11.10.22

“Eu show Medina”

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Percorro a jornalada - só no Público são 18 páginas- e vá de orçamento para trás e para diante. Um marciano julgaria que Fernando Medina é o novo Aladino, e não um antigo autarca da capital derrotado há apenas um ano. Articulistas de “direita”, Deus me perdoe, tremelicam de encómios ao “acordo” que Costa conseguiu arrancar dos pastelões da concertação social, agora exibidos pela propaganda socialista como os novos heróis do altar da pátria. A coisa não é para mil anos, mas é às postinhas de pescada para quatro. “Eu show Medina”, e uma mão lava a outra e os jornais e as tvs lavam tudo mais brilhante. O sr. D. Fradique é que os (nos) topava. Depois de várias peripécias para chegar a Lisboa por via férrea, vindo do Porto, e já à beira do Hotel Bragança a bordo de uma caleche cujo cocheiro lhe pediu "não menos de três mil réis" pelo transporte, Fradique Mendes é reconhecido pelo homem, "à luz do vestíbulo" que lhe batia na face. "Então, são três mil réis?", pergunta. Responde o homem: - Aquilo era por dizer...Eu não tinha conhecido o sr. D. Fradique...Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser. Humilhação incomparável! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquele bandido conhecia o sr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos éramos portugueses.”

A República ponto dois.

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O regime actual nunca esteve tão próximo da corrupção moral e política da I República como agora. O PS, rapace e autoritário, domina o Estado e o país como o PRP fazia. O presidente não é "eleito" pelo Parlamento, e pelo partido dominante, mas está inerme como alguns dos seus ilustres antecessores citados, com a vantagem, meramente pessoal, de ir arejar frequentemente a sua impotência política para o estrangeiro. E o da Assembleia da República é um prepotente democrático que não tenta sequer a isenção política a que o cargo o obriga. Os episódios dos governantes "incompatíveis" passam pela "bimby" da ética republicana como cães por vinha vindimada. Esta "República ponto dois" está pela hora da nossa morte. Não, infelizmente, da dela.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/a-republica-ponto-dois-15237871.html?fbclid=IwAR0Ei3geMoO7V-5-wBSM-X1hHxAu0kd0Ymf5JIKHckqnu9-ae-2hYJwuU4s


 

3.10.22

O impasse democrático e a era das geringonças

Na segunda parte do livro "A democracia no seu momento apocalíptico", de M. M. Carrilho, que vinha a ler aqui desde a semana passada, estes transes das esquerdas autóctones, e do PS, em particular, encontram-se particularmente bem pensados (da perspectiva do autor que ainda é militante socialista de base), subtraindo-os ao circunstancialismo oportunista e tacticista dos protagonistas, e integrando-os numa visão mais alargada do impasse democrático geral, coetâneo do progresso do autoritarismo. Isto é, e como revela a forma de divulgação das sondagens e dos "estudos de opinião", cada vez mais as escolhas são de governantes e não de projectos ou de ideias (erosão ideológica, na expressão de Carrilho). E cada vez mais os governantes sucumbem, ou a sua cibernética político-partidária de apoio, diante do guiché de atendimento ao ilimitado individualismo que vocifera na longa fila de espera alimentada, há anos, pelo extremismo de centro que, entre nós, já foi do Bloco ao praticamente extinto CDS. O conceito porventura mais inovador neste livro de Carrilho é o deste aparente paradoxo, o extremo-centro, que domina a política nacional e europeia, em geral, o mais perigoso e o mais dissimulado de todos os extremos. Para dourar a pílula demo-liberal, certamente, como se a democracia - ou o indivíduo - fosse eterna. Num momento em que tudo interage com tudo (J. M. Júdice na apresentação do livro), estranhamente, ou talvez não, vivemos um tempo de ignorância (Carrilho), e persistimos felizes com isso no nosso "infotretenimento" (idem). É a "era das geringonças", no feliz neologismo de Carrilho a partir de Vasco Pulido Valente, denotada na sondagem aludida. "Era" em que as performances se sobrepõem aos programas, os interesses às ideias, o estilo à substância, o conectivo ao colectivo, o societal ao social, o consumidor ao cidadão, o indivíduo à pessoa, o global ao nacional. E é assim, "ora em júbilo, ora em depressão", que cá vamos. Não sei se cantando e rindo.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/o-impasse-democratico-e-a-era-das-geringoncas-15218818.html


 


 


 

2.10.22

Balázio

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Com um novo "Balázio" a rodar para o "5 de Outubro" de má memória, aqui fica o da semana passada. Repetindo-me, este é o pior governo dos três que António Costa formou. 


Tal&Qual, 28.9.2022

30.9.22

Ponto final, parágrafo

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Na Praça Vermelha de Moscovo celebra-se a reunificação de quatro regiões ex-ucranianas com a Federação Russa. No Kremlin, Vladimir Putin produziu um discurso notável, nos termos geopolíticos estritos definidos pela Rússia pelo menos desde o começo deste século. Não se trata, pois, de valorizar o acto da assinatura da reintegração daquelas regiões na FR quanto de apreciar o que o presidente russo disse. E disse muito. Nomeadamente em direcção às atordoadas lideranças políticas ocidentais que distinguiu dos respectivos "povos". Não por acaso, a primeira reacção veio da presidente da Comissão Europeia que tem alguma dificuldade cognitiva em perceber as alterações geopolíticas em curso no mundo inteiro. Depois veio tudo a reboque, com a estafada ladaínha das sanções (mais sanções) cujos resultados se têm afigurado magníficos para o "lado de cá" europeu. Zelensky, esse correu a pedir uma adesão rápida à NATO (já realizou o tempo de espera longo quanto à UE) como se, apesar da ousadia da Aliança em se estabelecer praticamente nas circunvalações russas, ela estivesse disposta a um conflito global liderado de um lado pelos EUA e do outro pela Rússia e, em certo sentido, pela China. É que, a partir de agora, gostemos ou não, as quatro regiões reunificadas com a Rússia são território dela com tudo o que isso acarreta. "Ponto final", disse Putin. Eu não iria tão longe. Talvez seja mais prudente um "ponto final, parágrafo". 

28.9.22

A tetralogia virtuosa - prólogo ou a procissão dos leprosos

Ora "esta lepra que nos mata" - a expressão é de 1943 e pertence à filósofa Simone Weil - como que "atacou" as democracias liberais ocidentais gerando, como referi, citando Manuel Maria Carrilho em "O que aí vem", esta imensa procissão de leprosos que carregam às costas o fardo da mediocridade das suas elites políticas e o seu próprio, agora famosamente inflacionado, quer no sentido económico do termo, quer pelas circunstâncias ocorrentes aceleradas, todas, no pior sentido em 2022. Carrilho lança na quarta-feira o seu segundo livro daquilo a que quero chamar "a tetralogia virtuosa", "A democracia no seu momento apocalíptico", precisamente sobre isto tudo. O "prólogo" será o "Pensar o que lá vem", de Janeiro de 2021.


A "primeira jornada, o "Sem retorno", de Setembro do mesmo ano. A "segunda jornada", este. E uma "terceira jornada" que se chamará, provavelmente, "Impensar". É tão raro pensar-se por cá o que interessa que continuo com Carrilho para a semana.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/a-tetralogia-virtuosa-prologo-ou-a-procissao-dos-leprosos-15196977.html?fbclid=IwAR0_Q7yWv39DElzORDcOto_FXtTR2Zj3vAefv3TQNqlDC6hql8jsJ32E5kQ

“A Europa é um avião sem piloto”

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"Há cada vez menos pessoas que defendem a democracia e cada vez mais pessoas que são indiferentes aos regimes autoritários. E isto passa-se, cada vez mais, com os mais jovens.


A espiral fatal do extremismo do centro?
É o modo de governo, é um modo que tira o poder aos cidadãos. Mas falo do apocalipse porque todos os processos que já referi levam a que tenhamos uma política de um pragmatismo sem qualquer visão, ninguém sabe o que vai acontecer. É tudo imediato, é tudo remendos, e o curto prazo é outro elemento fatal para a democracia. Se vivemos num regime de curto prazo não temos possibilidades de consolidar qualquer projeto.


A Europa tornou-se especialista em superar crises sem as resolver. Tivemos a crise da moeda, a crise da saúde, a crise da ciência e agora temos a crise da energia. Há todas estas ilusões de ir andando para a frente sem nunca se resolver aquilo que está para trás.


O que é que explica essa grelha de leitura permanente associada à crise?


É o não se assumir a crise. Como é que se sai de uma união que não funciona? Na verdade, sabemos como se sai, com união política, com harmonização fiscal e com o fim da desigualdade económica. Mas nada disto se fez, pelo contrário, todos estes fatores se agravaram, mas são negados. A Europa é um avião sem piloto. Ursula von der Leyen, penso que de forma imprudente, identifica a causa da Ucrânia com a causa da democracia.



Existem geringonças porque acabaram as ideologias, aumentou a fragmentação política e social e, portanto, a democracia transforma-se cada vez mais.


Em quê?
Deixa de ser um regime político ancorado nesta ideia da transformação das sociedades a partir da liberdade dos indivíduos e da sua força coletiva, para ser um simples modo de designação dos governantes. Aquilo que estamos a ver hoje em Itália, por exemplo, não tem nada a ver com o que se passou com Mussolini, isto é algo completamente novo. Temos é de descobrir o que é este novo.



Portugal continua a ser um país, a meu ver, atordoado e desvitalizado. Não há nenhuma visão, nem nenhum programa e é também rebocado porque desde a entrada na União Europeia, e particularmente nos últimos anos, anda a reboque. Nem esse reboque fazemos bem-feito, porque mesmo com todo o dinheiro que nos chega da Europa vemos que não há projetos ou que não há uso desse dinheiro. Há um guiché para as necessidades urgentes, mas não há visão global. A política vive num estado constante de conformismo patológico e isso faz muito mal à sociedade."


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-set-2022/manuel-maria-carrilho-antonio-costa-nao-e-um-lider-e-um-gestor-e-o-patrao-do-ps-15203205.html?fbclid=IwAR0SGJqKmKYElPMgLJThY96De6MBhtBYebJ7I9jZXUEkdU61im0ZV4eISqo

25.9.22

Premonitório

 


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Um momento da história bem conhecido, desta vez contado pelo outro lado, do qual falei oportunamente, na revista "Ler", quando o livro saiu. Todavia, descontando o passado do narrador, o bom do livro (que é de génio) é prover-nos com um narrador que é, afinal, o homem médio contemporâneo. Não, não somos todos nazis disfarçados de bons chefes de famílias numerosas ou monoparentais. O extremismo dominante agora é outro, como se apreende lendo nomeadamente "A democracia no seu momento apocalíptico", de Manuel Maria Carrilho, a ser lançado na próxima quarta-feira em Lisboa. É o extremismo de centro que trivializou distinções e liquidou a intransigência libertadora, com a rápida ascensão do pior individualismo societário em todos os níveis da actividade humana, a do indivíduo e a colectiva. Tudo se dilui na multidão indiferenciada de homens médios para quem tudo, salvo as funções vitais como comer ou evacuar, é facultativo porque ilimitado. O narrador foi um convicto abjecto, mas converteu-se a uma "aurae mediocritas" que fez durar a sociedade contemporânea sem grandes oscilações até à pandemia e a esta guerra. Dificilmente Littell escreverá outra coisa assim. Tão premonitória quanto "ahistórica". A vida anda a imitar demasiado a arte. Não se é bom. 

22.9.22

O escritor de uma civilização danificada

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Excerto do texto sobre Michel Houellebecq que escrevi para o livro "Linhas Direitas", de 2019. O da fotografia é dele, em "O mapa e o território", numa magnífica tradução de Pedro Tamen. No (meu) título original, o ensaio intitulava-se "Houellebecq, o escritor de uma civilização danificada". Há três anos não podia adivinhar que o livro seguinte - estávamos no momento "Serotonina" - se iria chamar "Aniquilação". Em 2022, persiste o mais notável leitor do contemporâneo, precisamente quando a vida anda a imitar a arte da pior maneira.


Toda a literatura “houellebecqiana” é uma literatura reveladora do declínio, não se sei se irreversível, da noção de “Ocidente” tal qual o conhecemos até sensivelmente o final do Verão de 2001. Simultaneamente, representa a tentativa, entre o romanesco, o “ideológico” e o filosófico, da superação dessa queda pela ironia, o humor, a tristeza ou o amor, enfim pelo regresso ao sentimento sem um pingo de sentimentalismo folclórico.


As Esquerdas tenderão a ver ali um misógino egoístareaccionário e depressivo porque não percebem que ele é o Balzac possível do primeiro século XXI, sem demasiado proselitismo afectivo ou outro qualquer. E as Direitas podem rejeitá-lo por alegadamente promíscuo ou desrespeitador da “norma”, por sinal há muito não definida por elas.

19.9.22

O fim de um tempo

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19 de Setembro de 2022. O fim de um tempo.


Isabel esteve sempre "por cima", sem nunca ter sentido necessidade de se vulgarizar, o que teria sido um desastre num reinado repleto de vicissitudes sociopolíticas e culturais. À semelhança da sua real antecessora, a homónima Isabel gozou sempre da afeição dos "Comuns", aqui no duplo sentido parlamentar e popular. Sem populismos. E, como ela, poderá dizer que "embora Deus me elevasse tão alto, no entanto conto como glória da minha coroa o ter reinado com o vosso amor". Descanse em paz que bem merece.



https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/amp/a-rainha-do-povo-15176698.html


 

16.9.22

A diva absoluta

 


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Passa hoje o 45º aniversário da morte de Maria Callas. Sem ela, o canto lírico contemporâneo - já estou a incluir este maldito século XXI - seria algo completamente distinto. A "regra" foi ela. Poderá mesmo dizer-se que a ópera (ou algumas óperas em concreto) naquela asserção do realismo do excesso (na magnífica expressão do Augusto M. Seabra a propósito de outro grande intérprete, também norte-americano como a Callas, Jon Vickers) que a caracteriza enquanto espectáculo total, como que foram "inventadas" para a Callas. É o caso de Bellini e de muito Donizetti. Toda a imensa gravitas, todo o pathos e todo o bathos do belcanto se fundiram, como um cadinho, na sua voz incomparável. Incomparável não exactamente por ser quimicamente pura - não era -, mas porque a aliança da respectiva extensão com uma extraordinária capacidade histriónica, fazia de cada apoteose, de cada recusa e, para o fim, de cada fracasso um momento único e irrepetível. Callas possuía a força das suas fraquezas, a grandeza das suas fragilidades, o sobre-humano da sua condição muito humana. Parecia que tinha uma vida fácil e frívola. Começou gordíssima e acabou estilizada. Posou moda. Entre o cume e o eclipse os anos foram demasiado poucos. Não há herdeiras para fenómenos destes que raramente acontecem. Callas persiste orgulhosamente solitária e fulgurante num universo que parece ter existido propositadamente para ela. E que, sem ela, trivializou-se e só por defeito brilha.


Foto: Callas em "Norma", de Bellini, na Ópera de Chicago.

14.9.22

Balázio luso-tropical

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No "Tal&Qual" de hoje. Lá também encontram uma pequena "comparação" entre a presença de um alto dignitário do país nas comemorações do dia da independência brasileira a 7.9. 2004 - o então primeiro-ministro Pedro Santana Lopes a quem o então PR brasileiro, Lula da Silva, deu a esquerda - e a de Marcelo, há dias, para o bicentenário da coisa, espremido à esquerda de um amiguinho qualquer menor de Bolsonaro que este colocou entre ele e o nosso PR. As coisas são como são. 

12.9.22

Vítor Manuel Aguiar e Silva

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Leio que morreu o professor Vítor Manuel Aguiar e Silva que, nas últimas obras, assinava Vítor Aguiar e Silva. Foi professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra da qual a estupidez oportunista "abrilista" o expulsou. Era exigente, como soía ser-se, mas, na opinião de um seu antigo aluno de lá - que passou para Lisboa onde acabou catedrático também -, e meu amigo, Joaquim Manuel Magalhães, foi o seu melhor professor em Coimbra. VMAS pertenceu a uma estirpe da crítica literária académica em extinção. "Dialogava", nos seus livros, com aqueles que analisava sem melindrar ninguém, e sem perder um átomo da argúcia interpretativa. Pegue-se, por exemplo, em "Camões - labirintos e fascínios", com Sena e Hermano Saraiva, ou somente com o primeiro, no notabilíssimo "Jorge de Sena e Camões". Explorou pioneiramente, podemos afirmá-lo sem hesitações, a teoria da literatura que desenvolveu em ensaios recheados de boas intuições na, agora, sua última e magnífica obra "Colheita de Inverno". Foi prémio Camões em 2020. O filistinismo atirou-se-lhe rapidamente por causa do "passado". Os brutos nunca leram, com certeza, nada de nada do Prof. Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Mas foram logo a correr “lembrar” a sua passagem pela antiga Assembleia Nacional onde foi deputado. Não foi sequer ministro ou secretário de Estado, ao contrário de outros “professores doutores” que o actual regime “recuperou” em ministros, deputados, presidentes de partidos, “senadores” da República e membros do Conselho de Estado. Não. Aguiar e Silva, felizmente para ele e para os seus alunos e leitores, dedicou-se à sua obra virtuosa, que fez nossa, isto é, de quem não se fica por rodapés e indexes. Trabalhou ainda com a Universidade do Minho que estará certamente de luto. Eu, seu mero leitor atento, limito-me a curvar-me respeitosamente diante da sua obra e memória. 

Isabel é morta

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Passaram todos, de Churchill a esta infeliz Truss, e Isabel ficava e observava. Como observava o Mundo com o seu refinado humor inteligente e austero. Não teve grande sorte com a família. Mesmo aí, ergueu-se sempre acima da circunstância e da vulgaridade. Não é preciso ser monárquico para reconhecer nesta Grande Mulher o símbolo de uma maneira de servir que inexiste, há muito, antes do seu desaparecimento físico. Nunca me interessou - e julgo que a ela também não - qualquer dimensão cor-de-rosa da monarquia que personificava. Um "tom" acentuado aquando da breve passagem de Diana Spencer pela família, e que um saloio e oportunista Blair cavalgou como pôde. A rapariga nunca esteve à altura daquilo para que tinha sido convocada pela vida, como escreveu Agustina. Infelizmente, nem tão-pouco alguns de sangue real. Mas Isabel colocou-se permanentemente acima disso. Combinou, com rara sensibilidade, razão e inteligência, tradição e "modernidade" sem nunca transigir no essencial. Aliás, outra coisa não seria de esperar de alguém que, ainda muito jovem, andou a pé pelas ruínas de Londres bombardeada pela aviação nazi. Esta gente que governa o Mundo não existe perto dela senão como ficção, e da má. Olhe-se, por exemplo, para a palhaçada em curso num Brasil há duzentos anos independente disto. Por triste coincidência, o nosso chefe de Estado estava no meio dela no dia em que Isabel nos deixou. Depois, é só comparar o incomparável e o impensável em que tudo, por todo o lado, se encontra. Isabel fazia evidentemente parte da minha paisagem desde sempre. Da primeira vez que estive em Londres, sozinho, com dezasseis anos, passava o jubileu dos vinte e cinco anos de reinado. Tive então o tempo e a paciência que já não tenho para tudo absorver. Isabel é morta. Que o seu espírito luminoso possa continuar connosco.



https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/amp/isabel-e-morta-15156722.html


 

10.9.22

Aguardemos

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Estive a ler transversalmente, no "Telegram", canais pró-russos que acompanho (para pró-ucranianos basta ler qualquer coisa portuguesa ou ligar a tv). Estiveram, pareceu-me, um bocado histéricos este sábado, dia 10. Li em alguns que era preciso declarar guerra à Ucrânia que a coisa não vai lá com "operações militares especiais". Aparentemente, algum jornalismo russo "deprimiu-se", valendo isso o que vale na Rússia.


Sucede que, em matéria comunicacional, esta guerra também vive muito do "whishful thinking", fora o trânsito típico da agitprop de falsidades, meias-verdades e acção psicológica onde o presidente ucraniano vagueia como peixe na água.


Com estas cautelas, talvez se possa dizer que os resultados dos ataques ucranianos na região de Kherson e Kharkov só poderão ser minimamente  avaliados, com um módico de seriedade, nos próximos dias e semanas e não em cima de qualquer joelho.


Por outro lado, a chamada contra-ofensiva coincide com a visita do chanceler alemão a Kiev (já lá está a MNE) e com um novo pedido ucraniano - dirigido aos Estados Unidos - para a compra de gás destinado a fazer face à invernia. Ao juntar no mesmo pacote alguns factos, "whisful thinking" e mistificações, Kiev parece querer persuadir,  pressionando, os governos ocidentais, as forças políticas e a opinião pública que os "sacrifícios" económicos para o esforço de guerra impostos à Ucrânia e à maioria dos ucranianos estão longe de ser inúteis.


O que é certo é que as forças russas perderam algumas pequenas cidades, o controlo de uma parte de algumas linhas terrestres e algumas dezenas de kms de território na região de Kharkov. A retirada, aliás, se salvou as forças russas da tentativa de cerco em Izyum, atirou a sorte dos cidadãos pró-russos locais para o ar, muitos deles a procurar refúgio, em fuga, para a Rússia.


As perdas russas em homens e meios parecem, para já, limitadas, enquanto que para as forças ucranianas a "contra-ofensiva" terá tido um custo enorme em recursos humanos e materiais. O contra-ataque russo será, pois, inevitável sendo que, até agora, nada existe que sugira que os sucessos táticos, relativos, de Kiev alterem o resultado geral da guerra,  certamente destinada a durar muito tempo, com uma perspectiva de fundo não exactamente favorável à estratégia envolvente de Zelensky. Aguardemos. 

7.9.22

Ursula menor

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"Mas não era o que a UE queria e anunciou ao mundo (a Rússia incluída, naturalmente)? Deixar de importar, totalmente de preferência, e parcialmente de certeza, energia russa?!


Entretanto, a última ideia brilhante destes crânios que nos apascentam (ideia que vem de trás mas tinha sido posta de lado na altura...) é impor um tecto ao preço do gás russo.


Putin já comentou: «A Federação Russa cumprirá integralmente os contratos, mas não fornecerá petróleo, gás ou carvão em seu próprio prejuízo. Quem quer impor algo à Rússia no sector da energia não tem condições de impor nada. O tecto de preços é uma decisão absolutamente estúpida.»


Mais turbina, mais turbina (o que como se sabe faz diferença), é deprimente ter de reconhecer que a inteligência não está do nosso lado."


DAQUI: http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2022/09/crise-energetica-querida-ursula-devia.html


 


 


 

6.9.22

O timorato e as medidas

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Não estou a ver, evidentemente, mas vão caindo no iPhone as “deixas” do Medina que está, então, a explicar as medidas. Costa deu o grosso, Medina (foi para isso que o outro o contratou) avança com o retalho e o rebotalho. Não é tanto um exercício financeiro. É mais uma sessão de psicologia colectiva. “Vejam quanto custa a medida a, b e c e apurem quanto somos generosos”, está o pobre do ajudante a “especificar”. Porque seis e mais dígitos impressionam. Só que, no caso, não querem dizer grande coisa. Porquê? Porque, olhando ao que já foi “comido” pela inflação e pelo oportunismo da oferta - a inflação não subiu ontem às 20h nas tvs e o chico espertismo nacional também não nasceu àquela hora -, as “medidas” mal dão para tapar um ralo quanto mais um buraco. Um exemplo. O cheque dos 125, com uma inflação que já papou entretanto quase 5% do chamado poder de compra (desde as ervilhas ao depósito do coiso), colmata cerca de 0,7% desse passivo. E não se fala mais nisso porque é prestação única. Nada do anunciado é verdadeiramente prospectivo. Está tudo “comido” à partida, isto sem falar dos truques com o iva na electricidade. A desculpa da espera pelo conselho europeu da energia é, como sempre, o velho temor reverencial pelo rentismo dos empórios energéticos do gás e da electricidade, depois daqueles contratos leoninos que o Estado, fundamentalmente o “socrático” do PS, celebrou com eles. Medina, que foi secretário de Estado neles, explicar-nos-ia isto muito melhor que eu.

4.9.22

“Pactos de silêncio”

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É preciso efectivamente pregar a paz universal e a fraternidade entre os homens, de boa e de má vontade. Como o nome indica, o princípio é difícil de aplicar numa guerra onde existem vários lados. E, dentro de um dos lados, mais lados. No Norte de Angola, por exemplo, a UPA, depois FNLA, era um desses lados de um dos lados. Anos mais tarde, representantes desse lado sentaram-se com os outros lados - o nosso incluído, uma vez que isto era uma nação pluricontinental, no seu todo, como afirmou Spínola, na madrugada de 26.4.1974, na Rtp - para aplicar o sobredito princípio. Não vieram mortos, de morte matada, à colação. Ou seja, os abraços e os acordos não incluíam pedidos de desculpa. Nem na Guiné, nem em São Tomé, nem em Moçambique. Porquê? Porque já não havia inimigos, ou na língua de pau em vigor, irritantes. Na guerra, claro, fosse lá o lado que fosse, não se limpavam propriamente armas. Usavam-se. De todos os lados contra todos os lados. Em abstracto, podemos perguntar se os “pactos de silêncio” de uns são mais “pactos de silêncio” do que os de outros. Ou menos. Os nossos representantes políticos, quando se deslocam a esses países africanos que foram Portugal, continuam a representar Portugal na sua complexidade histórica que já não é geográfica. Não representam mais ninguém. Nem pedem desculpa por essa representação, valha a coisa o que valer.

3.9.22

Regresso ao Vau

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Este fim de semana regressei ao Vau. Em dezassete anos, vim para aqui muitos Verões com a minha Mãe, ora em Julhos, ora em Setembros. Ou fora da "época", com um amigo. A última vez fora há seis anos, eu e o meu cão, precisamente em Setembro. A minha Mãe não quis vir. A fotografia é tirada de "Os Costas" onde quase sempre almoçávamos. Está tudo perfeito na aparência. Há sol, vida e o mar esplêndido. Abrigávamo-nos sob estes chapéus de sol verdes do concessionário. Esse tempo desapareceu e o sr. Manel, dos chapéus, já se reformou. A minha Mãe só está presente no meu espírito. E o senhor da "história" que recupero daqui, do blogue, também. Mas na passeata que dei esta manhã, com a maré baixa, entre a praia do Alemão e dos Careanos, eles estavam presentes, cada um na sua forma de estarem presentes na minha memória. Quanto ao fundo da "história", não há nada a mudar. 


"Este fim-de-semana encontrei-me no Vau, à beira-mar, com o dr. Mário Soares. Aos 81 anos está mais novo do que eu. Falámos por breves instantes. Disse-lhe que me parecia que isto estava tudo a afundar-se. Nós, o mundo. Soares respondeu-me, contra o que seria habitual, que "não foi nada que a gente não previsse". A "gente"? Eu? Ele? E não é que tem razão?"

1.9.22

Gorbachev

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Ia escrever qualquer coisa sobre o passamento do derradeiro presidente da URSS e do PCURSS. Reparei, nas redes sociais e nos OSC's "tradicionais", que MG acabou por se tornar mais propriamente um "herói" ocidental do que um "patriota" russo, no sentido que lhe foi sobretudo dado a partir da presidência Putin. Na altura, lembro-me de ter ficado chocado pela forma como um bebedolas tratou o falecido. Mau, mesmo, representou o que esse bebedolas fez da extinta URSS e da nova Rússia. Convém recordar que Gorbachev, nas últimas eleições presidenciais russas a que concorreu, em 1996, arrecadou 0,5% dos votos. Putin homenageou-o como o clip documenta. E eu, como dizia no início do post, ia escrever sobre MG, mas achei que o que Putin fez no clip resume perfeitamente qualquer coisa a mais, ou a menos, que o que diria. 

30.8.22

Marta Temido

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Desde o princípio que não era perceptível por que é o que o dr. Adalberto Fernandes foi substituído. Nem para ele foi, convém recordar. Era um fim de semana, e na PCM discutia-se um OE. Adalberto e Caldeira Cabral, então na Economia, participaram normalmente no debate em conselho de ministros. Quando a reunião acabou, o dr. Costa, mundialmente conhecido pela sua gentileza política, despediu ambos. E Adalberto é substituído pela ainda incumbente, a sra. Temido. A sra. Temido vinha precedida de um cv na área da Saúde que a recomendava para tudo menos, precisamente, para o sector. É ver o "histórico" dela à frente de uma ARS. Mas Costa não é homem para detalhes, e recrutou esta senhora que achou logo por bem confortar os então aliados parlamentares do PS, afirmando aliviar o stress no duche ao trauteio da "Internacional". Fez do SNS uma "causa" ideológica sem perceber, sem querer perceber, que o SNS é apenas uma parte de sistema nacional de saúde onde o peso das corporações é enorme. A seguir, deu de frente com a pandemia. E, praticamente, confinou o SNS à pandemia o que fez com que o dito emergisse no ano corrente na maior desgraça. Testemunhei a coisa num dos equipamentos hospitalares do SNS. O ano passado, a minha Mãe esteve internada, no auge do segundo confinamento, e as coisas correram bem, mesmo andando de um lado para o outro por quase tudo estar por conta da Covid. Este ano, entre Abril e Maio, voltou duas vezes ao mesmo equipamento hospitalar. Da primeira vez, saiu de lá com uma bactéria no nariz que acabou sendo tratada na residencial. Da segunda, onde lhe foi diagnosticada uma pneumonia, permaneceu mais dias internada e acabou subitamente com uma alta precoce. Entre a alta e a morte, não decorreram mais de três semanas. Entretanto, Temido, que já passara a pasta politicamente para Costa, continuou. E ainda a semana passada jurava que tudo advinha dos anos 80, talvez com a exclusão da pandemia, em que alguns idiotas úteis acham que ela desempenhou um papel fundamental. Pelo caminho, ficou para a história a entrega do cartão do PS, "intuitu persona", do Costa à senhora num congresso do PS no Algarve. Ela aquiesceu, curvada, e mal pôde foi de carro do ministério manifestar o seu apoio ao colega Pedro Nuno, cabeça de lista não sei por onde em Janeiro. Deve ter sido candidata a deputada, pelo que é mais uma a quem eventualmente será necessário dar lugar na bancada do partido. Se não for assim, é assado, e Costa arranja-lhe qualquer coisa cá fora, tipo nemesis do Medina. Costa não quis fazer-se entendido este tempo todo de uma evidência. Com a maioria absoluta, a senhora não devia ter ficado. Agora sai pela esquerda baixa. A dela, aliás. Não lamento. 

29.8.22

Portugal em Marte

https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/amp/portugal-em-marte-15121870.html


Ninguém explica aos portugueses que, para além da recessão provocada pela pandemia, e da inflação que já resultava das manipulações financeiras do "lado de cá", juntou-se o efeito "boomerang" da Ucrânia e das sanções, sem tom nem som, à Federação Russa. Desde Fevereiro que o centro do mundo ocidental passou a ser o regime de Kiev. Quando, na verdade, o que está no meio, a começar pela própria Ucrânia - um Estado sem uma nação -, são puras marionetas de uma redefinição geopolítica global em curso entre os EUA, a Rússia e a China, com um novo interlocutor oportunista pelo meio chamado Turquia. Esta União Europeia não tem altura para isto, como reconheceu indirectamente Macron. Portugal, a periferia, prossegue mantido na ignorância, na festança e no adiamento. Costa quer mais tempo para a "bazuca. Ainda lhe rebenta em casa.


 

28.8.22

Um partido a precisar respirar

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Como todos os demais partidos, o Chega, ao crescer, tornou mais evidente ser o que todos os partidos tendem a ser: um aglomerado, mais ou menos monolítico, de pessoas com interesses pessoais e políticos apenas coincidentes no estritamente necessário para a conquista do poder. O poder, aqui, varia de nacional a regional e autárquico. Partidos unipessoais como o Chega sofrem mais. Sem "massa crítica" - é mais "massa bruta" como os outros são, só que em maior número -, o Chega, isto é, Ventura, não pode dar-se ao luxo de que, cá fora, se perceba que há formas de vida inteligente, lá dentro, para além da dele. Por isso, a formação de um escol partidário específico estará sempre dificultada por esta obsessão com o "one man show" hiper histriónico. Por outro lado, um partido coral-sinfónico, com um único solista, da natureza do Chega, convém ao PS e à situação em vigor. Quanto mais Ventura berrar, menos se ouvirá a  outra direita que continua sem uma figura indisputável de autoridade moral e política no activo. Não que Montenegro não deva ser apoiado, como deve ser, mas o país precisa sentir outra coisa para se voltar, designadamente, para o PSD. O CDS, que acentuou a sua vertente unipessoal em Julho de 2013 e, até, no governo, acabou como acabou. Não sou dos que, à direita, excluem ou acantonam o Chega. Não é verosímil quando se trata do terceiro partido mais votado. Precisamente, é pensando nessa circunstância que Ventura deve orientar-se, e não por um narcisismo adulador e frívolo que não interessa a ninguém. Ventura tem de deixar o partido respirar. 

27.8.22

A “clara noite do nada”

 


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Tal qual Gore Vidal, detesto ser o meu próprio assunto. Mas sucedeu que, ontem, no meio do nevoeiro da praia das Maçãs onde fui almoçar e trabalhar (levo sempre o pc na mochila), deparo-me à saída com alguém que me acena de um carro. Aproximei-me e era uma funcionária, de nacionalidade brasileira, que trabalha na residencial geriátrica onde a minha Mãe esteve nos últimos três anos. Ela faz "noites", o que eu sabia, e aí perguntei-lhe se assistira à morte da minha Mãe, na madrugada de 14 de Junho. E ela, evangélica de culto (ia, aliás, para Cascais, a uma sessão), descreveu-me esses últimos instantes da minha Mãe. Desde esse dia que me atormentava pensar que, a umas escassas horas de ter estado com ela sem saber que era a derradeira vez, alguém seguramente testemunhou, lá dentro, e não a deixou sozinha, na passagem para a "clara noite do nada", recorrendo à magnífica expressão de Martin Heidegger. E então ela contou-me tudo, com um sorriso de esperança, que me sossegou. Não houve a aflição que eu presenciara nessa tarde longa, afinal a última. Isto é, eu é que devia lá ter estado, mas consolou-me finalmente saber que não morreu sozinha nessa madrugada. Nem aflita. O acaso e o indeterminado conduzem, afinal, a nossa vida e a nossa morte que faz parte dela. Duas pessoas que nunca estariam, a priori, destinadas a cruzar-se, a nossa cidadã brasileira a residir e a trabalhar na aldeia da Praia, e a minha Mãe, estão juntas no final desta vida de umas delas. Depois falou-me de mais mortes de meus conhecidos de lá que ocorreram entretanto. Despedimo-nos, e eu entrei no meu carro, estacionado a escassos metros, com o pão quentinho e duas bolas de berlim sem creme. Não arranquei logo. Fiquei ali, uns instantes, a chorar. Sim, um homem chora. Escolhi o Carlo Bergonzi para me fazer companhia musical no caminho de regresso a Lisboa. Ainda agora, hoje, quando escrevo isto, contemplando a mesa da "Roda" onde vim almoçar com a minha Mãe, há menos de três anos, sem sabermos que era a última, recordo ter-lhe perguntado se queria ir a casa, que é no mesmo edifício (tínhamos regressado de os "Lusíadas" onde ela fora a uma consulta de ortopedia, totalmente curada de uma pequena fractura de pulso na residencial), e não consigo definir o sentimento que sobrou da aclaração inesperada. A minha Mãe não quis subir as escadas até ao 3º andar e preferiu seguir para Sintra. Como escreveu um amigo meu, "ela nunca desaparecerá de dentro de ti e tu agora és quem a transpostas na tua vida." Exactamente. 

25.8.22

O homem do possível

 


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Eduardo Prado Coelho deixou-nos há 15 anos. Ao longo deles, neste blogue ou noutros locais, designadamente em dois livros (não houve mais, entretanto), escrevi bastante sobre ele. EPC não deixou continuadores. O que ele representava no debate público, cultural ou outro, não teve sequência. Ou melhor. Emergiram contingentes de "sistémicos" que se imaginaram, e ainda agora se supõem, subtis e sublimes analistas, mas que as circunstâncias devoraram . Pelo que existe uma espécie de colectivo onde dizem todos sensivelmente o mesmo, só que usam distinto palavreado. EPC tinha o cuidado, mesmo quando parecia "ir a todas", de evitar a tagarelice naquele sentido que Heidegger lhe atribuía. Havia método na sua dispersão e na sua multiplicação de interesses, como havia método na loucura de Hamlet. Volta e meia, abro ao calhas um destes livros dele, e leio ou releio. E continuo a sair de um parágrafo, de uma frase ou de uma palavra mais rico do que quando lá entrei. Por causa daquela permanente atenção e curiosidade pelo mundo, pela sua complexidade e pelos seus pontos de sombra e luz. EPC, nos títulos dos seus livros, deu sempre a entender o processo frágil, precário e contingente desse entendimento e que é, no fundo, o do conhecimento. Falta ali o "Hipóteses de Abril" que não faz sentido junto dos outros. Foi a pior fase, a da tentativa e erro do "intelectual orgânico" comunista, do "dg da acção cultural". Esse EPC nunca me interessou. O Eduardo, sim. Nesse seu todo contraditório e, pessoalmente, encantador. Nunca me esquecerei de, no frenesim da festa do primeiro ano do Frágil, ele me perguntar o que é que eu pensava da tese de doutoramento dele, adquirida uns dias antes na feira do livro com um autógrafo. Um estudante de Direito, do 3º ano, a caminho do 4º, que podia responder sobre "Os universos da crítica" que lia entre intervalos dos exames daquele Verão de 1983? Respondo hoje com uma frase dele, repescada porventura do diário ou de um último livro em torno de questões da filosofia e da linguagem, que usei no Twitter: "o homem do provável é o homem médio; o homem do possível é, na sua singularidade irredutível, o melhor de cada um de nós". EPC sabia, como poucos, extrair esse melhor de cada um de nós. O que não significa que tenhamos conseguido, ou que sejamos, sequer, melhores. Eu, pelo menos, com certeza que não. 

24.8.22

Despojos imperiais e reais

 


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A problemática da transumância do coração de D. Pedro IV, antigo imperador do Brasil, pode perfeitamente ligar-se a temática familiar da augusta pessoa. Com o mano Miguel, protagonizou, pelo lado dito "liberal", a guerra civil de 1832-1834. D. Miguel teve sempre o apoio de sua Mãe, Carlota Joaquina, que era assaz prolixa nos seus relacionamentos amorosos, especialmente com ingleses conspícuos que nos vieram "libertar" dos franceses. Antes deste regime, já o anterior tinha andado com as ossadas do homem do "grito do Ipiranga" caminho do Brasil. Agora, o alcaide do Porto expôs primeiro o coração ardente do imperador liberal - o primeiro antecessor dos chefes de Estado brasileiro até estes dois improváveis que vão em breve disputar Brasília, o incumbente chanfrado e o antigo presidiário ptista - que foi ontem entregue em mão ao Capitão Bolsonaro. O que não falta é órgãos e adornos para a troca. 


Imagem: "Balázio", Tal&Qual, 24.8.2022

23.8.22

Tempos interessantes

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Está a decorrer em Kiev uma coisa chamada "Plataforma para a Crimeia", sob o alto patrocínio do regime da cidade. Em pessoa, esteve lá pelo menos o presidente polaco, chefe de um Estado particularmente interessado na Ucrânia. E com uns antecedentes encantadores em matéria de história da Europa. Mas já li participações de Guterres, de Macron e até de Erdogan, todas no sentido do regresso da Crimeia e de Sebastopol aos braços de território ucraniano. Isto é, a antes de 2014 e 2015. Nessa altura, este mesmo Ocidente que hoje advoga isto, deixou a Federação Russa fazer o que lhe competia e apetecia, ou seja, recuperar território russo. Recupero palavras de Vasco Pulido Valente em Março de 2014. «A Rússia, disse Obama, é uma “potência regional”. Este exemplo de arrogância, e de inconsciência, não muda a realidade. O que a crise da Crimeia claramente deixou ver foi que a América já não é uma potência global. Não admira que a China se aproximasse da Rússia; e que, na África e na Ásia, se fale cada vez com maior insistência na “hipocrisia americana” (para não falar na “hipocrisia europeia”). Como não admira que a sra. Merkel, depois de se aliviar de umas frases pias, se preocupasse sobretudo em defender o interesse económico da Alemanha na Federação Russa. A América e a Europa saíram muito mal da suposta “confrontação” com Putin: sem unidade e sem iniciativa. Pior ainda: tão “apaziguadores” como os velhos de 1930, anunciaram em Bruxelas que reservam a sua verdadeira cólera para o caso de a Rússia persistir numa política de expansão, que Putin, por enquanto, rejeita. Mas que, se a confusão e a irresponsabilidade do Ocidente não acabarem depressa, não rejeitará sempre.» Parece, pois, que com a "Plataforma" de hoje, "a verdadeira cólera" ocidental foi finalmente rebocada pelo sr. Zelensky que não se tem cansado de afirmar, nos últimos dias, que só há paz com a Crimeia de volta. Macron, um interlocutor médio de Putin, até disse lá para Kiev que não pode existir nenhum espírito de compromisso ou exibição de fraqueza diante da Rússia. E Blinken acrescentou que a Crimeia é "tão" Ucrânia como as duas repúblicas independentistas do Donbass, com todos a recusar os referendos que a Rússia tenciona realizar. Traduzido em miúdos, o Ocidente pode ter hoje declarado oficiosamente guerra a Putin uma vez que a Crimeia não é negociável. Ou não. Depende dos telefonemas que se fizerem, à sucapa, quanto terminar a "Plataforma". Por outro lado, Zelensky começa a ter oposição interna ao seu desvario bélico sem a correspondente atenção à sociedade ucraniana como um todo. Que vivamos, outra vez, tempos interessantes. 

22.8.22

A “guerra” de Guterres

Guterres pediu paz, pelo menos ali. Erdogan jurou ir falar com Putin a seguir, sempre pedalando a bicicleta turca. E Zelensky, com cara de bebé chorão, deixou logo claro para os dois interlocutores que só haverá paz quando a Rússia sair de todos os espaços ocupados, incluindo a Crimeia. Em contacto telefónico com Macron, Putin "abriu" as portas da central à agência internacional que audita a segurança nuclear, "fechando" momentaneamente o acesso ucraniano à electricidade ali produzida. O que Guterres contestou imediatamente por se tratar de equipamentos em solo da Ucrânia onde a guerra continua. Em suma, e para variar, Guterres bem.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/guterres-bem--15106475.html?fbclid=IwAR1Kmyzffkt7jETJc-SDzgF7WAwVy7dwJ0gefPkwhcvbRAJrLqtZsqk2POA


 

21.8.22

Portugal envelhece e envilece

 


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Um estudo da Pordata - que faz hoje a manchete do "Público" - diz-nos sermos o país da Europa a envelhecer mais depressa. A "juventude" e os nascimentos não compensam o envelhecimento, uma coisa que contam a partir dos 65 anos. Isto quer também dizer outra coisa amplamente redita. A esperança média de vida aumentou, apesar dos dados mais recentes sobre a mortalidade portuguesa nos últimos tempos. Por outro lado, a juventude classe média alta e remediada faz os possíveis para sair daqui à primeira oportunidade. Por iniciativa própria ou, quando a condição sócio-familiar o permite, incentivados e pagos pelos paizinhos. De outra banda, temos as "famílias numerosas" autoctónes que fazem o que podem para se reproduzir em filhos, netos e bisnetos. O que aparentemente não chega. Imagino a desgraça no "interior", já que o país é, há muito, uma espécie de navio tombado com as maiores concentrações populacionais no litoral. Apesar do desprezo generalizado pelos "velhos", mais ou menos oficioso, a verdade é que esse é, afinal, o país que resiste no meio do envilecimento geral. Sim, não me enganei no substantivo. Portugal envelhece e envilece simultaneamente. Tornou-se numa sociedade amoral, acultural e associal sem grande futuro. Não lamento. 

20.8.22

A doer

9B0C67A0-B546-4AF6-A360-E88FFD4CA225.jpegIsto é o último parágrafo da crónica de Miguel Monjardino no Expresso. Claramente pró-ucraniano, Monjardino, contudo, não deixa de constatar o chamado óbvio ululante. Putin não quer saber do comunismo e da União Soviética para nada. O pan-eslavismo de Vladimir Vladimirovich é de outra natureza e, como dizia o outro, estava escrito nas estrelas (nas actas, nas gravações audiovisuais, etc.) que o que se está a passar, com maior ou menor infelicidade, ia passar-se. Putin não perdoa a década perdida, e embebida em álcool que ele não consome, de 90 e que, nomeadamente, a NATO aproveitou para se expandir até às fronteiras da Federação. A coisa vai continuar a ser a doer. 

Aguentem-se

 


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António Costa formou o pior dos seus três governos, este, o da maioria absoluta. Aos superficiais ou impreparados que já vinham de trás, juntou-lhes uns quantos que nada acrescentam ao bom andamento das coisas. Que, de uma maneira geral, não pode ser pior. Medina, por exemplo, só aparentemente foi recauchutado da desgraça camarária do ano passado (dos anos todos dele) com a "promoção" a ministro das finanças. A orgânica do governo relegou-o à irrelevância. E, de cada vez que ele julga poder superar a referida irrelevância, espalha-se (ou espalham-no, consoante as perspectivas). Temido é uma nulidade insuperável que vinha de trás e é sem remédio. O MAI, acolitado por aquela Gaspar dos fogos que só asneira, perdeu o Verão. Etc., etc. Não há "número dois", não há política. Há Costa. Por isso, estranho que alguém como esta senhora tivesse sido removida em vez de promovida no governo. Tem pensamento próprio (não é preciso concordar) e não receia fazer. Mas o governo não é meu em nenhum sentido. Aguentem-se. 

18.8.22

O urso na sala

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Guterres, Erdogan e Zelensky reuniram durante 40 minutos. O pretexto foi a segurança da central nuclear de Zaporíjia. A zona onde a central está implantada - e a propriamente dita - corre por mãos russas. Mesmo tratando-se do que se trata, aparentemente a guerra não dá tréguas àquela zona e é preciso permitir à agência internacional nuclear uma avaliação no terreno. Zelensky, como sempre, só ouve o que lhe interessa. Neste caso concreto, não estando (antes pelo contrário) envolvido qualquer fornecimento de armas, o presidente da Ucrânia fez questão de salientar, contrariamente aos outros dois que assentaram as respectivas prosas na diplomacia, que não há paz alguma sem os russos saírem de Zaporíjia. E, já agora, de todo o território ucraniano que, para Kiev, inclui o Donbass e a Crimeia. Erdogan irá agora falar com Putin. E não seria má ideia Guterres apalavrar rapidamente um encontro em Sochi. Porque o grande ausente deste encontro é fundamental neste nó górdio. Que continua bem atado. 

17.8.22

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Melhor era impossível 



Estive a ler as três paginas que o "Jornal de Negócios" ofereceu a Sérgio Figueiredo para se defender das maldades do mundo. Em nenhuma das páginas, porém, encontrei nada que aconselhasse particularmente "aquela" contratação para um ministro das Finanças. Encontrei, sim, um ressentimento feio em relação a uma pessoa que já não está entre nós (e que não se pode defender, como o autor, independentemente da bondade ou não daquela contratação concreta) e aqueles momentos que destaquei com um lápis e que estão nas fotografias. Ficamos a saber que o Estado ficou a perder com a ausência da egrégia figura de SF (foto1). Ficamos a saber que foi o pessoal do "ressentimento", activo ou passivo, incluindo jornalistas, que pôs sobretudo em causa a excelência de SF quando ainda nem sequer tinham saído debaixo das pedras, como ele, há mais de 30 anos (foto2). E ficamos, finalmente, a saber (foto3) que Medina não possui "ideias" para o ministério que tutela. Ele apenas "pensou em mim" (SF), preocupado consigo", ou seja, sem os atributos e os contributos de SF, Medina entraria, no mínimo, em depressão. E o país, sabe-se lá em quê. Só SF estava em condições de dotar Medina, "enriquecendo" a sua "visão da realidade, com as "ideias", as "expectativas" e as "sugestões" que SF lhe faria chegar. Para além do Estado, o próprio gabinete do ministro será um vespeiro de incapazes ligados a uma "central técnica" que não lhe fazem "chegar" nada que se aproveite. Finalmente, SF acaba a confessar que sabia bem ao que ia, e dentro dos parâmetros da "honestidade das pessoas" que se presume, evidentemente, até prova em contrário. Se os ministros se fartam de contratar "consultores", "agências de comunicação" e "escritórios de advogados", "só para dar três exemplos que todos os dias prestam serviços especializados a instituições públicas", porquê deixá-lo a ele, SF, fora deste circuito trivial? Melhor era impossível. 

O Balázio

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Quando escrevi o "Balázio" para o "Tal&Qual" desta semana, Marcelo ainda não tinha descido ao Algarve. O que "estava a dar" era a "car interview" para a CNNP. No regresso, já que é tão exímio condutor, podia vir pela Beira e passar na Serra da Estrela. O inteior não é o Gigi, os Tomates, o Ancão ou o último restaurante da moda no eixo Vale de Lobo-Quinta do Lago, no Garrão, de seu nome "António Tá Certo", aprendi no "Tal&Qual". Há sempre um país que vai morrendo que não espera por selfies.

Lisboa feia, porca e má

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Sou pouco dado a "movimentos" e a "associações". Todavia, não deixa de ser sintomático que haja lisboetas que entendem dever "substituir-se" à CML no elementar exercício de manter as ruas limpas. Ainda me lembro de quando as ruas eram regularamente lavadas pelos serviços camarários. Hoje, a generalidade dos "passeios" mete nojo. A questão do lixo é incontornável. Porque acarreta o resto aflorado no artigo: bicharada. Não apenas na rua, mas nos nossos prédios. Basta um "encerramento para férias" de um qualquer estabelecimento de restauração, a presença por perto de contentores de lixo, daqueles das cores por causa da "reciclagem", que parecem poços sem fundo para qualquer merda, e os próprios saquinhos do lixo acumulado  encostados a estes, e é um recreio para baratas e rataria. Uma cidade que só pensa no bem estar do pé descalço, ou calçado, que é despejado, de novo, aos molhos em Lisboa pelo aeroporto ou pelos navios altamente poluentes que atracam em Santa Apolónia, é uma cidade sem respeito pelos seus. Aparentemente, esta CML, em que votei, está mais interessada em ser mais um estaminé de eventos circunstanciais do que em fazer o que os seus cidadãos esperam dela. Com uma vereação medíocre, caciqueira por um lado, e simplesmente burra, por outro, como uma ou outra honorável excepção, Moedas completa, na verdade, um primeiro ano de mandato praticamente inócuo. Isto depois de ter tudo na mão para ser claro e distinto do seu sinistro antecessor. A paloncice e a obsessão pelo "turista" são insuportáveis. Há dois anos que deixei de frequentar o "centro". Da última vez que lá andei, não vi hora de regressar ao meu bairro. Também está feio, porco e mal frequentado, um mal geral. Lisboa está como se escreve nos carros cheios de pó: "lava-me, porco". 

16.8.22

Uma relassa fraqueza

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Faz hoje 122 anos que Eça morreu em Neuilly sur Seine. O “meu” preferido é Fradique Mendes e, claro, “Os Maias”, “A cidade e as serras”, o conto “O suave milagre”, a magnífica “nota contemporânea” sobre Antero, “um génio que era um santo” e “As Farpas", as dele. Volto a Fradique. Depois de várias peripécias na chegada a Lisboa por via férrea, vindo do Porto, já à beira do Hotel Bragança a bordo de uma caleche cujo cocheiro lhe pediu "não menos de três mil réis" pelo transporte, Fradique é reconhecido pelo homem, "à luz do vestíbulo" que lhe batia na face. "Então, são três mil réis?", pergunta Fradique. Responde o homem: - Aquilo era por dizer...Eu não tinha conhecido o sr. D. Fradique...Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser. Humilhação incomparável! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquele bandido conhecia o sr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos éramos portugueses.”

Faltou o F, de Festival de Cinema da Figueira da Foz

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Eu e mais dois colegas da Católica fomos até ao Festival de Cinema da Figueira da Foz, sempre em Serembro. Um, nessa altura, tinha umas vagas pretensões literárias - na realidade, entretinha-se a imitar os contos do Hemingway - e o outro, mais modesto, apenas gostava de cinema. Ficámos os três alojados numa miserável residencial, no mesmo quarto e com uma casa de banho infecta. Nesse ano, o filme "sensação" era "Francisca", de Manoel de Oliveira, e o "grande prémio" foi entregue à película francesa "Diva", a surpresa do Festival. Voltei. Outras companhias, outros quartos. Em dez dias, devo ter visto para lá de sessenta filmes. Calhou, até, apesar da "tenra" idade, "ver" - premonitoriamente - aquilo que viria a ser a minha vida daí em diante. Desses tempos singulares, recordo sobretudo atravessar o gigantesco areal da praia da Figueira, manhã cedo, até ao café em frente do Casino, depois de noites e noites inverosímeis. Aí, numa dessas manhãs, cedinho
, encontrei o Eduardo Prado Coelho a engraxar os sapatos e a preparar-se para ir até à gráfica, em Leiria, onde a sua tese de doutoramento estava a ser impressa para sair em livro no ano seguinte, "Os Universos da Crítica". Arrastava-me, depois, para toda e qualquer sala da cidade, onde passasse um filme de um realizador obscuro, para fugir às minhas companhias e de mim próprio. Em pleno processo de afundamento, o saudoso Herlander Peyroteo levou-me a almoçar a Buarcos. O que nos rimos. Houve ainda tempo para um jantar melancólico, num restaurante indiano (comida detestável, que nunca mais provei), em que acabei sozinho, com a garrafa de vinho, depois de ter conseguido proferir a palavra mágica. Passaram quarenta anos. Os dois colegas da Católica são hoje garbosos advogados da nossa praça. A companhia luminosa e funesta do ano seguinte foi economista numa multinacional e já tem um neto, pelo menos. O Prado Coelho e o Peyroteo já desapareceram. A Figueira desses dias também. O "pai" do Festival, o José Vieira Marques, ainda mais cedo se foi. Os outros, eu incluído, moveram-se. Aliás, tudo se moveu. "Nunca escrevi, julgando escrever, nunca amei, julgando amar, nunca fiz mais do que esperar", escreveu algures outra "heroína" do Festival, Marguerite Duras. Apesar dos anos decorridos, continuo sentado no mesmo banco de pedra da marginal, em frente ao Grande Hotel, a olhar para o mar inesquecível da Figueira. O semanário "Tal&Qual" dedicou-lhe um suplemento, a semana passada, de A a Z. E uma entrevista ao Pedro Santana Lopes, o edil. Faltou ali o F, do Festival de Cinema. Devolva-o à cidade , Pedro. Olhe que vale a pena. 

Quarenta anos depois

 


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Há quarenta anos - sim, em 1982, ontem - abriu o Frágil. Quando ouço a miudagem dizer - com a falsa intimidade de quem não sabe nada nem viveu ainda nada - que vai "ao Bairro", sorrio para dentro. O "Bairro" que eles conhecem, o dos shots, das ganzas e do copinho de plástico na mão no meio da rua, não é exactamente o mesmo Bairro Alto dessa altura. Aliás, quase todos os actuais frequentadores mais assíduos nem sequer eram vivos. O Frágil e, em restaurante, o Pap'açorda, recriaram o Bairro Alto em Lisboa, nos primeiros anos da década de oitenta. Manuel Reis, o José Manuel Miranda e o Fernando "mudaram" aquele lado da noite (só o último está vivo). Em rigor, criaram uma outra noite que tinha o seu coração na Rua da Atalaia. Saía-se de um para o outro lado e, cada noite, pelo menos nesse Verão primeiro, era a primeira. Única. O Frágil tinha sempre à porta homens e mulheres lindíssimos e sofisticados, fora uma posterior e lamentável autarca do PS em Lisboa. Anamar "começou" naquela porta, por exemplo. Lá dentro circulava gente para todos os gostos e todos os gostos eram relativamente saciáveis. Corri para o Frágil quase todo o mês de Agosto desse ano apenas variando nas companhias. Tinha vinte e um anos e, julgava eu, uma vida genial por vir. Tudo era possível. Nada ou muito pouco, afinal, veio. E tudo se revelou improvável ou, no limite, impossível. Entretanto o Frágil foi definhando até se tornar num estábulo indefinido - logo ele, cujo maior fascínio era justamente essa indefinição - que perdeu as graças dos deuses. Como escrevi noutra ocasião - e já estou em boa idade de não ter de inventar nada - "o ambiente toldou-se e virou lixo, em sentido material e humano. Uma vez, o Miguel Lizarro, em pleno Frágil, olhou em volta e sussurrou-me : "já reparaste, estão todos cheios de vontade de ir para a cama uns com os outros, mas ninguém avança". Alguém acabava sempre por avançar. Agora, nem vontade, nem cama, nem "avanços". Nada. É tudo de plástico como os copos. O Bairro Alto perdeu definitivamente o que tinha de mais belo: a sua noite, a sua autenticidade e o seu esplendor." 

15.8.22

Portugal precisa de um governo diferente

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Não estou preocupado em ser "popular". Muito menos no seio de qualquer partido, incluindo o PSD. É claro que, só a circunstância de ter um novo líder depois da catástrofe Rio, bastaria para, à direita e ao centro-direita, dar um voto (até amigo) de confiança ao Luís Montenegro. No meio do solipsismo absoluto socialista, do desaparecimento do CDS e da arrogância infantil da "nova direita", pede-se mais responsabilidade política e moral ao PSD. Julgo que foi esse o sentido fundamental da intervenção do líder do partido no Algarve: ser, sem ambiguidades, e com equipa à altura, o líder da oposição. Por outro lado, a presença da única figura com autoridade política sobre a direita toda no Pontal, ajudou a esta percepção. Refiro-me a Passos Coelho, evidentemente, e a umas suas declarações lá que passaram quase despercebidas. "Portugal vai precisar, não tenho dúvida nenhuma, de um Governo diferente daquele que temos e na altura própria os portugueses irão pronunciar-se sobre isso”. Não estar na vida política activa, como ele reiterou, é uma coisa. Outra é estar do lado certo das coisas e dizê-las com a claridade e a autoridade de uma biografia. Sim, o PS herdou, nesta década, um país diferente, para melhor, e uma sociedade mais segura e afirmativa para o melhor e para o pior. Porque no "interregno" sem PS, Portugal foi tratado como um país adulto, confrontado com as suas responsabilidades, deveres e direitos, e não como um permanente jardim-escola de flores e de facilidades ilimitadas. E isso tem um nome: Pedro Passos Coelho. O PSD não pode fazer menos que honrá-lo. 


 

A estação dos parvos

Os anglo-saxónicos designam este período do ano pela "silly season". Em Portugal, não existe propriamente uma "silly season" delimitada pelo calendário ou pelas férias. É um contínuo. Portugal, dos pequeninos, vegeta numa estação única, permanentemente estúpida. Ou, parafraseando a jornalista Ana Sá Lopes, no "Público", trata-se de um país onde estão permanentemente a fazer de nós parvos.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/a-estacao-dos-parvos-15092753.html?fbclid=IwAR1mJDnxSe3T6k9lr6j6gOqMDJCU8OiA-_muF16PmUreechTSqbor5PVk58&fs=e&s=cl


 


 


 

14.8.22

Gente alta

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O Calçadão de Quarteira voltou a ser politicamente frequentável. 

“Especificidades”

 


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Portugal teve, e tem, bons eurodeputados. Numa União Europeia com pouquíssimo escrutínio democrático - a Comissão é escolhida a dedo pelos chefes de cada governo e o Conselho Europeu, com governantes circunstanciais, é que manda -, seria natural que o Parlamento Europeu, apesar ou até por causa da dimensão, tivesse um papel mais consentâneo com a forma como é composto. Cada povo escolhe os seus, mas não viria mal a uma UE cada vez mais "nacionalista" e individualista, uma ligeira adaptação ao cosmopolitismo, a essência da própria ideia de Europa. Mas não. Sucede que a nossa Assembleia da República, a rebentar de mediocridades, não quer envolver candidatos portugueses a eurodeputados em listas com outros de outros países. O senhor Capoulas Santos, que já foi eurodeputado, acha que as "especificidades nacionais" (palavra de honra) se devem sobrepor à constituição de listas com outros. Uma das "especificidades" será a estupidez nacional? Têm medo de quê? 

Evangelho do dia

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(Lc 12,49-53)


"Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um baptismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra! Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra”.

“O país mais homossexual do mundo”

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Quatrocentas páginas. O mais curioso, pela chatice, é a obsessão dos perguntadores pela pergunta “culta”, isto é, “deixa-me lá mostrar ao Cesariny que sei tudo sobre surrealismo e, mesmo assim, quero que ele repita”. E ele repete praticamente em todas as entrevistas o mesmo sobre o “grupo”, a emergência do “grupo”, o esfarelamento do “grupo”, a pintura e a poesia, e isto e aquilo. Pena não ter ficado uma resposta tipo “e por que é não vai perguntar ao caralho?”. Dito isto, há verdadeiras “iluminações” em frases soltas de algumas respostas e aí, sim, vão “navios de espelhos”. Como sobre Pessoa, que apesar da sua grandeza “não saiu da mesa do café”. Ou a sexualidade. “A Grécia foi um amor que eu tive com um moço” Depois a PIDE, por causa de uma carta do moço (Carlos Eurico da Costa) que estava na tropa, entrou “na cama connosco. E assim começou Roma: mais sexo do que amor”. Prossegue. “Nem imagina a quantidade de pessoas que eu fiz. Dados os resultados concretos, troquei a Grécia por Roma. Sabe o que eu quero dizer? Há o Eros mental e depois há o que se espalha pelo corpo, que é outra coisa. Rapazinhos por dia, dois, marinheiros, três”. Com Salazar, “Portugal era o país mais homossexual do mundo. E não era só a Marinha. O 25 de Abril, com a libertação dos homossexuais, também libertou a Marinha desse hábito. Passaram a considerar-se uns homenzinhos que não fazem essas coisas. Agora fazem entre eles ou com um tenente qualquer”. Na página 376 está uma fotografia legendada “MC e João Grosso na estreia de Um Auto para Jerusalém, 2002”. Nem uma coisa, nem a outra. Não é o Grosso, é o Diogo Doria. E não é no D.Maria, que nessa estreia estava eu.

13.8.22

Almeida Bruno por Ramalho Eanes

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"Almeida Bruno era o típico oficial de Cavalaria, da ‘velha e nobre’ Cavalaria, que, com igual garbo militar, envergava, quer a sua farda de gala, quer o seu traje de combate."


https://sol.sapo.pt/artigo/778684/almeida-bruno-o-tipico-oficial-da-velha-e-nobre-cavalaria


 

Meditação sobre fatwas

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"Ver tanto(a) «ofendidista», tanto(a) defensor da «liberdade de expressão sim, mas com limites», tanto(a) adepto(a) da «censura para não conspurcar os factos», tanto(a) «controleiro da verdade», todos e todas perturbadíssimos com o atentado a Salman Rushdie dá-me volta ao estômago."


Me too, salvo seja.


DAQUI: http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2022/08/ainda-fatwa-salman-rushdie.html


 


 

Um governo pós-democrático absoluto

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Quando foi criada a Cresap - uma comissão  supostamente independente para avaliar os perfis de candidatos a lugares de topo na administração pública, escolhendo três elegíveis a apresentar ao respectivo membro do governo que, depois, nomeava um deles -, em 2011, fui contra. E também fui contra a presidência da dita pelo dr. Bilhim na foto. Afinal, ele tinha sido DG sob o mando de Costa na Justiça e tinha desempenhado outras funções de direcção na administração pública em pleno "socratismo". O que eu não sabia, apesar de estar num gabinete do XIX governo que o nomeou para a Cresap, é que Bilhim tinha sido uma "combinação" de alto nível entre AJ Seguro, então SG do PS na oposição, e o PM Passos Coelho. Bilhim era um "segurista" e o governo queria ser "isento" ali. Mal Costa arrumou Seguro com a brutalidade de que nos recordamos, e acede, com os escadotes do PC e do Bloco, ao governo, "arrumou" a Cresap a um canto. Bilhim entretanto saiu e os governos de Costa passaram a fingir que seguiam os critérios da Cresap, nomeando quem quiseram, e querem, "em substituição", ou directamente, ignorando os pareceres do organismo,  praticamente reduzido a figura de corpo presente. Sérgio Figueiredo, como é obvio, foi directamente da assinatura de Medina num papel para as Finanças. E Bilhim, que sempre serviu melhor ou pior a administração pública e já se aposentou, não se engana. Figueiredo é uma ofensa a quem serve o Estado por profissão. Há mais, evidentemente, mas são "figueiredozinhos" e "figueiredozinhas" perto deste passarão escarúnfio. São os habituais lacaios do partido que têm quotas nos gabinetes, por endogamia ou cu pelado nas secções. Já agora, e ao lado de Bilhim na capa do "Público", temos uma do "banco de fomento" (outra farsa nas mãos do poetastro nulo da Economia) a bater com a porta. A ofensa é, pois, geral, mas o poder é absoluto. É por isso que insisto sempre que estamos na pós-democracia. Esta gente da "ocidental praia lusitana," ou de outros ocidentes mais secos, ou não, nada tem a ensinar a Vladimir Vladimirovich. É capaz de acabar por ser mais ao contrário. 

12.8.22

“Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros.”

Artigo interessante da Ana Sá Lopes no "Público". Portugal, depois do descrédito clamoroso dos mandatos de Marcelo, vai com certeza precisar de uma voz isenta de comando, acima da famosa "bolha mediática" de que o "politólogo" Costa Pinto, citado no artigo, é um belo exemplo. Ser militar, hoje em dia, é evidentemente mais honroso que pertencer, por exemplo, à longa mão das grandes empresas de advocacia ou de consultadoria que produzem fenómenos do Entroncamento que acabam nos governos e a rodar, a seguir, por onde lhes pagarem mais. Veja-se o caso do senhor Figueiredo do senhor Medina, vindo directamente da "bolha", para parasitar o Estado e os contribuintes à custa da sua alegada "competência". Os cemitérios estão cheios de Figueiredos e de bons e de maus malandros. Força, meu Almirante.


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11.8.22

Colagens

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Há anos e anos que não frequento lupanares. Simultaneamente, fecharam os cinemas onde se podia ver pornografia. O que quer dizer que vejo pouco ou nada das televisões portuguesas. Li, todavia, que a veneranda figura do chefe de Estado, numa entrevista dada na condição de condutor de automóveis, afirmou o seguinte: "A direita cometeu um erro que nunca percebi: os sucessivos líderes da direita descolavam de mim em vez de colarem a mim, descolaram ostensivamente de mim. Quem é que se colava a mim? O primeiro-ministro e o PS". Ora este "pensamento", esta proposição, leva à seguinte conclusão. Marcelo nada fez para "descolar" o PM e o PS da sua extraordinária pessoa. Pelo contrário, no campeonato da "colagem" de uns e outro, Marcelo levou sempre vantagem desde 2016. Não fez, aliás, outra coisa no primeiro mandato para poder garantir votos socialistas que suprissem a eventual ausência de votos da direita quando se recandidatasse. Hostilizou de todas as maneiras e feitios Passos Coelho até ele se ir embora. A Rio não precisava de fazer nada porque ele próprio e Costa encarregavam-se da famosa "colagem". Agora receia que não lhe liguem - o PM e o PS já não precisam dele para nada - e que o PSD se "autonomize" ainda mais de um presidente que, sendo dos "seus", conseguiu a proeza de ser menos isento em sede de "colagens" que os dois presidentes socialistas em relação ao PS. Nada, antes pelo contrário, indicia que o resto do mandato não passe da vulgaridade e da superficialidade. Marcelo aprecia ser rebocado pelo governo. E o governo não se importa nada de o rebocar. Facultou-lhes a maioria absoluta com aquela tolice diária sobre o orçamento. Não foi a direita que não esteve do lado certo das coisas, para usar a expressão do Paulo Portas para apoiar a sua recandidatura. Foi ele. Ainda bem que não estampou o automóvel com tanta conversa de chacha. 

Quem?

 


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Não sei o nome dela. Lembro-me que presidiu à Camara de Abrantes - onde não deixou grandes recordações-, posto do qual saiu para ministra da agricultura. Depois disto, fica-se na dúvida. Ela tem noção do que afirmou? Se tem, é grave. Revela um sentido de Estado ao nível de uma osga. Se não tem, é estúpida. Prefiro a segunda hipótese. 

A vida que mudou

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Pouco antes de o Facebook me interditar, pela segunda vez, 30 dias, aconteceu o que descrevi neste post. Reproduzo-o aqui simplesmente porque hoje vim almoçar ao "Neptuno", na praia das Maçãs, que foi o meu segundo escritório nestes últimos (quase) três anos em que a minha Mãe esteve numa residencial geriátrica aqui perto, a pé, onde viria a morrer em Junho. Explico a coisa porque não andava pelo blogue. E o meu regresso tem, também, essa diferença fundamental. Eu mudei. A vida mudou. 


Agora mesmo [dia 3 de Agosto de 2022], mais de um mês e meio depois, arranjei coragem para retirar da bagageira do carro o pequeno malote onde alberguei as únicas coisas que me apeteceu trazer do quarto onde a minha Mãe tinha morrido há apenas umas horas. Ela ainda estava lá, serena, como que dormindo. E eu fiz tudo devagar. O grosso do que lá estava, nomeadamente roupas, ficou para outro destino. Tudo o que aqui veio era sobretudo simbólico, desde alguns livros (outros doei à biblioteca da residência) aos óculos. Se escrevo sobre isto, é porque, escrevendo, a minha dor irreparável descansa nestas curtas palavras. E peço ajuda ao autor do livro em primeiro plano para completá-las. “Todas as coisas que amei ou acarinhei me foram roubadas. Morremos albergando em nós uma miríade de amantes e de tribos, de sabores que provámos, de corpos como rios de sabedoria onde mergulhámos e nadámos contra a correnteza, de personalidades como árvores a que trepámos, de medos como grutas onde nos escondemos. Quero tudo isto marcado no meu corpo quando morrer. Acredito nessa cartografia - quando é a natureza que nos marca, em lugar de apenas inscrevermos o nosso nome num mapa, como os nomes dos ricos nas fachadas dos edifícios. Somos histórias colectivas, livros colectivos. Não somos escravos nem monogâmicos nos nossos gostos ou experiências.”