
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
30.4.06
MÁRTIRES

MÁRTIRES

O HÁBITO DE DIZER MAL

O HÁBITO DE DIZER MAL

O FRACASSO
"O país que aí está, trabalha, sofre e paga é, como de costume, um fracasso. Parece que, por baixo de uma grotesca marca de "modernidade", nunca saiu de facto da sua condição primitiva. Pobre, corrupto, irresponsável e apático, este Portugal não encontra com certeza razão para a sua própria sobrevivência".Vasco Pulido Valente, in Público, 29.4.06
O FRACASSO
"O país que aí está, trabalha, sofre e paga é, como de costume, um fracasso. Parece que, por baixo de uma grotesca marca de "modernidade", nunca saiu de facto da sua condição primitiva. Pobre, corrupto, irresponsável e apático, este Portugal não encontra com certeza razão para a sua própria sobrevivência".Vasco Pulido Valente, in Público, 29.4.06
29.4.06
O TREINADOR
O TREINADOR
HEMINGWAY
Depois das guerras, da celebridade, da aventura, dos touros, de Cuba, de África, de Paris, das caçadas, do álcool e da depressão, Hemingway estava, como alguém num dos seus contos, "desesperado". Refugiou-se numa casa discreta no Idaho. A mulher apanhou-o várias vezes empunhando uma espingarda para se suicidar, um instrumento com que conviveu bem toda a vida. Para o fim, Hemingway já não convivia sequer com ele próprio. Não conseguia escrever o que, traduzido à letra, correspondia a não conseguir viver. Como Santiago, de O Velho e o Mar, não fora feito para a derrota. Num domingo de manhã, saiu do quarto discretamente enquanto a mulher dormia, desceu as escadas e abriu um armário onde guardava as suas armas. Tirou uma espingarda de dois canos. Meteu-a na boca e premiu o gatilho. "Um homem pode ser destruído, mas não derrotado".HEMINGWAY
Depois das guerras, da celebridade, da aventura, dos touros, de Cuba, de África, de Paris, das caçadas, do álcool e da depressão, Hemingway estava, como alguém num dos seus contos, "desesperado". Refugiou-se numa casa discreta no Idaho. A mulher apanhou-o várias vezes empunhando uma espingarda para se suicidar, um instrumento com que conviveu bem toda a vida. Para o fim, Hemingway já não convivia sequer com ele próprio. Não conseguia escrever o que, traduzido à letra, correspondia a não conseguir viver. Como Santiago, de O Velho e o Mar, não fora feito para a derrota. Num domingo de manhã, saiu do quarto discretamente enquanto a mulher dormia, desceu as escadas e abriu um armário onde guardava as suas armas. Tirou uma espingarda de dois canos. Meteu-a na boca e premiu o gatilho. "Um homem pode ser destruído, mas não derrotado".O POBREZINHO NA LAPELA
Já existe uma inevitável comissão para tratar do PNAI. O PNAI é o "plano nacional de acção para a inclusão" - pode adicionar-se ao breviário de siglas do governo - a que Cavaco Silva, no âmbito da "cooperação estratégica", aludiu no discurso do 25 de Abril. A comissão já tem uma presidente e será provida com dezasseis (16...) criaturas oriundas das mais diversas entidadas ligadas à "problemática da exclusão social". Por outro lado, fica-se a saber que o próprio PR possui o seu "roteiro para a inclusão" no qual participará a primeira-dama. Ou seja, os indigentes, com ou sem abrigo, os velhinhos, as mulheres humilhadas e as criancinhas abandonadas, todos conhecidos pelo jargão assistencialista de "mais desprotegidos", têm garantido, desde já, um batalhão de técnicos, de burocratas, de comentadores e de políticos, encimados pelo "alto patrocínio" de Belém, para velar por eles. O pior é se o "roteiro", o PNAI e a piedade de circunstância deixam tudo mais ou menos na mesma, depois de produzidos os indispensáveis relatórios e consumadas as "visitas" caritativas e mediáticas aos abismos destas vidas. É que os "excluídos", ao contrário dos que andam à tona, não têm sequer voz para protestar ou reclamar "direitos". Todavia, quem é que não gosta de exibir um pobrezinho na lapela?O POBREZINHO NA LAPELA
Já existe uma inevitável comissão para tratar do PNAI. O PNAI é o "plano nacional de acção para a inclusão" - pode adicionar-se ao breviário de siglas do governo - a que Cavaco Silva, no âmbito da "cooperação estratégica", aludiu no discurso do 25 de Abril. A comissão já tem uma presidente e será provida com dezasseis (16...) criaturas oriundas das mais diversas entidadas ligadas à "problemática da exclusão social". Por outro lado, fica-se a saber que o próprio PR possui o seu "roteiro para a inclusão" no qual participará a primeira-dama. Ou seja, os indigentes, com ou sem abrigo, os velhinhos, as mulheres humilhadas e as criancinhas abandonadas, todos conhecidos pelo jargão assistencialista de "mais desprotegidos", têm garantido, desde já, um batalhão de técnicos, de burocratas, de comentadores e de políticos, encimados pelo "alto patrocínio" de Belém, para velar por eles. O pior é se o "roteiro", o PNAI e a piedade de circunstância deixam tudo mais ou menos na mesma, depois de produzidos os indispensáveis relatórios e consumadas as "visitas" caritativas e mediáticas aos abismos destas vidas. É que os "excluídos", ao contrário dos que andam à tona, não têm sequer voz para protestar ou reclamar "direitos". Todavia, quem é que não gosta de exibir um pobrezinho na lapela?O CINZENTO DE BRUXELAS
O presidente da Comissão Europeia, o nosso dr. Barroso, promoveu um "seminário" com todos os membros da dita Comissão. Após o falhanço manifesto da "constituição europeia", a Europa burocrática procura novas linhas para se coser. Barroso falou de uma "agenda europeia positiva" e de uma "Europa dos resultados" provavelmente porque tinha de dizer alguma coisa. Muito bem. A questão, porém, não é essa. É antes saber-se se "agenda europeia positiva" e "Europa dos resultados" querem efectivamente dizer dizer alguma coisa. Ou se não são mais duas construções vazias e inconsequentes para uma Europa cada vez mais desencontrada consigo própria e entregue ao cinzento de Bruxelas.O CINZENTO DE BRUXELAS
O presidente da Comissão Europeia, o nosso dr. Barroso, promoveu um "seminário" com todos os membros da dita Comissão. Após o falhanço manifesto da "constituição europeia", a Europa burocrática procura novas linhas para se coser. Barroso falou de uma "agenda europeia positiva" e de uma "Europa dos resultados" provavelmente porque tinha de dizer alguma coisa. Muito bem. A questão, porém, não é essa. É antes saber-se se "agenda europeia positiva" e "Europa dos resultados" querem efectivamente dizer dizer alguma coisa. Ou se não são mais duas construções vazias e inconsequentes para uma Europa cada vez mais desencontrada consigo própria e entregue ao cinzento de Bruxelas.28.4.06
OS MANDARINS
Eu votei para existir uma maioria absoluta. Todavia não desejo, antes pelo contrário, o absolutismo maioritário. Ontem à noite, refastelado no sofá, li no Público que a escolha do novo director de informação da Lusa tinha passado pelo gabinete do primeiro-ministro. Neste blogue, quando o dr. Morais Sarmento, no governo de Santana, começou a "pensar" numa "central de informação" ou de "comunicação", desconfiou-se da ideia. Não vi agora ninguém tugir nem mugir (excepção dupla) sobre esta coisa. Pelo contrário, uma "notícia" do Expresso sobre o putativo discurso do PR no 25/4 tem provocado uma fartura de derrames e de contra-derrames por aí afora. O Público, maldosamente, fornecia uma pequena biografia dos "adjuntos" do novo director. Um deles tem uma "vasta experiência" nestas andanças político-comunicacionais e, por mera coincidência, "serviu" em Macau, essa perturbadora sombra que há-de sempre pairar sobre o regime. Tem, pois, razão de ser reproduzir integralmente este post do Jorge Ferreira:Uma notícia do Público dá-nos conta de que o gabinete do Primeiro-Ministro se envolveu directamente na escolha do novo Director da Lusa. Uma notícia destas no tempo de Santana Lopes teria modificado por completo a agenda mediática. Mas esta, passou despercebida face à indiferença geral. Mas há que pôr os nomes às coisas. A notícia é ESCANDALOSA. Ela mostra sobretudo como José Sócrates não está a brincar em serviço e pretende controlar ferreamente a comunicação social. Num país civilizado, a notícia teria provocado demissões, inquéritos e protestos. Cá não. Afinal, ainda bem há pouco tempo um Governo que havia decretado o fim da recessão pretendia gastar uns cêntimos numa central de comunicação. Assim, visto que a recessão continua, sempre se poupam uns dinheirinhos. É usar o que há."
OS MANDARINS
Eu votei para existir uma maioria absoluta. Todavia não desejo, antes pelo contrário, o absolutismo maioritário. Ontem à noite, refastelado no sofá, li no Público que a escolha do novo director de informação da Lusa tinha passado pelo gabinete do primeiro-ministro. Neste blogue, quando o dr. Morais Sarmento, no governo de Santana, começou a "pensar" numa "central de informação" ou de "comunicação", desconfiou-se da ideia. Não vi agora ninguém tugir nem mugir (excepção dupla) sobre esta coisa. Pelo contrário, uma "notícia" do Expresso sobre o putativo discurso do PR no 25/4 tem provocado uma fartura de derrames e de contra-derrames por aí afora. O Público, maldosamente, fornecia uma pequena biografia dos "adjuntos" do novo director. Um deles tem uma "vasta experiência" nestas andanças político-comunicacionais e, por mera coincidência, "serviu" em Macau, essa perturbadora sombra que há-de sempre pairar sobre o regime. Tem, pois, razão de ser reproduzir integralmente este post do Jorge Ferreira:Uma notícia do Público dá-nos conta de que o gabinete do Primeiro-Ministro se envolveu directamente na escolha do novo Director da Lusa. Uma notícia destas no tempo de Santana Lopes teria modificado por completo a agenda mediática. Mas esta, passou despercebida face à indiferença geral. Mas há que pôr os nomes às coisas. A notícia é ESCANDALOSA. Ela mostra sobretudo como José Sócrates não está a brincar em serviço e pretende controlar ferreamente a comunicação social. Num país civilizado, a notícia teria provocado demissões, inquéritos e protestos. Cá não. Afinal, ainda bem há pouco tempo um Governo que havia decretado o fim da recessão pretendia gastar uns cêntimos numa central de comunicação. Assim, visto que a recessão continua, sempre se poupam uns dinheirinhos. É usar o que há."
ANO 32
No caminho para o exílio no Brasil, onde viria a suicidar-se, o escritor austríaco Stefan Zweig aportou em Lisboa em 1936. Mais tarde registaria no seu “Diário” que tinha encontrado na nossa capital “o esplendor da miséria”, não obstante a beleza da cidade. Decorriam quatro anos desde a chegada de Salazar à chefia do governo da Ditadura. O Estado Novo dava os primeiros passos espezinhando o que restava da infeliz I República. O regime e sua retórica pretendiam - à semelhança do que o antecedeu e do que se lhe seguiria em 1974 – “servir o país” e não “servir-se” do país, como se acusava a desvairada República de o ter feito. A história posterior é sobejamente conhecida. Agora já levamos trinta e dois anos de democracia e de liberdades. No balanço, temos a Europa graças a Mário Soares, a alteração de estruturas e equipamentos da década de Cavaco e pouco mais. Encheu-se o país de novos-ricos e de novos e de velhos pobres. A “sociedade civil”, salvo raríssimas excepções, permanece inerme e de mão estendida para o Estado. As novas gerações ignoram o que está para trás e estão-se nas tintas para a cidadania. Como escreveu há dias uma politóloga, trinta e dois anos depois, os portugueses estão desmobilizados. As instituições políticas e judiciais, com o Parlamento à cabeça, estão desprestigiadas e exangues. Os partidos são encarados como últimos redutos de inutilidades profissionais. Chega a duvidar-se da capacidade de realização de um governo de maioria absoluta, repleto de boas intenções e de “modernidade”, depois de anos de oportunidades perdidas. No país “real” sobrevive o mesmo “esplendor da miséria” de que falava Zweig, os mais pobres de entre os pobres da Europa. Não conseguimos ser cosmopolitas ou sequer sofisticados. Em suma, falta “qualidade de vida” à democracia portuguesa. Chegámos, assim, ao seu ano 32 em estado de pura esquizofrenia colectiva. Nem tudo é mau. A eleição do primeiro PR não oriundo especificamente da “esquerda” e da “luta anti-fascista” foi um sinal de maturidade e representou o enterro de velhos demónios e de novas fantasias. Cavaco Silva é, pelo menos, um penhor seguro de credibilidade e de rigor. Nesse sentido, a sua ascensão à chefia do Estado foi o melhor acto comemorativo do 25 de Abril em 2006. Para o ano, a democracia atinge a idade de Cristo. Oxalá não acabe como Ele.(publicado no Independente)
Nota: Este artigo foi escrito antes do discurso do PR proferido perante o Parlamento no passado dia 25. Sobre isso, pronunciei-me aqui.
ANO 32
No caminho para o exílio no Brasil, onde viria a suicidar-se, o escritor austríaco Stefan Zweig aportou em Lisboa em 1936. Mais tarde registaria no seu “Diário” que tinha encontrado na nossa capital “o esplendor da miséria”, não obstante a beleza da cidade. Decorriam quatro anos desde a chegada de Salazar à chefia do governo da Ditadura. O Estado Novo dava os primeiros passos espezinhando o que restava da infeliz I República. O regime e sua retórica pretendiam - à semelhança do que o antecedeu e do que se lhe seguiria em 1974 – “servir o país” e não “servir-se” do país, como se acusava a desvairada República de o ter feito. A história posterior é sobejamente conhecida. Agora já levamos trinta e dois anos de democracia e de liberdades. No balanço, temos a Europa graças a Mário Soares, a alteração de estruturas e equipamentos da década de Cavaco e pouco mais. Encheu-se o país de novos-ricos e de novos e de velhos pobres. A “sociedade civil”, salvo raríssimas excepções, permanece inerme e de mão estendida para o Estado. As novas gerações ignoram o que está para trás e estão-se nas tintas para a cidadania. Como escreveu há dias uma politóloga, trinta e dois anos depois, os portugueses estão desmobilizados. As instituições políticas e judiciais, com o Parlamento à cabeça, estão desprestigiadas e exangues. Os partidos são encarados como últimos redutos de inutilidades profissionais. Chega a duvidar-se da capacidade de realização de um governo de maioria absoluta, repleto de boas intenções e de “modernidade”, depois de anos de oportunidades perdidas. No país “real” sobrevive o mesmo “esplendor da miséria” de que falava Zweig, os mais pobres de entre os pobres da Europa. Não conseguimos ser cosmopolitas ou sequer sofisticados. Em suma, falta “qualidade de vida” à democracia portuguesa. Chegámos, assim, ao seu ano 32 em estado de pura esquizofrenia colectiva. Nem tudo é mau. A eleição do primeiro PR não oriundo especificamente da “esquerda” e da “luta anti-fascista” foi um sinal de maturidade e representou o enterro de velhos demónios e de novas fantasias. Cavaco Silva é, pelo menos, um penhor seguro de credibilidade e de rigor. Nesse sentido, a sua ascensão à chefia do Estado foi o melhor acto comemorativo do 25 de Abril em 2006. Para o ano, a democracia atinge a idade de Cristo. Oxalá não acabe como Ele.(publicado no Independente)
Nota: Este artigo foi escrito antes do discurso do PR proferido perante o Parlamento no passado dia 25. Sobre isso, pronunciei-me aqui.
27.4.06
A "ÉTICA REPUBLICANA"
A "ÉTICA REPUBLICANA"
EVERYMAN

EVERYMAN

LER OS OUTROS
O texto de Fernanda Câncio, escrito em 1993 para a Grande Reportagem, sobre o "Holocaust Memorial Museum" de Washington."Foi um filósofo alemão - evidentemente alemão - Theodor W. Adorno, que o disse: após Auschwitz, não é mais possível. Pensar. Lembrar, sem dúvida. E escrever. Lamentar os mortos, chorar os vivos. E esquecer. Ergue-se contra isso a dor. Um museu. Mas a verdade decretada é que se esquece. Sempre. É esse o ofício da memória: fazer crer que é possível. Pensar, viver . E não ter visto tudo, nunca."
LER OS OUTROS
O texto de Fernanda Câncio, escrito em 1993 para a Grande Reportagem, sobre o "Holocaust Memorial Museum" de Washington."Foi um filósofo alemão - evidentemente alemão - Theodor W. Adorno, que o disse: após Auschwitz, não é mais possível. Pensar. Lembrar, sem dúvida. E escrever. Lamentar os mortos, chorar os vivos. E esquecer. Ergue-se contra isso a dor. Um museu. Mas a verdade decretada é que se esquece. Sempre. É esse o ofício da memória: fazer crer que é possível. Pensar, viver . E não ter visto tudo, nunca."
O "DEBATE"
O "DEBATE"
MAIS NINGUÉM?
Em relação à permanência de Bénard da Costa na Cinemateca Portuguesa até à sua gloriosa mumificação, já disse aqui o que pensava. Também pensava nessa altura que a ministra da Cultura tinha tomado uma decisão política sobre isso. Eis que agora se dá o dito por não dito e Isabel Pires de Lima, com a indispensável anuência de Sócrates, dispôe-se aparentemente a prolongar a "licença especial" que permite a Bénard - aos setenta anos e com uma missão pública impecavelmente cumprida mas porventura exaurida- continuar à frente da Cinemateca. Criticava-se o Estado Novo por convolar em vitalícia a maior parte dos cargos de alta direcção da administração pública. A democracia, pelos vistos, também gosta de ter as suas jarras de estimação. Entretanto foi posta a correr uma inevitável "petição online" em prol de Bénard e, indirectamente, contra Pires de Lima. As capelinhas e o amiguismo mexeram-se depressa. Prado Coelho já as tinha excitado. Parece que está a surtir efeito. A ministra naturalmente tremeu. São sempre os mesmos para o mesmo, dos sete aos setenta e sete anos. Não haverá mais ninguém?Adenda: Sobre o mesmo tema, João Morgado Fernandes.
MAIS NINGUÉM?
Em relação à permanência de Bénard da Costa na Cinemateca Portuguesa até à sua gloriosa mumificação, já disse aqui o que pensava. Também pensava nessa altura que a ministra da Cultura tinha tomado uma decisão política sobre isso. Eis que agora se dá o dito por não dito e Isabel Pires de Lima, com a indispensável anuência de Sócrates, dispôe-se aparentemente a prolongar a "licença especial" que permite a Bénard - aos setenta anos e com uma missão pública impecavelmente cumprida mas porventura exaurida- continuar à frente da Cinemateca. Criticava-se o Estado Novo por convolar em vitalícia a maior parte dos cargos de alta direcção da administração pública. A democracia, pelos vistos, também gosta de ter as suas jarras de estimação. Entretanto foi posta a correr uma inevitável "petição online" em prol de Bénard e, indirectamente, contra Pires de Lima. As capelinhas e o amiguismo mexeram-se depressa. Prado Coelho já as tinha excitado. Parece que está a surtir efeito. A ministra naturalmente tremeu. São sempre os mesmos para o mesmo, dos sete aos setenta e sete anos. Não haverá mais ninguém?Adenda: Sobre o mesmo tema, João Morgado Fernandes.
UM RUDIMENTAR MODELO (actualizado)
Adenda: Paulo Pinto Mascarenhas esclareceu que a revista a que aludo é a Atlântico, no seu número de Maio, já à venda. Mais uma razão para eu gostar da Atlântico. É livre. E, de facto, o meu pedido de desculpas ao Paulo pelo lapso.
UM RUDIMENTAR MODELO (actualizado)
Adenda: Paulo Pinto Mascarenhas esclareceu que a revista a que aludo é a Atlântico, no seu número de Maio, já à venda. Mais uma razão para eu gostar da Atlântico. É livre. E, de facto, o meu pedido de desculpas ao Paulo pelo lapso.
26.4.06
O LIMITE
O LIMITE
PAÍS DO EUFEMISMO
Ao ler levemente os comentários, as notícias e a blogosfera mais dada ao "respeitinho", tudo acerca do pós 25 de Abril de 2006 - por sinal nada político -, lembrei-me, não sei bem porquê, do "País Relativo" do O'Neill. Também gosto do Ruy Belo, como o presidente da República, mas não exactamente daquele Ruy citado. Parece-me que O' Neill vem mais a propósito do que se palrou ontem no Parlamento e do que se vai seguir, se é que se vai seguir alguma coisa. Trinta e dois anos depois continuamos como o poeta nos descreveu nos anos sessenta, "país engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano."País por conhecer, por escrever, por ler...
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
País do cibinho mastigado
devagarinho.
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
lhes agradeça a fontanária ideia!
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.
dum ombro que, com razão duvida.
vai transido mas transistorizado.
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!
já perde a paciência à nossa cabeceira.
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.
na má vida, país, na boa morte!
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.
tens, tão contrafeito...
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!
PAÍS DO EUFEMISMO
Ao ler levemente os comentários, as notícias e a blogosfera mais dada ao "respeitinho", tudo acerca do pós 25 de Abril de 2006 - por sinal nada político -, lembrei-me, não sei bem porquê, do "País Relativo" do O'Neill. Também gosto do Ruy Belo, como o presidente da República, mas não exactamente daquele Ruy citado. Parece-me que O' Neill vem mais a propósito do que se palrou ontem no Parlamento e do que se vai seguir, se é que se vai seguir alguma coisa. Trinta e dois anos depois continuamos como o poeta nos descreveu nos anos sessenta, "país engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano."País por conhecer, por escrever, por ler...
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
País do cibinho mastigado
devagarinho.
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
lhes agradeça a fontanária ideia!
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.
dum ombro que, com razão duvida.
vai transido mas transistorizado.
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!
já perde a paciência à nossa cabeceira.
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.
na má vida, país, na boa morte!
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.
tens, tão contrafeito...
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!
