30.11.03

CONHECER



por Umberto Eco

Temos muitas vezes que explicar aos jovens por que é que o estudo é útil. É inútil dizer-lhes que é pelo próprio conhecimento, se eles não se importam com o conhecimento. Também não serve de nada dizer às crianças que uma pessoa instruída tem mais possibilidades na vida do que um ignorante, porque eles podem sempre apontar algum génio que, do ponto de vista deles, leva uma vida miserável. E assim a única resposta é que o exercício do conhecimento cria relações, continuidade e ligações emocionais. Ele apresenta-nos a pais para além dos biológicos. Permite-nos viver mais, porque não nos lembramos apenas da nossa própria vida mas também da de outros. Cria um fio inquebrável que vem desde a nossa adolescência (e às vezes da infância) até à actualidade. E tudo isto é muito belo.

In Diário de Notícias, de 30 de Novembro de 2003

Untitled

CONHECER



por Umberto Eco

Temos muitas vezes que explicar aos jovens por que é que o estudo é útil. É inútil dizer-lhes que é pelo próprio conhecimento, se eles não se importam com o conhecimento. Também não serve de nada dizer às crianças que uma pessoa instruída tem mais possibilidades na vida do que um ignorante, porque eles podem sempre apontar algum génio que, do ponto de vista deles, leva uma vida miserável. E assim a única resposta é que o exercício do conhecimento cria relações, continuidade e ligações emocionais. Ele apresenta-nos a pais para além dos biológicos. Permite-nos viver mais, porque não nos lembramos apenas da nossa própria vida mas também da de outros. Cria um fio inquebrável que vem desde a nossa adolescência (e às vezes da infância) até à actualidade. E tudo isto é muito belo.

In Diário de Notícias, de 30 de Novembro de 2003
À ESPERA



Bastaram uns insistentes espirros em massa para que as urgências hospitalares ficassem, de novo, a nu. Quando Filipe Pereira começou, eu acreditei nele. Ao tentar pegar num assunto "redondo", como os hospitais do serviço nacional de saúde, por um ângulo supostamente diferente, o ministro parecia bem encaminhado. Contudo, a criação dos hospitais SA, a bem de uma "melhor gestão" e de uma melhor oferta de serviços aos utentes, acabou por se transformar em mais um episódio de "desorçamentação", tão criticado ao passado recente. Na realidade, e quando se apregoa que, pela primeira vez se reduziu o défice do SNS, conta-se uma história. Qualquer papalvo minimamente informado percebe que, se se tira de um lado, tem de se pagar por outro, e tudo através do mesmo orçamento de Estado. Nos hospitais ditos públicos - que escaparam, por enquanto, à obsessão (falsamente) privatística em curso - e, seguramente, nas "novas" criações, o problema das urgências subsiste e agrava-se. Não se deve isso apenas a uma incorrecta percepção dos cidadãos relativamente aos chamados "cuidados primários" a que não acorrem. Ao lado de tantas insuficiências, também não é feita uma despistagem eficaz, pelos e para os "primários". O SNS tem bons profissionais e equipamentos, mas a sua organização e controlo internos deixam muito a desejar. É mais prático e fácil exibir mapas e ratios muito coloridos e modernos, e que não dizem nada, nem aos utentes, nem aos profissionais de saúde. Às horas de espera nas urgências, ao desamparo falacioso dos quadros electónicos anódinos, junta-se a "lista de espera" nova, a de Filipe Pereira. Ao lado daquela que presumivelmente reduziu, abriu outra. E outras mais se irão abrir. Se há sector em que é preciso confiar, é neste. O experimentalismo de Luis Filipe Pereira tem deixado a confiança como ela nunca poderia estar, à espera.

Untitled

À ESPERA



Bastaram uns insistentes espirros em massa para que as urgências hospitalares ficassem, de novo, a nu. Quando Filipe Pereira começou, eu acreditei nele. Ao tentar pegar num assunto "redondo", como os hospitais do serviço nacional de saúde, por um ângulo supostamente diferente, o ministro parecia bem encaminhado. Contudo, a criação dos hospitais SA, a bem de uma "melhor gestão" e de uma melhor oferta de serviços aos utentes, acabou por se transformar em mais um episódio de "desorçamentação", tão criticado ao passado recente. Na realidade, e quando se apregoa que, pela primeira vez se reduziu o défice do SNS, conta-se uma história. Qualquer papalvo minimamente informado percebe que, se se tira de um lado, tem de se pagar por outro, e tudo através do mesmo orçamento de Estado. Nos hospitais ditos públicos - que escaparam, por enquanto, à obsessão (falsamente) privatística em curso - e, seguramente, nas "novas" criações, o problema das urgências subsiste e agrava-se. Não se deve isso apenas a uma incorrecta percepção dos cidadãos relativamente aos chamados "cuidados primários" a que não acorrem. Ao lado de tantas insuficiências, também não é feita uma despistagem eficaz, pelos e para os "primários". O SNS tem bons profissionais e equipamentos, mas a sua organização e controlo internos deixam muito a desejar. É mais prático e fácil exibir mapas e ratios muito coloridos e modernos, e que não dizem nada, nem aos utentes, nem aos profissionais de saúde. Às horas de espera nas urgências, ao desamparo falacioso dos quadros electónicos anódinos, junta-se a "lista de espera" nova, a de Filipe Pereira. Ao lado daquela que presumivelmente reduziu, abriu outra. E outras mais se irão abrir. Se há sector em que é preciso confiar, é neste. O experimentalismo de Luis Filipe Pereira tem deixado a confiança como ela nunca poderia estar, à espera.

29.11.03

OS IMORTAIS

Apeteceu-me falar de Os Imortais, o filme de António Pedro Vasconcelos, assim que o vi. Passado o momento, deparo com um texto de Eduardo Dâmaso, no Público de ontem, que me parece que diz praticamente tudo. Aqui fica.



O Belíssimo Requiem dos Heróis Desempregados

Por EDUARDO DÂMASO

Tenho um amigo mais velho que esteve na guerra em Angola e foi lá que viveu a maior aventura da vida dele. Rapaz de educação rural, deixou a escola cedo e aprendeu o ofício de carpinteiro. Aos dezoito anos foi incorporado nos comandos e aprendeu a matar. Veio de Angola com vinte e um anos e já só sabia a linguagem da guerra. Trouxe na mochila uma história para contar mas também não se esqueceu de trazer umas quantas granadas e mais uma ou outra lembrança daquela guerra onde acreditou que havia mesmo uns "turras" tenebrosos e, do lado dele, a malta da "companhia", os "imortais".

Tantos como ele foram para o Ultramar e vinham de lá outros. Com o mesmo nome, mas outros. Calados, muito calados nos momentos, poucos, em que não bebiam. Nunca se percebia se transportavam o rosto de um vazio ou de uma enorme tormenta interior. Talvez fossem só inadaptados à lentidão da vida que enfrentaram no pós-guerra. Um dia, o meu amigo dos comandos atirou uma granada contra uma parede qualquer numa noite de bebedeira. Não morreu ninguém mas a coisa fez estragos. Desde logo nele próprio, que teve de enfrentar a justiça, a família, os amigos e os seus infernos íntimos.

Tenho outro amigo que esteve na Guiné, nos "fuzos". Veio da guerra depois do 25 de Abril mas não se adaptou à pasmaceira da terra, muito longínqua do epicentro da revolução dos cravos que mantinha o país em chamas. O meu amigo ofereceu-se para a vida de mercenário e foi para Angola, onde havia uma guerra. Andou por lá aos tiros ao serviço da FNLA porque sim. Nunca foi de ideologias, era mesmo só para dar uns tiros e sentir o abismo das noites em que se sai sem saber de há-de haver dia. O pânico de saber se se chega ao dia seguinte transformou-se numa estranha nostalgia daquele medo que é capaz de nos empurrar para a coragem mas também para a loucura.

Um dia, muito mais tarde, já de regresso à terra, pegou em granadas e numa metralhadora e simulou um ataque contra uma boite de alterne. Era para brincar às guerras. Depois não aguentou nada do que tinha: a paz, a namorada, um bom emprego, a terra parada, o silêncio sem a tensão do metal e da pólvora a rabiscar no ar. Despejou um frasco de veneno para ratos e deixou uma carta a explicar que foi por aí porque lhe tinham acabado as granadas para se divertir.

Os meus amigos tornaram-se heróis desempregados da guerra. Há poucos portugueses dos quarenta para cima que não conheçam um ou outro destes velhos leões adormecidos no tédio da paz. É destes homens instruídos na doutrina de um trágico heroísmo para se entregarem aos elevados mas nefastos desígnios da pátria que nos fala "Os Imortais", de António Pedro Vasconcelos. E de que nos falara "O Inferno", de Joaquim Leitão, também um belo filme que, infelizmente, só vi muito depois da sua passagem pelos cinemas.

Eu não sou crítico de cinema nem me interessa ser. Os críticos hão-de ter as suas razões para dizer isto ou aquilo de certos filmes. Também não fui à guerra mas fui crescendo um pouco no medo de chegar a minha hora quando da guerra já só havia a hora do regresso dos caixões de pinho. À minha volta, como em todos as pequenas terras da chamada província, havia já muitos mortos, muitos desaparecidos em combate, muito luto. Por essa recordação de um terror que havia de vir mas, sobretudo, pelo intolerável silêncio destes trinta anos de democracia sobre a guerra, vi nos "Imortais" um bocado de mim próprio, da minha família, dos meus amigos, de um país sonâmbulo que se recusa a saber o que foi isso da guerra colonial. Como espectador deste país tocou-me.

Uma visão mais redutora sobre o filme de António Pedro Vasconcelos pode ver nele apenas uma obra dirigida aos labirintos da memória dos que ainda se lembram destas coisas. Mas estão enganados: este é um filme principalmente para todos os outros porque é uma belíssima história sobre nós, portugueses incautos das bravatas esculpidas na mais bruta das ignorâncias, manipulados por todos os mestres da gestão delinquente do poder, como o foram os próceres do antigo regime. É um belíssimo requiem desses milhares de jovens que seguiram em festa para a carnificina ultramarina, embriagados pelo perfume de uma aventura que não teria paralelo nas suas vidas, e que morreram por lá ou vieram acabar, mais tarde, na inadaptação a um país que os abandonou, ou mesmo na rotina sonâmbula de uma nova rotina que não apagou as feridas desses tempos de "cobóiada".

Roberto Alua, personagem engrandecida pela brilhante interpretação de Joaquim de Almeida não é o meu amigo dos comandos que atirou a granada contra uma parede qualquer mas podia ser. Alua é o lobo da guerra que não consegue lidar com a quietude social nem com o sentimento amoroso. Não foi educado nem para uma coisa nem para outra. É o veterano da morte que precisa de sentir de novo o cheiro do sangue e da pólvora. Mas tem uns restos de dignidade e de amor próprio que evitam a sua própria dissolução moral e ética enquanto ser humano. Acorda já muito tarde e só lhe resta a solução clássica de um combatente que não quer cair nas mãos do inimigo. De um herói perdido em território hostil.

Horácio Lobo, nas mãos de Rogério Samora, é um terrível sacana. Foi educado para a morte e precisa de matar, de estar sempre perto dela, até de a escolher como última missão suicida para não falhar um contrato. Mercenário até ao fim. Tantos houve nessas guerras civis que deixámos espalhadas pelos antigos territórios do império.

Por fim Joaquim Malarranha, ou Nicolau Breyner. Magistral figura de velho polícia manhoso que nos vai transportando para a verdade e para a compreensão dessa confraria de lutadores eternos e desses tempos tão incompreensíveis.

Em suma, "Os Imortais" é um filme que respeita integralmente a grandeza da obra literária de Carlos Vale Ferraz, particularmente em "Nó cego" e no livro "Os lobos não usam coleira" que inspira o realizador, mas tem vida própria. Deveria ser tão visto nas escolas como os livros de Carlos Vale Ferraz estudados no ensino secundário. Filme e livros são instrumentos vitais para que não se perca a memória desse trauma colectivo que atingiu Portugal ao longo de treze intermináveis anos. A guerra colonial foi o fim de um ciclo de expansão imperial iniciado 500 anos antes que arrastou oitocentos mil portugueses (quase 10 por cento da população nacional à época e 90 por cento da juventude masculina de então) para uma vida que jamais regressaria ao ponto de partida e a uma qualquer pureza originária. Para trás ficaram mais de 8 mil mortos, 15 mil deficientes e cerca de cem mil homens a sofrer de stress de guerra. Convém que tenhamos consciência disso. Todavia, como se sabe, Portugal prefere os manuais do "Big Brother" e por isso é um país que não merece ter memória.

Untitled

OS IMORTAIS

Apeteceu-me falar de Os Imortais, o filme de António Pedro Vasconcelos, assim que o vi. Passado o momento, deparo com um texto de Eduardo Dâmaso, no Público de ontem, que me parece que diz praticamente tudo. Aqui fica.



O Belíssimo Requiem dos Heróis Desempregados

Por EDUARDO DÂMASO

Tenho um amigo mais velho que esteve na guerra em Angola e foi lá que viveu a maior aventura da vida dele. Rapaz de educação rural, deixou a escola cedo e aprendeu o ofício de carpinteiro. Aos dezoito anos foi incorporado nos comandos e aprendeu a matar. Veio de Angola com vinte e um anos e já só sabia a linguagem da guerra. Trouxe na mochila uma história para contar mas também não se esqueceu de trazer umas quantas granadas e mais uma ou outra lembrança daquela guerra onde acreditou que havia mesmo uns "turras" tenebrosos e, do lado dele, a malta da "companhia", os "imortais".

Tantos como ele foram para o Ultramar e vinham de lá outros. Com o mesmo nome, mas outros. Calados, muito calados nos momentos, poucos, em que não bebiam. Nunca se percebia se transportavam o rosto de um vazio ou de uma enorme tormenta interior. Talvez fossem só inadaptados à lentidão da vida que enfrentaram no pós-guerra. Um dia, o meu amigo dos comandos atirou uma granada contra uma parede qualquer numa noite de bebedeira. Não morreu ninguém mas a coisa fez estragos. Desde logo nele próprio, que teve de enfrentar a justiça, a família, os amigos e os seus infernos íntimos.

Tenho outro amigo que esteve na Guiné, nos "fuzos". Veio da guerra depois do 25 de Abril mas não se adaptou à pasmaceira da terra, muito longínqua do epicentro da revolução dos cravos que mantinha o país em chamas. O meu amigo ofereceu-se para a vida de mercenário e foi para Angola, onde havia uma guerra. Andou por lá aos tiros ao serviço da FNLA porque sim. Nunca foi de ideologias, era mesmo só para dar uns tiros e sentir o abismo das noites em que se sai sem saber de há-de haver dia. O pânico de saber se se chega ao dia seguinte transformou-se numa estranha nostalgia daquele medo que é capaz de nos empurrar para a coragem mas também para a loucura.

Um dia, muito mais tarde, já de regresso à terra, pegou em granadas e numa metralhadora e simulou um ataque contra uma boite de alterne. Era para brincar às guerras. Depois não aguentou nada do que tinha: a paz, a namorada, um bom emprego, a terra parada, o silêncio sem a tensão do metal e da pólvora a rabiscar no ar. Despejou um frasco de veneno para ratos e deixou uma carta a explicar que foi por aí porque lhe tinham acabado as granadas para se divertir.

Os meus amigos tornaram-se heróis desempregados da guerra. Há poucos portugueses dos quarenta para cima que não conheçam um ou outro destes velhos leões adormecidos no tédio da paz. É destes homens instruídos na doutrina de um trágico heroísmo para se entregarem aos elevados mas nefastos desígnios da pátria que nos fala "Os Imortais", de António Pedro Vasconcelos. E de que nos falara "O Inferno", de Joaquim Leitão, também um belo filme que, infelizmente, só vi muito depois da sua passagem pelos cinemas.

Eu não sou crítico de cinema nem me interessa ser. Os críticos hão-de ter as suas razões para dizer isto ou aquilo de certos filmes. Também não fui à guerra mas fui crescendo um pouco no medo de chegar a minha hora quando da guerra já só havia a hora do regresso dos caixões de pinho. À minha volta, como em todos as pequenas terras da chamada província, havia já muitos mortos, muitos desaparecidos em combate, muito luto. Por essa recordação de um terror que havia de vir mas, sobretudo, pelo intolerável silêncio destes trinta anos de democracia sobre a guerra, vi nos "Imortais" um bocado de mim próprio, da minha família, dos meus amigos, de um país sonâmbulo que se recusa a saber o que foi isso da guerra colonial. Como espectador deste país tocou-me.

Uma visão mais redutora sobre o filme de António Pedro Vasconcelos pode ver nele apenas uma obra dirigida aos labirintos da memória dos que ainda se lembram destas coisas. Mas estão enganados: este é um filme principalmente para todos os outros porque é uma belíssima história sobre nós, portugueses incautos das bravatas esculpidas na mais bruta das ignorâncias, manipulados por todos os mestres da gestão delinquente do poder, como o foram os próceres do antigo regime. É um belíssimo requiem desses milhares de jovens que seguiram em festa para a carnificina ultramarina, embriagados pelo perfume de uma aventura que não teria paralelo nas suas vidas, e que morreram por lá ou vieram acabar, mais tarde, na inadaptação a um país que os abandonou, ou mesmo na rotina sonâmbula de uma nova rotina que não apagou as feridas desses tempos de "cobóiada".

Roberto Alua, personagem engrandecida pela brilhante interpretação de Joaquim de Almeida não é o meu amigo dos comandos que atirou a granada contra uma parede qualquer mas podia ser. Alua é o lobo da guerra que não consegue lidar com a quietude social nem com o sentimento amoroso. Não foi educado nem para uma coisa nem para outra. É o veterano da morte que precisa de sentir de novo o cheiro do sangue e da pólvora. Mas tem uns restos de dignidade e de amor próprio que evitam a sua própria dissolução moral e ética enquanto ser humano. Acorda já muito tarde e só lhe resta a solução clássica de um combatente que não quer cair nas mãos do inimigo. De um herói perdido em território hostil.

Horácio Lobo, nas mãos de Rogério Samora, é um terrível sacana. Foi educado para a morte e precisa de matar, de estar sempre perto dela, até de a escolher como última missão suicida para não falhar um contrato. Mercenário até ao fim. Tantos houve nessas guerras civis que deixámos espalhadas pelos antigos territórios do império.

Por fim Joaquim Malarranha, ou Nicolau Breyner. Magistral figura de velho polícia manhoso que nos vai transportando para a verdade e para a compreensão dessa confraria de lutadores eternos e desses tempos tão incompreensíveis.

Em suma, "Os Imortais" é um filme que respeita integralmente a grandeza da obra literária de Carlos Vale Ferraz, particularmente em "Nó cego" e no livro "Os lobos não usam coleira" que inspira o realizador, mas tem vida própria. Deveria ser tão visto nas escolas como os livros de Carlos Vale Ferraz estudados no ensino secundário. Filme e livros são instrumentos vitais para que não se perca a memória desse trauma colectivo que atingiu Portugal ao longo de treze intermináveis anos. A guerra colonial foi o fim de um ciclo de expansão imperial iniciado 500 anos antes que arrastou oitocentos mil portugueses (quase 10 por cento da população nacional à época e 90 por cento da juventude masculina de então) para uma vida que jamais regressaria ao ponto de partida e a uma qualquer pureza originária. Para trás ficaram mais de 8 mil mortos, 15 mil deficientes e cerca de cem mil homens a sofrer de stress de guerra. Convém que tenhamos consciência disso. Todavia, como se sabe, Portugal prefere os manuais do "Big Brother" e por isso é um país que não merece ter memória.

28.11.03

O REGRESSO DA "VELHA EUROPA"



Esta semana fez-se luz sobre quem manda efectivamente na Europa. A derrota do Pacto burocrático e da Comissão Europeia, representa o "regresso" da União à decisão política. É com decisões políticas, com adaptações sucessivas e com realismo que a construção de uma Europa federal avança, agora que cresce para o seu centro geográfico e político, com o alargamento. Portugal pôs-se do lado certo e isso saúda-se. As economias da União, a começar pela nossa, não podem ficar eternamente prisioneiras da contabilidade de Bruxelas. Se o Pacto também é de "crescimento", que o prove ou que se revogue. O futuro da Europa vai ser forçosamente pilotado pelo eixo franco-alemão, e daí não vem nenhum mal ao mundo ou a nós. A "velha europa", tão atacada pelos apressados transatlantistas, está de regresso. É bom que lá estejamos também.

Untitled

O REGRESSO DA "VELHA EUROPA"



Esta semana fez-se luz sobre quem manda efectivamente na Europa. A derrota do Pacto burocrático e da Comissão Europeia, representa o "regresso" da União à decisão política. É com decisões políticas, com adaptações sucessivas e com realismo que a construção de uma Europa federal avança, agora que cresce para o seu centro geográfico e político, com o alargamento. Portugal pôs-se do lado certo e isso saúda-se. As economias da União, a começar pela nossa, não podem ficar eternamente prisioneiras da contabilidade de Bruxelas. Se o Pacto também é de "crescimento", que o prove ou que se revogue. O futuro da Europa vai ser forçosamente pilotado pelo eixo franco-alemão, e daí não vem nenhum mal ao mundo ou a nós. A "velha europa", tão atacada pelos apressados transatlantistas, está de regresso. É bom que lá estejamos também.

26.11.03

OS COMEDIANTES

Nas últimas vinte e quatro horas aconteceram coisas extraordinárias neste extraordinário País. Fazendo lembrar as pragas bíblicas, abriu-se um vasto buraco em Lisboa que, à falta de melhor, engoliu um autocarro. Tal como o material na guerra, a natureza tem sempre razão. Não vale a pena contrariá-la, seja pela ansiedade modernaça, seja pela ganância do pessoal do betão, essa espécie tão acarinhada por governos e autarquias. Ainda não estávamos refeitos deste susto anunciado, quando se soube que perdemos, para Valência e para o suave Mediterrâneo, a organização da American Cup em vela. As trombetas estavam prontas para tocar e uns quantos deslumbrados endinheirados preparavam-se para fazer do eixo Algés-Cascais um paraíso temporário para "rich and famous" deste mundo. Não deu, paciência. O preclaro Dr. Arnaut atribuiu a infelicidade às nossas condições climatéricas. Chove muito, parece. Talvez em 2010 o tempo esteja melhor, segundo consta. Entretanto, e pelo caminho, vai desfazer-se a Docapesca e, certamente, propiciar mais uns quantos negócios chorudos aos supra mencionados amigos do betão como forma de os "compensar". Até o Dr. Sampaio se lastimou, o que permitiu enquadrar a coisa praticamente em termos de tragédia nacional. Finalmente, apareceu uma mala suspeita à porta da residência do Sr. Juiz Rui Teixeira, em Torres Vedras, o que propiciou a acção policial adequada, para se concluir que não era nada. Caramba, de vez em quando é preciso justificar aquele aparatus de segurança que persegue o homem para todo o lado! Também se percebe. Um amigo sugeriu-me que mudasse o nome deste blogue para "virtual dos pequeninos". Eu compreendo-o, porém isto é tudo mesmo muito "real". Real, demasiado real. Passa-se entre nós, portugueses, uns verdadeiros comediantes que ninguém, no seu devido juízo, pode levar a sério.

Untitled

OS COMEDIANTES

Nas últimas vinte e quatro horas aconteceram coisas extraordinárias neste extraordinário País. Fazendo lembrar as pragas bíblicas, abriu-se um vasto buraco em Lisboa que, à falta de melhor, engoliu um autocarro. Tal como o material na guerra, a natureza tem sempre razão. Não vale a pena contrariá-la, seja pela ansiedade modernaça, seja pela ganância do pessoal do betão, essa espécie tão acarinhada por governos e autarquias. Ainda não estávamos refeitos deste susto anunciado, quando se soube que perdemos, para Valência e para o suave Mediterrâneo, a organização da American Cup em vela. As trombetas estavam prontas para tocar e uns quantos deslumbrados endinheirados preparavam-se para fazer do eixo Algés-Cascais um paraíso temporário para "rich and famous" deste mundo. Não deu, paciência. O preclaro Dr. Arnaut atribuiu a infelicidade às nossas condições climatéricas. Chove muito, parece. Talvez em 2010 o tempo esteja melhor, segundo consta. Entretanto, e pelo caminho, vai desfazer-se a Docapesca e, certamente, propiciar mais uns quantos negócios chorudos aos supra mencionados amigos do betão como forma de os "compensar". Até o Dr. Sampaio se lastimou, o que permitiu enquadrar a coisa praticamente em termos de tragédia nacional. Finalmente, apareceu uma mala suspeita à porta da residência do Sr. Juiz Rui Teixeira, em Torres Vedras, o que propiciou a acção policial adequada, para se concluir que não era nada. Caramba, de vez em quando é preciso justificar aquele aparatus de segurança que persegue o homem para todo o lado! Também se percebe. Um amigo sugeriu-me que mudasse o nome deste blogue para "virtual dos pequeninos". Eu compreendo-o, porém isto é tudo mesmo muito "real". Real, demasiado real. Passa-se entre nós, portugueses, uns verdadeiros comediantes que ninguém, no seu devido juízo, pode levar a sério.

25.11.03

25 DE NOVEMBRO



Em política, como já em quase tudo, a memória é curtíssima. A maior parte dos jovens universitários que vão desfilar por esse País fora, em mais uma cansativa e folclórica "jornada de luta", não era nascida em 25 de Novembro de 1975. Nesse dia, a coragem moral, política e física - tudo espécies de carácter em vias de extinção - de um punhado de "civis" e de "militares", evitou o pior, ou seja, uma possível "guerra civil", em versão original portuguesa. Antes desse dia, no "terreno" e em constante combate, Mário Soares e o Partido Socialista (à altura, um enorme "albergue" de sinceros democratas e de curiosos oportunistas, depois revelados) fizeram o indispensável, como nunca é demais relembrar. No dia certo, quando se anunciou a aventura militar, de mãos dadas com a extrema-esquerda e a complacência estratégica do Dr. Cunhal, que se retirou no momento adequado, emergiu um homem desconhecido, com ar duro e sombrio, escondido nuns permanentes óculos escuros. Liderou com sucesso o "contra-golpe" e impôs-se, de seguida, como chefe incontestado de um exército desfeito, primeiro pela guerra, depois pelas brincadeiras de 74 e 75. Ramalho Eanes foi porventura a criatura que mais poder concentrou nas suas mãos, em Portugal, depois da "revolução". Depois de eleito presidente, em 1976, era também CEMGFA, comandante supremo e presidente do Conselho da Revolução. Nada disso impediu, antes pelo contrário, que voltasse a disciplina à tropa e que se realizasse a institucionalização da democracia. Apesar de tantas hesitações e ambiguidades, sempre respeitei Ramalho Eanes. A ele devemos o lance da liberdade, o de vivermos a liberdade em segurança. E um bom exemplo de coragem. Num texto de apoio à sua recandidatura, em 1980, Sophia de Mello Breyner lembrava a chegada do recém-eleito presidente aos Açores, onde o esperava uma manifestação de arruaceiros autonomistas. Eanes avançou sozinho para eles e perguntou-lhes, "quem vos pagou?". Falhou no episódio PRD e com Zenha. Ainda bem. Afinal, o homem dos óculos escuros provou que era apenas "humano", demasiado humano.

Untitled

25 DE NOVEMBRO



Em política, como já em quase tudo, a memória é curtíssima. A maior parte dos jovens universitários que vão desfilar por esse País fora, em mais uma cansativa e folclórica "jornada de luta", não era nascida em 25 de Novembro de 1975. Nesse dia, a coragem moral, política e física - tudo espécies de carácter em vias de extinção - de um punhado de "civis" e de "militares", evitou o pior, ou seja, uma possível "guerra civil", em versão original portuguesa. Antes desse dia, no "terreno" e em constante combate, Mário Soares e o Partido Socialista (à altura, um enorme "albergue" de sinceros democratas e de curiosos oportunistas, depois revelados) fizeram o indispensável, como nunca é demais relembrar. No dia certo, quando se anunciou a aventura militar, de mãos dadas com a extrema-esquerda e a complacência estratégica do Dr. Cunhal, que se retirou no momento adequado, emergiu um homem desconhecido, com ar duro e sombrio, escondido nuns permanentes óculos escuros. Liderou com sucesso o "contra-golpe" e impôs-se, de seguida, como chefe incontestado de um exército desfeito, primeiro pela guerra, depois pelas brincadeiras de 74 e 75. Ramalho Eanes foi porventura a criatura que mais poder concentrou nas suas mãos, em Portugal, depois da "revolução". Depois de eleito presidente, em 1976, era também CEMGFA, comandante supremo e presidente do Conselho da Revolução. Nada disso impediu, antes pelo contrário, que voltasse a disciplina à tropa e que se realizasse a institucionalização da democracia. Apesar de tantas hesitações e ambiguidades, sempre respeitei Ramalho Eanes. A ele devemos o lance da liberdade, o de vivermos a liberdade em segurança. E um bom exemplo de coragem. Num texto de apoio à sua recandidatura, em 1980, Sophia de Mello Breyner lembrava a chegada do recém-eleito presidente aos Açores, onde o esperava uma manifestação de arruaceiros autonomistas. Eanes avançou sozinho para eles e perguntou-lhes, "quem vos pagou?". Falhou no episódio PRD e com Zenha. Ainda bem. Afinal, o homem dos óculos escuros provou que era apenas "humano", demasiado humano.

24.11.03

À mão amiga do Gabriel, devo a introdução de fotos, a partir de hoje, neste blogue.Obrigado.

Untitled

À mão amiga do Gabriel, devo a introdução de fotos, a partir de hoje, neste blogue.Obrigado.

23.11.03

JFK




Gore Vidal conta que, estando numa festa acompanhado por Tennessee Williams, e passando por eles o senador J.F. Kennedy, o dramaturgo teria comentado:"que belo traseiro!". Num texto recente, sobre mais uma biografia do presidente americano, Vidal corrobora uma história ventilada por um agente dos Serviços Secretos que vigiava Kennedy, na qual Jack, dentro de uma banheira a que tinha que recorrer frequentemente como terapia para as suas costas doentes, fazia amor com uma ilustre desconhecida, e que, no momento crucial, pediu para a dita meter a cabeça completamente dentro da água, já que - parece- tal situação provoca determinados espasmos na zona erógena feminina, que aumentam razoavelmente o prazer viril. John Kennedy tinha tudo para ser bem sucedido. Como Oliver Stone fez dizer a Nixon no filme homónimo, JFK representava o que os americanos queriam ser, e ele, Nixon, o que eles efectivamente eram. Jack era novo, bonito, sexy, como diríamos hoje, libertino, inteligente e rico. Levou para a Casa Branca o glamour e a alegria trágica da sua vida pessoal - a oficial e a outra - , ao lado de uma jovem e bela primeira-dama, e um par de belos filhos pequenos e fotogénicos. Foi o primeiro político a explorar, com infinita sagacidade, as vantagens da imagem televisiva. Nesse sentido, partilhou com os americanos e com o mundo os seus mil e tal dias de presidência, de tal forma que, depois dos disparos fatais de Dallas, há 40 anos, uma sensação de orfandade objectiva percorreu o globo, como nunca antes tinha acontecido. Mesmo as suspeitas de ligações perigosas e corruptas, supostamente alimentadas pelo pai, para a promoção política do antigo senador, nunca chegaram verdadeiramente a manchar a lenda. A imagem sorridente de JFK ficou para sempre cristalizada, como que num limbo, nos milhares de álbuns fotográficos que o imortalizaram. Não o conseguiremos jamais imaginar velho.

Untitled

JFK




Gore Vidal conta que, estando numa festa acompanhado por Tennessee Williams, e passando por eles o senador J.F. Kennedy, o dramaturgo teria comentado:"que belo traseiro!". Num texto recente, sobre mais uma biografia do presidente americano, Vidal corrobora uma história ventilada por um agente dos Serviços Secretos que vigiava Kennedy, na qual Jack, dentro de uma banheira a que tinha que recorrer frequentemente como terapia para as suas costas doentes, fazia amor com uma ilustre desconhecida, e que, no momento crucial, pediu para a dita meter a cabeça completamente dentro da água, já que - parece- tal situação provoca determinados espasmos na zona erógena feminina, que aumentam razoavelmente o prazer viril. John Kennedy tinha tudo para ser bem sucedido. Como Oliver Stone fez dizer a Nixon no filme homónimo, JFK representava o que os americanos queriam ser, e ele, Nixon, o que eles efectivamente eram. Jack era novo, bonito, sexy, como diríamos hoje, libertino, inteligente e rico. Levou para a Casa Branca o glamour e a alegria trágica da sua vida pessoal - a oficial e a outra - , ao lado de uma jovem e bela primeira-dama, e um par de belos filhos pequenos e fotogénicos. Foi o primeiro político a explorar, com infinita sagacidade, as vantagens da imagem televisiva. Nesse sentido, partilhou com os americanos e com o mundo os seus mil e tal dias de presidência, de tal forma que, depois dos disparos fatais de Dallas, há 40 anos, uma sensação de orfandade objectiva percorreu o globo, como nunca antes tinha acontecido. Mesmo as suspeitas de ligações perigosas e corruptas, supostamente alimentadas pelo pai, para a promoção política do antigo senador, nunca chegaram verdadeiramente a manchar a lenda. A imagem sorridente de JFK ficou para sempre cristalizada, como que num limbo, nos milhares de álbuns fotográficos que o imortalizaram. Não o conseguiremos jamais imaginar velho.

22.11.03

A "RETOMA" VISTA...

...pela Filomena:

"Não há sonhos. Só nos resta a frustração de viver para comer e pagar despesas." Filomena tem 34 anos, duas filhas, é educadora de infância e o marido trabalha na Transtejo. Recebem mensalmente cerca de 1500 euros. Dinheiro que só chega para as despesas obrigatórias, como a renda da casa, alimentação, luz, água, infantário. "Vive-se mal", desabafa, lembrando que uma ida ao cinema ou jantar a um restaurante está "fora de questão". Filomena mora no Barreiro e trabalha na zona de Santos, em Lisboa. Este é, praticamente, o único percurso que conhece numa vida de "casa-trabalho-casa". As despesas são inúmeras e a necessidade de contar todos os cêntimos levou-a a tomar a difícil decisão de deixar a filha de nove meses todas as noites na sua mãe que, depois a leva à escola. "A miúda está numa Instituição de Solidariedade Social onde pago 100 euros/mês, sem a carrinha para a ir buscar e levar. Como venho muito cedo para Lisboa, tenho de abdicar da companhia da minha filha à noite", diz. O aumento dos bens de primeira necessidade nos últimos anos - de que culpa o euro - é uma realidade muito presente e confirmada com um exemplo: "O que comprava com 25 contos (125 euros), agora não se consegue com 250 euros. Nem pensar." Para Filomena, défice é sinónimo de "aperto de cinto para o povo. Os políticos e outras pessoas com grandes proveitos, fazem o mesmo tipo de vida. É-lhes indiferente se um litro de leite custa 40 cêntimos ou mais, mas para mim isso é importante". Queixa-se de que ninguém explica às pessoas o porquê dos aumentos dos preços dos produtos e qual o objectivo das medidas do Governo. Só sabe que, como resultado de tudo isso, deixou de comprar roupa de marca para a filha mais velha. E que, muitas vezes, o dinheiro que gasta nos últimos dias do mês é emprestado por amigos. Ou retirado da conta-ordenado.

...pela Ana:

A vida de Ana Santos, 47 anos, não é "um mar de rosas". Vive sozinha com dois filhos, de 13 e 21 anos, e o emprego de auxiliar de educação rende cerca de 600 euros por mês. Do marido, que foi há anos trabalhar para Inglaterra e por lá ficou com outra vida pessoal e profissional, recebe apenas uma pequena verba mensal. Por isso, o dia-a-dia de Ana é recheado de queixas e dificuldades. Como o facto de o ordenado apenas chegar para pagar as despesas da família, incluindo a renda da pequena casa em Lisboa onde vive com os filhos, e da escola do miúdo mais novo que frequenta o sétimo ano. Durante alguns meses a tarefa de "esticar" os euros contou com a ajuda do ordenado do filho, funcionário do Hard Rock Café, mas, recentemente, o final do contrato trouxe o inesperado despedimento. "Gostava que os meus filhos andassem um pouco mais bem vestidos, mas não pode ser. Para eles se apresentarem um pouco melhor, não compro roupa para mim há muito tempo", diz. Do défice pouco percebe, mas sempre gostava que "um político" explicasse como se vive com 600 euros por mês, numa altura em que os produtos custam o dobro de há dois anos. Antes do euro, portanto. Cinema, uma refeição fora de casa, ou um passeio são recordações de outros tempos. E futuro? "Não tenho expectativas. Até dizem que para o ano vai ser pior."

...pela Belmira:

Preços mais altos, impostos mais altos, poupanças em baixa. Esta é a actual situação económica, vista na primeira pessoa por Belmira Lages, de 61 anos. "As coisas parece que aumentam de um dia para o outro", refere, apontando um visível acréscimo de despesas na alimentação ou na saúde. O aumento do custo de vida é uma tendência que identifica no tempo com precisão: "Desde a mudança para o euro que está tudo muito mais caro." Se os bens de consumo exigem hoje uma maior fatia dos rendimentos da família, Belmira e o marido, Francisco Lages, recentemente reformado da construção civil, não deixam também de apontar o aumento dos impostos. "Pagámos mais este ano", sublinham. Resultado de tudo isto, diz Belmira Lages, "é hoje muito mais difícil fazer poupanças". Uma situação para a qual não espera melhorias em 2004: "Para o ano será pior", vaticina. Culpa do défice? A resposta divide-se. Por um lado, este casal diz que é preciso equilibrar as contas do País, mas por outro vai manifestando dúvidas a tanta contenção. Francisco Lages diz que o Governo "devia investir mais em obras públicas, para desenvolver o País e criar mais emprego". Mas sem entrar em obras faraónicas, caso do TGV: "o traçado entre Lisboa e Porto e Aveiro e Vilar Formoso não chegava? Para quê o Porto-Vigo? É dinheiro mal gasto." Investimento bem feito, defende este casal, seria o da melhoria da administração pública. "Paga-se, mas os serviços do Estado não correspondem", critica Belmira Lages. Um cenário sobre o qual não manifesta grande esperança: "Este País é assim e assim continuará a ser."

In Diário de Notícias, 21 de Novembro de 2003. Um trabalho de Carlos Ferro e de Susete Francisco.

Untitled

A "RETOMA" VISTA...

...pela Filomena:

"Não há sonhos. Só nos resta a frustração de viver para comer e pagar despesas." Filomena tem 34 anos, duas filhas, é educadora de infância e o marido trabalha na Transtejo. Recebem mensalmente cerca de 1500 euros. Dinheiro que só chega para as despesas obrigatórias, como a renda da casa, alimentação, luz, água, infantário. "Vive-se mal", desabafa, lembrando que uma ida ao cinema ou jantar a um restaurante está "fora de questão". Filomena mora no Barreiro e trabalha na zona de Santos, em Lisboa. Este é, praticamente, o único percurso que conhece numa vida de "casa-trabalho-casa". As despesas são inúmeras e a necessidade de contar todos os cêntimos levou-a a tomar a difícil decisão de deixar a filha de nove meses todas as noites na sua mãe que, depois a leva à escola. "A miúda está numa Instituição de Solidariedade Social onde pago 100 euros/mês, sem a carrinha para a ir buscar e levar. Como venho muito cedo para Lisboa, tenho de abdicar da companhia da minha filha à noite", diz. O aumento dos bens de primeira necessidade nos últimos anos - de que culpa o euro - é uma realidade muito presente e confirmada com um exemplo: "O que comprava com 25 contos (125 euros), agora não se consegue com 250 euros. Nem pensar." Para Filomena, défice é sinónimo de "aperto de cinto para o povo. Os políticos e outras pessoas com grandes proveitos, fazem o mesmo tipo de vida. É-lhes indiferente se um litro de leite custa 40 cêntimos ou mais, mas para mim isso é importante". Queixa-se de que ninguém explica às pessoas o porquê dos aumentos dos preços dos produtos e qual o objectivo das medidas do Governo. Só sabe que, como resultado de tudo isso, deixou de comprar roupa de marca para a filha mais velha. E que, muitas vezes, o dinheiro que gasta nos últimos dias do mês é emprestado por amigos. Ou retirado da conta-ordenado.

...pela Ana:

A vida de Ana Santos, 47 anos, não é "um mar de rosas". Vive sozinha com dois filhos, de 13 e 21 anos, e o emprego de auxiliar de educação rende cerca de 600 euros por mês. Do marido, que foi há anos trabalhar para Inglaterra e por lá ficou com outra vida pessoal e profissional, recebe apenas uma pequena verba mensal. Por isso, o dia-a-dia de Ana é recheado de queixas e dificuldades. Como o facto de o ordenado apenas chegar para pagar as despesas da família, incluindo a renda da pequena casa em Lisboa onde vive com os filhos, e da escola do miúdo mais novo que frequenta o sétimo ano. Durante alguns meses a tarefa de "esticar" os euros contou com a ajuda do ordenado do filho, funcionário do Hard Rock Café, mas, recentemente, o final do contrato trouxe o inesperado despedimento. "Gostava que os meus filhos andassem um pouco mais bem vestidos, mas não pode ser. Para eles se apresentarem um pouco melhor, não compro roupa para mim há muito tempo", diz. Do défice pouco percebe, mas sempre gostava que "um político" explicasse como se vive com 600 euros por mês, numa altura em que os produtos custam o dobro de há dois anos. Antes do euro, portanto. Cinema, uma refeição fora de casa, ou um passeio são recordações de outros tempos. E futuro? "Não tenho expectativas. Até dizem que para o ano vai ser pior."

...pela Belmira:

Preços mais altos, impostos mais altos, poupanças em baixa. Esta é a actual situação económica, vista na primeira pessoa por Belmira Lages, de 61 anos. "As coisas parece que aumentam de um dia para o outro", refere, apontando um visível acréscimo de despesas na alimentação ou na saúde. O aumento do custo de vida é uma tendência que identifica no tempo com precisão: "Desde a mudança para o euro que está tudo muito mais caro." Se os bens de consumo exigem hoje uma maior fatia dos rendimentos da família, Belmira e o marido, Francisco Lages, recentemente reformado da construção civil, não deixam também de apontar o aumento dos impostos. "Pagámos mais este ano", sublinham. Resultado de tudo isto, diz Belmira Lages, "é hoje muito mais difícil fazer poupanças". Uma situação para a qual não espera melhorias em 2004: "Para o ano será pior", vaticina. Culpa do défice? A resposta divide-se. Por um lado, este casal diz que é preciso equilibrar as contas do País, mas por outro vai manifestando dúvidas a tanta contenção. Francisco Lages diz que o Governo "devia investir mais em obras públicas, para desenvolver o País e criar mais emprego". Mas sem entrar em obras faraónicas, caso do TGV: "o traçado entre Lisboa e Porto e Aveiro e Vilar Formoso não chegava? Para quê o Porto-Vigo? É dinheiro mal gasto." Investimento bem feito, defende este casal, seria o da melhoria da administração pública. "Paga-se, mas os serviços do Estado não correspondem", critica Belmira Lages. Um cenário sobre o qual não manifesta grande esperança: "Este País é assim e assim continuará a ser."

In Diário de Notícias, 21 de Novembro de 2003. Um trabalho de Carlos Ferro e de Susete Francisco.

21.11.03

REFÉNS

Antes da deslocação de George W. ao encontro de Blair, em Londres, e antes das duas bombas que rebentaram em Istambul, pela mão invisível da Al Qaeda, Pacheco Pereira escreveu no seu blogue o seguinte:

Nota-se, cada dia que passa, um maior esmorecimento na defesa da intervenção no Iraque. É natural, tudo o que podia correr mal, parece correr mal. Não se vêem os resultados esperados, o descrédito que caiu sobre as administrações americana e inglesa por causa das armas de destruição massiva (e por contágio, sobre todos os que, como eu, lhe atribuíram um papel fundamental na legitimação da intervenção) limita a sua acção, é cada vez maior o cansaço e hostilidade da opinião pública, a sensação crescente de um beco sem saída, a hesitação que se nota com a combinação entre o número de mortos e as manobras eleitorais americanas, tudo parece apontar para um falhanço de consequências devastadoras para este início do século.

A única coisa que posso (e podemos) fazer é continuar a discutir e a defender as razões porque é preciso perseverar e não dar sinais de hesitação, ou melhor, não hesitar. Há caminhos políticos, militares e diplomáticos que, com firmeza, podem inverter a situação e corrigir os erros. E chamar a atenção para que, nada havendo de comum no terreno entre o Iraque e o Vietname, as consequências de um fracasso no Iraque serão muito mais pesadas do que as do Vietname. (Lembrando algumas dessas consequências: os boat people, as guerras de Angola e Afeganistão, etc., etc.).


JPP utiliza frequentemente o termo "hesitar" e "hesitação", como bons exemplos do que se não pode agora fazer perante o fracasso destas jornadas contra o terrorismo e contra o Sr. Hussein. Reconhece a inabilidade e a impreparação para a aventura e, sobretudo, a inexistência das famosas armas de destruição massiva que teriam justificado a intervenção. Pode ser que eu me engane, mas não vislumbro quaisquer caminhos políticos, diplomáticos ou militares que combatam, para já, eficazmente o flagelo. O que se fez no Iraque teve, em relação ao terrorismo, o mesmo efeito que dar um murro numa colmeia. Esses heróis assassinos, que se imolam e que imolam inocentes no seu combate, são verdadeiras abelhas em fúria contra o agressor. O Ocidente capitaneado pelos EUA do Sr. Bush, demonstrou não possuir uma única ideia para a gestão do Iraque. Não percebe rigorosamente nada do que se passa e do que é aquele "caldeirão" permanentemente a ferver. Verdadeiramente o que Bush e os seus aliados "intelectuais" e no "terreno" conseguiram, não foi "libertar" o Iraque do seu tirano - até aqui, o mais que se alcançou foi a queda de uma estátua...- nem libertar o Mundo da ameaça terrorista. A gloriosa intervenção apenas nos transformou, e aos putativos libertadores, em reféns.

Untitled

REFÉNS

Antes da deslocação de George W. ao encontro de Blair, em Londres, e antes das duas bombas que rebentaram em Istambul, pela mão invisível da Al Qaeda, Pacheco Pereira escreveu no seu blogue o seguinte:

Nota-se, cada dia que passa, um maior esmorecimento na defesa da intervenção no Iraque. É natural, tudo o que podia correr mal, parece correr mal. Não se vêem os resultados esperados, o descrédito que caiu sobre as administrações americana e inglesa por causa das armas de destruição massiva (e por contágio, sobre todos os que, como eu, lhe atribuíram um papel fundamental na legitimação da intervenção) limita a sua acção, é cada vez maior o cansaço e hostilidade da opinião pública, a sensação crescente de um beco sem saída, a hesitação que se nota com a combinação entre o número de mortos e as manobras eleitorais americanas, tudo parece apontar para um falhanço de consequências devastadoras para este início do século.

A única coisa que posso (e podemos) fazer é continuar a discutir e a defender as razões porque é preciso perseverar e não dar sinais de hesitação, ou melhor, não hesitar. Há caminhos políticos, militares e diplomáticos que, com firmeza, podem inverter a situação e corrigir os erros. E chamar a atenção para que, nada havendo de comum no terreno entre o Iraque e o Vietname, as consequências de um fracasso no Iraque serão muito mais pesadas do que as do Vietname. (Lembrando algumas dessas consequências: os boat people, as guerras de Angola e Afeganistão, etc., etc.).


JPP utiliza frequentemente o termo "hesitar" e "hesitação", como bons exemplos do que se não pode agora fazer perante o fracasso destas jornadas contra o terrorismo e contra o Sr. Hussein. Reconhece a inabilidade e a impreparação para a aventura e, sobretudo, a inexistência das famosas armas de destruição massiva que teriam justificado a intervenção. Pode ser que eu me engane, mas não vislumbro quaisquer caminhos políticos, diplomáticos ou militares que combatam, para já, eficazmente o flagelo. O que se fez no Iraque teve, em relação ao terrorismo, o mesmo efeito que dar um murro numa colmeia. Esses heróis assassinos, que se imolam e que imolam inocentes no seu combate, são verdadeiras abelhas em fúria contra o agressor. O Ocidente capitaneado pelos EUA do Sr. Bush, demonstrou não possuir uma única ideia para a gestão do Iraque. Não percebe rigorosamente nada do que se passa e do que é aquele "caldeirão" permanentemente a ferver. Verdadeiramente o que Bush e os seus aliados "intelectuais" e no "terreno" conseguiram, não foi "libertar" o Iraque do seu tirano - até aqui, o mais que se alcançou foi a queda de uma estátua...- nem libertar o Mundo da ameaça terrorista. A gloriosa intervenção apenas nos transformou, e aos putativos libertadores, em reféns.

20.11.03

UNA VOCE POCO FA

Para não dar demasiado nas vistas, o Teatro Nacional de São Carlos, nas pessoas da sua direcção e do secretário de Estado da Cultura, "divulgou" a temporada lírica, que começa em Janeiro, abdicando da figura, usada na "mini-temporada" de Outono, da conferência de imprensa. Lidas as notícias do evento nos jornais e o habitual comentário do crítico, alinhavo de seguida umas breves notas:

Positivas

1. Estão de parabéns o sector de marketing e imprensa do Teatro e, logicamente, o Director do Teatro, pela alteração qualitativa introduzida no site. Não será porventura o ideal, mas dentro do possível, é bem melhor do que a miséria anterior.

2. Eu tive as suficientes divergências relativamente a Paolo Pinamonti, entre outros mais sérios motivos, para me ter demitido da direcção do Teatro. Tenho-o criticado aqui sempre que julgo oportuno, fundamentalmente pela forma como exerce as funções de director, que acumula com as de director artístico. Como tal, as suas escolhas das produções, para a "contingência" nacional, foram e continuam a ser de qualidade, mesmo quando recorre ao seu petit comité de conhecidos. Antes de Pinamonti houve grandes momentos em São Carlos, naturalmente. Como é dele agora a responsabilidade, é por isso que o elogio. Nas actuais circunstâncias e "apertos", não se pode ir muito mais longe.

3. Também deve ser saudado o regresso da Orquestra Sinfónica Portuguesa ao Centro Cultural de Bélem, para os concertos sinfónicos, e em dias de semana adequados. É um espaço que agrada simultaneamente ao público e à Orquestra. Bom seria que o maestro titular, tantas vezes distante por tantos e tão prolongados períodos, andasse mais por perto.

Negativas

1. O secretário de Estado da Cultura voltou "à vaca fria" da ideia de uma"empresa" para substituir o actual figurino do instituto público. A desculpa é sempre a mesma, a da "flexibilização" dos procedimentos. Se Amaral Lopes lesse com atenção a presente lei orgânica do Teatro- e , mutatis mutandis, as dos outros teatros nacionais- veria que ela prevê mecanismos mais do que suficientes para garantir a tal flexibilidade exigida pelas produções. Haja, sim, orçamentação plurianual e verbas adequadas. Dou a mão à palmatória: a recuperação da autonomia financeira dos Teatros - que também prometeu depois de a ter deixado escapar-, no actual contexto, é essencial. Ponto final. As "empresas" ou as "fundações" não são precisas para nada, a não ser para dar aos seus putativos administradores um conjunto de prebendas que, num instituto público, não são viáveis. Mas nem em relação a isto Amaral Lopes acerta. Num dia, é uma "SA", no outro, uma "empresa pública". Parece que chamou ao D. Maria, de que foi presidente da Comissão de Gestão, escolhido pelo Sr. Sasportes, "peso morto". É caso para perguntar o que é que lá andou a fazer.

2. Ficou-se a saber que, segundo as contas da direcção e da tutela, o Teatro tem, em 2004, um acréscimo de cerca de 10,7% para as produções. Não vale a pena embandeirar já em arco com isto. É melhor esperar pelo mês de Janeiro de 2004 para ver se não terão que ser feitas "cativações"... Por outro lado, a concentração das que, julgo, virão a ser as duas maiores produções, em termos financeiros, no primeiro trimestre, com a séria hipótese das "cativações", a burocracia das autorizações de despesa e de pagamento, o anacrónico regime duodecimal e o pesadelo das "horas extraordinárias", não auguram vida fácil à minha distinta sucessora.

3. Presumo que o Teatro continuará a ter elevados custos fixos, apesar dos "alívios" em curso no pessoal do quadro. No Verão do ano passado, quando estive sozinho a assegurar a gestão do Teatro, enviei um diagnóstico exaustivo sobre a situação de todo o pessoal da casa - quadro, avenças, prestações de serviço - , a pedido do Ministério da Cultura , com as notas relevantes. Ninguém, até hoje, o deve ter lido. Seria agora interessante saber quanto custam as prestações de serviço e as avenças, formais ou informais, entretanto constituídas e que não devem ser nada mal remuneradas, por comparação com as remunerações auferidas por algum pessoal do quadro. Sublinho "algum".

Untitled

UNA VOCE POCO FA

Para não dar demasiado nas vistas, o Teatro Nacional de São Carlos, nas pessoas da sua direcção e do secretário de Estado da Cultura, "divulgou" a temporada lírica, que começa em Janeiro, abdicando da figura, usada na "mini-temporada" de Outono, da conferência de imprensa. Lidas as notícias do evento nos jornais e o habitual comentário do crítico, alinhavo de seguida umas breves notas:

Positivas

1. Estão de parabéns o sector de marketing e imprensa do Teatro e, logicamente, o Director do Teatro, pela alteração qualitativa introduzida no site. Não será porventura o ideal, mas dentro do possível, é bem melhor do que a miséria anterior.

2. Eu tive as suficientes divergências relativamente a Paolo Pinamonti, entre outros mais sérios motivos, para me ter demitido da direcção do Teatro. Tenho-o criticado aqui sempre que julgo oportuno, fundamentalmente pela forma como exerce as funções de director, que acumula com as de director artístico. Como tal, as suas escolhas das produções, para a "contingência" nacional, foram e continuam a ser de qualidade, mesmo quando recorre ao seu petit comité de conhecidos. Antes de Pinamonti houve grandes momentos em São Carlos, naturalmente. Como é dele agora a responsabilidade, é por isso que o elogio. Nas actuais circunstâncias e "apertos", não se pode ir muito mais longe.

3. Também deve ser saudado o regresso da Orquestra Sinfónica Portuguesa ao Centro Cultural de Bélem, para os concertos sinfónicos, e em dias de semana adequados. É um espaço que agrada simultaneamente ao público e à Orquestra. Bom seria que o maestro titular, tantas vezes distante por tantos e tão prolongados períodos, andasse mais por perto.

Negativas

1. O secretário de Estado da Cultura voltou "à vaca fria" da ideia de uma"empresa" para substituir o actual figurino do instituto público. A desculpa é sempre a mesma, a da "flexibilização" dos procedimentos. Se Amaral Lopes lesse com atenção a presente lei orgânica do Teatro- e , mutatis mutandis, as dos outros teatros nacionais- veria que ela prevê mecanismos mais do que suficientes para garantir a tal flexibilidade exigida pelas produções. Haja, sim, orçamentação plurianual e verbas adequadas. Dou a mão à palmatória: a recuperação da autonomia financeira dos Teatros - que também prometeu depois de a ter deixado escapar-, no actual contexto, é essencial. Ponto final. As "empresas" ou as "fundações" não são precisas para nada, a não ser para dar aos seus putativos administradores um conjunto de prebendas que, num instituto público, não são viáveis. Mas nem em relação a isto Amaral Lopes acerta. Num dia, é uma "SA", no outro, uma "empresa pública". Parece que chamou ao D. Maria, de que foi presidente da Comissão de Gestão, escolhido pelo Sr. Sasportes, "peso morto". É caso para perguntar o que é que lá andou a fazer.

2. Ficou-se a saber que, segundo as contas da direcção e da tutela, o Teatro tem, em 2004, um acréscimo de cerca de 10,7% para as produções. Não vale a pena embandeirar já em arco com isto. É melhor esperar pelo mês de Janeiro de 2004 para ver se não terão que ser feitas "cativações"... Por outro lado, a concentração das que, julgo, virão a ser as duas maiores produções, em termos financeiros, no primeiro trimestre, com a séria hipótese das "cativações", a burocracia das autorizações de despesa e de pagamento, o anacrónico regime duodecimal e o pesadelo das "horas extraordinárias", não auguram vida fácil à minha distinta sucessora.

3. Presumo que o Teatro continuará a ter elevados custos fixos, apesar dos "alívios" em curso no pessoal do quadro. No Verão do ano passado, quando estive sozinho a assegurar a gestão do Teatro, enviei um diagnóstico exaustivo sobre a situação de todo o pessoal da casa - quadro, avenças, prestações de serviço - , a pedido do Ministério da Cultura , com as notas relevantes. Ninguém, até hoje, o deve ter lido. Seria agora interessante saber quanto custam as prestações de serviço e as avenças, formais ou informais, entretanto constituídas e que não devem ser nada mal remuneradas, por comparação com as remunerações auferidas por algum pessoal do quadro. Sublinho "algum".

19.11.03

OS NOVOS MONSTROS

Depois de um jogo de bola em que os "sub 21" ganharam aos franceses, os nossos meninos, certamente para festejar o evento, dedicaram-se a espatifar os balneários gauleses. Em Coimbra, os "estudantes" voltaram a fechar tudo a cadeado, aparentemente sem qualquer reacção adequada a este abuso e a esta prepotência anti-democrática. O Governo, tão cioso em mostrar "autoridade", quando a deve exercer, faz de conta que não se passa nada. Nos graus mais para baixo do ensino oficial, utilizam-se manuais para a língua portuguesa e para a história, onde se desenvolve alegremente o analfabetismo larvar das crianças e onde se estimula a pura ignorância. É neste quadro de inépcia e de abandalhamento que se está a preparar o futuro do País, tendo como principais protagonistas estes rapazes e raparigas cuja sofisticação não se recomenda a ninguém. A democracia portuguesa, entre um milhão de falhas de que enferma, nunca soube formar elites. Pagará, por gerações e gerações, esse preço. Em vez delas, o regime limita-se tranquilamente a apadrinhar novos monstros.

Untitled

OS NOVOS MONSTROS

Depois de um jogo de bola em que os "sub 21" ganharam aos franceses, os nossos meninos, certamente para festejar o evento, dedicaram-se a espatifar os balneários gauleses. Em Coimbra, os "estudantes" voltaram a fechar tudo a cadeado, aparentemente sem qualquer reacção adequada a este abuso e a esta prepotência anti-democrática. O Governo, tão cioso em mostrar "autoridade", quando a deve exercer, faz de conta que não se passa nada. Nos graus mais para baixo do ensino oficial, utilizam-se manuais para a língua portuguesa e para a história, onde se desenvolve alegremente o analfabetismo larvar das crianças e onde se estimula a pura ignorância. É neste quadro de inépcia e de abandalhamento que se está a preparar o futuro do País, tendo como principais protagonistas estes rapazes e raparigas cuja sofisticação não se recomenda a ninguém. A democracia portuguesa, entre um milhão de falhas de que enferma, nunca soube formar elites. Pagará, por gerações e gerações, esse preço. Em vez delas, o regime limita-se tranquilamente a apadrinhar novos monstros.

18.11.03

JACQUES DERRIDA




1. Para fugir um pouco à confrangedora boçalidade da nossa vida pública, lembrei-me que está a decorrer em Coimbra um colóquio em torno da obra de Jacques Derrida. Trata-se de uma figura fundamental do pensamento filosófico contemporâneo, conhecido através da "teoria da desconstrução" ou "desconstrutivismo". Derrida nasceu em El-Biar, na Argélia, em 1930, onde passou a infância e a adolescência, num ambiente marcado pela colonização francesa e pela guerra. Em 1949 viajou para Paris e ingressou no curso preparatório para a "École Normale Supérieure", onde ingressou três anos mais tarde. Terminou os estudos superiores com uma dissertação acerca da filosofia de Husserl. Em 1956 é admitido na "agrégation", e recebe uma bolsa como "special auditor" para a Universidade de Havard, em Cambridge, onde trabalha inéditos do mesmo Husserl. Entre 1957-1959, presta serviço militar na Argélia como professor numa escola para filhos de militares. De regresso a França, profere a sua primeira conferência. A partir de 1960, ensina filosofia na Sorbonne e publica os seus primeiros trabalhos nas revistas "Critique" e "Tel Quel". Passa a ensinar, a convite de Hyppolite e de Louis Althusser, na "École Normale Supérieure", onde permaneceu, até 1984, como professor-assistente. Em 1966, apresenta nos EUA a comunicação "Estrutura, Signo e Jogo no Discurso das Ciências Humanas", um marco decisivo. Publica, em seguida, os seus três primeiros livros: "Gramatologia", "A Escrita e a Diferença" e "A voz e o Fenómeno". Entre nós, saiu na Minerva de Coimbra, o pequeno opúsculo "Cosmopolitas de todos os países, mais um esforço !", em 2001.

2. Dele, a propósito de vivermos um mundo perigosamente à beira de perder o gosto pelos livros, pela leitura e pela literatura, e em homenagem à sua defesa do "cosmopolitismo", ficam estas "literaturas deslocadas", um texto de 2000.

Escolher o seu lugar, movimentar-se livremente: é este o direito que o nosso mundo cada vez mais nega aos escritores. E de novo, contra a proibição, queremos afirmar o lugar da literatura, o seu lugar neste momento. Que as literaturas tenham um lugar. Um novo espaço literário, onde todas as oportunidades estão menos reservadas do que nunca, que se abre hoje, sob a forma abstracta, clássica ou menos clássica, à filosofia ou à ciência, à poética ou à teoria literária. As deslocações de que falaremos transformam-se também, e dispomos de vários exemplos, em questões de vida ou de morte. Jogam--se todos os dias o corpo das obras e o próprio corpo dos escritores.

Que significa hoje para tantos criadores, conhecidos ou não, este deslocamento que consiste tão frequentemente em já não ter lugar? Consiste em ser enviado para a morte ou expulso do seu país sob a ameaça de encarceramento, de tortura, de execução ou de assassinato. Para poder escrever e falar livremente, demasiados homens e mulheres vêem-se obrigados a abandonar os lugares da sua língua e das suas recordações. Cruzam a fronteira ou são presos na sua terra, fechados entre quatro paredes, na noite de um reduto daí em diante confinado à cela ou à residência vigiada. E para aceder à luz do espaço público, na surda resistência de uma literatura clandestina ou críptica, acontece também que outros lugares, os da retórica desta vez, se convertem no seu último recurso para enganar a censura.

Trata-se de um facto inédito? Em quê e em que medida? Que novidade estaria a acontecer hoje com a literatura ou, mais precisamente, entre a literatura e o lugar? Partimos de uma hipótese: algo novo está a ocorrer nisto, porque uma certa repetição não exclui, antes pelo contrário, a invenção de violências inéditas todas relacionadas com o lugar, com o que ocorre e se desloca para onde se produz uma determinada escrita. Para responder à irrupção desta novidade, é necessário recordar e analisar todas as analogias. Anterior a qualquer «movimento literário», terá surgido outro, que também terá deslocado e perseguido uma determinada literatura. Não, certamente, toda a literatura, não a que se celebra a partir do momento que serve ou reflecte a identidade própria de um grupo, de um Estado, de uma nação, de uma religião, de uma língua ou de qualquer outro poder instituído. Mas tolerou-se sempre mal aquela que, pelo menos em parte, questiona esse estatuto ou uma tal missão, como se não existisse outro espaço a não ser aquele que lhe é negado, e em todo o caso o lugar de repouso, a sedentariedade, a gregaridade ou a raiz. Daí tantos fenómenos típicos que ritmam a história da literatura, inclusive na sua modernidade: literaturas em êxodo, literaturas no exílio, literaturas no estrangeiro, literaturas estrangeiras na sua própria língua, literaturas nómadas, literaturas clandestinas, literaturas de resistência, literaturas proibidas, literaturas fora da lei e sem lugar. Lugares proibidos, muito mais além do exemplo académico de «Platão-e-os-poetas-expulsos-da--cidade»: isto foi o que se quis dizer às literaturas ao deslocá-las permanentemente, como se simplesmente, ao privá-las de um lugar onde se desenvolvessem, se tratasse de impedi-las que chegassem ou, dito de outra maneira, que tivessem lugar. Certamente, este fenómeno não é novo, embora talvez ainda aguarde que se escreva a história de outro modo (o que também poderia ser uma das nossas tarefas). Está documentado por um enganador arquivo de exemplos. A censura, o anátema, a excomunhão, a ameaça de morte ou de prisão: são estas as figuras de uma violência que terá empurrado tantos escritores para o outro lado da fronteira ou, por vezes, a exilar-se no seu próprio país. Desde que apareceram, se pode dizer, as literaturas tiveram dificuldade em conseguir ser aceites mesmo nos espaços onde pareciam nascer, nas culturas, nos países, nas nações, nos Estados a que aludiam ultrapassando os seus limites, dos que falavam enquanto forjavam a sua língua. Que ocorre, pois, com a literatura? Até que ponto partilha a esse respeito o destino da palavra ou da escrita, geralmente livres, na ordem do pensamento, da filosofia, da arte ou da ciência? Na ordem genérica «do intelectual» que o novo lugar do saber e da sua mediatização nas sociedades modernas designa tão frequentemente como potencial fonte de poder e, por isso mesmo, como um alvo privilegiado se se revolta contra a sua exploração, se se mantém crítica? Partilhar o destino citado impõe-nos, certamente, as mesmas responsabilidades, as mesmas solidariedades e os mesmos actos de resistência. Não os evitaremos. Mas? acaso não devemos reflectir também sobre o que possa corresponder-nos com mais especificidade nas apostas que hoje se anunciam sob a denominação concreta de literárias?

Torna-se necessário fazer estas perguntas, enriquecê-las e diversificá-las conforme as histórias, as culturas e as línguas. Sobretudo, dever-se-á submetê-las à prova da singularidade das obras e dos acontecimentos. Estas questões impõem que se tenha em conta o fundo mais antigo. No momento de analisar e combater hoje as novas formas de perseguição, que se refinam de um continente para o outro, não se pode omitir a recordação da repetição desta história. Múltiplos poderes, através de todas as figuras da autoridade, recorrem às armas e às alegações tradicionais, mas também a técnicas e procedimentos inéditos. Estes ajustam-se sem demora a tudo aquilo que transforma radicalmente o espaço público, a edição, os meios de comunicação, a diplomacia, o direito internacional, a organização dos Estados, o mercado?, quer dizer, a outros tantos conflitos físicos ou simbólicos: as guerras teológico-políticas, as guerras inter-étnicas, as guerras económicas e, naturalmente, através de todas estas mutações, à guerra das línguas e às guerras na língua. Violências inquisitoriais sem precedentes atiçam--se contra aqueles e aquelas que, em todas as partes e das maneiras mais diversas, resistem à opressão física ou simbólica, recusam os dogmatismos e protestam em nome de outro pensamento, de outra experiência da obra e da língua, da obra da língua.

De que outra maneira estas perseguições trazem a marca do nosso tempo?

Porquê, dentre as suas vítimas, se contam hoje tantos escritores? Porquê tantos homens e mulheres para quem a palavra pública se inscreve na ficção novelesca, no poema, na invenção de novas formas literárias? Reformular perguntas como estas será preparar novos conceitos e novas estratégias para uma resistência internacional. Uma resistência que, hoje, por veneráveis que sejam, já não se pode reduzir às formas de um cosmopolitismo regulado pelos conceitos tradicionais do autor, do cidadão (que fazem do escritor cidadão do mundo), do Estado e da nação, por exemplo numa República das Letras ou um Comité de Vigilância dos escritores Antifascistas. Na sua história, rica e complexa, o próprio valor da tolerância já não é suficiente. E apelamos a outro conceito da hospitalidade.

A melhor homenagem que se pode prestar a estes grandes testemunhos do passado consiste em não nos contentarmos em celebrá-los. Urge outra coisa. Devemos (mas? poderemos?) responder?, e fazê-lo de maneira diferente: responder de outra maneira a outras ameaças, e responder também com a que já se escreve, em mais de uma língua, como outra história.

Untitled

JACQUES DERRIDA




1. Para fugir um pouco à confrangedora boçalidade da nossa vida pública, lembrei-me que está a decorrer em Coimbra um colóquio em torno da obra de Jacques Derrida. Trata-se de uma figura fundamental do pensamento filosófico contemporâneo, conhecido através da "teoria da desconstrução" ou "desconstrutivismo". Derrida nasceu em El-Biar, na Argélia, em 1930, onde passou a infância e a adolescência, num ambiente marcado pela colonização francesa e pela guerra. Em 1949 viajou para Paris e ingressou no curso preparatório para a "École Normale Supérieure", onde ingressou três anos mais tarde. Terminou os estudos superiores com uma dissertação acerca da filosofia de Husserl. Em 1956 é admitido na "agrégation", e recebe uma bolsa como "special auditor" para a Universidade de Havard, em Cambridge, onde trabalha inéditos do mesmo Husserl. Entre 1957-1959, presta serviço militar na Argélia como professor numa escola para filhos de militares. De regresso a França, profere a sua primeira conferência. A partir de 1960, ensina filosofia na Sorbonne e publica os seus primeiros trabalhos nas revistas "Critique" e "Tel Quel". Passa a ensinar, a convite de Hyppolite e de Louis Althusser, na "École Normale Supérieure", onde permaneceu, até 1984, como professor-assistente. Em 1966, apresenta nos EUA a comunicação "Estrutura, Signo e Jogo no Discurso das Ciências Humanas", um marco decisivo. Publica, em seguida, os seus três primeiros livros: "Gramatologia", "A Escrita e a Diferença" e "A voz e o Fenómeno". Entre nós, saiu na Minerva de Coimbra, o pequeno opúsculo "Cosmopolitas de todos os países, mais um esforço !", em 2001.

2. Dele, a propósito de vivermos um mundo perigosamente à beira de perder o gosto pelos livros, pela leitura e pela literatura, e em homenagem à sua defesa do "cosmopolitismo", ficam estas "literaturas deslocadas", um texto de 2000.

Escolher o seu lugar, movimentar-se livremente: é este o direito que o nosso mundo cada vez mais nega aos escritores. E de novo, contra a proibição, queremos afirmar o lugar da literatura, o seu lugar neste momento. Que as literaturas tenham um lugar. Um novo espaço literário, onde todas as oportunidades estão menos reservadas do que nunca, que se abre hoje, sob a forma abstracta, clássica ou menos clássica, à filosofia ou à ciência, à poética ou à teoria literária. As deslocações de que falaremos transformam-se também, e dispomos de vários exemplos, em questões de vida ou de morte. Jogam--se todos os dias o corpo das obras e o próprio corpo dos escritores.

Que significa hoje para tantos criadores, conhecidos ou não, este deslocamento que consiste tão frequentemente em já não ter lugar? Consiste em ser enviado para a morte ou expulso do seu país sob a ameaça de encarceramento, de tortura, de execução ou de assassinato. Para poder escrever e falar livremente, demasiados homens e mulheres vêem-se obrigados a abandonar os lugares da sua língua e das suas recordações. Cruzam a fronteira ou são presos na sua terra, fechados entre quatro paredes, na noite de um reduto daí em diante confinado à cela ou à residência vigiada. E para aceder à luz do espaço público, na surda resistência de uma literatura clandestina ou críptica, acontece também que outros lugares, os da retórica desta vez, se convertem no seu último recurso para enganar a censura.

Trata-se de um facto inédito? Em quê e em que medida? Que novidade estaria a acontecer hoje com a literatura ou, mais precisamente, entre a literatura e o lugar? Partimos de uma hipótese: algo novo está a ocorrer nisto, porque uma certa repetição não exclui, antes pelo contrário, a invenção de violências inéditas todas relacionadas com o lugar, com o que ocorre e se desloca para onde se produz uma determinada escrita. Para responder à irrupção desta novidade, é necessário recordar e analisar todas as analogias. Anterior a qualquer «movimento literário», terá surgido outro, que também terá deslocado e perseguido uma determinada literatura. Não, certamente, toda a literatura, não a que se celebra a partir do momento que serve ou reflecte a identidade própria de um grupo, de um Estado, de uma nação, de uma religião, de uma língua ou de qualquer outro poder instituído. Mas tolerou-se sempre mal aquela que, pelo menos em parte, questiona esse estatuto ou uma tal missão, como se não existisse outro espaço a não ser aquele que lhe é negado, e em todo o caso o lugar de repouso, a sedentariedade, a gregaridade ou a raiz. Daí tantos fenómenos típicos que ritmam a história da literatura, inclusive na sua modernidade: literaturas em êxodo, literaturas no exílio, literaturas no estrangeiro, literaturas estrangeiras na sua própria língua, literaturas nómadas, literaturas clandestinas, literaturas de resistência, literaturas proibidas, literaturas fora da lei e sem lugar. Lugares proibidos, muito mais além do exemplo académico de «Platão-e-os-poetas-expulsos-da--cidade»: isto foi o que se quis dizer às literaturas ao deslocá-las permanentemente, como se simplesmente, ao privá-las de um lugar onde se desenvolvessem, se tratasse de impedi-las que chegassem ou, dito de outra maneira, que tivessem lugar. Certamente, este fenómeno não é novo, embora talvez ainda aguarde que se escreva a história de outro modo (o que também poderia ser uma das nossas tarefas). Está documentado por um enganador arquivo de exemplos. A censura, o anátema, a excomunhão, a ameaça de morte ou de prisão: são estas as figuras de uma violência que terá empurrado tantos escritores para o outro lado da fronteira ou, por vezes, a exilar-se no seu próprio país. Desde que apareceram, se pode dizer, as literaturas tiveram dificuldade em conseguir ser aceites mesmo nos espaços onde pareciam nascer, nas culturas, nos países, nas nações, nos Estados a que aludiam ultrapassando os seus limites, dos que falavam enquanto forjavam a sua língua. Que ocorre, pois, com a literatura? Até que ponto partilha a esse respeito o destino da palavra ou da escrita, geralmente livres, na ordem do pensamento, da filosofia, da arte ou da ciência? Na ordem genérica «do intelectual» que o novo lugar do saber e da sua mediatização nas sociedades modernas designa tão frequentemente como potencial fonte de poder e, por isso mesmo, como um alvo privilegiado se se revolta contra a sua exploração, se se mantém crítica? Partilhar o destino citado impõe-nos, certamente, as mesmas responsabilidades, as mesmas solidariedades e os mesmos actos de resistência. Não os evitaremos. Mas? acaso não devemos reflectir também sobre o que possa corresponder-nos com mais especificidade nas apostas que hoje se anunciam sob a denominação concreta de literárias?

Torna-se necessário fazer estas perguntas, enriquecê-las e diversificá-las conforme as histórias, as culturas e as línguas. Sobretudo, dever-se-á submetê-las à prova da singularidade das obras e dos acontecimentos. Estas questões impõem que se tenha em conta o fundo mais antigo. No momento de analisar e combater hoje as novas formas de perseguição, que se refinam de um continente para o outro, não se pode omitir a recordação da repetição desta história. Múltiplos poderes, através de todas as figuras da autoridade, recorrem às armas e às alegações tradicionais, mas também a técnicas e procedimentos inéditos. Estes ajustam-se sem demora a tudo aquilo que transforma radicalmente o espaço público, a edição, os meios de comunicação, a diplomacia, o direito internacional, a organização dos Estados, o mercado?, quer dizer, a outros tantos conflitos físicos ou simbólicos: as guerras teológico-políticas, as guerras inter-étnicas, as guerras económicas e, naturalmente, através de todas estas mutações, à guerra das línguas e às guerras na língua. Violências inquisitoriais sem precedentes atiçam--se contra aqueles e aquelas que, em todas as partes e das maneiras mais diversas, resistem à opressão física ou simbólica, recusam os dogmatismos e protestam em nome de outro pensamento, de outra experiência da obra e da língua, da obra da língua.

De que outra maneira estas perseguições trazem a marca do nosso tempo?

Porquê, dentre as suas vítimas, se contam hoje tantos escritores? Porquê tantos homens e mulheres para quem a palavra pública se inscreve na ficção novelesca, no poema, na invenção de novas formas literárias? Reformular perguntas como estas será preparar novos conceitos e novas estratégias para uma resistência internacional. Uma resistência que, hoje, por veneráveis que sejam, já não se pode reduzir às formas de um cosmopolitismo regulado pelos conceitos tradicionais do autor, do cidadão (que fazem do escritor cidadão do mundo), do Estado e da nação, por exemplo numa República das Letras ou um Comité de Vigilância dos escritores Antifascistas. Na sua história, rica e complexa, o próprio valor da tolerância já não é suficiente. E apelamos a outro conceito da hospitalidade.

A melhor homenagem que se pode prestar a estes grandes testemunhos do passado consiste em não nos contentarmos em celebrá-los. Urge outra coisa. Devemos (mas? poderemos?) responder?, e fazê-lo de maneira diferente: responder de outra maneira a outras ameaças, e responder também com a que já se escreve, em mais de uma língua, como outra história.

17.11.03

UM BREVE REGRESSO

Disfarçado de "carta ao director", Vasco Pulido Valente regressou ontem, por breves instantes, ao nosso convívio. Foi no Público e acerca do "Equador", de Miguel Sousa Tavares. Verifico, satisfeito, que a verrina permanece intacta, apesar das contrariedades com a saúde. Eu tenho uma leitura diversa do livro de Sousa Tavares, e não o acho "popular". Contudo, porque penso que muito boa gente não deu pela prosa, aqui fica registada a "carta" e os desejos profundos de melhoras.

"Equador" é um romance popular, com a típica obsessão do género pela comida, a roupa, a paisagem, a meteorologia e o sexo. Fora isso, é também uma absurda idealização do autor, entre o patusco e o patético. Esta literatura tem, e merece, o respeito concedido a qualquer indústria alimentar. Mas, para seu mal, e por evidente snobismo, Sousa Tavares decidiu transferir as suas proezas de grande sedutor e a sua famosa "consciência trágica" para o princípio do século passado, época sobre a qual nada sabe. E, claro, a inveja não perdeu a oportunidade. Agora parece que há uma polémica, cuja natureza não se entende, e que Sousa Tavares se apressou a garantir que em "2000 informações histórico-factuais" do seu romance não existem mais do que duas dezenas de erros, já devidamente corrigidos e, de resto, em si irrelevantes. Por mim, uma pergunta: por que razão gasta o PÚBLICO tinta, espaço e trabalho com a incultura quase cómica de Miguel Sousa Tavares? Gostava de perceber. Acredite.

Vasco Pulido Valente

Hospital Amadora-Sintra



Untitled

UM BREVE REGRESSO

Disfarçado de "carta ao director", Vasco Pulido Valente regressou ontem, por breves instantes, ao nosso convívio. Foi no Público e acerca do "Equador", de Miguel Sousa Tavares. Verifico, satisfeito, que a verrina permanece intacta, apesar das contrariedades com a saúde. Eu tenho uma leitura diversa do livro de Sousa Tavares, e não o acho "popular". Contudo, porque penso que muito boa gente não deu pela prosa, aqui fica registada a "carta" e os desejos profundos de melhoras.

"Equador" é um romance popular, com a típica obsessão do género pela comida, a roupa, a paisagem, a meteorologia e o sexo. Fora isso, é também uma absurda idealização do autor, entre o patusco e o patético. Esta literatura tem, e merece, o respeito concedido a qualquer indústria alimentar. Mas, para seu mal, e por evidente snobismo, Sousa Tavares decidiu transferir as suas proezas de grande sedutor e a sua famosa "consciência trágica" para o princípio do século passado, época sobre a qual nada sabe. E, claro, a inveja não perdeu a oportunidade. Agora parece que há uma polémica, cuja natureza não se entende, e que Sousa Tavares se apressou a garantir que em "2000 informações histórico-factuais" do seu romance não existem mais do que duas dezenas de erros, já devidamente corrigidos e, de resto, em si irrelevantes. Por mim, uma pergunta: por que razão gasta o PÚBLICO tinta, espaço e trabalho com a incultura quase cómica de Miguel Sousa Tavares? Gostava de perceber. Acredite.

Vasco Pulido Valente

Hospital Amadora-Sintra



LER

...na Nova Frente as excelentes "reflexões sobre a televisão", e no T Zero, "as águas paradas do rio", uma breve e oportuna leitura da estação outono/inverno dos blogues.

Untitled

LER

...na Nova Frente as excelentes "reflexões sobre a televisão", e no T Zero, "as águas paradas do rio", uma breve e oportuna leitura da estação outono/inverno dos blogues.
FUNDAÇÕES OU AFUNDAÇÕES?

Numa entrevista ontem editada no Público, o Dr. Monteiro, que preside à administração da Casa da Música do Porto, afirmou que, o mais certo, é aquela estrutura acabar em fundação, na sua opinião, a fórmula jurídica mais adequada ao seu funcionamento. Entre fundações e "empresarializações", os "gerentes" das coisas da cultura - e não só - e as respectivas tutelas, tentam demonstrar-nos que esta é a via da salvação. Por um lado, explicam eles, é mais "barato", uma vez que se alivia o Estado dos encargos com essa maçada que é a "cultura". E por outro, torna a coisa "mais profissional", dado que a "gestão privada" ou equiparada é sucesso garantido. Se isto fosse verdade, estávamos realmente conversados. Ora acontece que não é. Na prática, é o orçamento de Estado e uns poucos mecenas quem acaba por pagar estas "fundações" e estas geniais "empresas". Depois, o facto de se "aproximar" a respectiva gestão do jargão privado, nunca foi , em parte nenhuma do mundo e muito menos em Portugal, sinónimo de "excelência" anunciada. O desastre que foi a Fundação São Carlos, nos anos 90, ajudaria a perceber. Veja-se também o "modelo" Amaral Lopes para a administração do D. Maria que, qual pescadinha de rabo na boca, anda para trás e para diante para ser aprovado. Ou a "reestruturação" em curso no referido S. Carlos. A legislação aprovada entre 1997 e 1998 nem teve tempo para ser integralmente aplicada, estando já a ser inutilmente destruída em prol destes pios princípios da "modinha" neoliberal. Quanto aos actuais e futuros protagonistas destas aventuras, o melhor é nem dizer nada. O Dr. Monteiro é um bom exemplo, fala por si e por "isto". Para tudo não ser tão completamente mau, fica a saudação a Ricardo Pais - que ainda um dia perguntará a si próprio o que é que anda ali a fazer - pela adesão do "seu" D. João do Porto à União dos Teatros da Europa. O mérito é todo dele, e não foi preciso nenhuma mítica "fundação" para lá chegar.

Untitled

FUNDAÇÕES OU AFUNDAÇÕES?

Numa entrevista ontem editada no Público, o Dr. Monteiro, que preside à administração da Casa da Música do Porto, afirmou que, o mais certo, é aquela estrutura acabar em fundação, na sua opinião, a fórmula jurídica mais adequada ao seu funcionamento. Entre fundações e "empresarializações", os "gerentes" das coisas da cultura - e não só - e as respectivas tutelas, tentam demonstrar-nos que esta é a via da salvação. Por um lado, explicam eles, é mais "barato", uma vez que se alivia o Estado dos encargos com essa maçada que é a "cultura". E por outro, torna a coisa "mais profissional", dado que a "gestão privada" ou equiparada é sucesso garantido. Se isto fosse verdade, estávamos realmente conversados. Ora acontece que não é. Na prática, é o orçamento de Estado e uns poucos mecenas quem acaba por pagar estas "fundações" e estas geniais "empresas". Depois, o facto de se "aproximar" a respectiva gestão do jargão privado, nunca foi , em parte nenhuma do mundo e muito menos em Portugal, sinónimo de "excelência" anunciada. O desastre que foi a Fundação São Carlos, nos anos 90, ajudaria a perceber. Veja-se também o "modelo" Amaral Lopes para a administração do D. Maria que, qual pescadinha de rabo na boca, anda para trás e para diante para ser aprovado. Ou a "reestruturação" em curso no referido S. Carlos. A legislação aprovada entre 1997 e 1998 nem teve tempo para ser integralmente aplicada, estando já a ser inutilmente destruída em prol destes pios princípios da "modinha" neoliberal. Quanto aos actuais e futuros protagonistas destas aventuras, o melhor é nem dizer nada. O Dr. Monteiro é um bom exemplo, fala por si e por "isto". Para tudo não ser tão completamente mau, fica a saudação a Ricardo Pais - que ainda um dia perguntará a si próprio o que é que anda ali a fazer - pela adesão do "seu" D. João do Porto à União dos Teatros da Europa. O mérito é todo dele, e não foi preciso nenhuma mítica "fundação" para lá chegar.

15.11.03

OS SALTEADORES DA ARCA PERDIDA

A dupla Portas-Santana Lopes - o dueto inspirador da "aliança" que nos governa e os dois que interessa verdadeiramente vigiar de perto - , na ausência de Barroso, apresentou um projecto conjunto de revisão constitucional. A irrelevância do exercício teve o eco que merecia quando o País se "aquece" a outros lumes. Felizmente, porque Deus escreve direito por linhas tortas, ninguém lhes prestou atenção. Um dia depois do glorioso desembarque português no Iraque, já havia uma jornalista baleada, outro raptado e os homens da GNR intimamente a pensar onde é que se tinham ido meter. Como é próprio da ocasião, e num estilo que parece fazer escola nesta governação "neoliberal", o ministro da Administração Interna desapareceu "em combate", e deixou as explicações para o simpático major Sousa da GNR. Dias antes, convém recordar, tudo era abraços, apertos de mão e uma suprema distinção, isto de haver um pouco de Portugal na nobre missão de pastorear os insubmissos iraquianos. Acontece que os sorrisos de circunstância da cimeira dos Açores estão a pagar-se bem caros e o factotum Bush está a dar sinais de que quer ver-se livre daquela trapalhada o mais depressa possível. Aguardemos, pois, o momento da debandada para ver o que é que os "pequenos falcões" europeus vão fazer. Foi assim, no meio da confusão e da perplexidade gerais, que, pela mão de Santana Lopes e de Paulo Portas, o PSD deu mais um passo rumo à indiferenciação e à diluição no seio desta "arca perdida" que é a coligação no poder. Eles são os seus verdadeiros "salteadores" e, ao contrário de outros distraídos, sabem muito bem o que é que andam a fazer.

Untitled

OS SALTEADORES DA ARCA PERDIDA

A dupla Portas-Santana Lopes - o dueto inspirador da "aliança" que nos governa e os dois que interessa verdadeiramente vigiar de perto - , na ausência de Barroso, apresentou um projecto conjunto de revisão constitucional. A irrelevância do exercício teve o eco que merecia quando o País se "aquece" a outros lumes. Felizmente, porque Deus escreve direito por linhas tortas, ninguém lhes prestou atenção. Um dia depois do glorioso desembarque português no Iraque, já havia uma jornalista baleada, outro raptado e os homens da GNR intimamente a pensar onde é que se tinham ido meter. Como é próprio da ocasião, e num estilo que parece fazer escola nesta governação "neoliberal", o ministro da Administração Interna desapareceu "em combate", e deixou as explicações para o simpático major Sousa da GNR. Dias antes, convém recordar, tudo era abraços, apertos de mão e uma suprema distinção, isto de haver um pouco de Portugal na nobre missão de pastorear os insubmissos iraquianos. Acontece que os sorrisos de circunstância da cimeira dos Açores estão a pagar-se bem caros e o factotum Bush está a dar sinais de que quer ver-se livre daquela trapalhada o mais depressa possível. Aguardemos, pois, o momento da debandada para ver o que é que os "pequenos falcões" europeus vão fazer. Foi assim, no meio da confusão e da perplexidade gerais, que, pela mão de Santana Lopes e de Paulo Portas, o PSD deu mais um passo rumo à indiferenciação e à diluição no seio desta "arca perdida" que é a coligação no poder. Eles são os seus verdadeiros "salteadores" e, ao contrário de outros distraídos, sabem muito bem o que é que andam a fazer.