Misturar as duas traria a tentação de sobreposição de discursos. Por um lado, os partidos estarem a concorrer e, ao mesmo tempo, falarem da Presidência da República, do tipo de Presidente ou do candidato a Presidente. Por outro lado, os candidatos presidenciais, às tantas, ficarem com tiques de primeiros-ministros, quase sentindo a obrigação de ter programas de governo para justificar o porque é que estou agora a lançar-me? Porque vou mudar isto e aquilo e aqueloutro. Às tantas, uma parte do que se diz é o que o governo ou o Parlamento podem fazer, mas o Presidente não pode. Se já é complicado votar à saída da crise, com a Europa com uma série de indefinições, se já é complicado ter duas eleições practicamente coladas, entendi sempre que não valia a pena aumentar a complicação em termos de discurso e de candidaturas. Sendo dois filmes que eram sucessivos no tempo mas diferentes entre si.


O facto de ter o seu capital de notoriedade ajuda a que possa protelar o mais possível essa decisão.


Não, até vou dizer mais sobre isto. Um dos riscos grandes da sobreposição das candidaturas era aprisionar os candidatos presidenciais. E os candidatos presidenciais, na letra da Constituição, são independentes, embora vários deles, resultantes de áreas dos principais partidos, tenham tido o apoio desses partidos. Nesta situação concreta da vida portuguesa, entendo que há um anseio na opinião pública que é justificado no sentido de reduzir ao mínimo a ligação entre os partidos e as candidaturas presidenciais. O ideal seria não haver qualquer ligação entre uma candidatura presidencial e um ou vários partidos políticos. E como é que isso se materializa? O candidato presidencial pode dizer, embora agradecendo as manifestações de partidos para o apoiar, que prescinde porque não é apenas desnecessário como não desejável esse tipo de vinculação.(...)


Que perfil tem de ter o próximo Presidente da República?


Tem de ser resultado, por um lado, da Constituição e, por outro lado, da conjuntura vivida. A Constituição é o que é, não vejo que seja fácil – até por aquilo que é a conjuntura vivida – haver um acordo de revisão que mexa no sistema de governo, presidencializando- o . Era útil se isso acontecesse? Não. O que está na Constituição está bem. Há pontos a rever e a retocar mas, genericamente, está bem. Neste quadro, tem de caber na Constituição o que o próximo Presidente deve ser e deve fazer, mas não pode ignorar o país que temos. É um país que está a sair de uma crise, uma saída que pode ser mais rápida ou mais lenta e que não é homogénea. Há sectores sociais que saem mais depressa do que outros. Vai ser assimétrica, desigual. Há uma forte probabilidade de instabilidade e de mais difícil governabilidade nos próximos anos. Porque não haverá maiorias absolutas. A esta distância das eleições legislativas, parece muito difícil o salto de 37% ou 38% para 44% ou 45%. Num lado ou noutro. O que obriga a um esforço de, não apenas convergência de regime – e essa tem conhecido um recuo nos últimos anos.(...) Vai ser preciso que o próximo Presidente, até porque provavelmente vai coexistir com mais do que um governo, seja capaz de fazer pontes, de dialogar com os vários interlocutores, que esteja numa posição central para o poder fazer porque o diálogo vai fazer-se essencialmente ao centro, uma vez que os dois principais partidos estão um no centro-esquerda, para a esquerda, e outro no centro-direita, para a direita. E que tenha, se possível, alguma experiência nesse tipo de actuações. O perfil anda por aí. Quando vejo divagações teóricas sobre o que deve ser o Presidente... Não é que o Presidente não tenha uma ideia sobre o sistema político. Participei em revisões constitucionais em que isso foi um tema muito tratado, como a de 1997 que abriu para a redução do número de deputados, para a mudança do sistema eleitoral. Não é que um Presidente não deva ter um papel importante, pensando sobre domínios das políticas sociais ou da administração pública ou da justiça. Mas o que se espera do Presidente é o que cabe na Constituição: antes do mais, trabalhar para a governabilidade, para a estabilidade e para as convergências de regime. (...)


Sendo um crente assumido, tem medo da morte?


Não. Não. É a dimensão, no fundo, mais importante da minha vida. E digo-lhe que num caso de dúvida, numa decisão, o que vai fazer pesar para um lado ou para o outro, é aquilo que entendo que um cristão deveria preferencialmente fazer. A morte é uma passagem, mesmo. E é uma passagem que começa a preparar-se desde sempre, que começa a preparar-se durante a vida. Não se prepara apenas no momento da aproximação à morte. Muitos não crentes que se convertem, ou não se convertem mas fazem essa tentativa de aprendizagem de preparação para a morte, e muitos crentes que têm o temor da morte e têm de aprender a lidar com a morte, deixam isso para a última hora. Um crente, na minha visão, está preparado para morrer a qualquer momento.


E isso não é um paradoxo em alguém que é hipocondríaco?


É um bocadinho paradoxal. Como é um bocadinho paradoxal se há alguma pessoa que é considerada muito cerebral e muito racional ter uma fé muito bruta e prevalecente. A hipocondria, se quiser, é o sucedâneo do médico que gostaria de ter sido, mais do que uma coisa obsessiva que realmente domine os meus comportamentos. A morte vai-se preparando no dia-a-dia. Porque a morte é vida, também ela, à sua maneira. É a passagem para outro tipo de vida. É evidente que não acredito no Céu no sentido clássico de ser o lugar ideal onde todos nos encontramos – que seria difícil, os biliões e biliões de seres humanos e andarmos à procura “onde é que está o fulano tal?” Mas acredito no Purgatório. Acho que há um Purgatório, há uma punição por aquilo que é o saldo negativo do haver-dever, do que deixamos de dar aos outros. É isso que vai sendo essencialmente julgado, o que é que demos aos outros comparado com aquilo que, egoisticamente, demos a nós mesmos. Os pecados todos são pecados de egoísmo. E, portanto, nessa avaliação, há os que têm um percurso mais longo porque olharam para si mesmos de mais e de menos para os outros. E outros têm um percurso mais curto, alguns mesmo nulo ou instantâneo. Aqueles infelizes, aquelas crianças que nasceram e morreram num clima de guerra ou de fome, sem serem ouvidos nem achados, em que as pessoas se perguntam onde é que esteve Deus no momento daquele nascimento ou daquela morte. Pois esses vão directos para o Céu. Não há Purgatório para eles.


Nunca teve dúvidas relativamente à sua fé?


É evidente, pois se a Madre Teresa de Calcutá e se os santos todos tiveram dúvidas, um pobre pecador tem imensas dúvidas. Há uma fase da vida, a adolescência, em que é da lógica das coisas ter muitas dúvidas. Coincidiu, felizmente, com o Vaticano II, que foi uma forma de avançar para além das dúvidas. Mas, permanentemente, colocamo- nos dúvidas. E a fé é uma fé que não é irracional. É uma fé que é feita de admitir que há dúvidas e há realidades difíceis de explicar mas, ainda assim e para além disso, acredito. E, portanto, a morte sucederá. A minha última construção sobre a morte é a seguinte: a morte surgirá quando – porque sou também, o que é curioso para alguém que é muito racional, providencialista – estiver esgotada a missão que posso cumprir. E, muitas vezes, o próprio não é o melhor juiz. E só se aperceberá mais tarde ou nunca se aperceberá desse juízo, que é um juízo divino. E aí, esgotada essa missão, a pessoa morreu. E, portanto, não é uma realidade que me angustie.

25.7.15

Quem pede o quê


 


Na semana que passou ficámos a conhecer os candidatos a deputados pelo PS. Melhor. Ficámos a saber que Costa persiste fiel ao princípio que o determinou a correr com Seguro: incluir excluindo e excluir incluindo. Nos próximos dias segue-se a coligação PSD/CDS. Verdadeiramente só interessa observar o que vai fazer o PSD. Pessoal e politicamente não espero grande coisa. A tendência de quem está no poder é a de "reforçar" o pior do que não presta e não oposto. O mesmo se diga do programa eleitoral. Há muito que foi apresentado: em Bruxelas, junto de quem o valida. Estes "preparados" - do PS e da coligação - provavelmente ditarão uma proximidade no número de mandatos a alcançar por ambas as partes em Outubro. O Doutor Cavaco, com os já longos trinta anos que leva disto, pressentiu esse desfecho na alocução em que marcou a data das eleições. Um bocadinho mais à frente, um bocadinho mais a trás e uma vetusta abstenção valerão tempos interessantes e seguramente mais "políticos" do que os que temos vivido. Mas os partidos não servem só para o recreio infantil dos lugares. Será então altura de mostrar que percebem o que o eleitorado lhes exige. Porque é assim que isto funciona. Não são os partidos que pedem ao "povo" que lhes "dê" algo. É o "povo" que diz aos partidos o quer deles e, sobretudo, o que não quer. 

19.7.15

Os companheiros de Ulisses


 



 Viúvas políticas, novas e velhas, têm passado o domingo a louvar-se em Sá Carneiro a pretexto do dia do seu aniversário. Que pensaria o fundador da direita democrática se os lesse e ouvisse, alguns deles, como escreveu Vasco Pulido Valente, «criaturas que ele execrava ou desprezava do fundo do coração»? É que a direita democrática que ele fundou em 1979, sublimando-a através da Aliança Democrática (não houve outra, aliás), não tem nada a ver com o que hoje, por aí, passa por tal. Já em 1974, por ocasião da fundação do PPD, «era um líder nato que avançava. Sempre, no entanto, com aquele desprendimento que, mais tarde, o levaria a estar e a romper logo que a consciência o ditasse.» (Marcelo Rebelo de Sousa, A Revolução e o Nascimento do PPD, 2000). Na realidade, «conservador Sá Carneiro não era. Era um revolucionário incapaz de complacência, impaciente com os males do mundo e sem medo da acção. Em Novembro de 1980, quando o governo se ocupava a discutir o orçamento numa atmosfera de puro delírio e os ministros fingiam não se aperceber que o tecto ia cair, ele pensava já em novas aventuras. Não houve novas aventuras. Como se sabe, os companheiros de Ulisses acabaram transformados em porcos.» (VPV, Retratos e Auto-Retratos, 1992)

18.7.15

Só lá para Outubro


 


Confesso que os mais recentes "desenvolvimentos" europeus, a par com as exibições políticas caseiras por via da pré-campanha legislativa, empurraram-me para uma maior indiferença relativamente ao desfecho das eleições deste ano. Expliquei isso, em parte, no Jornal de Notícias. As sondagens, aliás, vêm confirmando que o "problema" não é apenas meu e que não há princípio da caridade que salve os principais protagonistas. De tal forma que estou propenso a concordar com o chefe da campanha do dr. Costa, Ascenso Simões, quando descortina algumas virtudes numa maioria relativa. Quando o dr. Passos, numa entrevista, afirmou ser-lhe indiferente que a maioria lhe pertença, ou ao dr. Costa, desde que seja absoluta para que o tratado orçamental vigore enquanto programa de governo, então mais vale guardar as bandeirinhas para outras legislativas precoces. Daí as presidenciais poderem ter mais interesse. Pelo menos para mim. Mas só lá para Outubro.

11.7.15

Sem paciência

VPV.jpg


 


Para escrever tanto por aqui "como soía" (escrever porquê e para quem quando aparecem cada vez mais escrevinhadores e sabedores de tudo e mais alguma coisa?), e mais atraído preguiçosamente pelas "facilidades" proporcionadas pelo Facebook, fica um resumo mais ou menos semanal. No fundo, isto tudo pouco "muda" a não ser a sucessão inevitável dos dias. Mesmo assim, "DDSS", "different day, same shit".


"Por delicadeza", o governo grego ofereceu a cabeça de Varoufakis. Os mornos são vomitados por Deus mas caem muito bem em reuniões de saia e casaco e fatos escuros. É assim de Bruxelas à mais remota repartição de finanças do mundo. Homens médios só se entendem com homens médios. E não gostam de encontrar profetas desarmados ou figuras de Dante no inferno que criaram especialmente para os outros.E a cabeça do invertebrado socialista holandês? Essa não. A "Europa" não pode prescindir de dois ou três idiotas úteis (acabei de o ver no Eurogrupo que discute o 3º resgate: tão idiota como há uma semana).


O dr. Passos Coelho deve sentir inveja do novo plano austeritário apresentado pelo governo grego.


Pouca gente é versada em história diplomática do país. Ou em história propriamente dita. Porque se fosse não estranharia o comportamento geral das elites perante os desenvolvimentos europeus (digo assim para incluir a Grécia que elas tratam como o "outro"). Entre 1580 e 1640, quando perdemos a soberania na ordem externa, manteve-se a interna dirigida pelas referidas elites que sobraram da ceifa de Alcácer Quibir. Era uma espécie de regime pré- Vichy de colaboracionistas. Deixou marcas.


Sondagem 1. PS cinco pontos à frente da coligação, sem maioria, mas catorze quando se pergunta "quem acha que vai ganhar". Sessenta e qualquer coisa por cento, todavia, acha que a oposição não fez melhor figura. Entre seis ou sete registos, os sondados colocam no fim a preocupação com o défice e a boa figura internacional. Prioridades: emprego, baixar impostos, crescer. Uma larga maioria entende que piorou de vida. Governo preferido sem maioria que os sondados não dão a ninguém? Um "arcão" - PS, PSD, CDS - seguido de perto por uma "maioria de esquerda". Confuso? Não. Vem na literatura sobre a "identidade nacional" e no Séneca: sempre o mesmo querer e não querer o mesmo.


Sondagem 2. Mais coisa menos coisa, conta as mesmas "histórias" das anteriores. Salvo num pormenor. Chama-se Maria de Belém.


O PSD só admite deputados "esterilizados" previamente. Por outro lado o dr. Costa, na escolha dos seus (primeiras linhas), revelou-se melhor do que como candidato a primeiro-ministro. Um persistente "empate técnico".


O que tem graça nesta coisa de transformar o dr. Rio no dr. Nóvoa da "direita", ou seja, num candidato presidencial artificial, é ela ser sobretudo veiculada por "recados" em jornais quando se conhece o "amor" que o dito Rio tem pela liberdade de imprensa.


O José Pacheco Pereira, a sua extraordinária biblioteca e o não menos extraordinário acervo documental, espalhados por um casario variado e interligado na Marmeleira, são o mote da revista Visão. Já lhe dei algumas coisas e outras mais lhe hei-de entregar relativas a algumas "aventuras" políticas em que participei. Ficam em boas mãos.


 

8.7.15

Foi você que pediu esta Europa?


Por aqui, as circunstâncias eleitorais explicaram parte do desvario jubilatório das esquerdas e da intimidação timorata das direitas. E o "carácter nacional", espalhado em muito comentadorismo, nas redes sociais e em algumas prosas do jornalismo oficioso, o resto: "dureza" e grosseria. Paulo Rangel perguntava ontem, num artigo no Público, "Grécia, Grécia, por que nos abandonaste", presumivelmente na sua recente qualidade de substituto de Alexandra Solnado na interlocução directa com Jesus. E o primeiro-ministro, mais terreno e jurado praticante do tratado orçamental, sugeria que cabia à Grécia escolher. Ou seja, apontou-lhe delicadamente a luz de presença "saída" na lógica, aliás, da aritmética do doutor Cavaco. Ora como preveniu Medeiros Ferreira em Abril de 2012, o Tratado Orçamental foi feito para dividir a Europa e não para a unir. É também isso que revela a tagarelice e a mesquinhice de muitas destas reacções ao transe grego o qual, lá por ser grego, não deixa de ser sobretudo europeu. Os sonsos das "instituições" - com Dijsselbloem à cabeça, Draghi nas mãos, Schulz no tronco e Juncker nos pés -, no lastro de um Conselho Europeu composto por impotentes políticos, activos ou passivos, espelham bem a inexistência de um pensamento sobre o futuro da União. Primeiro, cativa da alacridade dos Tratados desde 1992 e, agora, exclusivamente subordinada ao Tratado Orçamental de 2012 que apenas serviu para aumentar a desconfiança entre estados-membros. O episódio grego decorre fundamentalmente disto e do colapso de décadas de governações falaciosas caídas com estrondo sobre o perplexo e porventura impreparado Tsipras que não hesitou na imolação de Varoufakis. Porque (e volto a pedir emprestadas palavras a Medeiros Ferreira) "neste momento as instituições europeias não funcionam, nem dentro nem fora dos Tratados" dado "o erro inicial da fuga à vontade dos povos e ao escrutínio democrático a nível europeu". Obama e Putin não são meros observadores. Foi você que pediu esta Europa? Eu não.


 


Jornal de Notícias


 


 

5.7.15

O presidente ainda não chegou às presidenciais


 


A uma vetusta notabilidade do PSD, o dr. Balsemão, venerando empresário de comunicação social desde o século passado, ocorreu que "milhões" de portugueses (palavra de honra) anseiam pela candidatura presidencial do dr. Rui Rio. Como tal, convidou-o a montar "o cavalo do poder" que raramente passa à porta de quem, como o dito Rio, terá tão nobre vocação político-tauromáquica. Ora segundo o sempre bem informado dr. Marques Mendes, Rio estará a selar o referido "cavalo" já para a segunda quinzena do mês corrente. Como o que vou dizer a seguir é mais do que do tempo e presença do dr. Balsemão, cuja prestação como 1º ministro persiste inolvidável em cabeças tão insuspeitas como a do Doutor Cavaco saison 1981-1985, talvez conviesse ao "número um" do PSD atentar em duas ou três coisas todas ligadas pela mesma funesta consequência política. Em 1980, precisamente nos idos de Julho, a então Aliança Democrática foi ao Rossio fazer um comício para apresentar o seu candidato presidencial: o general Soares Carneiro. Em Outubro, nas eleições legislativas, a AD renovou a maioria absoluta e, numa conferência de imprensa, anunciou-se essa vitória como a "primeira volta das presidenciais". Em Dezembro, após uma campanha tão dramática quanto trágica, o incumbente Eanes ficava. Cinco anos depois, já Cavaco presidia ao PSD e com eleições legislativas igualmente em Outubro, Freitas do Amaral recebeu o apoio do presidente do PSD para Belém num encontro na sua sede de candidatura. Cavaco ganhou as legislativas, sem maioria, mas, mesmo 1º ministro, empenhou-se de norte a sul na campanha de Freitas até Fevereiro de 1986. Soares ganhou na 2ª volta. Finalmente, vai para dez anos,  o mesmo Soares "impôs-se" ao PS maioritário de Sócrates como candidato a um terceiro mandato contra um Cavaco ainda por vir. Foi em Agosto, no Hotel Altis, diante da euforia de centenas de pessoas e das televisões. Citou-se até Pessoa por causa das finanças e das bibliotecas. Mas foi Cavaco, o último a aparecer, quem venceu e à 1ª volta. É evidente que em 2015 a situação é distinta. Nenhum dos principais contendores das legislativas declarou apoios presidencias. E nem sequer é previsível que o façam antes delas embora algumas "aparições" acabem por os obrigar a pronunciar-se como tem acontecido ao pobre dr. Costa vezes sem conta. O que não beneficia qualquer das partes a menos que haja algo assumido previamente, à semelhança das histórias que contei, o que, porém, não ressume a menor garantia de um desfecho feliz. Embora estime o candidato Henrique Neto, e mesmo com a eventualidade de um ensimesmado Rio presente nos próximos tempos, creio que o próximo PR ainda está para chegar às eleições presidenciais. E podem tirar o cavalinho (do poder) da chuva que ele não chegará seguramente antes de Outubro

A "dramática ilustração"


 


O dr. Costa - que preside à gloriosa agremiação que nos conduziu alegremente até ao resgate da Primavera de 2011- sugeriu, sem se rir, que há que dar graças pela circunstância de haver um PS (o dele) sem o qual seríamos uma outra Grécia. Ou seja, esta seria a "dramática ilustração" de um Portugal desprovido do concurso, salvífico e tonificador, da sua magnífica pessoa. Porquê? Porque o dr. Costa imagina-se a charneira entre aquilo a que apelida delicadamente de "esquerda radical" (cujos votos, aliás, não revela o menor pejo em catar) e a "direita" não menos "radical" que apenas jura pela austeridade. Na realidade, e com estes oxímoros permanentes, o que o dr. Costa anda a fazer ao PS é transformá-lo num caminho de ninguém, sem ideias fortes (más ou boas) ou um desígnio claro por mais curto que seja. Ele é, por consequência, a "dramática ilustração" de tudo o que o país agora menos precisa.