30.8.22

Marta Temido

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Desde o princípio que não era perceptível por que é o que o dr. Adalberto Fernandes foi substituído. Nem para ele foi, convém recordar. Era um fim de semana, e na PCM discutia-se um OE. Adalberto e Caldeira Cabral, então na Economia, participaram normalmente no debate em conselho de ministros. Quando a reunião acabou, o dr. Costa, mundialmente conhecido pela sua gentileza política, despediu ambos. E Adalberto é substituído pela ainda incumbente, a sra. Temido. A sra. Temido vinha precedida de um cv na área da Saúde que a recomendava para tudo menos, precisamente, para o sector. É ver o "histórico" dela à frente de uma ARS. Mas Costa não é homem para detalhes, e recrutou esta senhora que achou logo por bem confortar os então aliados parlamentares do PS, afirmando aliviar o stress no duche ao trauteio da "Internacional". Fez do SNS uma "causa" ideológica sem perceber, sem querer perceber, que o SNS é apenas uma parte de sistema nacional de saúde onde o peso das corporações é enorme. A seguir, deu de frente com a pandemia. E, praticamente, confinou o SNS à pandemia o que fez com que o dito emergisse no ano corrente na maior desgraça. Testemunhei a coisa num dos equipamentos hospitalares do SNS. O ano passado, a minha Mãe esteve internada, no auge do segundo confinamento, e as coisas correram bem, mesmo andando de um lado para o outro por quase tudo estar por conta da Covid. Este ano, entre Abril e Maio, voltou duas vezes ao mesmo equipamento hospitalar. Da primeira vez, saiu de lá com uma bactéria no nariz que acabou sendo tratada na residencial. Da segunda, onde lhe foi diagnosticada uma pneumonia, permaneceu mais dias internada e acabou subitamente com uma alta precoce. Entre a alta e a morte, não decorreram mais de três semanas. Entretanto, Temido, que já passara a pasta politicamente para Costa, continuou. E ainda a semana passada jurava que tudo advinha dos anos 80, talvez com a exclusão da pandemia, em que alguns idiotas úteis acham que ela desempenhou um papel fundamental. Pelo caminho, ficou para a história a entrega do cartão do PS, "intuitu persona", do Costa à senhora num congresso do PS no Algarve. Ela aquiesceu, curvada, e mal pôde foi de carro do ministério manifestar o seu apoio ao colega Pedro Nuno, cabeça de lista não sei por onde em Janeiro. Deve ter sido candidata a deputada, pelo que é mais uma a quem eventualmente será necessário dar lugar na bancada do partido. Se não for assim, é assado, e Costa arranja-lhe qualquer coisa cá fora, tipo nemesis do Medina. Costa não quis fazer-se entendido este tempo todo de uma evidência. Com a maioria absoluta, a senhora não devia ter ficado. Agora sai pela esquerda baixa. A dela, aliás. Não lamento. 

29.8.22

Portugal em Marte

https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/amp/portugal-em-marte-15121870.html


Ninguém explica aos portugueses que, para além da recessão provocada pela pandemia, e da inflação que já resultava das manipulações financeiras do "lado de cá", juntou-se o efeito "boomerang" da Ucrânia e das sanções, sem tom nem som, à Federação Russa. Desde Fevereiro que o centro do mundo ocidental passou a ser o regime de Kiev. Quando, na verdade, o que está no meio, a começar pela própria Ucrânia - um Estado sem uma nação -, são puras marionetas de uma redefinição geopolítica global em curso entre os EUA, a Rússia e a China, com um novo interlocutor oportunista pelo meio chamado Turquia. Esta União Europeia não tem altura para isto, como reconheceu indirectamente Macron. Portugal, a periferia, prossegue mantido na ignorância, na festança e no adiamento. Costa quer mais tempo para a "bazuca. Ainda lhe rebenta em casa.


 

28.8.22

Um partido a precisar respirar

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Como todos os demais partidos, o Chega, ao crescer, tornou mais evidente ser o que todos os partidos tendem a ser: um aglomerado, mais ou menos monolítico, de pessoas com interesses pessoais e políticos apenas coincidentes no estritamente necessário para a conquista do poder. O poder, aqui, varia de nacional a regional e autárquico. Partidos unipessoais como o Chega sofrem mais. Sem "massa crítica" - é mais "massa bruta" como os outros são, só que em maior número -, o Chega, isto é, Ventura, não pode dar-se ao luxo de que, cá fora, se perceba que há formas de vida inteligente, lá dentro, para além da dele. Por isso, a formação de um escol partidário específico estará sempre dificultada por esta obsessão com o "one man show" hiper histriónico. Por outro lado, um partido coral-sinfónico, com um único solista, da natureza do Chega, convém ao PS e à situação em vigor. Quanto mais Ventura berrar, menos se ouvirá a  outra direita que continua sem uma figura indisputável de autoridade moral e política no activo. Não que Montenegro não deva ser apoiado, como deve ser, mas o país precisa sentir outra coisa para se voltar, designadamente, para o PSD. O CDS, que acentuou a sua vertente unipessoal em Julho de 2013 e, até, no governo, acabou como acabou. Não sou dos que, à direita, excluem ou acantonam o Chega. Não é verosímil quando se trata do terceiro partido mais votado. Precisamente, é pensando nessa circunstância que Ventura deve orientar-se, e não por um narcisismo adulador e frívolo que não interessa a ninguém. Ventura tem de deixar o partido respirar. 

27.8.22

A “clara noite do nada”

 


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Tal qual Gore Vidal, detesto ser o meu próprio assunto. Mas sucedeu que, ontem, no meio do nevoeiro da praia das Maçãs onde fui almoçar e trabalhar (levo sempre o pc na mochila), deparo-me à saída com alguém que me acena de um carro. Aproximei-me e era uma funcionária, de nacionalidade brasileira, que trabalha na residencial geriátrica onde a minha Mãe esteve nos últimos três anos. Ela faz "noites", o que eu sabia, e aí perguntei-lhe se assistira à morte da minha Mãe, na madrugada de 14 de Junho. E ela, evangélica de culto (ia, aliás, para Cascais, a uma sessão), descreveu-me esses últimos instantes da minha Mãe. Desde esse dia que me atormentava pensar que, a umas escassas horas de ter estado com ela sem saber que era a derradeira vez, alguém seguramente testemunhou, lá dentro, e não a deixou sozinha, na passagem para a "clara noite do nada", recorrendo à magnífica expressão de Martin Heidegger. E então ela contou-me tudo, com um sorriso de esperança, que me sossegou. Não houve a aflição que eu presenciara nessa tarde longa, afinal a última. Isto é, eu é que devia lá ter estado, mas consolou-me finalmente saber que não morreu sozinha nessa madrugada. Nem aflita. O acaso e o indeterminado conduzem, afinal, a nossa vida e a nossa morte que faz parte dela. Duas pessoas que nunca estariam, a priori, destinadas a cruzar-se, a nossa cidadã brasileira a residir e a trabalhar na aldeia da Praia, e a minha Mãe, estão juntas no final desta vida de umas delas. Depois falou-me de mais mortes de meus conhecidos de lá que ocorreram entretanto. Despedimo-nos, e eu entrei no meu carro, estacionado a escassos metros, com o pão quentinho e duas bolas de berlim sem creme. Não arranquei logo. Fiquei ali, uns instantes, a chorar. Sim, um homem chora. Escolhi o Carlo Bergonzi para me fazer companhia musical no caminho de regresso a Lisboa. Ainda agora, hoje, quando escrevo isto, contemplando a mesa da "Roda" onde vim almoçar com a minha Mãe, há menos de três anos, sem sabermos que era a última, recordo ter-lhe perguntado se queria ir a casa, que é no mesmo edifício (tínhamos regressado de os "Lusíadas" onde ela fora a uma consulta de ortopedia, totalmente curada de uma pequena fractura de pulso na residencial), e não consigo definir o sentimento que sobrou da aclaração inesperada. A minha Mãe não quis subir as escadas até ao 3º andar e preferiu seguir para Sintra. Como escreveu um amigo meu, "ela nunca desaparecerá de dentro de ti e tu agora és quem a transpostas na tua vida." Exactamente. 

25.8.22

O homem do possível

 


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Eduardo Prado Coelho deixou-nos há 15 anos. Ao longo deles, neste blogue ou noutros locais, designadamente em dois livros (não houve mais, entretanto), escrevi bastante sobre ele. EPC não deixou continuadores. O que ele representava no debate público, cultural ou outro, não teve sequência. Ou melhor. Emergiram contingentes de "sistémicos" que se imaginaram, e ainda agora se supõem, subtis e sublimes analistas, mas que as circunstâncias devoraram . Pelo que existe uma espécie de colectivo onde dizem todos sensivelmente o mesmo, só que usam distinto palavreado. EPC tinha o cuidado, mesmo quando parecia "ir a todas", de evitar a tagarelice naquele sentido que Heidegger lhe atribuía. Havia método na sua dispersão e na sua multiplicação de interesses, como havia método na loucura de Hamlet. Volta e meia, abro ao calhas um destes livros dele, e leio ou releio. E continuo a sair de um parágrafo, de uma frase ou de uma palavra mais rico do que quando lá entrei. Por causa daquela permanente atenção e curiosidade pelo mundo, pela sua complexidade e pelos seus pontos de sombra e luz. EPC, nos títulos dos seus livros, deu sempre a entender o processo frágil, precário e contingente desse entendimento e que é, no fundo, o do conhecimento. Falta ali o "Hipóteses de Abril" que não faz sentido junto dos outros. Foi a pior fase, a da tentativa e erro do "intelectual orgânico" comunista, do "dg da acção cultural". Esse EPC nunca me interessou. O Eduardo, sim. Nesse seu todo contraditório e, pessoalmente, encantador. Nunca me esquecerei de, no frenesim da festa do primeiro ano do Frágil, ele me perguntar o que é que eu pensava da tese de doutoramento dele, adquirida uns dias antes na feira do livro com um autógrafo. Um estudante de Direito, do 3º ano, a caminho do 4º, que podia responder sobre "Os universos da crítica" que lia entre intervalos dos exames daquele Verão de 1983? Respondo hoje com uma frase dele, repescada porventura do diário ou de um último livro em torno de questões da filosofia e da linguagem, que usei no Twitter: "o homem do provável é o homem médio; o homem do possível é, na sua singularidade irredutível, o melhor de cada um de nós". EPC sabia, como poucos, extrair esse melhor de cada um de nós. O que não significa que tenhamos conseguido, ou que sejamos, sequer, melhores. Eu, pelo menos, com certeza que não. 

24.8.22

Despojos imperiais e reais

 


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A problemática da transumância do coração de D. Pedro IV, antigo imperador do Brasil, pode perfeitamente ligar-se a temática familiar da augusta pessoa. Com o mano Miguel, protagonizou, pelo lado dito "liberal", a guerra civil de 1832-1834. D. Miguel teve sempre o apoio de sua Mãe, Carlota Joaquina, que era assaz prolixa nos seus relacionamentos amorosos, especialmente com ingleses conspícuos que nos vieram "libertar" dos franceses. Antes deste regime, já o anterior tinha andado com as ossadas do homem do "grito do Ipiranga" caminho do Brasil. Agora, o alcaide do Porto expôs primeiro o coração ardente do imperador liberal - o primeiro antecessor dos chefes de Estado brasileiro até estes dois improváveis que vão em breve disputar Brasília, o incumbente chanfrado e o antigo presidiário ptista - que foi ontem entregue em mão ao Capitão Bolsonaro. O que não falta é órgãos e adornos para a troca. 


Imagem: "Balázio", Tal&Qual, 24.8.2022

23.8.22

Tempos interessantes

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Está a decorrer em Kiev uma coisa chamada "Plataforma para a Crimeia", sob o alto patrocínio do regime da cidade. Em pessoa, esteve lá pelo menos o presidente polaco, chefe de um Estado particularmente interessado na Ucrânia. E com uns antecedentes encantadores em matéria de história da Europa. Mas já li participações de Guterres, de Macron e até de Erdogan, todas no sentido do regresso da Crimeia e de Sebastopol aos braços de território ucraniano. Isto é, a antes de 2014 e 2015. Nessa altura, este mesmo Ocidente que hoje advoga isto, deixou a Federação Russa fazer o que lhe competia e apetecia, ou seja, recuperar território russo. Recupero palavras de Vasco Pulido Valente em Março de 2014. «A Rússia, disse Obama, é uma “potência regional”. Este exemplo de arrogância, e de inconsciência, não muda a realidade. O que a crise da Crimeia claramente deixou ver foi que a América já não é uma potência global. Não admira que a China se aproximasse da Rússia; e que, na África e na Ásia, se fale cada vez com maior insistência na “hipocrisia americana” (para não falar na “hipocrisia europeia”). Como não admira que a sra. Merkel, depois de se aliviar de umas frases pias, se preocupasse sobretudo em defender o interesse económico da Alemanha na Federação Russa. A América e a Europa saíram muito mal da suposta “confrontação” com Putin: sem unidade e sem iniciativa. Pior ainda: tão “apaziguadores” como os velhos de 1930, anunciaram em Bruxelas que reservam a sua verdadeira cólera para o caso de a Rússia persistir numa política de expansão, que Putin, por enquanto, rejeita. Mas que, se a confusão e a irresponsabilidade do Ocidente não acabarem depressa, não rejeitará sempre.» Parece, pois, que com a "Plataforma" de hoje, "a verdadeira cólera" ocidental foi finalmente rebocada pelo sr. Zelensky que não se tem cansado de afirmar, nos últimos dias, que só há paz com a Crimeia de volta. Macron, um interlocutor médio de Putin, até disse lá para Kiev que não pode existir nenhum espírito de compromisso ou exibição de fraqueza diante da Rússia. E Blinken acrescentou que a Crimeia é "tão" Ucrânia como as duas repúblicas independentistas do Donbass, com todos a recusar os referendos que a Rússia tenciona realizar. Traduzido em miúdos, o Ocidente pode ter hoje declarado oficiosamente guerra a Putin uma vez que a Crimeia não é negociável. Ou não. Depende dos telefonemas que se fizerem, à sucapa, quanto terminar a "Plataforma". Por outro lado, Zelensky começa a ter oposição interna ao seu desvario bélico sem a correspondente atenção à sociedade ucraniana como um todo. Que vivamos, outra vez, tempos interessantes. 

22.8.22

A “guerra” de Guterres

Guterres pediu paz, pelo menos ali. Erdogan jurou ir falar com Putin a seguir, sempre pedalando a bicicleta turca. E Zelensky, com cara de bebé chorão, deixou logo claro para os dois interlocutores que só haverá paz quando a Rússia sair de todos os espaços ocupados, incluindo a Crimeia. Em contacto telefónico com Macron, Putin "abriu" as portas da central à agência internacional que audita a segurança nuclear, "fechando" momentaneamente o acesso ucraniano à electricidade ali produzida. O que Guterres contestou imediatamente por se tratar de equipamentos em solo da Ucrânia onde a guerra continua. Em suma, e para variar, Guterres bem.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/guterres-bem--15106475.html?fbclid=IwAR1Kmyzffkt7jETJc-SDzgF7WAwVy7dwJ0gefPkwhcvbRAJrLqtZsqk2POA


 

21.8.22

Portugal envelhece e envilece

 


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Um estudo da Pordata - que faz hoje a manchete do "Público" - diz-nos sermos o país da Europa a envelhecer mais depressa. A "juventude" e os nascimentos não compensam o envelhecimento, uma coisa que contam a partir dos 65 anos. Isto quer também dizer outra coisa amplamente redita. A esperança média de vida aumentou, apesar dos dados mais recentes sobre a mortalidade portuguesa nos últimos tempos. Por outro lado, a juventude classe média alta e remediada faz os possíveis para sair daqui à primeira oportunidade. Por iniciativa própria ou, quando a condição sócio-familiar o permite, incentivados e pagos pelos paizinhos. De outra banda, temos as "famílias numerosas" autoctónes que fazem o que podem para se reproduzir em filhos, netos e bisnetos. O que aparentemente não chega. Imagino a desgraça no "interior", já que o país é, há muito, uma espécie de navio tombado com as maiores concentrações populacionais no litoral. Apesar do desprezo generalizado pelos "velhos", mais ou menos oficioso, a verdade é que esse é, afinal, o país que resiste no meio do envilecimento geral. Sim, não me enganei no substantivo. Portugal envelhece e envilece simultaneamente. Tornou-se numa sociedade amoral, acultural e associal sem grande futuro. Não lamento. 

20.8.22

A doer

9B0C67A0-B546-4AF6-A360-E88FFD4CA225.jpegIsto é o último parágrafo da crónica de Miguel Monjardino no Expresso. Claramente pró-ucraniano, Monjardino, contudo, não deixa de constatar o chamado óbvio ululante. Putin não quer saber do comunismo e da União Soviética para nada. O pan-eslavismo de Vladimir Vladimirovich é de outra natureza e, como dizia o outro, estava escrito nas estrelas (nas actas, nas gravações audiovisuais, etc.) que o que se está a passar, com maior ou menor infelicidade, ia passar-se. Putin não perdoa a década perdida, e embebida em álcool que ele não consome, de 90 e que, nomeadamente, a NATO aproveitou para se expandir até às fronteiras da Federação. A coisa vai continuar a ser a doer. 

Aguentem-se

 


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António Costa formou o pior dos seus três governos, este, o da maioria absoluta. Aos superficiais ou impreparados que já vinham de trás, juntou-lhes uns quantos que nada acrescentam ao bom andamento das coisas. Que, de uma maneira geral, não pode ser pior. Medina, por exemplo, só aparentemente foi recauchutado da desgraça camarária do ano passado (dos anos todos dele) com a "promoção" a ministro das finanças. A orgânica do governo relegou-o à irrelevância. E, de cada vez que ele julga poder superar a referida irrelevância, espalha-se (ou espalham-no, consoante as perspectivas). Temido é uma nulidade insuperável que vinha de trás e é sem remédio. O MAI, acolitado por aquela Gaspar dos fogos que só asneira, perdeu o Verão. Etc., etc. Não há "número dois", não há política. Há Costa. Por isso, estranho que alguém como esta senhora tivesse sido removida em vez de promovida no governo. Tem pensamento próprio (não é preciso concordar) e não receia fazer. Mas o governo não é meu em nenhum sentido. Aguentem-se. 

18.8.22

O urso na sala

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Guterres, Erdogan e Zelensky reuniram durante 40 minutos. O pretexto foi a segurança da central nuclear de Zaporíjia. A zona onde a central está implantada - e a propriamente dita - corre por mãos russas. Mesmo tratando-se do que se trata, aparentemente a guerra não dá tréguas àquela zona e é preciso permitir à agência internacional nuclear uma avaliação no terreno. Zelensky, como sempre, só ouve o que lhe interessa. Neste caso concreto, não estando (antes pelo contrário) envolvido qualquer fornecimento de armas, o presidente da Ucrânia fez questão de salientar, contrariamente aos outros dois que assentaram as respectivas prosas na diplomacia, que não há paz alguma sem os russos saírem de Zaporíjia. E, já agora, de todo o território ucraniano que, para Kiev, inclui o Donbass e a Crimeia. Erdogan irá agora falar com Putin. E não seria má ideia Guterres apalavrar rapidamente um encontro em Sochi. Porque o grande ausente deste encontro é fundamental neste nó górdio. Que continua bem atado. 

17.8.22

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Melhor era impossível 



Estive a ler as três paginas que o "Jornal de Negócios" ofereceu a Sérgio Figueiredo para se defender das maldades do mundo. Em nenhuma das páginas, porém, encontrei nada que aconselhasse particularmente "aquela" contratação para um ministro das Finanças. Encontrei, sim, um ressentimento feio em relação a uma pessoa que já não está entre nós (e que não se pode defender, como o autor, independentemente da bondade ou não daquela contratação concreta) e aqueles momentos que destaquei com um lápis e que estão nas fotografias. Ficamos a saber que o Estado ficou a perder com a ausência da egrégia figura de SF (foto1). Ficamos a saber que foi o pessoal do "ressentimento", activo ou passivo, incluindo jornalistas, que pôs sobretudo em causa a excelência de SF quando ainda nem sequer tinham saído debaixo das pedras, como ele, há mais de 30 anos (foto2). E ficamos, finalmente, a saber (foto3) que Medina não possui "ideias" para o ministério que tutela. Ele apenas "pensou em mim" (SF), preocupado consigo", ou seja, sem os atributos e os contributos de SF, Medina entraria, no mínimo, em depressão. E o país, sabe-se lá em quê. Só SF estava em condições de dotar Medina, "enriquecendo" a sua "visão da realidade, com as "ideias", as "expectativas" e as "sugestões" que SF lhe faria chegar. Para além do Estado, o próprio gabinete do ministro será um vespeiro de incapazes ligados a uma "central técnica" que não lhe fazem "chegar" nada que se aproveite. Finalmente, SF acaba a confessar que sabia bem ao que ia, e dentro dos parâmetros da "honestidade das pessoas" que se presume, evidentemente, até prova em contrário. Se os ministros se fartam de contratar "consultores", "agências de comunicação" e "escritórios de advogados", "só para dar três exemplos que todos os dias prestam serviços especializados a instituições públicas", porquê deixá-lo a ele, SF, fora deste circuito trivial? Melhor era impossível. 

O Balázio

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Quando escrevi o "Balázio" para o "Tal&Qual" desta semana, Marcelo ainda não tinha descido ao Algarve. O que "estava a dar" era a "car interview" para a CNNP. No regresso, já que é tão exímio condutor, podia vir pela Beira e passar na Serra da Estrela. O inteior não é o Gigi, os Tomates, o Ancão ou o último restaurante da moda no eixo Vale de Lobo-Quinta do Lago, no Garrão, de seu nome "António Tá Certo", aprendi no "Tal&Qual". Há sempre um país que vai morrendo que não espera por selfies.

Lisboa feia, porca e má

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Sou pouco dado a "movimentos" e a "associações". Todavia, não deixa de ser sintomático que haja lisboetas que entendem dever "substituir-se" à CML no elementar exercício de manter as ruas limpas. Ainda me lembro de quando as ruas eram regularamente lavadas pelos serviços camarários. Hoje, a generalidade dos "passeios" mete nojo. A questão do lixo é incontornável. Porque acarreta o resto aflorado no artigo: bicharada. Não apenas na rua, mas nos nossos prédios. Basta um "encerramento para férias" de um qualquer estabelecimento de restauração, a presença por perto de contentores de lixo, daqueles das cores por causa da "reciclagem", que parecem poços sem fundo para qualquer merda, e os próprios saquinhos do lixo acumulado  encostados a estes, e é um recreio para baratas e rataria. Uma cidade que só pensa no bem estar do pé descalço, ou calçado, que é despejado, de novo, aos molhos em Lisboa pelo aeroporto ou pelos navios altamente poluentes que atracam em Santa Apolónia, é uma cidade sem respeito pelos seus. Aparentemente, esta CML, em que votei, está mais interessada em ser mais um estaminé de eventos circunstanciais do que em fazer o que os seus cidadãos esperam dela. Com uma vereação medíocre, caciqueira por um lado, e simplesmente burra, por outro, como uma ou outra honorável excepção, Moedas completa, na verdade, um primeiro ano de mandato praticamente inócuo. Isto depois de ter tudo na mão para ser claro e distinto do seu sinistro antecessor. A paloncice e a obsessão pelo "turista" são insuportáveis. Há dois anos que deixei de frequentar o "centro". Da última vez que lá andei, não vi hora de regressar ao meu bairro. Também está feio, porco e mal frequentado, um mal geral. Lisboa está como se escreve nos carros cheios de pó: "lava-me, porco". 

16.8.22

Uma relassa fraqueza

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Faz hoje 122 anos que Eça morreu em Neuilly sur Seine. O “meu” preferido é Fradique Mendes e, claro, “Os Maias”, “A cidade e as serras”, o conto “O suave milagre”, a magnífica “nota contemporânea” sobre Antero, “um génio que era um santo” e “As Farpas", as dele. Volto a Fradique. Depois de várias peripécias na chegada a Lisboa por via férrea, vindo do Porto, já à beira do Hotel Bragança a bordo de uma caleche cujo cocheiro lhe pediu "não menos de três mil réis" pelo transporte, Fradique é reconhecido pelo homem, "à luz do vestíbulo" que lhe batia na face. "Então, são três mil réis?", pergunta Fradique. Responde o homem: - Aquilo era por dizer...Eu não tinha conhecido o sr. D. Fradique...Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser. Humilhação incomparável! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquele bandido conhecia o sr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos éramos portugueses.”

Faltou o F, de Festival de Cinema da Figueira da Foz

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Eu e mais dois colegas da Católica fomos até ao Festival de Cinema da Figueira da Foz, sempre em Serembro. Um, nessa altura, tinha umas vagas pretensões literárias - na realidade, entretinha-se a imitar os contos do Hemingway - e o outro, mais modesto, apenas gostava de cinema. Ficámos os três alojados numa miserável residencial, no mesmo quarto e com uma casa de banho infecta. Nesse ano, o filme "sensação" era "Francisca", de Manoel de Oliveira, e o "grande prémio" foi entregue à película francesa "Diva", a surpresa do Festival. Voltei. Outras companhias, outros quartos. Em dez dias, devo ter visto para lá de sessenta filmes. Calhou, até, apesar da "tenra" idade, "ver" - premonitoriamente - aquilo que viria a ser a minha vida daí em diante. Desses tempos singulares, recordo sobretudo atravessar o gigantesco areal da praia da Figueira, manhã cedo, até ao café em frente do Casino, depois de noites e noites inverosímeis. Aí, numa dessas manhãs, cedinho
, encontrei o Eduardo Prado Coelho a engraxar os sapatos e a preparar-se para ir até à gráfica, em Leiria, onde a sua tese de doutoramento estava a ser impressa para sair em livro no ano seguinte, "Os Universos da Crítica". Arrastava-me, depois, para toda e qualquer sala da cidade, onde passasse um filme de um realizador obscuro, para fugir às minhas companhias e de mim próprio. Em pleno processo de afundamento, o saudoso Herlander Peyroteo levou-me a almoçar a Buarcos. O que nos rimos. Houve ainda tempo para um jantar melancólico, num restaurante indiano (comida detestável, que nunca mais provei), em que acabei sozinho, com a garrafa de vinho, depois de ter conseguido proferir a palavra mágica. Passaram quarenta anos. Os dois colegas da Católica são hoje garbosos advogados da nossa praça. A companhia luminosa e funesta do ano seguinte foi economista numa multinacional e já tem um neto, pelo menos. O Prado Coelho e o Peyroteo já desapareceram. A Figueira desses dias também. O "pai" do Festival, o José Vieira Marques, ainda mais cedo se foi. Os outros, eu incluído, moveram-se. Aliás, tudo se moveu. "Nunca escrevi, julgando escrever, nunca amei, julgando amar, nunca fiz mais do que esperar", escreveu algures outra "heroína" do Festival, Marguerite Duras. Apesar dos anos decorridos, continuo sentado no mesmo banco de pedra da marginal, em frente ao Grande Hotel, a olhar para o mar inesquecível da Figueira. O semanário "Tal&Qual" dedicou-lhe um suplemento, a semana passada, de A a Z. E uma entrevista ao Pedro Santana Lopes, o edil. Faltou ali o F, do Festival de Cinema. Devolva-o à cidade , Pedro. Olhe que vale a pena. 

Quarenta anos depois

 


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Há quarenta anos - sim, em 1982, ontem - abriu o Frágil. Quando ouço a miudagem dizer - com a falsa intimidade de quem não sabe nada nem viveu ainda nada - que vai "ao Bairro", sorrio para dentro. O "Bairro" que eles conhecem, o dos shots, das ganzas e do copinho de plástico na mão no meio da rua, não é exactamente o mesmo Bairro Alto dessa altura. Aliás, quase todos os actuais frequentadores mais assíduos nem sequer eram vivos. O Frágil e, em restaurante, o Pap'açorda, recriaram o Bairro Alto em Lisboa, nos primeiros anos da década de oitenta. Manuel Reis, o José Manuel Miranda e o Fernando "mudaram" aquele lado da noite (só o último está vivo). Em rigor, criaram uma outra noite que tinha o seu coração na Rua da Atalaia. Saía-se de um para o outro lado e, cada noite, pelo menos nesse Verão primeiro, era a primeira. Única. O Frágil tinha sempre à porta homens e mulheres lindíssimos e sofisticados, fora uma posterior e lamentável autarca do PS em Lisboa. Anamar "começou" naquela porta, por exemplo. Lá dentro circulava gente para todos os gostos e todos os gostos eram relativamente saciáveis. Corri para o Frágil quase todo o mês de Agosto desse ano apenas variando nas companhias. Tinha vinte e um anos e, julgava eu, uma vida genial por vir. Tudo era possível. Nada ou muito pouco, afinal, veio. E tudo se revelou improvável ou, no limite, impossível. Entretanto o Frágil foi definhando até se tornar num estábulo indefinido - logo ele, cujo maior fascínio era justamente essa indefinição - que perdeu as graças dos deuses. Como escrevi noutra ocasião - e já estou em boa idade de não ter de inventar nada - "o ambiente toldou-se e virou lixo, em sentido material e humano. Uma vez, o Miguel Lizarro, em pleno Frágil, olhou em volta e sussurrou-me : "já reparaste, estão todos cheios de vontade de ir para a cama uns com os outros, mas ninguém avança". Alguém acabava sempre por avançar. Agora, nem vontade, nem cama, nem "avanços". Nada. É tudo de plástico como os copos. O Bairro Alto perdeu definitivamente o que tinha de mais belo: a sua noite, a sua autenticidade e o seu esplendor." 

15.8.22

Portugal precisa de um governo diferente

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Não estou preocupado em ser "popular". Muito menos no seio de qualquer partido, incluindo o PSD. É claro que, só a circunstância de ter um novo líder depois da catástrofe Rio, bastaria para, à direita e ao centro-direita, dar um voto (até amigo) de confiança ao Luís Montenegro. No meio do solipsismo absoluto socialista, do desaparecimento do CDS e da arrogância infantil da "nova direita", pede-se mais responsabilidade política e moral ao PSD. Julgo que foi esse o sentido fundamental da intervenção do líder do partido no Algarve: ser, sem ambiguidades, e com equipa à altura, o líder da oposição. Por outro lado, a presença da única figura com autoridade política sobre a direita toda no Pontal, ajudou a esta percepção. Refiro-me a Passos Coelho, evidentemente, e a umas suas declarações lá que passaram quase despercebidas. "Portugal vai precisar, não tenho dúvida nenhuma, de um Governo diferente daquele que temos e na altura própria os portugueses irão pronunciar-se sobre isso”. Não estar na vida política activa, como ele reiterou, é uma coisa. Outra é estar do lado certo das coisas e dizê-las com a claridade e a autoridade de uma biografia. Sim, o PS herdou, nesta década, um país diferente, para melhor, e uma sociedade mais segura e afirmativa para o melhor e para o pior. Porque no "interregno" sem PS, Portugal foi tratado como um país adulto, confrontado com as suas responsabilidades, deveres e direitos, e não como um permanente jardim-escola de flores e de facilidades ilimitadas. E isso tem um nome: Pedro Passos Coelho. O PSD não pode fazer menos que honrá-lo. 


 

A estação dos parvos

Os anglo-saxónicos designam este período do ano pela "silly season". Em Portugal, não existe propriamente uma "silly season" delimitada pelo calendário ou pelas férias. É um contínuo. Portugal, dos pequeninos, vegeta numa estação única, permanentemente estúpida. Ou, parafraseando a jornalista Ana Sá Lopes, no "Público", trata-se de um país onde estão permanentemente a fazer de nós parvos.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/a-estacao-dos-parvos-15092753.html?fbclid=IwAR1mJDnxSe3T6k9lr6j6gOqMDJCU8OiA-_muF16PmUreechTSqbor5PVk58&fs=e&s=cl


 


 


 

14.8.22

Gente alta

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O Calçadão de Quarteira voltou a ser politicamente frequentável. 

“Especificidades”

 


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Portugal teve, e tem, bons eurodeputados. Numa União Europeia com pouquíssimo escrutínio democrático - a Comissão é escolhida a dedo pelos chefes de cada governo e o Conselho Europeu, com governantes circunstanciais, é que manda -, seria natural que o Parlamento Europeu, apesar ou até por causa da dimensão, tivesse um papel mais consentâneo com a forma como é composto. Cada povo escolhe os seus, mas não viria mal a uma UE cada vez mais "nacionalista" e individualista, uma ligeira adaptação ao cosmopolitismo, a essência da própria ideia de Europa. Mas não. Sucede que a nossa Assembleia da República, a rebentar de mediocridades, não quer envolver candidatos portugueses a eurodeputados em listas com outros de outros países. O senhor Capoulas Santos, que já foi eurodeputado, acha que as "especificidades nacionais" (palavra de honra) se devem sobrepor à constituição de listas com outros. Uma das "especificidades" será a estupidez nacional? Têm medo de quê? 

Evangelho do dia

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(Lc 12,49-53)


"Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um baptismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra! Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra”.

“O país mais homossexual do mundo”

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Quatrocentas páginas. O mais curioso, pela chatice, é a obsessão dos perguntadores pela pergunta “culta”, isto é, “deixa-me lá mostrar ao Cesariny que sei tudo sobre surrealismo e, mesmo assim, quero que ele repita”. E ele repete praticamente em todas as entrevistas o mesmo sobre o “grupo”, a emergência do “grupo”, o esfarelamento do “grupo”, a pintura e a poesia, e isto e aquilo. Pena não ter ficado uma resposta tipo “e por que é não vai perguntar ao caralho?”. Dito isto, há verdadeiras “iluminações” em frases soltas de algumas respostas e aí, sim, vão “navios de espelhos”. Como sobre Pessoa, que apesar da sua grandeza “não saiu da mesa do café”. Ou a sexualidade. “A Grécia foi um amor que eu tive com um moço” Depois a PIDE, por causa de uma carta do moço (Carlos Eurico da Costa) que estava na tropa, entrou “na cama connosco. E assim começou Roma: mais sexo do que amor”. Prossegue. “Nem imagina a quantidade de pessoas que eu fiz. Dados os resultados concretos, troquei a Grécia por Roma. Sabe o que eu quero dizer? Há o Eros mental e depois há o que se espalha pelo corpo, que é outra coisa. Rapazinhos por dia, dois, marinheiros, três”. Com Salazar, “Portugal era o país mais homossexual do mundo. E não era só a Marinha. O 25 de Abril, com a libertação dos homossexuais, também libertou a Marinha desse hábito. Passaram a considerar-se uns homenzinhos que não fazem essas coisas. Agora fazem entre eles ou com um tenente qualquer”. Na página 376 está uma fotografia legendada “MC e João Grosso na estreia de Um Auto para Jerusalém, 2002”. Nem uma coisa, nem a outra. Não é o Grosso, é o Diogo Doria. E não é no D.Maria, que nessa estreia estava eu.

13.8.22

Almeida Bruno por Ramalho Eanes

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"Almeida Bruno era o típico oficial de Cavalaria, da ‘velha e nobre’ Cavalaria, que, com igual garbo militar, envergava, quer a sua farda de gala, quer o seu traje de combate."


https://sol.sapo.pt/artigo/778684/almeida-bruno-o-tipico-oficial-da-velha-e-nobre-cavalaria


 

Meditação sobre fatwas

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"Ver tanto(a) «ofendidista», tanto(a) defensor da «liberdade de expressão sim, mas com limites», tanto(a) adepto(a) da «censura para não conspurcar os factos», tanto(a) «controleiro da verdade», todos e todas perturbadíssimos com o atentado a Salman Rushdie dá-me volta ao estômago."


Me too, salvo seja.


DAQUI: http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2022/08/ainda-fatwa-salman-rushdie.html


 


 

Um governo pós-democrático absoluto

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Quando foi criada a Cresap - uma comissão  supostamente independente para avaliar os perfis de candidatos a lugares de topo na administração pública, escolhendo três elegíveis a apresentar ao respectivo membro do governo que, depois, nomeava um deles -, em 2011, fui contra. E também fui contra a presidência da dita pelo dr. Bilhim na foto. Afinal, ele tinha sido DG sob o mando de Costa na Justiça e tinha desempenhado outras funções de direcção na administração pública em pleno "socratismo". O que eu não sabia, apesar de estar num gabinete do XIX governo que o nomeou para a Cresap, é que Bilhim tinha sido uma "combinação" de alto nível entre AJ Seguro, então SG do PS na oposição, e o PM Passos Coelho. Bilhim era um "segurista" e o governo queria ser "isento" ali. Mal Costa arrumou Seguro com a brutalidade de que nos recordamos, e acede, com os escadotes do PC e do Bloco, ao governo, "arrumou" a Cresap a um canto. Bilhim entretanto saiu e os governos de Costa passaram a fingir que seguiam os critérios da Cresap, nomeando quem quiseram, e querem, "em substituição", ou directamente, ignorando os pareceres do organismo,  praticamente reduzido a figura de corpo presente. Sérgio Figueiredo, como é obvio, foi directamente da assinatura de Medina num papel para as Finanças. E Bilhim, que sempre serviu melhor ou pior a administração pública e já se aposentou, não se engana. Figueiredo é uma ofensa a quem serve o Estado por profissão. Há mais, evidentemente, mas são "figueiredozinhos" e "figueiredozinhas" perto deste passarão escarúnfio. São os habituais lacaios do partido que têm quotas nos gabinetes, por endogamia ou cu pelado nas secções. Já agora, e ao lado de Bilhim na capa do "Público", temos uma do "banco de fomento" (outra farsa nas mãos do poetastro nulo da Economia) a bater com a porta. A ofensa é, pois, geral, mas o poder é absoluto. É por isso que insisto sempre que estamos na pós-democracia. Esta gente da "ocidental praia lusitana," ou de outros ocidentes mais secos, ou não, nada tem a ensinar a Vladimir Vladimirovich. É capaz de acabar por ser mais ao contrário. 

12.8.22

“Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros.”

Artigo interessante da Ana Sá Lopes no "Público". Portugal, depois do descrédito clamoroso dos mandatos de Marcelo, vai com certeza precisar de uma voz isenta de comando, acima da famosa "bolha mediática" de que o "politólogo" Costa Pinto, citado no artigo, é um belo exemplo. Ser militar, hoje em dia, é evidentemente mais honroso que pertencer, por exemplo, à longa mão das grandes empresas de advocacia ou de consultadoria que produzem fenómenos do Entroncamento que acabam nos governos e a rodar, a seguir, por onde lhes pagarem mais. Veja-se o caso do senhor Figueiredo do senhor Medina, vindo directamente da "bolha", para parasitar o Estado e os contribuintes à custa da sua alegada "competência". Os cemitérios estão cheios de Figueiredos e de bons e de maus malandros. Força, meu Almirante.


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11.8.22

Colagens

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Há anos e anos que não frequento lupanares. Simultaneamente, fecharam os cinemas onde se podia ver pornografia. O que quer dizer que vejo pouco ou nada das televisões portuguesas. Li, todavia, que a veneranda figura do chefe de Estado, numa entrevista dada na condição de condutor de automóveis, afirmou o seguinte: "A direita cometeu um erro que nunca percebi: os sucessivos líderes da direita descolavam de mim em vez de colarem a mim, descolaram ostensivamente de mim. Quem é que se colava a mim? O primeiro-ministro e o PS". Ora este "pensamento", esta proposição, leva à seguinte conclusão. Marcelo nada fez para "descolar" o PM e o PS da sua extraordinária pessoa. Pelo contrário, no campeonato da "colagem" de uns e outro, Marcelo levou sempre vantagem desde 2016. Não fez, aliás, outra coisa no primeiro mandato para poder garantir votos socialistas que suprissem a eventual ausência de votos da direita quando se recandidatasse. Hostilizou de todas as maneiras e feitios Passos Coelho até ele se ir embora. A Rio não precisava de fazer nada porque ele próprio e Costa encarregavam-se da famosa "colagem". Agora receia que não lhe liguem - o PM e o PS já não precisam dele para nada - e que o PSD se "autonomize" ainda mais de um presidente que, sendo dos "seus", conseguiu a proeza de ser menos isento em sede de "colagens" que os dois presidentes socialistas em relação ao PS. Nada, antes pelo contrário, indicia que o resto do mandato não passe da vulgaridade e da superficialidade. Marcelo aprecia ser rebocado pelo governo. E o governo não se importa nada de o rebocar. Facultou-lhes a maioria absoluta com aquela tolice diária sobre o orçamento. Não foi a direita que não esteve do lado certo das coisas, para usar a expressão do Paulo Portas para apoiar a sua recandidatura. Foi ele. Ainda bem que não estampou o automóvel com tanta conversa de chacha. 

Quem?

 


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Não sei o nome dela. Lembro-me que presidiu à Camara de Abrantes - onde não deixou grandes recordações-, posto do qual saiu para ministra da agricultura. Depois disto, fica-se na dúvida. Ela tem noção do que afirmou? Se tem, é grave. Revela um sentido de Estado ao nível de uma osga. Se não tem, é estúpida. Prefiro a segunda hipótese. 

A vida que mudou

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Pouco antes de o Facebook me interditar, pela segunda vez, 30 dias, aconteceu o que descrevi neste post. Reproduzo-o aqui simplesmente porque hoje vim almoçar ao "Neptuno", na praia das Maçãs, que foi o meu segundo escritório nestes últimos (quase) três anos em que a minha Mãe esteve numa residencial geriátrica aqui perto, a pé, onde viria a morrer em Junho. Explico a coisa porque não andava pelo blogue. E o meu regresso tem, também, essa diferença fundamental. Eu mudei. A vida mudou. 


Agora mesmo [dia 3 de Agosto de 2022], mais de um mês e meio depois, arranjei coragem para retirar da bagageira do carro o pequeno malote onde alberguei as únicas coisas que me apeteceu trazer do quarto onde a minha Mãe tinha morrido há apenas umas horas. Ela ainda estava lá, serena, como que dormindo. E eu fiz tudo devagar. O grosso do que lá estava, nomeadamente roupas, ficou para outro destino. Tudo o que aqui veio era sobretudo simbólico, desde alguns livros (outros doei à biblioteca da residência) aos óculos. Se escrevo sobre isto, é porque, escrevendo, a minha dor irreparável descansa nestas curtas palavras. E peço ajuda ao autor do livro em primeiro plano para completá-las. “Todas as coisas que amei ou acarinhei me foram roubadas. Morremos albergando em nós uma miríade de amantes e de tribos, de sabores que provámos, de corpos como rios de sabedoria onde mergulhámos e nadámos contra a correnteza, de personalidades como árvores a que trepámos, de medos como grutas onde nos escondemos. Quero tudo isto marcado no meu corpo quando morrer. Acredito nessa cartografia - quando é a natureza que nos marca, em lugar de apenas inscrevermos o nosso nome num mapa, como os nomes dos ricos nas fachadas dos edifícios. Somos histórias colectivas, livros colectivos. Não somos escravos nem monogâmicos nos nossos gostos ou experiências.”


 


 


 


 


 

Um Delgado tardio?

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Sinceramente, nunca pensei que o cargo lhe subisse à cabeça. Conheci-o  no Verão de 2002, em Santa Maria da Feira, num concerto do São Carlos onde eu era, na altura, membro do conselho directivo. O Paolo Pinamonti, o presidente do dito e director artístico, apresentou-nos. Santos Silva fora o último ministro da Cultura de Guterres. Depois, encontrei-o no próprio São Carlos onde sempre nos cumprimentámos e falámos afavelmente. Dois anos depois, Sócrates "furtou-o" a Alegre (que Augusto apoiara) e fez dele ministro dos Assuntos Parlamentares, primeiro, e da Defesa, no fim. Costa promoveu-o a "número dois" (uma coisa que inexplicavelmente agora não tem) enquanto MNE. E, no absolutismo socialista, a PAR. Como presidente da AR, para meu desapontamento estritamente pessoal, pois, como digo, considero-o, ASS comporta-se tal qual um mero deputado secundário e caciqueiro do PS. Para este efeito, sabe melhor que ninguém que pode sair da Mesa e ocupar o lugar de deputado na sua bancada. Aí, todos os comícios são admissíveis. Na Mesa, não. Eis, porém, que ASS quer ser candidato presidencial das esquerdas em 2026. Para isso, lamentavelmente, anda a fazer exactamente o oposto de Humberto Delgado que com certeza acha admirável. Delgado, consabidamente, começou fascista e acabou anti-fascista unitário. Santos Silva começou trotskista e quer acabar cadinho das esquerdas a partir do PS a que aderiu tardiamente. É um direito dele. O que não temos é de suportar tiradas retóricas como a ilustrada, a partir do "Jornal de Notícias",  para este efeito estritamente egoísta. Eu julgo que o senhor é melhor que isto. Não me desiluda. 

Almeida Bruno

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Uma rosa no Largo da Luz


 



Após uma consulta nos Lusíadas, dei uma volta diferente. Parei no Externato da Luz. Ia dizer que me ficaram lá quatro anos, dois de "primária" e outros dois do "ciclo preparatório", mas eles é que ficaram comigo. Tudo evidentemente mudou de 1973 para cá. Novos edifícios, recuperação dos antigos, o recreio com outra configuração e o que era um campo improvisado de bola, de areia, submerso por eles. A ideia era estar um bocado na igreja do seminário, onde íamos semanalmente à missa e onde fiz a primeira comunhão, mas estava fechada. Tudo, naturalmente, estava fechado e em silêncio. Éramos felizes? Fomos felizes? Claro que sim. É a unica certeza que possuímos, a do passado, como escreveu o católico Evelyn Waugh. Só não enterrei qualquer objecto que pudesse hoje ter recuperado enquanto sinal dessa felicidade, como no livro dele. Em compensação, Deus colocou uma rosa no passeio contíguo ao seminário que trouxe para o carro. Nela vi a professora Maria Emília, o padre Manuel que me ensinou a amar o Português, e a respeitá-lo, o sr. Sobreiro da matemática, das ciências e de uma bofetada dada aqui e ali com preceito. E até o padre Filipe, o director, a única pessoa que me deu umas reguadas porque, enquanto chefe de turma, não soube manter os outros em silêncio antes de uma aula. Os meus Pais também são esta rosa, eles que vieram assistir ao evento da primeira comunhão, testemunhado ainda agora lá em casa  pela vela guardada algures. Uma rosa que é uma rosa que é uma rosa que é uma rosa. Eternamente. 

10.8.22

Brincando com o fogo

 


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Houve um incidente militar na Crimeia, junto ao mar. Apesar da ambiguidade do mesmo - Moscovo não explicou com precisão o que ocorreu ou deixou de ocorrer numa sua base -, o que pareceu (e o que parece, é) tratar-se foi de um ataque ucraniano através de equipamento adequado fornecido pelo "ocidente". Para efeitos correntes, a Federação Russa terá sido atacada, por interposto regime de Kiev, com material bélico presumivelmente de origem norte-americana. E mesmo que não tenha sido nada disto, e se se tivesse tratado, por exemplo, de uma explosão ocasional, subsiste todavia um facto. O facto consiste em que Zelensky afirmou hoje que a guerra só terminará quando o regime de Kiev recuperar a Crimeia. Esta incontinência verbal, já costumeira no homem, deverá ser analisada cuidadosamente em Moscovo. Putin não deve ter achado graça quer a isto, quer ao regresso assustado e apressado dos banhistas russos à pátria-mãe. Ao contrário da China, que andou em jogos de consola à volta de Taiwan, a Rússia está no terreno e em guerra, mesmo que o termo usado seja "operação militar especial". Ou muito me engano, ou a "operação" vai aquecer. E muito. Sempre compensa o frio que alguns irão rapar daqui a umas semanas quando "cortarem" no gás e na electricidade "europeias". 

O Balázio

 


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Por amável convite do meu amigo José Paulo Fernandes Fafe, passei a escrever um pequeno parágrafo para o semanário "Tal&Qual" há uns meses. Intitula-se "O Balázio" e é coisa curta e grossa, precisamente o efeito que se deseja que um balázio produza. Quando de puxa de uma arma, não convém ignorar para que é que ela serve. Caso contrário, mais vale mantê-la no coldre. Fica, assim, aqui o de hoje. 


 


 

“Meditação na pastelaria”

"Agora que Zelensky vem com proposta semelhante para os cidadãos russos, secundado pela Estónia, Letónia e Finlândia, curiosamente, os corações democratas que deitaram lágrimas de sangue com o absurdo de Trump ou apoiam ou estão calados que nem ratos perante uma ideia que se esperaria saída de uma reunião de crianças da Primária ou da cabeça de uma Miss Mundo. Isto de ter memória e a Wikipédia à mão é lixado!"

 

A Ana Cristina Pereira Leonardo no seu "Meditação na Pastelaria"

 


 

O “meio” e os outros

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Não conheço Pedro Almeida Vieira a não ser daqui, dos blogues, de alguns livros dele e da sua actividade, descrita nomeadamente no Facebook, via um jornal online intitulado "Página Um". Entre outras coisas, suponho que PAV seja jornalista no sentido técnico, da "carteira". Em compensação, conheço demasiado bem a ERC cuja extinção há muito advogo. Parece que a ERC "condenou" um "cidadão" (este PAV) por a andar a chatear. O que confirma o que eu sempre disse e confirmei ao vivo. A ERC é uma "longa manus" do regime e, dentro deste, de quem manda circunstancialmente nele. Depois, a forma como o jornalismo oficioso e oficial se refere a estas coisas - relacionadas com pessoas que não são do "meio" - dá bem a noção do tipo de endogamia quase erótica que se pratica nos OCS e nas agências noticiosas. Até as putas são mais solidárias umas com as outras, caramba. 


 

9.8.22

Uma provocação

 


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Durante muitos anos trabalhei na Inspecção Geral de Finanças, um organismo que a lei designa por "inspecção de alto nível". A IGF é, tal como o Tribunal de Contas noutro plano, a grande avaliadora de políticas públicas, do controlo público. Em colaboração com outros organismos congéneres internacionais, nomeadamente a OCDE,  aperfeiçoou ao longo do tempo os seus "skills" nessa matéria. E, que eu saiba, não recebe lições de ninguém. Outras inspecções "sectoriais" também avaliam as respectivas políticas públicas na sua execução. Ou seja, o Estado dispõe de técnicos especificamente treinados ao longo de muitos anos para fazer, com precisão, rigor e isenção, o que um avençado de luxo alegadamente vai fazer. Precisamente no ministério que tem a tutela técnica da IGF. O avençado não é uma personagem neutra. Foi jornalista, administrador de uma fundação do regime e director de um órgão de comunicação audiovisual. Nesta qualidade, aliás, "desafiou" o agora ministro a ser comentador nesse órgão. Por muito talentosa que esta variação do Mr. Ripley seja, não pode manifestamente desenvencilhar-se sozinho no que irá fazer. É da natureza da coisa. Há-de querer gente. E não estou a imaginar profissionais do controlo público a sujeitarem-se a ser "orientados" por esta vedeta. A transumância em matéria de interesse público deve ter limites. Sei que é difícil de entender isto quando a pauta vem à partida suja. E a sonoridade habitual é puramente amoral. Nada habilita especialmente este cavalheiro Figueiredo para a função em apreço, a não ser a "amizade" que o liga a quem o chama. Cá para fora, todavia, isto só tem um nome: provocação. Já estávamos habituados em relação ao político em causa. Na verdade, é apenas mais uma. Quem se importa?

MCV

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poema


Reconheço este quarto impermeável
reconheço-te estás adormecido
o peito muito aberto as mãos luminosas
o grande talento dos teus dentes miúdos


Há o perigo de um grito lindíssimo
quando andas assim comigo no invisível


Quando a manhã vier sairás comigo
para o espaço que nos falta para o amor
que nos falta


A aurora
está fatigada


a aurora
como um rio nosso
em torno dos elevadores


Tinha eu a idade
de um marselhês
silencioso
e tímido


Tu davas-me a lousa dos magos
o teu riso as letras
mais obscuras do alfabeto


Foi há muito tempo
ou agora
na caverna dos leões expressivos


A caverna que dá para a caverna
a caverna os lagos diligentes


Belo tu és belo
como um grande espaço cirúrgico


Porque tu não tens nome existes


A minha boca
sabe à tua boca


A minha boca
perdeu a memória
não pode falar as palavras
entram no seu túnel
e não é preciso segui-las


Disse que és alto
alto
branco e despovoado


Mário Cesariny, nascido a 9 de Agosto

8.8.22

Nada de novo debaixo do sol

Aprovada a chamada "Intangível", a lei da separação da Igreja e do Estado, em Abril de 1911, o jacobinismo terrorista não se privou de nada. Nas palavras de Vasco Pulido Valente, "espancou padres, proibiu ou interrompeu cerimónias (dispersando, por exemplo, procissões pela força ou ameaçando católicos que persistiam em assistir à missa), roubou objectos de culto e conspurcou altares". Não vale a pena, evidentemente, citar os jornais do partido sobre a matéria. Se uns diziam "mata", os outros sugeriam "esfola" e assim sucessivamente. Porque lembro isto tudo em plena estação dita estúpida? Porque, a pretexto dos trabalhos de uma comissão laica criada para o "levantamento" dos abusos sexuais na Igreja, está em marcha o maior ataque à ICAR, em Portugal, desde esses "bons" tempos do doutor Afonso Costa. A comissão tem a bênção de todo o regime, presidente da República incluído, que, na sua habitual pusilanimidade (está cada vez mais parecido com o velho e senil Arriaga das "Harmonias Sociais"), começou por se afastar "pessoalmente" da coisa para, "pessoalmente", poder estar com Manuel Clemente, o patriarca, e agora apoiar entusiasticamente a comissão que, segundo ele, deve prolongar os trabalhos o tempo que for preciso. Entretanto, Clemente, nas suas próprias palavras, tem sido "assassinado" no seu carácter, e esteve com o Papa a quem colocou o lugar à disposição do sucessor de Pedro. É porventura fel que conhece bem, e que agora prova, depois dos "esforços" para prevenir a ascensão de Carlos Azevedo a patriarca no lugar dele. Assim, a Igreja conseguiu ser atacada por duas vias na prolixa opinião que se publica e que a odeia. Por um lado, por ter "escondido" abusos e silenciado "vítimas" que brotam constante e retroactivamente, debaixo das pedras, em directo, para os jornais e para as televisões. Por outro, pelas trapalhadas relacionadas com a Jornada Mundial da Juventude de 2023, em Lisboa, onde já não há cão nem gato que não venha em socorro do Estado laico por causa dos "milhões" a gastar. 


(Hoje no "Jornal de Notícias": https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/nada-de-novo-debaixo-do-sol-15077536.html?fbclid=IwAR0C89U-Kw0_Tcw41yir3ca5jCPndMPmYh_n-3Ipn9UgbcKa_81pZCWwAyI&fs=e&s=cl)

O meu professor Vasco Pulido Valente

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A minha derradeira participação aqui, na blogosfera, foi num outro blogue, o Contra-Corrente, a pedido do Nuno Lebreiro. Escrevi sobre uma faceta menos conhecida de Vasco Pulido Valente que tinha morrido nesse ano: a de professor. Meu. Duas vezes. Com a devida vénia àqueles meus amigos, aqui fica o link:


https://dossiers.contracorrente.pt/2020/11/o-meu-professor-vasco-pulido-valente.html


 


Passou muita coisa entretanto. E, sobretudo, passaram demasiados anos e demasiados fracassos, inteiramente pessoais, sobre estas recordações relativamente inúteis. Fi-las com o único propósito de me lembrar de Vasco Pulido Valente no dia em que faria setenta e nove anos. Ele que, precisamente, “ajudou” a “preparar-me” para aquilo que podia ter sido e nunca fui. E para lembrá-lo a eventuais terceiros, não apenas como o historiador, o polemista, o comentador, o cronista, o político, etc., como será mais “conhecido” – qualidades de que outros falarão melhor e mais acertadamente do que eu -, mas como alguém que conheci e retive, também, enquanto professor. O meu professor Vasco Pulido Valente, que me ajuda permanentemente a resistir à mediocridade. Valendo o que valem, estas recordações são evidentemente para a Margarida.

Regresso a casa

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Decidi, após as estúpidas interdições do grupo Meta - Facebook -, retomar a actividade do blogue "Portugal dos Pequeninos". Quando o criei, há quase 20 anos, o país não era muito diferente do que é agora. Na altura, usei um verso do O'Neill como epígrafe: "neste país em diminutivo, juizinho é que é preciso". Quem diz juizinho, diz respeitinho. Ora eu, 20 anos mais velho, continuo a não ter nem muito de um e nada do outro por esta choldra. Tudo o que me aconteceu, e nos aconteceu entretanto, reforçou a minha convicção. Se é que, sobre Portugal, se pode falar em convicções, lugar mal frequentado (um abraço para o Além ao António Ribeiro Ferreira) desde que o outro veio de Guimarães por aí abaixo. A tripla no cume do Estado a que isto chegou é das piores desde os idos da República do outro Costa. O "povo" também não se recomenda particularmente. Enfim, se persistimos pequeninos, por que não falar disso mais apuradamente como "soía"?