31.12.12

2012, conserva acabada


 


"Levanta-te e caminha". Bom ano.

30.12.12

A ideia de "país"


 


Nos últimos dias de 2012, Portugal foi sacudido por um delíquio regionalista com epicentro no Porto. Volta não volta, este país pequenino como uma caixa de fósforos sofre acometimentos deste género. Uma estrada, uma estátua, um estaminé qualquer, tudo pode de repente servir de pretexto para a "indignação" e para meia dúzia de apelos estimáveis a manifestações e "cordões humanos". A ANA foi privatizada. Pois logo se "descobriu" que há ali uns terrenozinhos à volta do aeroporto Sá Carneiro que é preciso "salvar". A Casa da Música não vai receber aquilo com que o anterior responsável pela Cultura se tinha comprometido e, como sucedeu com Pires de Lima e Sócrates por causa de Berardo (um "empreendimento" que granjeou ao Estado e aos contribuintes um inesquecível" sucesso" financeiro que Francisco José Viegas teve de resolver), os ditos "cordões" apelam a que Passos Coelho "resolva" por cima do seu Secretário de Estado. Finalmente a anunciada transumância de uma coisa chamada Praça da Alegria, e de mais não sei quê, da RTP Porto para a RTP Lisboa não cessa de provocar sonoros transportes nas "elites" da Invicta, mesmo nas suas formas de vida mais inteligentes como é o caso de Paulo Rangel. O regionalismo não é bom conselheiro. A macrocefalia centralista também não mas, no caso específico da RTP Porto, por exemplo, o que está em causa é o voto autárquico de 2013. Nenhum putativo candidato ao lugar de Rui Rio faltará com uma velinha acesa ao Monte da Virgem. Pelo meio, os ideólogos do serviço público de televisão - que estão em todo o lado porque tal "ideologia" é, afinal, sistémica e regimental - aproveitam a boleia para fazer o seu "número" em prol de uma RTP para a qual olham como, na Índia, os nativos contemplam uma vaca sagrada. O que é que isto tem a ver com a ideia de país? Tudo. Até filologicamente, a tremenda palavra  "portugalidade", trocada uma vogal por outra, começa onde um homem quiser e lhe der mais jeito. É como se a ideia de, no caso, uma região pudesse ser definida por uma televisão, mais adequadamente por um bocado de uma televisão que é nacional, por um conteúdo específico da referida "portugalidade" aludida por Miguel Tamen noutro contexto: «repetimos assim para nós próprios a exclamação satisfeita que com melhores razões Winston Churchill (vem a propósito, acrescento eu, do exclusivo da patente "liberal" que o Porto tanto gosta de reclamar) tivera: What a chicken, what a neck!»


 


 


Adenda: A Casa da Música é um equipamento cultural nacional à semelhança do Teatro Nacional São João. "Regionalizá-los" só diminui a sua indisputável dimensão cosmopolita. A RTP Porto não me interessa.

29.12.12

A ideia de "pensar o mundo"


 


A melhor ideia, rara entre nós. Manuel Maria Carrilho intitulou assim os dois volumes que juntam a sua obra de 30 anos. De repente não me consigo recordar de outra publicação doméstica, do género e em 2012, que justifique sequer uma nota de rodapé. Talvez porque o pensamento é um trabalho de dias que levam anos a chegar e não o fruto espúrio de uma comoção momentânea ou do chico-espertismo comunicacional tão em voga. Os dois livros de Carrilho têm a vantagem de poder ser lidos sem nenhuma ordem particular e, nessa medida, podem servir de "consulta" para tentar perceber em permanência o que nos rodeia. Têm mais "futuro" dentro deles do que muitos tratados e panfletos, escritos a centenas de mãos, sobre "futuros" anunciados que nunca chegam a chegar. A circunstância de o autor ter uma filiação partidária bem definida não diminui o estímulo da leitura. Pelo contrário, Carrilho filia-se numa não tradição intelectual portuguesa que é a heterodoxia e que ele lá explica quando, adolescente, adquiriu o volumito de Eduardo Lourenço com esse título. Nessa altura, Lourenço introduzia uma conversa nova numa paróquia dividida entre marxistas e reaccionários já com a Europa por fito. Em 2012, Carrilho foi precisamente dos que mais chamou a atenção para a necessidade de olharmos para nós a partir da política e da Europa - e para a Europa a partir da política, bem como a partir de uma certa ideia de cosmopolitismo, de imprevisibilidade e de complexidade (sem as perguntas certas nunca chegaremos às respostas adequadas) - em vez de reduzirmos tudo ao fatalismo numerológico ou à superficialidade inconsequente. «São muitos os factores que tornam hoje a actividade política extraordinariamente difícil: a globalização e a perda de soberania das nações, o individualismo e a erosão da representatividade, a mercantilização da informação e a sua tabloidização. (...) As lideranças do futuro terão de resistir à armadilha do voluntarismo, seja na forma que conduz a contraproducentes provas de força com a sociedade, seja quando ele se refugia num qualquer tipo de determinação mais ou menos iluminada. São outras as qualidades que se requerem aos reformadores do nosso tempo. Acima de tudo, o que conta é mostrar capacidade de composição com a própria sociedade: na sua diversidade, na sua fragilidade e na sua complexidade. Não só porque o voluntarismo afasta e exclui, enquanto a composição motiva e integra, mas também porque só assim se consegue criar o espaço de manobra necessário para lidar com os problemas do nosso tempo.»

28.12.12

A ideia de "Europa"


 


Fez muita falta na política nacional em 2012. Fez falta na própria Europa. Como alguém escreveu, o Nobel da Paz parece ter-lhe sido atribuído a título póstumo. Embrenhada numa crise que começa na moeda e acaba no bolso das pessoas que usam a moeda, a Europa "vive" suspensa de uma eleição que terá lugar na Alemanha no último trimestre do próximo ano. Entretanto realiza conselhos "decisivos" que nunca decidem coisa alguma. Este ano foi particularmente rico em reuniões desse género, seguidas de penosas conferências de imprensa como se a Europa já não soubesse estar à altura da sua história e das suas responsabilidades civilizacionais no mundo. As principais instituições, embotadas e redondas, exploram até ao limite uma novilíngua que não alcança os "povos". A nossa crise - que não é apenas financeira ou económica - só pode ser ponderada em "modo europeu". E, tão provável quanto tardiamente, em "modo federal". A retórica do "alargamento" paga-se como, mais tarde ou mais cedo, se paga toda a língua de pau. A Inglaterra praticamente já é outra coisa e já só pensa noutra coisa mesmo com um tipo tão shallow como Cameron. Essa, aliás, foi a única "ideia de Europa", em 2012, Hollande incluído - uma Europa de pequeninos, shallow em suma.

A ideia de "língua"


 


Sou visceralmente contra o acordo ortográfico de 1990 que o Brasil acabou de adiar até 2016. Por cá, fomos logo a correr num triste exercício voluntarista desprovido de um módico de reflexão sobre a coisa. Das editoras aos textos oficiais, o português acordográfico "entrou em vigor" quando, na realidade, nada estava verdadeiramente em vigor. Há pessoas bem mais qualificadas do que eu que têm explicado isso sem tergiversações. É o caso de Miguel Tamen em Abril deste ano. «Não é só legislar sobre a língua que é tonto, é imaginar que leis sobre a língua possam ter efeitos. Legislar sobre a língua é o mesmo que legislar sobre a virtude. Imagine um decreto-lei que estipule que, a partir de agora, os pecados são proibidos. Como é que isso se põe em prática? (...) As palavras cuja grafia sofre alteração tendem a aparecer concentradas em determinados contextos. De repente, vemos proliferar num ecrã de televisão palavras como “espetadores” e “atuais”. Ocorre-me a descrição de um fragmento muito conhecido de Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego” que nunca é citado no seu conjunto. A primeira parte é “Minha pátria é a língua portuguesa” e o resto deste fragmento diz “Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse”. (...) Da perspectiva liberal, é certo que entendo, como os liberais, que o Estado não deve legislar sobre a língua. Mas a razão porque assim entendo não é porque ache que seja uma imoralidade intrínseca fazê-lo, mas porque não são necessárias leis onde existem costumes satisfatórios. É uma defesa daquilo que é familiar.»

A ideia de Agustina


 


Este ano Agustina Bessa-Luís completou 90 anos. Está na minha paisagem desde muito cedo. Frequentei a sua casa ao Campo Alegre. Falámos de "caminhos minuciosos e incabados" que é a melhor forma de descrever a sua escrita. É porventura, já o disse, uma enorme ironista cujos contos, romances ou ensaios exploram, na chamada "natureza humana" e nas suas "relações", aquilo que Henry Miller escreveu a propósito de Rimbaud: «se fores capaz de ser um verme, serás também capaz de ser um Deus.» Este dia, útil, também coincide com o fim de uma etapa. Mas é Agustina quem nos ensina que, do fim, «o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa».

27.12.12

A ideia de "pessoa"


 


Um ano nunca fica bem "balanceado" se nos esquecermos das pessoas. Os jornais, as televisões e outras "plataformas" afins não param de nos atirar à cara com essas pessoas. Os mais ingénuos elegem os "portugueses", em abstracto, como as tais pessoas do ano, supostamente capazes de tudo e do seu contrário. Como Fernando Pessoa bem "relata" em Mensagem - "que farei eu com esta espada", perguntava, incrédulo, o conde D. Henrique, pela voz do autor de Tabacaria, antes de inventar os ditos portugueses. Viu-se o que fez e ajudou a fazer. As pessoas, fora as que morreram, são essencialmente as mesmas e da mesma massa feitas. Fúteis, mesquinhas, egoístas, superficiais, dissimuladas, mistificadoras. No plano ficcional, lamento que tivesse terminado a série House. Everybody lies é um emblema na vida da maior parte das pessoas. Tal como o desprezo irónico a que devem ser votadas, e que House fazia sem tremelicar. Noutro, Gore Vidal. Quando morreu, escrevi o que me pareceu adequado. As pessoas "reais" interessam-me cada vez menos, mais ou menos "íntimas", porque quanto mais "íntimas" mais elas mesmas, ou seja, nada íntimas. Estão à espera que diga qualquer coisinha sobre "política" e "políticos do ano"? Não, fica para outra altura. O "ano" dessas pessoas ainda não acabou e, seguramente, não acaba daqui a uns dias. Se quisesse resumir a ideia de "pessoa" em 2012 - desde sempre?-, recorria a Vidal: hostilidade e perigo. Dirão os mais atentos que isto não é próprio de um cristão. Mas Jesus varreu os vendilhões do templo com a espada, não com beatitude. E deu cabo deles, como relata João: "Eu venci o mundo". Está pois respondida, sobre pessoas, a pergunta de Pessoa.

A ideia de "ano"


 


A quatro dias do fim do ano da graça de 2012, pode começar a fazer-se um "balanço". Vale a pena? Há alguns anos que o ano dito civil deixou de coincidir com os calendários e vice-versa. A monotonia da indiferença igualizou por baixo, entre outros, o tempo. Tanto faz 2010, 2005, 2009, 2006 ou 2012. Como quase tudo foi tomado pela contabilidade, a ideia parva de "ano" cola sobretudo a exercícios financeiros a maior parte dos quais nem sequer são feitos nos países a que dizem respeito. Que o digam os "países de programa", uma expressão medonha facilmente associável a outra coisa. Que fica? Não adianta olhar excessivamente para trás. O passado está pejado de cruzes. As dos nossos mortos, as dos nossos "ideais", as dos nossos desejos, as das nossas múltiplas vidas. Todo o homem é um ser complexo e só os pobres de espírito podem supor que tudo corre como numa auto-estrada no meio do deserto, sem trânsito e sem outra paisagem que não o sol e as nuvens. Proust escreveu que era preciso guardar um pouco de céu azul na nossa vida, logo esse nervoso genial que se fechou num quarto para remoer "o tempo perdido". Não, não adianta olhar para trás. Provavelmente houve sempre um tempo para tudo da mesma forma que haverá agora um tempo para um outro tudo. Nas magníficas páginas iniciais do seu "Saint Genet - comédien et martyr", Sartre adverte que sermos ainda o que vamos deixar de ser e sermos já o que seremos é a mais solene e trágica das nossas condições. Olho para o futuro - uma hora, um dia, um mês, um ano? - com a esperança do "progressista" que não sou. Ou seja, nenhuma.

26.12.12

Uma pequenina luz*






«Não há paz na terra, nem homens de boa vontade. O discurso político não ajuda: se é o do poder, fala em nome de uma recuperação, mas desde logo anuncia que o caminho é longo, lento e eriçado de dificuldades; se é o da oposição, mostra uma vocação irreprimível para generalizar e instrumentalizar protestos, indignações, casos-limite. Os adversários enjeitam quaisquer responsabilidades no status quo e vão-se esquartejando verbalmente, sem conseguirem pôr-se de acordo quando ao fundo dos problemas e sem se entenderem quanto ao essencial. A comunicação social que de tudo isso vai dando notícia, cada vez com mais dificuldades para sobreviver e cada vez com mais estagiários em feroz competição lá onde deveria haver sobretudo profissionais experientes, faz como certos políticos: agarra-se a minudências insignificantes para insinuar coisas despropositadas, enxerga subtilezas dialécticas onde elas não têm lugar, descortina sibilinamente perífrases de agressão disfarçada que não existem, extrai a fórceps conclusões a contrario sensu que não têm pés nem cabeça. Instala-se a confusão, a que se segue a discussão, a que se segue a mistificação, a que se segue a manipulação... Nesse desconcerto, cada imagem do mundo faz menos sentido do que a anterior e há muitos interesses que se aproveitam dele para levar água ao seu moinho dando o menos possível nas vistas. Vive-se sob a pressão do imediato, de um imediato teratológico e irremediável. Há cada vez menos capacidade do homem comum para enquadrar e compreender o que lhe acontece e acontece à sua família ou à dos vizinhos: pais, irmãos, filhos, parentes, velhos e novos, gente cujas vidas em concreto se vão passando agora entre a angústia do desemprego e a do risco de tudo se desmoronar. Se se teme, logo à partida, que as soluções adoptadas acabem por falhar umas atrás das outras sob o impacto brutal de uma realidade dificilmente controlável, também as análises da situação que se vive são contraditórias, frequentemente eivadas de preconceitos ideológicos que nada resolvem, repassadas de posicionamentos teóricos que, por sua vez, não conseguem abarcar os mecanismos que fazem mover a realidade, ou marcadas por apelos revolucionários e malabarismos verbais que não levam a lado nenhum. Nas desencontradas retóricas a que se vai assistindo, são poucas ou nenhumas, e pouco ou nada convincentes, as soluções concretas propostas em alternativa. Ter-se-á vivido os últimos dias com a sensação de se estar a passar um Natal feliz? E poder-se-á esperar que o próximo vai ser melhor? Apesar de tudo, as pessoas não deixam de se agarrar a "uma pequenina luz bruxuleante", como diria Jorge de Sena.»


 


Vasco Graça Moura, DN


 


*


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

25.12.12

Pastar a vaca


 


Enquanto as nossas televisões generalistas primam pela indigência enlatada (filmes e programas idiotas atrás de filmes e programas idiotas como se o Natal fosse um momento especial devotado à infantilização colectiva) para preencher o feriado, o canal Mezzo oferece Carlos Kleiber. Não estou a sugerir que as televisões domésticas "assustassem" as suas cada vez mais parcas audiências com Brahms, Beethoven ou Debussy. Nem tão pouco que contribuíssem modestamente para "educar" o gosto indígena. Apenas julgo que o respeito pelo público exigiria algum esforço - é possível distrair sem embrutecer ou colocar tudo no patamar mais baixo. Os "conteúdos" continuam a ser a grande questão do audiovisual seja a que título de "serviço" for. Não perceber isto é continuar alegremente a pastar a vaca.

O lugar inexistente na hospedaria

«Não cessa de nos comover o facto de Deus Se ter feito menino, para que nós pudéssemos amá-Lo, para que ousássemos amá-Lo, e, como menino, Se coloca confiadamente nas nossas mãos. Como se dissesse: Sei que o meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar. Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles? E recordamos então que esta notícia, aparentemente casual, da falta de lugar na hospedaria que obriga a Sagrada Família a ir para o estábulo, foi aprofundada e referida na sua essência pelo evangelista João nestes termos: «Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram» (Jo 1, 11). Deste modo, a grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos? Isto começa pelo facto de não termos tempo para Deus. Quanto mais rapidamente nos podemos mover, quanto mais eficazes se tornam os meios que nos fazem poupar tempo, tanto menos tempo temos disponível. E Deus? O que diz respeito a Ele nunca parece uma questão urgente. O nosso tempo já está completamente preenchido. Mas vejamos o caso ainda mais em profundidade. Deus tem verdadeiramente um lugar no nosso pensamento? A metodologia do nosso pensamento está configurada de modo que, no fundo, Ele não deva existir. Mesmo quando parece bater à porta do nosso pensamento, temos de arranjar qualquer raciocínio para O afastar; o pensamento, para ser considerado «sério», deve ser configurado de modo que a «hipótese Deus» se torne supérflua. E também nos nossos sentimentos e vontade não há espaço para Ele. Queremo-nos a nós mesmos, queremos as coisas que se conseguem tocar, a felicidade que se pode experimentar, o sucesso dos nossos projectos pessoais e das nossas intenções. Estamos completamente «cheios» de nós mesmos, de tal modo que não resta qualquer espaço para Deus. E por isso não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros. A partir duma frase simples como esta sobre o lugar inexistente na hospedaria, podemos dar-nos conta da grande necessidade que há desta exortação de São Paulo: «Transformai-vos pela renovação da vossa mente» (Rm 12, 2). Paulo fala da renovação, da abertura do nosso intelecto (nous); fala, em geral, do modo como vemos o mundo e a nós mesmos. A conversão, de que temos necessidade, deve chegar verdadeiramente até às profundezas da nossa relação com a realidade.»


 


Bento XVI, Vaticano, 24.12.12

24.12.12

A pobre gruta

Enquanto cristão, o Natal é para mim apenas o que o Vitor Cunha Rego uma vez descreveu, «Jesus Cristo nascido na palha de uma pobre gruta», um acto diário, persistente e inspirador «de um radicalismo evangélico que obriga o homem a ir ao fundo das coisas e a não se resignar perante as injustiças, por mais que a mansidão lhe tenha sido ensinada.» Quanto ao resto - que, para tanta gente, é o tudo do Natal - sigo Alberto Caeiro, "meto-me para dentro, e fecho a janela".


 


Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Um património

Apesar de ter decidido não escrever nada sobre a RTP nos próximos tempos, não deixo de ler o que sobre ela se escreve e diz. Este artigo de João Lopes  - que sempre pensei que dará um belíssimo director da Cinemateca - é, de longe, das coisas mais interessantes, e não histéricas ou de "ocasião", que se escreveu este ano sobre o assunto. À semelhança de Lopes, e enquanto cidadão, preocupa-me o destino do arquivo e a sua disponibilização pública. Defendo (isto, para já, posso e devo dizer) que o arquivo da RTP deve passar para o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM), aliás na sequência disto (tanto quanto sei o ANIM está já apetrechado para o efeito). «Confesso (...) o meu cepticismo perante alguns inflamados discursos que, dos sectores mais diversos, exaltam a defesa do "serviço público". Desde logo, porque não detecto qualquer homogeneidade em tais discursos: não creio que estejam todos a dizer o mesmo quando aplicam a expressão "serviço público" e, em boa verdade, temo que alguns nunca tenham pensado naquilo que estão a dizer. Depois, porque quase todas essas vozes, defensoras do "serviço público", mostram uma olímpica indiferença face a um valor absoluto da RTP. Qual? O património das suas imagens, isto é, o seu arquivo. Este desabafo não envolve nenhuma certeza. Tenho cada vez mais dúvidas sobre as tradicionais definições de "serviço público". Penso mesmo que a insistência na sua formulação apologética nos está a fazer passar ao lado do presente tecnológico e comunicacional da televisão, ao mesmo tempo que bloqueia qualquer projecto consistente para o seu futuro. Habituei-me, há muitos anos, a ouvir coisas caricatas como essa que garante que os críticos querem que a televisão só passe "ópera & bailado"... Desisti mesmo de considerar que tal estupidez se possa contrariar por qualquer argumentação exigente e racional.» Isto quando «todos os dias, a população é bombardeada com reality shows que desafiam os mais básicos princípios de dignidade humana garantidos pela lei; onde estão os políticos empenhados em questionar os poderes mediáticos, culturais e económicos de tais programas?»

Um conto português de natal






«Aparece um indivíduo afirmando-se cumulado de títulos e funções (ex-bolseiro da Gulbenkian, consultor do Banco Mundial, coordenador mandatado pelo Secretário-Geral da ONU, professor universitário), desdobra-se em entrevistas à imprensa, a reuters certifica-o, senta-se nas mesas redondas das intermináveis parlapatanices televisivas, é orador convidado em jantares promovidos pelas mais desvairadas instituições - umas sérias, outras nem tanto - ganha respeitabilidade sentando-se com Bagão e Maria Barroso, é coqueluche de blogues.O país rende-se-lhe, ouve-o, exulta com o tom de milagre no ar das boas novas que debita. A crise não existe, a dívida é uma ilusão, quem tem culpa é o governo. O Cagliostro de trazer-por-casa, o Rei da Ericeira, o novo pasteleiro do Madrigal continua, alarga-se a multidão de seguidores. Para mais, é de esquerda, cidadão empenhado, abaixo-assinante em tudo que envolva amanhãs cantantes, senador da esquerda revolucionária, defende um onírico "ministério da Felicidadetudo aquilo que faz pergaminhos e confirma brasão e título. O português, maioritariamente semita ou berbere, acredita em elixires, em sinais e presságios, curas milagrosas. É contra tudo e de tudo duvida, não ouve a razão, desdenha da clareza, mas se lhe surgir pela frente um António Conselheiro - e tantos têm sido os messias ao longo dos quarenta anos que levamos deste regime - transfigura-se, adere cegamente, não balbucia. O fim do mundo passou, e com o alívio do não cumprido armagedão, o falso Dom Sebastião é posto a descoberto. Seixas da Costa ainda protesta a presunção de inocência, outros descalçam as botas que ajudaram a fabricar para o novel marquês de Carabas. Mas para este caso não vai haver uma cela na Bastilha, uma galé ou uma carnificina no Paço da Ribeira. Isso era dantes. No paraíso da Dona Branca, de Vale e Azevedo, Alves dos Reis e Duarte Lima, permite-se que haja mágicos, conquanto seja apenas um de cada vez. Ao longo da vida todos temos conhecido a mais diversa casta de aldrabões, mentirosos e falsários aos pés dos quais são depostos os mais sonoros pachões e os mais cheirosos pivetes. Já o meu saudoso pai me advertia: "não te aproximes demasiado", "isto não é gente de confiança", "estão sempre prontos para todo o tipo de habilidades e, depois, paga quem foi ingénuo". É altura, caros leitores, de duvidarmos por princípio, duvidar sempre, até prova em contrário. Bom Natal no grande Rilhafoles em que se transformou Portugal !»








Adenda: O Miguel, de facto, diz o fundamental do enorme embuste que é a nossa vida mediática à qual bastou um pequeno episódio digno de circo de província para a casa vir abaixo (não vem porque não temos vergonha na cara). Por outro lado, é interessante - estou a ser benevolente por causa das tréguas natalícias - ver como os actuais magos da opinião que se publica e vê, mais encostada ao socratismo dos últimos dias e ao bota-abaixismo persistente em relação à "situação", se tentam desembaraçar do embaraço mediático provocado por um pantomimeiro qualquer que alegrou e certificou por magros dias as suas "certezas". Não se iludam. As nossas "elites" são mesmo assim - um híbrido sórdido entre o sistémico, o oportunismo puro e o lunar.

23.12.12

O mistério da cultura

No Público de hoje, domingo, Vasco Pulido Valente "vai-se" à cultura, parente paupérrima do OE e do PIB nacionais. Por um instante, no efémero governo Santana Lopes, a "Cultura" separou-se em bens culturais (no fundo, o património) e em actividades culturais (o cinema, o teatro, o bailado, a ópera, etc.), uma coisa que Pulido Valente defende. A primeira parte podia passar por praticamente todos os sectores governativos - em especial a Economia - e a segunda poderia ficar entregue a uma espécie de conselho geral das artes onde o Estado também teria assento. Há muito que escrevo que o Ministério da Cultura desapareceu em Julho de 2000 para dar lugar, com vagas intermitências, àquilo que Pulido Valente descreve. A qualificação, uma matéria, como agora se diz, "transversal", não pode ser sacrificada a título de alfinete de gravata aposto de vez em quando sobre "aquilo que interessa". Nem tão pouco podem lobbies lamurientos e mediáticos tomar a "cultura" por sua como se tudo, nesse sector, se reduzisse a uma área ou duas de interesses corporativos.

Ler outros

Vale a pena ir lendo o Paulo Gorjão. É um aliado crítico (não conheço, aliás, outra forma de o ser) do actual governo e enxerga para lá das nossas pobres fronteiras físicas e mentais. Nem sempre estamos de acordo mas isso só pode ser um bom sinal. Num universo comunicacional dominado pela redacção única e por uma fila de papagaios em efectividade de funções e em lista de espera, o que se lê e vê independentemente da plataforma de acesso torna o esforço da exigência, mesmo que minoritário, fundamental.

22.12.12

Afinidades e ignorâncias






«Quando Ratzinger foi eleito Papa, muita gente ficou alarmada, porque vivemos numa sociedade que está habituada a concursos de popularidade para escolher os seus líderes. Mas felizmente não é um concurso de misses, não ganha quem recebe mais chamadas de valor acrescentado, nem votos que resultam de premissas eleitorais com ciclos de quatro ou cinco anos. Antes de ser Papa, tal como João Paulo II, Ratzinger foi um pensador profundo, um dos maiores filósofos do nosso tempo. O Papa lançou o terceiro capítulo de uma trilogia sobre a Santíssima Trindade e os mais atentos iniciaram um longo período de reflexão. Entretanto, os jornalistas nacionais destacados para noticiar o lançamento sublinharam a ausência do burro e da vaca do presépio. No meio da imensidão de introspecções e pensamentos, foi o que lhes chamou mais à atenção. Não sei se foi propositado ou apenas por afinidade para com os animais.»


 


Forte Apache

Sem tom nem som

Por falar em Brasil, parece que respectiva Academia de Letras está mais empenhada do que nós em introduzir um módico de juízo no chamado "acordo ortográfico" que fomos a correr aplicar sem tom nem som.

Deslulização

«O mensalão brasileiro não fez grande notícia em Portugal nos últimos tempos, sobretudo porque colocaria em risco a beatificação de Lula. Mas deve dizer-se que o Brasil deu uma lição: condenou políticos, banqueiros, parapolíticos e afins – por corrupção. Mais: o tribunal retirou os passaportes e anunciou as penas de prisão a políticos no activo (que o partido no poder, entretanto, não quer cumprir uma vez que se trata de «uma ingerência do poder judiciário no poder legislativo», olha, olha). Houve provas, houve esclarecimentos, houve nomes, houve processo judicial. E ninguém apareceu a dizer «sim, o mensalão aconteceu mas eu não tenho provas». E nenhum «adiamento sucessivo até à prescrição» ganhou.»


 


Francisco José Viegas, A Origem das Espécies

21.12.12

Exemplar






Como aqui se escreveu na altura, «felizmente a justiça norte-americana não é como a nossa, mole e complacente. E todas as explicações do mundo jamais poderão afastar a realidade de um crime sem remissão.» Seabra foi condenado, em Nova Iorque, a um mínimo de 25 anos de prisão efectiva a perpétua pelo homicídio de Carlos Castro. Exemplar.

Grandeza

Melancolia


 


Estava a andar a pé, por acaso ao sol, à hora prevista para o fim do mundo. Aparentemente, como se constata pela circunstância de estar a escrever este post, o mundo não acabou. Coisa bem distinta é ter acabado, há muito, o mundo tal como o conhecíamos. Ou, mais adequadamente, como o conheci e me preparei para ele. Enquanto prosseguia esse não evento finalista, no parlamento português decorria o derradeiro debate quinzenal com o Governo. Trata-se de uma invenção cuja paternidade é atribuída a António José Seguro ainda nos idos do "kim-il-socratismo". À partida não se pode retirar mérito à "teoria". O pior tem sido a "prática". A proximidade entre debates banalizou-os e acentuou a irrelevância do exercício a não ser a benefício da estatística democrática. O país, suponho, ignora-os. Os deputados não ajudam. E a redução dos membros do Governo presentes a dois ou três ministros e a outros tantos secretários de Estado também não. O parlamento - que, nos termos da Constituição revista em 1982/83, juntamente com o primeiro-ministro, passou a ser o "centro" do nosso sistema político -, persiste em evidenciar-se perante a opinião pública como um lugar onde a conversa democrática se confunde despropositadamente com um ambiente de tagarelice, lérias, lamúrias e larachas (os termos são de M. M. Carrilho) a que o "povo" é alheio. Como se isto não bastasse, algumas comissões parlamentares "prolongam" aquele ambiente nos seus trabalhos. Recentemente uma delas ouviu cerca de meia dúzia de pessoas por causa de umas imagens que terão sido cedidas às autoridades policiais. Resultado? Um relatório? Recomendações? Não. Um processo disciplinar a um dos depoentes e a suspensão da sua relação laboral com a empresa respectiva por causa do que esteve a dizer na comissão. E uns quantos putativos procedimentos judiciais contra outros depoentes pela mesma razão. Não, não é o fim do mundo. Mas já estivemos mais longe disso.

20.12.12

O tempo, esse grande escultor

«Tempo para pararmos um pouco, olharmos à nossa volta e reflectirmos sobre aquilo que fizemos, aquilo que deixamos de fazer, aquilo que não devíamos ter feito e aquilo que podíamos ter feito melhor.»


 


Cavaco Silva, 20.12.12

«Polo»




¡Ay! Guardo una, ¡Ay!  Guardo una, ¡Ay!  ¡Guardo una pena en mi pecho,  ¡Guardo una pena en mi pecho, ¡Ay!  Que a nadie se la diré!   Malhaya el amor, malhaya,  Malhaya el amor, malhaya,  ¡Ay!  ¡Y quien me lo dió a entender!  ¡Ay!

Os idos de Junho de 2011

Por motivos óbvios, não é este o momento de escrever ou de dizer publicamente o que quer que seja sobre a RTP (a neutralidade verbal é propositada e deve ser lida a título de plural majestático). Todavia recordava-me de, após as eleições de 2011, ter dito aqui qualquer coisa sobre o assunto. Foi a 13 de Junho de 2011.

A Europa do esquecimento




Quando daqui a muitos anos alguém fizer a história da crise europeia, um dos registos que sobreviverá à erosão do tempo será o livro de poemas de Hélia Correia, A Terceira Miséria (Relógio D'Água, 2012). Os poetas dizem as coisas improváveis, mas essenciais. Conheci este livro pela mão de Maria de Sousa, uma cientista com quem o País contraiu uma dívida que jamais poderá saldar. Como tudo o que é fundamental, o verdadeiro conhecimento, seja científico ou poético, está para além da "esfera de transacções". Hélia Correia fala-nos da Grécia e da Alemanha. Do país onde amanheceu o Ocidente. E do país que, no último século, parece condenado à maldição de conduzir a Europa à sucessiva encenação do seu crepúsculo. A poetisa convoca Hölderlin, Nietzsche, a II Guerra Mundial, mas canta-nos sobretudo a espessa vitória do esquecimento sobre essa memória que é a nossa única linha de defesa contra a repetição da barbárie. Era contra o esquecimento que os cadetes de West Point aprendiam de cor a Ilíada de Homero. No gutural grego arcaico. Pois, a verdade da guerra não é estratégica, mas moral. Uma mistura de fúria, desmesura, piedade e coragem. Dentro de anos, talvez ninguém se lembre de um só dos nomes dos líderes que, embriagados por amnésia, conduzem a Europa para o colapso. Em Janeiro de 1939, quando os políticos ainda festejavam a Paz de Munique, o poeta W. H. Auden escrevia: "No pesadelo da escuridão/ Todos os cães da Europa ladram/ E todas as nações vivas esperam/ Sequestradas no seu ódio." Em Dezembro de 2012, esperamos, presos num labirinto de dívida, arrogância e medo. Sem saber se ainda haverá um fio de Ariadne que nos salve desse Minotauro, que deixámos irromper no lugar onde deveríamos proteger a esperança.»


 


Viriato Soromenho-Marques, DN




Tentar perceber



E não é que o embotado Rosas conseguiu escrever um bom ensaio histórico que vivamente recomendo?

19.12.12

O ponto de vista da cegueira

A saison, não o horrível natal, vai "animada" com uma sucessão de demissões. Do director de informação de um operador televisivo a um director-geral de outro, de um inspector-geral passando pela administração da Casa da Música e por um administrador executivo da CGD, constato que nem todos os que pedem a demissão a deviam ter pedido ao mesmo tempo que alguns que a deviam pedir o não fazem. O pensamento que calcula, para recorrer à expressão de Heidegger, pesa mais que qualquer outro pensamento nos tempos que correm. Muitas vezes, nem sequer vale a pena falar em pensamento para não ofender o conceito. A ver vamos como dizia o cego.

Homens com qualidades






«A necessidade de se partir de uma concepção moderna e arejada daquilo que se entende por Humanidades, a crise que tem levado ao apagamento das disciplinas correspondentes no ensino secundário e no universitário, o papel que elas podem ter na cidadania activa e na preservação dos valores identitários, a evolução histórica do conceito que lhes corresponde, mais outros temas afins, como os do cânone literário, do ensino da literatura e da presença dos grandes autores na escola, ou o das políticas da língua, são objecto dos ensaios contidos neste livro [As Humanidades, os Estudos Culturais, o Ensino da Literatura e a Política da Língua Portuguesa, Almedina, 2010*], testemunhando de uma coerência de décadas no pensamento e no magistério do autor [Vítor Aguiar e Silva]. Propondo uma reflexão amplamente documentada e aberta à problemática contemporânea, Aguiar e Silva mostra como o pós-modernismo, na lógica cultural do capitalismo tardio, vem determinando uma empresarialização da universidade e levando ao abandono progressivo de valores e saberes que decorrem das Humanidades, dos "studia humanitatis e litterae humaniores, de uso plurissecular, designando nomeadamente os seguintes campos disciplinares: línguas e literaturas clássicas; línguas e literaturas modernas; filologia; linguística; retórica; poética, história e crítica literárias e literatura comparada; filosofia, desde a filosofia moral à filosofia política, e história, em especial a história da arte, a história das ideias e a história da cultura" (doc. cit.). Este riquíssimo núcleo de áreas disciplinares relaciona-se com o objecto de outras designações (ciências humanas, ciências do espírito, ciências sociais), mas o conceito de Humanidades tem, como Aguiar e Silva também escreve, "uma densidade memorial e histórica que é uma herança irrenunciável". A reabilitação e revalorização das Humanidades não deveriam levar a nostalgias passadistas em confronto com as transformações da sociedade, mas a persuadir todos os interessados de que, sem elas e sem a sua capacidade de integrar equilibradamente herança cultural e a modernidade, o nosso conhecimento do mundo fica irremediavelmente desumanizado e prejudicado. E nós também. Combater a crise hoje em dia implica ter tudo isto presente e pô-lo em prática sem demora.»


 


Vasco Graça Moura, DN


 


* anterior à praga acordográfica que assolou a Almedina

18.12.12

"O meio é a mensagem"


 


«“Os Superficiais” é um passeio fascinante pelas alterações que as novas tecnologias estão a introduzir na nossa mente (e também no nosso comportamento emocional). A obra assenta em dois pilares fundamentais: na neuroplasticidade (o cérebro individual não é uma estrutura de betão e “educa-se” ao longo da vida com a experiência) e na famosa convicção de McLuhan: “O meio é a mensagem”.»


 


Ana Cristina Leonardo, Meditação na Pastelaria


 


Adenda: Suponho que este livro seja indispensável para comunicadores "profissionais" que enchem as redes ditas sociais de textos e subtextos. E para umas quantas pobres cabeças (de betão?) que esses "profissionais" enchem ora de vento ora de meia dúzia de "factos" e de "verdades" que o referido McLuhan designava apropriadamente por "massagens" (embora não enxergue, por exemplo, como se "massajam" inermes blocos de betão). Um mundo dominado por "superficiais"  - o género mais perigoso, de tão untuosamente pesado que é, em circulação - é que é um assustador fim dele. Do mundo.

A falácia bicéfala

«Quando Semedo parte de uma premissa errada, nomeadamente a de que o défice está a subir quando este está efectivamente a baixar, é normal que chegue a conclusões não condizentes com a realidade.»

Em boas mãos






Aqui.

17.12.12

Não causar dano aos mais pobres






«O obreiro da paz deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Ora, há que considerar que estes direitos e deveres são fundamentais para a plena realização de outros, a começar pelos direitos civis e políticos. E, entre os direitos e deveres sociais actualmente mais ameaçados, conta-se o direito ao trabalho. Isto é devido ao facto, que se verifica cada vez mais, de o trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não serem adequadamente valorizados, porque o crescimento económico dependeria sobretudo da liberdade total dos mercados. Assim o trabalho é considerado uma variável dependente dos mecanismos económicos e financeiros. A propósito disto, volto a afirmar que não só a dignidade do homem mas também razões económicas, sociais e políticas exigem que se continue « a perseguir como prioritário o objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manutenção ».  Para se realizar este ambicioso objectivo, é condição preliminar uma renovada apreciação do trabalho, fundada em princípios éticos e valores espirituais, que revigore a sua concepção como bem fundamental para a pessoa, a família, a sociedade. A um tal bem corresponde um dever e um direito, que exigem novas e ousadas políticas de trabalho para todos. (...) Para sair da crise financeira e económica actual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico. O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa óptica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspectiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom.  Concretamente na actividade económica, o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes e os usuários. Ele exerce a actividade económica para o bem comum, vive o seu compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as gerações presentes e futuras. Deste modo sente-se a trabalhar não só para si mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos. No âmbito económico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de modo que não causem dano aos mais pobres.»


 


Bento XVI

16.12.12

O pivot

Há dias, mais adequadamente há umas noites atrás, tive a infelicidade de passar pela "quadratura do círculo", da sicn. Durante o "socratismo", esse programa, apesar de tudo, distinguia-se pela relativa clareza das posições. Costa era um brilhante "ideólogo" da coisa, Pacheco e Xavier, com as intermitências exigidas pelo taticismo maoísta empedernido de um e pelas "declarações de interesse" do outro, encarregavam-se de "denunciar" a maleita. Com o advento da actual maioria, a "quadratura" passou a ser um programa paradoxal (ou talvez não) de comentarismo tudológico no qual há uma espécie de "centro de mesa" em forma humana (C. Andrade) e três pessoas sensivelmente com a mesma opinião sobre a "actualidade", em particular a que diz respeito ao actual governo. O menos "oposicionista" é, imagine-se, António Costa apenas porque é do "meio", enquanto os outros dois são sobretudo do "meio" de cada um. O derradeiro programa foi um espectáculo deprimente de exaltação do ego desse fantástico intelectual orgânico dele próprio que é o José Pacheco Pereira, o verdadeiro pivot da traquitana. Noutro palco, o pivot também exibe esta sua vocação absolutista - Pacheco deve odiar o pragmatismo filosófico norte-americano porque apenas aceita conversas alternativas que sejam suas - ao escrever semanalmente no Público, num estilo torrencial e em mau português, contra situações ou pessoas que presumivelmente se estão nas tintas para a sua vaidade solipsista e incomensurável. O mandarinato dele começa e termina na sua extraordinária pessoa. Devia acabar, com propósito, os livros (em geral bons) que anda a escrever e deixar-se de tagarelices ensimesmadas e nulas. Vem isto a propósito do que Vasco Pulido Valente diz no mesmo Público sobre a derradeira "quadratura". «Pacheco Pereira, por indignação ou ressentimento, voltou aos seus tempos de esquerdista, lá veio com a velha conversa de que na essência a caridade humilhava quem a recebia; e que o Estado, prestando um serviço, se limitava a responder a um direito legal do cidadão (...) A Quadratura do Círculo irritou muito boa gente. Confesso que me irritou a mim.» A mim também.

15.12.12

Borodina


 


A última vez que vi cantar Olga Borodina foi na Ópera da Bastilha. Era então a princesa Eboli no Don Carlo de Verdi. Esta tarde, em Nova Iorque e ao princípio da noite em Lisboa, em directo na Gulbenkian, Borodina foi Amneris, a despeitada filha do Faraó que o "herói" Radamés troca pela não menos princesa - só que etíope -, escrava da outra, a famosa Aida. Como escreve Jorge Calado no Expresso, não era possível juntar agora elenco melhor. Verdi interessou-se pela política. Muitas das suas óperas são sobre o poder que é a coisa mais próxima de outras inclinações "humanas" como o amor ou a paixão. E como a vida imita a arte (O. Wilde), Verdi acabou por ser um dos grandes inspiradores da unificação italiana e as suas óperas são bem mais "realistas" que as referidas paixões "humanas". Para além disso, e como me dizia alguém na Gulbenkian, esta ainda é uma ilha no meio da ignorância, da má-fé e das lérias domésticas. Ou seja, um lugar frequentável com gente frequentável. Honra e glória a Verdi.

14.12.12

Gostar de nós






Nem tudo é péssimo, de facto.

Brandamente


 


Li ontem no editorial do Público que um grupo privado do Facebook, destinado a trabalhadores do Hospital de Braga, é supostamente vigiado por ordem da administração que terá destacado "uma funcionária com a incumbência de verificar se o que ali é dito pode, de algum modo, pôr em causa a imagem do hospital". Não do trabalho do hospital enquanto unidade institucional do SNS que presta cuidados de saúde aos cidadãos, mas apenas para "controlar o que dizem os próprios trabalhadores sobre o hospital". Adianta o editorial que a coisa "conduziu já a um processo disciplinar a uma funcionária que criticou um regulamento interno, chamando "burros" e "incompetentes" aos seus autores". O editorial pergunta, no fim e bem, se "não é assim que começam, brandamente, todas as censuras". Começam e acabam, normalmente às mãos de burros e incompetentes. É só consultar um livrinho básico de história.

13.12.12

Caridade

É ter paciência para estar a ver e ouvir três pessoas, aparentemente com as respectivas cabeças ainda em cima dos ombros, a discutir em formato literal "quadratura do círculo" a semântica de Isabel Jonet. Para além de empobrecer, também estamos todos a endoidecer?

O oxímoro fundamental

Portugal é um país contraditório, injusto, desigual e complexo, naquele sentido que lhe atribuía Vitorino Magalhães Godinho, esse grande descritor da nossa história económica e de mentalidades. A mesma sociedade que exibe isto, também tem disto.

Estados gerais e barulhos


 


A meio de Setembro último recomendei a partir daqui a realização de uma espécie de "estados gerais" da maioria. Em vez disso, a maioria tem optado por atomizar o debate, seja sob a forma dos órgãos institucionais de cada um dos partidos que a integram, seja através de declarações avulsas de membros qualificados do PSD e do CDS. Não creio que a via do "recadismo" simples ou da ambiguidade calculista constituam propriamente um debate político. Quando muito servem para emitir barulhos mas, como se aprende em qualquer livro de filosofia da linguagem, barulhos famosamente não são linguagem (na circunstância, política) e só servem para o propósito que denotam - fazer barulho. O país merece mais e precisa de melhor. Por isso repito o que escrevi em Setembro. Esta maioria democrática não é apologista do pensamento único. Encontrar-se consigo mesma, encontrar-se com o país e encontrar-se com alguns daqueles que, das esquerdas e das direitas ou independentes sem partido, possuem pensamento próprio, só pode fazer bem à coligação e ao governo. A maioria, parafraseando Harold Bloom, precisa libertar-se do jargão.

12.12.12

A tentação kimica



Leio aqui que a Coreia do Norte disparou um míssil de longo alcance. Há tentações que nunca se perdem.

Uma causa determinante






«Os ministros da Economia de Portugal, Espanha, Alemanha, França e Itália assinaram uma carta aberta para relançar o crescimento económico através da reindustrialização. Álvaro Santos Pereira e os seus pares consideram que o sucesso futuro da Europa depende de um modelo de crescimento sustentável e diversificado onde a indústria desempenhe um papel fundamental. Portugal, como os demais países europeus, tem vindo a perder terreno na área industrial. Em 1986, quando o País entrou para a CEE, a indústria representava 32% do PIB, o que compara com os cerca de 27% actuais. Os ministros dizem mesmo que a produção industrial na Europa está 10% abaixo dos níveis pré-crise e que se perderam três milhões de empregos. Álvaro Santos Pereira renasceu e encontrou o seu caminho, protagonizando o alinhamento europeu de Portugal numa causa determinante.»




Diário Económico

11.12.12

Galina Vishnevskaya (1926-2012)

Manoel, a visão total


 


Nesse dia frio de Janeiro de 1986, meti-me cedo num comboio para o Porto e a meio da tarde estava sentado numa sala da sua casa a "entrevistar" Manoel de Oliveira. O João Amaral e o Semanário de Cunha Rego "mandaram-me" lá. Ia aparecer o Soulier de Satin, baseado na obra homónima de Claudel. Falámos longamente, rodeados pelas fotografias da família. Encontrámo-nos, de novo, num outro comboio, cerca de três anos depois. Eu vinha de Guimarães e ele entrou em Gaia. Recordei-lhe a entrevista. Estávamos praticamente sozinhos na carruagem de 1ª classe da CP pré-Alfa Pendular. Jovial, amável, conversador, sem afectações. De lá para cá, envelheci muito mais do que ele jamais envelhecerá e o mundo em que o situava desapareceu-me debaixo dos pés. Eduardo Prado Coelho, sobre Manoel, em A Mecânica dos Fluídos. «Como sabem, a gama de cor é enorme e o que é visível é muito pequeno. Para a nossa vista o que está aquém dos raios vermelhos já não se vê e o que está para além dos raios violetas também já se não vê. Se nós tivéssemos uma visão total, talvez que pudéssemos ver a alma...» É nesse labirinto luminoso da alma que o cinema de Manoel de Oliveira viaja. Os brutos acham-no "parado", uma vulgaridade sem tom nem som. O ironista Manoel, no dia do seu aniversário, como se deve rir deles. Parabéns.

10.12.12

Coisas que interessam

«While the European Union remains a major industrial power, three million industrial jobs have been lost since 2008, and industrial production is 10% below pre-crisis levels. Our future success depends on having a strong, diversified and sustainable growth model, one in which industry plays a key role as a major source of job creation, investment, innovation and human capital. A strong, renewed and modernized industrial base will allow the real economy to lead Europe's recovery. In our countries we have some good starting points. There are several sectors in which Europe is a world leader. However, we need a larger share of competitive companies that are able to operate in a wider range of sectors within an open and increasingly internationalized environment. It is up to our students, researchers, workers and entrepreneurs to innovate and take a leading role in this transition. But public authorities also have the responsibility to adopt measures to strengthen our companies and the business environment in which they operate. We have to address these major challenges both at the national and European levels. There are several fronts: promoting structural reforms, ensuring that regulation is enacted in a way that supports competitiveness, and deploying an industrial policy able to strengthen our industrial foundations and remove our main imbalances.»


 


 



Mr. Soria is Spain's minister of industry, energy and tourism. Mr. Pereira is Portugal's minister of economy and employment. Mr. Passera is Italy's minister of economic development. Mr. Montebourg is France's minister of industrial renewal. Mr. Rösler is Germany's minister of economics and technology.


 


Adenda: Os meus amigos do 4ª República terão lido esta cartinha? Não estou habituado a vê-los alinhados pelo lugar-comum e pela doxa.

O Francisco de volta






«Podemos livrar-nos dos erros do Acordo.»

Por cá

Malgré tout, há coisas que avançam. O Rui Calafate dá nota de uma delas. E, por exemplo, aqui  dá-se nota de outra.

"Europa", a coisa intraduzível


 


O Nobel da Paz é entregue, em Oslo, ao extraordinário trio institucional que dirige a "Europa", a saber, o presidente da Comissão, o presidente do Conselho e o presidente do Parlamento. Assistem ao evento alguns dirigentes europeus e canta uma banda portuguesa cujo nome não retive. A "Europa" recebe o prémio alegadamente por causa da pax europaea e pelo que representa para ela própria, em especial, e para o mundo, em geral enquanto "comunidade" política e económica. Isto acontece no princípio de uma semana em que um dos países mais ricos e industrializados dessa "comunidade, a Itália, ameaça voltar à instabilidade e à incerteza depois de Monti anunciar uma putativa saída e Berlusconi revelar um putativo regresso. E acontece quando a "ideia de Europa" não podia andar mais nas ruas da amargura. Os famosos mercados, aliás, já começaram a balir. Mais do que a tal banda lusa, o que seria mais adequado ouvir em Oslo seria um fado. Porque "fado" não tem tradução em mais nenhuma língua e a Europa, hoje, é isso mesmo: uma coisa intraduzível.

9.12.12

Tratamento exemplar

O advogado Magalhães e Silva, no Correio da Manhã, escreve que é preciso ter "coragem de proibir a publicação de factos em segredo de justiça e cominar prisão efectiva para quem o fizer.» E remata: «verão como acabam logo as violações do segredo de justiça.» Tem toda a razão.


 

8.12.12

A mais bela ária sobre a dor de corno da história da ópera

Um baile de máscaras


 


O que se passou com Henrique Medina Carreira é revelador. E só é revelador porque se tratou de Medina Carreira e não de um "john doe" qualquer. Essa nuance permitiu trazer à superfície o pior da nossa sociedade - ela mesma, a sua "justiça" e a sua trituradora mediática. Um "nome de código" chegou para montar um número de circo e enxovalhar uma pessoa. A quantos anónimos não acontecerá o mesmo sem que jamais venhamos a saber o que realmente lhes aconteceu? Uma comunidade não pode ser capturada pelo medo, pela bufaria, pelos cobardes ou pela complacência néscia ou dolosa das "instituições". Porque se assim for deixa de ser uma comunidade e não passará nunca de um miserável ajuntamento de biltres.


 


 


Adenda: E agora vou para a Gulbenkian assistir ao Baile de Máscaras do Verdi em directo de Nova Iorque. Até vem a propósito, sem ofensa para o Mestre italiano.

7.12.12

Soares menino e moço

 



 






«O principal para que o Governo tenha êxito é saber persistir. Ter a coragem de não mudar de rumo, independentemente dos acidentes de percurso. Recomeçar, pacientemente, quantas vezes forem necessárias. Tomar decisões. Não se deixar perturbar por agressões verbais, por incompreensões ou por injustiças. Aguentar de pé. Para os homens de convicção e de recta consciência, o que conta é sempre - e só - o futuro.»


Mário Soares, Primeiro-Ministro, 15 de Maio de 1984 (in A Árvore e a Floresta, Perspectivas & Realidades, 1984)



Parabéns!

Liberdade de acção

Estava a observar o programa Prova dos 9, na tvi24, e constatei a boa disposição ironista do Medeiros Ferreira que muita alegria me deu. Aprendi com o Medeiros, há mais de trinta anos, o valor da liberdade de acção na política. Mesmo no descaso de um ou outro desencontro contingente, essa "lição" foi para a vida. Reivindico-a tanto para os outros como para mim próprio.

6.12.12

Resistência e aliados






«M. Rajoy, com o apoio florentino de Mario Monti e a cumplicidade de François Hollande, tem conseguido até agora resistir e abrir outras vias para responder às dificuldades de Espanha, tendo entretanto obtido da Comissão Europeia um empréstimo de 37 mil milhões para reestruturar o sector bancário, com juros a 1%, enquanto (é bom lembrá-lo) nós quase pagamos quase 4%! Mas o horizonte continua muito carregado. Resistir é talvez o termo que melhor caracteriza o estado de alma que está a generalizar-se nos povos do Sul da Europa, onde toda a gente já percebeu que nos últimos dois anos a Alemanha tem seguido uma política estritamente nacional, e que o fez e continua a fazer colando-se cinicamente aos mercados, transformando as contingências do momento em necessidades estruturais da sua conveniência - assim se impondo cada vez mais a toda a Europa. Ironia do destino ou erro de estratégia, o facto é que o euro, que foi criado para controlar uma assustadora Alemanha reunificada, se transformou entretanto no instrumento da hegemonia alemã, perante a cegueira, a indolência e a irresponsabilidade dos seus parceiros, que a História julgará severamente. Pressinto, por isso, que há palavras que vão aparecer cada vez mais no nosso vocabulário corrente: "resistência" é certamente uma delas, "aliados" será talvez a outra. E a sua conjunção devia, por si só, fazer pensar muita gente que anda muito distraída. Gente que ainda não percebeu que a própria Europa está a tornar-se - mais do qualquer das clivagens políticas tradicionais - no tópico político mais fracturante nos países da União Europeia.»


 


M. M. Carrilho, DN

A grande costura da tristeza





Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores

triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola

(...)

triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona
a tarde triste os anos tristes

a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre

triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura do córtex cerebral






Fernando Assis Pacheco

A seguir


 


Muito antes de Obama e da torrente de deslumbrados que arrastou por esse mundo fora, sempre me pareceu que Hillary Clinton daria uma liderança mais austera e, simultaneamente, mais "terrena". Com os Republicanos cada vez nas mãos de algum fanatismo inconsequente, talvez o mundo, em 2016, precise da sensatez e da intuição da Secretária de Estado norte-americana de saída. A seguir.

5.12.12

"Nós não podemos desistir"






«Portugal deve continuar a defender os seus interesses junto dos parceiros europeus utilizando os seus melhores argumentos (...). A vida na União Europeia é uma negociação permanente e eu sei isso por experiencia própria, as negociações são às vezes muito, muito difíceis, mas nós não podemos desistir.»

Grandeza


 


José Carreras, Verdi, Aida. 1979, ao vivo com Karajan. Celebra hoje 66 anos de idade. Como disse uma vez João de Freitas Branco, a voz mais naturalmente bonita, enquanto tenor, dos últimos tempos.

Benite


 


Ia escrever sobre Joaquim Benite mas o Medeiros antecipou-se: «solidário, enérgico e solar». O teatro português das últimas décadas não pode ser "contado" sem ele. Muito menos o Festival de Almada que dali irradiava para outros lugares. Trocámos algumas palavras sobre o "estado da arte" na cultura aquando de um desses Festivais, já vai para três anos, numa conferência de Manuel Maria Carrilho que decorreu na maravilhosa Casa da Cerca, na zona velha de Almada, com uma vista deslumbrante do skyline de Lisboa. A última vez que o vi foi na estreia de O Mercador de Veneza, encenado pelo Ricardo Pais, este verão. Estava, de facto, muito doente mas, como refere o Medeiros, enérgico e solar. Tudo o que a cultura precisa estava ali, nessa corajosa energia e nessa empatia com o que nos rodeia que Joaquim Benite tão bem intuía. Afinal tudo o que a cultura não tem enredada como anda em comadrice intimista e velhacaria simplificada. Como quase tudo o mais, aliás.

4.12.12

O ouriço


 


Como é que alguém com as responsabilidades históricas e cívicas de Mário Soares pode escrever "tomara que fôssemos a Grécia"? Se ele se estivesse a referir à Grécia antiga, concordava. Mas a Grécia de Arquíloco há muito que desapareceu. Só não desapareceu a prosa dos seus versos, designadamente aquele famoso - a raposa sabe muitas coisas mas o ouriço sabe uma coisa muito importante. Leia, Dr. Soares, que é coisa que gosta e faz sempre bem.

2.12.12

Os avoengos de 1979


 


Acompanho o Pedro Santana Lopes nesta evocação da vitória da Aliança Democrática - the one and only - de 2 de Dezembro de 1979. A AD juntava o PSD, o CDS, o PPM, os Reformadores e outros independentes nas eleições legislativas intercalares convocadas por Eanes na sequência do fracasso dos governos ditos de iniciativa presidencial. Em apenas cinco anos, a Direita "legalizava-se" perante a revolução e com maioria absoluta. Durou praticamente o tempo de vida que restava a Sá Carneiro. Acompanhei o momento no Hotel Altis. Valia a pena o empenho político (aos dezanove anos tudo vale a pena)  porque os envolvidos eram de valia. Entrei nisso tudo pela mão do Medeiros Ferreira que é um dos espíritos mais livres da vida pública nacional. Quem nasceu "nisto", dentro destes inverosímeis trinta e dois anos de regime, dificilmente poderá perceber o simbolismo daquela tão já longínqua noite. Sá Carneiro venceu por ruptura. Em 1979 isso parecia uma missão impossível, isto é, a Direita alternar no governo com a Esquerda quando o poder ainda era amplamente dominado pela tropa. A vida política de Sá Carneiro nunca foi um cortejo de felicidade ou de previsibilidade. Até 2 de Dezembro de 1979, poucas vezes foi levado a sério dentro e fora do seu partido. E daí até ao seu trágico desaparecimento, nada foi fácil. Pressentiu sempre que morreria cedo - pathos e hubris, hubris e pathos, inseparáveis. O que teria sido a vida política portuguesa com ele, dentro ou fora dela, saíndo e entrando, separando e unindo, permanecerá para sempre uma incógnita. O ano que aí vem será seguramente um dos mais tremendos do regime e decerto não haverá lugar para quaisquer voluntarismos amadores e estéreis. Oxalá a Direita de hoje saiba, então, estar à altura dos ilustres avoengos de 1979.

O funil

O Pedro Mexia também fez anos. Apenas quarenta. Suscitou-lhe um belo artigo, escrito em excelente português, no suplemento Actual do Expresso. Imagino o que dirá nos cinquenta. Por causa destes, dos cinquenta, Vasco Pulido Valente aludiu, na altura dos dele, à "teoria do funil". Satisfaz-me bastante a imagem do funil para explicar o decurso do tempo. Não o que vem prevenido nos códigos e que produz efeitos jurídicos, mas o outro, o que mais importa, a vida. Mexia, sem o referir, descreve perfeitamente a coisa. «Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar.» Parabéns.

1.12.12

Cunhal, a elegância na derrota



Está a decorrer um congresso do PCP. O PC é um partido previsível pelo que a sua versão dos dias que correm interessa-me pouco. A ocasião, todavia, serve igualmente para abrir as comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. E isso já me interessa. Cunhal confunde-se com a biografia política do país no século XX, à semelhança de Salazar. Soares é um fenómeno mais tardio e trivial. Há milhares de Soares por esse mundo fora mas apenas um Cunhal e um Salazar. Soares vê a democracia como Proust descreve a nostalgia permanente de uma "madeleine" de infância: está-lhe "na massa". Cunhal "aceitou" a democracia e fez do PC o partido mais respeitador dos seus rituais, das suas normas. Mesmo na rua, o PC é a válvula de segurança das instituições, demarcando-se metodicamente, desde Novembro de 1975, de tudo o que possa perturbar, escandalosa ou violentamente, os "equilíbrios" formais do regime. Aos poucos isolou-se e travou mitologias em seu redor mesmo quando o forçavam a falar de si. O "colectivo" era a sua maneira de dizer "eu" embora, aqui ou ali, sobretudo nas derradeiras aparições em entrevistas, deixasse transparecer o homem, o pai e o avõ. "Despersonalizo, portanto...", diria a Maria João Avillez naquele que é porventura o melhor livro da jornalista e que recolhe as suas "conversas com Álvaro Cunhal". "Eu não adivinho, batalho", "eu não alimento nada, tenho apenas a minha maneira de viver" são afirmações que o balizam. De alguma maneira, Cunhal poderá ter-se tornado incompreensível à luz dos "valores" vigentes. O "modelo político" triunfante um pouco por todo o lado representa tudo o que Cunhal intelectual e intimamente desprezava. Não aludo a questões puramente ideológicas mas a coisas mais profundas que se prendem com a própria "natureza" humana. Cunhal era demasiado elegante para poder suportar a ascensão planetária da vulgaridade pequeno-burguesa sem um sorriso malicioso e, sem dúvida, amargo como revela Avillez. «Era o último encontro, mas eu não sabia. A derradeira vez que eu via aquele homem doente («eu estou a ver muito mal, não vale a pena mostrar-me isso, não vejo, não consigo ver...») que durante quase trinta anos me fez sempre partir com precipitação e os sentidos alerta para um segundo andar da avenida António de Serpa e, depois, para um gabinete descarnado e nu da rua Soeiro Pereira Gomes. Um homem envelhecido que agora sorria mais tristemente, agarrado à sua "convicção" («sim, a cinvicção foi e é, fundamentalmente, o segredo da resistência e dos combates».) E se eu disser a palavra "derrota"?, perguntei-lhe subitamente nesse dia, mas quase a medo, diante do gravador ainda ligado (e detestando-me por selar aquela longa conversa com uma única palavra que, afinal, lhe cabia por inteiro): Uma derrota ... "amarga", Dr. Cunhal? «Amarga é uma palavra muito pequenina para o que foi.»