
Depois de duas horas dentro do mar do Guincho - com leves intermitências para ver as ditas horas -, olho para os jornais. Um deles, o Público, há muito que deseja ser a "Enciclopédia" dos media escritos pelo que trocou o jornalismo (coisas triviais como notícias, etc.) por "teses" (a diferença em relação ao Expresso, outro pretendente "enciclopédico", é que no Público escrevem em português). Página sim, página não, o Público divulga meritoriamente as "teses" de umas quantas pessoas sobre uma série indeterminada de temas, embora nos últimos dias a RTP e o Rui Ramos tenham merecido particular atenção, a primeira com uma manchete parva a meio da semana quando foi conhecido o nome do seu presidente. Pacheco Pereira não conta neste género de dispositivo porque ele próprio "é" o dispositivo e a sua única "tese". Apesar desta parafernália, leio o Público todos os dias (o meu ler jornais é coisa rápida porque a previsibilidade merece-me um átomo de atenção) e atendo o telefone a qualquer um dos seus profissionais quando me procuram. Agora, por causa de um evento conspícuo, as "teses" correm todas no sentido único de tentar interpretar o primeiro-ministro. Neste exercício, até o primeiro-ministro se interpretou a si mesmo no facebook para o que recorreu ao último título de Sousa Tavares, "a história não acaba assim" - «esta história não acaba assim. Não baixaremos os braços até o trabalho estar feito, e nunca esqueceremos que os nossos filhos nos estão a ver, e que é por eles e para eles que continuaremos, hoje, amanhã e enquanto for necessário, a sacrificar tanto para recuperar um Portugal onde eles não precisarão de o fazer.» A minha "tese" - como não tenho filhos e, por consequência, "contribuo", e não é pouco, para sustentar os filhos dos outros - é que mal andaria o país se os ditos filhos viessem a perder a noção de sacrifício e, sobretudo, a noção "do" sacrifício que as gerações presente e preteritamente activas estão a fazer já. O Keynes - de que gosto menos pela "teoria" do que por outros escritos dele - lembrou que oportunamente estaremos todos mortos o que convém ter sempre presente em qualquer tentativa doutrinária ou "ideológica" em torno de inevitabilidades. Isto para regressar à tese das "teses", as do catastrofismo e do anti-catastrofismo vigentes que, confesso, não me estimulam nada. Ofereço para a troca os primeiros versos de Lycidas, de Milton, em que o poeta se dirige, não a pessoas, mas a árvores. É por isso, aliás, que um poema é um mundo, enorme, sem exterior que dura até para além das árvores que declina. É, na realidade, a do poema, a única "história" que nunca acaba. Nem assim, nem assado.
3 comentários:
As suas conclusões relembram a velha epígrafe das edições da "Ática", Die Poesie ist das echt absolut Reele. Dies ist der Kern meiner Philosophie. Je Poetischer,je Wahrer. Novalis-Dr.Gonçalves,o mesmo combate. Nos tempos que correm,não tenhamos dúvida de que a única realidade,ou a realidade que interessa está num poema,numa ária,num quadro,num parágrafo. O resto é paisagem incómoda.
O "Sorge" heideggeriano diz isto tudo de uma maneira mais intensa. E é este "Sorge" que este "seu" governo atinge. A coisa está em fim de festa, não para nós mas para o sr. Coelho. (Percebido?)
Poesia, música, gatos, algum cinema, a "room of one´s own", o mar, o deserto... Esquecer o local contingente onde se é forçado a viver. O melhor da arte é a evasão e a comunhão do mais belo que o humano produz.
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