30.12.15

Presidenciais curtas


 


A "lógica" encontrada para os debates televisivos entre candidatos presidenciais é nenhuma. Quem é que, mesmo gravando e vendo depois, está para gramar três debates num dia? E trinta ou quarenta e tal por junto, atamancados a correr entre o dia 1, sexta-feira, e o dia 10, data do início da campanha oficial? Até à campanha de 1985 -1986 (a de 1991 não conta porque era uma recandidatura), a última de jeito e digna de se chamar campanha política, só havia a RTP. Agora as três generalistas multiplicam-se por dois e o grosso dos debates tem lugar nas de "informação". Falta juntar aos sete previstos nos vários curtos espectáculos (45m) três candidatos que têm tanto direito aos seus minutinhos de fama como os outros. Tudo ocorre a correr na ressaca das "festas" e na vertigem dos saldos. Os principais candidatos a incumbente desdobram-se a comentar o diarismo noticioso. Fui sempre defensor da liderança institucional do PR pelo que este estado da arte superficial, "presencista" e sem um desígnio vigoroso, incomoda-me. Se há eleição em que o meio tem sido a mensagem (e a massagem) é esta. É curto.

29.12.15

Que "tempo novo"?


 Começou mal o "tempo novo" anunciado pelo primeiro-ministro no Natal. A maioria aritmética que suporta o Governo no Parlamento quis abrir o cordão às bem-aventuranças materiais e espirituais caras às esquerdas: costumes, aumentos meramente simbólicos em prestações sociais e recuperação faseada de salários. Já quanto à sobretaxa, um imposto atípico e inconstitucional, e em relação à chamada "contribuição extraordinária de solidariedade" (que nome extraordinário) as esquerdas torceram o panfleto e aceitaram a manutenção suavizada do austeritarismo. As direitas opuseram-se a tudo como se alguém lhes viesse agradecer mais adiante o exercício. Sucede que o fatal elefante penetrou com estrondo na sala. O bicho acudia por Banif, era alimentado desde 2012 por dinheiros públicos - apesar de ser quinto ou sexto em ordem de importância para o "sistema" - e não havia meio de o conseguirem "reestruturar" ou vender. O anterior Governo enviava planos sobre planos para Bruxelas. E Bruxelas devolvia-os por serem alegadamente inconsistentes. A "autoridade de supervisão e de resolução", o Banco de Portugal, jurava pela saúde do estabelecimento. Depois começaram os mistérios. (continua no Jornal de Notícias)

28.12.15

Importúnios da virtude


 


Entrou em vigor em Agosto, mas como as "festas" são geralmente insossas de notícias, um jornal, o DN, deu capa à nova legislação que proíbe e penaliza criminalmente a chamada "importunação sexual", vulgo "piropo" ou "boca", e os apalpões ou "amassos", na letra cómica da lei "contactos de natureza sexual". E penaliza especialmente se a vítima for rapariga menor de 14. Por que não de 13, 15 ou 16 e rapaz? E por que não um beliscão nas bochecas da cara e uma palmadinha no rabo vestido? E o "linguado"? Esqueceram-se do "linguado", tipo "uso inapropriado da língua" ou "importunação sexual da boca pela língua"? Ou da "importunação sexual pela visão", tipo "galanço"? Uma vez que o conceito de "contacto de natureza sexual" se alarga ao verbo e aos olhos, convém manter ainda maior distância do outro como recomendam várias igrejas, departamentos sanitários e policiais, e andar sempre com os olhos ferrados no chão. Numa biografia recente de Gore Vidal conta-se que o biografado e Leonard Bernstein a dada altura partilharam sexualmente um mesmo bailarino, Harold Lang. Bernstein, aliás, definia o rabo de Lang como a sétima ou oitava maravilha do mundo. Se fosse agora iam todos presos. Não pelo rabo mas pela língua.

22.12.15

Não, drs. Costas e Passos Coelho


 


Tudo indica que, amanhã, o PSD juntará de alguma maneira os seus votos aos do PS para viabilizar um orçamento rectificativo. Na "base" desta geringonça intercalar está a decisão política de, através de dinheiros públicos, "confortar" a venda do Banif por 150 milhões de euros. O "conforto" custa à cabeça mais de 2 mil milhões e pode chegar ao dobro. Parece que Bruxelas - que sistematicamente vetou todas as propostas de reestruturação que lhe chegaram - também ficou muito feliz com esta "inteligente" (o termo é do dr. Passos) medida. Ou seja, por ter mudado o governo não mudou a obsessão financista que domina o "pensamento" europeu à custa da manobra fiscal. Aquando do BES o Estado andou bem ao proteger à cabeça os contribuintes embora a novela persista inconcluída. Agora foi ao contrário aparentemente sob a direcção e complacência do "tempo novo". Só o PC se demarcou claramente do esbulho anuncicado. O Bloco, qual Pilatos, põe "condições" sem se rir. E sem meditar nas consequências para as intervenções ardilosas a perpetrar pela dra. Mortágua em futuras comissões parlamentares. No centro desta calamidade de final de ano está a "autoridade de resolução", o BdP que, há anos, pelo menos desde o sorriso permanentemente idiota de Constâncio, aprecia apascentá-la deflectindo sobre o inerme pagador de impostos. Não, drs. Costas e Passos Coelho. Resolvam lá isso entre V.Exas. Não façam peso.

21.12.15

Vão bardamerda


 


Nem eu nem muitos dos contribuintes temos culpa de haver pessoas com depósitos bancários superiores a 100 mil euros. E, muito menos, que essas pessoas tivessem escolhido o Banif para os lá pôr. É claro que os haverá com valores muito inferiores. Tal como não consta das funções de soberania do Estado a salvação de companhias aéreas comerciais, também não se vislumbra que as ditas funções abranjam contas bancárias. Fala-se na salvaguarda da "diáspora", uma conversa de chacha que toca por igual aos aviões. Porque o que releva verdadeiramente é ter de se reconhecer que o sistema financeiro português e a sua supervisão são, por junto, duas imensas falácias. Como aos mortais nada é dado de graça, as "facilidades" que os bancos vinham "oferecendo" desde os anos 80 mais tarde ou mais cedo acabariam por ser pagas pelos tansos. Mesmo pelos que nunca usufruíram dessas "facilidades", tipo carro, casa e frigorífico "chave na mão". Ou pelos que nunca tiveram "poupanças" a render aqui ou ali porque "dava mais". No reino da rapacidade e da usura, a "diáspora" é identificável. Foi assim no BPN, no BES e agora no Banif. Neste o Estado estava estupidamente a 60%. Agora chegou-nos a factura de algo que não pedimos. Vão bardamerda.

19.12.15

E os nomeados são


 


Quando entrou em funções o governo de Passos Coelho alguém achou por bem, em nome da "transparência", colocar no portal do Executivo as nomeações para os respectivos gabinetes. Entre o Verão de 2011 e até há umas escassas semanas assim foi em nome desse ditoso escrúpulo. O que valeu, desde respeitáveis órgãos de comunicação social até às chamadas redes sociais, uma atenção permanente às pessoas em causa. Sobretudo valeu a alguns dos nomeados uma exposição inusitada na qual toda a gente parecia "mais igual" do que o comum dos cidadãos. Estava tudo: nome, idade, cargo no gabinete e vencimento bruto. Como não se podia andar a explicitar caso a caso, houve "casos" em que os ditos eram sovados volta não volta. Eu próprio, dias depois de ter ido para a Gomes Teixeira, andei na capa de um jornal, em blogues e nas redes profusamente "apontado" por causa de uma imagem com uma alforreca. E por ter escrito "horrores" a propósito do homem com que fui trabalhar. Em ambos os casos só serviu para reforçar a confiança mútua e lealdades políticas, e até pessoais, indisputáveis. Fosse porque "ganhavam" muito, fosse porque eram muito novos ou não sabiam nada a não ser na "escola" do partido, os membros dos gabinetes dos governos da coligação estiveram sempre sob a mira dos patrulheiros. Raramente houve o cuidado de separar o trigo do joio, ou seja, quem já tinha uma carreira (na administração pública ou no sector privado) de quem, por assim dizer, era "profissional de gabinete" sem nunca ter feito nada de substantivo na vida. Sabiamente o PS acabou, para já, com isso. Ignoramos, até aparecer no Diário da República, quem é quem nos gabinetes ministeriais. Todavia nota-se uma preocupação "escrupulosa" com a comunicação naquela muito batida adaptação democrática do "em política o que parece é", uma coisa em que actual "primeiro" é especialista. Algo, pelo contrário, que não se sente nos "meios" que tanto apreciavam policiar os dois governos anteriores mais em ardente e alucinada coscuvilhice do que por dever estritamente deontológico. Agora não interessa?

16.12.15

O "centro" acabou



 


Prosélitos de extracção variada andam preocupados com as desventuras de uma coisa a que chamam "centro". O "centro" andaria desaparecido. Sobretudo nos antecedentes e no lastro das eleições legislativas. Ora porque António Costa o desfez ao acabar com a mitologia do "arco da governação", encostando-o à sua esquerda, ora porque Passos Coelho e Paulo Portas representariam a "direita radical". E teriam esvaziado esse magnífico "centro". A lamechice é perpetrada com propósitos óbvios, quase sempre pelo mesmo coro de órfãos e órfãs do "centrão" da política e da maquinaria inerme do regime. Acontece que o "centro" é uma ficção utilitarista do activo comunicacional e da aposentadoria política prospectiva, usada para desgastar as "situações" internas partidárias. De um lado, para "obrigar" Costa a "pedir a mão" que ele manifestamente não tenciona pedir. Do outro, para "cortar" a putativa mão de Passos se ele agora decidisse "ir à vida" sozinho.


De resto, é contar pelos dedos da dita mão as vezes que o "centro" decidiu o poder no regime por se ter colocado contra quem se colocou. Em 1976, contra os resquícios revolucionários, elegeu Eanes. Em 1979, contra o "país das maravilhas" que só existia na cabeça do dr. Soares, escolheu a Aliança Democrática. Em 1987, contra o alvoroço "eanista" do PRD e contra a pusilanimidade de Constâncio, confiou-se a Cavaco. Antes, em 1986, permitiu que Soares fosse à segunda volta depois de ajudá-lo a derrotar Zenha.


Neste século, o "centro" apenas consentiu um poder absoluto: o primeiro de Sócrates. É claro que elegeu Cavaco duas vezes tal como irá eleger, em Janeiro, Marcelo Rebelo de Sousa. Vai ser a última. Porque o que Costa percebeu melhor do que ninguém foi que a retórica do "centro" esvaíra-se. Ignorou-a quando viu que ia perder e instaurou, com sucesso, a dicotomia "esquerda-direita", ou melhor, esquerdas e direitas. Daqui em diante, e não é preciso ir buscar Alain para isso, quem não se afirmar das esquerdas é das direitas. E não vem mal ao Mundo por tal circunstância aparentemente ominosa. Salvo os candidatos presidenciais que, neste sistema de meias-tintas semi qualquer coisa, são obrigados a reclamar-se "de todos os portugueses" para chegar a Belém. Ao menos que estas provações outonais de 2015 tenham servido para chamar o nome às coisas. Longa vida, pois, às esquerdas e às direitas. O "centro", tal como o papagueiam, acabou.


 


Jornal de Notícias, 14.12.2015



 

15.12.15

O lugar do morto


 


António Costa "fundou" um novo PS. Não se sabe quanto tempo durará mas, para já, é o que há. Ao fazê-lo, e pela forma como o fez, indirectamente acabou com quaisquer vestígios de supremacias alheias sobre a sua pessoa. A brutalidade que aplicou a Seguro serviu-lhe, de caminho, para "dessocratizar" o partido. Integrou como seus os que achou que devia integrar e afastou tentações mitómanas. Por consequência, ele que nunca falou em ter "perdido as eleições" certamente não deve ter apreciado ouvir de outro notório que as perdeu. Mais. Ou que havia uma relação causa-efeito entre esse outro e a dita derrota como alegadamente "pretendia" uma instituição judiciária. Para uns propósitos a instituição judiciária vencera (a derrota do PS), para outros perdera ("o triunfo da vontade" do visado). Este oxímoro desenlaça-se com a acusação a um PS "frouxo" e timorato em solidariedade como se os partidos fossem obras de misericórdia jurídico-política. Mal ou bem Costa é hoje primeiro-ministro. Representa uma instância nacional e não apenas partidária. Não só não deve estar interessado em desenterrar o passado como lhe colocou uma pesada laje em cima. Não se trata do "se queres viver faz-te de morto" mas, antes, "se queres viver ignora o morto". E Costa não é homem para ceder o lugar, mesmo o do morto, a ninguém.

13.12.15

Pacheco no jardim do bem e do mal


 


Foi preciso esperar dez anos para Pacheco Pereira dar à estampa o quatro volume da biografia política de Álvaro Cunhal. Que não se espere outros dez pelo último. Este é inequivocamente o "bom" Pacheco. O da história, o arguto, o divulgador, o coleccionador, o amante dos livros e dos papéis, o intelectualmente inteiro, minucioso e livre. O que estimula. Depois há o "mau". Aquele que soberba e contraditoriamente não aceita a liberdade de expressão dos outros e que não suporta que não sigam as suas "orientações". O actual primeiro-ministro bebeu ardentemente deste "mal" anos a fio na Quadratura do Círculo. Em plena campanha para as legislativas Pacheco não se coibiu de sugerir que o tinha "formado". E não escondeu a seguir a sua satisfação (ia a dizer alegria mas Pacheco não abunda em sentido de humor) pela maneira como Costa contornou a derrota. Ter sido um dos mais intensos e consistentes "costistas" valeu-lhe agora um prémio na Fundação de Serralves. Tem mais do que biografia evidente para o efeito. Não é isso que está em causa. Podia era ter esperado pelo arrefecimento do cadáver da coligação. Por isso a melhor homenagem que o PSD pode prestar ao vício e à virtude, ao contrário do que alguns militantes mais aguerridos possam pensar, é tê-lo como militante. Mostra que é tão ou mais livre do que ele.

Cavaco corrige


 Cavaco Silva vai condecorar Ramalho Eanes com o Grande Colar da Ordem da Liberdade. Dos antigos Presidentes da República, apenas ele - o primeiro a ser eleito por sufrágio universal e directo em 1976 - ainda não tinha sido. Logo ele, o operacional do 25 de Novembro que se ergueu contra o medo e pelas liberdades públicas enquanto outros se esconderam, como escreveu Medeiros Ferreira. Sampaio tinha decorado Soares e Cavaco decorou Sampaio logo em 2006 com o dito Colar. Ao lado de Eanes será igualmente condecorado, mas com a Torre e Espada, o General Rocha Vieira. O Estado na pessoa do seu então Chefe, Jorge Sampaio, ficara-se pela Ordem do Infante. Aos olhos de Sampaio, o governador de Macau na transferência da coisa para a China não esteve à altura do momento. Na verdade Sampaio nunca gostou muito de Rocha Vieira. E pretextou divergências com uma fundação para apoucar, através de venera "menor", o ex-governador. Não é que a dignidade do militar e do homem Rocha Vieira precisasse da comenda para nada. Mas o Doutor Cavaco faz bem em a reconhecer, "corrigindo" Sampaio.

12.12.15

Passos feliz na oposição

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 Não tive pachorra para ler a longuíssima entrevista de Passos ao jornal Público. Vi os títulos online. E retive algumas coisas. O presidente do PSD continua naturalmente candidato ao cargo para que foi escolhido a 4 de Outubro: o de primeiro-ministro. A partir de Abril, após congresso, estará relegitimado para o efeito. Esperará por eleições e, apesar de tudo, espera por estabilidade. Ver-se-á se as eleições e a estabilidade também esperam por ele. O PSD não dispõe evidentemente de melhor, ou de diferente, neste transe imprevisto. E Passos, pareceu-me, falou sobretudo para diante como lhe competia. Politizou, e bem, o orçamento para 2016, o tal que será apresentado, atrasado, "o mais cedo possível" e que Marcelo também considera "fundamental". Estava feliz.

11.12.15

Marcelo, uma nação independente


 


Uma nova sondagem mostra um Marcelo todo-o-terreno. Ganha à primeira, fartamente, ganha à segunda, largamente. Nóvoa e Belém somam 29% das intenções de voto contra as 6% que cabem a Edgar e Marisa (3 cada um). Neto e Morais chegam individualmente à unidade. Marcelo paira sobre todo o regime como nunca nenhum candidato antes dele pairou, salvo nas recandidaturas (a de Soares, sobretudo). Isto  sem a habitual parafernália das campanhas. Pelo contrário, Marcelo optou por uma campanha imaterial sobre todos os aspectos. Ele é simultaneamente candidato, porta-voz, cartaz, pendão, rede social, jornal, televisão, rádio, Ipad, livro, comissão política, mandatário nacional, regional e distrital, director de campanha, manifesto eleitoral, esquerda, direita, centro e telemóvel. É, em suma e nas palavras de Fernando Pessoa, uma "nação independente". 


 


Foto: Pedro Azevedo

O PS com vergonha da sua história


 


O parlamento aprovou um voto de saudação pela passagem dos quarenta anos do 25 de Novembro de 1975. Não fez mais que a sua obrigação. Sem o 25 de Novembro, ou seja, sem os militares do chamado "grupo dos Nove", sem Costa Gomes (sim, Costa Gomes), sem Mário Soares no plano civil, aquela que é hoje a Assembleia da República teria tido uma "história" bem distinta da que ficou estabelecida. Aliás, os famosos "acordos" de Novembro de 2015, bilateralizados entre o PS, o PC e a extrema-esquerda, só foram possíveis porque houve o 25 de Novembro de 1975. Mesmo assim seis deputados do PS aliaram-se ao PC e à extrema-esquerda contra o voto. O grosso do PS  absteve-se envergonhadamente. O que quer dizer que o PS actual convive mal com o seu lastro social-democrata. E que privilegia temores reverenciais perante outros que jamais os terão por ele. O limite para as "convergências objectivas" devia ser o da literacia democrática. Pelos vistos já não é.


 


Foto: Expresso

10.12.15

Nóvoa noves fora nada


Enquanto comia uma maçã, assisti de pé à entrevista de António Nóvoa à SIC ontem à noite. Reparei que foi mais curta que a de Marcelo. Não se perdeu nada. O homem referiu-se mais do que uma vez a antigos Presidentes que o apoiam. A Eanes, pelo menos duas. Aliás, nos cartazes que espalhou por aí Nóvoa nem sequer aparece. O que se lê são frases dos três: Soares, Sampaio e Eanes. De resto, nada. Nóvoa pretende cavalgar o chamado "novo ciclo" pelo que se deixou de "desassossegos". O respeitinho é bonito e no "tempo novo" manda Costa que ele babujou o tempo inteiro. Mesmo assim o que transpareceu foi um tipo atarantado com aquilo em que se enfiou. Que divide efusivamente o país entre "esquerda" e "direita". Da mesma maneira que, num lindo momento folclórico, o dividiu entre o Norte e o Sul: "tudo no meu corpo é Minho, todo o meu corpo é Norte". Até me engasguei. Não ressuma ali um vestígio de uma ideia ou do que quer que seja que justifique um putativo voto. Como escreve Manuel Maria Carrilho, "nunca foi politicamente nada, a não ser, aos 60 anos, um ilustre desconhecido da política promovido a candidato presidencial por uma “ardente” brigada do reumático."

9.12.15

o bom do marcelo

Uma sondagem coloca Marcelo Rebelo de Sousa vencedor a 24 de Janeiro. Dele para baixo é tudo muito mau. Os candidatos Nóvoa e Belém não chegam juntos a 27% das intenções de voto. Os restantes não passam de um dígito. E Neto não atinge sequer a unidade. Não será bem assim mas não será muito diverso. Marcelo alegadamente "come" em todos os eleitorados. O que significa ser o que melhor cresce da sua área política originária para o país. Sozinho, sem dar troco aos apoios, Marcelo saiu do estúdio da televisão sem nunca verdadeiramente ter de lá saído. Sai em Janeiro.


 


Adenda, a propósito: O artigo de 7.12.2015 no Jornal de Notícias.

portugal dos pequeninos - same place, other room

Graças à Teresa Alves, webdesigner da SAPO, o blog Portugal dos Pequeninos mudou a montra. A partir de agora qualquer post escrito no dito blog é imediatamente reproduzido no Facebook. O que obriga a uma assiduidade a que ele já não estava habituado. Nem eu. A Teresa pediu-me uma auto-descrição que lá consta. Ficou assim:



Jurista. Mau jurista.


Leitor mais do que razoável.


Escreve algumas coisas sobretudo sobre as desventuras nacionais.


Não se leva excessivamente a sério e muito menos os outros.


Aprecia um bom vinho, uma boa ópera e um bom banho de mar.


Não gosta de restaurantes barulhentos com crianças a berrar. Grandes ou pequenas.


Lamenta ter nascido num país com pouca gente crescida.


2.12.15

As frentes de Costa


 


Tomou posse e entrou em funções, para recorrer à consabida expressão do PC, o Governo de António Costa. A propósito, passou despercebida uma alusão curiosa de António Lobo Xavier. O PC teria vetado a entrada do Bloco no Governo e acabaram todos por concordar no minoritário do PS. Junte-se a isto a entrevista de Jerónimo de Sousa ao "Expresso", na qual o secretário-geral afirma desconhecer a ideologia do Bloco e sugere, até, que Catarina Martins anda sempre de dedinho no ar: "primeiros". Uns "primeiros", aliás, que fizeram questão de o sublinhar no plenário parlamentar da passada sexta-feira com intervenções e votações subsequentes geridas por eles. O que nos conduz à "húbris" de António Costa. O homem formou um Governo "moderado" de altos funcionários públicos e de pessoal politicamente fiel recrutado no partido e na Câmara de Lisboa. Recuperou as chamadas funções de soberania do Estado quando o hierarquizou: Negócios Estrangeiros, Defesa, Administração Interna e Finanças. Incluiu o Ministério da Cultura na primeira metade do Executivo e não na cauda, como tem sido costume desde Manuel Maria Carrilho. Compôs, em suma, um ministério político onde ele é indisputavelmente coordenador e chefe. Sucede que tem a apoiá-lo, na frente parlamentar, um híbrido desconchavado que já não deixa margem para dúvidas: também quer governar. O que obrigou Costa a "formar" um desdobramento governamental na Assembleia da República presidido por César e Pedro Nuno Santos. Não é fácil gerir um condomínio que vai desde quem pretende discutir a qualidade da alpista dos periquitos, ou a correcção política das trelas dos cães, até às famosas ténias de Céline que zelam pela moral e pelos bons costumes "progressivos". Pelo meio pairam os dispensáveis deputados do PC (se eles se abstiverem, ou estiverem contra, qualquer milho a pardais fideliza o senhor do PAN) cujos objectivos "terrenos" sempre foram claros e ligados pelo umbigo ao "movimento social", um eufemismo para o sr. Arménio. A "técnica" consiste em "baixar à especialidade" e às comissões tudo de que desconfia a vanguarda parlamentar. Aí, avança a dupla César-Pedro Nuno Santos, numa primeira fase, e depois (talvez mesmo durante) sobe tudo fatalmente até Costa. Se, como afirmou Nuno Morais Sarmento, ele agiu sempre nos limites da moralidade política até ser indicado primeiro-ministro, então daqui para diante não pode actuar muito diferentemente com os acólitos. É que eles não o vão poupar.


 


Jornal de Notícias, 30.11.2015