31.8.08

D. MARIA ESTEFÂNIA


O Miguel Castelo-Branco recorda a sua chegada ao Continente, vindo de Moçambique há trinta e quatro anos, com «um nada e nos bolsos nem cotão havia. No aeroporto de Lisboa não havia um Guterres palrador, nem uma enfermeira, nem um padre nem ninguém. Éramos o lixo do Império que a todo o custo queriam atirar para debaixo da carpete vermelha do novo Portugal.» O Miguel provavelmente gostaria de ter assistido à repetição de um notável documentário de Joaquim Vieira, na RTP1, dedicado a Maria Estefânia Anachoreta, a representante do Movimento Nacional Feminino em Santarém, A Voz da Saudade. D. Maria Estefânia foi a Angola, em 1966, com um gravador em punho no qual levava registadas as mensagens dos familiares dos militares portugueses da zona de Santarém. Andou de companhia em companhia a reproduzir essas mensagens. Morreu em Janeiro deste ano, com 89 anos, seguramente com a energia e a lucidez manifestadas no documentário terminado seis meses antes. Uma energia que a levou - sozinha porque não teve a "benção" de "Cilinha" Supico Pinto, a presidente do MNF - aos 47 anos, até Angola, e que manteve indemne, pelos vistos, até ao fim. Quando vemos uma Ana Gomes "completamente rendida" a Obama depois do circo de Denver em que participou, como é que não podemos deixar de manifestar respeito por Senhoras anónimas como D. Maria Estefânia? É como diz o Miguel. «O país gosta dos fulanos e fulanas rabudos, dos doutorecos e doutorecas, da meia tijela, com ou sem peles, dos bajuladores, dos pequenos e grandes poltrões. Está bem, assim, na fila de trás da Europa.» Bom proveito.

D. MARIA ESTEFÂNIA


O Miguel Castelo-Branco recorda a sua chegada ao Continente, vindo de Moçambique há trinta e quatro anos, com «um nada e nos bolsos nem cotão havia. No aeroporto de Lisboa não havia um Guterres palrador, nem uma enfermeira, nem um padre nem ninguém. Éramos o lixo do Império que a todo o custo queriam atirar para debaixo da carpete vermelha do novo Portugal.» O Miguel provavelmente gostaria de ter assistido à repetição de um notável documentário de Joaquim Vieira, na RTP1, dedicado a Maria Estefânia Anachoreta, a representante do Movimento Nacional Feminino em Santarém, A Voz da Saudade. D. Maria Estefânia foi a Angola, em 1966, com um gravador em punho no qual levava registadas as mensagens dos familiares dos militares portugueses da zona de Santarém. Andou de companhia em companhia a reproduzir essas mensagens. Morreu em Janeiro deste ano, com 89 anos, seguramente com a energia e a lucidez manifestadas no documentário terminado seis meses antes. Uma energia que a levou - sozinha porque não teve a "benção" de "Cilinha" Supico Pinto, a presidente do MNF - aos 47 anos, até Angola, e que manteve indemne, pelos vistos, até ao fim. Quando vemos uma Ana Gomes "completamente rendida" a Obama depois do circo de Denver em que participou, como é que não podemos deixar de manifestar respeito por Senhoras anónimas como D. Maria Estefânia? É como diz o Miguel. «O país gosta dos fulanos e fulanas rabudos, dos doutorecos e doutorecas, da meia tijela, com ou sem peles, dos bajuladores, dos pequenos e grandes poltrões. Está bem, assim, na fila de trás da Europa.» Bom proveito.

A INSUPORTÁVEL VIDA

O livro da foto é porventura dos mais belos ensaios escritos por Sartre (tradução de Pedro Oom para as Publicações Europa-América, em 1966, com prefácio de Michel Leiris e dedicado a Jean Genet) e prova que a filosofia pode ser a "procura íntima da serenidade", nas palavras do Eduardo Prado Coelho. E que que um filósofo (coisa diferente de um tagarela da filosofia) é, antes de tudo, um escritor. Um bom escritor. Li-o em Tânger no acaso de uma viagem como - vejo-o agora - escrevi numa das primeiras páginas. «Baudelaire voltou-se para o passado, para limitar a liberdade pelo carácter. Mas esta escolha tem outras significações. Baudelaire tem horror à sensação do tempo a correr. Parece-lhe que é o seu sangue que corre: esse tempo que passa é tempo perdido, é o tempo da preguiça e da moleza, o tempo das mil e uma juras feitas a si mesmo e não cumpridas, o tempo das mudanças, das diligências, dessa perpétua busca de dinheiro. Mas é também o tempo do tédio, o jorro sempre recomeçado do presente. E o presente forma um todo com aquele apego insípido e tenaz que o poeta tem a si mesmo, aos limbos translúcidos da vida interior:
Garanto-vos que os segundos são forte e solenemente sublinhados e cada um deles, ao irromper do relógio, diz: «Eu sou a vida, a insuportável, a implacável vida.»

A INSUPORTÁVEL VIDA

O livro da foto é porventura dos mais belos ensaios escritos por Sartre (tradução de Pedro Oom para as Publicações Europa-América, em 1966, com prefácio de Michel Leiris e dedicado a Jean Genet) e prova que a filosofia pode ser a "procura íntima da serenidade", nas palavras do Eduardo Prado Coelho. E que que um filósofo (coisa diferente de um tagarela da filosofia) é, antes de tudo, um escritor. Um bom escritor. Li-o em Tânger no acaso de uma viagem como - vejo-o agora - escrevi numa das primeiras páginas. «Baudelaire voltou-se para o passado, para limitar a liberdade pelo carácter. Mas esta escolha tem outras significações. Baudelaire tem horror à sensação do tempo a correr. Parece-lhe que é o seu sangue que corre: esse tempo que passa é tempo perdido, é o tempo da preguiça e da moleza, o tempo das mil e uma juras feitas a si mesmo e não cumpridas, o tempo das mudanças, das diligências, dessa perpétua busca de dinheiro. Mas é também o tempo do tédio, o jorro sempre recomeçado do presente. E o presente forma um todo com aquele apego insípido e tenaz que o poeta tem a si mesmo, aos limbos translúcidos da vida interior:
Garanto-vos que os segundos são forte e solenemente sublinhados e cada um deles, ao irromper do relógio, diz: «Eu sou a vida, a insuportável, a implacável vida.»

REPRISE

Juro que este post não se destina a agradar aos "camaradas" algarvios. Nem o José Apolinário, que conheci no MASP-1, nem o Gonçalo Couceiro, director regional do ministério da Cultura, precisam de "agrados". Sucede que, por uma vez, não estou de acordo com Vasco Pulido Valente. VPV critica, no Público de hoje, a directa dependência da figura do secretário-geral da segurança interna da figura do primeiro-ministro, por um lado, e o "controlo" que aquela figura vai exercer sobre todas as polícias, por outro. Também é chamado à colação o "chip" que os automóveis terão de exibir como "prova" de que as liberdades já não são o que eram. Nisto tem razão, embora, como lembra no artigo, todo o "ocidente" dito democrático tenha, depois de Setembro de 2001, preferido viver a liberdade em segurança quando não mesmo sacrificar alguma liberdade em prol da segurança. Por cá é tudo infinitamente mais leve e, sobretudo, repetitivo e inconsequente. Sócrates não inventou a roda. Mário Soares, pai da pátria e insuspeito na matéria, quando presidia ao "bloco central" de 83-85, criou o "serviço de informações da República", o "SIRP" - com dois "ramos", um civil e um militar - na sua (ele era então 1º ministro) dependência. Manifestou-se a indignação habitual, agravada pela proximidade do "25 de Abril". Apenas dez anos separavam a data gloriosa desta ignomínia. Soares, o PS e o PSD foram na altura amplamente zurzidos na praça pública e nos jornais por causa deste inopinado "regresso ao fascismo". Todavia, o "fascismo" não regressou. O "sistema", como uma ou outra nuance, serviu até agora sem grandes protestos. E serviu mais cinco chefes de governo, entre os quais dois socialistas e Cavaco. Mais. O mesmo Soares que sustentou politicamente o "sistema" foi eleito presidente da República - e com votos da mesma gente que exigira a sua cabeça em nome do putativo "regresso ao fascismo" que ele promovera através do "SIRP" - cerca de ano e meio depois do episódio. VPV admira-se com o silêncio de um Mário Soares aparentemente feliz com um Sócrates que "não erra". Queria que ele dissesse o quê?

REPRISE

Juro que este post não se destina a agradar aos "camaradas" algarvios. Nem o José Apolinário, que conheci no MASP-1, nem o Gonçalo Couceiro, director regional do ministério da Cultura, precisam de "agrados". Sucede que, por uma vez, não estou de acordo com Vasco Pulido Valente. VPV critica, no Público de hoje, a directa dependência da figura do secretário-geral da segurança interna da figura do primeiro-ministro, por um lado, e o "controlo" que aquela figura vai exercer sobre todas as polícias, por outro. Também é chamado à colação o "chip" que os automóveis terão de exibir como "prova" de que as liberdades já não são o que eram. Nisto tem razão, embora, como lembra no artigo, todo o "ocidente" dito democrático tenha, depois de Setembro de 2001, preferido viver a liberdade em segurança quando não mesmo sacrificar alguma liberdade em prol da segurança. Por cá é tudo infinitamente mais leve e, sobretudo, repetitivo e inconsequente. Sócrates não inventou a roda. Mário Soares, pai da pátria e insuspeito na matéria, quando presidia ao "bloco central" de 83-85, criou o "serviço de informações da República", o "SIRP" - com dois "ramos", um civil e um militar - na sua (ele era então 1º ministro) dependência. Manifestou-se a indignação habitual, agravada pela proximidade do "25 de Abril". Apenas dez anos separavam a data gloriosa desta ignomínia. Soares, o PS e o PSD foram na altura amplamente zurzidos na praça pública e nos jornais por causa deste inopinado "regresso ao fascismo". Todavia, o "fascismo" não regressou. O "sistema", como uma ou outra nuance, serviu até agora sem grandes protestos. E serviu mais cinco chefes de governo, entre os quais dois socialistas e Cavaco. Mais. O mesmo Soares que sustentou politicamente o "sistema" foi eleito presidente da República - e com votos da mesma gente que exigira a sua cabeça em nome do putativo "regresso ao fascismo" que ele promovera através do "SIRP" - cerca de ano e meio depois do episódio. VPV admira-se com o silêncio de um Mário Soares aparentemente feliz com um Sócrates que "não erra". Queria que ele dissesse o quê?

PEQUENINOS DE PORTUGAL



Um leitor enviou-me um "mail" onde conta que tentou abrir este blogue na biblioteca de Faro e que lhe "saiu" isto:

O acesso a esta página encontra-se bloqueado por não se considerarem os seus conteúdos adequados à consulta numa Biblioteca Pública.
A Direcção

Informação:
URL = http://portugaldospequeninos.blogspot.com/

Se considerar que, neste caso, os conteúdos são didáctico-informativos, pode fazer um pedido de desbloqueio de página neste formulário

PEQUENINOS DE PORTUGAL



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A Direcção

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30.8.08

SIMONETTA


Simonetta Luz Afonso vai aposentar-se e deixa a direcção do Instituto Camões. Por que é que a aposentação de uma alta funcionária do Estado é notícia, com direito a "setas para cima"? Porque Simonetta é verdadeiramente uma mulher "for all seasons", uma distinta representante do regime "cultural" em vigor. Faz parte daquele vasto caldeirão de figuras "transversais" que estão sempre prontas para "servir" e que são apaparicadas indistintamente pelo PS, pelo PSD e pelo Palácio de Belém, ou pelos três ao mesmo tempo. Simonetta, aliás, personificou há uns anos uma cena típica. Num remake dos Estados Gerais do PS, em pleno auge "guterrista" de 99, a senhora foi abordada pelas televisões que lhe perguntaram o que é que estava a fazer no Coliseu. Na realidade, Simonetta tinha sido "guru" de alguns eventos "culturais" famosos promovidos pela "cultura" do tempo de Cavaco. Simonetta, com toda a naturalidade do mundo, respondeu que, como funcionária pública, tinha a obrigação de estar ao lado de quem mandava nela. Como era Guterres quem mandava (e tudo indicava que continuasse a mandar), ela achou por bem ir mostrar-se à Rua de Santo Antão. Aplicou-se, com zelo e método, a praticar o mesmo princípio após o sumiço do bonzinho de São Bento. Até ao fim. Não é, pois, de admirar o panegírico. Simonetta foi apenas um dos mandarins. Ainda sobram bastantes.

SIMONETTA


Simonetta Luz Afonso vai aposentar-se e deixa a direcção do Instituto Camões. Por que é que a aposentação de uma alta funcionária do Estado é notícia, com direito a "setas para cima"? Porque Simonetta é verdadeiramente uma mulher "for all seasons", uma distinta representante do regime "cultural" em vigor. Faz parte daquele vasto caldeirão de figuras "transversais" que estão sempre prontas para "servir" e que são apaparicadas indistintamente pelo PS, pelo PSD e pelo Palácio de Belém, ou pelos três ao mesmo tempo. Simonetta, aliás, personificou há uns anos uma cena típica. Num remake dos Estados Gerais do PS, em pleno auge "guterrista" de 99, a senhora foi abordada pelas televisões que lhe perguntaram o que é que estava a fazer no Coliseu. Na realidade, Simonetta tinha sido "guru" de alguns eventos "culturais" famosos promovidos pela "cultura" do tempo de Cavaco. Simonetta, com toda a naturalidade do mundo, respondeu que, como funcionária pública, tinha a obrigação de estar ao lado de quem mandava nela. Como era Guterres quem mandava (e tudo indicava que continuasse a mandar), ela achou por bem ir mostrar-se à Rua de Santo Antão. Aplicou-se, com zelo e método, a praticar o mesmo princípio após o sumiço do bonzinho de São Bento. Até ao fim. Não é, pois, de admirar o panegírico. Simonetta foi apenas um dos mandarins. Ainda sobram bastantes.

REGIME PAPAGAIO

Aqui e no artigo no Público, José Pacheco Pereira reflecte bem sobre a propaganda do regime. Aliás, num "regime papagaio" como o nosso não é difícil perceber que tantos papagaios, de extracção diversa e oposta, peçam respectivamente ao 1º ministro e à líder do PSD que falem. A um, dos "crimes". À outra, de tudo. Eu prefiro não ouvir ninguém e continuar a ler.

REGIME PAPAGAIO

Aqui e no artigo no Público, José Pacheco Pereira reflecte bem sobre a propaganda do regime. Aliás, num "regime papagaio" como o nosso não é difícil perceber que tantos papagaios, de extracção diversa e oposta, peçam respectivamente ao 1º ministro e à líder do PSD que falem. A um, dos "crimes". À outra, de tudo. Eu prefiro não ouvir ninguém e continuar a ler.

ANGOLA É NOSSA E NÓS SOMOS DE ANGOLA

As publicações do grupo do dr. Balsemão, especialmente a Visão e o Expresso, bem como o Público, manifestam-se indignados pelas "dificuldades" que o governo angolano anda a colocar à concessão de "vistos" aos seus correspondentes nas "eleições" que terão lugar na antiga colónia. Não deve haver motivo para preocupações. Basta seguramente "meter uma cunha" ao governo ou a alguma daquela "sociedade civil", estilo bancos, que, por sinal, costumam encher as páginas das referidas publicações com as "histórias" dos seus negócios e dos seus "gerentes". Nada que o regime, praticamente "hipotecado" à Angola de Eduardo dos Santos, não resolva.

ANGOLA É NOSSA E NÓS SOMOS DE ANGOLA

As publicações do grupo do dr. Balsemão, especialmente a Visão e o Expresso, bem como o Público, manifestam-se indignados pelas "dificuldades" que o governo angolano anda a colocar à concessão de "vistos" aos seus correspondentes nas "eleições" que terão lugar na antiga colónia. Não deve haver motivo para preocupações. Basta seguramente "meter uma cunha" ao governo ou a alguma daquela "sociedade civil", estilo bancos, que, por sinal, costumam encher as páginas das referidas publicações com as "histórias" dos seus negócios e dos seus "gerentes". Nada que o regime, praticamente "hipotecado" à Angola de Eduardo dos Santos, não resolva.

29.8.08

QUEM NÃO TEM CÃO...

McCain tornou-se, de repente, interessante.

QUEM NÃO TEM CÃO...

McCain tornou-se, de repente, interessante.

SUMÁRIO

Desculpar o criminoso, culpar a sociedade e desprezar a vítima. O Paulo Portas resumiu bem a coisa.

SUMÁRIO

Desculpar o criminoso, culpar a sociedade e desprezar a vítima. O Paulo Portas resumiu bem a coisa.

ENQUANTO AGITAM BANDEIRINHAS AO PRECÁRIO HERÓI DE DENVER


«Sem o império (sob o nome de "federação" ou qualquer outro) não existe Rússia; existirá provavelmente uma infindável e mortal desordem. E, se o Ocidente começa a roer as margens do império, não há maneira de a longo prazo o centro perdurar. Putin e Medvedev sabem isto por experiência e por tradição. Não é razoável pensar que assistam tranquilamente ao desastre ou que se iludam, como Gorbatchov, sobre a bondade intrínseca do mundo.O abjecto fim do comunismo inspirou o Ocidente a exportar, ou a impor à fraqueza da Rússia as regras de uma civilização que não é a dela e que, de resto, a sua natureza não lhe permite aplicar. O Ocidente principalmente não percebeu que, para a Rússia, uma verdadeira democracia e uma verdadeira economia de mercado eram um puro suicídio. Agora, as circunstâncias mudaram. Putin restabeleceu a autocracia e o petróleo e o gás reforçaram a "federação". As tropas que entraram na Abkhásia e na Ossétia do Sul são um sinal. O sinal de que o império não continuará a consentir no que toma (e, com perspectiva da Geórgia na NATO, acreditem que toma) por uma ameaça às suas fronteiras. A América e a "Europa" não o devem ignorar. O mérito moral do episódio não interessa aqui. O que interessa aqui é a interpretação que Putin e Medvedev dão à estratégia do Ocidente.»

Vasco Pulido Valente, Público

ENQUANTO AGITAM BANDEIRINHAS AO PRECÁRIO HERÓI DE DENVER


«Sem o império (sob o nome de "federação" ou qualquer outro) não existe Rússia; existirá provavelmente uma infindável e mortal desordem. E, se o Ocidente começa a roer as margens do império, não há maneira de a longo prazo o centro perdurar. Putin e Medvedev sabem isto por experiência e por tradição. Não é razoável pensar que assistam tranquilamente ao desastre ou que se iludam, como Gorbatchov, sobre a bondade intrínseca do mundo.O abjecto fim do comunismo inspirou o Ocidente a exportar, ou a impor à fraqueza da Rússia as regras de uma civilização que não é a dela e que, de resto, a sua natureza não lhe permite aplicar. O Ocidente principalmente não percebeu que, para a Rússia, uma verdadeira democracia e uma verdadeira economia de mercado eram um puro suicídio. Agora, as circunstâncias mudaram. Putin restabeleceu a autocracia e o petróleo e o gás reforçaram a "federação". As tropas que entraram na Abkhásia e na Ossétia do Sul são um sinal. O sinal de que o império não continuará a consentir no que toma (e, com perspectiva da Geórgia na NATO, acreditem que toma) por uma ameaça às suas fronteiras. A América e a "Europa" não o devem ignorar. O mérito moral do episódio não interessa aqui. O que interessa aqui é a interpretação que Putin e Medvedev dão à estratégia do Ocidente.»

Vasco Pulido Valente, Público

28.8.08

LEONTYNE PRICE, VERDI, ERNANI

LEONTYNE PRICE, VERDI, ERNANI

"O QUE É QUE SENTIU?"


O senhor conselheiro Pinto Monteiro anunciou a criação de umas "unidades especiais" dentro de quatro DIAP's, salvo erro, para "combater" a criminalidade violenta. O senhor dr. Rui Pereira, o MAI, anunciou uma alteração à chamada "lei das armas" no sentido de "facilitar" a detenção, seguida de prisão preventiva, dos malandrins apanhados em delitos com recurso a armas de fogo. Estes melancólicos gestos burocráticos raramente resolvem alguma coisa. A PGR habituou-se a "responder" aos apertos com papéis e "grupos de trabalho". E o governo legisla sempre mais um bocadinho. Não é por acaso que, ao perguntarem na televisão a um cidadão de Odivelas "o que é que sentiu" quando teve uma pistola apontada à pinha num café perto de casa, ele tenha respondido que só lhe ocorreram duas "ideias". A primeira, que dava jeito haver polícias por perto. A segunda, porventura consequência da primeira, a pena que sentiu por não ter uma arma na mão como o assaltante. É aquela coisa chata da vida ser sempre mais rica do que a nossa imaginação. A nossa, a do PGR ou a de um ministro.

"O QUE É QUE SENTIU?"


O senhor conselheiro Pinto Monteiro anunciou a criação de umas "unidades especiais" dentro de quatro DIAP's, salvo erro, para "combater" a criminalidade violenta. O senhor dr. Rui Pereira, o MAI, anunciou uma alteração à chamada "lei das armas" no sentido de "facilitar" a detenção, seguida de prisão preventiva, dos malandrins apanhados em delitos com recurso a armas de fogo. Estes melancólicos gestos burocráticos raramente resolvem alguma coisa. A PGR habituou-se a "responder" aos apertos com papéis e "grupos de trabalho". E o governo legisla sempre mais um bocadinho. Não é por acaso que, ao perguntarem na televisão a um cidadão de Odivelas "o que é que sentiu" quando teve uma pistola apontada à pinha num café perto de casa, ele tenha respondido que só lhe ocorreram duas "ideias". A primeira, que dava jeito haver polícias por perto. A segunda, porventura consequência da primeira, a pena que sentiu por não ter uma arma na mão como o assaltante. É aquela coisa chata da vida ser sempre mais rica do que a nossa imaginação. A nossa, a do PGR ou a de um ministro.

ENCARNAÇÕES

A propósito disto, só queria recordar ao Eduardo duas coisas. O PS, na encarnação Guterres e quando Costa, o actual e irrelevante presidente da CML, era ministro da Justiça, "reformou" o processo penal no sentido de agravar as medidas de coacção. As cadeias encheram-se a seguir de presos preventivos desde - ironias do destino - deputados da nação até vulgares ladrões de bicicletas. Na dúvida, prisão preventiva. O PS, na encarnação Sócrates e com outro Costa na Justiça, voltou a "reformar" o processo penal para o "aliviar" da "dureza" da medida máxima de coacção. O resultado imediato foi a soltura de muitos presos preventivos, rapaziada que, de certeza, é mais dada a entrar numa gasolineira aos tiros do que nas "novas oportunidades". O problema é dos criminosos, de quem aplica a lei ou de quem, consoante a "encarnação" e os "tempos", a faz e desfaz?

ENCARNAÇÕES

A propósito disto, só queria recordar ao Eduardo duas coisas. O PS, na encarnação Guterres e quando Costa, o actual e irrelevante presidente da CML, era ministro da Justiça, "reformou" o processo penal no sentido de agravar as medidas de coacção. As cadeias encheram-se a seguir de presos preventivos desde - ironias do destino - deputados da nação até vulgares ladrões de bicicletas. Na dúvida, prisão preventiva. O PS, na encarnação Sócrates e com outro Costa na Justiça, voltou a "reformar" o processo penal para o "aliviar" da "dureza" da medida máxima de coacção. O resultado imediato foi a soltura de muitos presos preventivos, rapaziada que, de certeza, é mais dada a entrar numa gasolineira aos tiros do que nas "novas oportunidades". O problema é dos criminosos, de quem aplica a lei ou de quem, consoante a "encarnação" e os "tempos", a faz e desfaz?

"PAÍS ENGRAVATADO TODO O ANO E A ASSOAR-SE À GRAVATA POR ENGANO"

"PAÍS ENGRAVATADO TODO O ANO E A ASSOAR-SE À GRAVATA POR ENGANO"

O ERRO NO PLANO DE DEUS


Escreve o Baptista-Bastos, um dos poucos "autênticos" que sobrevive mesmo quando não concordamos com ele: «Henri Michaux, poeta de que gosto muito, autor, aliás, de um pequeno livro, Equador, este, sim, maior, escreveu: "Só lutamos bem por causas que nós próprios modelamos e com as quais nos queimamos ao identificar-mo-nos com elas.» Pois é. O mesmo Michaux também nos ensina que «sempre que a gente esquece o que são os homens, caímos na facilidade de lhes querer bem.» Ou, na versão "dura" de Marguerite Duras, o erro no plano de Deus. O homem, naturalmente.

O ERRO NO PLANO DE DEUS


Escreve o Baptista-Bastos, um dos poucos "autênticos" que sobrevive mesmo quando não concordamos com ele: «Henri Michaux, poeta de que gosto muito, autor, aliás, de um pequeno livro, Equador, este, sim, maior, escreveu: "Só lutamos bem por causas que nós próprios modelamos e com as quais nos queimamos ao identificar-mo-nos com elas.» Pois é. O mesmo Michaux também nos ensina que «sempre que a gente esquece o que são os homens, caímos na facilidade de lhes querer bem.» Ou, na versão "dura" de Marguerite Duras, o erro no plano de Deus. O homem, naturalmente.

BOA NOITE E BOA SORTE

Um dos comensais do post anterior - um rapaz que agrada à esquerda caviar porque «defendeu a legalização do aborto até às 10 semanas, defende o casamento das pessoas do mesmo sexo, é ateu» - diz-se de direita da mesma forma que os "verdes" do PC são "verdes". Faz parte daquela vasta trupe dita de direita que nutre, afinal, um constante temor reverencial pela "esquerda" enquanto ópio para pseudo-intelectuais. Repare-se, aliás, como ele segue o cânone à risca. Depois dos "costumes", vem Cavaco que o rapaz - o novo engraçadinho do Eixo da dra. Clara - compara a um "certo beirão" , não vá perder a oportunidade para o Daniel Oliveira ou para o próprio dr. Louçã. Como ensinava o velho Séneca, não há bom vento para quem não conhece o seu porto. Não admira que, com mabecos desta estirpe, a "direita" não vá longe. Eles vão. A direita, não. Boa noite e boa sorte.

BOA NOITE E BOA SORTE

Um dos comensais do post anterior - um rapaz que agrada à esquerda caviar porque «defendeu a legalização do aborto até às 10 semanas, defende o casamento das pessoas do mesmo sexo, é ateu» - diz-se de direita da mesma forma que os "verdes" do PC são "verdes". Faz parte daquela vasta trupe dita de direita que nutre, afinal, um constante temor reverencial pela "esquerda" enquanto ópio para pseudo-intelectuais. Repare-se, aliás, como ele segue o cânone à risca. Depois dos "costumes", vem Cavaco que o rapaz - o novo engraçadinho do Eixo da dra. Clara - compara a um "certo beirão" , não vá perder a oportunidade para o Daniel Oliveira ou para o próprio dr. Louçã. Como ensinava o velho Séneca, não há bom vento para quem não conhece o seu porto. Não admira que, com mabecos desta estirpe, a "direita" não vá longe. Eles vão. A direita, não. Boa noite e boa sorte.

27.8.08

DENEUVE ESTAVA À RASQUINHA PARA LAVAR AS MÃOS



Guia para a construção de pequenos Obamas portugueses ou apenas dois portugueses deslumbrados ao constatarem que Catherine Deneuve frequenta casas de banho de restaurante? Seja lá o que for, é imperdível para perceber como os "novos valores" nacionais são substancialmente mais velhos do que os sessenta e cinco anos apontados com dedo malcriado à Deneuve. Como se ela tivesse idade.

DENEUVE ESTAVA À RASQUINHA PARA LAVAR AS MÃOS



Guia para a construção de pequenos Obamas portugueses ou apenas dois portugueses deslumbrados ao constatarem que Catherine Deneuve frequenta casas de banho de restaurante? Seja lá o que for, é imperdível para perceber como os "novos valores" nacionais são substancialmente mais velhos do que os sessenta e cinco anos apontados com dedo malcriado à Deneuve. Como se ela tivesse idade.

DEITADOS NO CHÃO


Há esta cena admirável em Love Streams, de John Cassavetes, um filme de 1984. Gena Rowlands - na vida a mulher de Cassavetes, no filme, a irmã, na verdade, uma grande actriz - entra num departamento qualquer (uma seguradora? o IRS?) com uma criança (a filha? o sobrinho?) para resolver qualquer coisa. Não chega ao que pretende. Deita-se no chão do escritório, em protesto pela vida que está a passar por cima dela, como se nada mais a perturbasse, indiferente ao movimento burocrático à volta, com a criança (a filha? o sobrinho?) a "puxar" por ela. Existe um "ponto" na nossa vida - aquele imperceptível quando a impotência pode mais do que a vontade - em que é isto mesmo que apetece fazer. Ficar apenas no chão e deixar que tudo nos passe literalmente por cima como, na realidade, acaba sempre por passar.

DEITADOS NO CHÃO


Há esta cena admirável em Love Streams, de John Cassavetes, um filme de 1984. Gena Rowlands - na vida a mulher de Cassavetes, no filme, a irmã, na verdade, uma grande actriz - entra num departamento qualquer (uma seguradora? o IRS?) com uma criança (a filha? o sobrinho?) para resolver qualquer coisa. Não chega ao que pretende. Deita-se no chão do escritório, em protesto pela vida que está a passar por cima dela, como se nada mais a perturbasse, indiferente ao movimento burocrático à volta, com a criança (a filha? o sobrinho?) a "puxar" por ela. Existe um "ponto" na nossa vida - aquele imperceptível quando a impotência pode mais do que a vontade - em que é isto mesmo que apetece fazer. Ficar apenas no chão e deixar que tudo nos passe literalmente por cima como, na realidade, acaba sempre por passar.

POUCA SORTE

Os EUA e o mundo perderam uma boa ocasião e uma excelente presidente. Agora vão ter de escolher entre o aprumadinho Obama e o inócuo pseudo-herói de guerra "republicano". As tretas retóricas de Obama acabarão no dia em que ele, por acaso, for eleito. Aliás, aquela festança permanente que tem sido a sua campanha está esgotada de tão foleira e óbvia que é. O outro, nem retórico consegue ser porque é demasiado pobre de verbo e conteúdo, um pouco na linha do seu antecessor. Não gabo a sorte da América.

POUCA SORTE

Os EUA e o mundo perderam uma boa ocasião e uma excelente presidente. Agora vão ter de escolher entre o aprumadinho Obama e o inócuo pseudo-herói de guerra "republicano". As tretas retóricas de Obama acabarão no dia em que ele, por acaso, for eleito. Aliás, aquela festança permanente que tem sido a sua campanha está esgotada de tão foleira e óbvia que é. O outro, nem retórico consegue ser porque é demasiado pobre de verbo e conteúdo, um pouco na linha do seu antecessor. Não gabo a sorte da América.

26.8.08

(IN)SEGURANÇA INTERNA

Fora o PS, o resto do regime manifestou a sua perplexidade acerca das novas leis da segurança interna e da investigação penal. Os juízes até acham que foi violado o princípio da separação de poderes e que o futuro secretário-geral da coisa será um mero delegado político ao serviço da maioria de circunstância. Apesar de tonto, o PS não irá certamente indicar para o cargo um dos seus eternos "disponíveis". Deverá ficar por conta de um magistrado disposto ao "sacrifício", independentemente da magistratura (MP ou judicial) a que pertença. A esquerda - o PS, em particular, porque já leva, entre Guterres e Sócrates, uns bons anos disto, para não falar dos "idos de 80", com Soares, onde foi concebido o "sistema" em vigor na dependência do premier -, com os seus "observatórios", não se dá bem com a segurança interna. Os resquícios ideológicos e os preconceitos "culturais" tolhem-na. E existe uma retórica "apaziguadora" que passa a vida a esbarrar com a realidade. Legislar infinitamente não resolve um átomo dos problemas. Nunca se legislou tanto em matéria de justiça e segurança interna e vejam onde (não) chegámos. Este episódio é apenas mais um capítulo na triste biografia do legislador anónimo. A realidade segue, impiedosa, esta noite.

(IN)SEGURANÇA INTERNA

Fora o PS, o resto do regime manifestou a sua perplexidade acerca das novas leis da segurança interna e da investigação penal. Os juízes até acham que foi violado o princípio da separação de poderes e que o futuro secretário-geral da coisa será um mero delegado político ao serviço da maioria de circunstância. Apesar de tonto, o PS não irá certamente indicar para o cargo um dos seus eternos "disponíveis". Deverá ficar por conta de um magistrado disposto ao "sacrifício", independentemente da magistratura (MP ou judicial) a que pertença. A esquerda - o PS, em particular, porque já leva, entre Guterres e Sócrates, uns bons anos disto, para não falar dos "idos de 80", com Soares, onde foi concebido o "sistema" em vigor na dependência do premier -, com os seus "observatórios", não se dá bem com a segurança interna. Os resquícios ideológicos e os preconceitos "culturais" tolhem-na. E existe uma retórica "apaziguadora" que passa a vida a esbarrar com a realidade. Legislar infinitamente não resolve um átomo dos problemas. Nunca se legislou tanto em matéria de justiça e segurança interna e vejam onde (não) chegámos. Este episódio é apenas mais um capítulo na triste biografia do legislador anónimo. A realidade segue, impiedosa, esta noite.

PELO SIM, PELO NÃO - 2

Não compre uma, não.

PELO SIM, PELO NÃO - 2

Não compre uma, não.

COM BOLHINHAS


«Devemos combater sem tréguas esta ideia de uma cultura sem esforço, sem resistência, sem atrito, esta obsessão de sermos todos divertidos e leves, com bolhinhas.»

Eduardo Prado Coelho

COM BOLHINHAS


«Devemos combater sem tréguas esta ideia de uma cultura sem esforço, sem resistência, sem atrito, esta obsessão de sermos todos divertidos e leves, com bolhinhas.»

Eduardo Prado Coelho

DAR SUGESTÕES

Pinto Monteiro, o PGR, vai "apresentar sugestões" para combater aquele tipo de criminalidade que assusta as pessoas e que costuma ser designada por "pequena" e "normal" apesar das armas de fogo, dos tiros e das vítimas. Uma vez que a PGR dirige a acção penal e, por tabela, a investigação criminal - ou seja, as polícias enquanto órgãos de polícia criminal - é estranho (para mim já nada é estranho neste país de opereta) que Sua Excelência venha publicamente "dar sugestões" como se fosse um "comentador" ou, na pior das hipóteses, o Luís Delgado. Ainda vamos ter saudades do sorriso enigmático do dr. Souto Moura.

DAR SUGESTÕES

Pinto Monteiro, o PGR, vai "apresentar sugestões" para combater aquele tipo de criminalidade que assusta as pessoas e que costuma ser designada por "pequena" e "normal" apesar das armas de fogo, dos tiros e das vítimas. Uma vez que a PGR dirige a acção penal e, por tabela, a investigação criminal - ou seja, as polícias enquanto órgãos de polícia criminal - é estranho (para mim já nada é estranho neste país de opereta) que Sua Excelência venha publicamente "dar sugestões" como se fosse um "comentador" ou, na pior das hipóteses, o Luís Delgado. Ainda vamos ter saudades do sorriso enigmático do dr. Souto Moura.

AS NOVAS LÍDIAS FRANCO

José Medeiros Ferreira escreve que a "campanha contra" o pobre do dr. Rui Pereira lhe faz lembrar uma outra, num verão do "guterrismo", contra Fernando Gomes, então MAI. Diz ele que só mudaram os criminosos. Mudaram os criminosos e a Lídia Franco. Recordo que foi na sequência de um mediático "assalto" à actriz, no meio de uma auto-estrada, que a "campanha" começou. Os assaltantes eram uns menores que acabaram "internados" nos "colégios" da reinserção social, a designação "progressista" dos velhos reformatórios. Como entretanto cresceram a ler os livros da Fernanda Câncio, já devem estar cá fora. E, quem sabe, talvez sejam, afinal, os mesmos criminosos que "vitimaram" o dr. Gomes. Ou os "primos" deles. Sucede que as actuais "Lídias Franco" estão mais espalhadas pelo país e são, manifestamente, menos "mediáticas". Donos de pequenas ourivesarias, gasolineiros, empregados de balcão ou velhinhas de oitenta anos não são tão eficazes para combater o crime (ou um ministro) como uma figura da televisão. Será que é isso que mantém Pereira, esse académico sempre tão perdido no seu labirinto?

AS NOVAS LÍDIAS FRANCO

José Medeiros Ferreira escreve que a "campanha contra" o pobre do dr. Rui Pereira lhe faz lembrar uma outra, num verão do "guterrismo", contra Fernando Gomes, então MAI. Diz ele que só mudaram os criminosos. Mudaram os criminosos e a Lídia Franco. Recordo que foi na sequência de um mediático "assalto" à actriz, no meio de uma auto-estrada, que a "campanha" começou. Os assaltantes eram uns menores que acabaram "internados" nos "colégios" da reinserção social, a designação "progressista" dos velhos reformatórios. Como entretanto cresceram a ler os livros da Fernanda Câncio, já devem estar cá fora. E, quem sabe, talvez sejam, afinal, os mesmos criminosos que "vitimaram" o dr. Gomes. Ou os "primos" deles. Sucede que as actuais "Lídias Franco" estão mais espalhadas pelo país e são, manifestamente, menos "mediáticas". Donos de pequenas ourivesarias, gasolineiros, empregados de balcão ou velhinhas de oitenta anos não são tão eficazes para combater o crime (ou um ministro) como uma figura da televisão. Será que é isso que mantém Pereira, esse académico sempre tão perdido no seu labirinto?

25.8.08

AINDA O DIVÓRCIO

Maria João Marques não é seguramente tão "mediática" como Fernanda Câncio, a prioresa dos costumes correctos (a Fernanda devia ler Richard Rorty, um filósofo social-democrata que nos recomenda a permanente redefinição dos nossos vocabulários). Todavia consegue produzir uma reflexão não panfletária - apesar de naturalmente comprometida - acerca da questão da alteração da lei do divórcio, a posição do PR e a desse "sou-jovem-logo-vou-com-os-correctos" que é Passos Coelho, um notável poço de vulgaridade política.

AINDA O DIVÓRCIO

Maria João Marques não é seguramente tão "mediática" como Fernanda Câncio, a prioresa dos costumes correctos (a Fernanda devia ler Richard Rorty, um filósofo social-democrata que nos recomenda a permanente redefinição dos nossos vocabulários). Todavia consegue produzir uma reflexão não panfletária - apesar de naturalmente comprometida - acerca da questão da alteração da lei do divórcio, a posição do PR e a desse "sou-jovem-logo-vou-com-os-correctos" que é Passos Coelho, um notável poço de vulgaridade política.

QUESTÕES PARA O CHIADO

Sobre o Chiado e as mesmas conversas de chacha, ano após ano, vinte passados sobre o incêndio, este post de Pedro Santana Lopes.

QUESTÕES PARA O CHIADO

Sobre o Chiado e as mesmas conversas de chacha, ano após ano, vinte passados sobre o incêndio, este post de Pedro Santana Lopes.

UM HOMEM AMÁVEL


Faz hoje um ano que desapareceu o Eduardo Prado Coelho (EPC). O jornal onde ele escrevia limita-se a dedicar-lhe uma singular "carta de uma leitora". O ano que passou comprova o que escrevi na altura. "EPC foi o último analista absoluto de uma coisa a que, com felicidade, chamou um dia de "reino flutuante" ou "a mecânica dos fluídos", mesmo quando os termos nos irritavam. E é patente que os escritos mais recentes sobre novos "poetas" e "escritores" portugueses relevam quase só do plano da mera empatia pessoal ou de qualquer outra coisa que nada tinha a ver com crítica e literatura. Não deixa, mesmo assim, órfãos ou viúvos." A indigência que caracteriza a generalidade das "croniquetas" e das "críticas" que enchem os jornais, a cobardia anti-polémica com que, par délicatesse, as adornam, o cuidado com a "correcção", a irrelevância, etc., etc., trazem à superfície a saudade que o EPC deixou. Também ele não resistiu - tantas vezes - à "pressão" da mesmice complacente que é a vida dita cultural portuguesa, sempre embrulhada no oportunismo político dos dias e horas do regime. Só que, ao contrário dos pequenos mandarins de agora, sempre tão cheios de coisa nenhuma, EPC prodigalizava um "saber" individual adquirido em anos e anos de observação e de leitura de lápis na mão que é impossível ser reproduzido pelas "modernas" máquinas tagarelas (de televisão ou de jornal) que nos incomodam permanentemente com a sua inútil presença. Aprendi e descobri muita coisa com o EPC, alguém que, sempre que se encontrava connosco, era simplesmente um homem amável.

Nota: A ASA/LeYa reedita por estes dias o seu "diário", Tudo o que não escrevi, dois volumes sobre os "anos felizes" de Paris.

UM HOMEM AMÁVEL


Faz hoje um ano que desapareceu o Eduardo Prado Coelho (EPC). O jornal onde ele escrevia limita-se a dedicar-lhe uma singular "carta de uma leitora". O ano que passou comprova o que escrevi na altura. "EPC foi o último analista absoluto de uma coisa a que, com felicidade, chamou um dia de "reino flutuante" ou "a mecânica dos fluídos", mesmo quando os termos nos irritavam. E é patente que os escritos mais recentes sobre novos "poetas" e "escritores" portugueses relevam quase só do plano da mera empatia pessoal ou de qualquer outra coisa que nada tinha a ver com crítica e literatura. Não deixa, mesmo assim, órfãos ou viúvos." A indigência que caracteriza a generalidade das "croniquetas" e das "críticas" que enchem os jornais, a cobardia anti-polémica com que, par délicatesse, as adornam, o cuidado com a "correcção", a irrelevância, etc., etc., trazem à superfície a saudade que o EPC deixou. Também ele não resistiu - tantas vezes - à "pressão" da mesmice complacente que é a vida dita cultural portuguesa, sempre embrulhada no oportunismo político dos dias e horas do regime. Só que, ao contrário dos pequenos mandarins de agora, sempre tão cheios de coisa nenhuma, EPC prodigalizava um "saber" individual adquirido em anos e anos de observação e de leitura de lápis na mão que é impossível ser reproduzido pelas "modernas" máquinas tagarelas (de televisão ou de jornal) que nos incomodam permanentemente com a sua inútil presença. Aprendi e descobri muita coisa com o EPC, alguém que, sempre que se encontrava connosco, era simplesmente um homem amável.

Nota: A ASA/LeYa reedita por estes dias o seu "diário", Tudo o que não escrevi, dois volumes sobre os "anos felizes" de Paris.

BOA NOITE E BOA SORTE

Percorrem-se as "últimas horas" online e o que é que são as notícias? Os resultados de alguns cinquenta jogos de futebol. E depois era o Doutor Salazar quem apreciava "viver habitualmente". Vão-se foder.

BOA NOITE E BOA SORTE

Percorrem-se as "últimas horas" online e o que é que são as notícias? Os resultados de alguns cinquenta jogos de futebol. E depois era o Doutor Salazar quem apreciava "viver habitualmente". Vão-se foder.

24.8.08

OTELLO, KLEIBER - 5

OTELLO, KLEIBER - 5

FATINHA

Fátima Felgueiras estava há pouco, em directo, num programa para atrasados mentais promovido todos os malditos dias de Agosto pela RTP, a televisão pública, apresentado por João Baião. Felgueiras, a presidente da Câmara de Felgueiras, local onde decorre o programa, exala glamour e tranquilidade por todos os poros. Dá sempre ideia de quem tem o PS de Sócrates e Coelho devidamente guardado no bolso. Em próximo programa, é de esperar a presença doutro grande autarca, o sr. Major, o mais recente apoiante de "Sócrates-distribuidor-de-computadores". Não se queixem. É com isto que querem "regionalizar"? Antes o "fascismo" do Berlusconi.

FATINHA

Fátima Felgueiras estava há pouco, em directo, num programa para atrasados mentais promovido todos os malditos dias de Agosto pela RTP, a televisão pública, apresentado por João Baião. Felgueiras, a presidente da Câmara de Felgueiras, local onde decorre o programa, exala glamour e tranquilidade por todos os poros. Dá sempre ideia de quem tem o PS de Sócrates e Coelho devidamente guardado no bolso. Em próximo programa, é de esperar a presença doutro grande autarca, o sr. Major, o mais recente apoiante de "Sócrates-distribuidor-de-computadores". Não se queixem. É com isto que querem "regionalizar"? Antes o "fascismo" do Berlusconi.

OUT OF AFRICA


«I had a farm in Africa at the foot of the Ngong Hills. The Equator runs across these highlands, a hundred miles to the north, and the farm lay at an altitude of over six thousand feet. In the day-time you felt that you had got high up; near to the sun, but the early mornings and evenings were limpid and restful, and the nights were cold. The geographical position and the height of the land combined to create a landscape that had not its like in all the world. There was no fat on it and no luxuriance anywhere; it was Africa distilled up through six thousand feet, like the strong and refined essence of a continent. The colours were dry and burnt, like the colours in pottery. The trees had a light delicate foliage, the structure of which was different from that of the trees in Europe; it did not grow in bows or cupolas, but in horizontal layers, and the formation gave to the tall solitary trees a likeness to the palms, or a heroic and romantic air like full-rigged ships with their sails furled, and to the edge of a wood a strange appearance as if the whole wood were faintly vibrating. Upon the grass of the great plains the crooked bare old thorn trees were scattered, and the grass was spiced like thyme and bog-myrtles; in some places the scent was so strong that it smarted in the nostrils. All the flowers that you found or plains, or upon the creepers and liana in the native forest, were diminutive like flowers of the downs - only just in the beginning of the long rains a number of big, massive heavy-scented lilies sprang out on the plains. The views were immensely wide. Everything that you saw made for greatness and freedom, and unequaled nobility.The chief feature of the landscape, and of your life in it, was the air. Looking back on a sojourn in the African highlands, you are struck by your feeling of having lived for a time up in the air. The sky was rarely more than pale blue or violet, with a profusion of mighty, weightless, ever-changing clouds towering up and sailing on it, but it has a blue vigour in it, and at a short distance it painted the ranges of hills and the woods a fresh deep blue. In the middle of the day the air was alive over the land, like a flame burning; it scintillated, waved and shone like running water, mirrored and doubled all objects, and created great Fata Morgana. Up in this high air you breathed easily, drawing in a vital assurance and lightness of heart. In the highlands you woke up in the morning and thought: Here I am, where I ought to be.»

OUT OF AFRICA


«I had a farm in Africa at the foot of the Ngong Hills. The Equator runs across these highlands, a hundred miles to the north, and the farm lay at an altitude of over six thousand feet. In the day-time you felt that you had got high up; near to the sun, but the early mornings and evenings were limpid and restful, and the nights were cold. The geographical position and the height of the land combined to create a landscape that had not its like in all the world. There was no fat on it and no luxuriance anywhere; it was Africa distilled up through six thousand feet, like the strong and refined essence of a continent. The colours were dry and burnt, like the colours in pottery. The trees had a light delicate foliage, the structure of which was different from that of the trees in Europe; it did not grow in bows or cupolas, but in horizontal layers, and the formation gave to the tall solitary trees a likeness to the palms, or a heroic and romantic air like full-rigged ships with their sails furled, and to the edge of a wood a strange appearance as if the whole wood were faintly vibrating. Upon the grass of the great plains the crooked bare old thorn trees were scattered, and the grass was spiced like thyme and bog-myrtles; in some places the scent was so strong that it smarted in the nostrils. All the flowers that you found or plains, or upon the creepers and liana in the native forest, were diminutive like flowers of the downs - only just in the beginning of the long rains a number of big, massive heavy-scented lilies sprang out on the plains. The views were immensely wide. Everything that you saw made for greatness and freedom, and unequaled nobility.The chief feature of the landscape, and of your life in it, was the air. Looking back on a sojourn in the African highlands, you are struck by your feeling of having lived for a time up in the air. The sky was rarely more than pale blue or violet, with a profusion of mighty, weightless, ever-changing clouds towering up and sailing on it, but it has a blue vigour in it, and at a short distance it painted the ranges of hills and the woods a fresh deep blue. In the middle of the day the air was alive over the land, like a flame burning; it scintillated, waved and shone like running water, mirrored and doubled all objects, and created great Fata Morgana. Up in this high air you breathed easily, drawing in a vital assurance and lightness of heart. In the highlands you woke up in the morning and thought: Here I am, where I ought to be.»

MAU VENTO

Como se não bastasse o mês ser, por si, horrível, veio juntar-se-lhe o vento. Razão a Yeats: «There is enough evil in the crying of wind.»

MAU VENTO

Como se não bastasse o mês ser, por si, horrível, veio juntar-se-lhe o vento. Razão a Yeats: «There is enough evil in the crying of wind.»

O ALIADO FRACTURANTE


Sócrates, afinal, já tem um "aliado" de requintado gosto e esmerada educação. E não apenas para o folclore de esquerda, dito "fracturante". Se a maioria fugir em 2009, o PS tem nestes evangelistas de pacotilha os melhores aliados parlamentares para fingir que é de esquerda. Começo a dar razão a Alberto João Jardim. Isto já não é uma questão de partidos do regime. É uma questão de "partir" o regime.

O ALIADO FRACTURANTE


Sócrates, afinal, já tem um "aliado" de requintado gosto e esmerada educação. E não apenas para o folclore de esquerda, dito "fracturante". Se a maioria fugir em 2009, o PS tem nestes evangelistas de pacotilha os melhores aliados parlamentares para fingir que é de esquerda. Começo a dar razão a Alberto João Jardim. Isto já não é uma questão de partidos do regime. É uma questão de "partir" o regime.

23.8.08

OTELLO, KLEIBER - 4

OTELLO, KLEIBER - 4

PELO SIM, PELO NÃO

Já comprou a sua?

PELO SIM, PELO NÃO

Já comprou a sua?

OTELLO, KLEIBER - 3

OTELLO, KLEIBER - 3

A SOLUÇÃO "REMEDIATIVA"

O "caderno principal" do Expresso - o Expresso todo - vale quase exclusivamente por causa de José Cutileiro. O resto é ilegível ou percorre-se com rapidez e esquece-se ainda mais depressa. Isto, por exemplo, é puro esterco. No entanto, um texto da jornalista Carla Tomás chamou-me a atenção. Um rapaz de uma escola secundária de Odivelas, com quinze anos, "passou" para o 7º ano de escolaridade (o antigo 1º ano do liceu) "chumbado" a oito das nove disciplinas, sendo que a única em que obteve positiva foi a educação física. Porquê isto? Porque o "sistema" a que a prof.ª Lurdes Rodrigues preside quer à viva força "reduzir as repetências". O matulão de quinze anos (com essa idade devia estar, pelo menos, no 10º) "aguarda" a entrada numa coisa apelidada de "curso de educação-formação" onde, de acordo com os "especialistas" da escola e do regime, "poderá adquirir conhecimentos técnicos que lhe servirão para a vida, e só passou nessa condição." Porém, como escreve a jornalista, nada disto está garantido. Para mal dela, foi ouvir o sr. Valter Lemos, o inexplicável secretário de Estado. Para Lemos, esta é uma "solução remediativa" (sic) e que permite "inserir" estas criaturas na sociedade através de "percursos curriculares alternativos". Presumo que estes "percursos" incluam, a médio prazo, assaltos a bancos e a gasolineiras se o "sistema" se esgotar, ou se revelar impotente, e os meninos se fartarem definitivamente dele. Isto seria cómico se não fosse trágico. E é revelador de um país que passa inteiramente ao lado da esquerda comentadeira e urbana, mais preocupada com tretas "fracturantes" do que com a realidade. Nunca li uma linha desta gente urbano-depressiva e pequeno-burguesa acerca da qualificação. Estão ocupados em demasia a observar o que se passa (ou não) por baixo dos seus enormes umbigos e em "regular" a vida dos outros pelo mesmo "padrão". Entretanto as "soluções remediativas" de criaturas intelectualmente estéreis como o sr. Valter vão fazendo o seu caminho sob o silêncio cúmplice destes "progressistas" de sofá. Se as elites são periféricas, o que é que se pode esperar do resto do país?

A SOLUÇÃO "REMEDIATIVA"

O "caderno principal" do Expresso - o Expresso todo - vale quase exclusivamente por causa de José Cutileiro. O resto é ilegível ou percorre-se com rapidez e esquece-se ainda mais depressa. Isto, por exemplo, é puro esterco. No entanto, um texto da jornalista Carla Tomás chamou-me a atenção. Um rapaz de uma escola secundária de Odivelas, com quinze anos, "passou" para o 7º ano de escolaridade (o antigo 1º ano do liceu) "chumbado" a oito das nove disciplinas, sendo que a única em que obteve positiva foi a educação física. Porquê isto? Porque o "sistema" a que a prof.ª Lurdes Rodrigues preside quer à viva força "reduzir as repetências". O matulão de quinze anos (com essa idade devia estar, pelo menos, no 10º) "aguarda" a entrada numa coisa apelidada de "curso de educação-formação" onde, de acordo com os "especialistas" da escola e do regime, "poderá adquirir conhecimentos técnicos que lhe servirão para a vida, e só passou nessa condição." Porém, como escreve a jornalista, nada disto está garantido. Para mal dela, foi ouvir o sr. Valter Lemos, o inexplicável secretário de Estado. Para Lemos, esta é uma "solução remediativa" (sic) e que permite "inserir" estas criaturas na sociedade através de "percursos curriculares alternativos". Presumo que estes "percursos" incluam, a médio prazo, assaltos a bancos e a gasolineiras se o "sistema" se esgotar, ou se revelar impotente, e os meninos se fartarem definitivamente dele. Isto seria cómico se não fosse trágico. E é revelador de um país que passa inteiramente ao lado da esquerda comentadeira e urbana, mais preocupada com tretas "fracturantes" do que com a realidade. Nunca li uma linha desta gente urbano-depressiva e pequeno-burguesa acerca da qualificação. Estão ocupados em demasia a observar o que se passa (ou não) por baixo dos seus enormes umbigos e em "regular" a vida dos outros pelo mesmo "padrão". Entretanto as "soluções remediativas" de criaturas intelectualmente estéreis como o sr. Valter vão fazendo o seu caminho sob o silêncio cúmplice destes "progressistas" de sofá. Se as elites são periféricas, o que é que se pode esperar do resto do país?

22.8.08

O NADA CENTRAL

«(...) Passaram seis meses e ainda não sabemos o que pensa o PSD sobre assuntos que a todos dizem respeito: crescimento da economia, crise política internacional e o reacender da guerra fria, controlo de grandes empresas portuguesas pelo Estado angolano, reforma das leis laborais, TGV, auto-estradas, barragens... Acabámos de ver um anúncio de grande vitória por a economia ter registado um crescimento anual de 0,9 por cento, no ano terminado em Junho. Reacção da oposição: discurso de circunstância e mais nada. De facto, a economia, fruto das reformas já realizadas, comportou-se melhor do que no passado recente, quando a economia europeia desacelerou. Mas, mesmo assim, o resultado deste trimestre mostra que a meta (ou será previsão?) de 1,5 por cento de crescimento para este ano está definitivamente afastada para aqueles que alguma vez quiseram acreditar. Para tal acontecer no segundo semestre o crescimento teria, necessariamente, que se situar acima dos 2 por cento, o que é impossível. A oposição, e o PSD em particular, disse: nada. Mesmo a previsão do Banco de Portugal, de 1,2 por cento, será dificilmente alcançável, pois a economia, neste caso, teria de crescer no segundo semestre a 1,4 por cento. Não é impossível, mas é improvável. Quanto ao pacote em discussão pública sobre legislação laboral, a oposição do PSD disse nada. Pelo menos que se ouvisse. O Estado angolano tem vindo a tomar conta de empresas do sistema energético e financeiro nacional. As dúvidas são pertinentes. Primeiro, a privatização de grandes empresas não tem como objectivo serem nacionalizadas por outro Estado, seja ele qual for. Segundo, no caso concreto, é um Estado não democrático e que não segue as regras do mercado na sua intervenção pública. Terceiro, as empresas portuguesas em Angola têm sofrido pressões públicas inadmissíveis para venderem parte do capital à nomenklatura, por preços por ela determinados, naturalmente, e com chantagens claras e credíveis. Em conclusão, será que os portugueses consideram razoável que empresas críticas ao regular funcionamento da nossa economia fiquem nas mãos do Governo angolano? Sobre isto o PSD nada disse. Eu pelo menos nada ouvi ou li. Nos grandes projectos o PSD disse ter dúvidas e precisava de ver os estudos. Até aqui tudo bem, mas é pouco. Por um lado, já houve um milhão de portugueses (incluindo eu próprio) a fazer tal exigência. Por outro, é preciso dizer, caso a caso, o que pensa sobre o assunto. Quais os projectos em que não têm informação suficiente? Quais os que são para adiar ou para não fazer de todo? Quais os critérios de selecção? Sobre tudo isto o PSD disse: nada. Quando o Governo lança o primeiro (e pequeno) troço do TGV, da Margem Sul à margem mais a sul, o PSD nada disse. Ora, este pequeno facto torna irreversível a realização do TGV até Badajoz, o PSD disse: nada (...).

Nota: Este texto é parte do artigo do prof. Luís Campos e Cunha, publicado no Público, e é, aparentemente, dirigido ao PSD. Não "contra" o PSD, mas contra a "forma" como o PSD (não) faz oposição. De resto, é um texto crítico do governo - nas áreas fundamentais, só faltando a "administração interna" e a "segurança" que não existem - escrito por aquele que foi o primeiro ministro de Estado e das finanças de Sócrates. Sublinhados meus.

O NADA CENTRAL

«(...) Passaram seis meses e ainda não sabemos o que pensa o PSD sobre assuntos que a todos dizem respeito: crescimento da economia, crise política internacional e o reacender da guerra fria, controlo de grandes empresas portuguesas pelo Estado angolano, reforma das leis laborais, TGV, auto-estradas, barragens... Acabámos de ver um anúncio de grande vitória por a economia ter registado um crescimento anual de 0,9 por cento, no ano terminado em Junho. Reacção da oposição: discurso de circunstância e mais nada. De facto, a economia, fruto das reformas já realizadas, comportou-se melhor do que no passado recente, quando a economia europeia desacelerou. Mas, mesmo assim, o resultado deste trimestre mostra que a meta (ou será previsão?) de 1,5 por cento de crescimento para este ano está definitivamente afastada para aqueles que alguma vez quiseram acreditar. Para tal acontecer no segundo semestre o crescimento teria, necessariamente, que se situar acima dos 2 por cento, o que é impossível. A oposição, e o PSD em particular, disse: nada. Mesmo a previsão do Banco de Portugal, de 1,2 por cento, será dificilmente alcançável, pois a economia, neste caso, teria de crescer no segundo semestre a 1,4 por cento. Não é impossível, mas é improvável. Quanto ao pacote em discussão pública sobre legislação laboral, a oposição do PSD disse nada. Pelo menos que se ouvisse. O Estado angolano tem vindo a tomar conta de empresas do sistema energético e financeiro nacional. As dúvidas são pertinentes. Primeiro, a privatização de grandes empresas não tem como objectivo serem nacionalizadas por outro Estado, seja ele qual for. Segundo, no caso concreto, é um Estado não democrático e que não segue as regras do mercado na sua intervenção pública. Terceiro, as empresas portuguesas em Angola têm sofrido pressões públicas inadmissíveis para venderem parte do capital à nomenklatura, por preços por ela determinados, naturalmente, e com chantagens claras e credíveis. Em conclusão, será que os portugueses consideram razoável que empresas críticas ao regular funcionamento da nossa economia fiquem nas mãos do Governo angolano? Sobre isto o PSD nada disse. Eu pelo menos nada ouvi ou li. Nos grandes projectos o PSD disse ter dúvidas e precisava de ver os estudos. Até aqui tudo bem, mas é pouco. Por um lado, já houve um milhão de portugueses (incluindo eu próprio) a fazer tal exigência. Por outro, é preciso dizer, caso a caso, o que pensa sobre o assunto. Quais os projectos em que não têm informação suficiente? Quais os que são para adiar ou para não fazer de todo? Quais os critérios de selecção? Sobre tudo isto o PSD disse: nada. Quando o Governo lança o primeiro (e pequeno) troço do TGV, da Margem Sul à margem mais a sul, o PSD nada disse. Ora, este pequeno facto torna irreversível a realização do TGV até Badajoz, o PSD disse: nada (...).

Nota: Este texto é parte do artigo do prof. Luís Campos e Cunha, publicado no Público, e é, aparentemente, dirigido ao PSD. Não "contra" o PSD, mas contra a "forma" como o PSD (não) faz oposição. De resto, é um texto crítico do governo - nas áreas fundamentais, só faltando a "administração interna" e a "segurança" que não existem - escrito por aquele que foi o primeiro ministro de Estado e das finanças de Sócrates. Sublinhados meus.

DIVORCIADA DA REALIDADE

A Fernanda Câncio - eminente especialista em direito da família e em casamentos, aliás, como eu - pronuncia-se sobre o veto presidencial à lei do divórcio. Se dúvidas houvesse sobre a qualidade de "adereço fracturante" da nova legislação, destinada a "deitar água na fervura" na política de não-esquerda prosseguida pelo PS e pelo governo, o artigo da Fernanda recoloca as peças no seu devido sítio. O pretexto são as mulheres cuja vida de casadas, presumo, a Fernanda, como eu, ignora profundamente. Onde Cavaco fala em situação de maior fragilidade e debilidade, Câncio decreta que Cavaco, "divorciado da realidade", define as mulheres como "frágeis e débeis". Estas bandeirinhas ridículas estão tão gastas como as solas daquelas "socas" pretas que toda a gente usava a seguir ao "25". Nenhuma mulher, nenhum homem, ninguém é obrigado a casar. O que não se deve é usar o contrato - pois é de um que se se trata - como a tal bandeirinha foleira para efeitos de mero gozo intelectual. A Fernanda gostava que a realidade fosse outra coisa e que, sobretudo, o país não fosse aquilo que é. O problema dela é que talvez Cavaco esteja mais perto dessa realidade do que as "cabeças no ar" que apreciavam que a realidade fosse o que vagueia no ar. Todavia, o "progressismo" quase nunca coincide com o "realismo". E - aprendi-o nas aulas de direito - a vida é sempre mais "rica" do que a nossa imaginação. Não se divorcie tanto da realidade, Fernanda. Ainda tropeça nela.

DIVORCIADA DA REALIDADE

A Fernanda Câncio - eminente especialista em direito da família e em casamentos, aliás, como eu - pronuncia-se sobre o veto presidencial à lei do divórcio. Se dúvidas houvesse sobre a qualidade de "adereço fracturante" da nova legislação, destinada a "deitar água na fervura" na política de não-esquerda prosseguida pelo PS e pelo governo, o artigo da Fernanda recoloca as peças no seu devido sítio. O pretexto são as mulheres cuja vida de casadas, presumo, a Fernanda, como eu, ignora profundamente. Onde Cavaco fala em situação de maior fragilidade e debilidade, Câncio decreta que Cavaco, "divorciado da realidade", define as mulheres como "frágeis e débeis". Estas bandeirinhas ridículas estão tão gastas como as solas daquelas "socas" pretas que toda a gente usava a seguir ao "25". Nenhuma mulher, nenhum homem, ninguém é obrigado a casar. O que não se deve é usar o contrato - pois é de um que se se trata - como a tal bandeirinha foleira para efeitos de mero gozo intelectual. A Fernanda gostava que a realidade fosse outra coisa e que, sobretudo, o país não fosse aquilo que é. O problema dela é que talvez Cavaco esteja mais perto dessa realidade do que as "cabeças no ar" que apreciavam que a realidade fosse o que vagueia no ar. Todavia, o "progressismo" quase nunca coincide com o "realismo". E - aprendi-o nas aulas de direito - a vida é sempre mais "rica" do que a nossa imaginação. Não se divorcie tanto da realidade, Fernanda. Ainda tropeça nela.

O PSD NO PURGATÓRIO

Deus por vezes deixa certas almas a pairar tempo demais no Purgatório. É o caso do presidente da Câmara de Gaia, o dr. Menezes, que saiu pelo seu próprio pé da liderança do PSD. Menezes, que prometeu recato e silêncio, já vai no segundo artigo de jornal contra Ferreira Leite. Nada contra, nem que seja por causa da liberdade de expressão. Sucede que o dr. Menezes foi um péssimo dirigente partidário, sem autoridade ou um módico de carisma que o impusesse como alternativa. Pareceu sempre mais um "aliado", por demérito, de Sócrates do que o seu principal opositor. Se não fosse a prestação parlamentar de Santana Lopes, o logro teria sido absoluto. Fez com Mendes exactamente o que está a fazer com Manuela. Pode, em abono dele, dizer que "os de Manuela" lhe fizeram o mesmo, em sofisticado. Só que esse círculo vicioso pode ser divertido como telenovela mexicana mas não diz nada ao país. Manuela, algures no tempo que resta até às eleições, vai fatalmente ter de "clarificar" as coisas e, sobretudo, clarificar-se a si mesma. O PSD, se for a votos nas presentes condições, arrisca uma monumental humilhação. E, como diria Mário Claúdio de Guilhermina Suggia, Manuela Ferreira Leite "muito longe demora". Ainda. E esse longe demorar permite a Menezes e a outros este edificante espectáculo em curso em que não há ninguém que não obre sentença. O PSD está a ficar perigoso para Ferreira Leite e infrequentável para o país.

O PSD NO PURGATÓRIO

Deus por vezes deixa certas almas a pairar tempo demais no Purgatório. É o caso do presidente da Câmara de Gaia, o dr. Menezes, que saiu pelo seu próprio pé da liderança do PSD. Menezes, que prometeu recato e silêncio, já vai no segundo artigo de jornal contra Ferreira Leite. Nada contra, nem que seja por causa da liberdade de expressão. Sucede que o dr. Menezes foi um péssimo dirigente partidário, sem autoridade ou um módico de carisma que o impusesse como alternativa. Pareceu sempre mais um "aliado", por demérito, de Sócrates do que o seu principal opositor. Se não fosse a prestação parlamentar de Santana Lopes, o logro teria sido absoluto. Fez com Mendes exactamente o que está a fazer com Manuela. Pode, em abono dele, dizer que "os de Manuela" lhe fizeram o mesmo, em sofisticado. Só que esse círculo vicioso pode ser divertido como telenovela mexicana mas não diz nada ao país. Manuela, algures no tempo que resta até às eleições, vai fatalmente ter de "clarificar" as coisas e, sobretudo, clarificar-se a si mesma. O PSD, se for a votos nas presentes condições, arrisca uma monumental humilhação. E, como diria Mário Claúdio de Guilhermina Suggia, Manuela Ferreira Leite "muito longe demora". Ainda. E esse longe demorar permite a Menezes e a outros este edificante espectáculo em curso em que não há ninguém que não obre sentença. O PSD está a ficar perigoso para Ferreira Leite e infrequentável para o país.

OTELLO, KLEIBER - 2

OTELLO, KLEIBER - 2

O "TRIUNFO" DE UMA NOVA "VONTADE"


«No meio da tanta conversa sobre os Jogos de Pequim, quase não se falou dos Jogos de Pequim. Primeiro, da cerimónia inaugural (que vi em repetição), que lembrava irresistivelmente o congresso de Nürnberg de 1934, na versão de Leni Riefenstahl. A coreografia militar daquela massa indistinta e obediente não celebrava qualquer espécie de acontecimento desportivo, celebrava o novo poder da China e prometia o "triunfo" de uma nova "vontade".»

Vasco Pulido Valente, Público

O "TRIUNFO" DE UMA NOVA "VONTADE"


«No meio da tanta conversa sobre os Jogos de Pequim, quase não se falou dos Jogos de Pequim. Primeiro, da cerimónia inaugural (que vi em repetição), que lembrava irresistivelmente o congresso de Nürnberg de 1934, na versão de Leni Riefenstahl. A coreografia militar daquela massa indistinta e obediente não celebrava qualquer espécie de acontecimento desportivo, celebrava o novo poder da China e prometia o "triunfo" de uma nova "vontade".»

Vasco Pulido Valente, Público

21.8.08

CRIMINALIDADES

Pelo andar da carruagem, a tropa vai acabar por ter de ir para a rua, como ordenou Berlusconi em Itália. Parece que as polícias não chegam. Rui Pereira não chega, de certeza.

CRIMINALIDADES

Pelo andar da carruagem, a tropa vai acabar por ter de ir para a rua, como ordenou Berlusconi em Itália. Parece que as polícias não chegam. Rui Pereira não chega, de certeza.

OTELLO, KLEIBER - 1



Otello, de Verdi. Dirigido no Alla Scala por Carlos Kleiber, em 1976. Domingo, Freni, Cappuccilli. Um monumento musical verdadeiramente épico e único. Vamos por partes.

OTELLO, KLEIBER - 1



Otello, de Verdi. Dirigido no Alla Scala por Carlos Kleiber, em 1976. Domingo, Freni, Cappuccilli. Um monumento musical verdadeiramente épico e único. Vamos por partes.