31.8.12

Grandeza


 


Donizetti, La Sonnambula. Natalie Dessay. Opéra Bastille, 2010.

Para se protegerem a si próprios

«A ideia do condicionamento industrial de Salazar ressurgiu em pleno pela mão das “forças progressistas” que defendem a RTP tal como está: não se pode privatizar, porque a privatização põe em causa a subsistência das estações privadas existentes. Argumento tremendo. Os progressistas querem vedar novo investimento, em defesa de interesses já instalados e arrogam-se o poder, como se o dinheiro fosse deles, de dizer onde se deve ou não investir. Se a privatização põe em causa as estações privadas, é porque os contribuintes indirectamente as estão a financiar, através das enormes dotações à RTP. O que significaria o público ao serviço do privado. Progressismo que se compreende: têm uma estação pública ao seu dispor e não têm que a pagar.  Aliás, a argumentação é a mesma de há vinte e dois anos, quando os mesmos progressistas afirmavam não haver viabilidade, nem económica, nem financeira, para as estações privadas. Embora o condenem, são essas forças as maiores defensoras de um novo condicionamento industrial. Pior do que o de Salazar. Porque é para se protegerem a si próprias. Por isso, nem querem ouvir falar que sejam os privados decidir do seu próprio investimento.»




Adenda: Que a endogamia justifica muitos dos absurdos mantidos na sociedade portuguesa porque sim, já se sabia. No vale tudo na "luta contra o que ainda não se sabe", como Eduardo Cintra Torres já caracterizou o patético "processo rtpvolucionário em curso", até o esposo de uma das maiores prestadoras de serviços da televisão pública (em termos financeiros) perpetrou artigo de jornal sem "disclaimer" ou declaração de interesses. Os "donos" do regime são assim, uma especie de "corrente da sorte" do "meio" a juntar as maiores improbabilidades no desconchavo.

30.8.12

Os nossos assangezinhos


 


Volta não volta, regressa a Maçonaria. Para o meritório propósito do enchimento de chouriços em forma de folhas de órgãos de comunicação social, uma coisa com mais de um mês de edição na internet passou para a televisão com o incandescente termo "pânico". Alegadamente o dito "pânico" aterrou nas cabeças de cerca de mil e quinhentos maçons - vivos, mortos, desaparecidos ou "adormecidos", o rigor aqui não interessa nada mas, sim, a conspícua "teoria da conspiração" de meia dúzia de monomaníacos - cuja identidade (e respectiva Loja dentro do Grande Oriente Lusitano, GOL) foi posta a nu para consolo de outra meia dúzia de voyeurs e aparentados. Também lá estou e, confesso, não fui acometido de nenhum ataque de pânico. Já tinha aqui explicado, a benefício de inventário, a minha relação - breve em ambos os momentos - com o GOL. Agora apenas serviu para me recordar o nome da última Loja por que passei do qual, nova confissão, me tinha esquecido completamente. "Adormecido" desde 1997 - embora, e tal como no direito de família com a afinidade pós separações e divórcios, a "qualidade" maçónica nunca se perca -, é-me indiferente a divulgação desta espécie de index paranóico para consolo onanista de uns quantos "assangezinhos" de trazer por casa. Todavia admito que outras pessoas não pensem assim e vejam nisto, uma vez mais, um sinal daquilo que Jorge de Sena denunciou em verso, «este descaso/ de assassinos que se pisam sem desculpas

A "técnica"

Miguel Esteves Cardoso, no Público, conta que teve um pequeno problema com o seu computador e que precisou falar com os "técnicos" da marca. A "tecnicidade" - Heidegger tem umas páginas muito interessantes sobre a "técnica" que não perderam a actualidade - é uma característica forte dos tempos. Toda a gente é tendencialmente "técnico" de alguma coisa ou em alguma coisa. As televisões e os jornais, por exemplo, fazem desfilar pelotões de "técnicos" para qualquer assunto, desde a economia ao futuro do gado asinino. E, com maior ou menor informalidade, todos subconscientemente olham para nós com o "ar" referido por Esteves Cardoso: «porra, que o senhor não está a perceber nada do que lhe estou a dizer, pois não?»

29.8.12

Ficou






«O país tem sido maltratado, roubado e enganado ao longo de décadas, mas demonstra uma quase heroicidade muda. Barroso fugiu, como fugiram Guterres e Sócrates. Passos ficou e lá está, fazendo o que outros, por medo ou por demagogia, se recusaram fazer. O choque financeiro está a dar resultados. Passos Coelho está de parabéns.»


 


Miguel Castelo-Branco, Combustões


 


Foto: Público/RTP

A rampa


 


Os mais velhinhos e os não absolutamente broncos recordam-se com certeza de uma coisa, da chamada história de Portugal, que ficou conhecida por PREC. As siglas denotavam o "processo revolucionário em curso", uma originalidade doméstica que começou por alturas da debandada de Spínola de Belém, no Outono de 1974. Agravou-se depois do "11 de Março" de 1975 e terminou a 25 de Novembro do mesmo ano graças à coragem física, entre outros, dos comandos da Amadora, de Jaime Neves e de Ramalho Eanes. Eanes provou o fel do PREC quando presidiu à RTP, em nome do MFA. Na altura a dita cuja "morava" no Lumiar e, na sequência do "11 de Março" no qual tentaram "implicar" Eanes, este demitiu-se só regressando lá, por interposta tropa, no dia 25 de Novembro de 1975 para pôr na rua os saneadores dos idos de Março. No pouco tempo em que aturou aquilo, volta não volta esperava-o uma manifestação da comissão de trabalhadores na rampa que conduzia ao edifício do Lumiar, devidamente orquestrada pelos "donos" do PREC, umas criaturas improváveis que iam do PC à extrema-esquerda, passando por um grupo do qual brotaram ministros, um PR e gestores do regime ainda em funções - o MES, o Movimento de Esquerda Socialista, que acabou praticamente no PS. Os "herdeiros" espirituais desses "momentos rampa do Lumiar" andam, consequentemente, por aí e em lugares aparentemente inesperados. As velhas (com novas) cumplicidades também. Que lhes faça a todos bom proveito. 

28.8.12

Shakespeare e nós


 


Os tempos vão de feição para ler Shakespeare. O crítico literário norte-americano Harold Bloom dedicou um grosso volume às suas peças principais, um livro a que chamou "a invençao do humano". De facto, mais do que "inventar" o humano, Shakespeare resumiu-o nas suas personagens ora cómicas, ora trágicas, ora grotescas, ora sublimes. Aprende-se muito sobre o pathos português a ler Shakespeare.

27.8.12

Kershaw






Finalmente o José Pacheco Pereira leu o livro. «A história que este livro nos conta é de como, do atentado falhado contra Hitler até ao governo do almirante Doenitz, que continuou a funcionar semanas após o suicídio de Hitler e mesmo depois da rendição por breves dias, a máquina de guerra, a máquina produtiva, a máquina do terror, continuaram nas condições mais adversas, até ao colapso em 1945. Particularmente interessante é ver como, sob a égide de Bormann, cuja importância é crucial nesta fase final do nazismo, a estrutura burocrática de estado, já sobreposta inteiramente à do partido, continuava a funcionar. Os gauleiter, governadores regionais, detentores de consideráveis poderes executivos, assumem uma enorme importância no esforço de guerra e na repressão. É impressionante ver toda uma burocracia a funcionar debaixo de ruínas que os bombardeamentos aliados tinham trazido às cidades alemães e com os russos a poucos quilómetros, a executar todos os opositores, reais e imaginários, com tribunais ambulantes, assassinando milhares de pessoas, soldados, estrangeiros, prisioneiros, com toda a eficácia organizativa de que a Alemanha se mostrou capaz. De novo, uma ideia de vingança, do tipo “vamos perder, mas vocês não se vão ficar a rir” funcionou em proporções cruéis. O mais interessante do livro, é que nos mostra como uma burocracia eficaz, o clímax da modernidade, pode ser um instrumento ideal para a vingança colectiva, o clímax da barbárie.»

Regular e fiscalizar

«O que espanta mesmo é a natureza das críticas. Primeiro, pela hipocrisia. Os mesmos que choram lágrimas de crocodilo pelos cortes dos subsídios de férias e Natal já não se incomodam pelo facto de a RTP ter custado aos contribuintes nos últimos dez anos quase 4 mil milhões de euros, praticamente o dobro dos cortes nos 13º e no 14º meses. Depois, pela incongruência. Diz-se agora que a concessão até pode ser um bom negócio, porque a RTP vai passar a dar lucro. Se assim for, tanto melhor. Isso significará que o privado terá de pagar ao Estado uma renda ainda maior. É que a RTP não vai ser dada. Vai ser concessionada. Em terceiro lugar pela fantasia do discurso. Critica-se a concessão da RTP por ser um atentado ao serviço público. Mas o que os portugueses vêem é que a programação da RTP, apesar de paga a peso de ouro pelo Estado, é praticamente igual à das televisões privadas. Finalmente pelo preconceito ideológico. Segundo alguns, o que é Estado é puro, o que é privado é impuro. Nada de mais falso. No público e no privado há coisas boas e más, sendo que, em regra, o privado gere melhor que o Estado e este deve sobretudo regular e fiscalizar.»


 


Luís Marques Mendes, CM

26.8.12

Da equanimidade


 


Ainda Eduardo Prado Coelho. Num dos volumes do seu diário, há uma citação de Plutarco que ele depois ele desenvolve: "a generosidade em relação a um inimigo é uma propedêutica à grandeza moral". Assim, «se nos habituarmos a permanecer justos em relação aos nossos inimigos, teremos a certeza de que nunca seremos culpados de injustiça e má fé em relação aos nossos íntimos e amigos. Além disso, se nada disto resultar em relação ao nosso inimigo, nada impede que lhe demos dois pares de estalos na primeira esquina em que o encontrarmos.» Acrescento que também serve para íntimos e amigos.

Vamos longe

O "tempo de antena RTP" foi hoje enobrecido, à hora de almoço, com a presença do dr. Louçã que falava em Portimão. O pórtico é garantido por Jorge Miranda - curiosamente um não opositor da privatização da RTP mas que neste "tempo de antena" só surge para defender a alegada inconstitucionalidade do eventual modelo de concessão de serviço público de conteúdos - pelo que espero ver à noite, no Telejornal, pelo menos um especialista em Constituição que "alargue" o debate. Da Madeira veio também o dr. Seguro, en passant, "garantir" que, quando for governo, a RTP voltará a ser a "velha" RTP no caso de o actual governo se atrever a cumprir o seu programa. Vamos longe.


 


Adenda: Marcelo Rebelo de Sousa, na tvi, alguém que, suponho, também (para além de Jorge Miranda) sabe qualquer coisa mais do que a doxa em matéria de direito constitucional, entende não ser inconstitucional a eventual concessão do serviço público de rádio e televisão a privados, tudo dependendo do rigor jurídico com que for definido o conteúdo desse serviço e a correspondente accão fiscalizadora e reguladora do Estado quanto ao cumprimento da concessão, nesta matéria, pelos privados. Por outro lado, também mencionou que a privatização da RTP, independentemente do modelo, ainda há pouco mais de dois anos foi equacionada pelo então ministro das finanças, Teixeira dos Santos, nos termos que um leitor amavelmente me recordou, e que passo a citar, não vá o dr. Seguro imaginar que a coisa começou agora. «23 março 2010 -- O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, admite a privatização da RTP a médio prazo, não referindo qualquer data. O ministro respondia a uma questão colocada pelo deputado socialista João Galamba que, a "título pessoal”, questionou Teixeira dos Santos sobre as razões por que a televisão pública não está na lista das privatizações, já que, referiu, “faria mais sentido privatizar [a RTP] do que a REN”. Em resposta, o ministro das Finanças afirmou que “não foi colocada a hipótese” da privatização da RTP “já que há um desequilíbrio financeiro significativo que recomenda primeiro a estabilização”. De acordo com os gráficos exibidos pela RTP nos seus Telejornais mais recentes, ou com o seu director geral de conteúdos, administrador da casa quando Teixeira dos Santos era ministro, a "estabilização" a que este aludia como condição prévia à privatização está razoavelmente alcançada depois de a Fazenda Nacional, em Fevereiro último, ter liquidado 344,5 milhões de euros do passivo financeiro da empresa. Ou não está?

25.8.12

Um tempo de antena original

Chego do Guincho, ligo a televisão na RTP1 para ver o telejornal e deparo com o jornalista Rodrigues dos Santos a conduzir, de pé e a seguir sentado, um "tempo de antena RTP". A coisa metia gráficos e pessoas - umas à porta da RTP, outras nos seus locais de férias como Jorge Miranda (Moledo?) ou Miguel Gaspar, do Público, no Algarve, Cintra Torres ao telefone, Felisbela Lopes porventura nos estúdios do Porto, Jerónimo de Sousa não sei bem onde, etc., etc. O "tempo de antena" destinava-se, no essencial e como eventualmente lhe competia, a "defender" a casa, o modelo tutelar estatal em vigor e a "denunciar" as malfeitorias que, alegadamente, o Governo prepara para a dita RTP. Apenas Cintra Torres, na parte editada do seu depoimento, "fugiu" ao "guião" do referido "tempo de antena". Eu pensava que um telejornal era um telejornal, e que um tempo de antena era um tempo de antena. Mas isto sou eu que não gosto de chico-espertismos. Pelos vistos há quem goste. Bom proveito.

EPC, cinco anos depois



«[Eduardo] Prado Coelho foi submerso pela enxurrada de burgessos "informados" que pululam nas sílabas mal amanhadas dos jornais, das televisões e dos blogues. Gente impensável de cujos lábios só brota babugem merdosa, muitos incapazes de construir frases com sujeito, verbo e complementos. Em suma, essa enxurrada varreu tudo e de tudo tomou conta instalando-se como o mandarinato oficial e único. Invariavelmente paupérrimo, alimenta-se de coirões improváveis numa autofagia confrangedoramente risível. O Eduardo, pois. «Sou cada vez mais sensível, mais frágil e desarmado até, em relação aos momentos de humanidade, mas sinto uma crescente repulsa por aquilo que todos somos na vulgaridade do quotidiano: seres mesquinhos, rafeiros, sórdidos, poluentes, corrosivos, invejosos, torpes. É por isso que as relações de força se me impõem para lá da rejeição veemente da própria ideia de força (que eu gostaria de substituir pela de generosidade). O que se vai articulando, como triste filosofia de vida, em torno de três axiomas: quanto mais mal dizem, mais medo têm; quanto mais dizem mal pelas costas, mais elogiam pela frente; quanto mais elogiam, mais medo têm.»


Contra a Literatice e Afins, Guerra & Paz, 2011

A amiba

Em pouco menos de 24 horas, ao ver televisões e ao ler jornais, percebo que há uma "constante" para além da contingência: a tirania comunicacional da mesmice e a prevalência da amiba regimental sobre tudo e todos. A amiba, segundo fonte próxima da internet, «também denominada vulgarmente por ameba, é um protozoário do filorizópodes, cujos elementos têm a possibilidade de emitir projecções corporais denominadas pseudópodes. Os pseudópodes são utilizados para a deslocação e alimentação dos organismos. A formação de pseudópodes provoca uma constante alteração da morfologia do corpo do organismo. Muitas espécies encontram-se no solo, nos lodos e na água, onde se alimentam de outros protozoários mais pequenos e outros organismos unicelulares.» Sim, isto é a propósito da RTP - já agora reitero a minha posição pessoal sobre o tema reforçada precisamente nestas 24 horas - cuja privatização total sempre aqui defendi por entender que o Estado não tem de deter meios de comunicação social, muito menos coisas como aquilo em que a RTP se transformou nas derradeiras décadas. Aliás, isto coincide com o que o actual 1º ministro defendeu em Abril de 2010 após ascender a presidente do PSD. A "memória" da RTP, vulgo arquivo, pelo qual o Estado recentemente pagou 150 milhões de euros, ficaria bem a cargo ou da Biblioteca Nacional, ou, porventura mais adequadamente, do Arquivo Nacional de Imagens em Movimento. O resto, em sintonia com a Constituição (nº 6 do art. 38.º), é uma "estrutura" cujo "funcionamento" deve ser independente "do governo, administração e demais poderes públicos" (sic), ou seja, uma "estrutura" gerida por privados que - à semelhança da RTP desde 1956 - tem a concessão do serviço público de conteúdos também imposto constitucionalmente. Ora em nenhum dos cenários de modelo de privatização em cima da mesa do Governo é alienada a propriedade da "estrutura" que persistirá pública para sossego dos mais "sensíveis". Mesmo assim, a amiba desenvolve-se na maior demagogia "transversal", corporativa e mistificadora. Bom proveito.

24.8.12

Crenças não ansiosas






Sem querer interromper a veneranda cadeia de derrames em curso por causa de notícias de cenários - reparem na diferença não meramente semântica entre isto e factos, as famosas crenças não ansiosas - sobre o "processo RTP", chamo a atenção para duas ou três coisas. A Constituição é respeitada em qualquer dos cenários avançados pelo hebdomadário Sol - ela impõe que o Estado assegure um serviço público de conteúdos de rádio e televisão mas não nomeia o operador, não diz como é que o deve fazer e nem prevê que deve ser gratuito (isto por causa da eventual sobrevivência da contribuição audiovisual que justamente "subvenciona" esse serviço público uma vez que num cenário de concessão desaparece o subsídio estatal, vulgo indemnização compensatória que este ano, com IVA, se cifra em 90 milhões de euros). Qualquer um dos modelos em estudo assegura isto. O eventual encerramento da RTP2, ou da frequência onde emite, não é equivalente ao fim da programação de serviço público que ela assegura porque os termos do serviço público de conteúdos a prosseguir, seja sob a forma de concessão ou outra, terá de a incluir. O debate estará sempre distorcido enquanto começar e acabar na RTP que é - tem sido até aqui o que não quer dizer que tenha de ser para sempre - apenas o veículo, entre outras coisas, da concessão de serviço público de rádio e televisão. Neste debate, é preferível partir do conceito de serviço público de conteúdos de qualidade para o instrumento que o possa garantir com mais eficácia, eficiência na relação custo-benefício do que o contrário. Foi isto, por outras palavras que, na tvi, o consultor do Governo para as privatizações explicou a Judite de Sousa. Tipicamente um consultor está habilitado e autorizado a falar de cenários e, nesta matéria, não sofre especialmente de nenhuma capitis diminutio. Todavia não é ele quem decide, a final, o que qualquer pessoa com o antigo sétimo ano dos liceus percebe. No caso da RTP, a decisão passa por uma tutela técnica (Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares), por uma tutela financeira (Ministério das Finanças) e, last but not the least, pelo Primeiro-Ministro. O resto, e muito tagarelice, são equívocos.

23.8.12

O detalhe






«Deus — ou, por outras palavras, o milagre do sentido comunicável — reside no detalhe linguístico.»


 


George Steiner, A poesia do pensamento (em breve na Relógio d'Água numa tradução de Miguel Serras Pereira)

O rabo real


 


Enquanto por cá as "notícias" são as marés vivas, tratadas quase ao nível de fenómenos do Entroncamento, lá fora impera o rabo do príncipe Harry, porventura o terceiro ente na linha sucessória da eterna Isabel II. A doxa, ouvida imediatamente pelas televisões britânicas, dividiu-se entre o comportamento "impróprio" e a "normalidade" que "humaniza" a realeza e "populariza" o príncipe. Na verdade, apesar da "estrelinha" censória colocada no instantâneo que capturou a real anatomia, percebe-se esteticamente a definitiva propensão para a "popularidade". Como Tennessee Williams observou em relação a J. F. Kennedy, na altura presidente dos EUA, também Harry sugere a propriedade de um "belo rabo". Onde está o mal em exibi-lo?


 


Foto: Mirror

22.8.12

Sem excepções

Não vou aqui explicar em que consiste a chamada "lei dos compromissos". Ou melhor. Vou apenas reduzir a explicação a duas ideias simples. A primeira, é que a lei contradiz aquele extraordinário "princípio" - que nos guiou praticamente nos últimos trinta e tal anos com o sucesso que se conhece - de que o "dinheiro aparece sempre". Esta lei indica precisamente o caminho oposto como base de partida, isto é, o dinheiro não aparece sempre nem tão pouco existe um tipo qualquer disposto a assinar a primeira despesa que lhe colocarem à frente do nariz porque sim. A segunda, é que a semântica é, só por si, eloquente. Uma lei de compromissos (estamos a falar de dinheiros públicos) é isso mesmo, um compromisso assumido por quem de direito que não gasta mais do que tem ou do que pode "cobrir", se as tiver, com receitas. Os maus hábitos levam tempo a morrer (e isto em inglês é mais bonito). Mas é bom que despareçam. Sem excepções.

As benevolentes

 



 






«Nada substituiu o francês com particular vantagem. Na escola, deixou de se aprender e o inglês, que se estuda em vez dele, não parece ir longe. É certo que nalgumas áreas científicas, no "economês" de serviço e nos computadores, se tornou incontornável a presença de uma matriz anglo-americana. Mas hoje em dia, apesar das séries de televisão, dos filmes e da Internet, ninguém ou quase ninguém lê obras literárias em inglês ou se exprime nessa língua com a facilidade com que o fazia em francês. E as toneladas de materiais da maior relevância, impressos em francês, que dormem nas nossas bibliotecas, estão mais ou menos condenadas a serem somente lidas pelas traças. É pena. Foi com esses materiais que aprendemos a pensar a literatura e as artes, a história, a própria Europa. Do fundo dessa decadência, três séculos de cultura em língua francesa nos contemplam.»


 


Vasco Graça Moura, DN


 


Foto: Montaigne Project

21.8.12

Coisas perdidas


 


Apeteceu-me reler Gore Vidal. Não a ficção - que nunca me interessou especialmente, salvo Julian ou Creation, já que The City and The Pillar "conhecia" do conspícuo "registo Oscar Wilde" da vida a imitar a arte - mas as memórias, primeiro, e, a seguir (espero que a seguir), os ensaios. Vidal está esplendorosamente vivo nesses textos, naqueles lugares, naquela gente, e, sobretudo, aquilo tudo torna-me "mais vivo" em tempos desprovidos de amenidades ou "grace". Point to Point Navigation tinha uns cinco, seis anos de primeira leitura por cima. Mesmo assim, há sempre "novidades" como uma referência que envolve Nancy Reagan, a parte feminina do famoso casal presidencial que o autor poupou pouco noutras ocasiões. Encontraram-se num evento qualquer em Los Angeles, Vidal sem Howard Austen e Nancy sem Reagan. Ambos mortos, evidentemente. «"Não detesta quando lhe dizem que o tempo cura tudo?", disse ela. Concordei porque, "afinal, o tempo é a maior e a mais constante lembrança de coisas perdidas e que desapareceram para sempre.»

Motivações, segunda parte





O Rui Ramos decidiu perder algum do seu tempo a responder a este "historiador" que "escreve quinzenalmente" no Público. Não valia a pena. Já nem tive paciência para ler a segunda "tranche". Há muitos anos, apesar da juventude relativa do homem, que nada de novo ou estimulante intelectualmente entra ou sai de cabeças como as dele. Para recorrer aos termos de Miguel Tamen, não são definitivamente amigos de objectos interpretáveis. Não elaboram porque alguém, muito antes deles, já tinha elaborado e, para eles, de forma definitiva. Adoram atribuir linguagens aos outros - sobretudo, como no caso manifesto de Ramos, absurdas e erradas - que os outros tipicamente não usam nem nunca usaram. Seguem uma vulgata com uma espécie de olho ciclópico cego no meio. O Rui termina o artigo com uma conclusão óbvia: «Esta não é uma polémica historiográfica ou uma questão de opiniões. É um simples caso de difamação pessoal.» Antes que o Carlos Vidal apareça aqui a "defender" a sua dama, salvo seja, a "academia" personificada na maravilhosa loffica pessoa contra o sempre atroz fantasma de Salazar, e com a devida vénia, fica o texto do Rui Ramos na íntegra.


 


«Publicou o jornal PÚBLICO, nos números de 2 e 16 de Agosto, dois artigos de um seu colunista quinzenal a acusar-me de ter dito, na História de Portugal de que sou autor com Bernardo de Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, que a ditadura de Salazar não era uma ditadura, mas um regime democrático e pluralista, e que a melhor solução política para o Portugal de hoje é uma ditadura fascista como a de Salazar (há obviamente uma contradição nestas duas acusações, que parece ter escapado ao autor delas). Para "provar" tais calúnias, são-me atribuídos argumentos que nunca defendi e deturpado o sentido de frases e de pedaços de texto, grosseiramente mutilados e manipulados. Darei alguns exemplos. É dito ter eu afirmado que Salazar não era uma "personagem ditatorial", no sentido em que não era um ditador e o seu regime não era uma ditadura. Nunca, como é óbvio, disse isso: o que eu digo, a p. 639, é que Henri Massis, ao visitar Salazar em 1938, notou que "nada tinha de uma personagem ditatorial" (a expressão não é minha, mas de Massis), no sentido em que projectava uma presença muito diferente do ditador típico da época, como Mussolini, o que não quer dizer que Salazar não fosse um ditador (como até Massis o considera, aliás). De resto, chamo por todo o lado ao Estado Novo uma "ditadura". É dito que eu considero o Estado Novo um regime absolutamente idêntico à monarquia constitucional do século XIX. Nunca, como é óbvio, disse isso: o que eu digo, a p. 632, na linha de vários historiadores e juristas de diversos quadrantes ideológicos, é que o Presidente da República - só isso - faz lembrar, na constituição formal do Estado Novo (muito diferente da efectiva), o rei da monarquia constitucional, o que não é a mesma coisa que dizer que a ditadura salazarista é igual ao regime liberal do século XIX. É dito que eu considero o Estado Novo um regime que não se distingue das democracias ocidentais do pós-guerra, quando o que eu digo, a pp. 667-670, é que a Guerra Fria levou as democracias ocidentais a tolerar e a enquadrar ditaduras como a de Salazar, cujas semelhanças com a Itália fascista noto a p. 638 (cito-me: "Em 1940, o Estado Novo lembrava em muitos aspectos o Estado fascista italiano"). É dito que eu faço a história da ditadura de Salazar sem jamais mencionar a censura, a PIDE, a tortura, etc. - quando, a páginas 654 e 694, descrevo o funcionamento da censura; a pp. 650 e 695, os recursos e os métodos de actuação da PIDE; a p. 651, cito o número de presos políticos, o número de mortes no campo de concentração do Tarrafal e o uso generalizado de torturas como a "estátua"; a p. 695, atribuo o assassinato do general Delgado à PIDE; a p. 673, refiro o sistema de penas de prisão renovadas por decisão do Governo ("a confirmação de que o arbítrio pessoal dos governantes substituíra qualquer procedimento judicial") e as exclusões políticas no emprego; a p. 652, cito uma carta impressionante de José Marinho, de 1937, que bem revela o peso opressivo da ditadura salazarista sobre o quotidiano. É dito ainda que escondo a violência colonial, quando a verdade é que afirmo que, sob a ditadura de Salazar, tal como sob regimes anteriores, as populações das colónias estavam "à mercê da administração" (p. 659), prosseguindo uma análise de pp. 563-565, em que enfatizo a dimensão violenta da colonização em África. Podia continuar. Não me parece que valha a pena. O resto é deste mesmo quilate. Recorrendo a tais métodos, e com a desfaçatez com que são usados neste caso, seria possível "provar" que qualquer pessoa é "fascista". Permito-me convidar os leitores do PÚBLICO, sejam quais forem as suas convicções, a ler os capítulos sobre o Estado Novo na História de Portugal, quer na edição de livraria da Esfera dos Livros, quer na edição que está a ser distribuída gratuitamente pelo semanário Expresso. Não é uma obra perfeita. Terá limitações e defeitos. Mas estou certo de que nenhum leitor de boa fé, por mais que discorde das minhas interpretações, poderá dizer que derivam de "ideias fascistas". Há sete anos que escrevo semanalmente na imprensa e participo regularmente em programas de televisão. Os leitores do PÚBLICO puderam ler-me durante três anos, todas as semanas, entre 2006 e 2009. As minhas orientações e pontos de vista não são segredo. Toda a gente que me leu ou ouviu sabe que não tenho qualquer simpatia por ditaduras, sejam de direita, de esquerda ou do centro. Em tudo o que disse e escrevi sobre a ditadura salazarista, em publicações académicas ou na grande imprensa, em aulas ou em palestras, nunca deixei a mais ligeira dúvida sobre a natureza opressora e asfixiante do regime. Não por facciosismo, mas porque o regime era mesmo assim. Podia citar aqui o primeiro estudo académico que publiquei sobre o salazarismo, em 1986, na revista Análise Social, n.º 90, pp. 109-135 (disponível online). Mais eis, por exemplo, excertos do que escrevi no Expresso, suplemento Actual, 24 de Julho de 2010, pp. 8-13: "Quando comparamos a ditadura salazarista com as suas contemporâneas, quer na década de 1930, quer na década de 1960, a contabilidade repressiva é modesta. (...) Mas não nos devemos enganar. A ditadura de que Salazar esteve à frente desde 1932, quando assumiu a chefia do Governo, foi mesmo uma ditadura, com censura, tortura nas prisões, penas indefinidas e discriminações políticas. Pareceu "moderada", porque, como explicou Manuel de Lucena, era meticulosamente "preventiva". Todos em Portugal estavam à mercê do poder, sem real protecção jurídica. (...) Nunca houve dúvidas de que (a ditadura) podia ser implacável. Deixou morrer três dezenas de anarquistas e comunistas no campo do Tarrafal, em Cabo Verde, entre 1936 e 1945. Perseguiu e exilou o bispo do Porto, encobriu ou não investigou o assassinato do general Humberto Delgado por agentes da PIDE em 1965"...  Como é possível alguém que leu isto dizer que eu "nego" a ditadura? De facto, as acusações que me foram feitas são tão absurdas que não deveriam merecer resposta. Esta não é uma polémica historiográfica ou uma questão de opiniões. É um simples caso de difamação pessoal. Mas, publicadas num jornal como o PÚBLICO, tais calúnias e falsidades poderão ter deixado perplexos alguns leitores que ainda não conhecem o livro. Para esses, e só para eles, escrevi estas notas. Para os que leram o livro de boa fé, mesmo sem concordar, não creio que sejam necessárias.»




Foto: Meios e Publicidade




Adenda: Este post do Miguel Castelo-Branco




Adenda2: Um "retrato" do fabuloso académico Loff por António Araújo. Apetece dizer - como o António Barreto uma vez disse de Sócrates - que não sei se Loff é fascista. Parece, mas, sinceramente, não sei.

Mergulhem


 


Ouvi na rádio que os nadadores salvadores só "aplicaram" quinze multas até à data, isto é, multas por, entre outras coisas, um tipo decidir ir tomar banho com bandeiras vermelhas. No Guincho, onde estive ontem até ao crepúsculo, as bandeiras eram vermelhas (é quase sempre assim) mas nem por isso o mar esteve menos frequentado apesar da agitação. Eu próprio não resisti. Quem se afoita a mares como o Guincho tem obrigação de saber onde é que se vai meter. Quem não sabe, tem lá os ditos nadadores salvadores para apitar e mandar recolher as hostes ao areal. Não é preciso multar ninguém. Esta "doença" dos pelourinhos por tudo e por nada começa a ser avassaladora e pouco "liberal". Sou adepto de uma democracia responsável que favoreça o inesperado e a contingência, nomeadamente o risco (diferente do "risco" nos nossos mirabolantes "empreendedores"). Depois de mortos, temos o tempo todo pela frente para as "rotinas". Aliás, nunca mais saímos delas. Mergulhem.

20.8.12

Quero ser assim

Emerge, de repente e rodeado de mirofones na sicn, o egrégio dr. Mexia que antes tinha discursado, com um zelo talmúdico, em inglês. Não simpatizar, como é manifestamente o meu caso, com aquilo que o dr. Mexia representa não traz popularidade a ninguém. Mas, de facto, o direito é recíproco depois de o dr. Mexia ter revelado a sua acrimónia contra os funcionários públicos os quais, na sua amável "doutrina", devem ser metodicamente sugados até ao tutano - no activo ou aposentados com extraordinárias pensões de 550 euros, por exemplo - porque são "diferentes" e, suponho, pouco "liberais". No sector privado - presumivel e preferencialmente no dele - é que não se pode tocar a não ser levemente. Quando for grande, quero ser assim.

O furacão e as "pulgas lusitanas"

Isto é tão bom que até o furacão Gordon passou ao lado dos Açores, apenas manifestando-se com uns ventos, umas chuvas e umas ondulações mais ou menos exaltadas que afectaram sobretudo o arvoredo. Ah, o "país doce" que é Portugal e que assusta furacões que afinal  fogem do


 


(...)


Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.


 


Jorge de Sena

19.8.12

Grandeza


 


Mozart, Le Nozze di Figaro: Barbara Frittoli, 2010, Paris

"Inscrições"


 


Entretanto apercebi-me que o Francisco José Viegas apareceu no hebdomadário francês Le Monde. Surpreendi-o feliz como escritor e editor, e menos feliz enquanto político: «subitamente, eu, o editor feliz, o escritor sem preocupações, cometi este erro de aceitar um cargo político.» À semelhança de José Gil, e apesar de não estar preocupado com "inscrições", Viegas pensa que «os portugueses têm medo do futuro, de falar. E isto acontece depois da Inquisição, que foi há 300 anos, e de 50 anos de regime fascista de Salazar. Hoje, com a crise, continua. É terrível.» As últimas vezes que alguém ligado politicamente à cultura passou pelo Le Monde ocorreram com Manuel Maria Carrilho. Carrilho, aliás, colaborou no jornal e, quer como ministro da cultura, quer como embaixador de Portugal na UNESCO (curiosamente o "emissário" da sua rápida remoção do posto, Luís Amado, na altura MNE de Sócrates, o "emissor", é guest star na universidade de Verão da JSD talvez porque a "direita" aprecia a "subtileza"  intelectual deste novo banqueiro), escreveu artigos e concedeu entrevistas. No fundo, o que Viegas quis dizer - não fosse dar-se o caso da paróquia constituír uma compreensível e actual preocupação do autor de Longe de Manaus-, já estava escrito por Carrilho, há três anos, justamente no Le Monde. «Cette dernière année a montré quotidiennement le désarroi dans lequel nous sommes tous plongés : le manque de repères et de boussoles qui puissent donner un sens à la vie et au monde ; les sophismes des experts enfermés dans des modèles artificiels, qui ne prévoient rien et n'expliquent que très peu ; l'impasse des politiques mondiales qui puissent répondre à la mondialisation économico-financière, en inventant de nouveaux équilibres entre le droit et le marché ; la frivolité des médias, qui deviennent de plus en plus les otages de l'instant et du sensationnel ; la difficulté des societés à avoir une vision d'ensemble sur elles-mêmes, comme si elles étaient aveuglées par le présent et n'avaient ni histoire ni avenir. La crise du monde actuel ne pourra être surmontée sans que l'on prenne ces problèmes à bras-le-corps (...) [avec] «des valeurs qui, plus qu'un écho du passé de l'humanité, doivent être surtout capables de donner naissance – à côté de la politque et de l'économie – à un nouveau, à un troisième pilier de la mondialisation : celui de la culture, dans l'acception la plus vaste du terme.»

A vaca fria

De regresso à vaca fria, verifico que, fora a ameaça de um furacão nos Açores, o país continua a "viver habitualmente". A bola voltou, as chamadas intimações de mortalidade continuam sob a forma primitiva da violência doméstica e não doméstica, o dr. Louçã não tenciona deixar de ser deputado, Alberto João ameaça "separar-se" (e viver de quê?), a Europa - que é "o" assunto - persiste entre nós como um não assunto trivial, não há certezas sobre se os aparelhos de ar condicionado made in Alexandre Alves foram devidamente inspeccionados por causa dos microfones da Stasi, etc.,etc. Nenhum, pois, entusiasmo e cada vez menos dinheiro embora tal não se note no desenrolar do tema "férias", com mais ou menos sandochas, com mais ou menos dias delas. Daí a minha equanimidade precária em relação ao padre Tolentino de Mendonça (não o poeta, evidentemente, que não me interessa nada). Diz ele a um jornal que se devia recolher mais inspiração nos Evangelhos e critica a iliteracia do catolicismo português. Quando um bispo vai exibir as suas frioleiras a um programa televisivo engraçadista, do que é que Tolentino estava à espera?

18.8.12

A cabeça de valter


 


Para se "sentir decapitado" pela sua editora, o nosso "valter" deveria previamente certificar-se que tem, de facto, uma cabeça. E que essa cabeça produz coisas como livros e, sobretudo, uma literatura. 


 


Foto: Nelson d'Aires

17.8.12

O "rosetismo"

A irredutível vereadora Roseta, uma "moralista" bicicleteira, julga que o chamado "Estado Social" caiu do céu no tempo em que ela devia detestar bicicletas. Não. O Estado social é uma criação louvável que, à semelhança da vida em geral, está em crise. Na sua encarnação socialista - ela aderiu ao PS em 1991, no meio de uma violenta choradeira, no dia em que Sampaio perdeu estrondosamente para Cavaco -, Roseta naturalmente não se apercebeu para onde corria o dito Estado social como, de uma maneira geral, dificilmente se apercebe de qualquer coisa palpável, tipo "facto", que alguém designou por crença não-ansiosa. O que não calha, de facto, com ela. Ora os factos mostram-nos que, para além de poupados (prefiro o termo "austeros" que é uma forma de ultrapassar a austeridade enquanto modo de vida contingente), devemos ser cautelosos na apreciação das políticas públicas tendentes a evitar que o Estado social pura e simplesmente acabe. Roseta é uma dos muitos que não percebem esta evidência por causa daquela demagogia do "coitadinho". Já sou do tempo em que muitas pessoas, com pouco mais de cinquenta anos, se "reformavam" e, decerto, não eram propriamente "coitadinhos". A acumulação de coisas destas afundou o "social" do Estado: os "activos" mal chegam para pagar os precoce e os atempadamente inactivos, e o Estado social resvala para lado nenhum se nada for feito. Não é certamente com "rosetismos" que lá se chega. Se se chegar.

Não querer nada






«Today, I wonder why I am so content, inhabiting as I do a body so keen to disassemble. Then I realize why, perfect day to one side: I do not want anything. I am past all serious desire for anything - at the moment, anyway. The Buddha was right: To want is to suffer."


 


Gore Vidal

16.8.12

ASP

Estava a ver e a ouvir o ministro Álvaro Santos Pereira, numa entrevista com o jornalista Mário Crespo, e coisas como estas ajudam a explicar o que ele explicou, ou seja, por que é que chegámos ao "estado" a que chegámos. E por que é agora umas quantas outras coisas têm de ser feitas no sentido de evitar que aquelas - ou parecidas com aquelas - voltem acontecer.

15.8.12

"Certezas"

É extraordinária a imaginação dos portugueses, sobretudo quando "profundos". Nunca, em tão poucos dias, tanto barro foi atirado às paredes do operador televisivo de Cabo Ruivo para ver se cola. Nunca tantas "certezas" foram alvitradas em tão pouco tempo sobre a RTP e as "intenções" do governo sobre ela. Mas só o tempo, esse grande escultor nas palavras de Marguerite Yourcenar, nos resolve as certezas. Nunca tenho, por isso, uma.

O último 15 de Agosto

De acordo com o código laboral, este foi o último feriado do "15 de Agosto". Podia, aliás, ter começado - o código - a ser aplicado hoje, nesta matéria, porque, com a chuva, parecia "25 de Dezembro" com a água do mar ao menos mais quente. E o Pontal? Bom, em matéria de Pontal talvez subscreva Pedro Santana Lopes: «Há quem, em Portugal, continue a tentar os mesmos métodos de há uns bons anos. Pedro Passos Coelho, ontem, disse bem: isto não vai voltar a ser como antes. As habilidades começam todas a vir ao de cima. Tem sido devagar, devagarinho, mas tem caminhado nesse sentido. São habilidosos de mais, em diferentes áreas, que pensam que nunca serão falados. Vão ser e por muita gente. Eles começam a sentir que algo se está a mover e que os rostos verdadeiros vão ser destapados. » Mas há muito, muito - e muitos - para mudar. E uma sociedade meridional e pobre, entre o porcino, o bovino e o "espertino", é mais complicada para mudanças. Também não vale muito a pena acenar com a "regra de ouro" ou o magnífico prof. Bilhim. O quê e quem, terão famosamente perguntado os convivas e alguns telespectadores. O essencial, de facto, são factos, já que é com isso que as pessoas vivem, e não com teorias de direito constitucional ou "nomes", perdoe-se-me o atrevimento crítico. E  os factos e os argumentos, com maior ou menor felicidade, dão razão a Passos Coelho. O filósofo norte-americano George Santayana usava um aforismo que, sem o saber, o primeiro-ministro felizmente "interiorizou": "aqueles que não são capazes de se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo".

14.8.12

Objectos interpretáveis



É na praia da foto, a do Vau, que estou tão perto quanto possível do Pontal, a festa, onde nunca fui a não ser ao parque aquático, uma vez, para ir literalmente água abaixo. Ao pé de mim, no Vau, livros. O mais próximo chama-se Amigos de Objectos Interpretáveis, de Miguel Tamen. Vem a calhar.


Foto: Sapo

A longa mão das coincidências

Na sua última edição, um semanário entregava duas páginas inteirinhas a dois almoços. O primeiro, juntou um membro do governo e o líder do maior partido da oposição. O segundo, juntou o próprio jornal com um jovem dirigente partidário "virado" para a "acção comunicacional". Um dramaturgo obscuro, norte-americano, referia-se à "longa mão das coincidências" para denotar coisas como estas em que intervêm políticos (ou declinações deles) e jornalistas. Outra longa mão, a do tempo, normalmente mais poderosa que a outra, acaba sempre por demonstrar que a asserção do dramaturgo não passa de uma ironia.

"Vistas", by G. V.

13.8.12

Cresçam

Pela Helena Matos fico ciente que o PS espera que o "crescimento" brote amanhã, em Quarteira, num jantar do PSD. O PS nunca faz nada por menos. Entre 1995 e 2011, com uma leve intermitência da "direita" que não durou três anos, o PS teve a possibilidade de fazer brotar "crescimento" onde lhe aprouvesse. Aí pelos idos de Março, Abril de 2011, percebeu-se, sem necessidade de consultar os mapas de Medina Carreira, que o "crescimento" tinha sofrido, por assim dizer, um incremento negativo nos anos de ouro da governação socialista. Isso, junto com outras maleitas, obrigou à intervenção da Europa e do FMI, por sinal duas coisas que ainda não acertaram o passo relativamente ao dito "crescimento". Álvaro Santos Pereira - uma pessoa serena e pouco espalhafatosa o que contradiz a "tradição" do frenesim mediático do "faz de conta" e do "photoshop" - tem estado, com discrição, a fazer um trabalho que acompanha o controlo das finanças públicas. Tem apenas o crédito de um ano de trabalho na economia, apesar da vasta "brigada de sapadores", enquanto o PS pode sempre exibir um passivo com mais de uma década de "saber de experiência feito". Cresçam.

Nada

Por falar em concursos, um jornal promoveu um, online, talvez (não me apeteceu ir verificar), onde perguntava quem era o melhor primeiro-ministro da "era" constitucional. Como a "era" começou em 1822, e os jornais dos dias de hoje não são especialmente conhecidos pelo seu saber histórico, presumo que a "era" dizia respeito aos governos constitucionais desde 1976. Sócrates ficou à frente. O incumbente e Santana Lopes, não sei por que ordem, vieram a seguir. Os "votantes" não chegaram aos 12 mil. Os maldosos verão neste "inquérito" uma tropelia contra Cavaco, Sá Carneiro ou mesmo Soares ou Seguro. Outros, como eu, não vêem nada.

A pátria está salva


 


Até mais ver, estão inscritas no programa "secret story" cerca de 80 mil pessoas. Com a aproximação da coisa, devem chegar às cem mil, com os primos afastados e os vizinhos já incluídos. Na devida altura, será o programa "preferido dos portugueses" como os coloridos apresentadores apreciam dizer. E, a seguir, propiciará a Portugal o conhecimento de duas ou três fantásticas criaturas, obrigatoriamente tatuadas, que nos levarão a interrogarmo-nos: como é que foi possível termos sobrevivido tanto tempo sem saber que eles existiam? A pátria está salva.

12.8.12

A sério?

Em Londres onde, graças a Deus, acabaram os jogos olímpicos, o presidente do comité olímpico português, Vicente Moura, afirmou que "o sistema desportivo está obsoleto". O senhor comandante deve saber do que fala já que preside à coisa há quase vinte anos.

Ersatz

Passar um dia sem ler um jornal faz quase tão bem como beber litro e meio de chá de folha de abacateiro.  E parece que não perdi nada.

11.8.12

Louçã, o próximo senador


 


O Bloco anda a preparar a "sucessão" do dr. Louçã. Devia preparar a sucessão de toda a nomenclatura, sobretudo os pseudo mais novos e novas que já nasceram velhos e soturnos. O Bloco perdeu a graça se é que alguma vez a teve. Prudentemente, algumas das suas "promessas", como Rui Tavares - que já vai a mais de meio da ponte para o PS -, largaram Louçã da mão. A primeira foi Joana Amaral Dias, alguém que inexplicavelmente Medeiros Ferreira vê brilhar no futuro firmamento político nacional como George Sanders via Monroe em All about Eve. A saga iconoclasta de Joana começou por alturas da candidatura 13% do dr. Soares, em 2006, e nunca mais parou graças à sempre generosa RTP. Louçã tornou-se insuportável. É, aliás, da natureza dele - aquele misto de catequista com lançador profissional de bombinhas de mau cheiro. Antes dele, o embotado prof. Rosas fez o enorme favor à pátria de se retirar para a nobre pastorícia do comentarismo televisivo onde é apenas irrelevante. O Bloco surge cada vez mais como uma espécie de emplastro das manifestações de Arménio Carlos e do PC. Mais tarde ou mais cedo, o PC e o seu "movimento sindical" acabariam por recuperar um terreno que só pela "novidade" o Bloco tomou. Para além disso, o BE distinguiu-se sempre pelo seu carácter radical pequeno burguês, como diria Cunhal, de fachada socialista: um movimento dirigido por uma intelectualidade citadina, em geral "bem nascida", cuja ligação às "massas" é puramente retórica e nula. Tudo indica, pois, que o Bloco vai legar um "senador" ao regime. Era o que mais falta lhe estava a fazer.

10.8.12

And we drown


 


À falta de melhor, dei por mim a ler em voz alta (para mim mesmo) o poema de T. S. Eliot The love song of J. Alfred Prufrock. Dói-me a cabeça e este céu definitivamente não nos protege - the unsheltering sky e não o que "protegia" Bowles afinal de nada.


 


(...)


 


And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair—                              
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin—
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

  For I have known them all already, known them all;
Have known the evenings, mornings, afternoons,                      
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
  So how should I presume?

  And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?                   
  And how should I presume?

  And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
  And should I then presume?
  And how should I begin?
        .     .     .     .     .

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets              
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
        .     .     .     .     .

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?                 
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet–and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

  And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,                                            
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all"
If one, settling a pillow by her head,
  Should say, "That is not what I meant at all.
  That is not it, at all."

  And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,                                          
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
  "That is not it at all,
  That is not what I meant, at all."                                         
        .     .     .     .     .

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.

  I grow old . . . I grow old . . .                                 


 


(...)


 


Num texto do Verão de 84 - sempre o castigo do Verão -, Joaquim Manuel Magalhães explica por que é que este poema revela "ferozmente Prufrock a si mesmo" "e a todos nós": «A qualidade devastadora do texto reside neste facto de tudo o que nos é dito de Prufrock ser através de uma penosa ascensão dele próprio à consciência de si. É o amor secretamente compreendido, interiormente cantado, elegiacamente enviado a um morto, [a Duras é explícita: todo o amor é luto do amor], vivido sem risco nenhum no inferno da banalidade comportamental que se não quer ultrapassar, que revela ferozmente Prufrock a si mesmo. E a todos nós.»


 


We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown              
Till human voices wake us, and we drown.

Um "estado" que não se recomenda


 


Ruben A. escreveu, há anos, um livro sobre nós. É um romance mas, na realidade, é uma metáfora literária sobre Portugal e os portugueses. Com ou sem "fascismo", a prosa alegórica mantém a actualidade porque, com ou sem Europa, nós intrinsecamente mudámos pouco. Apesar dos níveis oficiais de literacia indicarem melhorias, persistimos fundamentalmente estúpidos como pedras. Ruben resumia a deficiência a um "deixa estar como está para ver como fica". Vem isto a propósito das fundações (também servem "observatórios", "institutos", "equipas de projecto", "grupos" sem ser folclóricos, etc., etc.). Sobrelotado delas, o país assiste à "indignação" de meia dúzia de peralvilhos, cuja biografia se confunde com o regime, que não querem que se mexa na "sua" fundação. Rever o funcionamento de uma fundação, ou extingui-la quando depende exclusivamente de dinheiros públicos, não implica necessariamente acabar com o património material ou imaterial que lhe empresta o nome. Mas, para esta gente, "mudar" é sempre excelente desde que não os mudem a eles e aos trambolhos que edificaram para sua perpétua e insignificante glória. É à egrégia cretinice desta gente - todos somados são uns bons milhares deles - que devemos o actual "estado da arte". Um "estado" que não se recomenda e que começo a achar que não vale a pena tentar mudar.

Escrevam

O Quarta República, um blogue amigo, colectivo, passa a ter como convidados Joaquim Aguiar e Manuela Ferreira Leite. Aguiar é das poucas presenças televisivas a falar de "política" que sabe do que fala. "Ajudou" presidentes, particularmente Eanes. Ajuda-nos a perceber "isto". Ferreira Leite foi a minha escolha para primeiro-ministro, em 2009. É o melhor elogio que lhe posso fazer. Escrevam.

9.8.12

A figura de corpo presente

Num artigo publicado na revista Visão, o dr. Mário Soares, ao mencionar as últimas intervenções de Mario Draghi, alude ao vice-presidente do BCE, Vitor Constâncio. E alude, não por aquilo que Constâncio diz ou deixa de dizer (não diz nada, limita-se a aparecer ao lado de Draghi como antes ao lado do francês presidente do BCE) mas porque só lhe consegue surpreender silêncio e um sorriso nos lábios. É a chamada figura de corpo presente que Vitor Constâncio desempenha como ninguém desde que foi secretário-geral do PS. Soares, aliás, foi o primeiro a perceber que ele não passava disso.

Um retrato do "empreendedorismo" nacional

«Os dois investimentos ‘chumbados’ esta semana pelo Governo e pela Caixa Geral de Depósitos, de Alexandre Alves e José Roquete, revelam a pior faceta dos empresários portugueses. Um recusou dar os documentos exigidos à formalização do processo, outro achou que não devia dar garantias patrimoniais pessoais*. Qualquer cidadão pede um empréstimo ao banco e é-lhe exigido toda a espécie de garantias e informação, incluindo o nome dos animais domésticos. Estes empresários, porém, acham que o Estado tem de pagar sem tugir nem mugir. Sentem-se imunes a tudo e acham normal ser empresários com o dinheiro dos outros. Não há crise nem lata que lhes chegue.»


 


Eduardo Dâmaso, CM


 


 


* (ADENDA): O tema Alqueva é mais complexo - e porventura não deveria ser - segundo me informaram, i.e., não convém tomar previamente por "boa" a actuação da CGD sem outro enquadramento e outros dados. Todavia não me compete, muito menos no âmbito deste blogue, dizer mais do que isto.

Sentimento de um português, ocidentalizado, no Verão de 2012

 



 






Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.


Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.


Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!


Que mal fiz eu aos deuses todos?


Se têm a verdade, guardem-na!


Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?


Não me macem, por amor de Deus!


Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?


Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!


Ó céu azul - o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.


Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.


 


Álvaro de Campos, Lisbon Revisited, 1923




Foto: Paris Texas, Wim Wenders, 1984

8.8.12

Um mundo longe do mundo




Um bom texto de Alexandra Prado Coelho sobre o Hotel La Mamounia, em Marraquexe, no Público online. Aconselha-se a solitários ou a extremamente bem acompanhados, um team em vias de extinção - «o mundo deixa de existir. E no meio de duas mil portas não queremos encontrar a que nos leva à saída.» Bowles, que trocou Nova Iorque por Tânger: «Uma pessoa está sempre a mudar e nunca chega a parte nenhuma. Mas chegar a algum lado também não é necessário.»


 


Foto: Paradizo.com

Só lhes fazia bem






"Deveria haver um conjunto de obras literárias escritas na nossa língua que todos teriam de conhecer. No plano do ensino, isto parece de uma evidência elementar, mas tem andado mais ou menos esquecido. Ora, reduzida às suas linhas mais simples, esta é afinal a questão do cânone literário e da sua relevância para o currículo escolar, embora esse plano, por definição, acabe por ser transcendido, pois o cânone não é propriamente uma simples ferramenta para uso do ensino, mas antes um quadro de referências indispensáveis e um complexo de elementos literários respeitante ao sistema de valores e aos interesses culturais de uma dada sociedade: incorpora uma série de modelos cuja evidência paradigmática se recorta ao longo dos sucessivos tempos históricos e se impõe à mentalidade e à sensibilidade colectivas. Na escola, a abordagem do cânone deve ser flexível e variada. Em Portugal, antigamente, havia para tal efeito excelentes instrumentos que iam dos cadernos literários da Seara Nova aos textos da editorial Comunicação e vários outros. Havia também selectas, crestomatias e antologias que apresentavam criteriosamente passagens mais ou menos extensas de obras que faziam parte do cânone. E havia, para quem estudava, a obrigação de saber dessas obras e mesmo de conhecer algumas delas na íntegra. Dos cancioneiros medievais a Fernão Lopes, de Bernardim e Gil Vicente a Sá de Miranda e Camões, de Rodrigues Lobo e Francisco Manuel de Melo a Bernardes e Vieira, de Bocage, Garrett e Herculano a Camilo, Eça, Cesário, Antero e António Nobre, isto para dar só alguns exemplos flagrantes do século XIII ao século XIX, os alunos de Português tinham de contactar com toda uma série de autores e isso só lhes fazia bem. Visitavam lugares escolhidos da grande literatura escrita na sua língua e, a partir desses paradigmas, tinham de proceder a vários tipos de análise e de interpretação, enriqueciam o seu conhecimento do léxico e da gramática, aprendiam figuras de estilo, adquiriam uma certa compreensão história e contextualizada da obra de cada autor, aperfeiçoavam grandemente o conhecimento do português como língua materna e tornavam-se capazes de utilizá-lo melhor. É por isso da maior importância que se retome o cânone literário e que este forneça uma base essencial para o desenvolvimento dos programas de português. Tanto o Ministério da Educação como o Plano Nacional de Leitura têm aqui uma tarefa de grande responsabilidade. Nunca será de mais insistir em que os estudantes, se tiverem um bom domínio da língua portuguesa, ficam preparados para ler tudo o mais: bulas de medicamentos, manuais de instruções, relatórios técnicos, notícias de jornais... Ao invés, se a sua preparação for circunscrita a este tipo de textos, nunca eles conseguirão ler capazmente um grande escritor. E se não forem capazes de ler capazmente um grande escritor, acabarão por não ser capazes de mais nada.»


 


Vasco Graça Moura, DN

Canoa, para onde vais?

Graças à canoa referida no post anterior, dois atletas portugueses foram finalmente medalhados em prata para amplo consolo nacional. Nada como famílias felizes. Todavia, como a felicidade é um fragmento, a GNR, depois de "Baco", vem de novo fiscalizar condutores em massa - quantos? vinte mil? vinte cinco mil? - quanto ao uso do cinto e ao não uso do telemóvel. Chama-se, com muita ternura, "operação anjo da guarda" (tvi, cubavison?). Apesar de tudo é um upgrade em relação à antiga monomania da brigada escondida atrás de uma árvore ou moita à espera do potencial, e sempre garantido, arguido. Como perguntava o outro na mesma velha canção, "canoa, para onde vais"?

7.8.12

Boa noite e boa sorte

Por causa do alegado excesso de raios violeta anunciado nos jornais, reli umas coisas e vi uns telejornais. Nestes apareceu o fantástico empresário Alves, o do ar condiconado e dos painéis solares, e o não menos fantástico Sócrates, em arquivo, de volta de uma escola que ele referia estar a precisar de umas borradelas de tinta. Alves jurou que até Junho do ano que vem tem os ditos painéis prontinhos para exportar a partir de Abrantes e empregos para umas centenas de pessoas, talvez mesmo um milhar ou dois delas. Queixou-se abundantemente da "miséria" a que, segundo ele, o governo está a conduzir o país (esta magnífica conclusão decorre porventura de o governo lhe ter perguntado pelos painéis contratados com o executivo anterior). E, numa gravação apenas sonora, de arquivo também, asseverava que não tinha ali ao lado dele nenhuns "maricas" (sic) a trabalhar. Não percebi. Quanto a Sócrates, serviu para ilustrar com o seu sorriso as aventuras milionárias da "parque escolar", uma coisa que inexplicavelmente Nuno Crato não extingue. Mas nada disto importa. A pátria está suspensa de uma canoa e, quem sabe, de um cavalo.  Boa noite e boa sorte.

A actualidade de Epicuro









«Na mesma semana, três revistas francesas destacaram a mesma personagem, duas dando-lhe a capa e outra várias páginas. Seria normal se a coincidência fosse causada pela actualidade - Marilyn, por exemplo, seria capa óbvia. Mas não, Le Nouvel Observateur, de esquerda, Le Point e Le Figaro Magazine, de direita, desencantaram a sua personagem no baú da Antiguidade: o filósofo grego Epicuro (341-270 a. C.). Para lá da bizarria de revistas generalistas se ocuparem em época estival de um filósofo antigo e não com "conheça as férias mais luxuosas dos nossos ricos", fica o mistério: porquê Epicuro? Se ainda fosse Epicuro "o filósofo do prazer", entendia-se logo o destaque dado neste clima de fim de Império que a Europa vive. "Bora beber o melhor vinho das ânforas antes qu'isto acabe e cheguem os bárbaros..." Acontece, porém, que as revistas desmontam o mito desse Epicuro, desvirtuado e caluniado nos séculos que se lhe seguiram como adepto de bacanais (e nessa desmontagem, a revista mais levezinha, Le Figaro Magazine, tem o melhor texto, na entrevista ao filósofo Michel Onfray). O epicurismo seria, isso sim, a felicidade procurada na serenidade e nos prazeres simples, via radical da libertação do indivíduo. Afinal, foi mesmo a actualidade - os noticiários que nos fazem sentir, hoje como nunca, impotentes e manipulados - que tornou Epicuro actual. »


 


Ferreira Fernandes, DN




6.8.12

A sonda e o livro


 


Fui à procura da leitura anunciada do livro de Kershaw e encontro Pacheco Pereira entretido em Marte. Não bastava este mundo estar perigoso e já se está a tratar de estragar outro.

Carta aberta a Mário Santos


 


Confesso, caro Mário Santos, ser destituído de "cultura desportiva". Nadei vagamente e, quando a ondulação o permite, nado no mar. Depois ando, não tanto quanto gostaria, mas o suficiente para alcançar a mítica meia-hora recomendada pela mundialmente famosa dietista Isabel do Carmo. Não corro nem para apanhar um autocarro. Bebo chá verde e chá de folha de abacateiro, por vezes algum vinho tinto (oscila entre o copo e a meia garrafa), não fumo, como saladas e fruta, todavia suspeito que nenhuma destas actividades circum-escolares aumentem a minha "cultura desportiva". Não vou ao futebol todos os dias da semana, como é praticamente obrigatório de há uns anos para cá, seja a um estádio ou na televisão. Ver ciclistas à minha frente, quando conduzo, inspira-me invariavelmente os piores sentimentos. Dito isto, caro Mário Santos, de vez em quando espreito do sofá os jogos olímpicos. Agora menos porque as partes aquáticas acabaram ou estão a acabar e o resto, para ser honesto, não me interessa nada. É impossível, porém, não reparar no esforço nacional que o caro Mário tão edificantemente chefia. O grosso desse esforço traduz-se na chamada "técnica do quase-quase": quase chegou à meia-final, quase chegou à final, quase chegou ao terceiro lugar, quase apareceu, quase não caiu, quase não levou um enxerto de porrada, etc., etc. É evidente que "cultura desportiva" também será isto - esforço - e não exclusivamente penduricalhos exibidos ao peito. Mas o Mário sabe, e eu sei, que a "cultura desportiva", entre nós, é um complexo de interesses, de vaidades, de megalomanias e de casos de desinteressado empenho (também há) cujo "caldo" normalmente não se recomenda. A seguir vêm os paralímpicos e espero sinceramente que estas "dores" acerca da alegada falta de "cultura desportiva" da nação (se alguma "cultura" ela tem, e lhe cultivam, é a "desportiva" sobretudo na versão bola) não afectem a prestação. Porque os paralímpicos portugueses costumam arrecadar medalhas e sucessos que a "cultura desportiva" mediática ou ignora, ou relega para segundo ou nenhum plano. Um falhanço,  caro Mário, em qualquer parte do mundo, é um falhanço. E, acredite, também é uma forma de "cultura" como outra qualquer.

Antenas e realidades



O Rui Calafate cita, a propos, uma frase de Gore Vidal: «a opinião pública é um caos de superstição, desinformação e preconceito.» Mas se em vez de opinião pública pensarmos na "opinião que se publica", às vezes o resultado é idêntico.

Ser o que isto é

No fim de semana, a GNR andou por aí numa "operação" denominada "Baco" (as nossas autoridades policiais, para além de subliteratura da especialidade e das telenovelas da tvi, pelos vistos também consomem clássicos a avaliar pelos títulos que apreciam atribuir às "operações") e vasculhou cerca de quase dez mil cidadãos - na América Latina não se faria melhor. Quem já foi "apanhado" numa destas sublimes "operações", sabe do que falo. Ao fim de meia hora dá vontade de doar o carro aos senhores agentes, apanhar um táxi ou, no limite, deitarmo-nos na faixa contrária à espera que outro carro passe delicadamente por cima de nós e nos liberte. No meu caso, nem precisei sair de casa. Comecei o dia autuado pela Emel, via carteiro, porque algures em Outubro deixei o automóvel parado uns minutos num estacionamento de uma rua obscura da Quinta da Luz que a CML decidiu reservar a "residentes". Era a meio da manhá e, naturalmente, os residentes já tinham deixado a rua deserta. E não era seguramente o meu carro que os impediria de estacionar se regressassem entretanto. Mas quem sou eu para contrariar o sr. Nuno R. , zeloso funcionário da Emel, que viu ali um potencial arguido e 60 euros de lucro para a dita Emel? No fundo, é apenas alguma evidência das "razões para isto ser o que é".

5.8.12

Fatherless child


 


É difícil, num universo marcado por "ladies gagas", "mikas", "alborans", uma com nome de colher (spoon), etc.,etc. e, mesmo, mortos-vivos como Jackson ou Amy W., falar de Marilyn Monroe. Não apenas porque ela desapareceu há cinquenta anos - pelas contas de hoje, já passou mais de uma boa meia dúzia de gerações sobre o seu cadáver uma vez que quaisquer cinco ou seis anos perpetram uma "geração" -, mas porque é impossível explicar, em 2012, a América (e, em certo sentido, o mundo) do tempo em que ela cresceu, viveu e desgraçadamente morreu. Ao olhar para os vários documentários disponíveis, para aquelas imagens, para aquela gente, fica a sensação  (fico com a sensação) que nos privaram para sempre de alguma coisa. Arthur Miller escreveu-lhe o argumento de Os Inadaptados, de John Houston, um filme seco, passado entre três homens, uma mulher e cavalos no meio de um deserto, de 1961. O casamento de ambos estava no fim. Gable morreria pouco depois das filmagens. Montgomery Clift, prematuramente desfigurado por um acidente de autómovel, não duraria muito mais. E Marilyn acabou a 5 de Agosto de 1962, mais "inadaptada" do que nunca. Miller quando soube afirmou que, com ou sem a parte artística, Marilyn estava destinada ao suicídio. George Sanders - que contracenou com ela em All about  Eve e que emborcou uns quantos frascos de Nembutal com um bom scotch, num quarto de um hotel em Barcelona -, despediu-se disto com uma nota em que dizia estar "aborrecido" ("Dear world, I'm leaving you because I'm bored"). Marilyn, menos dada a epifanias cínicas, deixou-se morrer numa imensa amargura que não permitia aborrecimentos como os de Sanders - porque cresceu com essa amargura mais do que alguma vez chegou a ser "uma pessoa crescida". Muitos dotados para a escrita, coevos dela ou não, escreveram-lhe belos epitáfios. Capote designou-a como uma "bela criança" e perguntou por que é que a vida tinha de ser esta porcaria. A terminar a sua biografia de Marilyn, Norman Mailer exprimiu alguns desejos que são uma extraordinária homenagem. «Let her be rather in one place and not scattered in pieces across the firmament; let us hope her mighty soul and the mouse of her little one are both recovering their proportions in some fair and gracious home, and she will soon return to us from retirement. It is the devil of her humor and the curse of our land that she will come back speaking Chinese. Goodbye Norma Jean. Au revoir Marilyn. When you happen on Bobby and Jack, give the wink. And if there's a wish, pay your visit to Mr. Dickens. For he, like many another literary man, is bound to adore you , fatherless child.»

4.8.12

Imprecisões


 


O hebdomadário Expresso às vezes também se engana. Para não escolher nenhum título da edição deste primeiro sábado do querido mês de Agosto, por exemplo, e há ainda não muito tempo, quando Sócrates reinava, uma manchete garantia que o "FMI já não vem". Veio, e de que maneira. Mas não posso deixar passar um pormenor no obituário de Gore Vidal por Valdemar Cruz (Cutileiro podia ter-se esforçado um bocadinho mais no caderno principal) no suplemento Actual. Cruz escreve que Vidal teve como dois dos seus namorados Tennessee Williams e Jack Kerouac. A leitura do primeiro livro de memórias de Vidal, Palimpsest, teria poupado esta imprecisão a V. Cruz. Williams e Vidal partilharam quartos de hotel em Paris e noutros sítios e, com certeza, um ou outro rapaz. Nunca formaram propriamente um same sex team. Vidal:«The Bird and I did like the same type, and we would pass boys back and forth. Once, after an unsuccessful evening's prowl of Saint-Germain, we returned to the hotel, and the Bird said: "Well, that just leaves us", to which he says I said, "Don't be macabre".» Quanto a Kerouac, a coisa resumiu-se a uma noite passada num quarto de um hotel chamado Chelsea, em Nova Iorque. Vidal, de novo: «I finally recall the blow job - a pro forma affair, which I put a quick stop to. At what might be nicely called loose ends, we rubbed bellies for a while; later he would publish a poem dedicated to me: "Didn't know I was a great come-onner, did you? (come-on-er)." I was not particularly touched by this belated Valentine, considering that I finally flipped him over on his stomach, not an easy job as he was as much heavier than I as was the merchant mariner in Seattle, whom he - only now does it strike me - physically resembled. (...) What I have reported is all there was to it, except that I liked the way he smelled.»