«1. Mário Soares propôs sem se rir a nomeação de um governo de iniciativa presidencial e, ao contrário do que aconteceu após a famosa e irónica sugestão de Manuela Ferreira Leite, ninguém se levantou a chamar-lhe "fascista" e a acusar o "pai" do regime de querer abolir o dito. Alguns dos exactos media que então crucificaram a dra. Ferreira Leite agora levaram a ideia a sério e uma ou duas eminências pardas da nação emprestaram ao dr. Soares sincero apoio.
2. A consagrar o hospício, temos o jornalismo de "causas", no qual repórteres excitados cobrem manifestações e vigílias em registo partisan, a assumir acriticamente as dores dos oprimidos (com ou sem aspas) em detrimento dos privilegiados (idem). A verdade é uma: o proverbial povo saiu à rua e, de modo a aproveitar o embalo, toda a gente decidiu decretar o falecimento do Governo. Ninguém parece notar o risco de que, no fim da história, as vítimas mortais sejam outras, e um nadinha menos irrelevantes.
3. O resto é o trivial. Uma escritora ávida de publicidade resolve transformar uma mera decisão pessoal num grito vagamente ideológico contra quem, cito, está "empenhado na destruição do país". Como o tipo de país desejado pela dona Maria Teresa se encontra explícito nos rascunhos que dedicou ao PREC, entre os quais um poema (?) a partir de mote de Vasco Gonçalves (Refiro-me/sobretudo às mulheres/que exaustas de silêncio/são tímidas no falar//Mas a força que têm/dentro delas/faz do impossível já/seu caminhar...), o assunto não merece comentários adicionais. O que talvez mereça alguma coisa é a declaração com que a senhora justificou a recusa da cerimónia alusiva ao prémio (mas não o prémio: o cheque segue no correio): "os portugueses é que mandam no país." Quais portugueses? Os 2 159 742 que, há cerca de um ano, depositaram o partido do dr. Passos Coelho no Governo? Os 300 mil (ou 400 mil, se quiserem) que marcharam contra as alterações na TSU? Provavelmente, dadas as saudades de 1975, as 200 alminhas que se reúnem em "assembleias populares" aqui e ali? Ou uma dúzia de amigos da dona Maria Teresa? Engraçado. As luminárias de uma certa "cultura", que a dona Maria Teresa representa com propriedade, são sempre avessas ao poder, logo que este seja eleito, e indiferentes ao público, logo que este seja livre. Em compensação, adoram o "povo", logo que este não passe de uma alucinação abstracta, repleta de multidões sedentas de consumir os subprodutos engendrados pelas luminárias. Num lugar menos exótico, o primeiro-ministro é que recusaria a proximidade com gente assim. Pior não há.»

8 comentários:
Moral, intelectual e estèticamente ofensiva , a criatura.
Num país menos exótico, a comunicação da Fundação Casa de Mateus relativa ao cancelamento da cerimónia de entrega do Prémio Literário D. Dinis incluiria a seguinte passagem:
"Tendo a senhora Maria Teresa Horta, vencedora deste ano do Prémio do Prémio Literário D. Dinis, recusado receber este prémio, fica assim cancelada a cerimónia de entrega do Prémio. O correspondente valor monetário será entregue a uma obra social a escolher pela direcção da Fundação Casa de Mateus e a divulgar oportunamente.
E, para evitar voltar a colocar a senhora Maria Teresa Horta na desagradável situação de ter que recusar o que, na nossa ingenuidade, julgámos tratar-se de uma honra, foi decidido que o seu nome não mais voltará a ser considerado para qualquer dos Prémios atribuídos por esta Fundação."
O pior da esquerda portuguesa é o paternalismo com que trata os outros, como se todos fossem imbecis. O melhor exemplo será o PS, que nos toma por amnésicos, mas esta "intelectualidade" saramaguesca e acordesca não causa menos danos.
Melhor seria impossível.
Por falar em Mário Soares, deixo aqui uma dúvida que me assalta. Será compatível que figuras públicas de relevo sejam em simultâneo comentadores assíduos nos nossos meios de comunicação, e pertençam em acumulação a um órgão institucional de consulta do Presidente da República? Como exemplos desta situação aponto o Dr. Soares persistentemente ocasional, e o regular professor Marcelo. Assinalados como exemplo, não assumem um desperdício evidente estas idas a Belém, quando já são conhecidas publicamente as respectivas posições?
João Gonçalves. Ou o senhor retira imediatamente essa fotografia, ou terei de chamar imediatamente a polícia.
Gosto do comentário anterior - é perspicaz, persuasivo e cheio de argumentos...
Fabulosa crónica. Excelente artigo de opinião. Certeiro.
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