31.12.10

QUE VOS LEVE O DIABO




Votos para 2011? Uns, antigos, de Jorge de Sena. Estareis mais pobres em tudo. De espírito não conta porque é da Vossa natureza. Que vos leve o diabo.


Clip: Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya, dito por Mário Viegas

QUE VOS LEVE O DIABO




Votos para 2011? Uns, antigos, de Jorge de Sena. Estareis mais pobres em tudo. De espírito não conta porque é da Vossa natureza. Que vos leve o diabo.


Clip: Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya, dito por Mário Viegas

FRACASSO, SAISON 2010-2011


«Não me lembro de um começo de ano tão escuro e perigoso como o de 2011. Mesmo 1975 não parecia (em Janeiro) assim tão mau. Não há precedentes para a ruína do país que se anuncia cada vez mais certa. O que não impediu Sócrates de fazer um discurso de Natal absurdo e folgazão. Nem o poeta Alegre e o dr. Cavaco de se entreterem num debate fútil, por uma honra vazia e um cargo sem verdadeira relevância. Como nos metemos neste sarilho sem fundo? A resposta é fácil. Imaginando, com o incurável provincianismo indígena, que podíamos ser como a Europa, esse modelo mítico que arrastou o liberalismo inteiro, a I República e, até certo ponto, o próprio Salazar, e que este nosso regime democrático seguiu, depois do PREC, com patético zelo e a incompetência do costume. Basta olhar e ver. Cavaco e Alegre, por exemplo, discutiram anteontem na televisão quem era ou quem não era a favor do Estado Social. Nenhum deles, evidentemente, se deu à excessiva franqueza de esclarecer o que entendia por "Estado Social". E nenhum deles achou útil explicar que espécie de "Estado Social" a economia portuguesa consegue hoje por si mesma sustentar. Para um e para outro, basta saber que "lá fora" o "Estado Social" existe (e deve, por consequência, existir cá dentro) e sobretudo que perde votos se for contra esse obrigatório aprimoramento do país. De quem paga (e do que não se paga) não se falou para não estragar o gozo desses devaneios da imaginação. Quem paga e o que não se paga é um capítulo à parte. Quase irrelevante. Infelizmente, os devaneios da imaginação acabam sempre por custar caro, agora que Portugal se tornou dependente do estrangeiro e já não ganha a vida a cavar batatas. Por uma estranha perversidade do destino a nossa perpétua "modernização", da "modernização" de 1820 (a que na altura se chamava "regeneração") à "modernização" de Sócrates, passando pela de Cavaco, nunca "modernizou" nada. Não enriqueceu o país; criou dívidas, licenciados, desemprego e miséria. Os pobres portugueses de 2011 vão comer restos de restaurantes, decorados com um doutoramento. Como os bacharéis do século XIX. O progresso é óbvio. E a confusão indescritível: o orçamento não se cumpre, os partidos não funcionam, o Presidente não manda nos partidos. Só falta o FMI. Mas por pouco tempo.»

Vasco Pulido Valente, Público

FRACASSO, SAISON 2010-2011


«Não me lembro de um começo de ano tão escuro e perigoso como o de 2011. Mesmo 1975 não parecia (em Janeiro) assim tão mau. Não há precedentes para a ruína do país que se anuncia cada vez mais certa. O que não impediu Sócrates de fazer um discurso de Natal absurdo e folgazão. Nem o poeta Alegre e o dr. Cavaco de se entreterem num debate fútil, por uma honra vazia e um cargo sem verdadeira relevância. Como nos metemos neste sarilho sem fundo? A resposta é fácil. Imaginando, com o incurável provincianismo indígena, que podíamos ser como a Europa, esse modelo mítico que arrastou o liberalismo inteiro, a I República e, até certo ponto, o próprio Salazar, e que este nosso regime democrático seguiu, depois do PREC, com patético zelo e a incompetência do costume. Basta olhar e ver. Cavaco e Alegre, por exemplo, discutiram anteontem na televisão quem era ou quem não era a favor do Estado Social. Nenhum deles, evidentemente, se deu à excessiva franqueza de esclarecer o que entendia por "Estado Social". E nenhum deles achou útil explicar que espécie de "Estado Social" a economia portuguesa consegue hoje por si mesma sustentar. Para um e para outro, basta saber que "lá fora" o "Estado Social" existe (e deve, por consequência, existir cá dentro) e sobretudo que perde votos se for contra esse obrigatório aprimoramento do país. De quem paga (e do que não se paga) não se falou para não estragar o gozo desses devaneios da imaginação. Quem paga e o que não se paga é um capítulo à parte. Quase irrelevante. Infelizmente, os devaneios da imaginação acabam sempre por custar caro, agora que Portugal se tornou dependente do estrangeiro e já não ganha a vida a cavar batatas. Por uma estranha perversidade do destino a nossa perpétua "modernização", da "modernização" de 1820 (a que na altura se chamava "regeneração") à "modernização" de Sócrates, passando pela de Cavaco, nunca "modernizou" nada. Não enriqueceu o país; criou dívidas, licenciados, desemprego e miséria. Os pobres portugueses de 2011 vão comer restos de restaurantes, decorados com um doutoramento. Como os bacharéis do século XIX. O progresso é óbvio. E a confusão indescritível: o orçamento não se cumpre, os partidos não funcionam, o Presidente não manda nos partidos. Só falta o FMI. Mas por pouco tempo.»

Vasco Pulido Valente, Público

BURROS COM ORELHAS DE BURRO


Há dias andaram para aí todos babados com uma relatório do PISA/OCDE. Parecia que, num átomo, Portugal deixara de ser assustadoramente periférico e bruto e que as gerações futuras prometiam um paraíso de saber e ponderação capaz de, uma vez mais, "dar novos mundos ao mundo" nem que fosse a título meramente virtual. Sócrates, no Natal, louvou-se nisso, nas pás eólicas e consta que foi para São Bento movido a electricidade. Todavia, o seu próprio ministério da educação encarregou-se de desfazer o mito. A massa educanda é genericamente burra e não se comove com o facto. «Os alunos portugueses afinal estão ainda longe de conseguir desempenhar tarefas tão simples como, por exemplo, interpretar um texto poético, solucionar um exercício matemático com mais de duas etapas ou enfrentar um enunciado que não seja simples e curto.» Simples e curtos como eles, na realidade, são.

BURROS COM ORELHAS DE BURRO


Há dias andaram para aí todos babados com uma relatório do PISA/OCDE. Parecia que, num átomo, Portugal deixara de ser assustadoramente periférico e bruto e que as gerações futuras prometiam um paraíso de saber e ponderação capaz de, uma vez mais, "dar novos mundos ao mundo" nem que fosse a título meramente virtual. Sócrates, no Natal, louvou-se nisso, nas pás eólicas e consta que foi para São Bento movido a electricidade. Todavia, o seu próprio ministério da educação encarregou-se de desfazer o mito. A massa educanda é genericamente burra e não se comove com o facto. «Os alunos portugueses afinal estão ainda longe de conseguir desempenhar tarefas tão simples como, por exemplo, interpretar um texto poético, solucionar um exercício matemático com mais de duas etapas ou enfrentar um enunciado que não seja simples e curto.» Simples e curtos como eles, na realidade, são.

30.12.10

A VACINA E O CHOQUE


Até os melhores espíritos estão a ser inoculados com a "vacina BPN" para umas eleições presidenciais sem política dentro. Em 1991, num debate presidencial na tv, Basílio Horta (esse mesmo) chamou "padrinho" a Mário Soares e Soares murmurou qualquer coisa acerca de um "negócio" com bananas, puxando de uns papéis, precisamente porque as eleições não tinham política dentro. Dias depois, Soares era monumentalmente reconduzido em Belém apesar do "padrinho", das bananas e da ausência da política. A "vacina BPN" tenta juntar ambos ("padrinho" e bananas) numa espécie de retrocesso civilizacional em matéria de escolha directa do Chefe de Estado, uma das boas "conquistas de Abril", porque falhou a política (Alegre é irremediavelmente nulo). Às esquerdas custa-lhes perder, pela segunda vez, as presidenciais precisamente para aquele que, por complexos de superioridade moral, política e de classe, mais detestam. Daí a "vacina". Cuidado com o choque anafilático.

A VACINA E O CHOQUE


Até os melhores espíritos estão a ser inoculados com a "vacina BPN" para umas eleições presidenciais sem política dentro. Em 1991, num debate presidencial na tv, Basílio Horta (esse mesmo) chamou "padrinho" a Mário Soares e Soares murmurou qualquer coisa acerca de um "negócio" com bananas, puxando de uns papéis, precisamente porque as eleições não tinham política dentro. Dias depois, Soares era monumentalmente reconduzido em Belém apesar do "padrinho", das bananas e da ausência da política. A "vacina BPN" tenta juntar ambos ("padrinho" e bananas) numa espécie de retrocesso civilizacional em matéria de escolha directa do Chefe de Estado, uma das boas "conquistas de Abril", porque falhou a política (Alegre é irremediavelmente nulo). Às esquerdas custa-lhes perder, pela segunda vez, as presidenciais precisamente para aquele que, por complexos de superioridade moral, política e de classe, mais detestam. Daí a "vacina". Cuidado com o choque anafilático.

O JULGADOR


Um ministro da presidência decretou "criminosas" pessoas sobre as quais ainda não passou qualquer trânsito em julgado na competente sede. Uma dessas pessoas esteve detida, não para cumprir uma condenação judicial, mas em virtude de uma medida de coacção que, quando terminou, terminou. O tal ministro é português. Não é venezuelano, do Uganda ou da Cuba "profunda". Mas revela uma densidade democrática anã. Se calhar não podia demonstrar outra.

O JULGADOR


Um ministro da presidência decretou "criminosas" pessoas sobre as quais ainda não passou qualquer trânsito em julgado na competente sede. Uma dessas pessoas esteve detida, não para cumprir uma condenação judicial, mas em virtude de uma medida de coacção que, quando terminou, terminou. O tal ministro é português. Não é venezuelano, do Uganda ou da Cuba "profunda". Mas revela uma densidade democrática anã. Se calhar não podia demonstrar outra.

O IMPERATIVO DE UMA NOVA REPÚBLICA


Ao contrário do autor, não penso que 2011 dê início a qualquer novo ciclo político interno «mais realista e mais construtivo, em que os problemas do País terão de ser equacionados com honestidade, rigor e sentido de futuro, cortando com a cultura powerpoint e com a doentia manipulação das estatísticas com que tantos imaginam proteger-se da realidade.» Nem a qualquer «outra atitude». O ano encerra com as mesmíssimas retóricas com que começou e o debate presidencial, até agora, é decepcionante porque as resume a todas. Temo que daqui a uns meses, Carrilho possa voltar a escrever que se foi «consolidando em vez de se ultrapassar o impasse português.» Todavia, ele é dos poucos políticos com que um qualquer novo ciclo e uma Nova República, sua feliz expressão explicada num livro que foi do ano, devem contar. Para além de ter sido (e ser) dos poucos que pensa nas coisas, a pública incluída, sem preocupações curto-termistas. Carrilho ajuda a não nos "abstermos". Nessa matéria bate qualquer candidato a Belém. É o melhor elogio que lhe posso fazer.

O IMPERATIVO DE UMA NOVA REPÚBLICA


Ao contrário do autor, não penso que 2011 dê início a qualquer novo ciclo político interno «mais realista e mais construtivo, em que os problemas do País terão de ser equacionados com honestidade, rigor e sentido de futuro, cortando com a cultura powerpoint e com a doentia manipulação das estatísticas com que tantos imaginam proteger-se da realidade.» Nem a qualquer «outra atitude». O ano encerra com as mesmíssimas retóricas com que começou e o debate presidencial, até agora, é decepcionante porque as resume a todas. Temo que daqui a uns meses, Carrilho possa voltar a escrever que se foi «consolidando em vez de se ultrapassar o impasse português.» Todavia, ele é dos poucos políticos com que um qualquer novo ciclo e uma Nova República, sua feliz expressão explicada num livro que foi do ano, devem contar. Para além de ter sido (e ser) dos poucos que pensa nas coisas, a pública incluída, sem preocupações curto-termistas. Carrilho ajuda a não nos "abstermos". Nessa matéria bate qualquer candidato a Belém. É o melhor elogio que lhe posso fazer.

O SENHOR CONSELHEIRO E O FUTURO OU A PERGUNTA QUE NINGUÉM FEZ

O senhor conselheiro Pinto Monteiro fez aquela coisa tipicamente portuguesa que consiste em "passar a bola" para baixo. Responsável máximo pela PGR - por aquilo que ela é e por aquilo a que ela chegou nos últimos anos -, o senhor conselheiro entendeu perseguir disciplinarmente procuradores que, alegadamente, o teriam colocado em causa através de um despacho proferido nuns autos conhecidos. Na realidade, o despacho é uma desgraça mas é uma desgraça que se limita a evidenciar a desgraça maior (o atoleiro) em que caiu a PGR dirigida pelo "ofendido". Por tudo isto e por tudo o mais, é estranho que nenhum candidato presidencial não tivesse anunciado já o óbvio no meio de tanta bagatela. Que promoverá, junto do governo e com a legitimidade eleitoral fresca, a substituição do PGR. Aliás, foi a pergunta que ninguém fez a Cavaco - o senhor confia neste PGR e tenciona continuar a não mexer uma palha a seu respeito?

O SENHOR CONSELHEIRO E O FUTURO OU A PERGUNTA QUE NINGUÉM FEZ

O senhor conselheiro Pinto Monteiro fez aquela coisa tipicamente portuguesa que consiste em "passar a bola" para baixo. Responsável máximo pela PGR - por aquilo que ela é e por aquilo a que ela chegou nos últimos anos -, o senhor conselheiro entendeu perseguir disciplinarmente procuradores que, alegadamente, o teriam colocado em causa através de um despacho proferido nuns autos conhecidos. Na realidade, o despacho é uma desgraça mas é uma desgraça que se limita a evidenciar a desgraça maior (o atoleiro) em que caiu a PGR dirigida pelo "ofendido". Por tudo isto e por tudo o mais, é estranho que nenhum candidato presidencial não tivesse anunciado já o óbvio no meio de tanta bagatela. Que promoverá, junto do governo e com a legitimidade eleitoral fresca, a substituição do PGR. Aliás, foi a pergunta que ninguém fez a Cavaco - o senhor confia neste PGR e tenciona continuar a não mexer uma palha a seu respeito?

29.12.10

DA PULHICE TROLHA


Ignorava que O Cachimbo de Magritte acolitava pulhas. Agradeço ao André Azevedo Alves tê-lo demonstrado. Já há uns tempos o referido pulha tinha revelado a sua exaltada ignorância ao sugerir o meu quase "fascismo" por apreciar Ezra Pound. Como disse na altura, tratava-se de um trolha literário. Lembraram-se dele para a "comissão de honra" por causa da mencionada trolhice, disfarçada de académica, ou disto? Enfim, seja lá o que for, um trolha é um trolha que é um trolha que é um trolha. Até pulha, um trolha com pretensões sofisticadas, consegue ser.

DA PULHICE TROLHA


Ignorava que O Cachimbo de Magritte acolitava pulhas. Agradeço ao André Azevedo Alves tê-lo demonstrado. Já há uns tempos o referido pulha tinha revelado a sua exaltada ignorância ao sugerir o meu quase "fascismo" por apreciar Ezra Pound. Como disse na altura, tratava-se de um trolha literário. Lembraram-se dele para a "comissão de honra" por causa da mencionada trolhice, disfarçada de académica, ou disto? Enfim, seja lá o que for, um trolha é um trolha que é um trolha que é um trolha. Até pulha, um trolha com pretensões sofisticadas, consegue ser.

O MIÚDO E O ADULTO

Vamos ver se o debate entre Cavaco e Alegre consegue, pelo menos, mais um espectador do que os anteriores. Mesmo assim, não é caso para isto por muito que o bardo se esprema. Há fenómenos crónicos em que se puxa mas não dá mais. Já dizia o Doutor Salazar.

Adenda: Depois da coisa, respira-se de alívio pelo fim destes debates absurdos. Penso ter ficado claro, de uma vez para sempre, que apenas depende de Sócrates e das nomenclaturas partidárias a manutenção desta legislatura até ao seu derradeiro dia. E que Alegre olhará, com nostalgia, para o milhão de votos que obteve em 2006. Jamais o repetirá.

O MIÚDO E O ADULTO

Vamos ver se o debate entre Cavaco e Alegre consegue, pelo menos, mais um espectador do que os anteriores. Mesmo assim, não é caso para isto por muito que o bardo se esprema. Há fenómenos crónicos em que se puxa mas não dá mais. Já dizia o Doutor Salazar.

Adenda: Depois da coisa, respira-se de alívio pelo fim destes debates absurdos. Penso ter ficado claro, de uma vez para sempre, que apenas depende de Sócrates e das nomenclaturas partidárias a manutenção desta legislatura até ao seu derradeiro dia. E que Alegre olhará, com nostalgia, para o milhão de votos que obteve em 2006. Jamais o repetirá.

NÃO VALE A PENA


A ASAE do sr. Nunes foi criada há cinco anos. A coisa foi pensada, à semelhança de muitas outras antes desta, como algo destinado a "purificar" o indígena e a incentivar a emergência do tão constantemente renovado quanto adiado "novo homem português". Em vez do homem médio da unha grande do dedo mindinho, da mariconera, do palito depois do almoço, das baforadas no meio das refeições, apreciador de galheteiros de azeite esconso e de vinhos competentemente martelados, a ASAE prometia o paraíso, multando, encerrando e expondo ao opróbrio público a malícia e o "risco" de um pratinho mal lavado, de uma ginja tragada em copos cambados, de um avental com nódoas de gordura, a frequência de tascas de reputação duvidosa e de restaurantes assemelháveis a prostíbulos. A ASAE vinha, em suma, corrigir o prazer e obrigá-lo aos regulamentos, trivializando tudo. Aos poucos, porém, o governo percebeu que ganhava mais em não revelar continuamente as façanhas policiais da seita e permitiu que, aqui ou ali, os anti-corpos fizessem o seu caminho natural sob pena de se matar a sociedade de tanta cura. Apesar da ASAE, persistimos feios, porcos e maus. Não vale a pena.

NÃO VALE A PENA


A ASAE do sr. Nunes foi criada há cinco anos. A coisa foi pensada, à semelhança de muitas outras antes desta, como algo destinado a "purificar" o indígena e a incentivar a emergência do tão constantemente renovado quanto adiado "novo homem português". Em vez do homem médio da unha grande do dedo mindinho, da mariconera, do palito depois do almoço, das baforadas no meio das refeições, apreciador de galheteiros de azeite esconso e de vinhos competentemente martelados, a ASAE prometia o paraíso, multando, encerrando e expondo ao opróbrio público a malícia e o "risco" de um pratinho mal lavado, de uma ginja tragada em copos cambados, de um avental com nódoas de gordura, a frequência de tascas de reputação duvidosa e de restaurantes assemelháveis a prostíbulos. A ASAE vinha, em suma, corrigir o prazer e obrigá-lo aos regulamentos, trivializando tudo. Aos poucos, porém, o governo percebeu que ganhava mais em não revelar continuamente as façanhas policiais da seita e permitiu que, aqui ou ali, os anti-corpos fizessem o seu caminho natural sob pena de se matar a sociedade de tanta cura. Apesar da ASAE, persistimos feios, porcos e maus. Não vale a pena.

28.12.10

NÃO VAMOS LÁ

Ele é submarinos. Ele é blindados. Ora vêm, ora não vêm. Tudo bens essenciais como o arroz ou o bilhete do autocarro. Os países ricos são mesmo assim. Dão-se à paródia com mais milhão menos milhão. Enquanto não for declarada a bancarrota (a real, porque a ética está declarada por natureza) não vamos lá.

NÃO VAMOS LÁ

Ele é submarinos. Ele é blindados. Ora vêm, ora não vêm. Tudo bens essenciais como o arroz ou o bilhete do autocarro. Os países ricos são mesmo assim. Dão-se à paródia com mais milhão menos milhão. Enquanto não for declarada a bancarrota (a real, porque a ética está declarada por natureza) não vamos lá.

A AMORALIDADE PÚBLICA

O Tribunal de Contas acha que há motivos de sobra para colocar em causa as administrações de coisas públicas como a CP, a REFER ou o Metro por terem "posto a render" dinheiro na banca comercial em vez, como a lei obriga, do Tesouro. Agora o Estado vai exigir os juros de volta mas "salva" os beneméritos da demissão, alegando que o Tribunal não pede a cabeça de ninguém. Até pode ser. Mas, e uma vez mais, estamos numa outra dimensão, a da amoralidade pública. E, para ela, de facto não há meio termo. Ou se avaliza ou não se avaliza. Ponto final.

A AMORALIDADE PÚBLICA

O Tribunal de Contas acha que há motivos de sobra para colocar em causa as administrações de coisas públicas como a CP, a REFER ou o Metro por terem "posto a render" dinheiro na banca comercial em vez, como a lei obriga, do Tesouro. Agora o Estado vai exigir os juros de volta mas "salva" os beneméritos da demissão, alegando que o Tribunal não pede a cabeça de ninguém. Até pode ser. Mas, e uma vez mais, estamos numa outra dimensão, a da amoralidade pública. E, para ela, de facto não há meio termo. Ou se avaliza ou não se avaliza. Ponto final.

PRECISAMENTE


PRECISAMENTE


É O QUE HÁ


«António José Seguro votou sozinho, na AR, contra a actual lei de financiamento partidário que vem revelando os truques de que é feita e os malefícios que pode trazer à saúde moral do regime. O PR promulgou a lei sem dizer Ai [não: publicou uma "nota exculpativa"]. O governo apresentou um diploma razoável sobre o condicionamento das subvenções estatais ao ensino particular e cooperativo. Os contratos de associação aplicam-se sobretudo a antigos seminários diocesanos reconvertidos em escolas. O PR ameaçou vetar o diploma e promoveu uma clarificação conceptual sobre a matéria antes de o promulgar [chamou-lhe "bom senso"]. Tudo bem. Mas escapa a alguém o desnível geral das suas preocupações?» (Medeiros Ferreira) Escapa porque o "povo" está-se nas tintas e quer saldos. Cavaco pretende "segurar" o regime em vez de o afrontar exigindo, por exemplo, outra revisão constitucional, outros poderes, outros equilíbrios menos hipócritas. Prefere ganhar com cinquenta e poucos por cento dos votos do que com setenta ou mais, "invertendo" o tema da campanha : não acredito em Portugal assim e proponho outra coisa. Estas, porém, são as eleições presidenciais possíveis. Não merecemos, aliás, melhor.

Nota: Dito isto, tenho pena que o Medeiros Ferreira continue sem opinião publicada acerca dos mais recentes arrobos do pequeno timoneiro micaelense, um derrotado profundo anunciado do "23 de Janeiro".

É O QUE HÁ


«António José Seguro votou sozinho, na AR, contra a actual lei de financiamento partidário que vem revelando os truques de que é feita e os malefícios que pode trazer à saúde moral do regime. O PR promulgou a lei sem dizer Ai [não: publicou uma "nota exculpativa"]. O governo apresentou um diploma razoável sobre o condicionamento das subvenções estatais ao ensino particular e cooperativo. Os contratos de associação aplicam-se sobretudo a antigos seminários diocesanos reconvertidos em escolas. O PR ameaçou vetar o diploma e promoveu uma clarificação conceptual sobre a matéria antes de o promulgar [chamou-lhe "bom senso"]. Tudo bem. Mas escapa a alguém o desnível geral das suas preocupações?» (Medeiros Ferreira) Escapa porque o "povo" está-se nas tintas e quer saldos. Cavaco pretende "segurar" o regime em vez de o afrontar exigindo, por exemplo, outra revisão constitucional, outros poderes, outros equilíbrios menos hipócritas. Prefere ganhar com cinquenta e poucos por cento dos votos do que com setenta ou mais, "invertendo" o tema da campanha : não acredito em Portugal assim e proponho outra coisa. Estas, porém, são as eleições presidenciais possíveis. Não merecemos, aliás, melhor.

Nota: Dito isto, tenho pena que o Medeiros Ferreira continue sem opinião publicada acerca dos mais recentes arrobos do pequeno timoneiro micaelense, um derrotado profundo anunciado do "23 de Janeiro".

27.12.10

MASSACRE


O senhor 0,7% debateu com o senhor 4,8% (generosa, esta percentagem). No estado a que chegámos, termos disto como candidatos a PR - desta vez os respectivos progenitores masculinos substituiram as famosas galinhas - contribui para que não possamos ser levados a sério. Imaginem os credores a assistir a massacres destes com tradução simultânea. Nem mais um euro seria dispensado.

MASSACRE


O senhor 0,7% debateu com o senhor 4,8% (generosa, esta percentagem). No estado a que chegámos, termos disto como candidatos a PR - desta vez os respectivos progenitores masculinos substituiram as famosas galinhas - contribui para que não possamos ser levados a sério. Imaginem os credores a assistir a massacres destes com tradução simultânea. Nem mais um euro seria dispensado.

O MAL DE CADA DIA

«Não vos preocupeis com o amanhã; cada dia tem o seu mal» Este excerto da Palavra é um "lema" para o Papa Bento XVI conforme o próprio revela no livro ali à direita. É um belo propósito.

O MAL DE CADA DIA

«Não vos preocupeis com o amanhã; cada dia tem o seu mal» Este excerto da Palavra é um "lema" para o Papa Bento XVI conforme o próprio revela no livro ali à direita. É um belo propósito.

26.12.10

O ESTRANHO CASO DE D. JOSÉ

D. José Policarpo, o chefe da Igreja Católica em Portugal, esteve particularmente activo nos últimos dias. Ouvi-o na rádio, li-o nos jornais. Salvo o devido respeito, é um politiqueiro. Basta ver a entrevista no Diário de Notícias de domingo. Parece um tudólogo e não um cardeal patriarca. É complacente com Sócrates como nunca foi com o seu "amigo" Cavaco aquando de um não veto circunstancial. Parece que não aprecia a ideia de poder vir a ser substituído pelo Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, ou pelo Auxilar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, dois dos mais notáveis prelados da Igreja portuguesa. Policarpo representa uma Igreja pusilânime e cortesã que, certamente, escapa ao múnus de Joseph Ratzinger. Não foi por acaso que, aquando da visita dos Bispos lusos ao Vaticano, foram forçados a ouvir muita coisa de que não gostaram. Designadamente que olhavam demasiado para si próprios. Ora D. José Policarpo é, nesta matéria, um epígono exímio. Sente-se confortável no regime e o regime sente-se confortável com ele. A Igreja é deste mundo mas representa outra coisa. Não conviria abusar.

O ESTRANHO CASO DE D. JOSÉ

D. José Policarpo, o chefe da Igreja Católica em Portugal, esteve particularmente activo nos últimos dias. Ouvi-o na rádio, li-o nos jornais. Salvo o devido respeito, é um politiqueiro. Basta ver a entrevista no Diário de Notícias de domingo. Parece um tudólogo e não um cardeal patriarca. É complacente com Sócrates como nunca foi com o seu "amigo" Cavaco aquando de um não veto circunstancial. Parece que não aprecia a ideia de poder vir a ser substituído pelo Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, ou pelo Auxilar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, dois dos mais notáveis prelados da Igreja portuguesa. Policarpo representa uma Igreja pusilânime e cortesã que, certamente, escapa ao múnus de Joseph Ratzinger. Não foi por acaso que, aquando da visita dos Bispos lusos ao Vaticano, foram forçados a ouvir muita coisa de que não gostaram. Designadamente que olhavam demasiado para si próprios. Ora D. José Policarpo é, nesta matéria, um epígono exímio. Sente-se confortável no regime e o regime sente-se confortável com ele. A Igreja é deste mundo mas representa outra coisa. Não conviria abusar.

UM PAÍS CHEIO DE PROSPERIDADES


«O Natal acabou, o que este ano não deixa de ser um alívio. Os lisboetas, pelo menos, não pareceram dar pela crise. A julgar pelo trânsito e pelas multidões que enchiam o Colombo e congéneres, continuamos manifestamente a pensar que Portugal é um país próspero, "europeu", "modernizado" e rico e nada nos tira isso da cabeça. Claro que andam pela televisão e pelo jornais meia dúzia de indivíduos (má gente) a resmungar contra a pobreza, o défice e a dívida. E que o Presidente da República resolveu declarar - não se percebe porquê - a nossa bela situação "insustentável". Mas sem grande efeito. A classe média, carregada de embrulhos ou à espera do próximo avião para mais verdes pastagens, não se comoveu. O que será, será - e, por enquanto, o que é, é suportável. Há de resto nisto tudo um lado prazenteiro. Cavaco e o Governo fizeram uma reuniãozinha, muito bem postos, para se dar mutuamente boas-festas. E o admirável Sócrates veio mesmo num carro a electricidade, certamente com o propósito de exibir o espantoso progresso de Portugal. Também os srs. ministros esqueceram o aperto financeiro e as várias desgraças de outra espécie de que por aí se fala, para sossegar a populaça com um sorrisinho de beatitude. Cavaco e Sócrates, como lhes compete, juraram lealdade, fidelidade, responsabilidade e amor, enquanto presumivelmente afiavam as facas com doçura. A hipocrisia é de graça e consta que promove a confiança dos mercados. Só faltou ao quadro Teixeira dos Santos, que anda por aí à procura de um tostão perdido. E as celebrações não ficaram por aqui. Um jornal benévolo revelou o que tencionam comer (ou já comeram) os cinco (ou talvez nove) patriotas que temerariamente se candidatam a Belém: bacalhau cozido, peru recheado, cabrito, capão, bolo-rei e arroz-doce. Infelizmente, Cavaco não nos confessou como se esperava consolar. Mas, de qualquer maneira, não se pode dizer que esta importante parte da nação se alimenta mal. Nem que ande muito angustiada com o seu futuro. O Presidente conta continuar Presidente e o primeiro-ministro primeiro-ministro. E os que, entretanto, escorregarem na indiferença do país têm sempre o gozo do tal quarto de hora de celebridade, que amacia o ego e adoça a insignificância por um tempo. Os portugueses sabem sempre aproveitar.»

Vasco Pulido Valente, Público

UM PAÍS CHEIO DE PROSPERIDADES


«O Natal acabou, o que este ano não deixa de ser um alívio. Os lisboetas, pelo menos, não pareceram dar pela crise. A julgar pelo trânsito e pelas multidões que enchiam o Colombo e congéneres, continuamos manifestamente a pensar que Portugal é um país próspero, "europeu", "modernizado" e rico e nada nos tira isso da cabeça. Claro que andam pela televisão e pelo jornais meia dúzia de indivíduos (má gente) a resmungar contra a pobreza, o défice e a dívida. E que o Presidente da República resolveu declarar - não se percebe porquê - a nossa bela situação "insustentável". Mas sem grande efeito. A classe média, carregada de embrulhos ou à espera do próximo avião para mais verdes pastagens, não se comoveu. O que será, será - e, por enquanto, o que é, é suportável. Há de resto nisto tudo um lado prazenteiro. Cavaco e o Governo fizeram uma reuniãozinha, muito bem postos, para se dar mutuamente boas-festas. E o admirável Sócrates veio mesmo num carro a electricidade, certamente com o propósito de exibir o espantoso progresso de Portugal. Também os srs. ministros esqueceram o aperto financeiro e as várias desgraças de outra espécie de que por aí se fala, para sossegar a populaça com um sorrisinho de beatitude. Cavaco e Sócrates, como lhes compete, juraram lealdade, fidelidade, responsabilidade e amor, enquanto presumivelmente afiavam as facas com doçura. A hipocrisia é de graça e consta que promove a confiança dos mercados. Só faltou ao quadro Teixeira dos Santos, que anda por aí à procura de um tostão perdido. E as celebrações não ficaram por aqui. Um jornal benévolo revelou o que tencionam comer (ou já comeram) os cinco (ou talvez nove) patriotas que temerariamente se candidatam a Belém: bacalhau cozido, peru recheado, cabrito, capão, bolo-rei e arroz-doce. Infelizmente, Cavaco não nos confessou como se esperava consolar. Mas, de qualquer maneira, não se pode dizer que esta importante parte da nação se alimenta mal. Nem que ande muito angustiada com o seu futuro. O Presidente conta continuar Presidente e o primeiro-ministro primeiro-ministro. E os que, entretanto, escorregarem na indiferença do país têm sempre o gozo do tal quarto de hora de celebridade, que amacia o ego e adoça a insignificância por um tempo. Os portugueses sabem sempre aproveitar.»

Vasco Pulido Valente, Público

25.12.10

AGARREM-NO SE PUDEREM


Tivemos "direito" ao fatal Sócrates. E à sua fatal "crise" internacional que justifica praticamente tudo. "Olhem lá para fora, se fizerem favor", "olhem para a Europa", etc., etc. Para Marte, de onde ele veio qual rei mago tecnológico. Mas, sobretudo, não reparem em nós. Nele. Por isso, portugueses, dotado da graça da "energia" e do "vigor", Sócrates não vai desistir mesmo que o país desista dele. Até a graçola do PISA - que ainda ninguém teve a coragem de desmontar - serviu o sapatinho do premier como "sintoma" do nosso "desenvolvimento" e da "mudança". Agarrem-no se puderem.

AGARREM-NO SE PUDEREM


Tivemos "direito" ao fatal Sócrates. E à sua fatal "crise" internacional que justifica praticamente tudo. "Olhem lá para fora, se fizerem favor", "olhem para a Europa", etc., etc. Para Marte, de onde ele veio qual rei mago tecnológico. Mas, sobretudo, não reparem em nós. Nele. Por isso, portugueses, dotado da graça da "energia" e do "vigor", Sócrates não vai desistir mesmo que o país desista dele. Até a graçola do PISA - que ainda ninguém teve a coragem de desmontar - serviu o sapatinho do premier como "sintoma" do nosso "desenvolvimento" e da "mudança". Agarrem-no se puderem.

O DIA DE NATAL

Aparentemente não há mais nada a dizer no dia de Natal do que contabilizar mortos e feridos na estrada, de preferência por comparação com o ano passado. Também contam as centenas de passageiros congelados em aeroportos europeus, coitadinhos, e pouco mais. O dia de hoje, porém, fundou um mundo. Pouco importa que esse mundo esteja a desaparecer precisamente, entre outros sítios, nos corredores aeroportuários onde os tontos saltam de "felicidade" em "felicidade" até ao descalabro final. Mas porque está a desaparecer é que ele brilha mais - forte, seguro e firme. A pergunta que fazemos a nós próprios - meu Deus, por que me abandonaste? - instaurou-se desde o primeiro momento, no silêncio e na simplicidade da gruta e das palhas. E este momento que fundou um mundo só terá sentido nos dias de agora se se mantiver o diálogo, essa tensão que salva, muito para lá do agora. O dia de Natal é o começo da passsagem que termina na Cruz, na morte e na ressurreição. É a história de uma vida renovada quotidianamente na inquietação e na esperança contra toda a esperança. Não há outra.

O DIA DE NATAL

Aparentemente não há mais nada a dizer no dia de Natal do que contabilizar mortos e feridos na estrada, de preferência por comparação com o ano passado. Também contam as centenas de passageiros congelados em aeroportos europeus, coitadinhos, e pouco mais. O dia de hoje, porém, fundou um mundo. Pouco importa que esse mundo esteja a desaparecer precisamente, entre outros sítios, nos corredores aeroportuários onde os tontos saltam de "felicidade" em "felicidade" até ao descalabro final. Mas porque está a desaparecer é que ele brilha mais - forte, seguro e firme. A pergunta que fazemos a nós próprios - meu Deus, por que me abandonaste? - instaurou-se desde o primeiro momento, no silêncio e na simplicidade da gruta e das palhas. E este momento que fundou um mundo só terá sentido nos dias de agora se se mantiver o diálogo, essa tensão que salva, muito para lá do agora. O dia de Natal é o começo da passsagem que termina na Cruz, na morte e na ressurreição. É a história de uma vida renovada quotidianamente na inquietação e na esperança contra toda a esperança. Não há outra.

24.12.10

O MALIGNO SUBLIME

O MALIGNO SUBLIME

«PIETÀ, RISPETTO, AMORE»

«PIETÀ, RISPETTO, AMORE»

«ENTRETANTO, SENHORAS E SENHORES, AS BOAS FESTAS»




Podemos já nem sequer "estar" na zona euro (na cabeça dessa gente quase nem existimos o que só dá provas do seu realismo e da nossa irremediável pequenez - as "presidenciais", aliás, evidenciam-na) mas o que importa mesmo é ir enfardar perús, bacalhau e prendas para as berças. É caso para perguntar: "riem-se de quê"? Bom proveito.


Neste comércio festivo que há dois mil anos quase
perdura mal cobrindo remendadamente
o solstício do Inverno e os deuses sempre vivos
de cuja falsa morte o mundo paga em crimes,
como em vileza humana, o medo que escolheu
quando ao claror da aurora rósea e livre
de viver como os deuses e com eles
preferiu a lei e a ordem projectadas
na sombra em sombras da caverna obscura
e desejou o mal em preço de ser-se homem —
tudo o que em milhares de anos é tribal
congrega-se feliz num doce rebolar-se
da traição de que fomos contra a vida.
Tão vil que levou séculos a inventar
um deus assassinado para desculpá-la,
e fez dele o comércio das famílias
que cortam no peru as raivas de existirem,
beijando-se visguentas, comovidas,
tal como têm babado os pés dos deuses,
ah não eles mesmos mas imagens vãs
que não resplendam da grandeza humana.
Alguma vez teremos o dinheiro
para comprar de novo o Paraíso,
em vez de prendas para o sapatinho?
O Paraíso aqui — aquele que venderam
no começar do mundo. E que nos trocam
por outros no futuro ou nos aléns,
agora, aqui, aberto a todos, claro
- um sol sem fim nos bosques ou nas praias,
uma nudez sem morte nos corpos sem alma.
Talvez que o só vejamos por um instante
naquele espaço-tempo entre morrer
e o ficar morto para os antropófagos
dos deuses e dos homens, hóstia ou ossos.
Entretanto, senhoras e senhores, as Boas Festas.

Jorge de Sena, 23.12.72

«ENTRETANTO, SENHORAS E SENHORES, AS BOAS FESTAS»




Podemos já nem sequer "estar" na zona euro (na cabeça dessa gente quase nem existimos o que só dá provas do seu realismo e da nossa irremediável pequenez - as "presidenciais", aliás, evidenciam-na) mas o que importa mesmo é ir enfardar perús, bacalhau e prendas para as berças. É caso para perguntar: "riem-se de quê"? Bom proveito.


Neste comércio festivo que há dois mil anos quase
perdura mal cobrindo remendadamente
o solstício do Inverno e os deuses sempre vivos
de cuja falsa morte o mundo paga em crimes,
como em vileza humana, o medo que escolheu
quando ao claror da aurora rósea e livre
de viver como os deuses e com eles
preferiu a lei e a ordem projectadas
na sombra em sombras da caverna obscura
e desejou o mal em preço de ser-se homem —
tudo o que em milhares de anos é tribal
congrega-se feliz num doce rebolar-se
da traição de que fomos contra a vida.
Tão vil que levou séculos a inventar
um deus assassinado para desculpá-la,
e fez dele o comércio das famílias
que cortam no peru as raivas de existirem,
beijando-se visguentas, comovidas,
tal como têm babado os pés dos deuses,
ah não eles mesmos mas imagens vãs
que não resplendam da grandeza humana.
Alguma vez teremos o dinheiro
para comprar de novo o Paraíso,
em vez de prendas para o sapatinho?
O Paraíso aqui — aquele que venderam
no começar do mundo. E que nos trocam
por outros no futuro ou nos aléns,
agora, aqui, aberto a todos, claro
- um sol sem fim nos bosques ou nas praias,
uma nudez sem morte nos corpos sem alma.
Talvez que o só vejamos por um instante
naquele espaço-tempo entre morrer
e o ficar morto para os antropófagos
dos deuses e dos homens, hóstia ou ossos.
Entretanto, senhoras e senhores, as Boas Festas.

Jorge de Sena, 23.12.72

23.12.10

INCOMPREENSÕES

O que é "difícil de compreender" é que o governo ache "difícil de compreender" que o rating da República tivesse descido numa agência da especialidade. E que, em vez de tendas, não se fale disto - desta "incompreensão" e da causa dela - em debates televisivos eleitorais. Mas, felizmente, o Bloco explicou a coisa em socorro do governo do PS, seu parceiro na candidatura Alegre - as agências de rating não têm credibilidade. Bem hajam.

INCOMPREENSÕES

O que é "difícil de compreender" é que o governo ache "difícil de compreender" que o rating da República tivesse descido numa agência da especialidade. E que, em vez de tendas, não se fale disto - desta "incompreensão" e da causa dela - em debates televisivos eleitorais. Mas, felizmente, o Bloco explicou a coisa em socorro do governo do PS, seu parceiro na candidatura Alegre - as agências de rating não têm credibilidade. Bem hajam.

DA VIDA ENTRE BRUTOS

Afinal, os pulhas a que aludo aqui sempre têm, a avaliar pelas sondagens, um peso da ordem dos 0,7%.

DA VIDA ENTRE BRUTOS

Afinal, os pulhas a que aludo aqui sempre têm, a avaliar pelas sondagens, um peso da ordem dos 0,7%.

A MUSA IRREGULAR


«Retrato» de uma "antiga jornalista" pelo Pedro Lomba. Não tenho a certeza, porém, relativamente ao que seja o substantivo e o adjectivo na fórmula utilizada pelo cronista.

A MUSA IRREGULAR


«Retrato» de uma "antiga jornalista" pelo Pedro Lomba. Não tenho a certeza, porém, relativamente ao que seja o substantivo e o adjectivo na fórmula utilizada pelo cronista.

VITÓRIAS, DERROTAS


Daqui a precisamente um mês Cavaco Silva será reeleito Presidente da República. Todos os "estudos de opinião" o revelam e dependerá da abstenção a expressividade dessa vitória. Jamais da grosseria de basbaques conhecidos ou anónimos. Cavaco, nas actuais circunstâncias, se tivesse optado por uma recandidatura estilo "Figueira da Foz - 1985", obteria, sem sombra de dúvida, uma vitória esmagadora e teria o país todo atrás de si sem sequer precisar daquela coisa estafada do "presidente de todos os portugueses". Mas a Constituição cretina não permite estas alturas e Cavaco - que conviveu bem com ela enquanto 1º ministro, chefe de uma maioria absoluta de dez anos e PR - prefere outro caminho: o do confronto do governo com as suas responsabilidades. Ao afirmar que aquele falhará se vier o FMI ou outro fundo qualquer, Cavaco pretende (e bem) que Sócrates beba o cálice da sua própria mistificação até ao fim. A legitimidade eleitoral, reforçada em Janeiro, confere-lhe o direito e o dever de colocar Sócrates perante o direito e dever de não falhar, tanto mais quando já anunciou que pretende continuar a mandar no PS e, consequentemente, no país. Como o outro, Sócrates andará (andou) de vitória em vitória até à derrota final. Ninguém, muito menos o PS, a lamentará.

VITÓRIAS, DERROTAS


Daqui a precisamente um mês Cavaco Silva será reeleito Presidente da República. Todos os "estudos de opinião" o revelam e dependerá da abstenção a expressividade dessa vitória. Jamais da grosseria de basbaques conhecidos ou anónimos. Cavaco, nas actuais circunstâncias, se tivesse optado por uma recandidatura estilo "Figueira da Foz - 1985", obteria, sem sombra de dúvida, uma vitória esmagadora e teria o país todo atrás de si sem sequer precisar daquela coisa estafada do "presidente de todos os portugueses". Mas a Constituição cretina não permite estas alturas e Cavaco - que conviveu bem com ela enquanto 1º ministro, chefe de uma maioria absoluta de dez anos e PR - prefere outro caminho: o do confronto do governo com as suas responsabilidades. Ao afirmar que aquele falhará se vier o FMI ou outro fundo qualquer, Cavaco pretende (e bem) que Sócrates beba o cálice da sua própria mistificação até ao fim. A legitimidade eleitoral, reforçada em Janeiro, confere-lhe o direito e o dever de colocar Sócrates perante o direito e dever de não falhar, tanto mais quando já anunciou que pretende continuar a mandar no PS e, consequentemente, no país. Como o outro, Sócrates andará (andou) de vitória em vitória até à derrota final. Ninguém, muito menos o PS, a lamentará.

22.12.10

A NEVE É UMA "DERIVA LIBERAL"


A estupidez humana é tão vasta e maçadora como a chuva que cai neste momento em Lisboa. Há, aliás, quem consiga atribuir à "tranquibérnia liberal" (sic) a culpa pelos incómodos que estão a ocorrer um pouco por praticamente todos os aeroportos europeus. Fossem os respectivos governos da "esquerda moderna" e até os binómios homem-cão do exército e das polícias andariam a lamber as pistas de aviação para os novos bárbaros globalizados poderem deslocar-se à vontade nos seus voos low ou high cost. Porque a pequeníssima burguesia de espírito destes gnomos da "esquerda moderna" é, grosso modo, a que incutiu na massa este frenesim mundial em que nada que não possa ser consumido em "tempo real" não presta. As pessoas sentem esta necessidade fisiológica de andar de um lado para o outro apenas pelo prazer de andar de um lado para o outro e de contar aos amigos, directamente do wc do aeroporto, que não conseguem movimentar-se por causa da "deriva liberal" da neve. Alegoricamente isto poderia considerar-se uma rebelião do Céu perante a pobreza de espírito reinante no mundo inteiro. E uma rebelião por a massa ter transformado o Natal nesta insuportável azáfama de vazios sobrepostos encolhidos em sacos de plástico das "compras". O tempo ensinou-me a preferir, do calendário litúrgico, a Páscoa. Porque tudo está na realidade condensado no mistério da Cruz - o nascimento, a vida, a morte e a ressurreição. O resto, como os episódios aeroportuários, é rasca e irrelevante. Rasca e irrelevante como aquilo em que transformaram a vida.

A NEVE É UMA "DERIVA LIBERAL"


A estupidez humana é tão vasta e maçadora como a chuva que cai neste momento em Lisboa. Há, aliás, quem consiga atribuir à "tranquibérnia liberal" (sic) a culpa pelos incómodos que estão a ocorrer um pouco por praticamente todos os aeroportos europeus. Fossem os respectivos governos da "esquerda moderna" e até os binómios homem-cão do exército e das polícias andariam a lamber as pistas de aviação para os novos bárbaros globalizados poderem deslocar-se à vontade nos seus voos low ou high cost. Porque a pequeníssima burguesia de espírito destes gnomos da "esquerda moderna" é, grosso modo, a que incutiu na massa este frenesim mundial em que nada que não possa ser consumido em "tempo real" não presta. As pessoas sentem esta necessidade fisiológica de andar de um lado para o outro apenas pelo prazer de andar de um lado para o outro e de contar aos amigos, directamente do wc do aeroporto, que não conseguem movimentar-se por causa da "deriva liberal" da neve. Alegoricamente isto poderia considerar-se uma rebelião do Céu perante a pobreza de espírito reinante no mundo inteiro. E uma rebelião por a massa ter transformado o Natal nesta insuportável azáfama de vazios sobrepostos encolhidos em sacos de plástico das "compras". O tempo ensinou-me a preferir, do calendário litúrgico, a Páscoa. Porque tudo está na realidade condensado no mistério da Cruz - o nascimento, a vida, a morte e a ressurreição. O resto, como os episódios aeroportuários, é rasca e irrelevante. Rasca e irrelevante como aquilo em que transformaram a vida.

21.12.10

A "INFLUÊNCIA ACTIVA" DA REALIDADE



Calhou assistir ao debate Cavaco/PC, este representado pelo futuro secretário-geral, o deputado Lopes. Lopes é rijo. Viu-se com Alegre. Mas Cavaco, hoje, fez-me recordar o melhor Cavaco, o das eleições legislativas de 1991. Talvez por isso lamente a sua rendição à Constituição, à sua inútil revisão e ao "papel" imposto, desde 1983, ao PR pelos principais partidos do regime. De qualquer forma, um novo e definitivo mandato, com mais ou menos "influência activa", será diferente deste. Não porque Cavaco o deseje mas porque a realidade acabará por se lhe impor.


Adenda: As "associações" de Cavaco ao episódio BPN a título de argumentário político é coisa de pulhas. Ponto final.


Adenda2: E pior do que um pulha só um pulha (vários ou o mesmo) anónimo e cobarde como alguns cretinos que vêm aqui comentar. Vão para as compras que é coisa que devem saber fazer bem. Deslizem.

A "INFLUÊNCIA ACTIVA" DA REALIDADE



Calhou assistir ao debate Cavaco/PC, este representado pelo futuro secretário-geral, o deputado Lopes. Lopes é rijo. Viu-se com Alegre. Mas Cavaco, hoje, fez-me recordar o melhor Cavaco, o das eleições legislativas de 1991. Talvez por isso lamente a sua rendição à Constituição, à sua inútil revisão e ao "papel" imposto, desde 1983, ao PR pelos principais partidos do regime. De qualquer forma, um novo e definitivo mandato, com mais ou menos "influência activa", será diferente deste. Não porque Cavaco o deseje mas porque a realidade acabará por se lhe impor.


Adenda: As "associações" de Cavaco ao episódio BPN a título de argumentário político é coisa de pulhas. Ponto final.


Adenda2: E pior do que um pulha só um pulha (vários ou o mesmo) anónimo e cobarde como alguns cretinos que vêm aqui comentar. Vão para as compras que é coisa que devem saber fazer bem. Deslizem.

«A TRISTEZA, PORÉM, É MUITA»


«Cada vez mais, eu escrevo com a noção absoluta de pregar no deserto. Sei que uns entendem e não aceitam, e que outros, que aceitariam, não entendem. Mas a única justificação de uma existência que escreve para testemunhar de todas as verdades é persistir mesmo assim, e escrever da compreensão que era possível no nosso tempo. É provável também que me canse – mas isso nada prova senão contra mim, pois que sempre poderá haver, expressa ou não, uma compreensão profunda e amplificadora como a sua. A tristeza, porém, é muita; e não sei se, ainda que (quem sabe?) alegremente, não acabaremos por nos convencer definitivamente de que só nós estamos errados... e certos todos os outros.»


«A TRISTEZA, PORÉM, É MUITA»


«Cada vez mais, eu escrevo com a noção absoluta de pregar no deserto. Sei que uns entendem e não aceitam, e que outros, que aceitariam, não entendem. Mas a única justificação de uma existência que escreve para testemunhar de todas as verdades é persistir mesmo assim, e escrever da compreensão que era possível no nosso tempo. É provável também que me canse – mas isso nada prova senão contra mim, pois que sempre poderá haver, expressa ou não, uma compreensão profunda e amplificadora como a sua. A tristeza, porém, é muita; e não sei se, ainda que (quem sabe?) alegremente, não acabaremos por nos convencer definitivamente de que só nós estamos errados... e certos todos os outros.»


EM TEMPO DE RABANADAS


No post anterior anunciei um debate "presidencial" que, afinal, só tem lugar hoje. Aparentemente nenhum dos seus leitores deu por isso. Tal apenas confirma o que venho dizendo - os debates "presidenciais" suscitam menos interesse que uma rabanada. Porém, e numa intervenção de campanha, o actual PR sugeriu, sem sugerir, que poderia vetar, caso não houvesse "bom senso" (que diabo quererá dizer bom senso aplicado aos cretinos simples e funcionais que conhecemos?), um diploma que reduz o financiamento público ao ensino básico e secundário privados. Este episódio, se revela alguma coisa, é a enorme falácia representada pela "sociedade civil". Em Portugal ninguém dispensa a longa manus do Estado quando nunca houve tantos "liberais" saídos directamente da Farinha Amparo. Sou católico e sei que a maioria desses estabelecimentos privados de ensino é da mesma filiação religiosa. Mas, e até por isso, estou à vontade para defender, sem dramas, que os cortes quando nascem são para todos. É que, de excepção em excepção, não vamos a lado algum.

EM TEMPO DE RABANADAS


No post anterior anunciei um debate "presidencial" que, afinal, só tem lugar hoje. Aparentemente nenhum dos seus leitores deu por isso. Tal apenas confirma o que venho dizendo - os debates "presidenciais" suscitam menos interesse que uma rabanada. Porém, e numa intervenção de campanha, o actual PR sugeriu, sem sugerir, que poderia vetar, caso não houvesse "bom senso" (que diabo quererá dizer bom senso aplicado aos cretinos simples e funcionais que conhecemos?), um diploma que reduz o financiamento público ao ensino básico e secundário privados. Este episódio, se revela alguma coisa, é a enorme falácia representada pela "sociedade civil". Em Portugal ninguém dispensa a longa manus do Estado quando nunca houve tantos "liberais" saídos directamente da Farinha Amparo. Sou católico e sei que a maioria desses estabelecimentos privados de ensino é da mesma filiação religiosa. Mas, e até por isso, estou à vontade para defender, sem dramas, que os cortes quando nascem são para todos. É que, de excepção em excepção, não vamos a lado algum.

20.12.10

FICO, FIQUEI, FICAREI


O CDS, consta, vai eleger o seu líder. Para facilitar, está previsto que os militantes possam participar na eleição por via postal. Já agora, porque não através de chamadas de valor acrescentado, mail ou sms? O dr. Portas arrisca-se a ficar para a petite histoire como o Matusalém dos dirigentes partidários apesar da "juventude". Até o PC consegue ser mais "renovador", "rodando" o candidato Lopes (esta noite com Cavaco) para o lugar de Jerónimo. Mas, enfim, Portas prometeu que ficava. E ficou. Ficou de tal maneira que parece que nunca mais vai deixar de ficar.

FICO, FIQUEI, FICAREI


O CDS, consta, vai eleger o seu líder. Para facilitar, está previsto que os militantes possam participar na eleição por via postal. Já agora, porque não através de chamadas de valor acrescentado, mail ou sms? O dr. Portas arrisca-se a ficar para a petite histoire como o Matusalém dos dirigentes partidários apesar da "juventude". Até o PC consegue ser mais "renovador", "rodando" o candidato Lopes (esta noite com Cavaco) para o lugar de Jerónimo. Mas, enfim, Portas prometeu que ficava. E ficou. Ficou de tal maneira que parece que nunca mais vai deixar de ficar.

MELHOR É IMPOSSÍVEL


Nos últimos dias ocorreram uns "desenvolvimentos", estilo jogos florais, em torno da pobreza. Sócrates criticou aqueles que usam a pobreza como uma "indústria" para fins políticos e Cavaco retorquiu, numa acção caritativa de recorte neo-realista, mas a cores, a fazer lembrar algum cinema italiano dos anos 70 e 80, que até tem um "roteiro" (justamente como nos filmes) para a "inclusão social". Todavia, neste concurso destinado a apurar a medalha de ouro no referido combate à pobreza, Sócrates vai bem distanciado com os 500 milhões de euros que o governo tenciona "injectar" no não vendável BPN. Num país rico como o nosso, a estrebuchar de "competitividade" e de "sucesso" por todos os poros - que daqui a uns dias se prepara para ser saqueado em umas dezenas e centenas de euros mensais a bem da nação, da "competitividade", do "sucesso" e da "saúde das finanças públicas" (esta tirada é a que mais aprecio pela "imagem") sem tugir nem mugir - fica bem aos contribuintes, por interposto governo, ajudar a indigência bancária representada pelo BPN e pela SLN (ainda falta o BPP). Maior contributo para combater a pobreza, sobretudo a de espírito, é impossível.

MELHOR É IMPOSSÍVEL


Nos últimos dias ocorreram uns "desenvolvimentos", estilo jogos florais, em torno da pobreza. Sócrates criticou aqueles que usam a pobreza como uma "indústria" para fins políticos e Cavaco retorquiu, numa acção caritativa de recorte neo-realista, mas a cores, a fazer lembrar algum cinema italiano dos anos 70 e 80, que até tem um "roteiro" (justamente como nos filmes) para a "inclusão social". Todavia, neste concurso destinado a apurar a medalha de ouro no referido combate à pobreza, Sócrates vai bem distanciado com os 500 milhões de euros que o governo tenciona "injectar" no não vendável BPN. Num país rico como o nosso, a estrebuchar de "competitividade" e de "sucesso" por todos os poros - que daqui a uns dias se prepara para ser saqueado em umas dezenas e centenas de euros mensais a bem da nação, da "competitividade", do "sucesso" e da "saúde das finanças públicas" (esta tirada é a que mais aprecio pela "imagem") sem tugir nem mugir - fica bem aos contribuintes, por interposto governo, ajudar a indigência bancária representada pelo BPN e pela SLN (ainda falta o BPP). Maior contributo para combater a pobreza, sobretudo a de espírito, é impossível.

19.12.10

O RAIO QUE OS PARTA

O chorão Sampaio foi, de viva voz, apoiar Alegre. Andou para ali a jogar com os termos "solidário" e "solitário" para concluir, dirigindo-se ao segundo na segunda pessoa do singular ("tu"), que o dito cujo é "solidário". A comissão de honra é uma lástima mas, sobre isso, não sou eu quem vai atirar a primeira pedra. Sampaio vem de um "mundo" político e de uma geração - que já incluia Alegre pelo lado "externo" - que sempre olhou para a solidariedade como um valor retórico, componente indispensável do "manual" do bom burguês esquerdista, nada e criado na classe média alta desafecta (ou mesmo afecta) ao regime. E que acha que aqueles que não tiveram o privilégio de classe a amparar-lhes os delíquios "solidários" são, por definição, reaccionários e "poderosos". O raio que os parta.

O RAIO QUE OS PARTA

O chorão Sampaio foi, de viva voz, apoiar Alegre. Andou para ali a jogar com os termos "solidário" e "solitário" para concluir, dirigindo-se ao segundo na segunda pessoa do singular ("tu"), que o dito cujo é "solidário". A comissão de honra é uma lástima mas, sobre isso, não sou eu quem vai atirar a primeira pedra. Sampaio vem de um "mundo" político e de uma geração - que já incluia Alegre pelo lado "externo" - que sempre olhou para a solidariedade como um valor retórico, componente indispensável do "manual" do bom burguês esquerdista, nada e criado na classe média alta desafecta (ou mesmo afecta) ao regime. E que acha que aqueles que não tiveram o privilégio de classe a amparar-lhes os delíquios "solidários" são, por definição, reaccionários e "poderosos". O raio que os parta.

GENET OU CANTO FÚNEBRE DO AMOR


No suplemento "cultural" do Expresso, em língua brasileira, um cronista recorda os cem anos do nascimento de Jean Genet, a 19 de Dezembro de 1910. O autor de Diário de um ladrão teve uma vida complicada que os seus livros - quase todos autobiográficos, mesmo os versos - retratam cruelmente. Genet não se poupou no "realismo" das metáforas literárias e acabou produzindo das mais poderosas páginas da literatura francesa do século XX. Apesar de "maldito", marginal e "escandaloso", foi publicado pela prestigiada Gallimard/NRF, tendo Jean-Paul Sartre "apadrinhado" a edição das suas obras completas com o monumental e famoso "prefácio", Saint Genet, Comédien et Martyr, das melhores coisas que jamais escreveria até sobre si próprio. Nos anos setenta, dedicou-se a causas que parvamente se chamam agora de "fracturantes", nos EUA, em França e noutros sítios, como os "Panteras Negras" ou a "causa palestiniana" talvez atraído, dizem os que receiam nomeá-la, pela beleza física dos negros e dos árabes. No segundo volume das memórias do escritor espanhol Juan Goytisolo (En los reinos de Taifa) há umas quantas páginas dedicadas a Jean Genet que vale a pena ler, bem como a biografia de Edmund White (Genet, a biography), a única coisa de jeito que deu à estampa. Ao contrário de Rimbaud, Genet, par delicatesse, não "perdeu a vida". Pelo contrário, era um verdadeiro "condenado à morte", título de poesia sua, porventura uma intuição certeira para o que são, de facto, poetas e escritores. Didier Eribon escreveu, a meu ver, o melhor ensaio possível sobre Genet para os dias de hoje (Une morale du minoritaire - variations sur um thème de Jean Genet, de 2001) em que uma hagiografia literata gay - as mais das vezes cretina, analfabeta e maricas - domina, contaminando os chamados estudos universitários de "género" em boa hora desmontados pela insuspeita Camille Paglia. Genet provavelmente tê-los-ia desprezado como eles merecem porque foi sempre da crueldade - afectiva e sexual - que falou e não de uma qualquer pretensa beatitude associada ao "amor", um "sentimento" que não existe a não ser na mariquice desses literatos, independentemente do mais ou menos hetero ou homo que são ou julgam ser. Talvez, aliás, Pompas Fúnebres seja o verdadeiro nome do amor, o Canto dele de Genet.

Foto: Richard Avedon

GENET OU CANTO FÚNEBRE DO AMOR


No suplemento "cultural" do Expresso, em língua brasileira, um cronista recorda os cem anos do nascimento de Jean Genet, a 19 de Dezembro de 1910. O autor de Diário de um ladrão teve uma vida complicada que os seus livros - quase todos autobiográficos, mesmo os versos - retratam cruelmente. Genet não se poupou no "realismo" das metáforas literárias e acabou produzindo das mais poderosas páginas da literatura francesa do século XX. Apesar de "maldito", marginal e "escandaloso", foi publicado pela prestigiada Gallimard/NRF, tendo Jean-Paul Sartre "apadrinhado" a edição das suas obras completas com o monumental e famoso "prefácio", Saint Genet, Comédien et Martyr, das melhores coisas que jamais escreveria até sobre si próprio. Nos anos setenta, dedicou-se a causas que parvamente se chamam agora de "fracturantes", nos EUA, em França e noutros sítios, como os "Panteras Negras" ou a "causa palestiniana" talvez atraído, dizem os que receiam nomeá-la, pela beleza física dos negros e dos árabes. No segundo volume das memórias do escritor espanhol Juan Goytisolo (En los reinos de Taifa) há umas quantas páginas dedicadas a Jean Genet que vale a pena ler, bem como a biografia de Edmund White (Genet, a biography), a única coisa de jeito que deu à estampa. Ao contrário de Rimbaud, Genet, par delicatesse, não "perdeu a vida". Pelo contrário, era um verdadeiro "condenado à morte", título de poesia sua, porventura uma intuição certeira para o que são, de facto, poetas e escritores. Didier Eribon escreveu, a meu ver, o melhor ensaio possível sobre Genet para os dias de hoje (Une morale du minoritaire - variations sur um thème de Jean Genet, de 2001) em que uma hagiografia literata gay - as mais das vezes cretina, analfabeta e maricas - domina, contaminando os chamados estudos universitários de "género" em boa hora desmontados pela insuspeita Camille Paglia. Genet provavelmente tê-los-ia desprezado como eles merecem porque foi sempre da crueldade - afectiva e sexual - que falou e não de uma qualquer pretensa beatitude associada ao "amor", um "sentimento" que não existe a não ser na mariquice desses literatos, independentemente do mais ou menos hetero ou homo que são ou julgam ser. Talvez, aliás, Pompas Fúnebres seja o verdadeiro nome do amor, o Canto dele de Genet.

Foto: Richard Avedon

DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS ENQUANTO FALÁCIA, 2

«Os debates sobre as presidenciais têm passado na televisão perante a completa indiferença do país e (quanto muito) meia dúzia de páginas na imprensa. O que não admira. Não há de facto cinco candidatos. Há só o candidato Cavaco e mesmo esse é um pretexto, um mal menor ou um seguro de vida. O resto não conta. Fernando Nobre devia voltar rapidamente para a AMI. Defensor Moura e Francisco Lopes (do Partido Comunista) são duas personagens acrescentadas gratuitamente a uma história que não é a deles. E Manuel Alegre, obcecado pelo milhão de votos de 2006 (21,7 por cento dos votos), não percebeu que o apoio do Bloco e do PS de Sócrates concentrava sobre ele todo o descontentamento de um país, com muitas razões de estar descontente.»

Vasco Pulido Valente, Público.

Nota: O resto da "tese" de VPV - plebiscito a Sócrates a 23 de Janeiro, Cavaco pressionado pelos "milhões" que vão a correr votar nele para ele correr com Sócrates e Passos que deve "pensar bem" antes de dizer que não tem pressa em chegar ao poder - não a acompanho. Nem Sócrates será plebiscitado nas presidenciais, nem todos os "milhões" que votarão em Cavaco o vão fazer a pensar em plebiscitar o primeiro ou Passos. Quem vota Cavaco vota, como votou em Sócrates em Setembro de 2009, porque Cavaco "está". Depois haverá quem vote em Cavaco por Cavaco e quem vote por causa dos restantes tristes em concurso. Finalmente, a abstenção crescerá como o frio e isso é um plebiscito ao regime todo do qual todos os candidatos, mesmo os irrelevantes, brotam. Sócrates só não completará a legislatura se houver um cataclismo porque cumpre-lhe gerir o que já está instalado - não é ele que passa a vida a dizer que foi para isso que ficou à frente em 2009? E Passos faz muito bem em não ter pressa.