30.6.12

Horas sobre nada e coisa nenhuma

Ainda no Público, o José Pacheco Pereira sobre a "morte cerebral" induzida pelas televisões a propósito do "euro". «Continuarei a considerar anormal, excessivo e socialmente anómalo que se queira ter um país desenvolvido, e ter a RTP1, a SIC, a TVI, a RTP Informação, a SICN, a TVI24 e muitos mais canais a passarem todos ao mesmo tempo e durante o dia todo apenas futebol, entrevistas a populares sobre futebol, comentários sobre futebol, entradas e saídas de camionetes da equipa, adeptos polacos ou ucranianos, pequenos-almoços ou balneários, fans e magotes, tudo ao mesmo, numa linguagem rasteira, imediatista, com logomaquias de horas sobre nada e coisa nenhuma, seguidas de momentos de histeria ou depressão colectiva televisionada em directo. Tudo isto está bem longe de ser gostar de futebol, "vibrar" pela equipa, ver os jogos, entusiasmar-se ou desgostar-se. Está muito para além disso. Isto é lavagem ao cérebro, e está cada vez pior.»


 


Adenda: Por falar em televisão, a RTP2 passa à noite duas obras primas do cinema do século XX. Senso, de Luchino Visconti, e Doutor Jivago, de David Lean. Não sei o que será o futuro serviço público de televisão, mas seja lá o que vier a ser coisas destas deviam lá estar nem que seja só para uma pessoa ver. Pelo escrito acima, percebe-se que esta paloncice das "massas", de agradar às "massas" e de as exibir como macacos no zoo velados por idiotas ainda mais bestializados pelo esforço neuronal exercido, é que, de certeza, não é serviço público venha ele de um operador público ou privado. É pura merda.


 


Adenda2 (de um leitor): «Por falar em Televisão, a RTP dispõe de um canal, o RTP Memória, e, ao que consta e se imagina sem dificuldade, de arquivos de incalculável valor. Esse canal, pelo menos em horário nobre (ignoro se haverá "horário nobre" num canal com estas características, mas chamemos assim ao horário em que o comum dos mortais está plantado em frente do televisor) encontra-se em grande medida desaproveitado. Séries repetidas (algumas bem chochas) são constantes, filmes repetidos constantes são, e até, um dia destes, uma tourada de há anos foi transmitida (!!!). Afigura-se muito fácil, recorrendo aos tais arquivos, e com reduzidos meios ou investimento, fazer daquele canal uma interessantíssima opção. Como está é um desconsolo.»

Histórias de burros

Li no Público uma carta à directora que narra o absurdo "método" de pagamento da "portagem" da A22, no Algarve. Tipos como ele ou eu, que passamos por ali ocasionalmente, uns dias depois (4) devemos deslocar-nos a uma estação dos correios para pagar a coisa. Quem se prepara agora para ir para o veraneio algarvio (se o poder fazer, naturalmente), convém estar preparado para esta imbecilidade. Razão tinha o Sena quando disse que um burro será sempre um burro e ao fim de uma data de anos não vira cavalo. Não passamos disto.


 


Adenda: Reparo pela "bronquidão" evidenciada num ou noutro comentário que há quem não tivesse percebido que a minha crítica (e a do leitor do Público) se dirige ao sistema de cobrança e não ao facto de as "scut" serem pagas pelos utilizadores. Sempre defendi o seu pagamento que só pecou pelo atraso certamente por respeito pelo "visionário" Cravinho e seus sucessores nos desígnios misteriosos do betão estradal.

29.6.12

Um livro no meio do caos

Separar águas

Um bando qualquer - do qual o "moralista social" Arménio Carlos não se demarcou - agrediu pelo menos verbalmente Álvaro Santos Pereira. Também perpetrou a ameaça física como as televisões amplamente registaram. Mas as televisões registaram do mesmo modo a coragem serena de Santos Pereira quando foi ao seu encontro e lhe responderam com insultos do mais diverso jaez. Com gente desta - e eventualmente alguma mais sofisticada que se "manifesta" de outras formas igualmente difamatórias e ameaçadoras -, num estado de direito democrático, trata-se nos tribunais. À política o que é da política, à previsão criminal o que é da previsão criminal.

É isto


 


Em excelente forma.

«Audaces fortuna juvat»


 


Comemoram-se hoje os cinquenta anos do Regimento de Comandos. Ignoro o que fazem agora os "comandos" ou se há apenas memória deles depois da fúria civilista, estúpida, em acabar com o serviço militar obrigatório em nome da corrrecção política e dos novos "costumes". Mas aos "comandos", em Portugal e no antigo Ultramar, muito se deve para a compreensão de coisas em desuso tais como a lealdade, a camaradagem, a entreajuda, a disciplina ou a austeridade. Sem eles, o "25 de Novembro" podia ter conhecido outro destino. A sorte protege os audazes.

28.6.12

The fly-bottle

O sr. Rompuy - basta atender ao facies do homem porque ele resume a "Europa" no presente estado da arte - veio a público "anunciar", no meio da enésima "cimeira decisiva", um extraordinário pacote de 120 mil milhões de euros para o "crescimento e o emprego" na Europa. E estava muito contente ao lado do dr. Barroso que conseguia estar ainda mais contente do que ele. Pareciam as moscas da metáfora de Wittgenstein a bater no frasco. A Espanha e a Itália que o digam.

É isto

Estava a ver a chegada dos rapazolas da selecção e deparo com o artigo semanal de M. M. Carrilho no DN. É isto, de facto. «O desporto condiciona hoje o imaginário de todos os povos do planeta, impondo-lhes um conjunto cada vez mais uniforme de representações a partir das quais eles concebem quase toda a sua existência. Como oportunamente o explicou Robert Redeker, é no desporto que se concentram em mais alto grau os factores de uma tal uniformização: o consumo desenfreado, o fetichismo das marcas, a pressão publicitária, o culto dos ídolos, a submissão aos media, a sloganização da linguagem, a histerização das multidões e o fanatismo da performance. Convergência que torna o desporto, e particularmente o futebol, no catalisador de uma humanidade cada vez mais unidimensional. (...) A grande transformação em matéria desportiva [deu-se] em meados do século XX, com dois acontecimentos: por um lado com o aparecimento da televisão, por outro lado com a emergência dos tempos livres. Foi esta convergência, do desporto com a televisão e com o lazer que definiu o fenómeno desportivo como hoje o conhecemos. Convergência que produziu um fenómeno de identificação cada vez maior entre as massas e o desporto, que toma a sua forma mais comum e mais intensa no futebol. Pode-se pensar, e com bons argumentos, que a identificação de qualquer selecção desportiva e dos seus resultados com qualquer tipo de desígnio nacional não passa, na verdade, de um ritual mais ou menos oportunista. Pessoalmente, nunca identifiquei nenhuma dessas selecções com a minha pátria, talvez porque tenha uma ideia demasiado exigente e valiosa do meu país, na variedade dos seus cientistas, desportistas, médicos, escritores, pintores, engenheiros, gente comum, etc., para o fazer.»

Um episódio da história de Portugal



«E agora? Voltam a casa. O ‘autocarro’ fará a última viagem. Os heróis vencidos receberão palmas de ouro no regresso a Portugal, o eterno perdedor que comemora as suas derrotas, do Ultimatum de 1890 à batalha La Lys em 1918, do Mundial de 1966 ao Euro’2004.»




Cintra Torres, CM

27.6.12

O esplendor periférico

O debate parlamentar sobre a "Europa" pareceu mais uma coisa entre o tropical e o periférico do que uma discussão séria sobre um assunto sério.  Como diz o povo, quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré. Depois que ninguém se queixe.

Vão longe


 


Foi anunciado um "congresso" tipo museológico das "esquerdas alternativas" para o próximo 5 de Outubro. Parece que a coisa divide precisamente as ditas esquerdas, do Bloco ao PS. porque alguns militantes e simpatizantes daquelas agremiações assinaram a convocatória. Assim, de repente, pontificam glórias nacionais como Vasco Lourenço, Carvalho da Silva, Alfredo Barroso e reputados "socráticos" que, imagino, nunca ninguém deu por serem propriamente "de esquerda". Esta patética manifestação não se destina a embaraçar a "direita" mas, como é costume, a chatear as lideranças das agremiações parlamentares de esquerda, a começar pelo PS. É uma "escola" pouco original que começou em Mário Soares, colheita 1991-1995, num célebre congresso (onde a maior parte destes "alternativos" já estavam à excepção dos que ainda hoje não sabem agarrrar a cabeça com as duas mãos) intitulado "Portugal que futuro", famosamente destinado a dizer a Guterres, o Seguro de então, que ele não bastava. Vão longe.

26.6.12

O intemporal Mega

Não é segredo para quem acompanha este blogue o que penso genericamente do "gestor cultural", escritor, ex-jornalista, ex-EXPO 98 e ex- CCB António Mega Ferreira. O regime, neste trinta e tal anos, "criou" dezenas e dezenas de Megas Ferreiras que se lhe colaram à pele como lapas e que ele, o regime, faz questão que não descolem nunca. Mega Ferreira integra esse mandarinato por "autoridade" própria, digamos assim, com o beneplácito sucessivo de vários poderes. E não pode estar muito tempo sem o exercer. Vai daí a Câmara de Lisboa (onde cada vereador faz o que quer e lhe dá na realíssima gana sob o olhar paternalista do dr. Costa que tem manifestamente mais que fazer) decidiu entregar ao dr. Mega a feitura de um «um estudo sobre os museus da cidade» a troco de uns módicos 19 mil euros, através do funesto mecanismo do ajuste directo. O resto da notícia dispensa quaisquer comentários. «A proposta, subscrita pelas vereadoras da Cultura e das Finanças, Catarina Vaz Pinto e Maria João Mendes, destaca o "extenso curriculum" e a "experiência comprovada" de Mega Ferreira na área. Explica ainda a necessidade de efectuar um estudo desta natureza com a "a actual conjuntura de mudanças nas políticas culturais." O CM tentou obter mais esclarecimentos, mas fonte oficial informou: "A vereadora [Catarina Vaz Pinto] não poderá falar nem hoje [ontem] nem amanhã [hoje] por indisponibilidade de agenda."» Nem hoje, ontem, amanhã ou hoje. Mega é verdadeiramente intemporal. 

25.6.12

De última em última hipótese

«Les dirigeants européens ont, eux, vraiment, une ultime chance de décider de leurs destins. Ultime chance parce que, s’ils ne font rien, la survie de l’euro dépendra, une fois de plus, l’été prochain, d’une intervention massive des banques centrales. Et chacun de nos pays sera bientôt emporté dans une immense dépression, bouchon flottant dans l’océan des marchés. Ultime chance parce qu’il leur est encore possible de comprendre que séparés, ils courent au déclin ; et qu’ensemble, ils constitueront encore pendant très longtemps la première puissance du monde, avec le niveau de vie le plus élevé de la planète. Chacun doit, pour cela, faire un pas vers l’autre.» 


 


Jacques Atalli


 


 


Parece, de há umas cimeiras europeias para cá, que a última é sempre a decisiva. Alguma, um dia, terá de ser e era bom que a do final desta semana não correspondesse a mais um emplastro paralisante. As margens de manobra são cada vez mais estreitas. Michel Meyer, filósofo belga, definia a retórica como uma negociação das distâncias. A Europa chegou ao ponto de não ter mais espaço para negociar as distâncias, ou seja, para "retorizar" em torno da realidade à medida em que é persistentemente ultrapassada por ela. Os trabalhadores por conta de outros - no activo ou aposentados, do Atlântico quase aos Urais, do Estado à mítica "privada" - estão a fazer o que lhes é exigido mas pouco mais já lhes deve ou pode ser exigido. À política, pelo contrário, tudo tem de ser exigido. Ou então esta nobre criação do espírito humano, e da vida colectiva, nem para lavar escadas, um dia, servirá.

24.6.12

A força do destino


 


Excelente tarde no canal Mezzo com Verdi e a sua "Força do Destino" - um título que não podia vir mais a propósito dos tempos que correm -, dirigido na Ópera de Viena por Zubin Mehta e com Nina Stemme, Carlos Álvarez e o malogrado Salvatore Licitra. A encenação é de David Pountney, um "velho" conhecido da passagem pelo São Carlos de Pinamonti. Às vezes, sem ser lá fora, há sol e vida.

"De referência"


 


Tenho lido muitas alusões a um chamado "jornalismo de referência". Certamente por deficiência minha, ainda não consegui entender o que é (e onde se encontra) esse "jornalismo de referência", quem é que e como é que se apura semelhante coisa, o que é que o distingue precisamente como "referência", etc., etc. Sempre aqui escrevi que não possuo o menor temor reverencial perante a actividade jornalística e que, neste como em qualquer outro sector, há muito bons, bons, sofrivéis, maus e muito maus profissionais. Para além de que se trata de uma área "especializada" em escrutinar tudo e todos e que não aprecia ser escrutinada, embora a última palavra sobre o "produto" seja a do cliente e a do mercado. Por isso não espanta que um jornal com as características comunicacionais do Correio da Manhã "bata" sistematicamente qualquer alternativa a que os "especialistas" chamariam "de referência". Até a circunstância de não ter cedido ao português "acordográfico" lhe é favorável. Há uns anos, no Expresso (um verdadeiro monumento nacional ao tal "jornalismo de referência"), Manuel Maria Carrilho perguntava o seguinte: «no mundo em que a informação se encontra totalmente mercantilizada, e não podendo invocar nem uma legitimidade eleitoral (como os políticos) nem uma legitimidade técnica (como a opinião pública [através das sondagens], a fonte da legitimidade jornalística aparece, sem dúvida, cada vez mais opaca: ela vem de onde, representa quem, responde perante o quê?» Boas perguntas de resposta complexa. Mas há mais. Esta opacidade, que muitos pelos vistos acham "de referência", traduz-se - continuo com Carrilho - «em geral num discurso que assenta no surrealista princípio de que «eles» é que sabem (e sempre melhor do que os que foram eleitos) o que «realmente» o povo sente e quer», arrogando-se «o direito - marcado por um tropismo ora policial, ora moralóide - de passar do registo dos confrontos de opinião para o das avaliações completamente subjectivas, tão expressivas como espúrias.» Este úlltimo aspecto é particularmente impressivo em certo comentarismo televisivo - prolongável ou não em papel - cujo paroxismo "tudológico" atinge, quase diariamente, patamares apenas risíveis. Em suma, "de referência" só mesmo alguns livros. 

23.6.12

A sério?

Callhou ver grande parte do programa Quadratura do Círculo, da sicn, que passou ao mesmo tempo que Portugal derrotava os checos na rtp. O convidado era Carlos Magno, presidente da ERC, que parecia estar constantemente a pedir desculpa aos presentes por ser presidente da ERC. Ora os presentes não eram nenhuns meninos de coro. Havia um administrador não executivo do jornal Público e um seu colaborador semanal, para além de um político de mão cheia, e presidente da maior câmara do país, que zurziu metódica e inflexivelmente o conselho de redacção do referido Público. Tal valeu-lhe a acrimónia, hoje mesmo, do dito jornal numa prosa assinada por José António Cerejo intitulada "António Costa e a liberdade de informação". Diz às tantas Cerejo que «o presidente da Câmara de Lisboa constituiu-se há muito como um inimigo da liberdade de informação. E como já se viu noutros casos, fê-lo com a conivência de muitos jornalistas e da entidade reguladora do sector.» A sério? 


 


 


Disclaimer: A única entidade que exerce "poder editorial" sobre este blogue sou eu pelo que assumo permanentemente quaisquer custos pessoais que isso possa acarretar. Quem quiser saber o que penso sobre a existência da ERC, basta-lhe colocar as iniciais "ERC" em "Pesquisar" ali à esquerda. Está lá, como sempre esteve, tudo.


 


Adenda: Do jornaalista José António Cerejo recebi o seguinte comentário que edito na íntegra: 


 


«Só duas precisões.

1 - O "político de mão cheia" falou do que não sabe - o papel do Conselho de Redacção do PÚBLICO no funcionamento do jornal . E falou como falou, sobretudo por uma razão: este órgão representativo dos jornalistas da casa emitiu em Janeiro de 2010 um parecer desfavorável à nomeação da sua mãe (Maria Antónia Palla) para o lugar de Provedor do Leitor do jornal, motivo que a levou a recusar (depois de ter aceite) o convite que lhe tinha sio feito pela directora.
2 - O artigo de opinião hoje assinado por mim não tem nada a ver com os disparates ditos pelo dr. Costa na Quadratura do Círculo. Foi escrito há três meses, mas a sua publicação só foi autorizada pela Direcção do jornal na segunda-feira desta semana.
J.A.C.»


 


Meu caro José António Cerejo:


 


O que escreve não altera a circunstância de eu achar o António Costa um político de mão cheia, independentemente de gostarmos ou não dele sobretudo enquanto edil de Lisboa. A actividade política, tal como a jornalística, não tem a ver com bons sentimentos ou com dar catequese, como, aliás, se pode constatar em relação a ambas pelo que expõe em 2.

Fazer o pino

É mais fácil chegar a um acordo sobre uma comissão parlamentar de inquérito a "Camarate" - a décima, quando em Dezembro passam 32 anos (trinta e dois) sobre a ocorrência, para acrescentar um parágrafo às conclusões da nona - do que a um entendimento, agora, entre o maior partido da oposição e o Governo sobre a "Europa". Às vezes parece que andamos com as prioridades invertidas, tipo a fazer o pino. Boa noite e boa sorte.

22.6.12

Péssimas perguntas


Não fora hoje um almoço, em Lisboa, com um amigo ironista e uma semana de férias teria sido muito mais desastrosa do que acabou por ser. No Algarve, onde cheguei no princípio do fim de semana passado, a água do mar, impassível e estúpida como a de uma piscina de plástico, estava gelada. Cá fora a ventania arrastava chapéus de sol e folhas soltas de jornal pelo areal. À noite piorava. O carro, por sua vez, ao segundo dia decidiu avariar uma coisa chamada "sonda lambda" (parece que é assim). Veio para Lisboa antes do dono que ficou sozinho a remoer os males da existência, as pequenas traições, o resultado das alterações do clima e a desistência de um "ambiente sustentável" numa cimeira na América Latina. Dei por mim, sem grande apetite - as desgraças que me revelaram sobre a pesca local da sardinha também não ajudaram nada -, a comer bananas compradas num supermercado, a beber copos de água da torneira e a ouvir óperas inteiras no You Tube. Entre as bananas, os comprimidos e a Cossotto, a coisa aguentou-se, mal, até ao "expresso" que me largou na Gare do Oriente. Só me lembrava das palavras de Vasco Pulido Valente. «Os factos consumaram-se sempre por mecanismos obscuros, totalmente estranhos à minha vontade. "O que é que eu estou aqui a fazer?", perguntava eu, desastre após desastre. "Como é que eu vim aqui parar?". Péssimas perguntas.»


 


Adenda: Por aqui fiquei a saber que o PR condecorou a Clara (que devia ser do que ela mais estava a precisar). A Clara andava um ano à minha frente na Católica e tínhamos pelo menos um amigo em comum - que entretanto já não é comum nem amigo por vontade dele - que também é diplomata. A última vez que nos cruzámos foi no Porto Santo, no princípio de um mês de Outubro, com sol e mar correctos. Como ela.

A "minha" Alemanha

Outra coisa



Há dias, numa entrevista, o líder parlamentar do PSD defendeu a extinção do Tribunal Constitucional e a sua substituição por uma secção especializada junto do Supremo Tribunal de Justiça. Concordo com ele. As sucessivas peripécias em torno da escolha dos futuros juízes apenas reforçam esta ideia. Se se mantiver o actual procedimento, então é bom que o Presidente da República - órgão unipessoal eleito directamente pelo "povo" - possa igualmente nomear alguém para o organismo. Até pela circunstância de não ter de "negociar" nomes como fazem os partidos com representação parlamentar.

21.6.12

O anti-herói

O treinador Paulo Bento não se distingue particularmente pela loquacidade. Mas, convenhamos, não precisa dela para nada.

O menino do "vocês"

«O anúncio da GALP utiliza o Guilherme, de 11 anos, para construir um discurso altamente politizado, ideológico, ligando a crise ao Euro. O Guilherme lê uma carta aos futebolistas da Selecção Nacional, primeiro em off, depois num estádio, na presença da Selecção. O Guilherme começa por sugerir que tem o sonho de jogar na Selecção, para depois dizer aos jogadores que quer ser médico ou biólogo "e gostava de trabalhar em Portugal, mas só fico se valer a pena." E é aí que vocês entram", diz o discurso político e demagógico do Guilherme. Vale a pena registá-lo, para memória futura: "Para milhões de pessoas, Portugal são vocês. Vocês têm nos pés uma oportunidade que os nossos médicos, advogados e políticos nunca terão nas mãos. Têm a possibilidade de mudar em campo a opinião que o mundo tem de nós, de mostrar que não somos fracos e preguiçosos, sempre fomos e continuamos a ser um povo honesto, lutador e corajoso. Quando queremos, somos os melhores do mundo. Nove séculos de história não se deitam assim para o lixo. Não temos nada a provar, mas há um futuro para defender. Desta vez, estamos todos em jogo. Somos onze por todos e todos por onze." Os jogadores ouvem abraçados o discurso nacionalista, enquanto em fundo uma multidão masculina canta e aclama. A demagogia do discurso é insuportável: a identificação da pátria com a Selecção e da Selecção com a política, a ideia de que qualquer jovem recém-formado tem de emigrar, a suposta má opinião do mundo sobre Portugal, alterável em campo, a contradição entre sermos considerados preguiçosos, mas podermos (?) ser "os melhores do mundo" (em quê?), a invocação dos "nove séculos" que os jogadores se arriscam a "deitar para o lixo", a contradição entre a má opinião do mundo e "não termos nada a provar", a ideia de que o futuro se defende no Euro 2012. Tudo isto é mau em si, mas posto na boca duma criança é insuportável, um abuso da condição infantil que muitos portugueses adultos têm mostrado não aceitar.»


 


Eduardo Cintra Torres, Jornal de Negócios

O que eles e elas deviam ler



Eu sei que os livros de Jürgen Habermas não são fáceis. Para traduzir o Discurso foi preciso um batalhão de tradutores especializados. Todavia recomendo vivamente que alguns prosélitos pseudo-versados em teorias da comunicação leiam pelo menos o Discurso Filosófico da Modernidade e a Théorie de l'agir communicationnel, em dois volumes. Quem não for capaz, como certos comentadores, comentadeiras e demais "institucionalizados", pode sempre ler a Crónica Feminina numa hemeroteca mais próxima ou policiais pouco sofisticados que se vendem em qualquer lado, nomeadamente na estações de serviço juntamente com bebidas e revistas para reforçar a auto-estima.

20.6.12

Quando

Em frente


 


Foi, nomeadamente, para evitar coisas destas que faz hoje um ano o governo de José Sócrates estava no seu derradeiro dia de funções em virtude de eleições legislativas antecipadas. E, apesar do plano de ajuda externa (que chegou tarde e não tinha alternativa), das dificuldades e de alguns erros, o país confia em Passos Coelho - na sua "normalidade" e no seu realismo. O que é uma forma de transmitir estabilidade às pessoas num momento em que do que elas menos precisam é de histéricos embotados ou de viciados em estados de alma. Haverá "balanços" para todos os gostos. Todavia estou certo que serão poucos aqueles que sonham com romagens a Paris para resgatar um exilado confortável e improvável. Sigamos, serenamente - com espírito crítico e lealdade -, em frente.

A sombra e a vida


Mitterrand escrevia a propósito de morte de Malraux, em Novembro de 1976. Quantas vezes, porém, pensamos isto de tanta gente viva e não o formulamos com a elegância do antigo presidente francês? «Pertencia às cercanias, à paisagem da nossa vida. Como uma luz na casa fronteiriça e que se apaga, assim um pouco mais de sombra ocupará o espaço e o tempo diante de nós", em tudo semelhante à "fulgurância que atribuímos aos astros mortos e que continuam a iluminar a nossa noite".

19.6.12

Na morte do último faraó


 


As últimas imagens de Mubarak, no seu "julgamento", eram as de um homem que já não tinha nada a perder. Exibiram-no numa jaula enquanto fora do tribunal a multidão ululante não se satisfazia com a perpétua. Pois Mubarak acabou de entrar na única perpétua que calha a todos e por causas naturais. A mesma multidão acéfala anda agora ocupada em berrar contra os militares que, ironicamente, tomaram conta do poder constitucional contra todas as "previsôes" das "inteligências" ocidentais. Lembram-se da "primavera" e dos amanhãs que iam cantarolar no Egipto, especialmente a partir da "mítica" praça Tahir que se converteu numa espécie de santuário da parvoeira ocidental que vê brotar democracias inverosímeis em países inverosímeis para a democracia? A mania que se pode exportar a dita cuja para todo o lado (os EUA fomentam democracias e ditaduras à vez) releva da mais reles ignorância. Aquela que, aos poucos, vai dando precisamente sepultura a uma certa ideia de "ocidente" à custa da tolice multiculturalista.

Variantes da existência


 


Entrei numa livraria e dei de caras com as "obras completas" de Vergílio Ferreira, reeditadas pela Quetzal. Um dos últimos volumes é o longo ensaio que precede O Existencialismo é um Humanismo, de Sartre, com Sartre incluído, naturalmente. A edição que possuo é a original, da Presença, gentilmente oferecida pelo José Carlos Pereira e adquirida num alfarrabista no Algarve. Fora a opção pelo português "acordográfico", a Quetzal tem um bom gosto editorial e estético inexcedível. Aguardo a Conta-Corrente do dito Vergílio com o prometido índice onomástico. É lá que ele um dia escreveu, com todo o propósito "humanista" e "existencialista" do mundo, o seguinte: «Há homens que não suportam a ideia da amizade por verem nela apenas uma submissão ao de quem são amigos. E a forma de lutarem contra tal submissão é traírem. Há homens em quem a traição é assim a forma inata de afirmarem uma independência que não têm.» Não é a primeira vez que cito isto. Nem há-de ser a última.

Os detalhes do diabo

O Tribunal de Contas pronunciou-se de novo sobre as contas regionais da Madeira e dos Açores. Por motivos distitintos, os resultados não pareem brilhantes. A Madeira, se tudo fosse levado a sério, podia deixar de receber fundos continentais e nos Açores aparentemente o governo regional de partida apreciava viajar sem preocupações. As autonomias regionais são, como se costuma dizer, uma conquista da democracia. Quanto mais autónomos, maior é a democracia para usar um silogismo simples. Mas as democracias autonómicas funcionam literalmente como ilhas na democracia. Interessa o resultado, não importa o "como". Gosto muito da Madeira e dos Açores - pessoas, paisagens, a água do mar, a simpatia das vacas. Todavia, é preciso que os governos regionais - as populações não têm culpa dos delírios majestáticos que pastoreiam as onze ilhas dos dois arquipélagos - percebam de uma vez por todas que a solidariedade nacional não é um jargão para colocar na lapela dos comícios locais. Não é apenas de cá para lá. É em todo o lado mesmo naqueles lados rodeados de mar por todo o lado. Independentemente das qualidades dos homens (apesar de tudo prefiro a inteligência emotiva de Jardim à empáfia socrática de César), é perigoso juntar ao passado o passivo. Há dias, no Correio da Manhã, Eduardo Cintra Torres "descrevia" a RTP Açores. Em certo sentido, é um retrato deste passado e deste passivo através do microcosmo de um dos dois centros regionais de televisão que, precisamente, são um exemplo do "de cá para lá" sem mais. É que o diabo, como lhe compete, está sempre nos detalhes.

18.6.12

Uma linha

A "Europa" está melhor depois das eleições francesas e gregas, sobretudo depois destas? Não está. Merkel, aliás, que faz, em muito mau, o papel tradicionalmente atribuído aos cegos na tragédia clássica, já veio explicar que nada de significativo mudou. Fundamentalmente que ela não mudou. O próximo conselho europeu, no fim do mês, devia meditar nestas palavras de Gilles Deleuze que por sua vez se referia a Melville. «Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos.» Era bom que os líderes europeus finalmente se deixassem "arrastar" por essa linha feiticeira chamada pensamento em vez de andarem a arrastar os pés.

17.6.12

Somos assim

Não gosto de bola mas apercebi-me que, em pouco mais de 72 horas, Cristiano Ronaldo passou de besta a bestial. Diante da Dinamarca, Ronaldo foi apodado de tudo - mimado, egoísta, sem espírito de equipa, etc., etc., nada aliás que ele não seja. Perante a Holanda, o dito cujo marcou já que é, suponho, para isso que andam ali às voltinhas noventa minutos. Eis que regressou imediatamente o "génio" do madeirense e, por consequência, o nosso. Para a semana, volta tudo à estaca zero, Ronaldo e nós também. Somos assim.

Entretanto em França


 


Como é impossível ver qualquer uma das televisões portuguesas, ligo a France2 para acompanhar as legislativas francesas. Hollande ganha em toda a linha - maioria absoluta para o PS sem necessidade de apêndices- salvo em La Rochelle onde Ségolène Royal, ódio de estimação da actual Mme. Holande, perdeu e, por consequência, não entra na Assembleia Nacional. Jack Lang, ex-ministro da cultura de Mitterrand, também não. E o centrista Bayrou também não. Marine Le Pen ficou de fora mas alguém da Frente Nacional vai sentar-se lá (por exemplo, a neta de Le Pen, Marion). Mitterrand, que acreditava nas forças do espírito, lá onde quer que se encontre tem motivos para sorrir.

Fleming

16.6.12

De susto

Vasco Pulido Valente, no Público, coloca o dedo - os dedos todos - numa chaga cultural e social. «Portugal tem um número extravagante (e suponho que nunca visto num país tão pequeno) de 4154 cursos “superiores”(...) Em Portugal, existem 20 faculdades de Direito, com a consequência inevitável de que os licenciados em Direito estão no desemprego ou trabalham, precariamente, “no que vai aparecendo”… Outro exemplo: há uma Escola Superior de Educação em Arcozelo. Há uma segunda em Fafe. E há ainda uma Faculdade de Línguas Estrangeiras Aplicadas (como serão as que não se aplicam?) na Universidade de Trás-os-Montes e uma Faculdade de Estudos Artísticos na Universidade do Algarve.» Etc. Etc. A proliferação acéfala de estabelecimentos comerciais ditos de "ensino superior" agravou o panorama geral da qualificação doméstica que, famosamente, nunca foi grande coisa. E agravou-a por duas vias. Desde logo pela invenção de licenciaturas para tudo e para nada a que se juntou o declínio inevitável de algum do ensino universitário mais frequentado como o direito ou a economia. Por outro lado, e dada a natureza "mercantil" do objectivo, hordas de analfabetos simples invadiram as chamadas universidades com os resultados que para aí se exibem, desde os rodapés dos telejornais até ao mais perfumado "executivo" empreendedor. Como se isto não bastasse, Bolonha complicou tudo com os seus expeditos "créditos". Alexandre Herculano, nestas circunstâncias, não teria apenas "vontade de morrer" como estaria inequivocamente morto. De susto.

Um desconsolo

Estava a folhear a revista do Expresso dedicada aos anos oitenta e princípio dos anos noventa. O país vagueava então entre Soares e Cavaco, entre Cavaco e Soares. Eanes despediu-se no primeiro trimestre de 1986. Cavaco teve duas maiorias absolutas, a segunda maior que a primeira. Soares foi eleito à tangente da primeira vez e como monarca praticamente absoluto da segunda, com uma votação albanesa. As campanhas destes dois homens foram as últimas com graça: Soares em 85 e 86, Cavaco em 87 e 91. O país mudou, com um atraso de décadas, graças a Cavaco e à Europa. Julgo que o actual Presidente não esperava, muitos anos depois, ver a "sua" Europa neste estado e o país obrigado a cumprir um programa de ajustamento macroeconómico vindo justamente da Europa e do FMI. Um desconsolo, a dias do Verão.

15.6.12

uma questão de respeito

O José Paulo Fafe lembra o arquitecto Nuno Teotónio Pereira. Tem noventa anos, está sem visão e numa confrangedora situação material. Ora isto é pouco "mediático" e o respeito pela biografia de um homem como Teotónio Pereira não está seguramente na ordem do dia. Todavia suponho que ainda haja mais vida para lá da Casa dos Bicos.

O Trovador em Bruxelas



Em directo do Teatro de la Monnaie, em Bruxelas - nem tudo o que vem de Bruxelas é necessariamente mau - o canal Mezzo (um daqueles onde procuro refúgio da bola) transmite em directo Il Trovatore de Verdi. Marina Poplavskaya assegura o papel de Leonora o que é desde logo suficiente para não perder. A partir das nossas 19 horas. 


 


Adenda: Encenação deplorável, estilo "huis clos", que agravou a inverosimilhança do argumento original. Mas a música e a generalidade dos intérpretes valeram pelo resto. No fim, Poplavskaya faltou aos aplausos alegadamente por uma quebra de tensão. Merecia-os.

"O número de estúpidos não tem diminuído"



Por que é que simpatizo vivamente com Pinto da Costa.

Nós, a Europa

O governo e o PS conversam para que o país se apresente no próximo Conselho Europeu enquanto tal - não aludo evidentemente ao patrioteirismo pífio em torno da bola -, com um módico de desígnio político consensualizado em torno de questões absolutamente essencias para Portugal enquanto tal. Porque, para "reactualizar" um título de Eduardo Lourenço, não há mais "nós e a Europa", mas sim "nós, a Europa". Quem não perceber isto, meta explicador.

14.6.12

A "década irresponsável"



Ai sim?

Um novo tratado enxuto


 


«Um novo tratado vai, obviamente, impor-se. Que terá de ser curto, claro e referendado simultaneamente pelos cidadãos europeus envolvidos numa tal viragem. Neste contexto não é de excluir que a Alemanha surpreenda ainda com uma outra proposta, que já foi aprovada no último Congresso da CDU: a da eleição por sufrágio universal direto do presidente da Comissão Europeia. Inconcretizável no curto prazo - lembremos que hoje nem sequer existem verdadeiros partidos europeus -, esta ideia pode todavia tornar-se num lance hábil da Alemanha, que lhe aumentaria significativamente a margem de manobra. Enfim, só talvez agora se começa verdadeiramente a perceber como, com o processo de Maastricht entre 1990 e 92, não foi só a "fuga em frente" do euro que começou. Foi também uma mudança mais profunda, como se a desagregação do bloco soviético e a sua completa implosão ideológica tivessem na verdade provocado uma impercetível alteração na própria natureza da ideia europeia. Como se a Europa tivesse descolado da sua própria história para se perder numa deriva cada vez mais errante. O "milagre europeu", que foi sempre - apesar de todas as calamidades que conhecemos - o de uma cultura e criatividade singulares, foi nesses "anos de Maastricht" abandonado por uma elite que se deslumbrou com o modelo ultraliberal americano, esquecendo completamente as suas raízes e criando assim as condições propícias ao atual desatino europeu. Hoje quase toda a gente reconhece que sem unidade política nenhuma união monetária tem condições para sobreviver. Mas de quantos anos precisaremos ainda para reconhecer essa evidência afinal bem maior, que é a de que não há federação sem cultura comum, no sentido mais amplo do termo? O maior risco que corremos é, afinal, o da compulsiva cegueira "maastrichtiana", que nos últimos vinte anos nos levou a iludir quase sempre o essencial. E o essencial, numa qualquer união/federação democrática - para lá de um inimigo comum, hoje improvável -, é a assumida existência de uma forte ambição estratégia, como potência no mundo. É a comunidade de símbolos e de espaço público de informação e de debate, de divertimento e de conhecimento.»




Manuel Maria Carrilho, DN


 


Nota: O texto está transcrito como no original, em português "acordográfico" que não se pratica neste blogue

13.6.12

A arte de ser português

A pátria teve hoje dois raros motivos de orgulho. A selecção conseguiu finalmente ganhar um jogo da bola. E Catarina Furtado - a "Cristiano Ronaldo da RTP", de acordo com o seu director de programas - aceitou baixar em cerca de 6 mil euros a sua remuneração mensal pelo que passa a auferir apenas 24 mil. Obrigado.

Coisas que interessam

Enquanto a bola vai e vem, o dr. Barroso à altura das suas funções.

As mulheres de Hollande



A mulher é lindíssima e amplamente charmosa. Como lhe compete, não suporta a antecessora na vida afectiva do companheiro. Sucede que o companheiro - que termo mais horroroso herdado dos partidos comunistas em que são todos "companheiras" e "companheiros" em vez de mulheres, maridos ou amantes - é o Presidente da França e a antecessora, a infeliz Ségolène Royal, quer presidir à Assembleia Nacional, quem sabe, para seguir o exemplo da nossa Dra. Assunção apesar de, em França, o cargo corresponder protocolarmente ao quarto lugar da hierarquia do Estado. Ségolène fez de paraquedista numa circunscrição, La Rochelle, que nunca foi a dela e passou pela humilhação de o candidato local do PS (que o era há anos) a ter colocado em "ballotage" o que para uma aspirante a presidente da AN é um péssimo prenúncio. Hollande apoia a ex-mulher e a actual o senhor do PS local. Parafraseando um dito popular por forma a não chocar os leitores, as mulheres em sendo muitas tiram o ganho umas às outras. Como escreve Júlio de Magalhães no seu blogue, «apetece dizer:  "Antes levassem homens".»

Um livro


 


Via Paulo Pinto Mascarenhas.

Vontade política de mudar as coisas

«Quando o Tribunal de Contas (TC) descobre que o Estado ou as suas empresas gastam mal os nossos impostos ou assinam negócios ruinosos para os contribuintes, a pergunta que todos fazemos há anos é esta: “Nada acontece aos responsáveis?” A realidade portuguesa das últimas décadas prova que a resposta é negativa, ficando impunes os casos de má gestão de dinheiros públicos. O TC tem dedicado atenção a concursos de obras públicas, nos quais já ocorreram derrapagens financeiras de 300% ou atrasos na sua conclusão de mais de oito anos, ou em que não foi estimado o valor actual dos encargos com a manutenção e a conservação das infra-estruturas e equipamentos e por isso se transformaram em verdadeiros elefantes brancos. Todos nos lembramos dos casos dos estádios do Euro 2004, da Ponte Rainha Santa Isabel, em Coimbra, do Túnel do Terreiro do Paço, em Lisboa, ou da Casa da Música, no Porto. O TC arrasou ainda parcerias público-privadas (PPP) por serem desastrosas para os contribuintes e insustentáveis para as gerações futuras – e logo nos recordamos dos casos da Lusoponte, das Scut, dos contentores de Alcântara ou da Metro do Sul do Tejo. Nestas situações, e em muitos outras, o TC realiza auditorias, faz as contas e conclui que centenas ou milhares de milhões são mal gastos, porque os gestores públicos não respeitam os critérios da economia, eficiência e eficácia. Mas a lei orgânica do TC não lhe permite punir os responsáveis, porque só considera ilegalidades as infracções financeiras. E os portugueses, atónitos, olham para tudo isto como mais uma fatalidade lusitana. Só que não há aqui qualquer fado ou fardo que os contribuintes, no limite da exaustão fiscal, devam continuar a suportar. O que me salta à vista é uma inexplicável falta de coerência e de vontade política do legislador de mudar as coisas. De acordo com a lei orgânica do TC, o dispêndio de dinheiros públicos sem respeito pelos critérios da economia, da eficiência e da eficácia pode e deve ter a primazia de ser auditado e criticado por aquele tribunal. Inexplicavelmente, aquela lei não elenca as importâncias mal gastas pelos gestores públicos como infracção financeira, punível pelo TC, com multa ou reintegração nos cofres públicos. Isto apesar de já ter sido modificada cinco vezes pelo parlamento, a última das quais em 2012, não obstante o legislador impor, desde 1990 e até em leis de valor reforçado (Lei n.o 52/2011, de 13 de Outubro), que nenhuma despesa pública pode ser autorizada ou paga sem que satisfaça o princípio da economia, eficiência e eficácia. Os senhores deputados devem criar uma lei que permita punir exemplarmente os gestores públicos, incluindo os decisores políticos, que autorizem ou paguem despesas que não tenham “em vista a obtenção do máximo rendimento com o mínimo de dispêndio, tendo em conta a utilidade e prioridade da despesa e o acréscimo de produtividade daí decorrente” (Decreto-Lei n.o 155/92, de 28 de Julho, artigo 22.o n.o 3).»




Carlos Moreno, i

O meu amigo Torquato

Aqui.

12.6.12

Falem com eles


 


Ontem houve um pequeno burburinho por causa da proposta de lei do cinema e audiovisual que está no Parlamento para discussão e aprovação. Uma proposta de lei, como o nome denota, é uma proposta. Não é uma lei. Por consequência, entre a proposta e a lei há um hiato conversacional democrático que deve ser aproveitado por quem de direito ou de facto. Os deputados estão lá precisamente para, quem quiser, falar com eles.

A melhor companhia


 


Por razões de economia estética e afectiva, decidi andar mais acompanhado por livros do que por pessoas. Aliás cada vez sei menos o que é "uma pessoa". À noite, na cama, li mais um bocadinho do Sousa Tavares, reli o último texto de Richard Rorty e, de manhã, vim no carro com Emmanuel Berl e Jean d'Ormesson, um livrinho que é uma entrevista do último ao primeiro. Não vale a pena explicar quem foi Berl e quem é d'Ormesson. Estão ao alcance do Google. O livrinho tem por título Tant que vous penserez à moi e vem de uma resposta de Berl: «je ne serais pas tout à fait mort tant que vous penserez à moi.» É uma bela suposição. Na dedicatória de d'Ormesson, a elegância do trocadilho - que é uma coisa que aprecio nos franceses e que tanto nos falta, a elegância: «Pour(tant) que vous penserez à moi, Juan Manuel (assim mesmo), je pense à vous.» Há melhor companhia?

11.6.12

Os idos de Junho

Nove anos depois, completados hoje, este blogue continua de pé. Em um ano, algumas coisas e pessoas ficaram pelo caminho. E outras coisas e outras pessoas apareceram. O essencial não mudou. Nem muda.

10.6.12

Não dá

Desde cerca das seis e meia da tarde (sete e meia em Paris) estive a acompanhar a primeira volta das eleições legislativas francesas através de um canal gaulês. Já aqui tinha dado nota da diferença entre um bom trabalho televisivo, de informação e comentário, e a "coisa em forma de assim" que temos por cá. Mudar para os telejornais das nossas televisões, às oito da noite, corresponde invariavelmente a uma terrível experiência traumática. Como então escrevi, «o "modelo" do debate devia ser estudado pelas nossas televisões - renovação permanente dos intervenientes, perguntas bem preparadas, "ideias fortes". Já na noite de domingo, na primeira volta [ das presidenciais ], a coisa tinha sido assim: estimulante, viva, sem cansaço ou interregnos idiotas. Por cá é quase sempre a mesma pobreza franciscana, com os mesmos de sempre a dizer as mesmas coisas de sempre. Democracia em que o debate político é medíocre é uma democracia coxa. Ora os franceses, por pouco que se aprecie, ainda hoje colocam a política pura em nobres alturas, desde os protagonistas aos jornalistas.» A gente puxa, puxa, mas de facto não dá.

O discurso definitivo


 


Nos primeiros anos do regime, sob a presidência de Eanes («tão íntegro como o conheci, e tão independente e isento como o sei capaz de ser», nas palavras de Jorge de Sena), o 10 de Junho serviu sobretudo para "adaptar" o "dia da raça" do Estado Novo - celebrado no Terreiro do Paço entre militares, estropiados, órfãos e viúvas - à democracia, reduzir o "império" à ex-metrópole e às comunidades nacionais emigradas e resgatar o Épico da apropriação patrioteira que desfigurava o sublime e a grandeza literária e humana de Camões. Depois, o 10 de Junho banalizou-se e entregou-se às trivialidades do quotidiano mediático. Resmas de comentadeiros e comentadeiras tentam ver por entre as linhas dos discursos do dia alimento para o seu incansável tricot intriguista e superficial. Não há Dia de Portugal porque, neste folclore sem importância, perdeu-se a noção do simbólico dos grandes gestos. A permanência inerente a um conceito de "pátria" tornou-se evanescência e, se o tempo o permitir, praia. Por isso o discurso definitivo do 10 de Junho é o de Jorge de Sena, proferido no liceu da Guarda em 1977. Menos de um ano depois, Sena morria no seu exílio norte-americano do qual nem o 25 de Abril o quis tirar. Mas Sena veio cá apenas três anos depois da "revolução" explicar o que estava para chegar e que ele já não veria. O seu amor a Portugal, como todo o amor verdadeiro, era um misto de amargura, de desmesura e de afecto extremos. O que disse de Camões, logo de nós, nunca mais ninguém o conseguiu dizer sem soar a patético ou burlesco. Vasco Pulido Valente, no Público, retoma a "realidade" da efeméride, em 2012, indissociável da presença de uma selecção nacional num campeonato europeu de bola que traz «invariavelmente à superfície a insondável estupidez do nosso pobre patriotismo.» Talvez não fosse má ideia pedir-lhe, um dia, um discurso para o 10 de Junho.

9.6.12

Libertem-se do jargão


 


Por causa da entrevista de Harold Bloom à revista Ler de Junho, foi reler Bloom. Uma das coisas que o crítico e professor universitário recomenda aos leitores de livros é que se libertem do jargão e evitem aquilo que ele apelida de "escola do ressentimento". Aquele jargão e esta "escola" têm adeptos nos sítios mais prolixos. Nas academias, nos partidos políticos, em organizações da chamada "sociedade civil", nas ideologias, na comunicação social. Toda este gente, de uma maneira ou de outra, forma (e formata) um "meio" e Bloom distinguiu-se precisamente por "furar" o meio com a defesa acérrima da individualidade do leitor e da contingência, contra a pretensa "objectividade" daqueles que outro crítico (um filósofo é fundamentalmente um crítico que tem a figura do problema, e menos as respostas a ele, no centro das sua reflexões), Sloterdijk, declinou com felicidade como a "vociferante matilha do espectáculo". Recusar o jargão, a vasta escola do ressentimento e, sobretudo, não lamber as patas à referida matilha tem como preço o isolamento. Em certo sentido, acaba por ser um triunfo sobre uma visão shallow da existência que é aquela que ressuma do muito que nos chega pelas vias "normais" da comunicação social e cultural. Porque estas vias só dão a ver ou a ler o que querem dar a ver ou a ler, em suma, o jargão do "meio". Expressões como "experiência" ou "referência", neste contexto, não passam de mistificações grotescas. É caso para recomendar a estes prosélitos que se imaginam sublimes e donos da opinião pública: libertem-se do jargão.

8.6.12

"Um herói mais livre que eu, o deus"


Parece que o fim de semana será mais espanhol que alemão. Em alemão, porém, há sempre uma qualquer excelente versão HD de A Valquíria para ver enquanto decorre a bola. 

7.6.12

Europa e Prometeu


Segundo o FMI, a banca espanhola pode vir a precisar de um financiamento até cerca de 90 mil milhões de euros. Qualquer dia só os óculos que usei no novo filme de Ridley Scott chegarão para "ver" a Europa. Prometheus, literalmente "antecipação" ou "antevisão", é mais do que parece. E nós, europeus e humanos, filhos de Prometeu, somos bem menos do que parecemos.

O frenesim vazio


 


Ontem calhou ver o programa Prova dos Nove da tvi24. Mesmo na discórdia com ele, acompanhar a inteligência irónica do Medeiros Ferreira é um empreendimento cognitivo indispensável. Tal como apreciar a combatividade polémica do Pedro Santana Lopes, aparentemente "isolado" perante os seus interlocutores mas com uma não desprezível capacidade de "falar" ao telespectador. O pupilar do professor Rosas francamente não me interessa. Vem isto a propósito do texto do Medeiros no Correio da Manhã sobre a selecção que também foi tema no programa da tvi24. Não vale a pena disfarçar. Há um ambiente de mediocridade e de indiferença que rodeia os prolegómenos da exibição dos rapazolas que começa já no sábado contra a Alemanha. Por mais que os OCS, em particular as televisões, se espremam, o Medeiros tem razão. «Nesta fase de preparação, até à partida para a Polónia, houve mais ‘eventos’ do que concentração e treino. O treinador Peseiro teorizou a prática das folgas de Óbidos ao afirmar ontem que, para além da recuperação da forma dos atletas, pouco mais se pode fazer de útil nesses estágios com jogadores dispersos e saturados. Seja. Mas nesse caso, só se devia empregar um preparador físico e um especialista em tédio de grupo…» E Pacheco Pereira também. «A tempestade perfeita do futebol atingiu a SICN e todas as outras emissoras (a começar pela RTP que é suposto ser um "serviço público" e ter uma  programação distinta, mas que é a primeira a passar horas e horas de logomaquia futebolística...) . Por isso, os horários de todos os programas estão generosamente subvertidos.» Valerá a pena este frenesim vazio?

6.6.12

Bradbury e o que não sabemos (1920-2012)


 


No princípio dos anos 50, um distinto escritor americano, Ray Bradbury, escrevia as suas Crónicas Marcianas nas quais se ficcionava a tentativa de conquistar e colonizar Marte. Praticamente no final do livro, de que há uma tradução sofrível publicada pela Editorial Caminho, e quando "a casa começou a morrer", uma voz vinda do tecto do escritório da casa silenciosa e vazia, recitou este belo poema de Sara Teasdale que aqui fica no origina para lembrar o dia da sua morte e todos os dias em que estivemos sempre mais próximos e simultaneamente longe do que não sabemos:

There will come soft rains and the smell of the ground,
And swallows circling with their shimmering sound;

And frogs in the pools singing at night,
And wild plum trees in tremulous white;

Robins will wear their feathery fire,
Whistling their whims on a low fence-wire;

And not one will know of the war, not one
Will care at last when it is done.

Not one would mind, neither bird nor tree,
If mankind perished utterly;

And Spring herself, when she woke at dawn
Would scarcely know that we were gone.

O grande esquecido


 


«Fala-se no dia de Camões, mas nessa data ninguém costuma preocupar-se excessivamente com a importância e o sentido, quer da lírica, quer da épica camoniana. Mesmo sem uma retórica exacerbada e patriotinheira, à moda do triunfalismo de antigamente, só lucraríamos com o humilde reconhecimento de que as dimensões identitárias e culturais de uma figura e de uma obra como a dele mereciam celebração mais adequada e iniciativas que propusessem um trato mais continuado e mais esclarecido com ele e com os seus contemporâneos. Isto nos levaria logo aos programas escolares e às questões do ensino da literatura e da história na escola, com todo o cortejo de considerações que se justificam. E levar-nos-ia também a questões existenciais mais profundas, tocando um sentido da cidadania mais substantivo e mais preocupado em lermos Camões também à luz do que hoje somos, e em sermos "lidos por ele" na mesmíssima medida. (...)  O poema camoniano configura uma elaborada epopeia do desvendamento do mundo e da aventura do conhecimento humano: ao contrapor à fábula e ao mito critérios novos de verdade e de experiência; ao contrapor os testemunhos vividos de fenómenos naturais e as referências a tecnologias inovadoras ao saber meramente livresco dos Antigos; ao manifestar a plena consciência de estarem a ser ultrapassados os "vedados términos" do mundo até então conhecido; finalmente ao propor uma visão, conquanto ainda geocêntrica, da estrutura e funcionamento do Cosmos. Numa geometria cujo paralelismo só pode ser intencional, os cantos V e X de Os Lusíadas, a rematar, respectivamente, a primeira e a segunda metades do poema, articulam os dois tempos fundamentais desse conhecimento, o que vem do domínio da Natureza e das suas forças e o que desenha uma arquitectura do Universo cujo modelo em "trasunto reduzido" é apresentado no "globo transparente". Assim a História se fez conexa com a experiência humana e a aventura da viagem torna-se iniciática e abre para uma contemplação da transcendência.»


 


Vasco Graça Moura. DN

5.6.12

O bus



Eduardo Cintra Torres, com outro "olhar", seguiu o autocarro que precedeu o avião. «As televisões têm esta capacidade de construir um espectáculo audiovisual, a que somam linguagem simbólica e até religiosa. A selecção nacional de futebol vai de autocarro com o povo assistindo da mesma maneira que Vasco da Gama partiu da Praia do Restelo, mas agora pela televisão.» Algum dia havemos, porventura passados tantos séculos como os que distam o Gama da data de hoje, de nos dar ao respeito.

4.6.12

Angústia



A dado ponto da entrevista de Harold Bloom reproduzida na revista LER, o autor de A angústia da influência (na tradução portuguesa de Miguel Tamen) afirma ser "um dinossauro". E explica porquê. «Sou um retrógado. Sou do século XIX.» Abençoado Harold. Ao contemplar em todas - repito, todas - as televisões portuguesas do século XXI o transcendente episódio do transporte dos jogadores da selecção (cujo capitão tratou o Chefe de Estado por "você") de Lisboa para a Polónia, também opto sem hesitações pelo século XIX.

Sinal dos tempos

«Até o Papa descobriu que "a vinha do Senhor" estava cheia de javalis.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

3.6.12

Leituras de domingo



À semelhança do que fiz no domingo passado, comprei desta vez apenas dois jornais porque preferi a revista LER (com uma entrevista a Harold Bloom) a um terceiro. O dinheiro não dá para tudo. Da mesma forma, do que mais gostei foi da capa do suplemento de um deles que reproduzo. Lá dentro vem um longo e interessante trabalho de Teresa de Sousa sobre Pedro Passos Coelho a dois dias de comemorar a sua vitória nas legislativas de 5 de Junho de 2011. O artigo termina com uma ponderação avisada e um equívoco. Começo por este. Dizem dois dos ouvidos pela jornalista que o sucesso do primeiro-ministro "está na forma como a elite reagir". Ora o regime não produziu nenhuma "elite". O que passa por tal é um misto de endogamia regimental que junta os intervenientes mais improváveis. A "mesmice" tagarela não é sinónimo de elite mas, num país pobre e periférico, é fácil tomar o primeiro burgesso ou o derradeiro vendilhão de "ideias" por elite. A ponderação avisada do artigo, a final, está na afirmação que se Passos Coelho resistir a "isto", ou seja, à imensa falácia que são as "elites" domésticas e ao seu endémico oportunismo, então "resiste a tudo". Acredito que vai resistir.

Parece?



Estrela Serrano começa este post a dizer que «parece que até o que se escreve em blogs é objecto da bufaria.» Não me diga, Estrela, que só agora é que deu por isso. 


 


Ilustração: Grant Robinson

2.6.12

As árvores e a floresta



«A origem da presente crise do Ocidente emerge da sua desindustrialização e da dependência energética, com custos crescentes. Foi isso que afundou as economias e foi esse afundamento que motivou os endividamentos já referidos, destinados a evitar uma quebra acentuada do padrão de vida ocidental. Entre nós, sentem-se também os efeitos da incompetência e da irresponsabilidade governativa vigente nos últimos anos. A fragilidade económica ocidental gerou os endividamentos e foram estes que originaram o subprime americano, tanto quanto a chamada crise das dívidas soberanas na Europa. A crise da zona euro surge na sequência desses factos. Sem se enfrentar esta realidade mais ampla, os esforços em curso na Europa do euro, mesmo que bem sucedidos, não evitarão a progressiva decadência do Ocidente. Neste emaranhado de circunstâncias, de que ainda não se fala em Portugal, as árvores são a austeridade, a falta de crescimento e o desemprego. Estão na orla da floresta e por isso são visíveis por todos. Mas a reviravolta do mundo, que é tudo o resto que a liberalização económica provocou, ultrapassa a Europa e o euro, e constitui a verdadeira floresta em que avançamos, desorientados. (...) Já mencionei há pouco as causas situadas fora da Europa. Pela sua importância decisiva, volto a sublinhar que são, primeiro, a instalação das indústrias transformadoras nos países de mão-de--obra muito barata, em geral no Oriente; segundo, os custos crescentes do petróleo. Por isso ficaram connosco: o desemprego industrial, que não diminui; os empregos mal pagos nos serviços pouco qualificados; a obrigatoriedade de importar o que antes produzíamos e agora já não produzimos, provocando desequilíbrios, que não existiam, nas nossas balanças comerciais; a cada vez mais pesada factura do petróleo. São estas as causas essenciais do afundamento das nossas economias. Iludimos esta realidade com os “endividamentos” destinados a manter um nível de bem-estar que já não estava, nem está, ao alcance do que produzimos. As sociedades desta parte do mundo estão a ser enganadas, todos os dias, por um número excessivo de irresponsáveis. Se põem dinheiro a circular sem se instalar uma rigorosa disciplina financeira na Europa, num prazo muito curto corre-se o risco de voltarmos ao ponto de partida.»




Medina Carreira, i


 


Foto:Expresso

1.6.12

Dia dos pequenitos

Locus infectus?


 


Há uma semana saí no metro do Terreiro do Paço. A Praça do Comércio, para variar, estava esventrada o que parece ser a sua condição natural desde os tempos do senhor eng.º Cravinho. Agora anuncia-se um picnicão que junta couves, porcos, vacas, o Continente, a RTP, Tony Carreira e, eventualmente, uma ministra. A Praça do Comércio não é propriamente um local sagrado. Mas não deve ser transformado num locus infectus.