9.9.12

Pastoral portuguesa


 


Depois de duas horas dentro do mar do Guincho - com leves intermitências para ver as ditas horas -, olho para os jornais. Um deles, o Público, há muito que deseja ser a "Enciclopédia" dos media escritos pelo que trocou o jornalismo (coisas triviais como notícias, etc.) por "teses" (a diferença em relação ao Expresso, outro pretendente "enciclopédico", é que no Público escrevem em português). Página sim, página não, o Público divulga meritoriamente as "teses" de umas quantas pessoas sobre uma série indeterminada de temas, embora nos últimos dias a RTP e o Rui Ramos tenham merecido particular atenção, a primeira com uma manchete parva a meio da semana quando foi conhecido o nome do seu presidente. Pacheco Pereira não conta neste género de dispositivo porque ele próprio "é" o dispositivo e a sua única "tese". Apesar desta parafernália, leio o Público todos os dias (o meu ler jornais é coisa rápida porque a previsibilidade merece-me um átomo de atenção) e atendo o telefone a qualquer um dos seus profissionais quando me procuram. Agora, por causa de um evento conspícuo, as "teses" correm todas no sentido único de tentar interpretar o primeiro-ministro. Neste exercício, até o primeiro-ministro se interpretou a si mesmo no facebook para o que recorreu ao último título de Sousa Tavares, "a história não acaba assim" - «esta história não acaba assim. Não baixaremos os braços até o trabalho estar feito, e nunca esqueceremos que os nossos filhos nos estão a ver, e que é por eles e para eles que continuaremos, hoje, amanhã e enquanto for necessário, a sacrificar tanto para recuperar um Portugal onde eles não precisarão de o fazer.» A minha "tese" - como não tenho filhos e, por consequência, "contribuo", e não é pouco, para sustentar os filhos dos outros - é que mal andaria o país se os ditos filhos viessem a perder a noção de sacrifício e, sobretudo, a noção "do" sacrifício que as gerações presente e preteritamente activas estão a fazer . O Keynes - de que gosto menos pela "teoria" do que por outros escritos dele - lembrou que oportunamente estaremos todos mortos o que convém ter sempre presente em qualquer tentativa doutrinária ou "ideológica" em torno de inevitabilidades. Isto para regressar à tese das "teses", as do catastrofismo e do anti-catastrofismo vigentes que, confesso, não me estimulam nada. Ofereço para a troca os primeiros versos de Lycidas, de Milton, em que o poeta se dirige, não a pessoas, mas a árvores. É por isso, aliás, que um poema é um mundo, enorme, sem exterior que dura até para além das árvores que declina. É, na realidade, a do poema, a única "história" que nunca acaba. Nem assim, nem assado.


 


Yet once more, O ye laurels, and once more

Ye myrtles brown, with ivy never sere,

I come to pluck your berries harsh and crude,

And with forc'd fingers rude

Shatter your leaves before the mellowing year.

Bitter constraint and sad occasion dear

Compels me to disturb your season due;

For Lycidas is dead, dead ere his prime,

Young Lycidas, and hath not left his peer.

Who would not sing for Lycidas? he knew

Himself to sing, and build the lofty rhyme.

He must not float upon his wat'ry bier

Unwept, and welter to the parching wind,

Without the meed of some melodious tear.

3 comentários:

Leitor avulso disse...

As suas conclusões relembram a velha epígrafe das edições da "Ática", Die Poesie ist das echt absolut Reele. Dies ist der Kern meiner Philosophie. Je Poetischer,je Wahrer. Novalis-Dr.Gonçalves,o mesmo combate. Nos tempos que correm,não tenhamos dúvida de que a única realidade,ou a realidade que interessa está num poema,numa ária,num quadro,num parágrafo. O resto é paisagem incómoda.

C Vidal disse...

O "Sorge" heideggeriano diz isto tudo de uma maneira mais intensa. E é este "Sorge" que este "seu" governo atinge. A coisa está em fim de festa, não para nós mas para o sr. Coelho. (Percebido?)

Isabel de Deus disse...

Poesia, música, gatos, algum cinema, a "room of one´s own", o mar, o deserto... Esquecer o local contingente onde se é forçado a viver. O melhor da arte é a evasão e a comunhão do mais belo que o humano produz.