31.7.11

AS BRUXAS


O homem foi um cretino enquanto marido (de Marilyn Monroe). Mas Arthur Miller é, sem dúvida, um dos grandes dramaturgos do século XX. A sua peça As Bruxas de Salem (The Crucible, no original) estreou em Nova Iorque em 1953. A acção decorre em 1692 e tem por base documentação relativa a um julgamento de alegadas bruxas na cidade de Salém, do Estado do Massachusetts. O "ambiente" é muito nosso conhecido e demasiado contemporâneo, o da suspeita. Carlos Avilez encenou a coisa para o Teatro Experimental de Cascais. Interpretam-na membros do TEC e da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Vale a pena lá ir. Até 7 de Agosto.

AS BRUXAS


O homem foi um cretino enquanto marido (de Marilyn Monroe). Mas Arthur Miller é, sem dúvida, um dos grandes dramaturgos do século XX. A sua peça As Bruxas de Salem (The Crucible, no original) estreou em Nova Iorque em 1953. A acção decorre em 1692 e tem por base documentação relativa a um julgamento de alegadas bruxas na cidade de Salém, do Estado do Massachusetts. O "ambiente" é muito nosso conhecido e demasiado contemporâneo, o da suspeita. Carlos Avilez encenou a coisa para o Teatro Experimental de Cascais. Interpretam-na membros do TEC e da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Vale a pena lá ir. Até 7 de Agosto.

«LEVAR A ÁGUA AO MEU MOINHO»


Estive a ler alguns suplementos de jornais de sábado. Em alguns deles, deparei-me com "articulistas" demasiado preocupados com a "ideologia". Com a deles e com a que eles atribuem aos outros. Também encontrei a centésima entrevista da mesma pessoa feita a outra mesma pessoa, o dr. Mário Soares. Retive o Mário Soares de que gosto porque não leio as perguntas, normalmente mais extensas e sentenciosas que as respostas. Ora o Mário Soares de que gosto é o que confessa que, aos 88 anos, não tem problemas de tensão ou de colesterol - que inveja! -, que aprecia um bom vinho, que afirma que Sócrates «não foi muito claro nem transparente» (pena só ter reparado agora), que não é «amigo das pessoas por razões ideológicas» mas «por achar que elas têm méritos ou não têm», que sustenta que regressar ao escudo «não é o caminho» e que acha que tem «de fazer as coisas que devo fazer.» No fundo, este Soares estava há muito resumido numa entrevista concedida a Mário Mesquita, em 1984, no Diário de Notícias. «Nunca dei uma excessiva importância aos debates ideológicos e sempre condicionei muito mais a minha acção pelas relações políticas e tácticas no terreno, por forma a, pragmaticamente, levar a água ao meu moinho.» Não está mal pensado.

«LEVAR A ÁGUA AO MEU MOINHO»


Estive a ler alguns suplementos de jornais de sábado. Em alguns deles, deparei-me com "articulistas" demasiado preocupados com a "ideologia". Com a deles e com a que eles atribuem aos outros. Também encontrei a centésima entrevista da mesma pessoa feita a outra mesma pessoa, o dr. Mário Soares. Retive o Mário Soares de que gosto porque não leio as perguntas, normalmente mais extensas e sentenciosas que as respostas. Ora o Mário Soares de que gosto é o que confessa que, aos 88 anos, não tem problemas de tensão ou de colesterol - que inveja! -, que aprecia um bom vinho, que afirma que Sócrates «não foi muito claro nem transparente» (pena só ter reparado agora), que não é «amigo das pessoas por razões ideológicas» mas «por achar que elas têm méritos ou não têm», que sustenta que regressar ao escudo «não é o caminho» e que acha que tem «de fazer as coisas que devo fazer.» No fundo, este Soares estava há muito resumido numa entrevista concedida a Mário Mesquita, em 1984, no Diário de Notícias. «Nunca dei uma excessiva importância aos debates ideológicos e sempre condicionei muito mais a minha acção pelas relações políticas e tácticas no terreno, por forma a, pragmaticamente, levar a água ao meu moinho.» Não está mal pensado.

30.7.11

O "MEIO" E A REALIDADE


Uma grande verdade. Mas aparentemente o "povo" não se deixa comover pelos amores-ódio do "meio".

O "MEIO" E A REALIDADE


Uma grande verdade. Mas aparentemente o "povo" não se deixa comover pelos amores-ódio do "meio".

EXACTAMENTE

«O debate de ontem, no Parlamento, foi, genericamente, civilizado. Só isso, já é uma grande diferença.»

Pedro Santana Lopes

EXACTAMENTE

«O debate de ontem, no Parlamento, foi, genericamente, civilizado. Só isso, já é uma grande diferença.»

Pedro Santana Lopes

COISAS QUE TÊM DE MUDAR

As deste jaez.

COISAS QUE TÊM DE MUDAR

As deste jaez.

NO TINTEIRO

O mais interessante da 1ª página do Expresso vem em baixo, em letras pequeninas que remetem para o suplemento Economia. «Négócios prometidos por Chávez ficaram no tinteiro», reza a coisa. Todos nos lembramos das festanças a araganças que sempre rodearam as passagens do líder venezuelano por Portugal, de Lisboa a Viana do Castelo. Ficamos assim? Se calhar ficamos.

NO TINTEIRO

O mais interessante da 1ª página do Expresso vem em baixo, em letras pequeninas que remetem para o suplemento Economia. «Négócios prometidos por Chávez ficaram no tinteiro», reza a coisa. Todos nos lembramos das festanças a araganças que sempre rodearam as passagens do líder venezuelano por Portugal, de Lisboa a Viana do Castelo. Ficamos assim? Se calhar ficamos.

28.7.11

A PASSO DE CARACOL


«O que na verdade se passa é que a Europa tem vivido num estado que Jean-Paul Fitoussi, no próprio dia da Cimeira, designou no Le Monde como «a paralisia da decisão». Paralisia que é acentuada pela diferença entre a crise financeira que se tem vivido, e a crise do euro que agora nos ameaça: é que enquanto o motor da primeira foi a cupidez, o da segunda é a virtude pública que se impôs com a visão austeritária da Europa e dos seus problemas. Com esta visão, consolidou-se a ideia absconsa que no futuro só há despesas e dívidas, não há receitas. O que, naturalmente, só pode levar ao aumento das taxas de juro e ao aperto do garrote sobre os devedores. É assim, explica J.-P Fitoussi, «que a especulação se revela auto-realizadora, produzindo as condições de insolvabilidade: alta das taxas de juro e, portanto, do serviço da dívida, aritmeticamente compensada por uma redução das despesas e um aumento dos impostos.» A especulação, acrescenta, não podia desejar melhor que esta política de impotência que, a pretexto das responsabilidades nacionais, tem gerado uma verdadeira irresponsabilidade europeia. É por isso bom perceber que, se finalmente nos afastámos um pouco desta irresponsabilidade com a última Cimeira Europeia, isso se fez todavia a passo de caracol.»

M. M. Carrilho, Contingências

A PASSO DE CARACOL


«O que na verdade se passa é que a Europa tem vivido num estado que Jean-Paul Fitoussi, no próprio dia da Cimeira, designou no Le Monde como «a paralisia da decisão». Paralisia que é acentuada pela diferença entre a crise financeira que se tem vivido, e a crise do euro que agora nos ameaça: é que enquanto o motor da primeira foi a cupidez, o da segunda é a virtude pública que se impôs com a visão austeritária da Europa e dos seus problemas. Com esta visão, consolidou-se a ideia absconsa que no futuro só há despesas e dívidas, não há receitas. O que, naturalmente, só pode levar ao aumento das taxas de juro e ao aperto do garrote sobre os devedores. É assim, explica J.-P Fitoussi, «que a especulação se revela auto-realizadora, produzindo as condições de insolvabilidade: alta das taxas de juro e, portanto, do serviço da dívida, aritmeticamente compensada por uma redução das despesas e um aumento dos impostos.» A especulação, acrescenta, não podia desejar melhor que esta política de impotência que, a pretexto das responsabilidades nacionais, tem gerado uma verdadeira irresponsabilidade europeia. É por isso bom perceber que, se finalmente nos afastámos um pouco desta irresponsabilidade com a última Cimeira Europeia, isso se fez todavia a passo de caracol.»

M. M. Carrilho, Contingências

O DIREITO À IMBECILIDADE

Há muito tempo - anos mesmo - que anunciei num post que este blogue praticava a aprovação, ou não, prévia dos comentários. E, para casos desesperados, tenho mesmo chegado a recomendar a abertura de blogues para se aliviarem em vez de virem lavar as vísceras para os blogues dos outros. De acordo com o Blogger, são apenas três (3) passos. Ou seja, nada mudou relativamente à "política" editorial do blogue onde o autor escreve o que lhe apetece, quando lhe apetece e como lhe apetece. Recentemente a patrulha anónima tem estado particularmente activa. Não faz mal. Como Karl Kraus, sei que existem imbecis superficiais e imbecis profundos. A patrulha pode, porém, ficar descansada. Não discrimino ninguém.

O DIREITO À IMBECILIDADE

Há muito tempo - anos mesmo - que anunciei num post que este blogue praticava a aprovação, ou não, prévia dos comentários. E, para casos desesperados, tenho mesmo chegado a recomendar a abertura de blogues para se aliviarem em vez de virem lavar as vísceras para os blogues dos outros. De acordo com o Blogger, são apenas três (3) passos. Ou seja, nada mudou relativamente à "política" editorial do blogue onde o autor escreve o que lhe apetece, quando lhe apetece e como lhe apetece. Recentemente a patrulha anónima tem estado particularmente activa. Não faz mal. Como Karl Kraus, sei que existem imbecis superficiais e imbecis profundos. A patrulha pode, porém, ficar descansada. Não discrimino ninguém.

27.7.11

COMPENSAR A FINITUDE


«Siempre me ha dado pena la gente que no lee, y no ya porque sean más incultos, que sin duda lo son; o porque estén más indefensos y sean menos libres, que también, sino, sobre todo, porque viven muchísimo menos. La gran tragedia de los seres humanos es haber venido al mundo llenos de ansias de vivir y estar condenados a una existencia efímera. Las vidas son siempre mucho más pequeñas que nuestros sueños; incluso la vida del hombre o la mujer más grandes es infinitamente más estrecha que sus deseos. La vida nos aprieta en las axilas, como un traje mal hecho. Por eso necesitamos leer, e ir al teatro o al cine. Necessitamos vivirnos a lo ancho en otras existencias, para compensar la finitud. Y no hay vida virtual más poderosa ni más hipnotizante que la que nos ofrece la literatura.»

Rosa Montero, citada por The Cat Scats

COMPENSAR A FINITUDE


«Siempre me ha dado pena la gente que no lee, y no ya porque sean más incultos, que sin duda lo son; o porque estén más indefensos y sean menos libres, que también, sino, sobre todo, porque viven muchísimo menos. La gran tragedia de los seres humanos es haber venido al mundo llenos de ansias de vivir y estar condenados a una existencia efímera. Las vidas son siempre mucho más pequeñas que nuestros sueños; incluso la vida del hombre o la mujer más grandes es infinitamente más estrecha que sus deseos. La vida nos aprieta en las axilas, como un traje mal hecho. Por eso necesitamos leer, e ir al teatro o al cine. Necessitamos vivirnos a lo ancho en otras existencias, para compensar la finitud. Y no hay vida virtual más poderosa ni más hipnotizante que la que nos ofrece la literatura.»

Rosa Montero, citada por The Cat Scats

LER OS OUTROS

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ET POURTANT

ET POURTANT

26.7.11

MÉRITOS

Pedro Santana Lopes, na tvi24, e a propósito das anunciadas alterações no modelo de gestão da CGD, sugeriu (porventura bem) que funcionários das próprias instituições possam aceder às respectivas administrações. Existe, aliás, um precedente relativamente conhecido e recente. Armando Vara chegou lá.

MÉRITOS

Pedro Santana Lopes, na tvi24, e a propósito das anunciadas alterações no modelo de gestão da CGD, sugeriu (porventura bem) que funcionários das próprias instituições possam aceder às respectivas administrações. Existe, aliás, um precedente relativamente conhecido e recente. Armando Vara chegou lá.

O SR. ALFREDO

Teresa Caeiro nunca foi propriamente louvada neste blogue. Por escolha dos seus pares, Caeiro é vice-presidente da Assembleia da República. E, para além disso, é uma senhora. Tudo visto e ponderado, estou à vontade para me (a) questionar sobre a sua pachorra para partilhar o ecrã de televisão com Alfredo Barroso. Para aturar o sr. Alfredo - e à sua patética sobranceria- como Teresa, adequadamente, o tratou.

O SR. ALFREDO

Teresa Caeiro nunca foi propriamente louvada neste blogue. Por escolha dos seus pares, Caeiro é vice-presidente da Assembleia da República. E, para além disso, é uma senhora. Tudo visto e ponderado, estou à vontade para me (a) questionar sobre a sua pachorra para partilhar o ecrã de televisão com Alfredo Barroso. Para aturar o sr. Alfredo - e à sua patética sobranceria- como Teresa, adequadamente, o tratou.

CLARO E SIMPLES

Leio nos jornais online a primeira intervenção pública de fundo do ministro da Saúde, Paulo Macedo. E aprecio ler qualquer coisa completamente distinta da forma algo profética, ineficaz e demasiado retórica com que tem sido abordado o problema do SNS nos últimos anos. Em primeiro lugar, e porque é preciso «preservar o Serviço Nacional de Saúde», «temos o desafio de estancar e sarar uma dívida actual de cerca de três mil milhões de euros e um défice orçamental de 2010 que se aproxima dos 450 milhões» porque «termos contas sustentáveis na Saúde para garantir o futuro do SNS» é «o principal compromisso que o Governo assume com os portugueses.» Dito de outra forma: «pretende-se que os cidadãos possam usufruir de todas as potencialidades do Sistema de Saúde, indo além do SNS, de maneira que a resposta possa sempre existir e seja a mais adequada às necessidades dos cidadãos.» É esse o caminho a seguir «atentos ao percurso mas indiferentes ao ruído que apenas pretenda perturbar sem contribuir de forma construtiva para as mudanças que inexoravelmente vamos implementar.» Em segundo lugar, haver «disponibilização mensal de informação de gestão sobre o desempenho das Instituições (hospitais, centros de saúde e serviços)» para «construir políticas mais realistas, mais rigorosas, mas menos demagógicas e menos despesistas» é um dado a guardar. Finalmente, «o Ministro da Saúde assume-se como Ministro do Sistema de Saúde e não apenas do SNS. Há excelentes unidades de saúde públicas, em Portugal e excelentes unidades privadas. Vamos, sem quaisquer preconceitos, aproveitar o melhor de cada experiência e colocá-la ao serviço do todo.» Parece-me claro e simples.

CLARO E SIMPLES

Leio nos jornais online a primeira intervenção pública de fundo do ministro da Saúde, Paulo Macedo. E aprecio ler qualquer coisa completamente distinta da forma algo profética, ineficaz e demasiado retórica com que tem sido abordado o problema do SNS nos últimos anos. Em primeiro lugar, e porque é preciso «preservar o Serviço Nacional de Saúde», «temos o desafio de estancar e sarar uma dívida actual de cerca de três mil milhões de euros e um défice orçamental de 2010 que se aproxima dos 450 milhões» porque «termos contas sustentáveis na Saúde para garantir o futuro do SNS» é «o principal compromisso que o Governo assume com os portugueses.» Dito de outra forma: «pretende-se que os cidadãos possam usufruir de todas as potencialidades do Sistema de Saúde, indo além do SNS, de maneira que a resposta possa sempre existir e seja a mais adequada às necessidades dos cidadãos.» É esse o caminho a seguir «atentos ao percurso mas indiferentes ao ruído que apenas pretenda perturbar sem contribuir de forma construtiva para as mudanças que inexoravelmente vamos implementar.» Em segundo lugar, haver «disponibilização mensal de informação de gestão sobre o desempenho das Instituições (hospitais, centros de saúde e serviços)» para «construir políticas mais realistas, mais rigorosas, mas menos demagógicas e menos despesistas» é um dado a guardar. Finalmente, «o Ministro da Saúde assume-se como Ministro do Sistema de Saúde e não apenas do SNS. Há excelentes unidades de saúde públicas, em Portugal e excelentes unidades privadas. Vamos, sem quaisquer preconceitos, aproveitar o melhor de cada experiência e colocá-la ao serviço do todo.» Parece-me claro e simples.

25.7.11

FRUGALIDADE E QUALIDADE

Na sequência do post anterior, esta parece ser uma proposta sensata.

FRUGALIDADE E QUALIDADE

Na sequência do post anterior, esta parece ser uma proposta sensata.

SEM TERGIVERSAÇÕES OU PAUSAS

«Vítor Gaspar foi particularmente contundente ao sublinhar que menores encargos de juros e mais tempo para pagar o empréstimo europeu não podem servir de pretextos para que Portugal retire do pé do acelerador das reformas acordadas com a troika. Bem pelo contrário. “Nas actuais circunstâncias seria irresponsável pensar que se pode abrandar o ritmo de aplicação do programa”. A declaração europeia de que continuará a apoiar também Portugal (a par da Irlanda) “vem reforçar ainda mais a exigência de cumprimento do nosso programa de ajustamento económico e financeiro”.»

in Jornal de Negócios

SEM TERGIVERSAÇÕES OU PAUSAS

«Vítor Gaspar foi particularmente contundente ao sublinhar que menores encargos de juros e mais tempo para pagar o empréstimo europeu não podem servir de pretextos para que Portugal retire do pé do acelerador das reformas acordadas com a troika. Bem pelo contrário. “Nas actuais circunstâncias seria irresponsável pensar que se pode abrandar o ritmo de aplicação do programa”. A declaração europeia de que continuará a apoiar também Portugal (a par da Irlanda) “vem reforçar ainda mais a exigência de cumprimento do nosso programa de ajustamento económico e financeiro”.»

in Jornal de Negócios

10807

O assassino norueguês tinha 10807 portugueses na mira para abater. Traidores, dizia a criatura. Curioso número. Por que não 10806 ou 10808? É assustador pensar que na Europa há pessoas, como este monstrinho, com obsessões a este nível de precisão mitómana. O mundo está perigoso, como dizia o outro.

10807

O assassino norueguês tinha 10807 portugueses na mira para abater. Traidores, dizia a criatura. Curioso número. Por que não 10806 ou 10808? É assustador pensar que na Europa há pessoas, como este monstrinho, com obsessões a este nível de precisão mitómana. O mundo está perigoso, como dizia o outro.

24.7.11

MARIA LÚCIA LEPECKI (1940-2011)


A última vez que vi Maria Lúcia Lepecki foi numa apresentação do terceiro volume da biografia política de Cunhal da autoria de José Pacheco Pereira. Aconteceu em 2005, na FNAC do Colombo. Mas, muito antes disso, "conhecia" a professora brasileira de um livrinho original acerca de Eça, "Eça na ambiguidade". Era, literalmente, uma amante da nossa literatura. «Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira.» Concordo consigo, Maria Lúcia. Até sempre.

MARIA LÚCIA LEPECKI (1940-2011)


A última vez que vi Maria Lúcia Lepecki foi numa apresentação do terceiro volume da biografia política de Cunhal da autoria de José Pacheco Pereira. Aconteceu em 2005, na FNAC do Colombo. Mas, muito antes disso, "conhecia" a professora brasileira de um livrinho original acerca de Eça, "Eça na ambiguidade". Era, literalmente, uma amante da nossa literatura. «Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira.» Concordo consigo, Maria Lúcia. Até sempre.

INSCRIÇÃO



Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar


Sophia de Mello Breyner Andresen

INSCRIÇÃO



Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar


Sophia de Mello Breyner Andresen

CORNELL MACNEIL (1922-2011)



Cornell MacNeil fazia parte de um raríssimo naipe de barítonos norte-americanos que honraram o teatro lírico mundial, com a sua voz e as suas capacidades histriónicas, como Leonard Warren e Robert Merrill. Sherrill Milnes é o "sobrevivente".

CORNELL MACNEIL (1922-2011)



Cornell MacNeil fazia parte de um raríssimo naipe de barítonos norte-americanos que honraram o teatro lírico mundial, com a sua voz e as suas capacidades histriónicas, como Leonard Warren e Robert Merrill. Sherrill Milnes é o "sobrevivente".

ADVERSÁRIOS E INIMIGOS


Os militantes do PS escolheram António José Seguro para seu líder e, consequentemente, para líder da oposição. O desprezo silencioso - típico de quem é incapaz de uma atitude crítica livre que não ressuma exclusivamente do rancor ou do servilismo - com que a sua vitória foi recebida pelas hostes afectas ao seu antecessor (com a óbvia excepção de Assis) é revelador da "densidade" democrática que os caracteriza. Seguro encontrará fora do partido muitos adversários a começar pelo autor deste blogue. Mas não terá tantos inimigos como dentro de casa.

ADVERSÁRIOS E INIMIGOS


Os militantes do PS escolheram António José Seguro para seu líder e, consequentemente, para líder da oposição. O desprezo silencioso - típico de quem é incapaz de uma atitude crítica livre que não ressuma exclusivamente do rancor ou do servilismo - com que a sua vitória foi recebida pelas hostes afectas ao seu antecessor (com a óbvia excepção de Assis) é revelador da "densidade" democrática que os caracteriza. Seguro encontrará fora do partido muitos adversários a começar pelo autor deste blogue. Mas não terá tantos inimigos como dentro de casa.

«SEM CONVICÇÃO NA LIBERDADE NÃO VAMOS LÁ»

Aqui. Também aqui.

«SEM CONVICÇÃO NA LIBERDADE NÃO VAMOS LÁ»

Aqui. Também aqui.

NUCCI, VERDI



Verdi, Luisa Miller. Dimitra Theodossiou e Leo Nucci.

NUCCI, VERDI



Verdi, Luisa Miller. Dimitra Theodossiou e Leo Nucci.

23.7.11

CALMA DE MORTE


Os países do norte da Europa têm a fama (e algum proveito) de serem calmos. Por isso é-lhes díficil entender que o inimigo possa ser um dos seus. A "calma" com que foram eliminados Olaf Palme, a ministra dos negócios estrangeiros sueca ou um líder partidário holandês, por exemplo, destoa dos lugares-comuns sobre a "normalidade". Há pouco, o correspondente da RTP falava do homicida norueguês como uma "pessoa normal", aparentemente em contraponto a que seria expectável que o ataque viesse do terrorismo islâmico. A Europa dos nacionalismos doentios nunca faleceu. Da mesma forma que o cosmopolitismo - coisa distinta da demagogia "multicultural" - custa a entrar em muitas cabeças aparentemente perfeitas, "normais" e "calmas". Há "calmas" que são de morte.

CALMA DE MORTE


Os países do norte da Europa têm a fama (e algum proveito) de serem calmos. Por isso é-lhes díficil entender que o inimigo possa ser um dos seus. A "calma" com que foram eliminados Olaf Palme, a ministra dos negócios estrangeiros sueca ou um líder partidário holandês, por exemplo, destoa dos lugares-comuns sobre a "normalidade". Há pouco, o correspondente da RTP falava do homicida norueguês como uma "pessoa normal", aparentemente em contraponto a que seria expectável que o ataque viesse do terrorismo islâmico. A Europa dos nacionalismos doentios nunca faleceu. Da mesma forma que o cosmopolitismo - coisa distinta da demagogia "multicultural" - custa a entrar em muitas cabeças aparentemente perfeitas, "normais" e "calmas". Há "calmas" que são de morte.

VEMOS, OUVIMOS E LEMOS, NÃO PODEMOS IGNORAR


Por circunstâncias diversas, o jornalismo (e os jornalistas), face às desventuras ocorrentes na pátria de Sua Majestade britânica, tomou conta da impropriamente chamada silly season. Costumo dizer que, como com tudo e todos na vida, tenho respeito pela profissão mas não me consumo em temores reverenciais perante ela. Também não sou adepto de "teorias da conspiração" que envolvem invariavelmente jornalistas ou ex-jornalistas a não ser, como no affair Murdoch, que fique provado o contrário. Todavia, existe manifestamente uma crise (a juntar à económica) a grassar os meios tradicionais de comunicação social. E os problemas do mercado - tão cheio de incerteza quanto de imprudência (gosto destes termos do ministro das finanças) - só agravam a questão. O que muitas vezes uma manchete espelha é mais a consequência disto do que uma "notícia" em si. Um conhecido comentador televisivo ficou, aliás, famoso quando, numa outra encarnação, era tido por "criador" de "factos políticos"numa altura em que a concorrência e a penúria estavam longe de ser o que agora são. Aprendi com um professor de direito que a vida é sempre mais rica do que a imaginação. Eis um dado a ter em conta pelo jornalismo para os dias de imprevisibilidade que vivemos. António Guerreiro, jornalista do suplemento Actual do Expresso, lembrou-se de Karl Kraus por causa de Murdoch e da política inglesa contemporânea - de Thatcher a Blair, de Brown a Cameron. Kraus, o polemista de Die Fackel, apodava o jornalismo de "magia negra" («os jornais têm mais ou menos a mesma relação com a vida que a cartomante com a metafísica») e desconfiava profundamente da opinião pública, o equivalente ao senso comum que Nabokov explicava como o cruzamento de um cavalo com um elefante. As referidas concorrência e penúria, porém, "mataram" a polémica ou colocaram-na (sobretudo a falsa) aos serviço delas. Desapareceu, em suma, uma certa noção de liberdade de espírito culto que caracterizava os tempos também diferentemente difíceis que Kraus viveu e descreveu. Dizia ele que «a missão da imprensa consiste em propagar o entendimento e, simultaneamente, em destruir a receptividade do entendimento.» Não lhe demos, mais de um século depois, motivos para ter razão.

VEMOS, OUVIMOS E LEMOS, NÃO PODEMOS IGNORAR


Por circunstâncias diversas, o jornalismo (e os jornalistas), face às desventuras ocorrentes na pátria de Sua Majestade britânica, tomou conta da impropriamente chamada silly season. Costumo dizer que, como com tudo e todos na vida, tenho respeito pela profissão mas não me consumo em temores reverenciais perante ela. Também não sou adepto de "teorias da conspiração" que envolvem invariavelmente jornalistas ou ex-jornalistas a não ser, como no affair Murdoch, que fique provado o contrário. Todavia, existe manifestamente uma crise (a juntar à económica) a grassar os meios tradicionais de comunicação social. E os problemas do mercado - tão cheio de incerteza quanto de imprudência (gosto destes termos do ministro das finanças) - só agravam a questão. O que muitas vezes uma manchete espelha é mais a consequência disto do que uma "notícia" em si. Um conhecido comentador televisivo ficou, aliás, famoso quando, numa outra encarnação, era tido por "criador" de "factos políticos"numa altura em que a concorrência e a penúria estavam longe de ser o que agora são. Aprendi com um professor de direito que a vida é sempre mais rica do que a imaginação. Eis um dado a ter em conta pelo jornalismo para os dias de imprevisibilidade que vivemos. António Guerreiro, jornalista do suplemento Actual do Expresso, lembrou-se de Karl Kraus por causa de Murdoch e da política inglesa contemporânea - de Thatcher a Blair, de Brown a Cameron. Kraus, o polemista de Die Fackel, apodava o jornalismo de "magia negra" («os jornais têm mais ou menos a mesma relação com a vida que a cartomante com a metafísica») e desconfiava profundamente da opinião pública, o equivalente ao senso comum que Nabokov explicava como o cruzamento de um cavalo com um elefante. As referidas concorrência e penúria, porém, "mataram" a polémica ou colocaram-na (sobretudo a falsa) aos serviço delas. Desapareceu, em suma, uma certa noção de liberdade de espírito culto que caracterizava os tempos também diferentemente difíceis que Kraus viveu e descreveu. Dizia ele que «a missão da imprensa consiste em propagar o entendimento e, simultaneamente, em destruir a receptividade do entendimento.» Não lhe demos, mais de um século depois, motivos para ter razão.

QUANDO OS ESPIÕES ERAM ADULTOS


«A editora D. Quixote acaba precisamente de reeditar A Toupeira, um livro que tem Smiley como protagonista e a denúncia de um agente duplo ao serviço dos soviéticos como fio condutor. A trama é bem esgalhada mas o que logo sobressai é o retrato das personagens, a começar pela do espião britânico na reforma. Verdadeiro anti-herói, fisicamente decadente, introspectivo e com um casamento falhado (a forma como lida com a infidelidade da mulher é um magnífico traço do seu carácter), Smiley conduz paulatinamente a investigação, toda ela assente em episódios do passado que a memória de agentes lançados ao ostracismo vai desenterrando. História adulta com a Guerra-fria em fundo, A Toupeira recusa qualquer visão maniqueísta do mundo, sobretudo, qualquer visão maniqueísta dos homens. O suspense domina mas o que assombra é a inteligência de le Carré, capaz de nos envolver num enredo de espiões nostálgicos e simultaneamente implacáveis. Além disso, o que pode ser mais romanesco do que a descodificação de um duplo?»

Ana Cristina Leonardo, Meditação na Pastelaria

QUANDO OS ESPIÕES ERAM ADULTOS


«A editora D. Quixote acaba precisamente de reeditar A Toupeira, um livro que tem Smiley como protagonista e a denúncia de um agente duplo ao serviço dos soviéticos como fio condutor. A trama é bem esgalhada mas o que logo sobressai é o retrato das personagens, a começar pela do espião britânico na reforma. Verdadeiro anti-herói, fisicamente decadente, introspectivo e com um casamento falhado (a forma como lida com a infidelidade da mulher é um magnífico traço do seu carácter), Smiley conduz paulatinamente a investigação, toda ela assente em episódios do passado que a memória de agentes lançados ao ostracismo vai desenterrando. História adulta com a Guerra-fria em fundo, A Toupeira recusa qualquer visão maniqueísta do mundo, sobretudo, qualquer visão maniqueísta dos homens. O suspense domina mas o que assombra é a inteligência de le Carré, capaz de nos envolver num enredo de espiões nostálgicos e simultaneamente implacáveis. Além disso, o que pode ser mais romanesco do que a descodificação de um duplo?»

Ana Cristina Leonardo, Meditação na Pastelaria

22.7.11

SEM EFEITOS ESPECIAIS OU OCULTAÇÕES

«O estilo do ministro das Finanças não me parece só “estilo”. Parece-me ser a postura normal, genuína, de um homem que está empenhado naquilo que está a fazer, sem subordinar o que tem a dizer aos efeitos especiais de fogo-de-vista e ocultação que nos dominaram nos últimos anos.»

J. Pacheco Pereira, Abrupto

SEM EFEITOS ESPECIAIS OU OCULTAÇÕES

«O estilo do ministro das Finanças não me parece só “estilo”. Parece-me ser a postura normal, genuína, de um homem que está empenhado naquilo que está a fazer, sem subordinar o que tem a dizer aos efeitos especiais de fogo-de-vista e ocultação que nos dominaram nos últimos anos.»

J. Pacheco Pereira, Abrupto

DA TRADIÇÃO


Continuo a ler o livrinho de Cintra Torres. Quando fala da RTP dos idos do PREC, é pena não ter feito qualquer referência ao então Major Ramalho Eanes - que lhe presidiu - e que, seguramente, muito teria para contar sobre o que foi aquela «escola de convivência democrática» ao Lumiar. Mas, de lá para cá, muita coisa mudou. A primeira parte do trabalho explica isso, em geral, no mundo. Por exemplo, a televisão e os seus "actores tradicionais" - recrutados aos mais diversos sectores de actividade: da astrologia à pecuária, da política à academia, da comunicação social escrita à bola, etc., etc. - foram "obrigados" a conviver com uma «nova distribuição do poder» que decorre do «reforço da sociedade civil» e de «uma cidadania activa para a obtenção do bem comum geralmente à margem dos poderes estabelecidos» o que provoca, inevitavelmente, uma «alteração do equilíbrio dos poderes». De facto, não poder existir uma "escola" (e, de preferência, de um só catedrático com sebenta única) do pensamento único é uma chatice. E haver independência crítica não "tradicional" também.

Adenda: No plano poético e ensaístico, existe um belo escrito de T. S. Eliot sobre a "tradição e o talento inidvidual", de 1919. Com cautela, pode ler-se para outros registos. «And the poet cannot reach this impersonality without surrendering himself wholly to the work to be done. And he is not likely to know what is to be done unless he lives in what is not merely the present, but the present moment of the past, unless he is conscious, not of what is dead, but of what is already living.»

DA TRADIÇÃO


Continuo a ler o livrinho de Cintra Torres. Quando fala da RTP dos idos do PREC, é pena não ter feito qualquer referência ao então Major Ramalho Eanes - que lhe presidiu - e que, seguramente, muito teria para contar sobre o que foi aquela «escola de convivência democrática» ao Lumiar. Mas, de lá para cá, muita coisa mudou. A primeira parte do trabalho explica isso, em geral, no mundo. Por exemplo, a televisão e os seus "actores tradicionais" - recrutados aos mais diversos sectores de actividade: da astrologia à pecuária, da política à academia, da comunicação social escrita à bola, etc., etc. - foram "obrigados" a conviver com uma «nova distribuição do poder» que decorre do «reforço da sociedade civil» e de «uma cidadania activa para a obtenção do bem comum geralmente à margem dos poderes estabelecidos» o que provoca, inevitavelmente, uma «alteração do equilíbrio dos poderes». De facto, não poder existir uma "escola" (e, de preferência, de um só catedrático com sebenta única) do pensamento único é uma chatice. E haver independência crítica não "tradicional" também.

Adenda: No plano poético e ensaístico, existe um belo escrito de T. S. Eliot sobre a "tradição e o talento inidvidual", de 1919. Com cautela, pode ler-se para outros registos. «And the poet cannot reach this impersonality without surrendering himself wholly to the work to be done. And he is not likely to know what is to be done unless he lives in what is not merely the present, but the present moment of the past, unless he is conscious, not of what is dead, but of what is already living.»

"DE MANEIRA RIGOROSA"

"DE MANEIRA RIGOROSA"

LUCIAN FREUD (1922-2011)

LUCIAN FREUD (1922-2011)

21.7.11

UM DIA DE «VISÃO CLARA»?


«Hoje é dia de stress test para os líderes europeus. Depois de um ano e meio a meter a cabeça na areia, a estratégia de avestruz da União Europeia conduziu-nos à beira do colapso. Se logo no início se tivesse, com rapidez e com um mínimo de solidariedade, resolvido o problema da dívida grega - de uma economia que não vale senão 2% do PIB europeu, é bom lembrá-lo -, teríamos sido poupados ao calvário por que a Europa tem passado, assim como ao momento extremamente difícil que agora se vive. Infelizmente, foi preciso esperar pelo toque de alarme italiano que - com uma dívida que é 120% do PIB, quatro vezes maior que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira - tornou finalmente plausível, para a Alemanha e para os seus aliados, a iminência de uma catástrofe em dominó de toda a Zona Euro, com consequências que na verdade ninguém consegue antecipar. A. Merkel parece abalada no seu dogmatismo, mas resistirá: o ralhete de H. Kohl e as críticas no interior do seu próprio partido juntaram-se agora aos pífios resultados deste ano de catatónica teimosia. Pena é que, pelo que até este momento se sabe, ainda não se tenha conseguido consensualizar qualquer alternativa sólida ao diktat alemão. Esperemos, contudo, que seja um dia de "visão clara", como pediu Jacques Delors no apelo feito há dias. Ou seja, que o Conselho Europeu, evitando o default da Grécia, assuma que a União não é um casino, e que, portanto, os investidores e os especuladores, quando arriscam, tanto podem ganhar como perder. Acabando a garantia de que quando ganham é tudo deles - e é!... -, mas quando perdem é o contribuinte que tem que os compensar das perdas. E que se caminhe rapidamente para a efectiva regulação dos bancos e dos mercados financeiros, ao mesmo tempo que se definem timings realistas que permitam cumprir o imperativo do equilíbrio das contas públicas sem inviabilizar o crescimento e condenar o emprego.»

M. M. Carrilho, DN

UM DIA DE «VISÃO CLARA»?


«Hoje é dia de stress test para os líderes europeus. Depois de um ano e meio a meter a cabeça na areia, a estratégia de avestruz da União Europeia conduziu-nos à beira do colapso. Se logo no início se tivesse, com rapidez e com um mínimo de solidariedade, resolvido o problema da dívida grega - de uma economia que não vale senão 2% do PIB europeu, é bom lembrá-lo -, teríamos sido poupados ao calvário por que a Europa tem passado, assim como ao momento extremamente difícil que agora se vive. Infelizmente, foi preciso esperar pelo toque de alarme italiano que - com uma dívida que é 120% do PIB, quatro vezes maior que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira - tornou finalmente plausível, para a Alemanha e para os seus aliados, a iminência de uma catástrofe em dominó de toda a Zona Euro, com consequências que na verdade ninguém consegue antecipar. A. Merkel parece abalada no seu dogmatismo, mas resistirá: o ralhete de H. Kohl e as críticas no interior do seu próprio partido juntaram-se agora aos pífios resultados deste ano de catatónica teimosia. Pena é que, pelo que até este momento se sabe, ainda não se tenha conseguido consensualizar qualquer alternativa sólida ao diktat alemão. Esperemos, contudo, que seja um dia de "visão clara", como pediu Jacques Delors no apelo feito há dias. Ou seja, que o Conselho Europeu, evitando o default da Grécia, assuma que a União não é um casino, e que, portanto, os investidores e os especuladores, quando arriscam, tanto podem ganhar como perder. Acabando a garantia de que quando ganham é tudo deles - e é!... -, mas quando perdem é o contribuinte que tem que os compensar das perdas. E que se caminhe rapidamente para a efectiva regulação dos bancos e dos mercados financeiros, ao mesmo tempo que se definem timings realistas que permitam cumprir o imperativo do equilíbrio das contas públicas sem inviabilizar o crescimento e condenar o emprego.»

M. M. Carrilho, DN

20.7.11

A CAPITAL


Enquanto lisboeta militante, concordo com Pedro Santana Lopes quando, a propósito de uma nova configuração das freguesias de Lisboa (as anteriores 53 configuradas em 24) aprovada pela CML, afirma que «o sentido do trabalho é positivo e o propósito é louvável» independentemente de posições partidárias específicas. Não fazia o menor sentido, por exemplo, uma mesma avenida de Lisboa "passar" por umas quatro ou cinco freguesias. As coisas são o que são. Mas também são o que têm de ser.

A CAPITAL


Enquanto lisboeta militante, concordo com Pedro Santana Lopes quando, a propósito de uma nova configuração das freguesias de Lisboa (as anteriores 53 configuradas em 24) aprovada pela CML, afirma que «o sentido do trabalho é positivo e o propósito é louvável» independentemente de posições partidárias específicas. Não fazia o menor sentido, por exemplo, uma mesma avenida de Lisboa "passar" por umas quatro ou cinco freguesias. As coisas são o que são. Mas também são o que têm de ser.

"CONCEITO DE QUALIDADE"


Estava a ler ao almoço o livrinho de Eduardo Cintra Torres, A Televisão e o Serviço Público. Deparei-me com uma frase. «O conceito de qualidade, em relação à TV, cria um bloqueio intelectual aos autores e comentadores das elites cultas, que tendem a confundir qualidade com o (seu) gosto.» Por exemplo, ainda não vi nenhum comentador "das elites cultas" (se calhar por distracção minha, porque não vivo agarrado ao ecrã, e alguém poderá ter intervalado o "financês" - a lingua franca em vigor - com o tema) "comentar" o chamado affair Murdoch e o que ele revela de instintualmente repugnante em qualquer parte do mundo, civilizado ou não. Mas não devemos interferir no conceito de qualidade (mesmo quando ele é "impreciso") de cada um.

"CONCEITO DE QUALIDADE"


Estava a ler ao almoço o livrinho de Eduardo Cintra Torres, A Televisão e o Serviço Público. Deparei-me com uma frase. «O conceito de qualidade, em relação à TV, cria um bloqueio intelectual aos autores e comentadores das elites cultas, que tendem a confundir qualidade com o (seu) gosto.» Por exemplo, ainda não vi nenhum comentador "das elites cultas" (se calhar por distracção minha, porque não vivo agarrado ao ecrã, e alguém poderá ter intervalado o "financês" - a lingua franca em vigor - com o tema) "comentar" o chamado affair Murdoch e o que ele revela de instintualmente repugnante em qualquer parte do mundo, civilizado ou não. Mas não devemos interferir no conceito de qualidade (mesmo quando ele é "impreciso") de cada um.

COLMATAR BARBARIDADES

«Já toda a gente sabia que a preparação dos alunos do básico e do secundário nas disciplinas de Português e Matemática é absolutamente calamitosa. Ao longo dos anos, as advertências e os alertas a esse respeito têm vindo de todos os lados. Com mais ou menos impressionismo ou maior ou menor rigor estatístico, todas as observações, análises e estudos, nacionais ou internacionais, convergem na mesma conclusão. A estupidez dos programas adoptados, a permissividade, a indiferença das famílias, a incompetência dos políticos, são alguns dos vários factores que se vieram acumulando por mal dos pecados deste país, falido em tudo, a começar pelo sistema de ensino. A falta de preparação de muitos docentes também se explica pelo facto de serem produtos desse mesmo sistema. Desde há décadas que as idiotias pedagógicas se articularam a uma concepção do aluno como "bom selvagem" e ancoraram na consagração da lei do menor esforço como regra de conduta escolar e condição de aproveitamento. Muita gente (entre outros, Maria Filomena Mónica, Maria de Fátima Bonifácio, Helena Matos ou Nuno Crato) se tem pronunciado sobre estes aspectos. A língua portuguesa foi assassinada na escola. Parece que, no coração do Ministério da Educação, certas estruturas superiores ou intermédias têm tido mais poder do que o próprio titular da pasta e conseguem impor as suas concepções, a sua vontade programática ou a sua tremenda propensão para a inércia e para a inépcia. No que toca ao português, os alunos desabituaram-se de tirar significados, não sabem consultar capazmente um dicionário, não se habituaram a ler autores significativos e muito menos a gostar deles. Não conseguem interpretar em condições um qualquer texto literário e exprimem-se cada vez com mais problemas e deficiências no tocante à extensão e propriedade do léxico, à articulação sintáctica, ao respeito de regras gramaticais elementares, à correcção da ortografia e até da pronúncia de muitos vocábulos. Tanto quanto sei, na área das matemáticas e da simples aritmética, passam-se coisas que, mutatis mutandis, acabam por ser de sinal muito semelhante.»

Vasco Graça Moura, DN

COLMATAR BARBARIDADES

«Já toda a gente sabia que a preparação dos alunos do básico e do secundário nas disciplinas de Português e Matemática é absolutamente calamitosa. Ao longo dos anos, as advertências e os alertas a esse respeito têm vindo de todos os lados. Com mais ou menos impressionismo ou maior ou menor rigor estatístico, todas as observações, análises e estudos, nacionais ou internacionais, convergem na mesma conclusão. A estupidez dos programas adoptados, a permissividade, a indiferença das famílias, a incompetência dos políticos, são alguns dos vários factores que se vieram acumulando por mal dos pecados deste país, falido em tudo, a começar pelo sistema de ensino. A falta de preparação de muitos docentes também se explica pelo facto de serem produtos desse mesmo sistema. Desde há décadas que as idiotias pedagógicas se articularam a uma concepção do aluno como "bom selvagem" e ancoraram na consagração da lei do menor esforço como regra de conduta escolar e condição de aproveitamento. Muita gente (entre outros, Maria Filomena Mónica, Maria de Fátima Bonifácio, Helena Matos ou Nuno Crato) se tem pronunciado sobre estes aspectos. A língua portuguesa foi assassinada na escola. Parece que, no coração do Ministério da Educação, certas estruturas superiores ou intermédias têm tido mais poder do que o próprio titular da pasta e conseguem impor as suas concepções, a sua vontade programática ou a sua tremenda propensão para a inércia e para a inépcia. No que toca ao português, os alunos desabituaram-se de tirar significados, não sabem consultar capazmente um dicionário, não se habituaram a ler autores significativos e muito menos a gostar deles. Não conseguem interpretar em condições um qualquer texto literário e exprimem-se cada vez com mais problemas e deficiências no tocante à extensão e propriedade do léxico, à articulação sintáctica, ao respeito de regras gramaticais elementares, à correcção da ortografia e até da pronúncia de muitos vocábulos. Tanto quanto sei, na área das matemáticas e da simples aritmética, passam-se coisas que, mutatis mutandis, acabam por ser de sinal muito semelhante.»

Vasco Graça Moura, DN

AINDA


Não?

AINDA


Não?

AS BENEVOLENTES

«Em Portugal não se morre na política.»

Duarte Lino, O Cachimbo de Magritte

AS BENEVOLENTES

«Em Portugal não se morre na política.»

Duarte Lino, O Cachimbo de Magritte

OPUS ARTIFICEM PROBAT

«A palavra de ordem deve ser o trabalho.»

António Ribeiro Ferreira, i

OPUS ARTIFICEM PROBAT

«A palavra de ordem deve ser o trabalho.»

António Ribeiro Ferreira, i

19.7.11

AULAS DE POESIA


Duas.

AULAS DE POESIA


Duas.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO NOVO CARÁCTER NACIONAL PORTUGUÊS


Salvo erro, em meados do século passado, o etnólogo Jorge Dias, através da antiga Junta de Investigações do Ultramar - que o meu tio "implantou" e dirigiu em Cabo Verde -, publicou um livro com "estudos sobre o carácter nacional português". Persistem, naturalmente, actuais. Mas eis que a taróloga Maya nos revela um novo e admirável "carácter português" para o século XXI. Esta entrevista é, sem dúvida, uma pièce de résistance na matéria. Vou passar a ler religiosamente as suas previsões.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO NOVO CARÁCTER NACIONAL PORTUGUÊS


Salvo erro, em meados do século passado, o etnólogo Jorge Dias, através da antiga Junta de Investigações do Ultramar - que o meu tio "implantou" e dirigiu em Cabo Verde -, publicou um livro com "estudos sobre o carácter nacional português". Persistem, naturalmente, actuais. Mas eis que a taróloga Maya nos revela um novo e admirável "carácter português" para o século XXI. Esta entrevista é, sem dúvida, uma pièce de résistance na matéria. Vou passar a ler religiosamente as suas previsões.

AULA DE LITERATURA


«Não, o Nabokov não queria – na realidade – dormir com a Lolita.»

AULA DE LITERATURA


«Não, o Nabokov não queria – na realidade – dormir com a Lolita.»

18.7.11

O NÓ


É, na realidade, o maior problema da gravata.

O NÓ


É, na realidade, o maior problema da gravata.

MANDELA


Parece lugar-comum falar-se no aniversário do antigo presidente sul-africano. Será. O que decerto está longe de ser lugar-comum é a vida incomum da criatura. Vinte e sete anos de cadeia por causa de um preconceito burgesso e de uma intolerância sem nome e, depois, a chefia de uma nação devidamente revista por si mesma em liberdade. Clint Eastwood quis homenageá-lo mas saiu-lhe um filme sem o rasgo habitual. A melhor homenagem, no entanto, é o próprio homem Mandela, um raro exemplo de ser humano. Não há tecto para uma altura daquelas.

MANDELA


Parece lugar-comum falar-se no aniversário do antigo presidente sul-africano. Será. O que decerto está longe de ser lugar-comum é a vida incomum da criatura. Vinte e sete anos de cadeia por causa de um preconceito burgesso e de uma intolerância sem nome e, depois, a chefia de uma nação devidamente revista por si mesma em liberdade. Clint Eastwood quis homenageá-lo mas saiu-lhe um filme sem o rasgo habitual. A melhor homenagem, no entanto, é o próprio homem Mandela, um raro exemplo de ser humano. Não há tecto para uma altura daquelas.

OUTRAS FORMAS DE VER

Na blogosfera não há pensamento único.

OUTRAS FORMAS DE VER

Na blogosfera não há pensamento único.

TUDO O QUE É MAU

Isto ou isto.

TUDO O QUE É MAU

Isto ou isto.

17.7.11

DA LITERATICE PAROQUIAL


«vhm [valter hugo mãe] foi ao camarote de Elza Soares em Paraty com uma câmara de filmar nas costas, para — sejamos sérios! — registo dum momento promocional da sua própria pessoa diante duma artista puríssima, duma brasileira extraordinária. Tremendo equívoco: se se sentiu tocado por ela só teria de falar-lhe ou escrever-lhe da maneira mais anónima possível e não fazer dessa aproximação um trunfo pessoal. Não foi capaz de lhe dizer nada que não fosse banal. E quando ela lhe falou de Florbela Espanca, vhm não teve uma frase ou a expressão duma surpresa digna desse momento, pois tudo o que ali se jogava era ele, ele, ele e ele. Petit homme e nada mais.»

Vasco M. Rosa, Corta-Fitas

DA LITERATICE PAROQUIAL


«vhm [valter hugo mãe] foi ao camarote de Elza Soares em Paraty com uma câmara de filmar nas costas, para — sejamos sérios! — registo dum momento promocional da sua própria pessoa diante duma artista puríssima, duma brasileira extraordinária. Tremendo equívoco: se se sentiu tocado por ela só teria de falar-lhe ou escrever-lhe da maneira mais anónima possível e não fazer dessa aproximação um trunfo pessoal. Não foi capaz de lhe dizer nada que não fosse banal. E quando ela lhe falou de Florbela Espanca, vhm não teve uma frase ou a expressão duma surpresa digna desse momento, pois tudo o que ali se jogava era ele, ele, ele e ele. Petit homme e nada mais.»

Vasco M. Rosa, Corta-Fitas

DOMINGO, MAIER, WAGNER


DOMINGO, MAIER, WAGNER


O IMBRÓGLIO


O tema "Murdoch/jornalistas/ editores ex-futuros assessores governamentais/escutas, etc, etc." tem aparecido invariavelmente relegado para as vinte ou trinta e algumas páginas dos nossos jornais. Nas televisões, só os ligados ao "meio" conseguem decifrar a coisa também com tendência a emergir muito para o meio/fim da escala noticiosa. Todavia, o assunto é mais sério do que parece como se constata pelas demissões em cadeia no emporio Murdoch e pelos embaraços políticos causados na oposição e no governo britânicos. Como é que se pode explicar ao "povo" do qual emanam os governos que, afinal, estes temem menos o seu julgamento democrático do que a contingência fáctica imposta por uma actividade económica tão ferozmente competitiva como qualquer outra que é hoje a comunicação social? Chistopher Hitchens coloca o "imbróglio" no ponto devido. «The comparative fallout of the scandal on Britain's two main political parties is probably fairly even. Successive Labour governments maintained much the longer and warmer relationship with Murdoch, while Conservative Party leader David Cameron did employ a former News of the World editor who is implicated in the phone-hacking scandal in a senior government media position (and Cameron has, aside from professional politics, himself pursued no career except that of a PR man for TV companies). The most neglected aspect of the entire imbroglio is this.»

O IMBRÓGLIO


O tema "Murdoch/jornalistas/ editores ex-futuros assessores governamentais/escutas, etc, etc." tem aparecido invariavelmente relegado para as vinte ou trinta e algumas páginas dos nossos jornais. Nas televisões, só os ligados ao "meio" conseguem decifrar a coisa também com tendência a emergir muito para o meio/fim da escala noticiosa. Todavia, o assunto é mais sério do que parece como se constata pelas demissões em cadeia no emporio Murdoch e pelos embaraços políticos causados na oposição e no governo britânicos. Como é que se pode explicar ao "povo" do qual emanam os governos que, afinal, estes temem menos o seu julgamento democrático do que a contingência fáctica imposta por uma actividade económica tão ferozmente competitiva como qualquer outra que é hoje a comunicação social? Chistopher Hitchens coloca o "imbróglio" no ponto devido. «The comparative fallout of the scandal on Britain's two main political parties is probably fairly even. Successive Labour governments maintained much the longer and warmer relationship with Murdoch, while Conservative Party leader David Cameron did employ a former News of the World editor who is implicated in the phone-hacking scandal in a senior government media position (and Cameron has, aside from professional politics, himself pursued no career except that of a PR man for TV companies). The most neglected aspect of the entire imbroglio is this.»