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20.10.15

Pensar o mundo


 


«O que se passa em Portugal desde a noite eleitoral de 4 de Outubro passado é, neste sentido, tão evidente que todos os comentários se tornam supérfluos e dispensáveis. E a evidência é só uma: o socialismo democrático (ou, se quisermos, a social-democracia europeia, mas o mesmo se pode dizer do socialismo “tout court”) é hoje apenas o nome de uma marca sem um conteúdo identificável, o retrato de uma posição sem estratégia, a confissão de uma ambição sem convicções. O canibalismo político tem por isso, aqui, um dos seus pastos de eleição, como os próximos tempos não deixarão de confirmar.»


 


Manuel Maria Carrilho

6.11.14

Contra os necrófilos rituais de autoconsolação


 


Manuel Maria Carrilho escrevia ultimamente às quintas-feiras no Diário de Notícias. A "renovação" a que se entregou aquele jornal - é dos mais "renovadores" desde os tempos do Doutor Salazar, passando pelo PREC, idos recentes e chegando aos ambíguos dias de hoje - determinou a sua saída. Muitas vezes as referi aqui e, como não leio praticamente nenhum dos incumbentes uma vez que quem lê um, se conseguir, lê todos, sinto a sua falta. É claro que num "espaço público" quase inteiramente tomado pela trivialidade, pela suspeita, pelo ressentimento e pela frivolidade (seja qual for o "sector" abordado já que estão todos tão imprudente quanto perversamente misturados), pensar em qualquer coisa de forma diversa chega a ser insultuoso para a doxa. Não é só a filosofia que incomoda a estupidez como dizia G. Deleuze. Agora é o confronto da estupidez consigo mesma, enquanto "narrativa" global, que incomoda, ou talvez não, porque se instituiu progressivamente como uma "prática" dos vários poderes fundidos numa mesma obsessão comunicacional tosca. Ao arrepio desta preocupante tendência, sempre surpreendi Carrilho (cito-o de agora em diante) «mais interessado em responder aos novos desafios que o mundo apresenta do que em participar em necrófilos rituais de autoconsolação». Se, por exemplo, um representante do poder político não conhece o seu lugar nem se dá ao respeito, há o risco do grotesco em política tal como o definiu M. Foucault, isto é, «aquilo que se revela quando "a maximização dos efeitos de poder acontece a partir da desqualificação de quem os produz".» Mas, «como vivemos a folhetinizar tudo, acontecimentos e idiotices, catástrofes e efemérides, escândalos públicos e vidas privadas, escapa-nos tanto o sentido da história que explica como o pressentimento do futuro que mobiliza. E o presente torna-se, assim, numa interminável e pura actualidade, ora mais gelatinosa ora mais granítica, mas sempre cega e sem contexto, reduzida a protagonismos, a conflitos e a fait-divers. A informação conta muito, claro. Foi de resto um jornalista, Jean-François Kahn, quem melhor caracterizou a ideologia mediática hoje dominante (quase apetece dizer: a ideologia do "partido dos media") como um cocktail de infantilismo, de liberalismo e de conformismo. Cocktail que transforma, como já uma vez escrevi, o espaço público português num espaço sufocante de lérias, lamúrias e larachas, que a alternância entre a banalidade e a boçalidade procura converter num simulacro informativo. O atordoamento da sociedade portuguesa resulta, em boa parte, disto: da nossa submissão a uma actualidade que se vive como incontornável mas, ao mesmo tempo, sem sentido.»

15.7.13

Contra a armadilha do voluntarismo


 


Não há muito mais para dizer nem muito mais para ouvir por enquanto. Todavia, às 21 na sicn, Mário Crespo fala com Manuel Maria Carrilho, um não avençado da tagarelice e das ideias feitas. Vale sempre a pena escutar. «As lideranças do futuro terão de resistir à armadilha do voluntarismo, seja na forma que conduz a contraproducentes provas de força com a sociedade, seja quando ele se refugia num qualquer tipo de determinação mais ou menos iluminada. São outras as qualidades que se requerem aos reformadores do nosso tempo. Acima de tudo, o que conta é mostrar capacidade de composição com a própria sociedade: na sua diversidade, na sua fragilidade e na sua complexidade. Não só porque o voluntarismo afasta e exclui, enquanto a composição motiva e integra, mas também porque só assim se consegue criar o espaço de manobra necessário para lidar com os problemas do nosso tempo.»

27.9.12

Pensar o mundo e repensar Portugal






«Pensar o mundo é o que tem faltado à União Europeia desde que se deixou embalar na miragem de uma moeda única que só traria benefícios e não teria custos, hiperbolizando a sua capacidade e ignorando olimpicamente as dificuldades, tanto internas como externas, que entretanto se multiplicavam. Até ao ponto em que os desafios exteriores e os seus desequilíbrios e impasses interiores a colocaram à beira do colapso, onde estamos. De um colapso a que agora só um improvável federalismo político e um prudente proteccionismo estratégico nos poderão poupar. Pensar o mundo é também o que Portugal precisa de fazer, se quisermos "dar a volta" aos seus problemas, de modo a que o futuro seja realmente diferente do passado. Portugal precisa de um novo projecto, ousado e realista, que não pode ser dirigido nem pelos lobbies habituais nem pelos cleptocratas do costume, que nos últimos anos atiraram Portugal para o indigenato europeu e para a irrelevância internacional.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN







Nota: Pensar o Mundo reúne em dois volumes a obra de M.M. Carrilho dos últimos trinta anos. A sua apresentação, por Eduardo Lourenço, decorre no Palácio Galveias pelas 18.30. Carrilho foi o último ministro da Cultura de Portugal. Estes livros resumem o seu "combate" pelas ideias contra o pensamento débil que nem sequer chega propriamente a fazer "escola" num país onde não há "pensamento" algum. O seu  registo é o do ecletismo intelectual, logo evidenciado em 1982, em O Saber e o Método. É socialista mas nunca se deixou atrapalhar pelo proselitismo partidário ou pela indigência oportunista do aparelhismo e do caudilhismo saloio. É, sobretudo, um amigo que me enobrece com a sua amizade e com quem aprendo todos os dias a pensar melhor o mundo.


 

13.9.12

Agnotologia






«O economês/financês tornou-se a mais resistente forma de ignorância contemporânea sobre as pessoas, a sociedade e o mundo. Devia, por isso,  ser estudado pela "agnotologia", essa recente disciplina criada por Robert N. Proctor, da Universidade de Stanford, para estudar a ignorância, entendida esta não como algo destinado a ser superado, mas como algo de intencionalmente fabricado, produzido com a devotada colaboração de diversas formas de informação e de conhecimento. É por isso urgente questionar seriamente, e em todas as dimensões, esta disciplina e os seus dogmas, com o objectivo de quebrar a arrogante ortodoxia que a estrutura, e de introduzir um verdadeiro pluralismo no seu interior, nas suas abordagens e nas suas propostas.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN


 


Foto: "Caixa" que reúne, em dois volumes e em sequência cronológica, os vinte livros publicados por Manuel Maria Carrilho no decurso das últimas três décadas (1982-2012) e que estará mas livrarias a partir de 27 de Setembro (Grácio Editor)

8.11.11

LER OS OUTROS

Sempre estimulante. Mesmo quando não se concorda com tudo.

LER OS OUTROS

Sempre estimulante. Mesmo quando não se concorda com tudo.

9.4.11

CONTRA O CARROSSEL DE IRRESPONSABILIDADE


O único socialista a quem convém prestar atenção - neste fim de semana de manifestações públicas do mais infecto e descerebrado servilismo partidário de que há memória - é Manuel Maria Carrilho. Não está em Matosinhos (não é dado a figuras de urso ou de carneiro mal morto) a participar em congregações neo-fascistas, nem em Marte a desejar "compromissos" pastosos. É na tvi, depois das 20h, enquanto contempla, de longe, o ensandecimento colectivo do seu partido.

CONTRA O CARROSSEL DE IRRESPONSABILIDADE


O único socialista a quem convém prestar atenção - neste fim de semana de manifestações públicas do mais infecto e descerebrado servilismo partidário de que há memória - é Manuel Maria Carrilho. Não está em Matosinhos (não é dado a figuras de urso ou de carneiro mal morto) a participar em congregações neo-fascistas, nem em Marte a desejar "compromissos" pastosos. É na tvi, depois das 20h, enquanto contempla, de longe, o ensandecimento colectivo do seu partido.

27.3.11

«HÁ PETRÓLEO NO LARGO DO RATO?»


Não tenho culpa de ele ter quase sempre razão. Aqui e aqui.

«HÁ PETRÓLEO NO LARGO DO RATO?»


Não tenho culpa de ele ter quase sempre razão. Aqui e aqui.

8.3.11

PÔR A PENSAR


Manuel Maria Carrilho - fora da cartilha do seu partido e da "tudologia" que grassa nas televisões - estará às terças, a começar hoje, dia 8, na Edição das Dez na tvi24 conduzida por Paulo Magalhães. Parece que há comentário político em demasia nas televisões mas é mais tagarelice de raiz única (ou tédio) do que outra coisa qualquer. Não é esse o caso de Carrilho, concorde-se ou não com ele. Não basta ser um excelente comunicador. É preciso aproveitar o tempo e o espaço televisivos de opinião para pôr os outros a pensar e não para pensar apenas pelos outros. Julgo que Carrilho faz isso bem.

PÔR A PENSAR


Manuel Maria Carrilho - fora da cartilha do seu partido e da "tudologia" que grassa nas televisões - estará às terças, a começar hoje, dia 8, na Edição das Dez na tvi24 conduzida por Paulo Magalhães. Parece que há comentário político em demasia nas televisões mas é mais tagarelice de raiz única (ou tédio) do que outra coisa qualquer. Não é esse o caso de Carrilho, concorde-se ou não com ele. Não basta ser um excelente comunicador. É preciso aproveitar o tempo e o espaço televisivos de opinião para pôr os outros a pensar e não para pensar apenas pelos outros. Julgo que Carrilho faz isso bem.

13.2.11

MODO DE INTERPRETAR


«Eu exprimo-me livremente e acho que faz parte da liberdade de todos os militantes afirmarem se são ou não são candidatos no momento em que eles quiserem dizer se são.» Isto foi o que Manuel Maria Carrilho disse ontem na tvi. A partir daquilo que ele disse, a interpretação mais divulgada nos "órgãos" é a de que Carrilho praticamente se instituiu candidato a secretário-geral do PS. Interpretar consiste em produzir conjecturas ou cálculos sobre as intenções dos outros. Neste caso, não interpreto. Apenas constato que Carrilho não costuma andar a toque de caixa de ninguém. Isso, de certeza, ele disse.

MODO DE INTERPRETAR


«Eu exprimo-me livremente e acho que faz parte da liberdade de todos os militantes afirmarem se são ou não são candidatos no momento em que eles quiserem dizer se são.» Isto foi o que Manuel Maria Carrilho disse ontem na tvi. A partir daquilo que ele disse, a interpretação mais divulgada nos "órgãos" é a de que Carrilho praticamente se instituiu candidato a secretário-geral do PS. Interpretar consiste em produzir conjecturas ou cálculos sobre as intenções dos outros. Neste caso, não interpreto. Apenas constato que Carrilho não costuma andar a toque de caixa de ninguém. Isso, de certeza, ele disse.

3.2.11

CONTRA A POLÍTICA ENQUANTO BETÃO ARMADO SOB A FORMA DE PARTIDO, DE GOVERNO E DE ESPECTÁCULO


«Em 2009, chamei a atenção para o erro de ignorar o significado das urnas e apostar num governo minoritário, bem como para os impasses a que esse erro conduziria. Em 2010 publiquei todas estas reflexões no livro E agora? (Editora Sextante), a que dei como subtítulo "Por uma nova república", porque nele apresentava ainda um vasto conjunto de propostas políticas, com o objectivo de responder à descredibilização e à desvitalização da nossa democracia. O facto de as minhas previsões terem sido "certeiras" não me orgulha nem me satisfaz, bem pelo contrário. Porque os problemas eram evidentes para quem os quisesse ver, e porque os erros vão sair muito caros ao País. Insinuar agora que o que eu penso e digo se deve a qualquer ressentimento ou episódio recente, como há dias fizeram Almeida Santos e o "comité" de recandidatura de José Sócrates à chefia do PS, é, na verdade, indigno. E só refiro esse episódio porque é curioso recordar que, se o meu afastamento da UNESCO teve por motivo próximo a publicação do meu livro E agora? e a entrevista que então dei ao Expresso, o motivo de fundo foi o de eu ter argumentado até ao limite, nas eleições para a liderança daquela organização, contra o apoio do nosso país à candidatura de uma figura de proa da ditadura egípcia, cujos méritos, então muito elogiados por José Sócrates, todos temos nestes últimos dias observado em directo... Por outro lado, argumentar com o imperativo da "unidade do partido" para enfrentar a crise também não adianta, porque se há coisa de que o líder do Partido Socialista beneficiou durante todos estes anos foi de um unanimismo quase total. E isso não evitou a sucessão de erros que agora se quer disfarçar. A crise que o País vive deve-se em boa parte às opções do Governo nos últimos dois anos e meio. Reconhecê-lo é, por mais desconfortável que seja, um acto de responsabilidade política elementar. Essas opções não foram nunca realmente discutidas no âmbito do Partido Socialista, que tem sido dirigido numa lógica de facto consumado, por um pequeno grupo de profissionais do poder, cuja eficácia - ainda que "danosa" - não se deve desvalorizar, a julgar não só pelo modo como subjugaram o partido mas também pela maneira como fizeram do País seu refém. A crise é por isso, antes do mais, de ideias e do seu debate. Dos modos de deliberar, de participar e de decidir. Andar agora a "desafiar os críticos a avançar" para a liderança do partido é não compreender que cobiçar o poder e desejar o debate são coisas distintas. É recusar aos militantes o direito a pensarem por si próprios e a exprimirem-se livremente, a não ser que aceitem disputar o poder. O "desafio" traduz uma visão da liberdade e do pluralismo que é inaceitavelmente condicional - "só podes ser livre dentro da minha gaiola" -, própria de quem vê no debate livre e aberto de ideias uma ameaça, e não uma porta para as soluções de que o País precisa. Sem ideias e sem debate iremos sentir até ao fim os efeitos desastrosos desse cocktail fatal de que já falava Maquiavel - a mistura da obsessão do poder com os efeitos da ignorância. E depois de um tal fim, a ressaca será à sua medida. Os militantes livres do Partido Socialista deviam começar a pensar nisto.»

Manuel Maria Carrilho, DN

«O meu balanço só pode ser breve: há aspectos positivos, como a reforma da Segurança Social, a política das energias renováveis, alguma desburocratização e – apesar dos seus muitos equívocos – a política de ciência. Mas também há, e muitos, aspectos negativos: o pior vai para a Justiça, que se transformou numa ameaça real para a nossa democracia e economia. Mas há que destacar também a educação, em que a aposta no “betão escolar” não salva a política ruinosa destes seis anos. A economia, sem qualquer orientação, fixada num embaciado e inútil retrovisor desde o começo da crise, em 2007, o que se tem traduzido num desesperante desemprego. A cultura, onde é preciso recuar até antes do 25 de Abril para se encontrar um período tão mau. E como não falar do insuportável autoritarismo e do desprezo pelo pluralismo... para esconder isto fala-se muito de determinação, mas quando ela é para a asneira, não ajuda muito, não é? De resto, é sempre intrigante quando vemos um tipo muito teimoso, mas que não sabe o que quer. Quanto ao socialismo moderno, há todo um debate por fazer, nomeadamente desde que a crise veio pôr em causa a sua travemestra, que era o deslumbramento pela “financeirização” da economia e pelas novas tecnologias, que são duas faces da mesma moeda. É bom não esquecer isto, sobretudo porque foi isto que deixou Sócrates sem tapete em 2007, e o levou, durante dois anos, a negar a realidade da crise. (...) Conheço-o há muito tempo, quando eu falo de ideias e de debates, ele pensa em espectáculo e em propaganda. Veja, como agora começou a preparar um novo espectáculo (o congresso), já está aí a pedir debate de ideias... é confrangedor! (...) O exercício do poder, que se reduz à obsessão de durar, nunca deu futuro a nenhum partido. Estes seis anos traduziram-se numa óbvia degradação de diversos valores do Partido Socialista: o pluralismo, a igualdade, a educação e a cultura, os direitos humanos. A “modernidade” foi um slogan sem qualquer conteúdo – conhece alguém que não queira “ser moderno”?

idem, Público

CONTRA A POLÍTICA ENQUANTO BETÃO ARMADO SOB A FORMA DE PARTIDO, DE GOVERNO E DE ESPECTÁCULO


«Em 2009, chamei a atenção para o erro de ignorar o significado das urnas e apostar num governo minoritário, bem como para os impasses a que esse erro conduziria. Em 2010 publiquei todas estas reflexões no livro E agora? (Editora Sextante), a que dei como subtítulo "Por uma nova república", porque nele apresentava ainda um vasto conjunto de propostas políticas, com o objectivo de responder à descredibilização e à desvitalização da nossa democracia. O facto de as minhas previsões terem sido "certeiras" não me orgulha nem me satisfaz, bem pelo contrário. Porque os problemas eram evidentes para quem os quisesse ver, e porque os erros vão sair muito caros ao País. Insinuar agora que o que eu penso e digo se deve a qualquer ressentimento ou episódio recente, como há dias fizeram Almeida Santos e o "comité" de recandidatura de José Sócrates à chefia do PS, é, na verdade, indigno. E só refiro esse episódio porque é curioso recordar que, se o meu afastamento da UNESCO teve por motivo próximo a publicação do meu livro E agora? e a entrevista que então dei ao Expresso, o motivo de fundo foi o de eu ter argumentado até ao limite, nas eleições para a liderança daquela organização, contra o apoio do nosso país à candidatura de uma figura de proa da ditadura egípcia, cujos méritos, então muito elogiados por José Sócrates, todos temos nestes últimos dias observado em directo... Por outro lado, argumentar com o imperativo da "unidade do partido" para enfrentar a crise também não adianta, porque se há coisa de que o líder do Partido Socialista beneficiou durante todos estes anos foi de um unanimismo quase total. E isso não evitou a sucessão de erros que agora se quer disfarçar. A crise que o País vive deve-se em boa parte às opções do Governo nos últimos dois anos e meio. Reconhecê-lo é, por mais desconfortável que seja, um acto de responsabilidade política elementar. Essas opções não foram nunca realmente discutidas no âmbito do Partido Socialista, que tem sido dirigido numa lógica de facto consumado, por um pequeno grupo de profissionais do poder, cuja eficácia - ainda que "danosa" - não se deve desvalorizar, a julgar não só pelo modo como subjugaram o partido mas também pela maneira como fizeram do País seu refém. A crise é por isso, antes do mais, de ideias e do seu debate. Dos modos de deliberar, de participar e de decidir. Andar agora a "desafiar os críticos a avançar" para a liderança do partido é não compreender que cobiçar o poder e desejar o debate são coisas distintas. É recusar aos militantes o direito a pensarem por si próprios e a exprimirem-se livremente, a não ser que aceitem disputar o poder. O "desafio" traduz uma visão da liberdade e do pluralismo que é inaceitavelmente condicional - "só podes ser livre dentro da minha gaiola" -, própria de quem vê no debate livre e aberto de ideias uma ameaça, e não uma porta para as soluções de que o País precisa. Sem ideias e sem debate iremos sentir até ao fim os efeitos desastrosos desse cocktail fatal de que já falava Maquiavel - a mistura da obsessão do poder com os efeitos da ignorância. E depois de um tal fim, a ressaca será à sua medida. Os militantes livres do Partido Socialista deviam começar a pensar nisto.»

Manuel Maria Carrilho, DN

«O meu balanço só pode ser breve: há aspectos positivos, como a reforma da Segurança Social, a política das energias renováveis, alguma desburocratização e – apesar dos seus muitos equívocos – a política de ciência. Mas também há, e muitos, aspectos negativos: o pior vai para a Justiça, que se transformou numa ameaça real para a nossa democracia e economia. Mas há que destacar também a educação, em que a aposta no “betão escolar” não salva a política ruinosa destes seis anos. A economia, sem qualquer orientação, fixada num embaciado e inútil retrovisor desde o começo da crise, em 2007, o que se tem traduzido num desesperante desemprego. A cultura, onde é preciso recuar até antes do 25 de Abril para se encontrar um período tão mau. E como não falar do insuportável autoritarismo e do desprezo pelo pluralismo... para esconder isto fala-se muito de determinação, mas quando ela é para a asneira, não ajuda muito, não é? De resto, é sempre intrigante quando vemos um tipo muito teimoso, mas que não sabe o que quer. Quanto ao socialismo moderno, há todo um debate por fazer, nomeadamente desde que a crise veio pôr em causa a sua travemestra, que era o deslumbramento pela “financeirização” da economia e pelas novas tecnologias, que são duas faces da mesma moeda. É bom não esquecer isto, sobretudo porque foi isto que deixou Sócrates sem tapete em 2007, e o levou, durante dois anos, a negar a realidade da crise. (...) Conheço-o há muito tempo, quando eu falo de ideias e de debates, ele pensa em espectáculo e em propaganda. Veja, como agora começou a preparar um novo espectáculo (o congresso), já está aí a pedir debate de ideias... é confrangedor! (...) O exercício do poder, que se reduz à obsessão de durar, nunca deu futuro a nenhum partido. Estes seis anos traduziram-se numa óbvia degradação de diversos valores do Partido Socialista: o pluralismo, a igualdade, a educação e a cultura, os direitos humanos. A “modernidade” foi um slogan sem qualquer conteúdo – conhece alguém que não queira “ser moderno”?

idem, Público