29.2.12

Rossini, 29 de Fevereiro de 1792

Abutres a sério


Isto é mais higiénico do que "conservar" certo tipo de gente.

Voltar atrás


 


Se Gabriela Canavilhas - um "modelo" de governante na área da cultura do consulado Sócrates - "não vê como voltar atrás" no acordo ortográfico, é porque, de certeza, se pode voltar atrás.


 


Adenda: E pode. Como bem disse o secretário de Estado da Cultura, «não há uma polícia da língua.»


 

28.2.12

Reformar o regime político



«Tal como ficou expresso no programa eleitoral sufragado nas últimas eleições legislativas”, (Passos Coelho) entende “que o sistema político carece de dois aperfeiçoamentos fundamentais”, um para “reforçar a proximidade entre cidadãos eleitores e eleitos” nas legislativas e outro para “aumentar a homogeneidade e transparência do sistema de governação” nas autarquias locais. No caso do Parlamento, o presidente do PSD reitera que a melhor solução é “a reconfiguração dos círculos eleitorais, de modo a combinar a existência de um círculo nacional com círculos locais de menor dimensão, onde o eleitor tem um voto nominal escolhendo o seu candidato preferido, além da escolha do partido da sua preferência”. Esta reconfiguração “pode e deve ser conjugada com uma redução do número de deputados que, sem pôr em causa a representação proporcional, facilite a eficácia da intervenção política e parlamentar dos deputados eleitos e promova a maior operacionalidade e eficácia do próprio Parlamento.»

O preço que a vanguarda paga à tradição



O Manuel. S. Fonseca decerto não releva que leve post, título e tudo.


 


«De vez em quando, para dize­mos uma coisa, devia bas­tar ir bus­car uma pessoa. Imaginem que alguém qui­sesse dizer: van­guarda! Em vez de estar com mui­tas expli­ca­ções, iria bus­car Ezar Pound, mos­trava Ezra Pound, o jovem bigode negro de Ezra Pound, e sabia-se que era aquilo a vanguarda. Outros dirão que se podia ir bus­car Mari­netti ou Maya­kovsky, mas não esta­ria a dizer a mesma coisa, por­que teria o dedo mais apon­tado para a revo­lu­ção do que para a van­guarda, ou para mais futu­rismo e menos poesia. Nas­cido no Idaho, Ezra Pound nunca esteve grá­vido (e já vão ver a que vem o des­pro­pó­sito), mas da bar­riga dele nas­ce­ram pelo menos dois dos mai­o­res poe­tas de lín­gua inglesa do século XX: Yeats e Eliot. Não vou dizer mais a não ser que Ezra gos­tava de Camões e que escre­veu alguns poe­mas que foram cen­su­ra­dos. Este, “The Tem­pe­ra­ments”, só viu a letra impressa numa edi­ção pri­vada publi­cada nos anos 10 do século XX. Hoje lê-se e ouve-se em qual­quer lado.


 


Nine adul­te­ries, 12 liai­sons, 64 for­ni­ca­ti­ons and something appro­ching a rape
Rest nigh­tly upon the soul of our deli­cate fri­end Flo­ri­a­lis,
And yet the man is so quiet and reser­ved in deme­a­nour
That he pas­ses for both blo­o­dless and sexless.


Bas­ti­di­dis, on the con­trary, who both talks and wri­tes of nothing save copu­la­tion,
Has become the father of twins,
But he accom­plished this feat at some cost;
He had to be four times cuckold.




Que tra­duzo desa­jei­ta­da­mente assim, à espera de que o Ruy Vas­con­ce­los o faça num por­tu­guês e métrica decentes.


 


 Nove adul­té­rios, 12 aven­tu­ras, 64 for­ni­ca­ções e algo muito simi­lar a uma vio­la­ção
assom­bram todas as noi­tes a alma do nosso deli­cado amigo Flo­ri­a­lis,
e no entanto o homem é tão calmo, tão reser­vado no seu com­por­ta­mento
que passa por não ter nem san­gue nem sexo.


Bas­ti­di­des, pelo con­trá­rio, que só fala e escreve sobre a cópula,
converteu-se no pai de gémeos,
gló­ria a que che­gou pagando um preço;
teve de ser qua­tro vezes corno.




Quem tenham sido as duas figu­ras retra­ta­das, o Flo­ri­a­lis e o Bas­ti­di­des do poema, é o que eu não sei. Mas foram, crê-se, figu­ras reais. O pró­prio Pound, pai des­tas duas simé­tri­cas virilidades, confessa, numa carta, que Bas­ti­di­des era um conhe­cido autor e que o retrato lhe saira tão bem que até lhe doía não poder reve­lar a sua iden­ti­dade. Tanta reserva é, afi­nal, o preço que mesmo a van­guarda sem­pre paga à tradição.»

Televisão, política e sociedade








Dois livros sobre um assunto em debate permanente e, salvo honrosas excepções, mal debatido. Não é o caso das ponderações e dos dados fornecidos por Nilza de Sena.

Em tempos que não estão para "galas"

O verso certeiro de Sophia (via A Roda):


 


Um dia, gastos, voltaremos/ A viver livres como os animais/ E mesmo tão cansados floriremos/ Irmãos vivos do mar e dos pinhais./ O vento levará os mil cansaços/ Dos gestos agitados irreais/ E há-de voltar aos nosso membros lassos/ A leve rapidez dos animais./ Só então poderemos caminhar/ Através do mistério que se embala/ No verde dos pinhais na voz do mar/ E em nós germinará a sua fala.

27.2.12

M de ficar mudo


 


Depois de um episódio de Desperate Housewives, passo pela RTP 1 onde passa isto. E percebo a nostalgia da academia de Hollywood ao premiar um filme mudo, a preto e branco, em 2012. Boa noite e boa sorte.

Gente com altura



Na foto está uma grande Amiga e alguém que, ao contrário dos tagarelas triviais do regime, não se coloca em bicos dos pés para "ir a todas". Hoje, em representação da Comissão de Honra do Plano Nacional de Ética no Desporto, presidida pelo Presidente Cavaco Silva, Manuela Eanes intervém na respectiva apresentação que decorrerá no Teatro Camões, em Lisboa, pelas 18 horas. O Plano Nacional de Ética no Desporto é uma iniciativa do Governo dirigida à população em geral, com especial incidência nas crianças e nos jovens, que visa um conjunto de acções estruturadas e planificadas que promovem os valores inerentes ao desporto consagrados em documentos como a Carta Olímpica  e o Código de Ética do Desporto do Conselho da Europa. É, portanto, uma iniciativa no combate a fenómenos como a corrupção, a violência, o doping, a intolerância, o racismo e a xenofobia no contexto da prática desportiva. Da Comissão de Honra fazem ainda parte, entre outros, o Primeiro-Ministro, Leonor Beleza, Bagão Félix, Gentil Martins, Graça Morais, Isabel Jonet, João Lobo Antunes, D. Manuel Clemente e Mário Moniz Pereira.


A "gala"

Leio no jornal que a RTP e a Sociedade Portuguesa de Autores se "associam" para promover logo à noite uma "gala" apresentada por Catarina Furtado. Durante o exercício será entregue um "prémio carreira", ou parecido, ao dr. Mário Soares a quem a RTP já dedicou mais documentários em meia dúzia de anos do que a RTP do Estado Novo ao Doutor Salazar. Se calhar está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.

26.2.12

Patrimónios


 


Hoje, já sentado (e com o som e a imagem de Placido Domingo, James Morris e Renée Fleming no Otello de Verdi), leio mais uns quantos jornais em papel e online. Num deles, um artigo de opinião de um historiador de arquitectura, António Sérgio Rosa de Carvalho. E vejo lá expostas duas questões interessantes. «Em primeiro lugar, a decisão arbitrária de construir um novo Museu dos Coches, optando-se por um grande nome da arquitectura, que produziu um edifício caríssimo já em plena crise económica, desnecessário e inadequado para a sua função.» Depois, «em segundo lugar, o então secretário de Estado da Cultura, Summavielle, determinou a retirada da lista de 946 monumentos em vias de classificação assumindo assim, não-oficialmente, a incapacidade do Estado de proteger o património nacional.» Isto porque na sua opinião, «o universo do património cultural foi perturbado por uma sucessão de graves acontecimentos, que infelizmente, vieram ilustrar sérias deficiências de programa, visão estratégica e gestão.» Sobre os Coches, partilho a perplexidade do autor. Um trambolho daqueles não tem a menor justificação ética ou estética. Relativamente à alegada "incapacidade do Estado de proteger o património nacional" já não o acompanho. Há que confiar na nova direcção-geral do património nacional e dar tempo ao tempo. E ao novo director-geral.

Os bonzos

Depois da magnífica récita de ontem, levei uns quantos jornais portugueses para ler na cama antes de adormecer. Recomendo o exercício. O estar deitado evita que se caia - de riso ou de outra coisa qualquer -  com a maior parte do lido. O pior é que há quem leve tudo aquilo a sério. Não admira, pois, que o "negócio" esteja em decadência um pouco por toda a parte. Mais do que a falta de dinheiro, falta "escala" (um termo agora muito em voga) crítica. Mas, como diz o povo e o outro (de quem também li algo ilegível e absurdamente longo), quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.

O excesso

Neste país falta muita coisa, designadamente dinheiro, bom senso e bom gosto. Mas o que decerto não falta é candidatos a candidatos presidenciais.

25.2.12

A desgraça de Dona Elvira


 


A partir das 18 horas, em mais uma transmissão em directo da Metropolitan Opera House de Nova Iorque, passa na Gulbenkian o Ernani de Verdi. A história é um bocado absurda mas a música é belíssima. Dona Elvira está "prometida" a uma data de gente e, ao longo da ópera, pronta para casar nem sempre com o mesmo marido. Apaixonada verdadeiramente só está pelo herói que acaba protegido, para sua desgraça, por um desses proto-maridos. A história de Dona Elvira lembra a de alguns políticos e comentadores. Prometidos, prontos para tudo e, no fim, nada.

24.2.12

Não tem razão?

Aprende-se muito com os velhinhos (e com alguma juventude). Talvez por isso (e não só) ande a ler livros de história. Nossa e de todos como a da arte, de Gombrich. Conhecer a história é fundamental para perceber alguma coisa de hoje. D. Pedro V lamentavelmente morreu demasiado jovem. Mas aprende-se muito com a sua remota juventude. Escrevia ele em Fevereiro de 1856: «não se pode combater sem se conhecer o terreno.» Não tem razão?

Boa conversa

Da água


 


O Parlamento, afinal, está mais genuinamente preocupado com a água que bebe. Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma, como se diria na versão ironista de Salazar.

23.2.12

Hipóteses de felicidade

Vai aparecer no Parlamento a questão da adopção por casais do mesmo sexo. Não é prioritária mas talvez mereça alguma atenção por razões sócio- económicas e culturais mais ou menos evidentes. Parece que o PS dará liberdade de voto aos seus deputados - julgo que o PSD e o CDS deviam fazer o mesmo - o que representa um "avanço" em relação ao passado recente. O deputado Silva Pereira, porém, deve votar contra. Quando era ministro e se opunha à referida possibilidade, aduziu como extraordinário argumento que «as condições sociais não favorecem o desenvolvimento da criança nem a sua inclusão social.» Enfim. Defendo, sem hesitações, a adopção seja por quem for que prove ter condições para melhorar a vida de crianças que estariam bem pior sem essa possibilidade. Os conceitos de "pai" e de mãe" estão há muito destruídos nos arquivos dos tribunais de família. Seria cruel impedir a hipótese de felicidade de uma criança por causa de meras falácias ou tiradas tolas como a citada.

Os prazeres e os dias


 


«Tom­bam acu­sa­ções em cata­dupa sobre Domi­ni­que. Alinham-se nas ruas de Nova Ior­que, Paris, Lille, quem sabe se Bru­xe­las ou Estras­burgo, filas de mulhe­res que recla­mam horas de assalto, dias de pra­zer, noi­tes de vio­lên­cia. Só gos­tava de saber onde é que este homem ainda arran­java tempo e for­ças para trabalhar!»


 


Manuel S. Fonseca, Escrever é triste

22.2.12

Introdução ao estudo do direito

Por Vasco Graça Moura.

"O custo dos jarros" e o "pessoal especializado"

«O cálculo incluiu os custos de pessoal “para o enchimento, limpeza, colocação e arrumo dos vasilhames” e chegou à cifra de 2730 euros – cerca de dez vezes o valor para a água mineral. O Conselho de Administração também considerou o custo dos jarros em si, avaliados em 4680 euros – o equivalente a 18 meses de água mineral.» Pobre país. 

Uns têm, outros não


 


«O envelhecimento é a forma que a vida tem para se vingar do descaramento com que existimos. É um desforço silencioso, que nos vai lentamente afastando do que fomos. The Iron Lady é também um filme sobre esse contraste. A mulher que não pode andar na rua sozinha não é a mesma que promoveu a Liberdade. A mulher resumida às paredes de sua casa não é a mesma que ajudou a derrubar o Muro de Berlim. A mulher a quem só um fantasma é leal não é a mesma que confiou a partilha do poder em quem a traiu. A mulher senil não é a mesma que fez das ideias a força da sua vida - a mulher que ia de Hayek para os conselhos de ministros e dizia: “Watch your thoughts for they become words. Watch your words for they become actions. Watch your actions for they become habits. Watch your habits, for they become your character. And watch your character, for it becomes your destiny. What we think we become”.»


 


Francisco Mendes da Silva, 31 da Armada

21.2.12

Da relatividade das coisas

Li num jornal que uma pessoa se considerava "candidato natural" a uma coisa. Portugal está cheio de "candidatos naturais". Ou de génios únicos e "perseguidos". Os cemitérios também.

Contra a iliberalidade


 


Notável entrevista de António M. Feijó, director da Faculdade de Letras de Lisboa, ao i. «Países onde a cultura política é mais iliberal que a nossa dizem estar contra o acordo. Se virmos outras experiências como, por exemplo, o inglês entre os EUA e a Inglaterra, que tolera grafias diferentes, seria impensável para eles que a ortografia fosse homogeneizada. Nem num país nem noutro ninguém presume que pudesse ser objecto de um acordo. Porque isso violaria uma série de afinidades locais, pessoais, etc., transformando numa questão política o que não é político. O inglês nem sequer é a língua oficial dos EUA, porque a ideia de que o Estado possa definir uma língua oficial é repugnante a uma política liberal. Isto permite a diversidade linguística. (...) Pode dar-se o caso de certas forças políticas perceberem a iliberalidade desta decisão. E as instituições podem tomar uma posição agnóstica em relação ao AO e permitir, muito simplesmente, que o acordo possa ou não ser seguido. Isto conduziria a que o acordo perca o aspecto mais violento, que é o lado impositivo que o Estado lhe quer dar.»

20.2.12

"Viver habitualmente"

Daqui a uma hora começa mais uma greve dos maquinistas da CP. E começa, para muita gente, mais um "feriado" porque, afinal, isto é um país de "tradições" que aprecia "viver habitualmente". Ora "viver habitualmente" é mais ou menos isto: greves de maquinistas da CP (uma gloriosa e rendosa empresa pública), feriados inamovíveis, "pontes" e mini-férias. Um país com foliões deste jaez vai seguramente longe.

Um mundo que nós perdemos


"Nunca tive outra vida senão esta."

Um patriota reformador



José Medeiros Ferreira faz hoje setenta anos. Quando o conheci, tinha acabado de ser porventura o mais joverm ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal no século XX. Lançou-nos, enquanto tal e formalmente, na aventura europeia. Em 1979 estivemos juntos no Manifesto Reformador e julgo que, em diferentes posições ao longo dos anos, o propósito fundador desse Manifesto ainda nos une: a permanente evolução do regime, a flexibilização da economia e o referendo. Ambos convergimos na preservação da figura institucional do Chefe de Estado. Na altura Eanes, agora Cavaco Silva. Medeiros Ferreira é um grande patriota e um bom amigo. Parabéns.

19.2.12

Mónica reencontrada


 


Desta vez MFM conseguiu estar até praticamente ao fim da coisa sem dizer grandes disparates. Gostei de a ouvir falar mal do boneco do "zé povinho" e da razão por que o detesta. E, depois, estava particularmente bonita.

Ninguém leva a mal


 


Quando passei vagamente pela direcção do Teatro São Carlos, uma das várias coisas que me impressionaram foi a diversidade de situações laborais. Havia - e presumo que ainda haja - todo o tipo de vínculos, desde o contrato de trabalho privado a funcionários públicos "simples", contratos de prestação de serviços a avenças, etc., etc. O pagador destes vínculos, todavia, era e foi sempre o mesmo - o Estado e o OE. O Teatro passou por várias designações jurídicas e financeiras (empresa pública, instituto público, fundação, etc.) mas a "fonte" fundamental de receita nunca mudou. O mesmo se passa com outros organismos e empresas do sector aludido no post anterior, o tão alegremente saudável sector empresarial do Estado. Por causa desta hibridez de estatuto, na terça-feira vai acontecer uma coisa interessante de seguir. O Estado - os funcionários públicos, um conceito bastante "abrangente" para umas coisas mas não para outras - não goza (e bem) de tolerância de ponto carnavalesca. Mas aqueles que trabalham em empresas pagas exclusivamente pelo Estado e que estão em funções ao abrigo de acordos colectivos de trabalho, já gozam porque o Entrudo é tido por feriado para efeito dos ditos acordos. E se forem trabalhar, alguns até têm direito ao pagamento de horas extraordinárias. E os que estão lá dentro e que são funcionários públicos tout court? Vão evidentemente cumprir as orientações do Governo. Talvez por ser Carnaval ninguém levará a mal.

18.2.12

O défice da democratização da economia


 


Leio devagarinho o bom ensaio de Paulo Trigo Pereira editado pela FFMS, na foto. E leio no Público que no sector empresarial do Estado (SEE), vulgo empresas públicas, «apesar de [ lhe] ter sido imposto um corte de 15%, as despesas operacionais aumentaram para mais de 3,7 mil milhões em 2011.»  Dito de outra forma, e independentemente do que vinha de trás, o SEE não só não cumpriu o que foi determinado pelo Estado e pelo acordado no plano de assistência financeira a Portugal, como apresenta prejuizos estimados em 1,5 mil milhões de euros que correspondem a resultados negativos da ordem dos 39% acima dos de 2010. À cabeça deste desvario estão a Metro de Lisboa, os hospitais, a Metro do Porto, a CP, a REFER, a Parque Expo, a Parque Escolar e a Parpublica com um descréscimo de mais de sessenta por cento dos lucros em 2011. A Estradas de Portugal protagonizou o maior desvio aos limites impostos ao endividamento do sector. E por aí fora, o que, tudo somado, pode colocar em causa o objectivo de equilibrar as contas do SEE em 2012 como consta do plano referido. Ora isto é insustentável e inadmissível. O SEE não pode continuar desenfreadamente a recorrer ao fornecimento de serviços externos (FSE) e a endividar-se sem que se ponha um termo definitivo a este aviltamento do contribuinte. Uma situação destas prejudica a democratização da economia e agrava, para usar um termo de Trigo Pereira, o défice democrático. Não há responsáveis? Ou há mas até são "premiados"?

"Isto é completamente risível"



Da entrevista do Nuno Ramos de Almeida a Manuel António Pina no i:


 


«Eu sou uma pessoa que atira as mãos para a frente. O meu cepticismo é mais em relação ao ser humano e sobretudo em relação a todos os tipos de optimismo. Às vezes inverto aquela máxima e digo que o optimista é um pessimista mal informado. Eu sujo as mãos, mas faço-o descomprometidamente.»


 


«Em relação ao jornalismo, quando observamos a nossa galáxia, percebemos que é uma entre milhões, que o nosso sistema está num braço modesto da galáxia e que o nosso planeta se encontra entre biliões de outros. Esta normalidade dá-me uma sensação de imensa paz, porque me permite relativizar-me a mim e aos meus problemas. Aprendi com os grandes tipógrafos, às vezes estava na chefia de redacção cheio de problemas com os títulos e eles diziam--me: “Não se preocupe que amanhã isto é para embrulhar o peixe.” A dimensão do infinitamente grande e do infinitamente pequeno dá-nos a consciência de que tudo é para embrulhar peixe.»


 


«O dinheiro do Prémio Camões não o dava a ninguém, mas o prémio partilhava-o com toda a gente, com quem quiser. Entrego já a glória daquela merda.»


 


«Os políticos tratam-me sempre bem. São umas putas velhas.»


 


«Voltando à vaca fria, isto visto, já não digo de Alfa do Centauro mas da Lua, é completamente risível.»

17.2.12

Lucrezia


 

A egrégia brigada

O que mais falta estava a fazer aos gregos era o "manifesto" destes egrégios portugueses. Enfim.

Regressar a um livro


 


«Apesar dos meus vezos, e foram numerosos, continuei a ser dos que pensam que as únicas coisas indispensáveis à vida humana são o ar, o comer, o beber e a excreção, e a busca da verdade. O resto é facultativo.»


 


Jonathan Littell, As Benevolentes

A "carreira"

O regime, nestes trinta e tal anos, produziu uma "carreira" originalíssima, a dos administradores ou gestores públicos. Os membros dessa "carreira", uma vez admitidos nela, dificilmente a largam. Depois é só andar a circular pelo que está disponível consoante os humores políticos do momento. Com sorte, nem desses humores alguns dos ilustres membros dependem e estão como se nunca fossem deixar de estar para recorrer a uma famosa expressão do Doutor Salazar. As regras do jogo entretanto mudaram com este Governo apesar das "excepções".  A "carreira" acha-se no geral subtil e insubstituível, coisa que os poucos novos recrutas rapidamente assimilam. Não são nem uma coisa nem a outra. São administradores e gestores ao serviço do interesse público. É para isso que os contribuintes lhes pagam (e não lhes pagam mal). Quem não entender esta regra básica, meta explicador.

Se não fosse ele



O dr. Soares nunca faz a coisa por menos.

16.2.12

Outra coisa



Alexandre Herculano escreveu uma vez que só pode mudar de opinião quem tiver uma opinião. Eu tinha uma opinião favorável a Sarkozy quando ele foi candidato ao Eliseu e, depois, quando ganhou. Porém o exercício do mandato revelou outra coisa, uma coisa que francamente não interessa à Europa. E que, por tabela, não deve interessar à França enquanto país essencial a uma certa "ideia" de Europa. O homem da foto, François Hollande, não é um modelo de estímulo político. Mas tem à partida a vantagem de não ser Sarkozy.

Um bom resumo

Na revista Visão, José Gil classifica o "acordo ortográfico" de néscio e grosseiro. Um bom resumo. «O Acordo mutila o pensamento. A simplificação das palavras, a redução à pura fonética, o «acto» que se torna «ato», tornam simplesmente a língua num veículo transparente de comunicação. Todo o mistério essencial da escrita que lhe vem da opacidade da ortografia, do seu esoterismo, desaparece agora. O fim das consoantes mudas, as mudanças nos hífenes, a eliminação dos acentos, etc, transformam o português numa língua prática, utilitária, manipulável como um utensílio. Com se expusesse todo a seu sentido à superfície da escrita. O AO afecta não só a forma da língua portuguesa, mas o nosso pensamento: com ele seremos levados, imperceptivelmente, a pensar de outro modo, mesmo se, aparentemente, a semântica permanece intacta. É que, além de ser afectiva, a ortografia marca um espaço virtual de pensamento. Com o AO teremos, desse espaço, limites e contornos mais visíveis que serão muros de uma prisão onde os movimentos possíveis da língua empobrecerão. Como numa suave lavagem de cérebro.»

Feitios

Cruzei-me com a comitiva do Senhor Presidente da República, de manhã, quando aquela aparentemente se dirigia para a escola António Arroio. Digo aparentemente porque tinha lido que o PR ia lá hoje de manhã. Qual não foi o meu espanto quando se veio a saber que um "impedimento" desviou a comitiva do destino final da viagem, a dita António Arroio. Parece que se preparava uma manifestação de meninos e meninas - a Arroio tem vocação "artística". Não quero estabelecer qualquer relação de causa/efeito entre o "impedimento" e o número de circo. Todavia ocorreu-me que porventura com Eanes ou Soares não teria havido "impedimento" nenhum e que qualquer deles teria cumprido a sua agenda sem a menor tergiversação. Feitios.

Complexos

O meu amigo Medeiros Ferreira exagera manifestamente ao falar numa hipotética "quinta da maioria". Atente-se, por exemplo, na recuperação de um secretário de Estado do último governo Sócrates para um cargo de director-geral. Ou na manutenção em funções de outros tantos ou na renovação dos seus mandatos. Não é pecado ser socialista, comunista, bloquista, verde, amarelo ou nada. Mas também não é pecado ser da maioria ou afim. É que às vezes parece que é.

14.2.12

A Salazar



A chamada cultura não tem de ser apenas comadrio ou endogamia crónica. Também chegará seguramente à graça e à leveza, aquela pele que pode ser profunda e de que falava mais ou menos o outro com medida sofisticação. A Salazar já anda por aí. «É um projecto cultural que contempla uma publicação digital, uma revista bimensal, workshops literários e artísticos, uma produtora de eventos culturais e uma editora de ficção. É uma ideia de pessoas jovens, qualificadas e com interesse fundamentado pelas artes e pelo país. Não pretende revolucionar ou provocar mas assume um carácter irónico e subversivo de análise e reflexão. É uma revista bimensal de cultura, artes e ideias. Publicamos para quem gosta de ler e todos os temas são motivo de reflexão e ensaio. Literatura, música, televisão, arquitectura, cinema, desporto, moda, locais, beleza ou columbofilia – se o pombo for interessante ou a competição revolucionária.» Não usa acordografês "obrigatório".

«Golpe até ao osso»

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,


linda vista para o mar,


Minho verde, Algarve de cal,


jerico rapando o espinhaço da terra,


surdo e miudinho,


moinho a braços com um vento


testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,


se fosses só o sal, o sol, o sul,


o ladino pardal,


o manso boi coloquial,


a rechinante sardinha,


a desancada varina,


o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,


a muda queixa amendoada


duns olhos pestanítidos,


se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,


o ferrugento cão asmático das praias,


o grilo engaiolado, a grila no lábio,


o calendário na parede, o emblema na lapela,


ó Portugal, se fosses só três sílabas


de plástico, que era mais barato!


 


 


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,


rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,


não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,


galo que cante a cores na minha prateleira,


alvura arrendada para ó meu devaneio,


bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.


 


Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,


golpe até ao osso, fome sem entretém,


perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,


rocim engraxado,


feira cabisbaixa,


meu remorso,


meu remorso de todos nós...


 


 


Alexandre O' Neill


 

Há que dizer-se das coisas o somenos que elas são

Aqui.

Lá como cá

«Los portugueses saben que este Gobierno ha tenido que tomar estas medidas porque otros en el pasado no fueron lo suficientemente responsables para asumir sus responsabilidades. Engañaron y desilusionaron. A lo largo de los dos últimos años en España y Portugal tuvimos dos gobiernos que únicamente se preocuparon de la comunicación de la ilusión. Vendían a la sociedad una realidad que no existía, y sabían que ese camino era el equivocado. »

A ver se chove


 


Na realidade, quem é que não está à espera que chova?

13.2.12

Isto é outra categoria

A caminho



É assim que se garante a pole position para 2016. Vir cá mais vezes e agarrar a coisa pelos ditos.

12.2.12

«Blogue de um assessor do actual Governo»



Há dias um colega, interessado por livros e banda desenhada, chamou-me a atenção para o número de Janeiro da revista Ler. Trazia uma entrevista com o poeta e cronista Manuel António Pina realizada por Carlos Vaz Marques. Enviou-me cópia. Lá pelo meio M. A. Pina fala, com graça e alguma maldade, do Joaquim Manuel Magalhães, meu amigo de sempre e professor numa aventura na Faculdade de Letras. E de blogues. Diz o poeta, e cito Miguel Serras Pereira, que «há um conjunto de blogues de que sou afim: Entre as Brumas da Memória, duma senhora com quem até já me correspondi, o Der Terrorist, o Vias de Facto. E depois também frequento outro tipo de blogues: o Blasfémias, que é um blogue de direita, o 31 da Armada, monárquico, o Arrastão, o Aventar, o 5Dias, o Meditação na Pastelaria, da Ana Cristina Leonardo, de quem gosto muito, o Portugal dos Pequeninos…» A seguir Vaz Marques "recorda" ao entrevistado que este último é um "blogue de um assessor do actual Governo" como se fosse esse o "ponto" de um blogue com mais de oito anos de existência, ou se ser assessor de um Governo, e deste em especial, fosse incompatível com o gosto de M. A. Pina visto por Vaz Marques e, no limite, uma coisa imprópria para um intelectual ler. Mas o poeta cronista respondeu. «É (um blogue de um assessor do actual Governo). Chama-se João Gonçalves. Por acaso tenho tendência a concordar com muitas das coisas que ele escreve. São afinidades. E isto para quê? À procura de uma coisa que me dê uma espécie de clique. Eu não posso dar notícias, as notícias já estão dadas.» Venha sempre, Manuel.

Pensem nisto

Não percebi bem em que contexto o dr. Eduardo Catroga decidiu perorar sobre a execução do plano de assistência financeira a Portugal. O dr. Seguro também perorou. Aliás, alguém devia aconselhar o dr. Seguro a não ser tão obcecado com o primeiro-ministro pois suspeito que a inversa não é verdadeira. E a patrulha comentadeira, sensivelmente a mesma e com o mesmo desde tempos imemoriais, segue, com o zelo habitual, a última trivialidade, o que "está a dar". Há poucas semanas, o Papa Bento XVI elogiou o silêncio: «o silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo.» Pensem nisto.

Evitar

O regresso das narrativas fantasiosas.

11.2.12

O fim da jornada


 


Com o Crepúsculo dos Deuses - transmitido em directo da Ópera de Nova Iorque pela Gulbenkian a partir das 17 horas - termina a saga do Anel de Wagner na nova produção do canadiano Lepage para o Met. Wagner concebeu a tetralogia para ser apresentada de seguida. As nossas "elites" (políticas, laborais, empresariais, televisivas, jornalísticas, cuturais etc. etc.) deviam ser fechadas numa sala durante mais de vinte e seis horas e serem obrigadas a ver as quatro óperas que constituem o Anel, sem levantar o rabo da cadeira, e lendo atentamente a legendagem no caso de não entenderem o alemão. Talvez as ajudasse mais do que ler jornais, ouvir comentadores e ver telejornais.

O rosto da Dama


 


Meryl Streep protagoniza, no cinema, Margaret Thatcher. Bem caracterizada, Streep revê a "dama de ferro" de diante para trás. A progenitura, a guerra, a ambição, as perdas pessoais e, sobretudo, a solidão típica dos fortes quando atingem o cume. Solidão agravada num mundo até aí reservado aos homens. Thatcher pertenceu a uma estirpe de dirigentes europeus que simbolicamente já não volta. A destruição dessa Europa começou com Blair, o cretino, uma das mais nefastas "criações" da Inglaterra pós-Thatcher. O que temos por aí de Europa é uma caricatura desses tempos de centralidade política e de glória. Para os europeus convictos, este é um mau momento. Portugal tem tudo a ganhar quando privilegia a sua fronteira marítima numa altura em que, de Espanha para diante, pouco há a esperar. O filme, mais do que um retrato de um naufrágio pessoal  - De Gaulle dizia que a velhice é um naufrágio -, é uma feliz metonímia cinematográfica da decadência da Europa representada exemplarmente por Streep/Thatcher. Não por o tempo ter sido implacável com Thatcher. Mas porque se está a revelar implacável connosco.

10.2.12

Por uma questão de vergonha e decência

«Como de costume, os militares começaram agora com exigências de puro carácter corporativo: promoções (sempre essa velha questão), saúde, equiparação de facto ao funcionalismo civil e outras queixas do mesmo teor. Mas nós sabemos que das reivindicações profissionais, na aparência inócuas, se passa depressa para a política. Foi assim no "25 de Abril", para não falar do longo cadastro do século XIX e do século XX. Fatalmente, a carta "aberta" que a Associação de Oficiais escreveu esta semana ao ministro da Defesa, além de se imiscuir em assuntos claramente fora do seu papel e competência (como o escândalo do BPN) e de sugerir a demissão de Aguiar-Branco, seu chefe formal, reclama para si o estatuto de "insubmissa" e de participante activa na vida pública do país, e não hesita em denunciar os "criminosos desmandos" do poder. Ora isto é intolerável. A Força Armada, se não for, como sempre em toda a parte o Estado a obrigou a ser, "uma força essencialmente obediente", acaba por se transformar numa série de bandos partidários, incompatíveis com a legitimidade e com a ordem democrática que dela deriva. Quando um "comunicado da Associação de Praças" declara que "já lá vai o tempo em que os responsáveis governamentais mandavam os militares ficar nos quartéis" ou a Associação de Sargentos se resolve dirigir directamente ao primeiro-ministro, porque acha inútil o diálogo com o ministro da Defesa, chegou a altura de pôr um fim expedito a veleidades, que, pouco a pouco, enfraquecem os fundamentos do regime. Não porque haja o menor risco de uma ditadura militar. Mas por uma questão de vergonha e decência.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

A lealdade

 


 




A propósito de algumas "posições" sobre a não concessão de tolerâncias ou "pontes" oficiais no carnaval (mas também serve para outras coisas), lembro-me sempre da frase de um amigo relativa a certas pessoas que têm todas as qualidades dos cães menos a lealdade.

Por algum lado se tem de começar



A televisão e rádio públicas espanholas, RTVE, aprovou um pacote de redução de custos que ascende a 3,1 milhões de euros e que inclui reduções nos salários das "estrelas" e comentadores e cortes nos gastos recorrentes. O pacote de medidas aprovado – que prevê também receitas adicionais de dois milhões de euros pela comercialização de direitos musicais – suprime os carros oficiais dos principais responsáveis da RTVE, deixando apenas o presidente com um veículo da empresa. Os salários dos principais apresentadores cairá até 25 por cento e o que recebem os comentadores será cortado em 50 por cento. A RTVE vai reduzir em 10 por cento a sua estrutura directiva, no âmbito do pacote de medidas aprovado para responder à previsão de corte de 200 milhões de euros no orçamento para este ano para um total de mil milhões. Por algum lado se tem de começar.

9.2.12

Levantar e voltar a tentar

«"Os grandes empreendedores não são os que desistem à primeira, mas sim os que se levantam e voltam a tentar", afirma o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira. "Há que aliviar o estigma que estava associado à insolvência", diz a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz. Este é, sem dúvida, o espírito que tem de ter todo o quadro legal dos processos de insolvência. A lei tem de deixar de incentivar o arrastamento das dificuldades. Tem, antes, de estimular que se enfrentem as dificuldades para que a empresa possa ser salva. Mas vai ser preciso muito mais do que regras novas. É necessária uma nova atitude dos empresários, dos serviços públicos, da sociedade e da justiça.»


 


Helena Garrido, Jornal de Negócios

O feito

Santana Lopes esteve bem na televisão perante o enfatuado prof. Rosas do Bloco. O pior foi quando se referiu ao acordo ortográfico. O argumento do respeitinho não foi feliz para o defender. Ou o da subscrição da primeira versão do dito em 1933, ou da intervenção da academia de ciências no feito como se de uma purificação se tratasse. O feito é um mau feito, malfeito, porventura ainda a tempo de ser desfeito.

Relembrar o passado em versão cor da rosa

Pedro Lomba no Público via Corta-Fitas. «Durante os dez anos em que ocupou o Palácio de Belém, Sampaio bateu-se ardorosamente contra a lamúria e os lamurientos. Num dos seus discursos afirmou: "Para quem, como eu, tem feito da luta contra a lamúria um desígnio prioritário." Estava certo. (…) Em 2005, numa visita oficial ao Chile, disse que "não é com lamúrias e braços caídos que os problemas se resolvem". Triste destino de Passos Coelho. Caso se chamasse Jorge Sampaio, teria a vida mais facilitada. (…) Só que Passos Coelho não é Sampaio. Também não é José Sócrates, que no seu tempo fez uma expedição ao Oeste, elogiando os agricultores da zona por "não ficarem na lamúria". Vergonha, José. (…) Às vezes o que mais deprime em Portugal não é a pieguice ou a lamúria. É sermos tão previsíveis e inconsequentes, ao ponto de uns continuarem a achar que têm o monopólio do coração e outros fecharem os olhos à verdadeira desvergonha.»

8.2.12

Soaríssimo


 


A RTP anda a passar um programa - para aí o segundo ou terceiro nos últimos anos com ligeiras variações incluindo a gritante ausência da dra. Ferreira Alves - com, apresentado por e sobre o dr. Soares. No episódio da semana passada o dr. Soares falou do "25 de Novembro" como alguém por vinha vindimada. Aparentemente o realizador, Mário Barroso, só aproveitou do arquivo do operador de serviço público de televisão o que lhe interessou para o argumentário do dr. Soares. Amadora, Comandos, Ramalho Eanes, Jaime Neves, Pinheiro de Azevedo, Costa Gomes: nada. Na cabeça do dr. Soares, o "25 de Novembro" é aquilo que o dr. Soares determinou que fosse para os devidos efeitos (os dele) e não necessariamente a história. A "memória de um Portugal futuro" merecia melhor sorte.

Une vie ne vaut rien, mais rien ne vaut une vie*





*André Malraux

O aleijão


 


«Enquanto em Portugal tanto iluminado de "esquerda" quer mandar prender o Graça Moura no Brasil há quem ponha os pontos nos iis no negócio do Acordo», como diz a Ana Cristina Leonardo, designadamente quem considere que «o acordo ortográfico é um aleijão.»


 


Adenda (do editorial de hoje do Jornal de Angola, um dos países que não subscreveu o AO): «O português falado em Angola tem características específicas e varia de província para província. Tem uma beleza única e uma riqueza inestimável para os angolanos mas também para todos os falantes. Tal como o português que é falado no Alentejo, em Salvador da Baía ou em Inhambane tem características únicas. Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é “contaminada” pela linguagem coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.»

7.2.12

O duro desejo

Durante muitos anos, sobretudo durante o consulado do bonzinho Guterres, a conversa pública (política) pautou-se pelo registo mole. Até os mais próximos do referido bonzinho por fim perceberam aonde nos conduzia tanta delicada moleza - a lado algum. O breve interregno da "direita", entre Guterres e Sócrates, nem tempo teve para firmar um registo. Sócrates substituiu a conversa mole pelo poder de sugestão da imagem controlada. Com a desculpa que era de esquerda (e à esquerda tudo se perdoa), Sócrates protagonizou a maior mistificação político-mediática do regime com a complacência de muita gente que agora se indigna piedosamente por tudo e por nada. De alguma forma, o regime socrático vivia do amolecimento e da anestesia da opinião pública. O regresso a um módico de normalidade deu-se com Passos Coellho e, por consequência, a um prudente realismo desprovido de fantasias ou de encenações. Mesmo, sem trocadilhos, as de carnaval. Ora a realidade, por natureza, é dura. As palavras que a descrevem, ou que chamam a atenção para ela, têm forçosamente de ser duras. Nenhuma sociedade se mobiliza ou sobrevive sem que se lhe comunique a verdade. O "duro desejo de durar", a que aludia Paul Éluard, não é mais do que isto.

Dias de bailinho

Regiões "ricas" fazem assim. De resto, é isto.

Deputado de fino trato e esmerada educação



Depois há quem se queixe da "degradação" da coisa.

5.2.12

As benevolentes


 


«Oitenta historiadores (80) escreveram uma carta aberta aos deputados da Assembleia da República, protestando contra a abolição de dois feriados civis: o "5 de Outubro" e o "1º de Dezembro". Dizem eles para se justificar que "nenhuma economia sobrevive à degradação do sentido da comunidade". Ninguém, ou quase ninguém, em Portugal sentiu no próximo ou em si próprio esse "espírito de comunidade", ou alguma vez por acaso lhe ocorreu que ele fosse necessário para "sobreviver à degradação da economia". Mas temos de acreditar em 80 historiadores, quanto mais não seja pela quantidade e pela qualidade de gente como Fernando Catroga, Medeiros Ferreira e Mário Vieira de Carvalho. Mas nem a reverência que sentimos por todos nos deve em última análise impedir de especular sobre as suas sem dúvida irrespondíveis razões. Indo por ordem, convém lembrar que Portugal nunca esteve, como se costuma dizer em prosa patriótica, "sob o domínio de Castela" ou, se preferirem, "sob o domínio de Espanha". O arranjo de 1580 não passou de uma "união pessoal" da coroa portuguesa com a coroa de Castela (ou de Espanha) na pessoa de Filipe II, que era o herdeiro legítimo das duas. Como se vê nada que nos separasse na Europa do Império Austríaco ou do Reino Unido da Inglaterra, Escócia e Gales. De resto, a ordem jurídica portuguesa não mudou, nem a organização da Igreja, nem a defesa do Império, nem a carga fiscal que anteriormente se pagava. Só quando o conde-duque de Olivares nos pediu mais dinheiro e um pequeno contingente de soldados para a guerra europeia, o espírito patriótico da nobreza indígena finalmente acordou e resolveu instalar D. João IV num trono contestável e periclitante. O "1º de Dezembro" comemora a ascensão da dinastia de Bragança e não uma putativa independência que não deixara de existir. Quanto à mudança da Monarquia Liberal para a República jacobina - excepto pela separação do Estado e da Igreja (uma cópia do radicalismo francês) -, não trouxe a Portugal o menor benefício e acabou em pouco tempo por lhe trazer Salazar. Grupos terroristas dominavam a rua, em Lisboa e em grande parte da província. A liberdade de imprensa ficou à mercê da tolerância do governo. E também, com frequência, a vida e a liberdade do cidadão comum. No célebre discurso de Santarém, Afonso Costa declarou que, fora do Partido Democrático, não existiam mais do que "traidores". Princípio que desde 1913 se aplicou rigorosamente pela astúcia ou pela pura força. Não se percebe muito bem como este exemplo contribui para que a "comunidade" nacional não se desagregue e para que a "economia sobreviva". Mas, perante a autoridade de 80 historiadores, é evidente que o país se deve curvar.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

4.2.12

Uma noite na ópera


 


Puccini, La Bohème. Scotto, Pavarotti, Wixell, Plishka. James Levine. Metropolitan Opera, Nova Iorque.

Marcelo em saldo


 


Agora que está a ser discutido o programa do PSD, os seus primórdios, pela pena de Marcelo Rebelo de Sousa, podem ser revistos a 3 euros por volume (são dois) nos habituais saldos da FNAC. Fica barato.

Alegretes e pobretes

Certeiro o Samuel. Algumas câmaras municipais que gastam milhões nos carnavais miméticos do brasileiro, em versão kitsch, não fariam melhor em guardar o dinheiro para outras coisas? Alegretes mas pobretes.

O abrupto acordo

José Pacheco Pereira está como eu em matéria do chamado acordo ortográfico. «também não se aplica a neo-ortografia que abastarda de forma completa a língua portuguesa, em nome da ingerência do estado onde não deve, para fins ignorantes, inúteis e absurdos.»

3.2.12

Um bom princípio geral


 


Feriados em barda, "pontes", "tolerâncias de ponto", abandalhamento de dinheiros públicos, não cumprimento de compromissos internacionais, em suma, não nos darmos ao respeito próprio e alheio. Custe, de facto, o que custar, o tempo "is not for turnng". «We shall not be diverted from our course. To those waiting with bated breath for that favourite media catchphrase, the 'U-turn', I have only one thing to say: "You turn if you want to. The lady's not for turning.»

Contra a cegueira acordográfica


 


Como escrevi aqui, salvo em documentos oficiais porque a "aparelhagem" já foi formatada (e, mesmo nesses, escrevo o português que aprendi apesar do "erro" qua a máquina cega assinala), nunca aplicarei o acordo ortográfico. Por isso aplaudo a decisão de Vasco Graça Moura que, aparentemente, foi mais longe e mandou retirar a coisa dos computadores do CCB. Pelo menos do dele. E continuará, como agente cultural e como intelectual com responsabilidades institucionais, a honrar a língua portuguesa. Louvo-o, dr. Graça Moura, pela sua coragem em não trair o português e por se bater contra a "uniformização".


 


Adenda: Boas escolhas para o conselho directivo do CCB, entre as quais o Paolo Pinamonti e o António Lagarto.

2.2.12

Mitologias



Estrela Serrano e os "mitos urbanos".

Os homens da luta

Leio que Arménio Carlos admite "desgaste na longa luta dos trabalhadores" a propósito do falhanço da greve dos transportes. Talvez Arménio Carlos ganhasse alguma coisa em ver a coisa de outra maneira. Por que não começar por perguntar aos trabalhadores se estão interessados na "luta" antes de o mandarinato sindical a decretar burocraticamente?

Uns rabiscos

«Criticam-se os políticos por não terem ideias próprias. Mas se alguém assume com frontalidade alguma causa, vira-se logo o disco: é sede de protagonismo ou ressabiamento. Acusam-se os políticos de só pensarem em "tachos". Mas se alguém mostra desprendimento e lida com esses lugares sem abdicar da sua consciência, vira-se logo o disco: é oportunismo ou traição. Lamenta-se que os políticos pactuem com a desonestidade. Mas se alguém ousa pôr os valores acima do resto, vira-se logo o disco: está a "morder a mão que lhe deu de comer". E assim sucessivamente...


É uma técnica retórica elementar, é o chamado "truque da tenaz", que ao longo da História tem sido usado com frequência por regimes totalitários e políticos populistas. O mundo mediático criou as condições para este truque reaparecer em força, garantindo o ganha-pão a muita gente que fala de tudo sem saber realmente nada. A estes "tudólogos" basta-lhes ir parasitando a actualidade, usando a tenaz e dando corda ao que apetece ou calha dizer. Afinal, são só mais uns "rabiscos"...»




Manuel Maria Carrilho, DN

1.2.12

No sítio errado

Para quem cumpriu o serviço militar e concebe a instituição militar como um símbolo de coesão nacional, as palavras do Ministro da Defesa são corajosas e oportunas. As Forças Armadas não são o lugar adequado para fazer política nem tão pouco para "protestos": «banalizar o protesto militar desprestigia as Forças Armadas e utilizar o protesto militar como forma de intervenção pública, política e partidária é grave.» No fundo, é muito simples. «Forças Armadas com militares sem vocação são Forças Armadas que não funcionam nem são capazes de cumprir os objetivos» e quem não sente vocação militar está «no sítio errado».

A rua assassina do Arsenal e o resto


 


D. Carlos, numa carta, afirmou que chefiava uma "monarquia sem monárquicos". Nos dois últimos anos de vida, com João Franco, o rei desejou um regime decente e o fim do "rotativismo". Republicanos e membros dessa "monarquia sem monárquicos" conspiraram para que isso não acontecesse. Falharam o golpe de 28 de Janeiro. Decidiram-se pela eliminação física, faz hoje anos. D. Carlos I regressava a Lisboa. Desembarcou, cerca das 17 horas, no Cais das Colunas, meteu-se na caleche com a Rainha e os dois filhos, seguiu para a Rua do Arsenal e, na esquina com o Terreiro do Paço, os tiros traidores acabaram praticamente com a monarquia constitucional e com o liberalismo, no sentido benigno do termo. Até hoje. Dois anos depois, o "PRP" do dr. Afonso Costa tomou de assalto o Estado e reduziu a tradição liberal a uma caricatura. Écrasez l'infâme - isto é, o "rebanho" constituído pelo "povo" que ignorava e desprezava uma República erguida, no fundamental, contra o "povo" e a igreja - foi o lema do Partido Democrático do dr. Costa durante o nefasto período em que nos pastoreou a partir de Lisboa. O Estado Novo recolheu os despojos, eliminou o pior jacobinismo, cavalgou o despeito popular do interior e da tropa contra os "progressistas" do dr. Costa e aproveitou a sementeira anti-liberal e anti-democrática da I República para plantar a sua. Tecnicamente o "25 de Abril" poderia ter recuperado essa tradição liberal interrompida pelos assassinos de 1 de Fevereiro de 1908. Não conseguiu. Se hoje estamos mais "modernos" e menos periféricos, não o devemos tanto à política doméstica quanto à Europa. Mesmo Cavaco, quando fez o que devia ter sido feito muito antes dos anos 80 e 90, fê-lo porque já pertencíamos à União Europeia. Sem ela, nunca teríamos passado de uma razoável estância balnear. Foi uma pena ter-se sacrificado um homem bom, amante da vida, liberal e patriota praticamente para nada. Dito isto, não há "restaurações" nem "incursões" platónicas por petição. A questão do regime está morta e enterrada. E bem.

Sempre bem apascentadas


 


Nota: Os imbecis superficiais e profundos (a expressão é de Karl Kraus) que linkaram este post - não me refiro aos leitores desprevenidos e de boa-fé - fingem que não percebem. Mas percebem e sabem, apesar de imbecis.

Finalmente

Isto.