30.6.14

Como uma barra de ferro


 


"O governo está coeso e sólido como sempre esteve", disse o dr. Lima da Economia. O que sempre esteve e está no "estado" aludido pelo ministro, só necessitaria desta "confirmação" se não estivesse. A menos que Lima seja dado à ironia enquanto arte de pôr em causa tal como a definia a filosofia antiga. Não tem todavia cara (nem cabeça) para para estas subtilezas.

29.6.14

E é esta mesma gente que nos pede agora confiança?

 



 


 


 


«Depois da derrota de Sócrates, nunca mais no PS se falou do que o partido e o seu primeiro-ministro tinham feito com a sua maioria absoluta. Não se falou da “obra”, nem do “programa” (admitindo que existia um), nem dos métodos do “animal selvagem”, que várias vezes roçaram o intolerável. O governo de Sócrates desapareceu do universo mental dos socialistas. Ninguém o criticou, quando ele era todo-poderoso, ninguém abriu a boca a seguir para lhe encontrar o menor defeito. Parece que Sócrates mostrara uma grande vontade “reformadora” e que a crise financeira fora exclusivamente provocada pela crise internacional. No homem, ele próprio, não se podia tocar, tanto mais que ele com a sua conhecida modéstia se recolhera a Paris para escrever uma tese sobre, calculem, filosofia política. O pretexto para esta extraordinária abstenção estava como sempre na necessidade de garantir a unidade do partido e de lhe conservar um resto de prestígio. Não se conhece um exame tranquilo e sério dos quatro anos de Sócrates. Tirando um ou outro comentário vaguíssimo na televisão, António Costa não disse nada, António José Seguro também não e as personagens menores ficaram caladas como lhes competia. Ou seja, os socialistas não “arrumaram” o passado, como pretenderam, mas mais trivialmente “esconderam” um passado, que os comprometia, do eleitorado e do país. Agora, com as querelas domésticas do PS prometem participar ao público o que na realidade pensam, confessando de caminho que durante anos não hesitaram em enganar toda a gente por interesses de facção. Isto merece um comentário. Se os políticos – do PS, do CDS ou do PSD – não vêem qualquer objecção moral em governar à revelia dos portugueses, para que serve o regime democrático por aí tão gabado? O cidadão comum soube da corrida para a bancarrota, que começou com Guterres (ou até com Cavaco)? Soube do extravagante crescimento da dívida (interna e externa, soberana e particular)? Soube da carga que inevitavelmente cairia sobre ele, quando chegasse a altura de “ajustar” as coisas? E percebe a irresponsabilidade com que o conduziam para um poço sem fundo? De maneira nenhuma: sem informação, distraído pelas zaragatas da “classe dirigente”, viveu tranquilamente a sua vida, como se a “festa” fosse durar sempre. E é esta mesma gente que, no PS e fora dele, nos pede agora confiança?»


 


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


Adenda: Depois da frioleira dos "fundadores", há-de chegar o momento dos "intelectuais" (sempre atentos, venerandos e obrigados quando farejam poder ou proximidade ao dito), dos "sindicalistas", dos "empreendedores progressistas", dos "jovens", dos menos jovens e os da meia-idade. Porquê? Porque contrariamente a Seguro - que passou despercebido no último governo de Guterres -, Costa anda pelo poder executivo, central e autárquico, vai para 20 anos. Foi membro proeminente dos governos de Guterres e Sócrates. No da maioria absoluta de 2005, era o "número dois" com um estatuto majestático que exigiu para regressar de Bruxelas onde estava desde as europeias do ano anterior. Depois  fartou-se e já vai no terceiro mandato como presidente da CML. Pelo meio dirigiu a campanha presidencial de Sampaio, em 1995-1996, e foi líder parlamentar do PS com Ferro Rodrigues. Isto tudo somado gera um longo cortejo de dependências, de apascentados e de cumplicidades que emergem "naturalmente", dentro e fora do PS, ao lado de Costa. Este "aparelho" construído a partir do poder é infinitamente mais perverso e eficaz do que qualquer "aparelho" partidário em si mesmo. Seguro até pode "dominar" circunstancialmente o do partido mas não pode "competir" com os "donos" e com os "servos" do regime. Costa não se distingue de Seguro pelas "ideias": uns vagos dias antes das europeias que Seguro ganhou, falou abundantemente na convenção do PS na qual foi apresentado um "programa de governo". Aliás, até agora não murmurou uma fora dos lugares-comuns que debita semanalmente ao lado de Pacheco e Xavier. Só que isso não interessa nada como explica a crónica de Vasco Pulido Valente. "E é esta mesma gente que, no PS e fora dele, nos pede agora confiança?"

27.6.14

As escadas de Costa


 


Não entendo por que é que António José Seguro insiste em trazer António Costa a debates. Não porque a coisa, os debates, não fossem eventualmente mais interessantes que uns empurrões, uns mails ou o fatal César. Não. Costa recusa-se a debates uma vez que o seu lance napoleónico-cartesiano assenta precisamente numa espécie de "tomada de assalto", sem direito a contraditório, com base no primado da primeira pessoa. Apesar de encher a boca de "ética republicana", Costa não passa prudentemente daí, de encher a boca. Por outro lado, com os media generalistas e não generalistas e os comentadores por natureza generalistas ao seu serviço, ao edil lisboeta basta-lhe aparecer no seu "espaço" de comentário televisivo semanal. E, mesmo aí, pode estar calado porque os outros dois debitam por ele. Se levasse a "ética republicana" a sério, Costa aceitava os debates e suspendia a sua participação na sicn. Mas, como dizia a outra, quem tem ética passa fome. Pelos vistos as escadas, para Costa, não têm degraus.

A bater bolas


 


Por esta hora, os "carregadores" dos "sonhos e da esperança" dos portugueses estão a fazer os malotes. O "melhor jogador do mundo" - também conhecido pelos penteados originais, pelas contas-poupança, pelos champôs e pela griffe em cuecas - não foi além da marcação de um golo no Brasil. As conferências de imprensa dos jogadores, dos médicos, do treinador e dos "federadores" retrataram melhor o país do que cem debates sobre o "estado da nação" ou as infinitas sessões comentadeiras de cá para lá perpetradas pelos tagarelas do costume: aquilo era, de facto, o "estado da nação". Talvez para não acabar tão abruptamente com os referidos "sonhos e esperanças", o senhor Presidente da República decidiu continuar a "bater bolas" convocando um Conselho de Estado irrelevante para presumivelmente discutir a "clara noite do nada" (Heidegger) em que consiste o presente e o futuro desta traquitana absurda chamada Portugal. Como se isto não bastasse, o dr. Passos andou pelo "cemitério dos portugueses", em França, a carpir os mortos domésticos da Guerra 14-18. O gesto é inequivocamente bonito e patrioteiro mesmo que a história subjacente não seja a mais edificante. No dia 9 de Abril de 1918, o mítico Corpo Expedicionário Português, quase todo enfiado no dito cemitério, foi literalmente dizimado pela ofensiva alemã chefiada por Ludendorff depois da debandada dos britânicos em cujo exército o CEP estava integrado. Os pobres dos portugueses ficaram, como sempre estiveram, entregues à sua má sorte e à sua irremediável iliteracia: não sabiam inglês e não perceberam a tempo que tinham pura e simplesmente de fugir. Ironia das ironias, tudo aconteceu no dia em que os ingleses se preparavam para render os esfarrapados militares do CEP em La Lys. Esse local acabou por se tornar famoso e por tornar famosos aqueles mortos heróicos, os únicos que temos para apresentar nos "teatros de guerra" em que participámos no século passado. Porque a má consciência, o temor reverencial e o "fardo" de Kipling impedem-nos de nomear os "heróis" da "guerra colonial". Os de La Lys foram simplesmente abandonados ao seu esforço inglório e à sua dramática ignorância. Passaram cem anos e continuamos a não ser exemplo para ninguém em lado algum.

O futuro não se recomenda


 


«O governo de Sócrates, ajudando entusiasticamente à bancarrota, e o de Passos Coelho, que andou sempre a tropeçar em contradições, mudanças de estratégia, polémicas sem sentido e reformas falsas, tiraram ao executivo o vago prestígio com que saíra de um pequeno período de prosperidade, inteiramente devido aos subsídios da “Europa” e, a seguir, ao euro. Hoje ninguém confia em nenhum ministro, a começar pelo primeiro-ministro. Sofremos, por impotência e por desespero, uma anarquia mansa de que ninguém vê o fim e a que muita gente se resignou. O Presidente da República, ansioso por evitar sarilhos no último ano do seu mandato, prega docemente aos peixes, sem se importar que o ouçam ou não ouçam e, de facto, a generalidade dos políticos não o ouve. Quase não vale a pena falar da extrema-esquerda. O ódio fraternal entre os vários grupinhos, que em conjunto a formam, não tem diluição ou concerto, como se viu em 25 de Maio. Os chefes são personagens de comédia ou aventureiros sem vergonha. Para ajudar à história, o PS resolveu cometer em público um suicídio longo e degradante, que o deixará dividido por muito tempo. Nem Costa, nem Seguro devem pensar que, lavada a roupa suja (que aparentemente é inesgotável), as coisas voltarão à ordem e tranquilidade do passado. Não voltarão. Cada um se ilude a seu gosto. Mas também Coelho e Portas aceitam ainda o absurdo postulado de que o PSD e CDS resistirão a quatro anos de “austeridade”. Erro deles. Seja como for, a República está presa por arames. E o futuro não se recomenda.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

26.6.14

VGM - dois livros, um depois do outro




O pantanoso consenso


 


«Com Juncker ou com Schulz, a Europa está de facto sem qualquer estratégia: quer mais integração, mas não sabe como. Quer mais crescimento, mas não sabe onde ir buscá-lo. Quer mais legitimidade, mas entrincheira-se nas burocracias mais desmotivadoras. Quer proteger os seus cidadãos da globalização, mas torna-se cada vez mais num dos seus mais dóceis instrumentos. O último truque para fazer a economia crescer - ou melhor, o PIB, o que não é bem a mesma coisa - é revelador desta situação: se a economia normal não cresce, junta-se-lhe a economia paralela, o contrabando, o tráfico de droga e a prostituição, o que vai acontecer já a partir de Setembro. Convenhamos que, comparada com a esfuziante criatividade de que tem dado provas a indústria financeira, isto não é nada. Mas sempre são, segundo um estudo de P. Schneider sobre a matéria, The Shadow Economy in Europe, cerca de dois biliões de euros. Em Itália a economia paralela vale 21,6% do PIB, em Portugal 19,4%, enquanto na Bulgária ultrapassa os 30%. Vamos, finalmente, crescer! Este expediente mostra como a crise continua, e como ela é bem mais profunda do que se tem dito e procurado fazer crer. As litanias da "saída da crise" não passam, na verdade, de tretas rituais de uma terapêutica aos tropeções. No último número do Le Nouvel Observateur, Marcel Gauchet, num vivo debate com um singular economista, Frédéric Lordon, dizia-o de um modo tão claro como dramático, ao afirmar que "o efeito da alternância se esgotou. São todos igualmente impotentes, não há nada a esperar do pessoal dirigente." Mas M. Gauchet , um dos pensadores mais incisivos da Europa de hoje, vai bem mais longe do que o que poderia parecer uma banal diabolização da classe política. O que ele diz é que, para o futuro da Europa, mais do que passar o tempo a atirar a bola e as culpas de um campo para o outro, entre a esquerda e a direita tradicionais - que, precisamente, fizeram esta Europa -, o que importa é perceber bem em que é que tem consistido, e continua a consistir, o pantanoso consenso entre os dois campos, porque é aí que têm nascido os principais problemas e todos os impasses que hoje enfrentamos.»


 


M. M. Carrilho, DN

25.6.14

Sem ranço passado, presente ou futuro

«.... afirmando mesmo que a culpa desta crise não foi da direita mas sim do anterior Governo PS, que “preparou terreno para os cortes salariais, as privatizações feitas sem critério e o descrédito das instituições”. E continuam: seria “um crime contra a Nação Portuguesa e um ultraje aos princípios e valores do Partido Socialista” voltar a fazer chegar ao poder “os mesmos que conduziram Portugal para o desastre”. “Fomos nós socialistas que o fizemos e quanto mais rapidamente o compreendermos melhor será, para o PS e para Portugal”, dizem, depois de classificarem o actual Governo como um governo “mau”, “que não sabe ou não quer evitar mais sacrifícios aos portugueses”.»

Bem feito

O eng. Bava é uma pessoa amável que tive o prazer de conhecer noutra encarnação. Até foi condecorado, a título de vivo, no último 10 de Junho. Mas a "sua" PT sempre beneficiou da complacência geral do regime, independentemente do governo. Agora o Estado - ou seja, os contribuintes - tem uma multa pesada para pagar em Bruxelas à conta desse porreirismo político-corporativol. «A máxima instância judicial europeia condena Portugal a pagar um total de três milhões de euros e uma multa coerciva de 10.000 euros por dia do atraso por não ter executado uma sentença anterior, de 2010», ou seja, por ter escolhido «a Portugal Telecom (PT) para fornecedor de serviços universal sem respeitar o procedimento legal comunitário, ou seja, sem concurso.» Bem feito.

Bate certo

A qualificação das pessoas e, por tabela, do território começa nos bancos da antiga escola primária. Crato vai fechar 311 escolas do chamado 1º ciclo. Os mais prejudicados por isto são os que estão mais afastados do litoral. O país cada vez mais se parece com um barco tombado. A "divisão" há muito que não passa pela diferença entre o norte e o sul. Sai-se de Lisboa, sobe-se ou desce-se um pouco e, depois, segue-se o deserto ou o "interior" como é conhecido nas estatísticas e na vulgata política. A boçalidade economicista não quer saber disto para nada. Metem-se as crianças num autocarro, andam de um lado para o outro, e a coisa fica "resolvida" mesmo que as excursões roubem tempo e disponibilidade para aprender. O resto está resolvido por natureza: pela natureza da chamada "evolução natural" e do "progresso". Onde não existe ninguém, ou tende a não existir, não é preciso qualificar. E é de pequenino que se começa a perceber a merda de país em que se nasceu. Bate certo como a matemática medíocre de Crato.

22.6.14

O encosto

Se repararem, há uma figura pavorosa que aparece persistentemente ao lado do dr. Costa nas incursões bonapartistas que este vai perpetrando no PS. Trata-se do sr. César, antigo vice-rei dos Açores, que depois de ter passado a pasta insular parece agora interessado numa sinecura "continental". Num telejornal observei-o, com aquele misto de mandarim com mestre-escola do Estado Novo, a afirmar que a direcção do seu partido tinha perdido a "legitimidade". Presumivelmente César está empenhado em comprometer Costa com os dislates que profere cada vez que há uma reunião partidária. Mas ainda bem que ele e outros como ele aparecem. Parafraseando "um dos principais conselheiros" de Costa num artigo no Público, cada um tem a Natália de Andrade (e não de Carvalho como esse " conselheiro" afirmou o qual, aliás, nunca foi assessor de Ramalho Eanes como escreve a articulista) que merece.

21.6.14

Um vácuo geral


 


«António Costa toma invariavelmente o tom de oráculo ou de catedrático, no acto caridoso de ilustrar a ignorância ou de esclarecer a confusão. Claro que uma análise cursiva ao que ele realmente nos serve basta para constatar a inutilidade daquela conversa. Costa pega nas grandes panaceias da esquerda (negociar com a “Europa”, como se a “Europa” admitisse negociar connosco; e promover o “crescimento”, como se o “crescimento” não precisasse mais do que um governo dele) e transforma este pacote de vulgaridades numa mensagem infalível e salvífica. O que não incomodaria os portugueses, se não fosse a total incapacidade de Seguro para lhe responder com uma oratória do género. Assim o que a guerra do PS mostra é um vácuo geral.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 

A angústia da influência

Conta-se que o dr. Passos e a dra. M. L. Albuquerque recusaram dar a mão, por interposta CGD, a Ricardo Salgado, conhecido no "meio" pelo DDT, "o dono disto tudo". E que, por isso, o presidente do BES teve de recorrer a Luanda. Vem no Expresso onde, no 1º caderno, já vimos passar publicidade ao BCP, ao BES e, agora, ao BIC. Devem saber do que falam. Politicamente, o primeiro-ministro e a ministra da finanças "ficam bem" nesta versão. Porque se há coisa que caracteriza o regime é a promiscuidade com o sistema financeiro representado fundamentalmente por três ou quatro bancos. A transumância entre cargos governativos e cargos executivos e não executivos nos bancos é conhecida e é, famosamente, comum ao chamado "arco da governação". Da Caixa, nem se fala, pela natureza dela. Mas desde o famoso BPN a outra banca comercial mais ou menos conspícua, a tentação passou à acção. Os exemplos não faltam. Oliveira e Costa, Dias Loureiro, António Monteiro, Celeste Cardona, Norberto Rosa, Armando Vara, Mira Amaral, Paulo Macedo, Luís Amado, Jaime Gama ou Paulo Mota Pinto, agora no BES, são apenas alguns nomes que ocorrem do passado recente e do presente. Também ocorreu há pouco tempo o contrário com uma secretária de Estado recrutada ao BES (parece que vai para a nova administração) e um outro infeliz, o dos "swaps", que foi dissolvido rapidamente num briefing Lomba. E os Salgados, os dois primos desavindos, eram visitas assíduas do poder independentemente da cor. Apesar de tudo o que já aconteceu com a banca, é improvável que o "peso" de figuras como a família mencionada ou de outros desapareça, por obra e graça do supervisor, da influência regimental. As cumplicidades e as amizades transversais são mais que muitas e superam qualquer circunstancial angústia.

20.6.14

"Como raio estas coisas nos podem suceder?"

«Qualquer indivíduo com mais de seis neurónios pode ver que a aventura da selecção portuguesa duplica em miniatura a aventura do défice e da dívida. Primeiro, o silêncio, até cairmos sem remédio no fundo do poço. A seguir, o espanto fingido ou a corajosa afirmação de irresponsabilidade. E, no fim, acusações sobre acusações, para disfarçar o facto de que toda a gente colaborara no desastre. Nós, como Ronaldo, somos manifestamente os “melhores do mundo”. Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos. Como raio estas coisas nos podem suceder?»


 


Vasco Pulido Valente, Público

Um fracasso


 


O dr. Passos insiste em visar os trabalhadores investidos em funções públicas como a razão de todos os males e infelicidades políticas e jurídicaas que lhe acontecem. Já não tem paciência, exactamente como o seu antecessor, para responder a praticamente ninguém fora do inner circle resumido, hoje, no parlamento, aos politicamente anódinos Marques Guedes, Maduro, Maçães e Moedas. Três anos depois, Passos é uma sombra da "normalidade" que lhe valeu a superação eleitoral de Sócrates. Daqui para diante será visto como mais um "incomodado" por o incomodarem enquanto ele supõe salvar a pátria. A seu tempo, os que votarem preferirão outra coisa qualquer a este logro teimoso e doloso. Um fracasso.

19.6.14

Ferro forjado

«"É, de facto, um bocado extraordinário como o Partido Socialista, que acabou de obter uma significativa vitória nas eleições europeias, passou em poucos dias para as primeiras páginas dos jornais, não pela vitória, mas pelas disputas internas em torno da liderança. Deve ser um caso único no mundo, este, em que o partido ganha umas eleições com o maior resultado de sempre do regime em vigor e, o respectivo líder é imediatamente defrontado com uma série de candidaturas para disputarem o lugar que ocupa. Não sei quantos casos semelhantes existirão no mundo. Mas manda a verdade dizer que, na opinião dos outros dirigentes do PS, ou por causa de Sousa Franco, ou, porventura, pensarão ainda noutra hipótese, que eles ainda teriam conseguido um melhor resultado. Com franqueza, qualquer dos pensamentos é muito contestável e o último será, pelo menos, pretensioso. Não estou com isto a defender Ferro Rodrigues, mas nenhum ser humano medianamente esclarecido, e razoavelmente sensato, terá dúvidas de que o que seria normal era ver Ferro Rodrigues a ser louvado, a ser apoiado, ver o seu trabalho reconhecido e não o contrário. Há quem diga que há mais pessoas a candidatarem-se à liderança do partido, por pensarem que o partido pode ganhar as próximas eleições legislativas, ou outras, e, por isso mesmo, querem ter o poder. Bem, mas isso é o que se passa em qualquer força partidária que tenha essas circunstâncias, ou que tenha boas intenções de voto nas sondagens, ou que tenha razões para pensar que pode ter uma vitória eleitoral próxima. Mas quando assim é, quando uma força partidária está nesse estado, ninguém se atreve a contestar o líder. E, no Partido Socialista, está a cometer-se de facto esta proeza fantástica: acabaram de ganhar as eleições, mas já não querem o líder que as ganhou."


 


Fez ontem dez anos que este artigo foi escrito, cinco dias depois das eleições europeias de 2004. Algumas pessoas, que têm bons arquivos, tiveram a amabilidade de me lembrar esse texto e as similitudes daquilo que o seu conteúdo descreve pela situação actual. Tem semelhanças, sem dúvidas. Mas, na altura, Ferro Rodrigues conseguiu 44% dos votos com uma diferença de 11 pontos para a coligação PSD/CDS e, mesmo assim, foi muito contestado, acabando por se demitir quando Jorge Sampaio recusou dissolver a Assembleia e me nomeou primeiro-ministro. Como não haveria António José Seguro de ser contestado se ganhou com 3 pontos de avanço em tempo de crise muito mais profunda? Ferro Rodrigues, na altura, saiu contra a decisão do então Presidente da República. Curiosamente, o próprio anunciou esta semana que defende a saída de um líder - ou apoia quem o quer substituir -, que também ganhou nas eleições europeias. Insólito? Lógico? Coisas da política? Cada um responderá como preferir.»


 


Pedro Santana Lopes, Jornal de Negócios

A nuance fundamental


 


Não se forja um ministro adjunto, com as responsabilidades políticas inerentes, de um dia para o outro. Trabalhei com um e sempre lhe recomendei que vestisse mais o "fato" de ministro adjunto e menos o de Miguel Relvas. Miguel Poiares Maduro, que substituiu o citado, nem sequer o métier de Relvas possuía. Vinha de fora - mal acabou o curso de direito, saiu daqui e prosseguiu a sua carreira académica sobretudo noutras paragens -, desconhecia o Estado e a adminsitração pública sob as suas diversas formas e não estava nem partidaria nem politicamente calibrado para as funções que lhe atribuíram. Quando ontem  elaborou sobre o pagamento de subsídios e o Tribunal Constitucional. não percebeu que ninguém esperava dele um comentário de dissimulada cortesia jurídica mas, sim, político. E o comentário político seria sempre a conclusão a que aparentemente o governo chegou hoje. As pessoas não querem saber do dia 30 ou 31, do mês de Janeiro ou de Junho. Uma vez fixada a decisão jurídica, esperam do poder executivo uma resposta que denote sobretudo bom senso político e que garanta um módico de segurança e de certeza jurídico-económica às suas vidas. Poiares Maduro não entendeu esta nuance fundamental. Já não vai a tempo de aprender.

17.6.14

Os avalistas de Costa

O que dirá o dr. Soares deste alegado "aval"  já que prefere Costa, entre outras coisas maiores, por causa do punho esquerdo? Os nossos "banqueiros" sempre se distinguiram pela sua enorme subtileza política. Para não andarmos mais para trás, em dez anos de política nacional (2004-2014), a dado passo "deixaram cair" os que "apoiaram" ou, no caso de Santana Lopes, nem isso. O que só abona a favor de Santana Lopes.

Será isso que quer?

Cavaco lembra Sampaio em 2004. Parece que está à espera que o PS se "componha" - leia-se: que triunfe o golpe bonapartista de Costa - para "fazer" alguma coisa. Acontece que, em 2004, o então secretário-geral do PS se tinha demitido e concorreram à sucessão Sócrates, Alegre e João Soares. Agora ninguém se demitiu. O que está em curso é uma mera pega de um partido de cernelha depois de ter registado duas vitória eleitorais e na perspectiva de uma terceira, mais decisiva, para pôr termo àquilo que os nostálgios de Sócrates, e adeptos de Costa, entendem como uma espécie de "interregno". E também acontece que Passos, contrariamente a Santana Lopes, está legitimado não apenas pela maioria mas pelo sufrágio nacional. E apenas o sufrágio o deve manter ou remover. A posição presidencial, ao sugerir "consensos" que sabe serem inverosímeis antes de eleições o mais rapidamente possível, "beneficia" Costa e os seus que são tanto dele como de Sócrates. Cavaco pode assim estar para Costa como Sampaio esteve para Sócrates. Será isso que quer?

Os carregadores da esperança


 


A foto testemunha um momento de rara beleza patrioteira. Minutos antes o Presidente da República tinha declarado aquela gente os "carregadores" (oficiais) da "esperança dos portugueses". E eles lá partiram com o fardo às costas. Deixou de se poder ver, ler ou ouvir noticiários. Até ontem, segunda-feira, dia de estreia dos "carregadores da esperança" não havia nada "ligado" àquelas almas que não fosse de imediata relevância patriótica: um joelho, um autocarro, um avião, um autógrafo, uma furtiva lágrima derramada numa bandeirinha verde-encarnada. Marcelo, o mais famoso treinador televisivo de tudo, criticou o dr. Passos e o dr. Seguro por não terem ido ao Brasil mas, presumo, o regime deve ter estado adequadamente representado nem que fosse pelo dr. Arnaut. Entretanto os "carregadores da esperança" borregaram face a uma gente mais cerebral e fria, pouco dada a transumâncias de leitões e biscoitos, em directo na televisão, no meio de assuntos ditos sérios. Por consequência, os "carregadores da esperança dos portugueses" expiam nos me(r)dia e na rua a circunstância de não terem estado à altura imaginária em que parvamente os colocaram. Pode ser que da próxima vez haja mais sorte. De instintos e de cultura não somos desgraçadamente germanófilos. E, pelo menos em ambas as matérias, devemos estar ou mais próximos, ou até ligeiramente acima, do Gana. Esperança, portanto.

16.6.14

Grandeza teutónica


 


Wagner: Die Walküre, Bayreuth 1992. Daniel Barenboim.

15.6.14

Foi você que pediu jornais, revistas e uma estação de rádio?

«Aquele império com pés de barro [a Controlinveste] ruiu com a crise, mas os bancos injectaram lá milhões para manter o controle. A solução encontrada é política: a escolha para presidente da empresa de Proença de Carvalho — homem para todos os regimes do poder e do dinheiro (e advogado de Sócrates) —, e a escolha dum protegido do BES, familiar de Cavaco mas de facto com ligação ao PS socratista (como o revelaram as escutas da Face Oculta no CM) apontam para a mesma triste aliança obscura entre media e dinheiro e política dos poderosos. Agora despediram bons profissionais independentes ou de áreas políticas desafectas aos novos donos. Socratinistas e costistas ficaram lá todos. O mesmo em Espanha: os bancos, em conúbio com o governo Rajoy, tomam conta dos principais media. Sinal do século XXI: com a Internet e a fragmentação dos media, o poder mediático disseminou-se de tal forma que os poderes fácticos de sempre — o dinheiro e seus agentes políticos — precisaram de voltar em força ao controle férreo dos media e encontraram em alguns jornalistas bem pagos agentes sabujos para o exercer. Os poderosos servir-se-ão dos seus media, mas, mesmo que os cidadãos não os leiam, eles farão contas para ver se os negócios que ganharam pela porta do cavalo compensam os prejuízos com os seus media e as notícias ou "notícias" neles plantadas. Entretanto, como qualquer industrial do capitalismo selvagem, destroçam vidas, fazem concorrência desleal aos media honestos e enganam o povo.»


 


Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã

Livros e miséria instintual

Ao fim da manhã, correndo sérios riscos de insolação, fui à feira do livro. Acaba hoje. Todavia, a RTP e os seus sponsors já estavam a montar um ecrã gigante para a bola. Ainda as barraquinhas estarão com livros, embora fechadas, e aquele espaço começará a ser invadido pela babárie e pela cerveja. O silêncio dos livros nada poderá contra isso embora o seu "duro desejo de durar", mesmo enquanto puro "resto", prevaleça sobre a  circunstância barulhenta e acéfala. Como escreve Pulido Valente no Público, «nunca percebi por que razão se pensa que esta espécie de espectáculos contribuem para o estatuto e o prestígio de um país. São normalmente exercícios de propaganda interna e de caça ao voto. Para o Euro 2004, Portugal construiu de raiz ou renovou radicalmente uma dezena de estádios, quando cinco ou seis bastavam. Porquê? Porque se o Estado e a administração local pagavam um estádio ao F.C. do Porto tinham de pagar outro ao Boavista: e, se o Porto ficava com dois, Braga exigia o dela; e Guimarães não podia ser maltratada nesta matéria essencial; nem Coimbra, nem Aveiro, nem sequer Leiria. Para não falar em Lisboa e no Algarve. Hoje, ninguém usa muitas dessas fantasias em cimento armado, que se tornaram um encargo inútil para as câmaras do sítio. Isto vem naturalmente a propósito do campeonato e dos protestos do Brasil. O Brasil arranjou maneira de fazer doze estádios, ainda em construção ou de qualidade duvidosa, e gastar milhões com a segurança da rua e dos turistas. Ficará o mundo com mais respeito e admiração pelos responsáveis de uma extravagância sem explicação e sem desculpa? Não me parece. A Interpol até fala em “jogos combinados”, coisa nunca vista, e ao lado do futebol os combates quase diários do exército (repito, do exército) e dos manifestantes “anti-Copa” mostram bem a sociedade caótica e corrupta em que as festividades decorrem. Vale a pena por um espectáculo efémero provocar as cenas de violência que as televisões passam e revelar o verdadeiro atraso de um país que não se consegue governar?»

14.6.14

Ficar assim é pior

«Eleições são a única coisa que pode fazer entrar algum ar fresco no quarto miasmático em que estamos enfiados. Se a vida fosse a ideal, o PS resolveria rapidamente a sua querela interna, em vez de andar nesta necrose quotidiana para salvar Seguro e garantir meia dúzia de lugares de deputados aos seus fiéis*, com elevadíssimos custos para o PS e para Portugal, e, quem fosse o líder, estaria em condições para exigir eleições antecipadas com uma voz forte. Se a vida fosse a ideal, o Presidente compreenderia que nunca vai conseguir um acordo “consensual” na actual situação de bloqueio, mas apenas perante um governo com legitimidade reforçada de origem eleitoral, seja do PSD-CDS, seja do PS. Se a vida fosse a ideal, as eleições dariam a quem as ganhasse uma maioria absoluta ou quase, para então existir força política para haver entendimentos, ou para os recusar, se eles fossem abusivos. Se a vida fosse a ideal, o PSD mudaria de liderança, mas, mais importante que tudo, deixaria para trás esta continuada traição ao seu programa, à sua génese, ao seu papel histórico e aos seus manes caseiros como Sá Carneiro. Se a vida fosse a ideal, ou o PS (mais provável) ou o PSD, manteriam um esforço de consolidação orçamental, com maior equilíbrio social nos seus custos, mas anunciariam, a partir dessa autoridade de não aceitarem défices altos, que o chamado Tratado Orçamental não pode continuar como está. E anunciariam que uma reestruturação da dívida é inevitável e trabalhariam para isso, com moderação e tenacidade. E se a vida fosse a ideal, Portugal passaria a ter outra voz na Europa, procurando aliados e novas configurações, em função de um único objectivo, o interesse nacional. É para que a vida, mesmo não sendo a ideal, possa pelo menos ser mais sensata, equilibrada e melhor do que é hoje, que é preciso correr o risco de antecipar as eleições, num tempo bem escolhido, razoável e o mais depressa possível, ou seja, é preciso fazer alguma coisa para desbloquear este enorme pântano em que vivemos. Tem riscos? Tem todos os riscos. Mas ficar assim é pior.»


 


José Pacheco Pereira, Público


 


*A frase "para salvar Seguro e garantir meia dúzia de lugares de deputados aos seus fiéis" é um tropismo deliberado. Aplica-se sobretudo ao "amigo" do autor, o dr. Costa. e à longa mão socrática presente no grupo parlamentar do PS: esses é que não querem ser mudados, como serão, se Seguro ficar. De resto, estamos de acordo: eleições para limpar o ar.

O noivo de Santo António

O dr. Costa, edil da capital e putativo candidato a líder do PS desde os seus tenros catorze anos, teve um fenomenal tempo de antena à conta da marchinhas de Lisboa. Todos lhe foram prestar "homenagem" à medida que iam passando ela Avenida da Liberdade. Ironicamente, é aí que reside o seu maior problema. Costa, para além da televisão, está refém de Lisboa. É a macrocefalia lisboeta que o tem promovido porque é em Lisboa que o "meio" de que faz parte irradia. Quando sai de Lisboa, por exemplo à conquista das federações do seu partido, as coisas mudam de figura. Costa, que não tem nada de burro, já percebeu que, fora as marchas, o cenário das televisões e os amigos nos jornais, não existem passadeiras vermelhas. A persistente colagem do pior do que não presta no PS à sua pessoa também não ajuda. Sem nada de novo no seu "programa", Costa ainda não conseguiu "noivar" com o país que é coisa mais complicada do que um mero golpe de mão partidário. E não é, de certeza, por falta de ajuda.

13.6.14

Quantos Alquevas?

O Alqueva - e todos os jogos florais que nos derradeiros anos o têm animado - está sempre de serviço para uma boa frioleira política. Aparentemente hoje houve mais uma conforme informou um leitor. «Não se pode ver apenas as coisas más, e hoje, dia de Santo António, devemos elevar o espírito e olhar o que de bom este (ok, o "nosso") Governo tem feito: ainda há momentos vi na SICN dois jovens ministros muito contentes a inaugurarem uma grande e importante obra no Alentejo. Pareceu-me que diziam chamar-se Alqueva ou algo parecido. Estão os dois de parabéns.»

12.6.14

Do ciclo da morte

«A devastação económica e social destes três anos tinha de ter tido um propósito de regeneração que não teve. Se tivesse tido, o discurso já seria outro. Isso é o imperdoável. Esse é o falhanço. Se ainda precisamos do que precisávamos ainda estamos como estávamos. Tirando estarmos mais pobres. E mais desiguais. E mais desempregados. “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”. Todos os dias são um dia na vida de alguém. Hoje foi naquela empresa, ontem foi noutra, e tudo seria compreensível se fizesse parte do ciclo da vida. Faz parte do ciclo da morte. O desemprego de longa duração, o desemprego de jovens e de velhos, a redução dos apoios sociais (flexisegurança sem segurança) não é sentido de justiça nem uma sociedade a funcionar. É uma nação que exclui. Quem perde sai. Às vezes até é notícia. Hoje foi. Um dia de cada vez. Um dia é de vez.»


 


Pedro Santos Guerreiro, Expresso diário

O neo-socratismo

Quase um ano após a remodelação que alçou o dr. Portas a vice PM e a "coordenador económico" do governo - o dr. Lima é uma mera metáfora de si mesmo -, o país vive um ambiente que consiste num híbrido do período homólogo de 2004 (o Euro, então) com o que caracterizou o período 2009-2011 da governação Sócrates. Muito calor, muita alienação, muita bola apesar da distância. Não há "tranche" da Troika mas há PEC's e cortes "à Sócrates". Existe uma tranquilidade caótica todavia sem o profissionalismo político e o controlo "à Sócrates". E até no PS, pela via bonapartista, onde Costa "faz-se" ao partido e ao resto, sente-se o "toque" de Sócrates - dos seus aliados parlamentares e dos seus caciques. Mesmo que não mexa uma palha ou desça nas audiências da RTP (ele deve ralar-se muito com isso), Sócrates já "baptizou" o resto da legislatura: é o neo-socratismo. Chapeau.

Ainda não é o tempo do silêncio


 


Este blogue existe há onze anos. Curiosamente foi "criado" numa altura em que reinava uma maioria e uma coligação parecida com esta na parte Portas. A outra parte era Barroso que, no ano segunte, trocou a missão nacional para que tinha sido eleito por aquela da qual ninguém se lembrará quando, por cima dela, passarem menos anos dos que menciono. Acabei de ler um livrinho de Fernando Guedes sobre T. S. Eliot e Ezra Pound (que recomendo). Já perto do fim, Pound, de regresso a Itália após doze anos de cativeiro na democracia mais paradoxal do mundo, a dos EUA, foi a um concerto em Rimini. Reconheceram-no, o que obrigou a sua fragilíssima figura levantar-se e agradecer. Quando os circunstantes se calaram e esperavam umas palavras do Mestre, Pound saiu-se apenas com o Eclesiastes: tempus loquendi, tempus tacendi. Este ainda não é, aqui, o tempo do silêncio.


 


Let the wind speak


that is paradise.


 


Let the Gods forgive what I


have made


Let those I love try to forgive


what I have made.

10.6.14

O nome do problema

«O problema do PS não é António José Seguro. O problema do PS é outro, e podemos, para simplificar, dar-lhe um nome: José Sócrates. Basta reparar nisto: da apresentação do programa de António Costa, as primeiras páginas dos jornais só retiveram um pormenor: o elogio a Sócrates. Isso quer dizer alguma coisa (...). O Partido Democrata italiano propôs um programa reformista, formou uma maioria aberta à direita, e esmagou a concorrência nas eleições europeias. O socratismo, neste momento, simboliza a impossibilidade de tudo isso em Portugal. Basta espreitar a missa negra que Sócrates reza todos os domingos à noite na RTP. Segundo Sócrates, a perfeição reinou em Portugal entre 2005 e 2011. Por ele, é inútil reexaminar políticas, trazer mais gente. O que o PS precisa é apenas de vingar a queda de 2011, derrubando o Presidente da República e o Governo, e de restaurar o passado (...). Porque Sócrates, enquanto problema, não é apenas o homem e as suas clientelas. É tudo o que ele, por ressentimento, se dispôs a representar: o sectarismo, a negação da realidade, a indisponibilidade para evoluir. Todos os partidos têm esses pendores desagradáveis, sobretudo quando tocados pela arrogância do poder. O socratismo é apenas a forma aguda que a doença tomou no PS. Um PS incapaz de se distanciar de Sócrates, isto é, do pior de si próprio, está destinado a repelir as pessoas sensatas e a mobilizar a direita.»


 


Rui Ramos, Observador

9.6.14

Portugal ou o desejo de ter um pai transcendente


 


O porta-aviões do dr. Portas, denominado "Exportações", abrandou e entrou em velocidade de cruzeiro. O consumo interno subiu um bocadinho. E, tudo visto e ponderado, o PIB baixou um "nadinha" no país em que, por enquanto, todos os dias é "17 de Maio". Da Guarda - onde jamais poderá superar o 10 de Junho de 1977 por onde passaram Eanes, Vergílio Ferreira e, por cima deles e destes todos, Jorge de Sena - o senhor Presidente da República recomendou que se abandone o medo e se recupere a esperança. No estado a que isto chegou, parece um oxímoro político. Razão, pois, a Jorge de Sena naquele inesquecível momento da Guarda que seguramente nada terá a ver com a "apagada e vil tristeza" em que se comemora o de 2014. «Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião.»

8.6.14

A nossa trampa


 


No futebol doméstico, descontada a problemática do joelho do outro, a "liga" vai escolher o seu presidente. O incumbente, Mário Figueiredo, recandidata-se. É detestado pelos "grandes" talvez com a excepção do Sporting. Por isso os "grandes" arranjaram uns bonzos, chefiados pelo inefável Roboredo Seara, para os representar com o auxílio de meia dúzia de clubes "menores". Seara, um desastre ambulante em praticamente tudo em que se enfia, parece que entregou duas listas encabeçadas pela sua extraordinária pessoa. De acordo com um seu parceiro, o juiz Rangel, a criatura terá cometido uma altíssima "traição" que este descreveu, com o detalhe de uma telenovela latino-americana, de viva voz. Apesar de, enquanto vereador da Câmara de Lisboa, ser apenas mais um que o dr. Costa enfiou no bolso, Seara imagina-se subtil e, como tantos outros, não consegue distinguir uma bola de futebol de um manifesto político. Não é por acaso que, decerto, as televisões serão invadidas por comentadeiros políticos a palrar sobre o mundial à semelhança do que fazem quase todos os dias com as "ligas", da cá ou da Euroásia. No fundo, Bruno Carvalho tem razão. A trampa do futebol só esconde uma trampa maior. A nossa.

"Passe-o na televisão", já dizia Salazar


 







 


«Como Seguro, Costa fez carreira no PS: não há outra maneira. É também um profissional da política e, portanto, não pode estar longe do aparelho. Mas o partido não lhe chega. Como Sócrates, de quem foi indefectível, às maçadas do aparelho prefere outro meio de chegar ao poder: os media. Tem uma relação ambivalente com o jornalismo: despreza-o, mas bezunta-o de graxa, tende a tentar controlá-lo (como Sócrates), enquanto jura pela liberdade de informação. Enquanto para Seguro o poder se alcança pelo trabalho da formiga, para Costa conquista-se pelo canto da cigarra. Enquanto Seguro não dá nada por adquirido e age timoratamente para que o país lhe entregue o poder, Costa, na esteira de Soares, acha-se um predestinado a quem o país deve o poder: acorda uma terça-feira, depois das Europeias, e anuncia que o PS e o governo são para ele. É um Messias de promessas vagas (um ‘governo forte’), um "Napoleão para as Esquerdas", na expressão de João Gonçalves no blogue Portugal dos Pequeninos. Napoleão não quis receber a coroa de imperador das mãos do papa e colocou-a ele mesmo na sua cabeça. Para Seguro, é uma injustiça que lhe tirem o partido que conquistou; para Costa, é uma injustiça que não lhe dêem o poder para que se acha talhado. Enfrentam-se agora o percurso de aparelho, de Seguro, e o percurso mediático-messiânico, de Costa. O primeiro leva a melhor no partido, o segundo leva a melhor nos media — os jornalistas também sofrem do atávico e reaccionário desejo de Chefe — e, por causa dos media, também nas sondagens. No combate dos próximos meses, Seguro gritará "o meu reino por um canal de TV" e Costa berrará "o meu reino por umas federações do PS"


 


Eduardo Cintra Torres,  CM

7.6.14

Não se queixe


 


As declarações do Presidente da República sobre os "agentes políticos" (não imagino o que é que ele imagina que é) e sobre o "estado da arte" a que ele preside como se fosse intangível, revelam que o Doutor Cavaco não vê a hora de chegar aquele salvífico momento, fixado na Constituição, a partir do qual um Chefe de Estado em final de mandato fica inibido de poder praticar certos actos. Mas existe pelo menos um a que não se poderá furtar, o de ainda dar posse a um governo que suceda ao actual, com ou sem a previsibilidade (uma palavra que tanto aprecia) do calendário eleitoral. E, ironia das ironias, com tantas cautelas e "palavras" acumuladas para nada, o Doutor Cavaco pode bem vir a ser "obrigado" a empossar a declinação 2014-2015 do PS de 2011 - que o execra sem dó nem piedade - e relativamente ao qual foi bem claro no discurso de retoma de mandato. Porque, como escreve Ana Sá Lopes, «não deixa de espantar esta onda de sebastianismo a crescer à volta de António Costa, que junta gente muito muito à esquerda do PS com gente muito, mas muito à direita do PS, numa salada de frutas inesperada. Uns acreditam que Costa será o homem que fará a ponte à esquerda (com os exemplos de Roseta e Sá Fernandes em Lisboa). Outros que fará o bloco central com Rui Rio ou com alguém do PSD que não se chame Coelho. Outros ainda que "a abrangência" fará o PS conquistar num ápice a maioria absoluta. António Costa está a ser santificado na praça pública: o Messias está a chegar ao Largo do Rato. Convinha que se discutisse política. Retirando a saudação à herança Sócrates e uma avaliação mais correcta das origens da crise, Costa não disse nada que ficasse no ouvido. Mas parece que a sedução chega.» Deixe-se, pois, estar im-pressionável, Doutor Cavaco. Depois não se queixe.

6.6.14

Um Napoleão para as esquerdas?

Se e quando o dr. Costa (por quem nutro muita estima pessoal e praticamente nenhuma política, e é desta que se trata) formar um "arquinho de governação" com o PSD (e eventualmente o CDS), depois de devidamente "expurgado" o dr. Passos - como pretendem os seus aliados bonapartistas social-democratas -, que irá o dr. Soares, o imaginário "federador das esquerdas", dizer? Costa nunca foi homem de "federações" ou de "abrangências": é mais do género "abraços de urso" e de enfiar crédulos e ingénuos no bolso. Foi assim com Guterres no falso duelo Costa/ministro da justiça e Sá Fernandes/secretário de Estado. Foi assim com Sócrates quando lhe exigiu o estatuto de ministro plenipotenciário de Estado no governo de maioria absoluta e, consequentemente, "a cabeça" do independente Campos e Cunha. Foi assim quando se fartou de Sócrates e o trocou por Lisboa. Foi assim, já em Lisboa, com os voluntaristas Sá Fernandes (irmão do outro), das ciclovias inviáveis, e Roseta, a ciclista. E foi assim, lamento dizê-lo, com Relvas por causa dos "terrenos do aeroporto", uma preciosa "ajuda" política nas derradeiras autárquicas na capital. Pobres "esquerdas", pois, as do dr. Soares nas mãos do seu valente Napoleão.


 


Adenda: Entretanto o dr. Costa foi ao Porto oficializar o seu lance bonapartista. Na verdade, com a complacência da generalidade dos media e dos comentadores políticos, o lance já estava em marcha há muito. Espera-se, porventura em vão, que a mesma gente use agora da mesma "exigência escrutinadora" que aplica a Seguro. Fora o elogio do passado - a "visão estratégica" de Guterres e, sobretudo, o "impulso reformista" de Sócrates -, o "programa" de Costa recorda a fábula da rã e do boi. Oxalá não "rebente" de tanta trivialidade.

5.6.14

Um livro para os tempos que correm


Não é reconfortante saber que, para chegarmos aos níveis de "desenvolvimento" neurobiológico de um chimpanzé recém-nascido, precisaríamos de 20 meses de gestação em vez dos 9 da praxe. Talvez isto explique muita coisa.

O que é que sobra da aura sebástica de Costa?

«Eram muitos os que, nas hostes costistas e socráticas, dificilmente deixariam A.J. Seguro chegar tranquilamente às legislativas, de cujas listas temiam desaparecer. Penso todavia que não corriam esse risco, dado o espírito aberto e federador que A.J. Seguro tem demonstrado. Mas a vida partidária é desgraçadamente cada vez mais feita destes pequenos cálculos e de insignificantes criaturas que não conhecem outro modo de vida (...). O que se tem passado com António Costa, cujas qualidades conheci bem ao trabalhar com ele no Governo e no Parlamento, lembra-me muitas vezes o que se passou nos finais da década de noventa com Durão Barroso. Ele também era, face ao domínio socialista de então, o líder predestinado do PSD, com mundo, culto, rodado, etc., um político perante o qual todos os rivais empalideciam mal se pronunciava o seu nome, divinizado pelos media até à idiotice mais absurda, ouvido como um oráculo por uma comunicação social que transformava cada banalidade sussurrada na expressão de uma qualquer genialidade. Essa aura chegou a assustar o então primeiro-ministro António Guterres. Lembro-me bem de ter sido convocado - como foram, individualmente, todos os ministros - para reuniões de emergência em São Bento, porque agora a coisa "ia ser a sério". Pois bem, entronizado como líder do PSD, viu-se: desde o primeiro debate parlamentar até à sua astuciosa fuga para Bruxelas, foi o contínuo desmoronar do mito. Ainda agora, vendo a entrevista da passada segunda-feira de António Costa à TVI, o que me pergunto é o que há para lá de uma espécie de aura sebástica que, com inegável talento comunicacional e de relações-públicas, se construiu à sua volta. Há um tom de voz mais grave, é certo, e isso conta. Mas quanto a ideias, não ouvi a Costa nada que o Seguro não ande a dizer há muito tempo: pugnar por outro modelo de desenvolvimento, apostar na qualificação, combater o retrocesso social, etc., etc. Como se sobrasse em protagonismo sebástico-mediático o que falta em diferença propositiva, ou ideológica (...). Seguro descobre agora que foi uma imprudência não ter clarificado logo no início do seu mandato a sua diferença face ao socratismo, que a generalidade dos portugueses e dos próprios socialistas sabe bem (e ele tem ajudado a recordá-lo, com aqueles "comentários" dominicais de doentia e mitómana autojustificação) que ele foi o principal responsável português - porque também os houve a nível internacional, nomeadamente europeu - pela situação a que chegámos em 2011. E aí, atenção, com António Costa sempre a espaldá-lo, cobrindo todos os erros do socratismo, de que nunca se demarcou um milímetro.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

O que resta de Passos três anos depois?

Talvez devido ao adiantado da hora o dr. Passos não tivesse medido as palavras que proferiu à tribo reunida em Coimbra. Ou então mediu-as muito bem e, aí, fica obrigado a tirar as devidas ilações do que disse. O Tribunal Constitucional não caiu do céu. Sucedeu ao Conselho da Revolução e à Comissão Constitucional. Foi gerado legislativamente na famosa "casa  da democracia". A sua composição foi definida pelos partidos e a escolha contingente dos seus sucessivos membros, pelo menos de parte deles, é igualmente da sua responsabilidade. Uma vez "fechada" essa composição, os partidos - a menos que se suponham na Coreia do Norte, na Venezuela, na Turquia ou na Síria para sermos equilibrados nos exemplos - não podem olhar para os juízes como seus lacaios ou moços de recados daqueles a que estão habituados nas respectivas seitas. Por isso há quem defenda (e eu também) que as funções do TC devam ser atribuídas a uma secção do Supremo Tribunal de Justiça para evitar espectáculos inomináveis como aquele a que estamos a assistir. Se o dr. Passos acha - e está no seu direito de  achar - que o sistema político não está "à sua altura", apesar de ter sido com este sistema político que foi eleito faz hoje três anos, demita-se e avance, entre outras, com propostas consequentes para o mudar. O eleitorado julgará então. O que não pode - porque é primeiro-ministro de Portugal e não um mero tagarela de café - é dar a entender que o "programa do governo" para o que sobra da legislatura é este rosnar infantil pelos cantos e estas lamúrias inconsequentes a que certamente o Tribunal não dará qualquer resposta. Passos está deliberadamente a pôr em causa o primado do Estado de direito sem nada mais para oferecer ao país do que isso e a sua contabilidadezinha mal esgalhada. Ora tal necedade configura um acto de cobardia política que lhe fica pessoal e politicamente mal. Se persistir em se refugiar nele - com a conivência passiva de um Chefe de Estado entregue a amenidades e a recepções em Belém aparentemente com receio que o céu lhe tombe em cima como acabará por tombar com estrondo -, arrisca-se a chegar a eleições legislativas "normais" e a recolher menos de um quarto do sufrágio, seja o PS comandado, ou não, pelo bonapartismo em marcha ou por um piloto automático. Quem o avisa, acredite dr. Passos, seu amigo é.

4.6.14

Tomar a iniciativa da aclaração política

 



 


 «Os Portugueses têm o direito de saber, naturalmente, para onde vamos e quando chegaremos. Ou seja, têm o direito de exigir aos políticos que se entre no caminho da resolução efectiva dos problemas nacionais, sem o oportunismo de novas políticas de pura conveniência partidária ou pessoal.»


 


«Saber estar e romper a tempo, correr os riscos da adesão e da renúncia, pôr a sinceridade das posições acima dos interesses pessoais, isto é a política que vale a pena. Não há nada que pague a sinceridade na acção política, como em tudo.»


 


Francisco Sá Carneiro


 


A propósito: «Talvez Sá Carneiro já tivesse antecipado eleições. Não por habilidade, mas porque o que está em causa exige clarificação e porque há condições políticas para essa clarificação. Fazer como Sá Carneiro, é perguntar: quem governa e para onde vamos? Não sei se as actuais gerações da política portuguesa têm a resposta. Mas é trágico que nem sequer consigam fazer a pergunta.« (Rui Ramos)

3.6.14

A selfie do caos


 


Com o assalto "bonapartista" em curso no PS e com o governo a "governar" a meias com o Tribunal Constitucional - depois de um acórdão juridicamente infeliz -, o Presidente da República celebrou o caos com pastéis de nata, selfies e o dr. Luís Arnaut que está aparentemente em todo o lado. Talvez o Doutor Cavaco suponha que três ou quatro jogos da bola no Brasil, como que por um passe de mágica, "resolvam" os problemas das pessoas, adiando-os. Não sei se alguém em Belém já lhe explicou que o verão político que se avizinha será bem pior do que o anterior. Na próxima selfie vai ver que não terá quaisquer motivos para sorrir.