28.2.13

Back to basics

Gore Vidal, num dos seus contos, escrevia que "há gente inócua no mundo e, bem mais importante do que isso, muitos idiotas." Com a saída de Ratzinger de cena, é só praticamente esta gente que resta. Inócuos e idiotas.

Peregrino

 



 




«Grazie per la vostra amicizia e il vostro affetto. Voi sapete che io non sono più Pontefice, sono semplicemente un pellegrino che inizia l'ultima tappa del suo pellegrinaggio in questa terra. Ma vorrei ancora con il mio cuore lavorare per il bene comune della chiesa e della comunità. E mi sento molto appoggiato dalla vostra amicizia. Grazie vi porto con tutto il cuore la mia benedizione»

A jubilosa certeza

 



 






«O «sempre» é também um «para sempre»: não haverá mais um regresso à vida privada. E a minha decisão de renunciar ao exercício activo do ministério não revoga isto; não volto à vida privada, a uma vida de viagens, encontros, recepções, conferências, etc. Não abandono a cruz, mas permaneço de forma nova junto do Senhor Crucificado. Deixo de trazer a potestade do ofício em prol do governo da Igreja, mas no serviço da oração permaneço, por assim dizer, no recinto de São Pedro. Nisto, ser-me-á de grande exemplo São Bento, cujo nome adoptei como Papa. Ele mostrou-nos o caminho para uma vida, que, activa ou passiva, está votada totalmente à obra de Deus. Agradeço a todos e cada um ainda pelo respeito e compreensão com que acolhestes esta decisão tão importante. Continuarei a acompanhar o caminho da Igreja, através da oração e da reflexão, com aquela dedicação ao Senhor e à sua Esposa que procurei diariamente viver até agora, e quero viver sempre. Peço que me recordeis diante de Deus, e sobretudo que rezeis pelos Cardeais, chamados a uma tarefa tão relevante, e pelo novo Sucessor do Apóstolo Pedro. Que o Senhor o acompanhe com a luz e a força do seu Espírito! Invocamos a materna intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, pedindo-Lhe que acompanhe cada um de nós e toda a comunidade eclesial; a Ela nos entregamos, com profunda confiança. Queridos amigos! Deus guia a sua Igreja; sempre a sustenta mesmo e sobretudo nos momentos difíceis. Nunca percamos esta visão de fé, que é a única visão verdadeira do caminho da Igreja e do mundo. No nosso coração, no coração de cada um de vós, habite sempre a jubilosa certeza de que o Senhor está ao nosso lado, não nos abandona, está perto de nós e nos envolve com o seu amor.»

O mandarim

A Helena Matos pergunta adequadamente: o que é que Luís Miguel Cintra - durante anos e anos o "dono" do verdadeiro "teatro nacional" (não, não é o jazigo do Rossio) por artes e ofícios de "tesouraria" do Estado representado por sucessivos governos eleitos - advoga?

Sinais de decomposição

«A decomposição política não se fica por Itália: ela alastra por todo o continente europeu, dando forma a transformações de fundo que nos aproximam - se nada for feito - do desastre. Há pois lições a tirar, com urgência e lucidez, do impasse italiano. Até porque, como dizia o general Douglas Mac-Arthur, todas as grandes derrotas se podem resumir a duas palavras: tarde demais.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

27.2.13

Uma conversa com Jorge Miranda

Esta tarde, por razões circunstanciais, estive na Faculdade de Direito de Lisboa. Encontrei o meu professor de introdução ao direito público, de direito constitucional e de direito público da economia, na Católica, o prof. Jorge Miranda. E foi o melhor pedaço da tarde. Miranda falou-me do seu livrinho Um Projecto de Constituição - elaborado para o PPD de 1975 do qual era então militante e deputado - a propósito da chamada lei de limitação de mandatos autárquicos. Logo aí propunha a limitação, no sentido de não fazer da coisa uma carreira e não um mero tropismo "territorial", sem a disputa filológica entre o "de" e o "da". Depois percebi pela televisão que o parlamento, por unanimidade, decidiu não mexer na lei em vigor e deixar para os tribunais a possibilidade, ou não, de determinadas candidaturas. A jurista Assunção Esteves sobrelevou a presidente da Assembleia e o regime foi dormir esta noite mais descansadinho. A terminar o breve encontro, Jorge Miranda mencionou a sua pensão de professor catedrático depois de cerca de quarenta anos de descontos (é verdade, as pensões de reforma, neste caso de um funcionário público altamente qualificado, não aterram nas contas dos beneficiários vindas de Marte). Não vou exprimir-me em números por razões óbvias e porque não pretendo perturbar alguma "reforma do Estado" que possa estar em curso. Todavia, e embora não pareça, a conversa da limitação dos mandatos autárquicos e a conversa da pensão estavam ligadas. Tal como a "reforma do Estado" que, embora também não pareça, é afinal uma conversa por vir. Longa vida e saúde ao meu querido mestre Jorge Miranda.

«Não abandono a Cruz»


 


«Não abandono a Cruz», disse Bento XVI esta manhã no Vaticano. Nem podia. A Igreja não pode entregar-se nas mãos da "ideologia banal" que traz a necedade muito contentinha um pouco por todo o lado no exercício dos pequenos e dos grandes "poderes". Em 1996, o Cardeal Ratzinger frisava que "é necessária a oposição à ideologia banal que domina o mundo e que a Igreja pode ser moderna, precisamente quando é antimoderna, ao opor-se ao que todos dizem. À Igreja cabe um papel de contradição profética e tem de ter a coragem para isso. É precisamente a coragem da verdade que, na realidade, é a sua grande força." Mais adiante, ainda em O Sal da Terra, e citando Goethe, referiu que "a História é, no seu todo, uma luta entre a fé e a incredulidade." Não, uma pessoa assim não abandona a Cruz e segue Paulo: «quanto a ti, sê sóbrio em tudo, suporta o sofrimento, faz o trabalho de um anunciador do Evangelho, realiza plenamente o teu ministério.»

Obrigado, Santo Padre



26.2.13

A derrota da "Europa"


 


Os resultados das eleições italianas representam uma clara derrota da "Europa". Dois comediantes - um oficial e outro fruto das circunstâncias - "empurraram" o delegado de Bruxelas em Roma, o circunspecto Monti, para um humilhante quarto lugar. O "povo" não apreciou a austeridade decidida nos infinitos conselhos "decisivos" e nas não menos "decisivas" video-conferências tecnocráticas que relegaram a política para a sarjeta. Ora em Itália a política vive em estado de permanente originalidade e os mortos-vivos de véspera podem ser os duce do dia seguinte. Por cá tendemos a fingir que a política, afinal, não interessa e que o que importa é as checklists baterem certinhas no fim. Todavia, se alguma "lição" se deve tirar do que se passa em Itália é exactamente o contrário da suposta "infalibilidade" de quaisquer receitas em ambiente democrático. Na altura em que decorre mais uma avaliação doméstica do "programa de ajustamento", conviria "ajustar" politicamente quer a avaliação quer o programa. Porque se isso não acontecer, mais tarde ou mais cedo a realidade encarregar-se-á (e talvez já não tão delicadamente como até aqui) de "ajustar" tudo de uma vez só.

25.2.13

Reindustrialização






«A crise actual não é nada surpreendente. Se formos ver, os países da União Europeia, e até os Estados Unidos, têm vindo a crescer pouquíssimo desde 2001. O que está a acontecer agora não é nada de novo. Mas ao contrário da generalidade das elites europeias, eu não atribuo isso ao euro mas à globalização e à desindustrialização. Um operário que antigamente produzia cinco mil euros por dia, hoje produz 50 a lavar pratos. A Europa quis passar da indústria para ser senhora dos serviços e o resultado foi o que se está a viver.»


 


Medina Carreira, i

Contra os Fariseus e os Saduceus


 


O Papa decidiu antecipar o conclave que irá escolher o seu sucessor. Fez bem. Com a "vociferante matilha do espectáculo" em acção, é preciso recuperar o Primado e o significado profundo das palavras de Jesus que consagram o mistério petrino (Mateus, 16):  «Os Fariseus e os Saduceus aproximaram-se de Jesus para o submeter à prova e pediram-lhe que lhes mostrasse um milagre do céu. Ele respondeu: "Quando vem a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado. E de manhã: Hoje haverá tormenta, porque o céu está de um vermelho sombrio. Hipócritas! Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos? Essa raça perversa e adúltera pede um milagre! Mas não lhe será dado outro sinal senão o de Jonas!" Depois, deixando-os, partiu. Ora, passando para a outra margem do lago, os discípulos tinham-se esquecido de levar pão. Jesus disse-lhes: "Guardai-vos com cuidado do fermento dos Fariseus e dos Saduceus." Eles pensavam: "É que não trouxemos pão..." Jesus, penetrando nos seus pensamentos, disse-lhes: "Homens de pouca fé! Por que julgais que vos falei por não terdes pão? Ainda não compreendeis? Nem vos lembrais dos cinco pães e dos cinco mil homens, e de quantos cestos recolhestes? Nem dos sete pães para os quatro mil homens e de quantos cestos enchestes? Por que não compreendeis que não é do pão que eu vos falava quando vos disse: Guardai-vos do fermento dos Fariseus e dos Saduceus?" Então entenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos Fariseus e dos Saduceus. Chegando ao território de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: "No dizer do povo, quem é o Filho do Homem?" Responderam: "Uns dizem que é João Baptista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas." Disse-lhes Jesus: "E vós quem dizeis que eu sou?" Simão Pedro respondeu: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!" Jesus então lhe disse: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus." Depois, ordenou aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Cristo. Desde então, Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia. Pedro então começou a interpelá-lo e protestar nestes termos: "Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá!" Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: "Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!" Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: "Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recuperá-la-á.»

Em suma




24.2.13

A mesma dedicação, o mesmo amor

 



 






«Cari fratelli e sorelle! Grazie per il vostro affetto! Oggi, seconda domenica di Quaresima, abbiamo un Vangelo particolarmente bello, quello della Trasfigurazione del Signore. L’evangelista Luca pone in particolare risalto il fatto che Gesù si trasfigurò mentre pregava: la sua è un’esperienza profonda di rapporto con il Padre durante una sorta di ritiro spirituale che Gesù vive su un alto monte in compagnia di Pietro, Giacomo e Giovanni, i tre discepoli sempre presenti nei momenti della manifestazione divina del Maestro (Lc 5,10; 8,51; 9,28). Il Signore, che poco prima aveva preannunciato la sua morte e risurrezione (9,22), offre ai discepoli un anticipo della sua gloria. E anche nella Trasfigurazione, come nel battesimo, risuona la voce del Padre celeste: «Questi è il figlio mio, l’eletto; ascoltatelo!» (9,35). La presenza poi di Mosè ed Elia, che rappresentano la Legge e i Profeti dell’antica Alleanza, è quanto mai significativa: tutta la storia dell’Alleanza è orientata a Lui, il Cristo, che compie un nuovo «esodo» (9,31), non verso la terra promessa come al tempo di Mosè, ma verso il Cielo. L’intervento di Pietro: «Maestro, è bello per noi essere qui» (9,33) rappresenta il tentativo impossibile di fermare tale esperienza mistica. Commenta sant’Agostino: «[Pietro]…sul monte…aveva Cristo come cibo dell’anima. Perché avrebbe dovuto scendere per tornare alle fatiche e ai dolori, mentre lassù era pieno di sentimenti di santo amore verso Dio e che gli ispiravano perciò una santa condotta?» (Discorso 78,3: PL 38,491). Meditando questo brano del Vangelo, possiamo trarne un insegnamento molto importante. Innanzitutto, il primato della preghiera, senza la quale tutto l’impegno dell’apostolato e della carità si riduce ad attivismo. Nella Quaresima impariamo a dare il giusto tempo alla preghiera, personale e comunitaria, che dà respiro alla nostra vita spirituale. Inoltre, la preghiera non è un isolarsi dal mondo e dalle sue contraddizioni, come sul Tabor avrebbe voluto fare Pietro, ma l’orazione riconduce al cammino, all’azione. «L’esistenza cristiana – ho scritto nel Messaggio per questa Quaresima – consiste in un continuo salire il monte dell’incontro con Dio, per poi ridiscendere portando l’amore e la forza che ne derivano, in modo da servire i nostri fratelli e sorelle con lo stesso amore di Dio» (n. 3). Cari fratelli e sorelle, questa Parola di Dio la sento in modo particolare rivolta a me, in questo momento della mia vita. Grazie! Il Signore mi chiama a “salire sul monte”, a dedicarmi ancora di più alla preghiera e alla meditazione. Ma questo non significa abbandonare la Chiesa, anzi, se Dio mi chiede questo è proprio perché io possa continuare a servirla con la stessa dedizione e lo stesso amore con cui ho cercato di farlo fino ad ora, ma in un modo più adatto alla mia età e alle mie forze. Invochiamo l’intercessione della Vergine Maria: lei ci aiuti tutti a seguire sempre il Signore Gesù, nella preghiera e nella carità operosa.»


 


Bento XVI, Angelus de 24.2.13, o último de Ratzinger enquanto Papa




Adenda: O inimitável frei B. Domingues, que perpetra no Público, parece feliz com a resignação de Bento XVI. Nem outra coisa seria de esperar deste "multiculturalista" cujas inclinações políticas, honra lhe seja feita, nunca escondeu desde os gloriosos tempos do "anti-fascismo" dos chamados católicos progressistas. Domingues aparentemente sonha com uma Igreja que possa reunir-se em secções partidárias ou em eventos filantrópico-culturais nos quais a Bíblia alterne, por exemplo, com Boaventura Sousa Santos. Que diabo (e o diabo aqui não aparece por acaso) quererá o frei dizer com "uma gestão mais democrática da Igreja"? Quando fala em "vítima de cegueira e de surdez ideológicas" não estará a contemplar as sombras da caverna que, há décadas e à conta do que sobretudo não saiu do Concílio Vaticano II, abriga de forma tão conspícua uma igreja pusilânime e fraca de espírito onde os Domingues se revêem com a "alegria" dos sacripantas?

23.2.13

A profissão que não existe

De uma forma inteligente, o Presidente da República deu uma hipótese ao parlamento de resolver o problema político e jurídico - por esta ordem - da limitação dos mandatos autárquicos. Aparentemente o parlamento não tenciona mexer uma palha e, assim sendo, vale a lei em vigor. E a letra da lei é muito clara - ao contrário do famoso "legislador" que usou a chamada "técnica da meia-dose" para deixar clareiras de ambiguidade interpretativa - no sentido de não permitir a existência, na prática, de uma profissão que não existe, a de presidente de câmara ou de junta de freguesia. À boa maneira portuguesa da esperteza saloia, pretende-se que nada impeça que floresçam aqui e ali pequenos salazarinhos autárquicos que saltitem, alegre e eternamente, de câmara em câmara sem limites temporais como, por exemplo, os impostos ao PR. Um módico de ética e de bom senso políticos, aliás, bastaria para que as criaturas percebessem o que deve ser a contingência do exercício de funções públicas eleitas. Uma dessas criaturas, sem se rir, até se louvou no Presidente para dizer que este "destruiu" argumentos contra a sua candidatura o que diz tudo do propósito que o anima: não interessa o conteúdo (no caso, pequenino) mas a forma que o "salva". Mais coisas que são o que são.

22.2.13

As coisas são o que são

Depois de ter perdido os jogos florais no PS para Seguro - jogos abertos por interposta gente orfã de Sócrates -, António Costa, o taticista, tenta agora recuperar o tempo perdido em Lisboa, quase todo já que o seu mandato como edil é, de uma forma geral, eminentemente esquecível. A iniciativa do governo, centrada no ministério da economia dirigido por Álvaro Santos Pereira (que Costa desdenhou arrogantemente no seu part time televisivo semanal), relativa ao porto de Lisboa e ao terminal de mercadorias do Tejo, com investimentos essencialmente privados, baralhou os exercícios de politiquice barata a que Costa aprecia entregar-se de vez em quando - talvez em nome das "saudades" que lhe ficaram da altura em que, praticamente de bibe, partilhava um gabinetezinho na JS com o não menos fanfarrão e taticista César, antigo czar dos Açores. Costa precisa de fazer barulhos - ajudado às quintas-feiras por Pacheco e, com intermitências, por Xavier - para se "estabelecer" como potencial candidato belenense do PS algures lá mais para a frente. É um direito dele embora não lhe convenha tentar fazer permanentemente dos outros parvos, como se viu com Seguro. As coisas são o que são.

21.2.13

"Gosto de palavrear"


 


A propósito do "dia internacional da língua materna" - que gloriosa parvoíce -, convém citar na íntegra aquele pedaço de Pessoa/Bernardo Soares que tanta gente derrama, sem perceber o contexto, a título de exaltação patrioteira sem nexo, sobretudo em perorações políticas.


 


«Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida. Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso. Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica. Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»




Fonte: Arquivo Pessoa

Não há coincidências






Os Bórgias domésticos, "civis" e "religiosos", investem agora contra D. Carlos Azevedo precisamente no momento em que se discute a sucessão do Papa - e onde o Cardeal Ravasi, com quem o bispo português trabalha directamente no Vaticano, surge como um possível sucessor de Raztinger - e de Policarpo cá na paróquia. Entretanto gente da Igreja doméstica presta-se ao papel de divulgadores de "rumores" e de conversas de porteiras o que, em certa medida, a define. Não há coincidências.




Adendas (deixadas no Facebook):




O bispo Torgal é uma catástrofe ambulante que me penaliza intelectualmente enquanto católico. A raiar a falta de vergonha.




A Constança Cunha e Sá, na tvi24 - a sicn não se pode ver por causa do pelotão de "intelectuais" que deve desfilar por causa da bola -, analisou adequadamente o comportamento mesquinho da Igreja portuguesa face a um dos seus bispos mais eminentes. Depois admirem-se que a religião seja cada vez mais vivida privadamente. Para hipócritas, temos que chegue na nossa "vida material".



20.2.13

Dois pequenos mandarins

Regressado de Tabuaço, dou com Boaventura Sousa Santos na televisão a "legitimar" - com um argumentário entre o néscio e o de revolucionário de pacotilha - as "indignações" folclóricas e anti-democráticas contra membros do governo. O cortesão A. Costa Pinto, aliás, não lhe ficou atrás. Nem um nem o outro me interessam nada. Todavia, Boaventura, o sociólogo evangelista do "progresso", ainda estará no quentinho do seu "observatório da justiça" onde, desde 1996, a contempla, inerme, com o "sucesso" que se conhece?

Desqualificação

«Portugal está a desaprender a liberdade.»

19.2.13

Criticar e grunhir

É preciso de uma vez para sempre, e sem sofismas, afirmar que nenhum cidadão sofre de nenhum tipo de capitis diminutio pela circunstância de pertencer a um governo, muito menos a um governo escolhido livremente, em eleições. Criticar, etimologicamente, quer dizer separar. Não quer dizer grunhir.

A ínclita geração






Aqui.

Medeiros sobre Soares


 


O devorismo dos tempos e a falta de memória (isto é uma metáfora deliberada porque é mais falta de inteligência) concorrem para que fiquem para trás os (bons) momentos  fundadores deste regime. Poucos se lembram, ou sabem, que foi sob um governo presidido por Mário Soares - e no qual Medeiros Ferreira desempenhava o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros - que foi consumado o pedido de adesão à agora União Europeia. Logo a seguir ao "25 de Abril", Soares foi ele mesmo MNE nos primeiros governos provisórios onde, entre outras coisas, tratou da polémica "descolonização". Provavelmente Medeiros Ferreira não deixará de mencionar esta questão na sua conferência intitulada "À procura do tempo perdido". Infelizmente, já com quase quarenta anos em cima, mais tarde ou mais cedo também acabaremos à "procura do tempo perdido" deste regime.

A "moda"...

Agora é cantar a "Grândola" contra a liberdade de expressão? Tinha ideia que não era isso que estava na cabeça do seu autor. E, muito menos, na daqueles que a usaram como "senha" no "dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo", de que falava Sophia.




Adenda: «Lá vem a Grândola, os democratíssimos punhos odiosos lembrando malfeitorias de outros tempos, a exigência da queda do governo e de novas eleições; como sabemos, tudo práticas correntes naquelas defuntas sociedades de antanho que foram o sol radioso - a aurora dourada, o sendeiro luminoso - que se afirmavam paraísos para trabalhadores, mas onde não havia nem pão, nem liberdade, e onde em cada esquina a igualdade era desmentida por um bufo, um polícia da secreta ou uma loja exclusiva para os apparatchik do partido. Esta matulagem não é, convém lembrar, o quarto estado, a fome estampada no rosto, os ventre-ao-sol minados pela tísica. Não, trata-se da tal "classe média" convocada por sms, arrebanhada pela sede local do partido, transportada e alimentada pela indústria do protesto para estas bravatas. Sintoma claro da metadona, do fim do Estado à Guterres (com Ferro Rodrigues e Milícias oferecendo o que não era nem deles nem nosso) e, sobretudo, a absoluta incapacidade para oferecer uma molécula alternativa ao descalabro de décadas. Lá está o velhote de fato e colete (há sempre um profiteur de jeunes) nostálgico de um tempo [que felizmente não voltará] em que tudo o que se lhes opusesse era liminarmente apodado de "fascista".»

18.2.13

Contra o proselitismo


 


Fátima Campos Ferreira juntou ontem à noite, na RTP1, meia dúzia de proficientes "teólogos" para discutir a resignação de Bento XVI e o futuro da Igreja. A católica, apostólica, romana, naturalmente. Mas o friso de "especialistas" ia desde um antigo ministro de Salazar a um imã muçulmano, passando por um rabino, um eurodeputado habituado à convivência diária com luteranos e protestantes (por questões laborais) e, last but not the least, o flamejante beato César das Neves. Não vi nada porque não presumo que se possa discutir a Igreja católica - e, sobretudo, Joseph Raztinger - com aquele deletério grupinho virado para o "multiculturalismo". Ora Ratzinger distinguiu-se no ministério petrino por duas coisas fundamentais. A primeira, por ter assegurado que a Igreja (repito, a católica, apostólica, romana) não fizesse proselitismo à conta de agradar aos "tempos" e à "ditadura das opiniões" dominantes. Desde 1970 que preferia uma Igreja mais pequena, consolidada na fé e na razão, a uma espécie de feira popular mediática onde "coubesse" tudo e o seu contrário. E a partir desta premissa, então, sim, dialogou sem temores reverenciais, ou preconceitos, com outras crenças. Depois garantiu que, para esse efeito, a  hierarquia e os servidores imediatos da Igreja não "acompanhavam" os "tempos" em matéria de corrupção moral e material. Nunca um Papa foi tão longe na denúncia e punição dos crimes praticados dentro da instituição. Ou deu publicamente conta do imenso vexame íntimo que isso lhe provocou. Há uma semana o Papa surpreendeu o mundo com o anúncio da sua resignação. Mas suspeito que ainda vai surpreender mais. Os diletantes convidados da F. C. Campos Ferreira é que, de certeza, já não surpreendem ninguém.

As benevolentes

«Seguro anda em correria pelo país, os comentadores e as "comentadeiras" não se cansam de rezar a verrina diária contra o governo, os Peppone arrastam-se em marchas, os grevistas fazem greves, S. Bento continua com as Grândolas Vilas Morenas e até a fragilíssima Catarina Martins do BE faz propostas para a saída da crise. O protestarismo de sempre, o reaccionarismo patego, a má-fé conjugados em propósitos golpistas; eis a nossa oposição. Entre os futebóis e a croniqueta das lamúrias, os senhores jornalistas minimizaram o facto mais importante da semana. Álvaro Santos Pereira meteu uma lança em África, conseguiu o acordo com os argelinos para a construção por empresas portuguesas de 75.000 (sim, setenta e cinco mil) casas, um bolo de 4 mil milhões de Euros (4.000.000.000) que vai aliviar a crise no sector da construção civil e garantir emprego por quatro anos a centos de técnicos portugueses. Ninguém diz nada. Não há um louvor, um gesto de simpatia. Este país está, decididamente, a afogar-se na patologia derrotista e só dá ouvidos aos profetas da desgraça, por acaso os profetas que nos trouxeram ao desastre. Temos um grande ministro da Economia, como temos um excelente ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas isso não interessa aos abencerragens de sempre, aqueles que confundem economia com subsídios, mão estendida em concha, mendicância e chupismo dos Euro-fundos.»


 


Miguel Castelo-Branco, Combustões

17.2.13

Renegar o orgulho e o egoísmo


 


«Mercoledì scorso, con il tradizionale Rito delle Ceneri, siamo entrati nella Quaresima, tempo di conversione e di penitenza in preparazione alla Pasqua. La Chiesa, che è madre e maestra, chiama tutti i suoi membri a rinnovarsi nello spirito, a ri-orientarsi decisamente verso Dio, rinnegando l’orgoglio e l’egoismo per vivere nell’amore. In questo Anno della fede la Quaresima è un tempo favorevole per riscoprire la fede in Dio come criterio-base della nostra vita e della vita della Chiesa. Ciò comporta sempre una lotta, un combattimento spirituale, perché lo spirito del male naturalmente si oppone alla nostra santificazione e cerca di farci deviare dalla via di Dio. Per questo, nella prima domenica di Quaresima, viene proclamato ogni anno il Vangelo delle tentazioni di Gesù nel deserto. Gesù infatti, dopo aver ricevuto l’“investitura” come Messia – “Unto” di Spirito Santo – al battesimo nel Giordano, fu condotto dallo stesso Spirito nel deserto per essere tentato dal diavolo. Al momento di iniziare il suo ministero pubblico, Gesù dovette smascherare e respingere le false immagini di Messia che il tentatore gli proponeva. Ma queste tentazioni sono anche false immagini dell’uomo, che in ogni tempo insidiano la coscienza, travestendosi da proposte convenienti ed efficaci, addirittura buone. Gli evangelisti Matteo e Luca presentano tre tentazioni di Gesù, diversificandosi in parte solo per l’ordine. Il loro nucleo centrale consiste sempre nello strumentalizzare Dio per i propri interessi, dando più importanza al successo o ai beni materiali. Il tentatore è subdolo: non spinge direttamente verso il male, ma verso un falso bene, facendo credere che le vere realtà sono il potere e ciò che soddisfa i bisogni primari. In questo modo, Dio diventa secondario, si riduce a un mezzo, in definitiva diventa irreale, non conta più, svanisce. In ultima analisi, nelle tentazioni è in gioco la fede, perché è in gioco Dio. Nei momenti decisivi della vita, ma, a ben vedere, in ogni momento, siamo di fronte a un bivio: vogliamo seguire l’io o Dio? L’interesse individuale oppure il vero Bene, ciò che realmente è bene? Come ci insegnano i Padri della Chiesa, le tentazioni fanno parte della “discesa” di Gesù nella nostra condizione umana, nell’abisso del peccato e delle sue conseguenze. Una “discesa” che Gesù ha percorso sino alla fine, sino alla morte di croce e agli inferi dell’estrema lontananza da Dio. In questo modo, Egli è la mano che Dio ha teso all’uomo, alla pecorella smarrita, per riportarla in salvo. Come insegna sant’Agostino, Gesù ha preso da noi le tentazioni, per donare a noi la sua vittoria (cfr Enarr. in Psalmos, 60,3: PL 36, 724). Non abbiamo dunque paura di affrontare anche noi il combattimento contro lo spirito del male: l’importante è che lo facciamo con Lui, con Cristo, il Vincitore. E per stare con Lui rivolgiamoci alla Madre, Maria: invochiamola con fiducia filiale nell’ora della prova, e lei ci farà sentire la potente presenza del suo Figlio divino, per respingere le tentazioni con la Parola di Cristo, e così rimettere Dio al centro della nostra vita.»


 


Bento XVI, Vaticano, 17.2.13

Anacronismos

«Porquê Zeca Afonso? A porta-voz do número [o primeiro-ministro discursava e um grupo de ‘manifestantes’, composto por celebridades avulsas de esquerda, começou a cantar o ‘Grândola, Vila Morena’], Paula Gil, explicou: porque é o povo quem mais ordena. Precisamente. E o mais espantoso é que não houve um único jornalista que lhe tenha devolvido o refrão: e não seria aquela Assembleia a expressão democrática da escolha popular? Exactamente ao contrário do que sucedia antes do 25 de Abril? Ou a democracia só é boa quando ganham os ‘nossos’, em imitação perfeita do pensamento autoritário de Salazar? Ao abusarem de símbolos ‘antifascistas’, estes pequenos cantores apenas banalizam a ditadura e insultam a democracia.»


 


João Pereira Coutinho, Correio da Manhã


 


«O presidente da RTP anda em campanha pessoal de marketing: intromete-se nos programas da RTP 1, onde bota palavra, enquanto manda calar os trabalhadores em norma de serviço fasciszante; pede "ajuda" à sociedade civil para melhorar a "gestão" da RTP, enquanto acaba com a produção externa da sociedade civil. Não é presidente da RTP, é presidente de si mesmo.»


 


Eduardo Cintra Torres, idem

16.2.13

Do concreto


 


No livro que dedicou a Manuel Teixeira-Gomes, Norberto Lopes descreveu-o como uma "personalidade requintada, sóbria, simples como a de um grego do século de Péricles, magnânimo e brilhante como a de um príncipe florentino da Renascença". Teixeira-Gomes largou a Presidência da República e foi exilar-se em Bougie (Bejaia), na Argélia. Há uns anos, o seu sucessor Jorge Sampaio foi lá prestar-lhe uma homenagem em forma de estátua. Por estes dias (dois chegam), o Ministro da Economia regressa à Argélia para tratar do concreto. Não para efeitos de propaganda fácil circunstancial ou para "anunciar" coisas requentadas que, depois, nunca chegam sequer a requentar. Muito menos para ganhar as boas graças dos especialistas em "classificados" do jornalismo político, com quem, aliás, não mantém quaisquer relações adolescentes e perfunctórias de "amor-ódio", mas tão-somente adultas e naturais. Álvaro Santos Pereira vai formalizar acordos para a construção de cerca 65 mil fogos habitacionais no país de exílio de Teixeira-Gomes, na sequência da constituição de três empresas mistas portuguesas e argelinas. Os valores envolvidos são superiores a 3 mil milhões de euros e podem ascender, a médio prazo, a 4 mil milhões. Num momento em que também o sector da construção civil enfrenta conhecidas dificuldades que se reflectem nos níveis de empregabilidade, este facto permite chegar a novos mercados, aumentar volume de negócios e incentivar as exportações de mais empresas portuguesas. A autenticidade é sempre lucrativa e, mais tarde ou mais cedo, acaba por se sobrepor como a verdade. É disso que a economia e a política domésticas precisam.  Do concreto.

15.2.13

Afinal

Ainda se arranca uma boa notícia ao dia- "em breve estarei noutro canal". É bom para a paupérrima cidadania poder escutar vozes livres e comprometidas desde sempre com o futuro.

Boa tarde e boa sorte


 


Caiu um meteorito na Rússia. Aparentemente um asteróide ronda a Terra. Altura para rever Lars von Trier em vez de perder tempo com parvoíces. Boa tarde e boa sorte.

14.2.13

Questões de bom senso

Ouvi atentamente Luís Marques Mendes na tvi24. Falou da fiscalidade - um tema em voga pela parafernália de "olhares" que tem merecido -, sobretudo por causa da descida da taxa do IRC, uma proposta atempadamente considerada pelo Ministro da Economia (sim, eu sei), cá e em Bruxelas onde não consta que, afinado um ou outro pormenor, não tivesse obtido "luz verde". Todavia, em breve, a chamada "comissão L. Xavier" dirá de sua justiça e, provavelmente, a seguir ( os dias portugueses às vezes levam meses a chegar) haverá mudanças nesta matéria. Matéria, como notou Marques Mendes, decisiva para tratar de coisas como o emprego e a economia propriamente dita. Dezoito, disse ele, foi o número das  alterações ao IRC desde que o Código foi aprovado, enquanto noutros países europeus quando muito duas bastaram. A instablidade fiscal é um mal que dá cabo de qualquer perspectiva de uma "ecologia" económica - quer do lado das empresas, quer, por tabela, pelo lado dos trabalhadores - equilibrada. A taxa do IRC é elevadíssima para essa "ecologia" e foi sobretudo nesse sentido que as alterações se fizeram. Razão pela qual o contributo do IRC para a receita fiscal global tenha sido sempre pouco acima de medíocre. A burocracia rapace também não ajuda. Porque em Portugal o que é "grande" safa-se. Mas é o pequeno, o médio e, até, o individual quem ainda mantém essa "ecologia" viva. O infeliz episódio da "factura" (criticado com inteligência por M. Mendes) é, por consequência, mais político (e social) do que "técnico", independentemente de qualquer imagem ou ironia mais ou menos feliz. A complacência com a "sovietização", voluntária ou involuntária, da vida das pessoas ou das empresas é incompatível com o elementar bom senso político. E, no limite, com uma "tradição" não socialista da governação.

O olho cosmológico


 


O Francisco José Viegas introduziu abruptamente no léxico político-mediático a problemática do olho cosmológico (fórmula "henrymilleriana" que encontro para não nomear a coisa a bem da moral e dos bons costumes) a propósito de outra problemática, desnecessária (houvesse mundo em quem a gerou), em torno, no fundo, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos (vamos, por uma vez, dar aqui o nome às coisas). Só não lhe aplaudo - ele sabe e damos-nos bem com isso - o "acordografês" do texto. Por isso, e para a troca, ofereço ao Francisco prosa boa de João Ubaldo Ribeiro que ele aprecia, tirada do extraordinário monólogo feminino A Casa dos Budas Ditosos. «Provavelmente nunca mais será ouvida a pergunta imortal que um amigo meu escutou, depois de enfrentar galhardamente a primeira com uma portuguesa belíssima, ele que antes estava até com medo de broxar. Ele me contou que, satisfeito e aliviadíssimo, estava fumando o tradicional cigarrinho "post coitum", quando ela olhou para ele e falou: "E ao cu, não me vais?". Fantástico, disse ele; emocionante. E fui-lhe ao cu, disse ele, que maravilha. Imagine aqui no Brasil, uma mulher fazer uma pergunta dessas, não faz. Eu morei no bairro de Alvalade, dava para ir andando ao Campo Pequeno, cansei de ir às corridas somente para ver as bundas apertadinhas dos forcados. Sou contra essa teoria segundo a qual os brasileiros têm belas bundas e alimentam uma fixação patológica por bundas somente por causa dos africanos. Isto é preconceito, as belas bundas da nossa gente vêm tanto de África quanto de Portugal, tanto assim que eu não tenho sangue africano nenhum, pelo menos que eu saiba, e sempre portei uma bunda acima de qualquer crítica, até hoje não envergonho. Duvido que, se eu disser a algum homem que me coma e "ao cu, não me vais?", ele não vá imediatamente.»

13.2.13

O legislador é um lugar estranho


 


Não agradeço particularmente à Providência ter sido conduzido ao curso de direito. De resto, sempre me intrigou a figura abstracta do "legislador". Porque, muitas vezes, o "legislador" legisla mais para abstrações do que para pessoas reais apesar da profusão de "especialistas". O Código do IVA terá sido alterado no início do ano por forma a que, para resumir, se V. comprar uma alface ou uma embalagem de laca e, entre o acto e a forte possibilidade de encontrar à porta da mercearia ou do cabeleireiro um inspector tributário, não estiver munido da respectiva factura, pode ser multado num valor entre os 75 e os 2 mil euros. Na prática, V. tem de ser praticamente "apanhado" em flagrante "delito" porque o "legislador" não o obriga (por enquanto) a guardar a factura. E é racionalmente aceitável que não seja dado, ou dada, a coleccionar facturas de legumes ou de lacas. O legislador é um lugar estranho.

A cada dia basta o seu mal

Hoje, quarta-feira de cinzas, a epígrafe deste blogue faz todo o sentido depois de lidas e vistas algumas "notícias": a cada dia basta o seu mal.

12.2.13

Um legado de verdade


 


Nas últimas 24 horas, uma catrefada de videntes e anacoretas apareceu a glosar a renúncia papal em nome da "ditadura das opiniões". Contra ela insurgiu-se oportunamente Bento XVI: «não se vergar perante a ditadura das opiniões, mas antes agir a partir do conhecimento interior, ainda que isso traga aborrecimentos.» Também existe a vertente "apostas" com clara vantagem para o correcto político-religioso (um Papa mais "jovem", mais "aberto", mais "multicultural" e outros disparates afins). Infelizmente a nossa Igreja, na pessoa do porta-voz do Conselho Episcopal, mostrou-se atrapalhada no comentário e apressada nos "desejos". Valeu a fala quase sempre avisada de D. Jorge Ortiga que daria, aliás, um excelente sucessor de D. José Policarpo à frente dos destinos institucionais da Igreja doméstica. Neste contexto tagarela, fui reler o livro da foto que recomendo aos conspícuos "especialistas". Constança Cunha e Sá, na tvi24, talvez tenha sido a boa excepção a esta cacofonia ignorante, tal como Francisco José Viegas ou Armando Pereira no Correio da Manhã e Henrique Monteiro no Expresso online. Em resumo, há décadas que Ratzinger avisa a Igreja para se preparar a viver em ambiente minoritário, porventura mais a pensar no espírito do que no número embora o número pesasse na reflexão. Em Luz do Mundo, Bento XVI evidencia isso mesmo quando compara a "religiosidade"europeia (em declínio como a própria "ideia" de Europa) com a crescente adesão ao catolicismo fora da Europa. A Igreja deve ajudar a «encontrar novas palavras e novos meios para possibilitar ao homem a ruptura com a finitude» dentro da verdade, uma palavra-chave do magistério deste Papa. E a verdade comporta o escândalo da Cruz - «a Igreja, o cristão e sobretudo o Papa têm de ter consciência de que o testemunho que têm para oferecer vai ser escandaloso, não vai ser aceite, e que isso os vai remeter para a situação da testemunha, do Cristo sofredor» - uma vez que «a fé cristã constituiu-se como contraponto a um novo desenvolvimento social, de modo que passou a ter de se opor repetidamente a poderosas opiniões triunfantes» o que obriga a «suportar a hostilidade e oferecer resistência». E aqui, o Papa é muito claro, em 2010: «Tenho confiança em que o bom Deus me dará a força de que preciso para fazer o necessário. Mas também noto que as forças vão cedendo.» É em nome da verdade («é o valor número um») que afirma claramente que, se o consenso fosse total em torno do seu pontificado, «teria de me interrogar seriamente se estaria, realmente, a anunciar o Evangelho todo.» É em nome da verdade que sustenta que «a vontade política não consegue ser, em última instância, actuante se não existir em toda a humanidade - e principalmente nos sustentáculos do desenvolvimento e do progresso - uma nova e aprofundada consciência moral, uma disponibilidade para a renúncia que seja concreta e que se transforme, para o indivíduo, na medida de valor da sua vida.» É em nome da verdade que combate a "ditadura do relativismo", «uma religião negativa abstracta que se transforma em critério tirânico e que todos devemos seguir», a qual, por consequência, constitui um perigo, i.e., «o perigo é que a razão - a chamada razão ocidental - afirma que reconheceu agora o que é verdadeiro, e apresenta uma pretensão de totalidade que é hostil à liberdade» já que «ninguém é obrigado a ser cristão». Mas, continua o Papa, «ninguém deve ser tão-pouco obrigado a viver a "nova religião" determinada como única e obrigatória para toda a humanidade.» A afirmação de Deus sofredor é algo que não ataca ninguém. Pelo contrário, os «processos de destruição extraordinários que nasceram da arrogância e do tédio, bem como da falsa liberdade do mundo ocidental», sim. Por isso é fundamental «compreender o dramatismo da época e guardar nela a palavra de Deus como a palavra decisiva, dando simultaneamente ao cristianismo a simplicidade e a profundidade sem as quais não pode actuar.» O grande ensinamento de Ratzinger, o teólogo e o filósofo, reside em chegar à verdade pela razão, aquilo que fez com que passasse para primeiro plano do seu pontificado "a luta pela unidade entre a fé a a razão".  «Continua a ser a grande tarefa da Igreja unir a fé e a razão, o olhar para além do tangível e, ao mesmo tempo, a responsabilidade racional, pois elas foram-nos dadas por Deus. É isso que distingue o ser humano.» Finalmente, um olhar céptico e realista para dentro da própria Igreja, para a "condição humana" da Igreja, que fará parte indelével deste legado de verdade de Bento XVI. «O Mal pertencerá sempre ao mistério da Igreja. Se olharmos para tudo o que os homens, e nomeadamente o clero, fizeram na Igreja, temos aí verdadeiramente uma prova de que Ele fundou a Igreja e a sustém. Se ela apenas dependesse dos homens, há muito que já teria perecido.»

11.2.13

"Antes da hora da traição, Ele tinha dito: tende confiança! eu venci o mundo."


 


A notícia da resignação do Papa Bento XVI apanhou-me desprevenido como quase todas as coisas importantes da minha vida sempre me apanharam. Ratzinger, disse-o esta manhã, não terá encontrado na fragilidade do seu corpo forças suficientes para prosseguir. E, perante Deus e os homens, entendeu dever sair. Sai, infelizmente, num dos piores momentos da vida espiritual do mundo onde a sua voz trémula brilhava como poucas conseguem brilhar. Agora ficamos definitivamente entregues aos "homens que calculam", à mediocridade da chamada "vida material" e aos pequenos palermas que a conduzem. Ratzinger é um pensador maior do século XX e, nesse sentido, a sua "lição" permanece. Também permanecem as suas intervenções enquanto Papa Bento XVI. Sem uma palavra a mais ou de menos, o Papa soube, como poucos na sua posição, entender a contingência da "condição humana" e, intimamente, sempre desconfiou do "homem" em quem toda a gente confia, o chamado "homem médio". As alturas de Ratzinger nunca foram "deste" mundo". Imagino que para além da questão física, pese mais em Ratzinger a questão espiritual e a questão racional que, nele, não se distinguem. Deve-lhe ser intelectualmente insuportável  assistir à vulgarização de tudo apesar da fé. Julgo que até a própria instituição, a Igreja e os seus servidores directos, o terá desiludido pela sua pusilanimidade e oportunismo. Não sou um optimista e a leitura atenta de Ratzinger ajudou-me nessa convicção. Espero quase sempre o pior do "outro" e desconfio do "progresso". Tecnicamente sou considerado um "reaccionário". Como Gianni Vattimo, serei um "mezzo credenti" que, contra toda a esperança, confia no amor de Deus e na Sua "caritas". E, aí, Bento XVI não me abandona, resignando, nem eu me resigno perante o seu abandono. Raztinger não ficará na história como um Papa banal nem tão-pouco como o profeta das trevas que os burgessos teimavam ver representado nele. É um intelectual com um profundo conhecimento da cobardia do "homem moderno". Ratzinger é um excelente observador do presente, um analista e um "comentador" privilegiado do contemporâneo precisamente porque a sua extraordinária "couraça" filosófica lho permite. Sabe que a sobrevivência da Igreja nestes tempos levianos e superficiais depende muito dessa "couraça" e como isso é importante para quem crê e para quem duvida. Sou o produto híbrido entre um céptico que crê e um crente que duvida. Tudo o que até agora li de Raztinger e ouvi do Papa Bento me permite continuar assim - a crer e a duvidar. Como ele escreveu na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, trata-se de "um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca está "concluído" e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si próprio. Idem velle atque idem nolle - querer a mesma coisa e rejeitar a mesma coisa é, segundo os antigos, o autêntico conteúdo do amor". E é Jesus que no desalinho do seu sacrifício nos mostra o caminho razoável: "Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) — disse Jesus, afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto." Já na encíclica Spe Salvi, o Papa termina com uma referência a "Maria, estrela da esperança", porque Ela recebeu uma "nova missão" da cruz, esse mencionado escândalo que todos os dias interpela, comove e nos levanta. «A partir da cruz ficastes mãe de uma maneira nova: mãe de todos aqueles que querem acreditar no vosso Filho Jesus e segui-Lo. A espada da dor trespassou o vosso coração. Tinha morrido a esperança? Ficou o mundo definitivamente sem luz, a vida sem objectivo? Naquela hora, provavelmente, no vosso íntimo tereis ouvido novamente a palavra com que o anjo tinha respondido ao vosso temor no instante da anunciação: «Não temas, Maria!» (Lc 1,30). Quantas vezes o Senhor, o vosso Filho, dissera a mesma coisa aos seus discípulos: Não temais! Na noite do Gólgota, Vós ouvistes outra vez esta palavra. Aos seus discípulos, antes da hora da traição, Ele tinha dito: «Tende confiança! Eu venci o mundo.» (Jo 16,33).» Ámen.


 


Adenda (inevitável) do fim do dia: Na sua tradicional fúria "criativa" contra Ratzinger, alguma da chamada comunicação social (que saudades dos jornalistas que sabiam ler, escrever, contar e fazer o trabalho de casa) insiste - pelo menos alguma caseirinha e especialmente bronca - em associar o pontificado de Bento XVI a "escândalos". Que Deus lhes perdoe a tacanhez.

9.2.13

Costa no labirinto dos mortos-vivos

A entrevista de António Costa a José Alberto Carvalho foi um enorme bocejo político. Não por culpa do jornalista, que esteve bem, mas porque Costa manifestamente não está à vontade neste papel que os órfãos de Sócrates lhe reservaram. Foi  forçado a debitar umas banalidades "programáticas" pseudo-distintivas de Seguro, teceu umas considerações óbvias sobre a vida partidária em geral e demonstrou uma acrisolada felicidade em ser quem é e em estar a fazer o que está a fazer. Aqueles minutos televisivos não acrescentaram um átomo ao "prestígio" partidário e nacional de Costa. Pelo contrário, deram corpo a uma famosa alusão de Séneca: sempre o mesmo querer e não querer o mesmo. E fez lembrar a triste figura que outros fizeram noutros partidos com os resultados que se conhecem. Dito de outra forma, «António Costa, depois do seu tiro de pólvora, resolveu assumir a segunda causa: ou as ossadas [de Sócrates] vêm, ou ele avança. Seguro, que não nasceu ontem, discorda. E discorda porque sabe, com razão, que o único motivo pelo qual o seu PS ainda existe no reino dos vivos é precisamente porque soube manter uma distância higiénica dessas ossadas radioactivas. O que Costa pede a Seguro não é uma reabilitação histórica; é um suicídio político. E só um fanático, como o rei inglês, estaria disposto a trocar o seu reino por um cavalo.»

8.2.13

mandarinato de vão de escada


 


Olhar para o "affair" BPN em 2013 não é a mesma coisa que olhar para o dito em 2007 ou 2008. Mas é com esse olhar, o de 2013 - onde se mistura o que se sabe e o que não se sabe com inaceitáveis exercícios de má fé e de dolosa ignorância - que há uma semana correm "julgamentos populares" na praça pública. Neles participam lado a lado, e com a mesma língua de trapos, formas de vida inteligente e puros cretinos. Estes, coitados, têm desculpa. Os outros, nenhuma. O "affair" BPN é uma das maiores vergonhas do regime. Tentar atirar para a mesma fogueira aqueles que deram início à desconstrução fundamentada (sim, estas coisas não vão lá com tiradinhas de efeito fácil nos jornais e nas televisões perpetradas por curiosos palradores profissionais) dessa vergonha e desse crime, pode consolar o insaciável mandarinato mediático e duas ou três porteiras. Mas não serve nem a verdade nem a razão.

7.2.13

"Corno coxo"






«Fui hoje à Caixa, Marga, receber
A pensão de reforma.
Coxo e doido, Marga. Muito!
Duro é ser velho, e, então, de ossos a arder?
A minha tíbia engole facas.
Fui hoje à Caixa receber
O troco das pernas fracas.
E lembrei-me de ti, que eras habituée
Lá pela ordem dos trinta, dos cinquenta milhões.
Da formiga à cigarra:
(Iguais ocasiões)
- Que faisiez vous aux temps chaux,
Dit-elle à cette emprunteuse.
Lembrei-me de ti com La Fontaine,
Cigarra, claro, chanteuse.
Formiga fora uma aubaine.
Marga, é tão triste o dinheiro!
Até já o ganhas, como eu,
E andaste coxa, cheia de dores
Tu que o atiravas aos punhados
Como em batalha de flores
Estás como os reformados
À espera dos directores
Mas como ainda és bonita
E há sempre um, pronto aos favores,
Vê bem o que ele te debita
Que descontos te faz
Ê provável que insista
Sabendo-te "petite amie" de um pobre pensionista
A menina bem sabe que há certas coisas que nem mesmo um aperto
(Ai, a minha peminha!)
Cornucópia - corno coxo.»

Vitorino Nemésio, Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga

Lisboa na ambiguidade

Pedro Santana Lopes, se bem entendi, vai deixar de ser vereador em Lisboa para "deixar espaço" ao dr. Seara, o actual presidente da CM de Sintra que pretende vir para os Paços do Concelho da capital. Referi há dias que «interessa-me saber o que é que Pedro Santana Lopes, de quem fui apoiante em 2009, pensa disto tudo», onde o "isto tudo" era o desempenho global da CML/Costa, da oposição a Costa e a referida candidatura do edil sintrense. Santana, por consequência, "deixou espaço" aos seus eleitores de 2001 e de 2009 para deixarem respirar o dr. Seara. E, já agora, eles próprios. Fiquei esclarecido.

O que vale um partido?






«Os partidos políticos vivem hoje atravessados por três dimensões muito distintas: a clubista, a pretoriana e a cidadã. A dimensão clubista, que os vê como claques desportivas, vibrando cegamente, em todas as circunstâncias, contra os adversários. A dimensão pretoriana, que os encara como organismos quase paramilitares, destinados a proteger e a perpetuar o chefe e a sua corte. E a dimensão cidadã, que os concebe como associações de pessoa livres que partilham, de um modo naturalmente controverso, valores idênticos e ambições convergentes para o País. Estas três dimensões existem, em maior ou menos grau, em todo os partidos. Mas só a última, a dimensão cidadã, permite e estimula o debate necessário para a construção de projectos de futuro. É por isso que, nos partidos democráticos, tão ou mais importante que o seu número de militantes é a sua capacidade de, com abertura e competência, estudar e debater a situação do País, os seus problemas e soluções.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

5.2.13

Coisas boas

FORMA DE VIDA.

de acordo


 


Com o Manuel Falcão. «Digo sem problemas que, neste momento, em Lisboa, não tenho em quem votar. Se surgisse algum candidato independente com um discurso de ruptura com os interesses instalados e que pensasse no desenvolvimento da cidade e do seu bem estar, não hesitaria em lhe dar o meu apoio. Um candidato que não fosse politicamente correcto mas tivesse a coragem de melhorar a cidade teria o meu voto. Não me apetece votar numa eleição que está condenada a ser uma peça da disputa nacional e interna dos partidos, com dois candidatos que encaram a cidade como um meio e não um fim.»

4.2.13

Trivialidades

Mme. Royal, ex Senhora Hollande, apareceu hoje ao lado do secretário-geral do PS numa coisa da Internacional Socialista em Cascais. Politicamente Royal tem uma densidade baixíssima como se viu no confronto com Sarkozy em 2007 e, o ano passado, aquando da eleição do antigo companheiro para presidente da França. Em compensação, a senhora que a substituiu, oriunda da "matilha do espectáculo" (Sloterdijk) jornalístico, sabe mais a dormir do que a outra de olhos fechados. Tanto que parece que foi aconselhada a deixar-se dos "tiques" da referida matilha e a prestar mais atenção ao papel de "primeira-dama". Royal produziu entretanto uma série de trivialidades sob o olhar embevecido de Seguro que precisa mostrar serviço doméstico. Enfim, nunca mais chega a sagração da primavera.

A verdade do esqueleto



Parece que foi descoberto um esqueleto, aparentemente de Ricardo III. Era ele (Duque de Gloucester), antes de ser rei de Inglaterra, que dizia pela voz de Shakespeare: «I cannot tell: the world is grown so bad,/ That wrens make prey where eagles dare not perch:/ Since every Jack became a gentleman,/ There's many a gentle person made a Jack. » Como estava certo.

3.2.13

Lisboa feliz?


 


Ao parecer - e em política, como dizia o outro, o que parece, é - mais um pusilânime à coca das melhores expectativas e oportunidades, António Costa arrisca-se a perder o partido e a câmara. Relativamente ao partido, estou-me nas tintas para essa miserável conversa de porteiras sem um pingo de nível. Mas quanto a Lisboa, a minha cidade, a coisa fia mais fino. Costa prodigalizou na capital uma espécie de proto-mandato autárquico. Delegou praticamente tudo nos seus improváveis vereadores, não prestou grande atenção à cidade a não ser em pequenos aspectos "emblemáticos" para aparecer e, finalmente, como bom tacticista que é, "deixou" chumbar o orçamento da câmara pela oposição que não viu que, mantendo-se o de 2012 (maior), Costa tem uns meses para se exibir como recandidato "obreirista" e com um módico de "desígnio" que foi algo que nunca conseguiu verdadeiramente desenvolver até agora (Lisboa, como ideia de cidade, é uma treta). Como opositor a este estado da arte, dois partidos, o PSD e o CDS, decidiram apresentar o dr. Seara, conhecido comentador desportivo e ainda presidente da câmara de Sintra. Não sei o que é que os munícipes de Sintra e arrabaldes pensam dos mandatos autárquicos de Seara nem, francamente, me interessa. Todavia, e como tenho reclamado no Facebook, interessa-me saber o que é que Pedro Santana Lopes, de quem fui apoiante em 2009, pensa disto tudo. Porque não julgo que Seara "una" a direita e o centro-direita contra Costa (começou logo mal com "piadas" - algo para que tem jeito - sobre a vida interna do PS) a não ser pelo lado "desportivo-televisivo" da sua personalidade o que não é propriamente nem entusiasmante nem um elogio. Neste contexto, pode aparecer um "Rui Moreira" em Lisboa mesmo com o CDS "oficial" encafuado em Seara? Parafraseando um dito muito glosado, ai pode pode.

2.2.13

"Drama queens"


 


Daqui a pouco, às 21, na Gulbenkian, zona livre de barulhos inúteis. DiDonato e as suas "drama queens".


 


 


Adenda de domingo - O leitor Marques resume bem o que se passou no serão raro de sábado, na Gulbenkian, com a DiDonato e o "Complesso Barocco": «Foi uma zona recheada de sublimes sons, cujo encantamento ainda perdura enquanto descemos de novo à maléfica cacofonia quotidiana. Abençoada Di Donato.» Na realidade, só me recordo de uma euforia assim (a que tivesse assistido, naturalmente) quando, no princípio dos anos 90, Marilyn Horne deu um concerto no São Carlos apenas acompanhada por um piano. Euforia/alegria dos intérpretes e do público num repertório original retirado, como explicou Joyce, à poeira das prateleiras. No intervalo e à saída ouvia-se aqui e ali o resmungo pernóstico de dois ou três "especialistas" de bancada, estilo "muita parra e pouca uva" ou "pouco encorpada" (suponho que a voz). Queriam o quê? As Marisas e as Dulces Pontes a bailar nos seus batéis?

as coisas são o que são






«O governo folga com o desencadear desta crise no PS, e o seu horizonte aparece mais desanuviado no imediato, mau grado a epidémica substituição de secretários de Estado, que tão bem caracteriza o executivo da coligação. Assim, o governo foi ‘aos mercados’ e voltou com um empréstimo estimado em 2500 milhões de euros e com taxas de juro a rondar os 5%, enquanto a Irlanda havia conseguido um parecido, mas com taxas de juro inferiores à da média das praticadas pelo cabaz da troika em determinadas maturidades. De qualquer maneira, a coligação averbou uma primeira vitória junto da opinião pública. Além desta operação financeira na frente externa, Passos Coelho mexeu--se na frente interna e aproveitou bem o impasse criado na questão da RTP para oferecer a Portas um passeio triunfal, que só pode criar embaraços ao líder do CDS no percurso do seu calendário político. Deste modo, a coligação no poder sedimenta-se, enquanto o maior partido da oposição se debate com uma crise interna num país à deriva e insatisfeito com o governo. Uma situação paradoxal pouco tratada nos manuais da arte política.»


 


Medeiros Ferreira, CM


 


 


«Era Churchill quem dizia que os inimigos se encontram dentro do mesmo partido. O conflito entre visões do mundo, por muito duro que seja, define apenas adversários. A hostilidade é mais íntima. É entre indivíduos que disputam o mesmo espaço vital. Que partilham uma ambição, onde dois é já uma multidão. Pedro da Silva Pereira - que durante muitos anos parecia ser uma espécie de alter ego de Sócrates incapaz de sobreviver na ausência deste - aceitou iniciar uma pequena tragédia no Largo do Rato. Fez o papel das três bruxas sinistras que profetizam o regicídio, no Macbeth, de Shakespeare. Mas nem António José Seguro é o dócil rei que se deixa apunhalar nem António Costa parece disposto a entrar no jogo urdido pelos barões socialistas que, sem nunca terem pedido desculpa por terem lançado o País nas mãos da troika e dos seus representantes permanentes em Lisboa, já se apressam a correr para uma oportunidade de mais lugares de mando. Lugares que não merecem pela manifesta incompetência e falta de mérito.»




Viriato Soromenho-Marques, DN

1.2.13

Lamentável

Alguém deve ter lançado um mau olhado à RTP. O episódio da "tv rural", como diria Marcelo, não lembra ao careca. Qualquer pessoa com a escolaridade obrigatória, numa democracia liberal, sabe que são as televisões (mesmo as de propriedade pública) que constroem a sua grelha, os seus programas, a sua "identidade" editorial. Bem sei que é uma "recomendação" do parlamento ao governo mas a circunstância não só não atenua como piora a coisa. Também o governo não tem nada a ver com os assuntos referidos. Como se isto não bastasse, o PS fez uma desgraçada figura parlamentar, aliás à altura do que lhe tem acontecido nos últimos dias. Tudo lamentável.

Dois abraços

Menos de um mês mais perto do Pedro Martins e do Carlos Oliveira chegou para perceber que, onde quer (e no que quer) que estejam, de agora em diante, cá ou lá fora, são seguramente dois dos nossos melhores. There is, it seems to us,/ At best, only a limited value/ In the knowledge derived from experience./ The knowledge inposes a pattern, and falsifies,/ For the pattern is new in every moment/ And every moment is a new and shocking/ Valuation of all we have been. We are only undeceived/ Of that which, deceiving, could no longer harm. (T.S. Eliot)

Contra uma concepção pedestre das coisas


Numa semana absolutamente desastrosa, e a roçar o absurdo no campo da chamada "actividade política" pedestre, não é má ideia acabá-la a pensar. Até porque este tema, o serviço público, também é sempre "tratado" ao lado.