31.7.13

Uma obra


 


Em apenas seis meses, "perdi" um Papa sem ilusões para um outro "todo-o-terreno", um Presidente da República que abdicou na sua própria sombra e que acredita no Pai Natal e, finalmente, um Governo que cedeu à mistificação como forma de sobrevivência. Como todo o fracasso*, não é bonito de se ver mas não deixa de ser uma obra.


 


*o termo segue com um abraço para o João Pedro George que trata do fracasso em literatura no livrinho da foto

O corpo (nada) diplomático






Aqui.

Lisboa, cidade em branco


 


As eleições autárquicas, pelo menos em Lisboa e no Porto, para além da política representam um torvelinho jurídico por causa da cretinice parlamentar. De petições em petições, de recursos em recursos, alguns candidatos e candidatos a candidatos, em vez de "programas", elaboram articulados judiciais. O sr. Seara, por exemplo, alcançou uma "vitória"  através de um lance do Tribunal Constitucional (e que aproveite bem estas "vitórias" de secretaria porque são as únicas que vai ter). Mesmo assim, ainda não está nem "fermoso" nem "seguro". Nunca estaria, aliás, por definição. Tudo visto e ponderado, a não esquerda não tem candidato à Câmara de Lisboa apesar deste inócuo benfiquista e dos "apoios" que alguma dela depôe aos pés do Bonaparte socialista. Deve abster-se ou votar em branco como brancas são as "ideias" destes pernósticos todos juntos.

"Tudo passa com o tempo, as águas ficam"


 


Passa hoje uma década sobre a morte do meu Pai. Naquela altura também estava, uma vez mais, a mudar de vida. Fui ver ao arquivo o que é que tinha escrito. E não tinha escrito nada a não ser a transcrição de umas palavras de um livro de Henry Miller que estava então a ler. «Na sua solidão, no seu sonho de amor ou de ausência de amor, os que se perdem vão sempre ter à beira de água. Na imensa deriva da noite, o estertor da agonia dos aflitos é abafado pelo rumor da mais pequena ondulação. O espírito, vazio de tudo, excepto do rumor das ondas, serena. Rolando com as águas, a alma até então atormentada desdobra as asas. As águas da terra! Que nivelam, sustentam, reconfortam! Águas baptismais! A seguir à luz, são elas o elemento mais misterioso da criação. Tudo passa com o tempo. As águas ficam.» É isso - tudo passa com o tempo mas as águas ficam.

Um Rio que passou


 


Confesso que, se por um lado me agrada o lado "germânico" desassombrado de Rui Rio, por outro não apreciei vê-lo na entrevista com Vítor Gonçalves. Rio repetiu o que já se sabia e que não o tornou maior por isso: que não gosta de Menezes, que Menezes fez mais mal a Gaia do que o PS ao país (um abraço verbal ao seu homólogo de Lisboa) e que Menezes, por consequência, não serve para seu sucessor. A sua soberba regionalista foi ao ponto de considerar que não há ninguém à altura dele para lhe suceder. E o que disse sobre a actual ministra das finanças, depois das suas responsabilidades na gestão do Metro do Porto, também não o credita por aí além. Rio perdeu o comboio da liderança do PSD por dois motivos pouco glorificantes. Desde logo porque é muito complicado, num país politicamente macrocéfalo, um dirigente regional ou local "crescer" para a nação. O execrado Menezes experimentou isso na pele e João Jardim não é propriamente um sucesso continental. Ao balofo César dos Açores, se um dia tentar Lisboa, acontecer-lhe-á a mesmíssima coisa a menos que mão amiga o enfie directamente num futuro governo socialista. Depois Rio foi o eleito de um pequeníssimo círculo de "elites" do PSD, na casa de Ferreira Leite ao Restelo, para concorrer ao lugar deixado melancolicamente vago por Menezes na Lapa. Disse que sim mas quando chegou ao Porto telefonou a comunicar que, afinal, não podia. E avançou Ferreira Leite. Ou seja, Rio será sempre um could have been do PSD à semelhança de outros mais novos que não entendem que não é a melhorar a redacção das directivas comunitárias sobre alfaces ou preservativos que se vai lá. Nem o seu irrepreensível cavaquismo o salva porque o mentor está pacatamente resguardado nos bolsos dos casacos da actual liderança dos partidos da coligação. Temos pena mas Rio, quando passar a pasta, passou.

30.7.13

"Conversas de café"


 


Vi num telejornal que o ministro com a tutela da RTP anda a patrocinar umas "conversas de café" (sic) com umas "personalidades" alegadamente especializadas na referida RTP para, uma vez mais, chegar a um "modelo" de gestão do serviço público. Se ainda não foi apagado do portal do Governo, está lá um relatório sobre a matéria com menos de dois anos que, julgo, ainda não foi devidamente aproveitado. As pessoas que o elaboraram ouviram muitas entidades, públicas e privadas, até formularem as respectivas conclusões. O que de certeza não ouviram foi um fornecedor de serviços externos privados à RTP como, aparentemente, acontece agora. Numa destas "conversas de café".

As coisas, como os impostos, são o que são


 


Gostei de ouvir, no rádio do carro quando vinha do Guincho, o primeiro-ministro no parlamento a elogiar a competência da ministra das finanças. Sobretudo porque, num mês difícil em que foi tão parco em palavras para com ministros seus que se demitiram, ou foram removidos, quanto generoso para outros que simularam uma saída em falso, a defesa da honorabilidade técnica e política de Maria Luís Albuquerque tornava-se um imperativo categórico. Também escutei o primeiro-ministro a defender o recente anúncio de uma reforma do IRC no que foi acompanhado pelo seu "vice", lá dentro, e pelo dr. Lima, cá fora em declarações "aos jornalistas". O PS foi aliás chamado a participar neste "debate", a que anuiu com um acrisolado entusiasmo, quase como se a sua actual direcção não se importasse de fazer de sub-secretariado de Estado do senhor vice-PM à conta deste "isco". Mas regressemos ao anúncio de uma reforma do IRC. Numa troca de impressões com um amigo, foi fácil concluir duas ou três coisas relativamente evidentes. Desde logo o anunciado corte de 2% no IRC, em 2014, e para  os 19% (quem sabe) em 2018, é uma falácia mediática perante a urgência de investimento. Isto pode explicar-se, quer porque a "comissão Lobo Xavier" se limitou a "obedecer" às orientações da troika que não simpatiza com regimes de tributação especiais - esses regimes alteram, na concepção "ideológica" da troika, a "pureza" da "concorrência" tão cara à DG6 da Comissão e aos países que prevalecem na União -, quer porque a dita "comissão" foi dominada por "técnicos" e consultores "informais" ligados a empresas do PSI-20, menos duas.  Na verdade, essas grandes empresas não estão, por natureza, excessivamente preocupadas com o IRC. Enquanto puderem pagar impostos na Holanda, ou no Luxemburgo, têm a questão "resolvida" e são fiscalmente mais competitivas do que as outras. Finalmente, a "comissão" foi nomeada para travar a proposta do então Ministro da Economia que, em determinadas condições, tinha recebido aval em Bruxelas. Como nada acontece por acaso, a primeira aparição pública do seu sucessor ocorreu associada precisamente à apresentação das "conclusões" da "comissão". As coisas, como os impostos, são o que são.

29.7.13

Um homem

A propósito do falecimento de Fernando Martins, empresário e antigo presidente do Benfica, as televisões passaram umas suas declarações por ocasião de um evento com Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto. Isso numa altura, suponho, em que, por causa da hipocrisia doméstica - que, se contasse para o PIB, faria de nós primeiros no mundo -, muita gente se afastou de Pinto da Costa.  Fernando Martins foi-me apresentado, uma vez, no restaurante do Hotel Altis pelo General Ramalho Eanes, um espaço que acolheu grandes momentos, ora de glória ora de queda, da vida política nacional independentemente dos protagonistas. Não gosto de futebol e, por consequência, não era de futebol que pretendia falar. Queria apenas falar de um homem.

As mãos que embalam o berço


 


«O [então] ministro da Economia avançou com a declaração de incumprimento definitivo do contrato de contrapartidas dos torpedos para os submarinos [a aquisição dos 24 torpedos aos italianos da Whitehead Alenia Sistema Subacquei foi adjudicada por Paulo Portas em Fevereiro de 2005, quando era ministro da Defesa mas numa altura em que o Governo já estava em gestão]. A decisão de Álvaro Santos Pereira foi comunicada à Direcção-Geral das Actividades Económicas, depois de o [então] ministro constatar que, quando faltam apenas seis meses para terminar o contrato de 46,2 milhões de euros, não há projectos executados. Como actual coordenador da política económica, Portas tutela agora as contrapartidas militares.» Ficam em boas mãos.

28.7.13

Os prazeres e os dias - sexo, a cidade e os Emirados



Na RTP1, por volta das 23h. Boa noite e boa sorte.

Pesos pesados e pesos pluma

Neste fim de semana político-televisivo, Marques Mendes e Marcelo já "oficializaram" o próximo "Álvaro", Maria Luís Albuquerque. Os amigos, como sempre (sobretudo os de Peniche), são para as ocasiões.

Asco



«Vive-se ali em estado mais puro. "É como brincar aos pobrezinhos, diz Cristina Espírito Santo".»

Imperdoável


 


Julgo que alguns leitores ainda não repararam na epígrafe que encima este blogue. Repito-a. «Eu não perdoo a ninguém a mediocridade, a estupidez, a vileza, a malignidade, a incultura, a suficiência, a intolerância, o espírito de compromisso, a cobardia moral, etc.» - Jorge de Sena, entrevista a O Tempo e o Modo, Abril de 1968. Por consequência, não perdoo (e não tem nada a ver comigo, pessoal ou profissionalmente falando) aquilo que o insuspeito Público de domingo resume muito bem. «Não deixa de ser uma injustiça, pense-se o que se pensar dele, que um governo que decide enfatizar um discurso no que toca à economia dispense Álvaro Santos Pereira sem a mínima justificação, pública ou privada. Foi ele, aliás, o único ministro cuja "cabeça" rolou nesta remodelação, coisa que ele assinalou de forma silenciosa, não comparecendo à tomada de posse dos novos ministros. Porém, tal como sucedeu com Vítor Gaspar, mal Álvaro Santos Pereira saiu de cena, Portugal deixou de falar dele, como se não tivesse existido". E o Público acrescenta: «ele contribuiu para isso, com excentricidades em demasia, e foi isso que o tornou rapidamente dispensável. E dispensado.» Ora isto, acrescento eu, diz mais sobre quem o dispensou do que sobre ele. 

A "União Nacional"




Em menos de 48 horas, o primeiro-ministro apelou à "união nacional" sobretudo a pensar no PS. O termo, na história contemporânea de Portugal, tem uma conotação que, apesar de o gabinete do PM ser desprovido de assessoria cultural, é de domínio relativamente público. Se "consenso" e pastelões filológicos semelhantes já aborrecem - porque denotam o horror ao conflito e ao adversarial inerentes às democracias adultas -, a "união nacional" remete desnecessariamente para uma realidade histórica instaurada para liquidar, em nome dela, a actividade partidária diversificada. É evidente que alguém forjado nessa actividade, como o actual PM, não está a pensar nisso e, até, deseja o oposto. Mas conviria, neste e noutros aspectos, cuidar um pouco mais da linguagem. Já se nota a falta de Bruno Maçães - o antigo adjunto e "redactor de discursos do PM" (um item que incluiu no currículo em língua inglesa que entregou para divulgação aquando da sua escolha para membro do Governo, segundo o Público,) -, manifestamente um cosmopolita, na entourage de São Bento.

We are the world, we are the children










«Então o senhor professor subiu a uns calhaus no meio do mar enquanto o Tozé foi brincar com o Pedrito e o Paulinho. O pior é que depois o Tozé aborreceu-se e veio fazer queixinhas que eles eram maus e feios. Vai daí, o senhor professor esqueceu-se do castigo e pôs o Pedrito e o Paulinho a brincar sozinhos, mas avisou que se eles não se portassem bem lhes puxava as orelhas. O Tozé voltou a ficar chateado. Os outros meninos ficaram ainda mais chateados e disseram que o senhor professor é mais amigo do Pedrito e do Paulinho do que deles. O recreio continua e a abelha é nossa amiga porque nos dá o mel, etc. 


 


O princípio de que alguém está destinado desde o berço a liderar, ainda que simbolicamente, uma nação não me entra na plebeia cabeça. Ainda que mereça pouquíssimos dos louvores que os seus fanáticos lhe dedicam, o sistema republicano merece um louvor: é, quando o deixam ser, democrático. E se os resultados são por regra desastrosos ou mínimo desconsolados, prefiro um desastre eleito a uma bênção imposta.




Cultura política de diálogo. Renovado espírito de compromisso. Compromisso aberto e inclusivo. Crescimento sustentado. Coesão na defesa da estabilidade. Relançamento da economia. Gerar emprego qualificado e retenção de competências. Reforçar o chamado "capital social". Afirmar uma nova cultura de confiança e de responsabilidade. Construção de uma sociedade de oportunidades para todos os sectores sociais. Estas prodigiosas banalidades não são, graças a Deus, de minha autoria. Pertencem à moção de confiança já entregue no Parlamento e que será discutida na próxima terça-feira. No fundo, a coligação no poder fará levantar os deputados que a suportam para aprovar um documento cujo imenso vazio não destoaria num congresso de angariadores de seguros ou numa palestra evocativa de Maria de Lourdes Pintasilgo. Talvez o maior problema do regime não esteja na Justiça, na corrupção, na ideologia ou nos partidos, mas na linguagem. É absurdo esperar políticas redentoras se o português que as define padece de paralisia cerebral. As palavras são importantes, excepto quando quem as despeja não o é.»


 


Alberto Gonçalves, DN



27.7.13

O mundo está previsível

O extraordinário dr. Mexia, da edp, saudou efusivamente a transladação da "energia" para o novo ministério do dr. Moreira da Silva que, por sinal, foi lá qualquer coisa. O dr. Marques Mendes preferia a Horta Seca e, aliás, tem todas as condições para continuar a frequentá-la. Um cronista do Expresso fala do dr. Lima, porventura recorrendo a termos dele  em outro contexto, como "sedutor e sexy". De outras opiniões jorra unto em estado puro quando não incenso e mirra. Um radialista tremelica só de pronunciar o nome do dito dr. Lima porque, entre outros aspectos absolutamente fascinantes, ele frequenta a mesma praia do radialista. O mundo está previsível.

Que fazer?






Faz hoje oito dias, escrevi que, no lugar do presidente da RTP, andaria a berrar todos os dias pela indemnização compensatória atribuída pelo Estado à empresa enquanto concessionária exclusiva do serviço público de rádio e televisão. Isto porquanto o regime manteve o estatuto da RTP na mesma depois de a tutela de Miguel Relvas, na sequência do programa de saneamento financeiro iniciado por Morais Sarmento em 2002, ter resolvido, neste ponto, os problemas mais prementes. Ora parece que o presidente da RTP decidiu arrepiar caminho. «Há decisões que estão a tardar. Não há administração que consiga fazer o seu trabalho se não tiver uma orientação clara e atempada por parte do accionista. E a administração já entregou atempadamente todos os documentos a que era obrigada.» Relvas saiu no princípio de Abril, perfaz dia 4 de Agosto quatro meses. E sou insuspeito sobre Alberto da Ponte como o próprio sabe. Não há desculpas.


 


Adenda da noite: O prof. Poiares Maduro está "a ouvir" algumas pessoas sobre a matéria. Teríamos todos o ganhar, já que se trata de uma empresa exclusivamente de capitais públicos fora os ingressos da publicidade, em saber quem são essas pessoas. Ou  que é que elas representam ou quem.

O PS no seu labirinto






Parece que o dr. Mário Soares pregou uma valente sova no dr. Seguro.  E não só, evidentemente («A promoção do vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, que Cavaco Silva teve de engolir depois de ter dito publicamente o contrário, como o país todo sabe, não augura nada de bom. Nem julgo que seja a pessoa indicada para discutir com a troika.»). De facto, o papel da direcção do PS neste querido mês de Julho de 2013 é uma "história" que ainda um dia terá de ser devidamente contada. Seria bom para o próprio Seguro que fosse ele a fazê-lo, sem mistificações politiqueiras, do que deixar a coisa por conta da imaginação alheia. É que quem conta um conto acrescenta-lhe sempre outro. E assim sucessivamente.


 


Foto: António Pedro Santos

Uma mente que brilha


 


O novo Governo tem um novo secretário de Estado para os Assuntos Europeus, o Bruno Maçães. Trata-se de uma das melhores cabeças da sua geração universitária. Não é por acaso que nunca escolheu trabalhar em Portugal e preferiu academias lá fora, dos Estados Unidos à Alemanha, passando pela Coreia do Sul e outras. Miguel Morgado foi buscá-lo no verão de 2011 para o ajudar na assessoria política do gabinete do ainda primeiro-ministro. Há uns meses tinha deixado estas funções e voltou a imigrar. Aparentemente não resistiu a um qualquer chamamento patriótico e ontem tomou posse. Conheci-o no referido verão quando, com Morgado, coligimos os vários contributos sectoriais para a elaboração do programa do XIX Governo Constitucional que famosamente acabou na passada quarta-feira. Pude testemunhar as qualidades intelectuais do Bruno aí, nas várias reuniões de "coordenação política" do Executivo anterior e em variada e descontraída troca de correspondência electrónica em momentos complicados dos derradeiros dois anos. Como bom estrangeirado, o Bruno é um ironista e um experimentalista promissor. Foi, juntamente com Vítor Gaspar e o seu asssessorado directo, um dos principais "ideólogos" da inesquecível "TSU" de Setembro de 2012 que tanto sucesso trouxe ao Governo de então. O país pode agora contar com a sua vasta experiência e o seu notável sentido do "real" para o "novo ciclo" que se avizinha. Na parte que lhe toca, estamos em boas mãos. Boa sorte.

26.7.13

Os prazeres e os dias- dois livros






 


«Desta vez foi de mais, acabamos de viver um mês em que as notícias mais pareciam mosquitos de Verão que nos atacam por todos os lados, do que informação que nos permitisse olhar com algum discernimento para o País. O resultado é uma sociedade cada vez mais atordoada, desvitalizada e rebocada: atordoada pela confusão, desvitalizada pela decepção, rebocada pela rotina. Se calhar, o melhor é mesmo seguir o conselho de Rolf Dobelli, que recentemente sugeriu num estimulante texto publicado no The Guardian que as "news is bad for you - and giving up reading it will make you happpier" (12.04.2013). A ideia central é que, nos dias de hoje, as notícias se tornaram tão tóxicas para a mente, como o açúcar se revelou ser para o corpo. E propõe, em apoio desta corajosa analogia, dez pontos em que vale a pena reflectir, sobretudo depois da semana de excitada e inútil especulação noticiosa que Cavaco Silva impôs ao País. Esses dez pontos são, na sua perspectiva, que as notícias enganam, são irrelevantes, não explicam, são tóxicas para o organismo, aumentam os erros cognitivos, impedem de pensar, funcionam como um uma droga, fazem perder tempo, tornam-nos passivos e matam a criatividade.»

"Uma Sicília transbordante de génio e sucesso"

«Este é o país onde não há carreiras, pois mal um individuo se consegue erguer sobre as duas pernas, logo a caterva de díscolos sobre ele faz chover uma saraivada de pedras (pedras de estupidez, pedras de ignorância impante) e fazer correr os dichotes e remoques do "é um tipo estranho", "não se adapta", "tem um carácter difícil". Contentes nesta Sicília transbordante de génio e sucesso, assim continuaremos sonhando com grandezas fanadas e importâncias que já mal se vêem. Álvaro Santos Pereira é a última aquisição da galeria dos homens que este país não mereceu, mas que depois de partirem, insuflam o mito do sebastianismo. Álvaro cometeu o tremendo erro de acreditar num país industrializado, feito de empresas ousadas e inovadoras animadas pelo afã da boa concorrência, um país exportador, visível na cena internacional e respeitado pelo trabalho. Acabou. Ficam as conversas tolas que rendem favores, o concurso consensualizado, a obra prometida, as comezainas phony-baloney e o chocalhar de on the rocks de conversas sobre o open de Cascais, o golfe e outras coisas notáveis.»


 


Miguel Castelo-Branco, Combustões





Nota: O dr. Lima, na apresentação das conclusões da "comissão Xavier" sobre a "reforma do IRC" - que coincidência mais coincidente estas "conclusões" aparecerem menos de 24 horas depois do dr. Lima ser o novo apoderado da Economia oficial! -, uma criação de Gaspar depois de Álvaro Santos Pereira ter, sem a oposição de Bruxelas, anunciado uma baixa na respectiva taxa para os 10% dentro de certas condições, tratou o seu antecessor por "Álvaro Silva Pereira". A esmerada educação do São João de Brito pelos vistos não chega para tudo.

Os prazeres e os dias - a vida material

Retido por casa e arredores para tratar de algumas coisas da vida material - que o "altar da pátria" impediu de tratar oportunamente-, vejo que o novo Governo estará completo da parte da tarde. Constato que, em vez da política (no sentido, se ainda existe, nobre do termo), prevalece o mito provinciano do "gestor" à mistura com o sempre na moda "circuito da carne assada" e dos beijinhos nos mercados da hortaliça. Desta vez a repartição é elaborada com a equanimidade exigida pelas circunstâncias. E até inclui estimáveis criaturas vindas directamente de Marte. O desprezo pelo serviço público, pela administração pública, persiste de forma mais evidente com a mitologia anti-Estado exacerbada pelos nossos liberais de pacotilha tão do agrado de meia dúzia de deslumbrados reconvertidos que bolçam nos media. Que longe andamos de um pacato jantar com Passos Coelho, algures na primavera de 2011, em que se jurava por gabinetes governamentais que "aproveitassem" a experiência da administração pública e não o amadorismo carreirista dos compagnons de route ou dos jardins-escola. A "moção de confiança" ontem aprovada no Conselho de Ministros, uma coisa mal amanhada e mal escrita, é agora o novo programa do Governo. Será aprovado na terça-feira por entre salvas de palmas palermas e o sorriso descansadinho de Belém. Nem sabem o que os espera.

Vitórias sobre vitórias

Medeiros Ferreira - ou Pacheco Pereira na revista Sábado - tem alguma razão. O actual primeiro-ministro, depois da "normalidade" que o distinguia de Sócrates e que lhe deu a vitória em 2011, está a ficar "parecido" com o primeiro-ministro Pinto Balsemão dos idos de oitenta. Também ele coleccionou vitórias sobre vitórias. Aliás, o Presidente da República, que nessa altura escrevia cartas a Balsemão, deve estar bem recordado dessa caminhada gloriosa. Sobretudo do desfecho dela.

25.7.13

A "correlação de forças"

Parece - a "fonte" foi ontem à noite a sempre bem informada em assuntos partidários azuis e amarelos, a editora política da TVI  Constança Cunha e Sá -  que a AICEP do dr. Reis passará para a tutela do dr. Lima. Assim sendo, o MNE "perde" a tutela" da dita Agência mas o partido minoritário da coligação não. Por consequência, não deixa de ser interessante constatar que o PSD, na pessoa do seu presidente e 1º Ministro, tivesse recusado que um ministro independente, oriundo da sua área política, tutelasse a AICEP e permita agora satisfazer, sem um murmúrio, a exigência do novo titular. Como diria o PC, a "correlação de forças" já não é o que era.


 


Adenda: A agitada patrulha "tomba-ministros", com poderosos "aliados" internos, dirige agora a sua atenção contra Maria Luís Albuquerque. Mais uma vez a referida editora política não se poupou na comandita "comunicacional" do exercício. Não é só o PS, como sugere o PSD, que tenta "imolar" a ministra das finanças É tudo tão óbvio que até um cego sem labrador retriever vê.


 


Adenda2: Por outro lado, a dra. Ferreira Leite, ao pretender parafrasear politicamente o imparafraseável - os últimos tempos do actual mandato presidencial -, também não se sai famosamente. Coisas em forma de assim, na denotação de Alexandre O'Neill, não são explicáveis.

Os prazeres e os dias - folhear velhos jornais












 


Fiquei com curiosidade quando, numa conversa entre Mário Crespo e Maria João Avillez na sicn (onde esta "analisou" um a um os escolhidos para o novo Governo, não se poupando em acrisolados "elogios" aos recém chegados: um era "sage", outro um "desequilibrado emocional" mas com muito a dar à pátria, um terceiro que sabe "da vida" como ninguém e um quarto de que não retive o delíquio) foi mencionado um trabalho do hebdomadário Expresso, de Abril de 1992, de que Avillez, apesar de à altura colaborar com o dito jornal, não se recordava. Fui pesquisar, dado o meu apreço pela memorabilia jornalística em papel. E encontrei os vestígios que reproduzo. Basta dar um toque nas imagens para ampliar e ler.

Os prazeres e os dias - um livro



Um diálogo entre uma professora de liceu dos arredores "duros" de Paris e Steiner.  O prof. Crato decerto aprenderia alguma coisa em ler este livrinho que não é vermelho.

Os prazeres e os dias - o seu à sua dona


 


De férias, dou início a uma nova série de posts intitulados Os prazeres e os dias, um título deliberadamente sonegado a Proust já que, afinal, não fazemos mais nada na vida do que "procurar o tempo perdido" sem nunca o achar. Leio no Diário de Notícias que «depois da TVI, agora é a SIC que contesta a aprovação do decreto-lei que regulamenta o Cinema e Audiovisual e anuncia que vai tentar recorrer na última instância possível: o Presidente da República, Cavaco Silva. “A SIC vai apelar pela não promulgação deste Decreto-Lei, que enfraquece os grupos de media em Portugal e, por conseguinte, o jornalismo, limitando como nunca a liberdade de programação das televisões” defende o canal em comunicado enviado ontem à tarde às redações. Os responsáveis de Carnaxide lamentam “que o Governo voltou a não ter em conta os graves problemas que afectam os operadores de televisão”. A resposta surge na sequência das declarações de Jorge Barreto Xavier, secretário de Estado da Cultura, que afirmou, sexta-feira, que “a lei é para cumprir” e que “não foi fácil [às empresas] levá-las a assumir responsabilidades a que não estavam obrigadas”. A RTP não tomou, até ao momento, qualquer posição, mas o ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro, declarou ontem de manhã que “está garantido que 8% da Contribuição Audiovisual vai ser para produções independentes, cinema e audiovisual, sendo que o contrato de concessão é que irá determinar as especificidades”. Os operadores entregam 4% das receitas de publicidade [valores pagos pelos anunciantes] e passam, a partir de 2014, a ter de investir 0,75% [crescendo até a 1,5% em 2016] em cinema e audiovisual.» Fim de citação. Apenas uma ligeira correcção. Quando se escreve que "o Governo voltou a não ter em conta os graves problemas que afectam os operadores de televisão", os operadores sabem duas coisas. A primeira, que os gabinetes dos então Ministro Adjunto Miguel Relvas e Secretário de Estado da Presidência, Marques Guedes, promoveram todas as diligências políticas e jurídicas verosímeis junto da Secretaria de Estado da Cultura (versão Viegas e actual) no sentido de acautelar o exposto. Os operadores, aliás, reuniram e trocaram correspondência vezes suficientes pelo menos com o primeiro daqueles gabinetes para saberem que assim foi. Em segundo lugar, todos os intervenientes sabem que a Secretaria de Estado da Cultura tinha por interlocutora intransigente, nesta matéria, uma única colaboradora. Imagino que o objecto deste "protesto" seja o resultado final dessa "intransigência" que francamente não conheço. O seu, pois, à sua dona.

24.7.13

As cruzes


 


Sócrates também foi buscar Freitas do Amaral ao baú do regime para dar um módico de "respeitabilidade" à coisa. O pior, depois, foi as cruzes.

Antinomias

Confesso que me faz uma certa confusão quando ouço falar em "reforço da densidade", ou da "maturidade", a propósito deste ou daquele ou disto ou daquilo. Sobretudo não percebo como se "reforça a densidade" do que quer que seja em modo invertebrado.

A rendição



O Governo que agora acaba dará lugar a outra coisa. Presumivelmente até justificaria uma posse renovada de alto a baixo  porque ultrapassa largamente o contexto de uma simples "remodelação". Recorda o Governo Balsemão II, de 1982 (que terminou como se sabe) e, politicamente, corresponde a uma rendição do maior partido da coligação ao seu parceiro minoritário. Este deixou, assim, de ser o Governo com o qual colaborei. Primeiro ajudando na redacção do seu programa, no gabinete de Miguel Relvas e em sintonia com o gabinete do ainda Primeiro-Ministro e, depois, com Álvaro Santos Pereira cuja seriedade, lealdade e decência, levadas a um extremo por fim inútil, pude testemunhar durante quase sete meses. Talvez o último gesto com a cintilante envergadura do fracasso tenha sido a carta de demissão de Vítor Gaspar já que o que se passou a seguir é demasiado amoral para o meu gosto. Todavia, importa uma renegociação séria do memorando com os credores - esse, sim, o único "compromisso" que teria valido a pena - e tentar uma "reforma do Estado" para a qual nunca chegou a haver guião algum. O novo Governo, cuja liderança carrega agora outro fardo - o da falsa gravitas da "coesão" e da "solidez" -, só adia, apodrecendo, o inevitável. Para além disso, trata-se manifestamente de um Governo mais vulnerável aos interesses e à esperteza saloia que mandam "transversalmente" no regime. As primeiras "reacções" às escolhas neófitas são, aliás, inequívocas a esse respeito. Agradeço, com amizade, ao Miguel Relvas e a Álvaro Santos Pereira. E com a consciência tranquila de ter dito em total liberdade, em todos os momentos e a cada um, o que entendia que devia dizer, aconselhar ou contrariar. É a melhor homenagem que lhes posso fazer.

23.7.13

Um inimigo familiar






«O Papa Bento XVI, um velho professor de Teologia Dogmática, insistiu em relembrar os fundamentos da doutrina e em reconstituir, na medida do possível, uma tradição ignorada e, agora, crescentemente desprezada. Não chegou longe, impedido pela indiferença geral e pela resistência interna e externa, que pouco a pouco o isolou. Quando saiu, o seu pontificado estava sem destino. O Papa Francisco resolveu seguir outro caminho.(...) Este Papa também não se interessa muito por batalhas teológicas, o que lhe interessa é reconquistar as massas, perdidas no ateísmo e na heresia, para o catolicismo: e a sua vocação para o espectáculo irá com certeza mudar a face da Igreja. Mas sem nenhuma concessão no essencial. O Papa Francisco acredita no Diabo e acredita que o Diabo está por detrás das desordens de que os verdadeiros crentes sofreram a partir de Pio XII. E, além disso, o Pai da Mentira é um inimigo familiar.»


 


Vasco Pulido Valente

De rainha a louca


 


A Netrebko canta Lady Macbeth, de Verdi. É uma personagem que encarna com frequência em figuras públicas, muito especialmente na política. Nesta ária ela "anuncia" o seu "programa de acção" que envolve, entre outras coisas, punhaladas e manipulações várias para atingir os seus objectivos. De rainha a louca foi um passo. Acabou famosamente mal.

"Passa-me então aquele canivete"






Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal


Mário Cesariny

22.7.13

O pulo do lobo


 


No dia 11 de Julho último, havia «perda de credibilidade e de confiança gerada pelos acontecimentos da semana passada». No dia 21 de Julho, a referida "perda de credibilidade e de confiança" transformou-se, certamente por algum passo de mágica inacessível ao homem médio, em «coesão e solidez». Ou seja, o presidente da República tomou por palavra e por carácter a língua de trapos e a dissimulação. Como seu apoiante indefectível desde 1985, só me ocorrem as palavras de Fernando Pessoa. «Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo. Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece.»

21.7.13

Anões e vocações

 



 






Estive, até há pouco, a acabar de ler a excelente colectânea de entrevistas de Jorge de Sena editada pela Babel/Guimarães. Numa de 1977, a Manuel Poppe, Sena cita Unamuno numa frase nunca impressa por cá - Portugal, numa das suas múltiplas visitas, deu-lhe a impressão de" um país de anões todos na ponta dos pés para parecerem muito altos". Podia ter sido hoje. No mesmo livro, Sena mostra-se favorável, como um dos poucos portugueses verdadeiramente livres e independentes que jamais existiram, à prostituição. "Eu sou a favor da prostituição. Há pessoas, aliás, que não têm vocação para outra coisa." Boa noite e boa sorte.

Portugal, país de eventos


 


Hoje termina uma "comédia" e pode começar outra. O Medeiros, de uma maneira ou de outra, acaba sempre por ter razão. Portugal é um país de eventos.

No rochedo da Valquíria





«Temos estado no processo negocial errado. Um processo negocial que possa resultar tem de envolver à cabeça e de forma explícita um actor que não esteve na sala, mas que de facto esteve todo o tempo, e tido como imóvel ou incerto. Esse actor tem de ser tornado activo e parceiro de uma real solução. Esse actor é a União Europeia, representada não pelos funcionários da troika, mas pelos seus dirigentes máximos. Porque a questão é política e tem de ser colocada em termos políticos: quer a União Europeia evitar mais um desastre no seu seio? Quer a União Europeia que o país possa mudar realmente e ultrapassar a crise de financiamento? Quer a União Europeia que esse país possa contar com um compromisso interno que supere divergências insanáveis e viabillize realmente a trajectória de mudança de longo prazo que é imprescindível? (...) Um novo compromisso externo é fundamental para viabilizar um novo compromisso interno e vice-versa. Esta é a negociação certa que tem de ser concluída. Portugal precisa de uma liderança capaz de fazer isto. Ser membro dum espaço integrado como a União Europeia exige este tipo de liderança.» (Maria João Rodrigues, Público)


 


«A crise não vai passar e irá piorar se não houver eleições. Queira o Presidente ou não, se dá ao Governo a remodelação que ele deseja — ela própria a melhor garantia de que vai continuar a haver instabilidade governativa —, e os dois anos até 2015, reforça a arrogância que Passos Coelho já mostrou na crise ao afrontá-lo na Assembleia. O Presidente volta ao contexto do seu discurso de 25 de Abril, mas numa situação muito mais frágil. É só uma questão de tempo até toda a gente perguntar se era para isto, por que perdeu todos estes dias? É que o argumento dos mercados não serve só para aterrorizar os indígenas com as eleições, serve também para Portas, Passos e Cavaco. Mas há uma razão ainda mais funda, estrutural, para que a crise não se vá embora e ela traduziu-se na grande omissão destes dias, no enorme silêncio absurdo e cego com que se discute tudo e três tostões como se as pessoas comuns fossem mera paisagem, os portugueses súbditos sem voz — as eleições não servem para nada, dizem-lhes — e colonizados pelos colaboradores dos “credores” de um protectorado consentido sem revolta. Se nada disto mudar, é só esperar pelos próximos episódios.» (José Pacheco Pereira, idem)

20.7.13

Um exemplo


 


No meio disto tudo passou despercebida a passagem do presidente da RTP por uma comissão parlamentar. E, segundo um jornal, a sua recusa em receber uns "colegas" da "France24" em Cabo Ruivo  - que pretendiam conhecer a congénere portuguesa da ERT para uma reportagem - acabou numa ordem directa do ministro da tutela para o efeito. E tudo terminou, como o preidente do CA da RTP aprecia, à mesa de um restaurante. O presidente da RTP é, aliás, um excelente exemplo do "compromisso" que, no todo nacional, não chegou a ocorrer. Há sensivelmente um ano discutiam-se os "cenários" do novo "modelo de gestão" da empresa a quem o Estado, desde o Doutor Salazar, concessiona o serviço público de rádio e televisão. No programa do Governo, suficientemente vago a este respeito para garantir um qualquer "compromisso", falava-se na privatização de alguns activos da RTP quando as famosas "condições de mercado" o permitissem. O PSD presumivelmente escreveu a primeira parte da frase e o CDS a segunda. Sabe-se o que aconteceu. O anterior CA pediu a demissão, a concessão da gestão da RTP a um privado, mantendo-se a propriedade pública, esteve em cima da mesa com o apoio do chefe do Governo, do então ministro da tutela  e do novo presidente do CA mas, através de dois ou três recados por jornalistas "amigos" e com a benção dos eternos ideólogos do serviço público (que têm a RTP por sua desde tempos imemoriais), o então número três da coligação fez prevalecer a segunda parte da frase do programa e não se falou mais nisso. O presidente da RTP emergiu então como a personificação de uma palavra que recentemente adquiriu um novo significado, o "consenso" em registo RTP, e como o novo campeão nacional do serviço público de rádio e televisão. Chegado aqui, o que é que ele tem para a troca? Cento e quarenta e quatro rescisões "amigáveis" e um eventual despedimento colectivo, a final, se a tesouraria falhar; o despedimento violento de um director de informação; um vazio incómodo na direcção geral de conteúdos; umas audiências correlativas a uma programação pouco mais que medíocre. Saí do Gabinete de Relvas por causa disto e, em concreto, por causa deste "compromisso" plasmado no "exemplo" do presidente do CA da RTP que Relvas escolheu. Ignoro - e, francamente, não me interessa - o "pensamento" da actual titular da pasta sobre a RTP, a sua gestão e o serviço público sem ingressos directos provenientes do Orçamento de Estado. Uma vez que a empresa continua como estava em Junho de 2011 em nome do "consenso" e da "união nacional", porventura deveria continuar a receber a chamada indemnização compensatória. No lugar do presidente da RTP, andava a berrar por ela todos os dias.


 


Adenda: Sob a tutela de Miguel Relvas entendeu-se, e bem, que não devia sobrecarregar-se os contribuintes com o aumento da contribuição para o audiovisual, vulgo taxa, que sempre se manteve no valor que existia à data da tomada de posse do Governo. E sempre, com maiores ou menores dificuldades, foi possível encontrar interlocutores no Tesouro aka Finanças para a RTP. Um pequeno registo para memória futura.

19.7.13

Inautenticidade


 


E ao fim de uma semana de jogos florais e de três de crise política provocada, recorde-se, por protagonistas perfeitamente identificados - até na alocução do PR lá estavam -, a falta de autenticidade nas chamadas "negociações" para a "salvação nacional" (e tudo isto da "salvação nacional" seria cómico se não fosse trágico) deu num expectável nada. Todos os intervenientes andavam a fingir que corria um "processo negocial" quando, desde o início, se percebeu que nenhum apreciou a proposta do Presidente. E que, por consequência, todos queriam estar no mesmo exacto ponto em que estavam antes da proposta. Isso ficou claro depois das falas do presidente do PSD e do secretário-geral do PS nas últimas 24 horas. Falta o terceiro elemento, curiosamente o que mais explicações devia dar ao país e que se refugiou entretanto na inaceitável complacência alheia para não abrir a boca. Não é verosímil pedir o que quer que seja a "elites" deste jaez. O "povo", agora, que diga o que pensa delas.

Uma entrevista inteligente

Do novo cardeal patriarca de Lisboa. No meio da tão cretina quanto estulta cacofonia em vigor, a ler ou a ver.

A "incerteza"

Como referi, não acompanhei a intervenção nocturna do dr. Passos Coelho. Mas hoje de manhã ouvi um excerto dela na rádio pública. Nesse excerto o PM aludia à "incerteza" que umas eleições diferidas para daqui a um ano representa. Este calendário, note-se, é um dos "pilares" do "acordo" proposto pelo PR e que, pelos vistos, ainda não parou de ser ruminado. Se juntarmos esta convicção do primeiro-ministro à outra que consiste em levar imediatamente ao PR a remodelação do Governo, sobretudo na parte em que premeia o actual MNE com a vice-chefia do executivo, mal o "acordo" esteja ou não terminado, então resta concluir que, uma vez mais, o PM acertou. Para não haver "incerteza" com cerca de um ano de vista, é melhor acabar já com ela através de eleições legislativas coincidentes com as autárquicas. Não sou eu que o digo. É a "incerteza".

18.7.13

Uma falácia autocomplacente

Quando saí para passear o cão, o presidente do PSD estava a elaborar sobre números, a Europa e, pareceu-me, vagamente sobre a Grécia. Regresso e assisto à dra. Ferreira Leite a sugerir ao dr. Seguro que se liquide politicamente a bem da nação, leia-se, do "acordo". Pese embora acompanhar o referido dr. Seguro em relação ao "corte" anunciado de quase 5 mil milhões de euros na despesa - a "reforma do Estado" em versão excel , a única que se conhece -, a dra. Ferreira Leite também menosprezou a votação da moção de censura e alertou para a circunstância de o PSD não apreciar ser canibalizado pelo "pequeno partido à sua direita" (a expressão é do dr. Barroso) mesmo que coligado com ele. O mais interessante disto tudo é o "acordo". Ninguém sabe para que serve nem tão pouco o que é. Mas, salvo dois ou três loucos furiosos, porventura anti-patriotas, toda a gente fala do "acordo" como um facto e uma necessidade. Honra seja feita ao primeiro-ministro que, no parlamento, não viu nem uma coisa nem a outra no dito "acordo" pois anunciou que, mal ele esteja estabelecido ou não, vai a correr propor a promoção do MNE a vice dele ao PR. Isto quer dizer que pelo menos na cabeça do PM, o "acordo" tanto pode ser do domínio do ser como do não ser. Em suma, e não obstante a boa vontade manifestada pelo PR nas Selvagens, estamos perante uma falácia autocomplacente à qual deve ser posto rapidamente termo.

Coisas grandes e coisas pequeninas


 


Enquanto decorre mais um inútil debate parlamentar, desta feita por causa de uma absurda moção de censura, leio no rodapé da televisão que a Livraria Sá da Costa fecha portas no desfecho de um processo de insolvência. Coisas destas é que doem. O resto, repito, não só é facultativo como chega a ser ridículo de tão pequenino.

As pardelas


 


Desde os idos presidenciais de Ramalho Eanes que, volta não volta, emergem as "personalidades". As "personalidades" distinguem-se, como o nome indica, por serem incomuns e excepcionais. À semelhança das cagarras, voam alto e apreciam o alto mar - ninguém vê as cagarras durante o inverno - mas vêm a terra nidificar e proteger-se de intempéries. Estas pardelas bípedes caracterizam-se por, à excepção dos que entretanto morreram, pairarem pelo regime há décadas. Algumas delas foram mesmo responsáveis executivos que oscilaram entre governos e o Estado paralelo constituído pelas empresas públicas e afins. Não admitem, dada a sua natureza de "personalidades", que, por exemplo, um canalizador ou um coveiro municipal que porventura comungue das suas posições se lhes junte. Não. As "personalidades" existem para, intermitentemente, recordar a quem de direito que é preciso salvar a pátria e que a pátria só se salva com eles num lado qualquer. Porque o seu entendimento de "salvação" passa famosamente por se "salvarem" primeiro. São resquícios ditos democráticos de um híbrido entre a União Nacional e a Câmara Corporativa do Doutor Salazar. Todavia, e ao invés das cagarras, exibem uma ecologia doentia que não merece a menor protecção ou respeito. Na verdade, «ninguém quer hoje consensos "a martelo" que, a pretexto da crise, substituam a diversidade das opiniões e da sua expressão por um qualquer garrote unanimista.» É assim tão difícil de entender?

17.7.13

Uma crise Humpty Dumpty


 


Esta "crise" tem tido o mérito de recordar uma das personagens mais famosas de Lewis Carroll. Caracteriza-a a circunstância de atribuir às palavras que profere o significado que bem entende e que mais ninguém consegue entender. Humpty Dumpty (HD) também é incapaz de formular o menor cálculo sobre intenções alheias, ou seja, é incapaz de interpretar. Por exemplo, em HD o termo "irrevogável" não denotaria nada nem sequer o que o falante normal percebe como "irrevogável". Ou o termo "intransigência". E, talvez, "acordo", "compromissso", "estabilidade", "coesão", "solidez", etc. Como HD às tantas responde a Alice que ficou, aliás, na mesma: "there's glory for you". De certeza que, em plural majestático doméstico, haverá.

Caminhar na floresta






Globalmente não apreciei a entrevista de Ramalho Eanes a Fátima Campos Ferreira (era para ser com Vitor Gonçalves mas deve ter havido uma qualquer intersecção do "espírito santo") o que não muda um átomo na minha absoluta convicção de mais de trinta anos de estarmos perante um dos homens mais decentes que apareceram na vida pública portuguesa. E não apreciei porque pareceu-me ver Eanes a parafrasear "conjunturalmente" o actual Presidente na sua comunicação a qual ainda não nos conseguiu tornar menos "selvagens" do que éramos há uma semana atrás. De nada servirá a "ousadia" presidencial, como a classificou Eanes, se o "arco da governação" - essa rídicula invenção filológica de um regime timorato em matéria de conflito e, por consequência, de democracia  - não "acordar". É evidente que alguma coisa "acordará" estilo rendimento mínimo de compromisso: no défice, numa ou outra rubrica orçamental, na sucessão dos dias e das estações, etc., etc. No resto - que implica ou o mais longo governo de gestão da história recente "disto", ou a maior e mais absurda abdicação política também desta história recente - as respectivas moedas de troca são demasiado exigentes para se revelarem verosímeis. Todavia, encontro um momento em Eanes que deve ser reflectido. «Esperançado em que a reforma do Estado possa ser negociada, o ex-presidente considerou-a "indispensável", porque, justificou, "não é possível, com a economia como está e vai estar nos próximos tempos, ter um Estado social, pagar juros altíssimos, ter ainda empresas público-privadas e o Estado paralelo que foi agora denunciado". Mas também avisou que a reforma tem de ser feita a um ritmo que a sociedade portuguesa permita: "Temos de fazer a reforma segundo o nosso ritmo, que a nossa sociedade permite".» O analfabetismo funcional das nossas elites, bem como o seu irreprimível oportunismo, não as deixa ver a famosa floresta atrás das árvores (em geral eucaliptos) que elas próprias plantaram. Eanes fez bem em trazê-las, pelo menos nesta parte, ao redil. Não que sirva para alguma coisa. Quem não sabe manifestamente caminhar na floresta não chega lá.

O que interessa

Jorge Sampaio de vez em quando diz umas coisas acertadas. Reforçar a posição negocial de Portugal daqui para diante deve ser o cerne destas conversas interpartidárias. O resto é facultativo.

16.7.13

A acta

Na véspera da passagem de uma semana sobre a intervenção do PR, a solicitar um acordo meritório-regimental para a salvação eventual da pátria, e de quase três da demissão do dr. Gaspar - a do dr. Portas não conta a não ser noutro plano -, o que é que temos? Reuniões místicas entre o "arco da governação", reuniões místicas entre parte do "arco da governação" e partes que ficam fora do "arco da governação", reuniões místicas do "arco da governação" no mesmo dia em que parte do "arco da governação" vota no parlamento contra a outra parte do "arco da governação" ao lado de um "partido" fantasma. Chama-se a isto, por cá, "regular funcionamento das instituições democráticas".

Vão navios cheios de fantasmas


 


Há muito tempo que uma entrevista do General Eanes não me desiludia tanto. Mas os tempos, como os navios de Céline, vão cheios de fantasmas. O que não vale mesmo a pena é alimentá-los.

"E la nave va"

Quase 27 milhões de euros do Estado serviram, o ano passado, para comprar moedinhas do fatal Euro 2004 ao não menos fatal e "tóxico" BPN. Aqui está um assunto "giro" que, para desenjoar, podia ser falado nos intervalos para café das reuniões, não menos "giras", para o "compromisso". 

15.7.13

Oito anos?



Seara ainda nem sequer "está" candidato e já promete, a Lisboa,  um filme de terror. Para além disso, julgo que o Presidente da República não pediu a sua "douta" opinião sobre nada.

O acordo impossível

«A economia não recupera em meses, a política não estabiliza em semanas, a mentalidade não muda num ano. Ao abrir inadvertidamente a campanha eleitoral, o Presidente pediu um acordo impossível porque, para ele ter sentido, necessita de gente que está disposta a perder.»


 


Francisco José Viegas, Origem das Espécies

Contra a armadilha do voluntarismo


 


Não há muito mais para dizer nem muito mais para ouvir por enquanto. Todavia, às 21 na sicn, Mário Crespo fala com Manuel Maria Carrilho, um não avençado da tagarelice e das ideias feitas. Vale sempre a pena escutar. «As lideranças do futuro terão de resistir à armadilha do voluntarismo, seja na forma que conduz a contraproducentes provas de força com a sociedade, seja quando ele se refugia num qualquer tipo de determinação mais ou menos iluminada. São outras as qualidades que se requerem aos reformadores do nosso tempo. Acima de tudo, o que conta é mostrar capacidade de composição com a própria sociedade: na sua diversidade, na sua fragilidade e na sua complexidade. Não só porque o voluntarismo afasta e exclui, enquanto a composição motiva e integra, mas também porque só assim se consegue criar o espaço de manobra necessário para lidar com os problemas do nosso tempo.»

14.7.13

Sem dramas


 


E ao quarto dia parece que o "compromisso de salvação nacional" começa a ser debatido no segredo dos deuses partidários. Os prolegómenos não foram auspiciosos como salientou o sempre bem informado Marques Mendes. Na prática, o Presidente delimitou os contornos do "compromisso" mas não o dramatizou. «Sem a existência desse acordo, encontrar-se-ão naturalmente outras soluções no quadro do nosso sistema jurídico-constitucional», disse o Presidente. E disse mais. «Se esse compromisso não for alcançado, os Portugueses irão tirar as suas ilações quanto aos agentes políticos que os governam ou que aspiram a ser governo. Recordo que o actual Governo se encontra na plenitude das suas funções e que, nos termos da Constituição, como disse, existirão sempre soluções para a actual crise política. Contudo, os Portugueses devem estar conscientes de que nenhuma dessas soluções dará as mesmas garantias de estabilidade que permitam olhar o futuro com confiança igual à da proposta que acabo de apresentar«, ou seja, o chamado "compromisso de salvação nacional". Delicadamente, o primeiro-ministro afirmou no Parlamento que precisava trocar "aquilo por miúdos". Se ele me permite, vou ajudá-lo. Quando o PR refere "outras soluções", manifestamente alude apenas a duas verosímeis: eleições ou manutenção em funções do Governo, remodelado ou não. Todavia, ambas - eleições ou status quo - não oferecem, e volto a citar, "as mesmas garantias de estabilidade"  que a "solução" compromissória em discussão. Ora esta "solução" só merece ser designada como tal se houver um compromisso político alargado, sem aspas, para rever e refundar o memorando de entendimento e os termos da sua execução. Aliás, a execrada carta de demissão de Gaspar (nunca analisada com a frieza necessária) confessa uma verdade incómoda, a saber, um fracasso. Presumo que ninguém esteja interessado em estabelecer compromissos sobre um fracasso. Depois, os "pilares" do "compromisso" implicam que os negociadores se ponham de acordo, pelo menos num módico de acordo, em coisas acerca das quais nunca poderão concordar. As actuais lideranças da maioria, no Tivoli, entenderam-se para levar isto até 2015, com as "europeias pelo meio", e para premiar (volto a citar o PR) a «perda de credibilidade e de confiança gerada pelos acontecimentos da semana passada» com a valorização política interna de quem deu causa directa ao que Cavaco descreveu eloquentemente em duas palavras. O PS, pelo contrário, não só não abdica de eleições mesmo que diferidas no tempo, mas sempre antes de 2015, como certamente comunga do pensamento presidencial em matéria de "crediblidade" e de "confiança" tal qual se viu no debate do "estado da Nação". Também a "reforma do Estado" e a forma de lidar com a despesa pública separarm manifestamente os negociadores. Em suma, suspeito que oito dias depois da comunicação presidencial possamos estar no ponto exacto em que estávamos um segundo antes de ela se iniciar. Aí importará perguntar, não já enquanto pergunta retórica, o que é que realmente assegura o regular funcionamento das instituições democráticas. É o status quo? É a dissolução do Parlamento? Como sublinhou o Presidente - que sabe mais do que nós todos sabemos  - «nos termos da Constituição, como disse, existirão sempre soluções.»

13.7.13

Grandeza


 


Herbert von Karajan dirige a abertura de O Navio Fantasma, de Richard Wagner

O "recadismo"


 


Hoje em dia ninguém compra um jornal, pelo menos ninguém que siga a chamada vida política nacional, para "ler" notícias. Não. Os jornais - e dois ou três em especial - valem a pena ser lidos por causa dos recados. Toda a gente que "mexe" no mundo político tem o seu (ou os seus) "recadista" de estimação cujas peças servem no essencial para se saber o que vai na alma dessa gente sem que ela tenha de abrir a boca. Por exemplo, quando se produz uma "notícia" sobre a "reforma do Estado", sabendo-se que segunda-feira era o deadline para a evidenciação da dita, está-se a querer dizer que ela, a "reforma", "existe" e tem um "autor" mesmo que nada de concreto haja para apresentar. Ou quando se disserta abundantemente acerca dos "bastidores" da "crise" na coligação, quase se consegue nomear um a um os "autores morais" das papeletas, consoante os propósitos: incensar um ex-colega de profissão proto-alcandorado a segunda figura da governação, estilo "ministro de Tudo e de Nada", sugerir que o país seria salvo instantaneamente se determinado empresário, e meia dúzia de figurantes úteis, quer no plano da figuração propriamente dita, quer no da idiotia, varressem à sucapa o "elemento" que eles sempre acharam estar a mais, lançar este contra aquele, interpretar as palavras do Chefe de Estado no sentido que melhor favoreça este ou aquele, etc., etc. Tudo somado, há coisas que apenas ressumam a projectos de poder partidário unipessoal, pelo puro gozo do poder unipessoal, sem a menor relevância para o interesse do país apesar dos transportes românticos das citações. Talvez não seja por acaso que também apareça outro tipo de "recados" quando se escreve que um "conselheiro" de Belém sustenta que o mais famoso "acto irrevogável" da política portuguesa dos últimos tempos equivale à "deslealdade institucional" a que o PR aludiu no prefácio aos seus Roteiros de 2011. Nenhuma "solução sólida e coesa", como alguns plumitivos lhe chamam sem se rir, pode defender-se daqui até 2015 sem colunas vertebrais politicamente saudáveis. Esta ecologia farsante do "recadismo" noticioso parece traduzir precisamente o contrário. E o que parece, é.

12.7.13

O estado de uma nação

Ninguém reparou mas o "guião" do debate infeliz que teve lugar no Parlamento tinha sido escrito, sob forma epistolar, a semana passada. As cartas de demissão dos dois únicos ministros de Estado do actual Governo ditaram o presente "estado da Nação". É claro que havia um lastro anterior que, de novo, ambas as cartas resumiram eloquentemente. Ambas representaram não um ponto de partida mas um ponto de chegada. Não era pois verosímil ou aceitável partir-se para o que quer que fosse pela simples rasura dos referidos escritos. Mas partiu-se com os resultados que se conhecem. Julgo que o Presidente da República usou muito do tempo da sua intervenção a descrever as implicações de eleições antecipadas para, quando as convocar, poder explicar outras coisas. Porque o mero decurso do tempo - e não apenas político - desde essa intervenção até agora tem vindo a evidenciar algumas dessas implicações. Nem sequer faltará a estafada moção de censura para acrescentar um pouco mais de grotesco tropical a tão extravagante "estado" de uma Nação. Repito. Tudo estava escrito, não nas estrelas, mas naquelas cartas onde, sobretudo depois da segunda, se solidificou uma "reputação". De resto, o frívolo exercício de ditos e de não ditos ao longo das maçadoras mais de quatro horas de debate serviu para nada.

Hubris

1. «Bem sei que o uso de palavras pelo Ministro Portas é particularmente elástico, mas ele é uma das últimas pessoas que pode falar com este à vontade de Portugal como protectorado. Uma coisa é a situação de facto de perda de soberania face aos  nossos credores, traduzida no "programa" do Memorando, que não ignoro, outra é a aceitação por parte do topo do estado que isso significa a perda da soberania nacional sem que nenhuma instituição, pelo menos o Presidente e a Assembleia, o defina e caracterize como tal. Isso significa uma perversão total da nossa independência e soberania, significa consentimento pela voz do Ministro dos Negócios Estrangeiros e constitui uma traição mesmo à face da lei.» (J. Pacheco Pereira, Abrupto)


2. «O declínio do PSD desde 2011, depois de uma breve fase inicial de sustentação (que Barroso não teve), tornou-se logo de seguida mais acentuado e rápido que o que sofreu desde 2002 e que, hoje, o PSD está com intenções de voto nos mínimos dos últimos 12 anos, mas que esses mínimos já foram atingindos em várias circunstâncias (Santana Lopes, Menezes, Ferreira Leite). A dúvida, claro, é o que pode estar ainda para vir.» (Pedro Magalhães, Margens de Erro)


3. «Não tenho dúvidas de que a única solução é optarmos pelo presidencialismo. Este sistema semi-presidencialista é típico da alma portuguesa. Todo o sistema constitucional é para que não se possa fazer. Para ser aprovada uma moção de censura é preciso que haja maioria contra. Se todos se abstiverem, não passa, apesar do partido ter 50 tipos a votar... Era preciso uma ruptura que o Cavaco não é capaz de fazer. Não podemos não tentar, morrer tentando.(...) O Presidente da República devia fazer uma ruptura no regime. “Eu digo quem vai governar e desde já vos digo que vou criar as condições para mudar isto”. O país está sequioso disso. (...) A figura chave será Cavaco É. Ele quer estar, no momento em que estivermos à beira do abismo, em condições de salvar a civilização. Escolhe muito bem um bom primeiro-ministro, dá-lhe apoio absoluto, dá-lhe autoridade para formar o Governo como quiser. E dá-lhe apenas um mandato: fazer a reforma do Estado e desencadear o crescimento económico. “E podes ter a certeza de que te mantenho mesmo que na Assembleia da República te mandem abaixo”.» (José Miguel Júdice, Jornal de Negócios)


4. «Quando se perde a legitimidade política, perde-se a confiança (Ramalho Eanes, 25.4.2013)


 

11.7.13

A deliberada indiferença


 


Acabei de ler o derradeiro Le Carré, com uma tradução competente apesar do "acordês". David Cornwell aka John Le Carré é um verdadeiro escritor que é o melhor e mais singelo elogio que lhe posso fazer. Socialista (ou social-democrata conforme as preferências), Carré criticou severamente o "new labour" de Blair, uma mistura de chico-espertice com negociatas e populismo barato. Este livro tem isso como fundo e as personagens são eloquentes a esse propósito. Blair está hoje perfeitamente identificado como um dos maiores farsantes da política mundial ao lado de mais meia dúzia de palhaços-ricos, sem princípios, para quem a ideologia sempre foi um pretexto e não uma causa. Na realidade, a política serviu-lhes de trampolim para a rapacidade mais primitiva e evidente como este texto ficciona na perfeição. «Toby chegou a perguntar a si mesmo se, no fundo, o homem não seria pura e simplesmente estúpido. A não ser assim, como explicar a asneirada que a Operação Vida Selvagem tinha sido? E, a partir disso, vagueou para uma discussão sobre a pretensiosa afirmação de Friedrich Schiller segundo a qual contra a estupidez humana os próprios deuses lutavam em vão. Não era assim, na opinião de Toby, e tal não era desculpa para ninguém, fosse deus ou homem. Aquilo contra o que todos os seres humanos razoáveis lutavam em vão não era de modo nenhum a estupidez. Era a simples, deliberada e maldita indiferença pelos interesses de quem quer que fosse, a não ser os seus.»

Medo do próprio medo


 


Não gosto de palhaçadas como, por exemplo, usar as galerias do parlamento para números de circo. Mas não me parece que a presidente da Assembleia da República - que não soube dominar a sua irritação circunstancial - possa promover o encerramento das galerias destinadas ao público a pretexto destes números de circo. Disse Assunção que "nós não fomos eleitos para ter medo, fomos para ser respeitados" no que tem parcialmente razão. Mas em matéria de "medo" e política, mais lhe conviria - até porque umas almas caridosas pensam nela para outros voos - louvar-se em Franklin D. Roosevelt na tomada de posse em 1933: "a única coisa de que devemos ter medo é do próprio medo".

O grotesco em política

«O País é que continua a perder porque, quando precisava - em termos nacionais e europeus - de uma visão estratégica de verdadeiro fôlego, ficou agora ainda mais refém daquilo que Michel Foucault definiu um dia como o grotesco em política. E esse grotesco é aquilo que se revela quando "a maximização dos efeitos de poder acontece a partir da desqualificação de quem os produz"- que é, note-se bem, exatamente o que se tem estado a passar.»




Manuel Maria Carrilho, DN

Pathos

1. E ao décimo primeiro dia o tempo mudou. E o ovo não estava no rabo da galinha como contavam alguns sedentos e uma meia dúzia de astrólogos da politica.


2. Assim de repente só vejo uma pessoa - não pode ser um "técnico" por muito boa que a "técnica" seja - com biografia politica adequada para mediar entre Cavaco e aquilo a que chamam os partidos do "arco da governação", o General Ramalho Eanes. Conhece-os desde pequeninos como ninguém.


3. Os partidos do "arco da governação" regrediram a um estado politico-libidinal tão infantil que só alguém com um perfil patriótico austero e democrático os pode ajudar a recuperar e a crescer. Ramalho Eanes, por e com Cavaco, pode ser esse patriota simplesmente decente.


4. Não é nada nem de pessoal (não o conheço) nem partidário (saí do PSD em 2004). Mas o que é que Passos Coelho ganhou com Moreira da Silva como seu primeiro vice presidente? Um "conselho coordenador da coligação" que não funciona? Um "acordo do Tivoli" que também não? Não percebo.


5. Quando alguém ligado aos interesses - a uma parafernália deles, aliás, independentemente das suas qualidades intelectuais - afirma que o PR "lançou o caos", é bom sinal.

10.7.13

Bathos

1. O Presidente não apreciou a garotice embotada num falso sentido de Estado. Nem tão pouco a dissimulação ou a "teoria das favas contadas".


2. Se bem entendo, o PR propõe um governo parecido com o sexto governo provisório chefiado por Pinheiro de Azevedo até eleições, o mais tardar, em Junho de 2014.


3. Também se bem percebi, o PR não aceita nem eleições já nem o acordo surreal do hotel Tivoli de sábado passado entre umas pessoas do CDS e umas pessoas do PSD.


4. Pelo menos para já, o PR colocou um freio nos dentes dos "interesses" que se preparavam para ir tomar posse em seu nome. Dos interesses, claro. Essa gente dos interesses quer lá saber da vida das pessoas.

Dar tempo ao tempo


 


Com os dados do segundo trimestre não tão deprimentes como têm sido há trimestres e trimestres seguidos, é natural que alguns pretendam colocar-se num qualquer novo velho ponto de partida. Mesmo que não só não tenham contribuído para esses resultados, como tenham feito de tudo, politicamente falando, para que eles não fossem a crédito de quem de direito. Mas, como ensinava Mitterrand, um príncipe ao pé destes labregos, basta dar tempo ao tempo.

Incapazes






«Como os Alemães, nós esperamos sempre pela voz de comando. Como eles, sofremos da doença da Autoridade — acatar criaturas que ninguém sabe porque são acatadas, citar nomes que nenhuma valorização objectiva autentica como citáveis, seguir chefes que nenhum gesto de competência nomeou para as responsabilidades da acção. Como os Alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam à vida. Refilamos só de palavras. Dizemos mal só às escondidas. E somos invejosos, grosseiros e bárbaros, de nosso verdadeiro feitio, porque tais são as qualidades de toda a criatura que a disciplina moeu, em quem a individualidade se atrofiou. Diferimos dos Alemães, é certo, em certos pontos evidentes das realizações da vida. Mas a diferença é apenas aparente. Eles elevaram a disciplina social, temperamento neles como em nós, a um sistema de estado e de governo; ao passo que nós, mais rigidamente disciplinados e coerentes, nunca infligimos a nossa rude disciplina social, especializando-a para um estado ou uma administração. Deixamo-la coerentemente entregue ao próprio vulto íntegro da sociedade. Daí a nossa decadência! Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento. Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem?»


 


Fernando Pessoa

Dez dias

Feitas as contas, entramos no décimo dia da "crise". E como se não fosse nada connosco. Sobretudo como se não fosse nada com os seus principais instigadores a quem o portugalório mediático (e não só) se prepara para erguer estátuas do comendador. Que miséria moral.

9.7.13

Há nos olhos meus ironias e cansaços


 


Não deixa de ser irónico que alguém que dá causa à "instabilidade" governativa venha agora dizer publicamente, sem se rir (e sem responsavelmente se explicar), que estão reunidas as condições para a "estabilidade" governativa.