
«Hoje é dia de stress test para os líderes europeus. Depois de um ano e meio a meter a cabeça na areia, a estratégia de avestruz da União Europeia conduziu-nos à beira do colapso. Se logo no início se tivesse, com rapidez e com um mínimo de solidariedade, resolvido o problema da dívida grega - de uma economia que não vale senão 2% do PIB europeu, é bom lembrá-lo -, teríamos sido poupados ao calvário por que a Europa tem passado, assim como ao momento extremamente difícil que agora se vive. Infelizmente, foi preciso esperar pelo toque de alarme italiano que - com uma dívida que é 120% do PIB, quatro vezes maior que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira - tornou finalmente plausível, para a Alemanha e para os seus aliados, a iminência de uma catástrofe em dominó de toda a Zona Euro, com consequências que na verdade ninguém consegue antecipar. A. Merkel parece abalada no seu dogmatismo, mas resistirá: o ralhete de H. Kohl e as críticas no interior do seu próprio partido juntaram-se agora aos pífios resultados deste ano de catatónica teimosia. Pena é que, pelo que até este momento se sabe, ainda não se tenha conseguido consensualizar qualquer alternativa sólida ao diktat alemão. Esperemos, contudo, que seja um dia de "visão clara", como pediu Jacques Delors no apelo feito há dias. Ou seja, que o Conselho Europeu, evitando o default da Grécia, assuma que a União não é um casino, e que, portanto, os investidores e os especuladores, quando arriscam, tanto podem ganhar como perder. Acabando a garantia de que quando ganham é tudo deles - e é!... -, mas quando perdem é o contribuinte que tem que os compensar das perdas. E que se caminhe rapidamente para a efectiva regulação dos bancos e dos mercados financeiros, ao mesmo tempo que se definem timings realistas que permitam cumprir o imperativo do equilíbrio das contas públicas sem inviabilizar o crescimento e condenar o emprego.»
M. M. Carrilho, DN