Neste relatório. O editor de economia da SIC, José Gomes Ferreira, resumiu de forma exemplar esta bandalheira tipicamente regimental.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
Neste relatório. O editor de economia da SIC, José Gomes Ferreira, resumiu de forma exemplar esta bandalheira tipicamente regimental.
Abre hoje no Porto a feira do livro. Dedicam-na à poesia e a Agustina. Foi há muitos anos que Agustina - que fui entrevistar à sua casa do Campo Alegre - me deu o número de telefone de Eugénio de Andrade. Liguei-lhe de uma cabine pública. Não havia telemóveis. Ninguém atendeu. E assim ficámos neste desencontro eterno que é, talvez, um termo possível para a poesia.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Foi um belo mote da campanha da primeira maioria absoluta do Prof. Cavaco Silva, no verão de 1987: «Portugal não pode parar.» Continua actual. «A agência de "rating" [Fitch] considera "impressionante" o número de privatizações que estão a ter lugar em Portugal e, dadas as ofertas de compra apresentadas no primeiro trimestre, antecipa que a meta para o valor das privatizações seja superada.»
«Há por isso um ponto sobre o qual não pode haver dúvidas, para poder haver uma saída. Esse ponto é que dois anos e meio de impasses constituem a prova cabal que a crise do euro e da União Europeia decorre, mais do que do descontrolo financeiro grego, da impotência da própria governação europeia. Foi esta a grande evidência que a irresponsável crise grega revelou. Não podemos, por isso, continuar no círculo vicioso de cimeiras inúteis, a fingir que se ultrapassa esta situação com pequenos remendos, alguns biscates e muita laracha. Como se, quanto mais rápidos se revelam os mercados, mais lentamente se pudessem comportar os políticos. Realizaram-se 24 cimeiras desde o começo da crise, o que dá um bom filme da contumaz impotência europeia: todas elas foram, ou de conversa inconclusiva, ou de anúncio de decisões que, na maior parte dos casos, nunca passaram à prática. Como se todos soubessem o que há a fazer, mas ninguém soubesse como.»
Adenda: A França, fiel ao compromisso eleitoral de Hollande, mantém a intenção de renogociar o chamado "tratado orçamental". E a Irlanda está hoje a referendá-lo. Quanto mais a "Europa" for uma imposição burocrática mais perto andará da falácia política e económica. O seu desmesurado crescimento (quase 30 estados-membros) ameaça o outro crescimento, aquele de que tanto apenas se tem falado nas derradeiras semanas. Nas palavras de Carrilho, é de facto «como se todos soubessem o que há a fazer, mas ninguém soubesse como.»

«Ontem assistimos a mais um episódio revelador, pela voz de Avelino de Jesus, professor do ISEG que se demitiu em Março de 2011 da "comissão de reavaliação das parcerias público-privadas". Criada na vigência do governo Sócrates, a bendita comissão serviu apenas para empurrar com a barriga qualquer esclarecimento sobre a forma como o Estado negociou as parcerias com os privados. Jesus, que bateu com a porta antes das eleições, disse à Comissão de Obras Públicas que a "negação de informação" decorreu da necessidade de se encobrir alguns "arranjinhos". Ficámos a saber, por exemplo, que os documentos iam sendo entregues a conta-gotas, com má vontade, pelo Governo. Ou que a comissão chegou até a receber um CD vazio, sem qualquer informação.»
True, This! —
Beneath the rule of men entirely great,
The pen is mightier than the sword. Behold
The arch-enchanters wand! — itself a nothing! —
But taking sorcery from the master-hand
To paralyse the Cæsars, and to strike
The loud earth breathless! — Take away the sword —
States can be saved without it!
Edward Bulwer-Lytton, 1839
Passou por Harvard. Vai já passar em Junho em Nova Iorque, no Anthology Film Arquives, e em Julho em Los Angeles. Mais boas notícias para o cinema português. Joaquim Sapinho tem em talento o que a muitos sobra em tagarelice de capelista.
Numa entrevista em directo na antena1, pelas oito da manhã, a actriz Rita Blanco manifestava em Cannes a sua alegria por ter participado no filme que ganhou a Palma de Ouro do Festival. O seu papel é o de uma porteira portuguesa e aparece em três cenas. O realizador fez questão em que fosse a Rita e não, por exemplo, uma espanhola a entrar na película. É mais uma boa notícia para o cinema português que, para usar uma expressão da actriz na entrevista noutro contexto, não precisa "andar de calças na mão" para ser reconhecido.

Chega logo à noite ao fim, em Portugal, no canal Fox, a série House. Fico mais pobre. House (Hugh Laurie) instituiu-se no melhor mau feitio metafórico jamais visto em televisão. É a prova que, verdadeiramente maus, são os bonzinhos. Rimbaud, "pai" espiritual desta merda toda, tinha razão. Par délicatesse, j'ai perdu ma vie. House não.
No quiosque, em frente da igreja, comprei três jornais. Sentei-me sozinho no café a lê-los. Do que mais gostei, foi da capa do suplemento de um deles que serve de ilustração ao post. Depois pensei que este blogue caminha para o seu nono aniversário, algures perto do 10 de Junho. Dele saíram dois livros, um deles com título homónimo. Esporadicamente escreveram aqui outras pessoas. Mas o blogue foi sempre meu, com a minha assinatura por baixo. Nestes nove anos, o blogue conheceu cinco governos, dois deles sob a direcção da mesma pessoa. Chegou mesmo a merecer o melhor elogio com que podia ter sido presenteado por parte de um chefe de governo cuja superficialidade só lhe permitia conceber mundos partidos em duas partes incomunicáveis: «um dos meus maiores inimigos!» Não era. Era apenas directo nas críticas. Como foi, é e será nos apoios que não confunde com louvaminhices grotescas. Nunca houve, nem há, nem haverá neste blogue nenhum ghostwriter. Je suis mon ouvrage, como dizia a Madame de Mertreuil. Nâo recebo nem dou recados. A minha liberdade é a minha lealdade. Comigo próprio e com os outros. A defesa intransigente da liberdade de expressão está exposta no arquivo do blogue. Não aceito lições de ninguém nessa matéria, muito menos de canalha anónima e de prosélitos de ocasião. Não deve, aliás, ter sido por acaso que Manuela Moura Guedes escolheu o Portugal dos Pequeninos, no momento mais difícil da sua carreira jornalística, para, livremente, comentar a sua situação. É este o registo do Portugal dos Pequeninos passado, presente e futuro. De volta aos jornais, li-os num instante, no tempo de uma bica que é, em geral, o tempo deles. Felizmente conheci grandes jornalistas. Cunha Rego, Carlos Plantier, Margarida Viegas, Helena Sanches Osório, Francisco Sousa Tavares. Se escolho mortos, é para não ofender a sua memória citando alguns vivos. Foi o que fez, também, o Miguel Castelo-Branco no post do seu libérrimo Combustões que passo a citar: «Um dia, Vera Lagoa disse-me que evitasse escrever aquilo que as pessoas não querem ler. As pessoas gostam de banalidades, gostam de mentiras, pelam-se por insignificâncias. Vera Lagoa estaria já naquela fase da vida em que a sabedoria se instala e o conhecimento dos homens e das suas cobardias, inconsequências e pequenez aconselham à máxima precaução. A Vera Lagoa tinha razão.»

«Encontrávamo-nos sempre os dois à espera de qualquer coisa, de notícias de um outro mundo qualquer, que nos tirasse da ansiedade não sei de quê. Mas éramos novos, ainda estávamos à espera de qualquer coisa. Agora já não estou à espera de nada.»

Num país medianamente adulto e civilizado, em que, apesar da falta de dinheiro, exista um módico de equilíbrio intelectual, moral e deontológico, a longa intervenção do dr. Carlos Moreno - meu antigo dirigente enquanto Inspector Geral de Finanças e juiz jubilado do Tribunal de Contas -, numa comissão parlamentar, sobre essa calamidade pornográfica que dá pelo nome de "parceria público-privada", faria manchete em qualquer órgão de comunicação social escrito, falado, informatizado ou televisionado. Mas a prioridade continua a ser dada, para usar a oportuna expressão do Presidente francês François Mitterrand (que não me cansarei de repetir as vezes que forem necessárias), à tentativa "multidisciplinar" de atirar a honra das pessoas aos cães, com o devido respeito pela indisputável lealdade destes animais quando comparada à dos homens. Em certo sentido, de facto nós não chegámos ao que chegámos - pobres, resgatados internacionalmente, miseráveis nos instintos - apenas porque há PPP's e pérolas semelhantes. A coisa é mais funda. O regime, sensivelmente a meio do "cavaquismo", deixou-se capturar por poderes que não são escrutinados eleitoralmente. A sociedade também. Fica um lastro de derrota do pensamento porque, precisamente, esses poderes fácticos (privados ou públicos, tanto faz, mas essencialmente entregues a invertebrados "transversais" e a "sobreviventes" profissionais) existem para evitar que as pessoas parem para pensar. O desastre, apesar de económico e financeiro, é sobretudo humano e cultural. Um dia lamentaremos estes quase quarenta anos de regime da mesma forma como outros lamentaram os quarenta e oito de "fascismo". Há método nesta loucura como em Hamlet? Há e ele entra-nos todos os dias em casa pelas televisões, pelos tablets, pela rádio, pelos jornais. Carlos Moreno explicou uma parte do problema mas apareceu logo um clown a exibir o método no que foi seguido de imediato pela habitual turpe circense dos idiotas úteis. A outra parte do problema, por consequência, reside em subestimar-se o poder de gente estúpida em grandes grupos. Grupos no sentido de magotes e grupos propriamente ditos.

Quando escrevi este post não conhecia pessoalmente o autor do livro da foto. Agora conheço-o. Como ali disse, «estamos a viver tempos que convidam a que nos "fechemos" dentro de um livro. Não é, pois, por acaso que têm aparecido alguns neste blogue. Essa capacidade de isolamento, essa barreira prodigiosa contra a tagarelice, esse momento único de redescrição do mundo que a leitura ou a música conferem, foi descrita de forma lapidar por George Steiner num intitulado No castelo do Barba Azul - algumas notas para a redefinição de cultura, traduzido pela Relógio D'Água: «os livros bem-amados são a sociedade necessária e suficiente do indivíduo que lê a sós.» Mas hoje não era de livros que queria falar. Um abraço ao Adelino Cunha.

Comecei há dois dias a ler o livro de Miguel Sousa Tavares editado pelo Clube do Autor. Alguns daqueles textos, previamente publicados no Expresso em português correcto - o que duplica o prazer de os reler em livro - eram meus conhecidos. Tudo junto, é um livro que "conta" a história do país, nos últimos seis anos, vista pelo autor. Nem sempre será forçoso concordar com ele mas o "retrato" geral é impressionante. Parece que, famosamente, o abismo atrai o abismo e o Portugal mais recente aí está para o demonstrar. Sousa Tavares romancista interessa-me relativamente pouco. Este interessa-me mais porque, na concordância ou no dissenso, me ajuda a pensar. E porque tem subjacente uma atitude intelectual indeclinável: «nada há de mais difícil e mais exigente do que ser-se livre» É verdade que «Portugal não acaba assim nem agora.» Sobretudo, como reza o título feliz, a história não acaba assim.
Costumo dizer que há um limite para tudo. Mas para não parecer demasiado impotente, fico-me pelo devia haver um limite para tudo.

Teresa Morais ocupa presentemente o cargo de Secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade. Tem biografia, é uma mulher determinada e politicamente preparada que sabe distinguir o essencial da necedade ruidosa. «Terminou um tempo de ilusão em que muitos pensaram que o Estado poderia da tudo a toda a gente e percebe-se agora que não poderá ser assim, devendo os meios do Estado acautelar e proteger a vida dos mais frágeis.»
Parece que há por aí um surtozinho de sarna. O nome que certas coisas têm nem sempre as denotam. Mas o termo sarna é muito impressivo. E não apenas na parte da coça. Podia designar, por exemplo, certas formas de alucinação. No livro de Carrilho vem descrita uma, passada nas Amoreiras. Havia quem insistisse em ver, num pendão publicitário, um rosto que não estava lá. Este tipo de arrastão virológico é uma declinação intelectual da sarna. Não admira o surto.
Nos telejornais da hora do almoço, os primeiros minutos da RTP e da SIC foram passados no Jamor a revelar as "interessantes" observações daqueles que, com horas de avanço, já pastam no arvoredo circundante. A TVI preferiu fazer serviço público - que eu saiba as idiossincrasias dos espectadores da bola apenas importam à família deles - com este trabalho do Carlos Enes. Mas, na realidade, mais milhão menos milhão que importância tem num país "rico" em originalidades como porcos com óculos escuros em torno do belo estádio construído pelo Estado Novo?

«Gregory House é um homem danificado (...), as suas frases chocantes servem para observar as reacções das pessoas, como uma martelada no joelho. Hugh Laurie, conhecido como comediante woodhousiano, homem bem sucedido, pai de família, pessoa encantadora, modesta, descobriu em si mesmo aquele farrapo humano, exausto, ácido, decepcionado. Filho de médico, depressivo clínico, Laurie metamorfoseou-se em House, o intratável de quem gostamos tanto, e em cujos olhos azuis intensos, frios, tristes, descobrimos um espantoso diagnóstico da nossa condição.»
Pedro Mexia, Expresso
O meu amigo de sempre, José Medeiros Ferreira, pediu-me, por razões técnicas pessoais, que evidenciasse por ele a sua "carta ao Presidente" publicada na coluna de opinião semanal no Correio da Manhã. É claro que não acompanho o teor da mesma mas sou um feroz adepto da liberdade de espírito. Sobretudo não vejo necessidade de celebrar a instauração de uma ditadura (o 5 de Outubro) e, apesar de acreditar na força simbólica de dois ou três momentos nacionais, creio que é relativamente indiferente "puxar" a sua celebração para os fins de semana anteriores ou posteriores. Dito isto, também julgo que o "problema" não é os dias feriados, em si, mas as famosas "pontes" que às vezes propiciam. Podemos ser sempre patriotas mas não devemos estar condenados a ser permanentemente tropicais.

Vai para quatro anos que chamei aqui pela primeira vez a atenção para este livrinho, Regras para o Parque Humano, de Peter Sloterdijk, traduzido na Angelus Novus. A ler ou a reler por todo o género de leitores potenciais o que inclui imbecis, dos profundos aos superficiais, como Karl Kraus premonitoriamente os pressentia nos primórdios do século XX. «O humanista devia cortar com o hábito da própria bestialidade potencial e distanciar-se da escalada desumanizadora da vociferante matilha do espectáculo.»
Por exemplo, lê-se no programa do Governo: «O Grupo RTP deverá ser reestruturado de maneira a obter-se a uma forte contenção de custos operacionais já em 2012 criando, assim, condições tanto para a redução significativa do esforço financeiro dos contribuintes quanto para o processo de privatização. Este incluirá a privatização de um dos canais públicos a ser concretizada oportunamente e em modelo a definir face às condições de mercado.» Estas duas frases singelas incomodam uma velha nebulosa chamada "sistema" e explicam muitas das alucinações deliberadas - deliberadas porque correspondem mais a um "agir estratégico" que a um "agir comunicacional" (Habermas) - do dito "sistema". Não há coincidências.
O Nuno, velho amigo - monárquico empedernido, crítico severo - foi jantar com Álvaro Santos Pereira. Fica a impressão de dois patriotas anti-patrioteiros, o Nuno e o ministro da economia.
«Hoje, livros como o Heterodoxia, parecem coisas simples, mas eram coisa para o gigantesco na altura em que foram feitos. E tão excepcionais eram que foram respondidos pelo silêncio que protege a incomodidade. O livro permanecia, como aliás muitos escritos de Lourenço, num limbo bem afastado da moda corrente, na primeira edição (...). No seu discurso a receber o prémio [Pessoa], Lourenço fez também uma coisa cada vez mais rara: trouxe consigo esse “país estrangeiro” que é o passado, para homenagear, ao receber o Pessoa, o papel dos que ajudaram Pessoa a ser mais do que um grande poeta, um elemento simbólico dos nossos tempos portugueses do século XX. Falou de gente esquecida como Adolfo Casais Monteiro ou João Gaspar Simões, que alguns, poucos, intelectuais recordam e ainda menos lêem. E ao falar sobre eles, falou também sobre si. Falou num momento de consagração pessoal, sobre como é efémera essa glória e como nós temos uma excelente capacidade para esquecer o importante e uma excelente capacidade para perpetuar a trivialidade. As duas coisas juntas foram o seu verdadeiro discurso sobre a crise. »

«O tratado orçamental está arrumado, porque - para lá das cada vez maiores e decisivas reservas dos social-democratas alemães - nem a França nem a Itália o ratificarão. Com a derrota de Nicolas Sarkozy, Angela Merkel ficou sem aliados na Europa, o único apoio significativo com que agora conta é o da Finlândia. A eleição de F. Hollande contribuiu para redistribuir as cartas do jogo político europeu, criando uma generalizada expectativa sobre o que o novo Presidente conseguirá fazer. As suas principais bandeiras são a reafectação dos recursos disponíveis dos fundos estruturais, a recapitalização do Banco Europeu de Investimento, a criação de project bonds e a taxação das transacções financeiras. Estas bandeiras também não são novas, mas a nova relação de forças dá-lhes - sobretudo depois da deriva política dos últimos anos - outra força e credibilidade. Com excepção da Alemanha, caminha-se assim para um consenso europeu sobre a necessidade de mudar de método e de estratégia na União Europeia. E a Alemanha acabará, a meu ver, por preferir o compromisso ao isolamento. O processo de "saída da crise" será, todavia, longo e difícil - e ninguém sabe se ainda se irá a tempo de evitar o pior. Sobretudo porque a Europa, depois de durante séculos ter identificado a mudança com o progresso e com a melhoria geral das suas condições de vida, está agora paralisada com medo dela, olhando-a como a origem de todos os males e de todas as ameaças. Mas não vale a pena continuar a fingir - como tantos políticos fazem - que não sabemos que aquilo com que hoje lidamos é com o fim de "um" mundo, o mundo que construímos nas últimas décadas, mais ou menos a partir da II Guerra Mundial. Depois dos sonhos dominados pela miragem do ilimitado na energia, no consumo e no crédito, descobrimos subitamente o imperativo dos limites. E é nisso que estamos. O problema é que, com a crise dos subprimes e depois com a crise do euro, a descoberta dos limites foi também a descoberta de uma economia que se baseava na siderante incúria de uma indústria financeira apoiada nas mais sofisticadas tecnologias, que instauraram o que inspiradamente Bernard Stiegler designou como a "estupidez sistémica" do nosso tempo. Estupidez que nasce do cruzamento do domínio tecnológico com a captura e a manipulação da atenção humana, nomeadamente através de um tão subtil como eficaz neuromarketing que promove um consumismo desenfreado, viabilizado pela incapacitação cada vez mais generalizada dos cidadãos. Promovendo, por um lado, a destruição de todos os saberes e, por outro lado, a diluição de todas as responsabilidades. É isto que explica o desatino político em que hoje se vive, bem como a ruína das evidências que nos cerca. Ruína das palavras, dos gestos e das ideias, que se tornaram vazias, previsíveis e inconsequentes, gerando uma atmosfera de crescente revolta, mas também de inegável impotência. O que é preciso compreender é que esta estupidez sistémica foi - e continua a ser - criada pela progressiva perda das nossas capacidades, dos imensos saber-fazer e saber-viver das pessoas e das comunidades, cada vez mais sujeitas a uma socialização intensiva de tecnologias que apenas visam lucros fáceis. Lucros que perderam qualquer perspectiva do investimento e qualquer sentido de médio/longo prazo, para se tornarem "naturalmente" especulativos, isto é, incapazes de se transformar em crédito útil para as economias, criando assim uma insolvabilidade cada vez mais estrutural. A recente revelação do "buraco" de dois mil milhões de dólares pela J. P. Morgan veio mostrar que, por mais pesadas que sejam as lições da crise, a especulação financeira não desiste de continuar a intoxicar o mundo dos seus produtos derivados, persistindo na senda do ilimitado. Por tudo isto, a mudança - se vier de facto a ocorrer - não se vai ficar a dever a nenhuma palavra mágica, ao contrário do que as recentes litanias em torno da palavra "crescimento" parecem insinuar. Mas há talvez uma outra palavra que pode sintetizar a mudança que hoje se impõe e todos procuramos: é a palavra transição. Uma transição que corte com a estupidez sistémica e aposte num mundo viável. Uma transição que seja simultaneamente financeira e económica, energética e ecológica, cultura e educacional, social e geracional. Mas para isso precisamos de políticos que sejam, também eles, de transição: de políticos com outra lucidez, que não estejam cativos, nem do statu quo nem da indignação declamatória. Era bom que fosse esse o caso de François Hollande!»
Em relação às famosas parcerias público-privadas parece que se prepara uma "comissão de inquérito parlamentar". E parece que se deseja ouvir uma multidão "multidisciplinar" como é próprio do exercício. É bonito. Mas entretanto as PPP's não se comovem com frioleiras mais ou menos simbólicas e relativamente "familiares". Continuam a custar dinheiro. E muito.
«Na Europa é instrutivo verificar que as facilidades do euro deslumbraram demais, sobretudo países passados quase directamente de longas ditaduras às liberdades e responsabilidades da democracia. Até nesses, porém, há tradições que tornam muito improvável o triunfo de populismos anti-democráticos. O problema não está aí, mas na Alemanha de Merkel cuja visão curta e provinciana não dá para a chefia que os outros, França à frente, lhe concedem numa espécie de sonambulismo colectivo. Tal parece começar a mudar – até na Alemanha - e é um alívio. O major David dos Santos que dava matemática no Valsassina dizia-nos às vezes: "Ó Senhor, é bom ser burro, mas não tanto!" Lembrei-me dele no rescaldo de alguns Conselhos Europeus do último par de anos.»
Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;
e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi
não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.
Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.
Jorge de Sena
Permanece útil, independentemente do contexto, a leitura do livro da foto. Aquando da sua publicação, Medeiros Ferreira escreveu no Diário de Notícias de Bettencourt Resendes que «a comunicação social e os jornalistas ocupam nos nosso dias o espaço de influência sobre a opinião outrora exercida pela Igreja e seus sacerdotes [e despudoradas sacerdotisas]. Por isso a nossa sociedade é uma sociedade de comunicação sem réplica assegurada. As tiranias começam assim.» Isto já seria suficientemente grave para que alguns se demarcassem dos que se comprazem em jogar a honra das pessoas aos cães, para citar mais um socialista, F. Mitterrand. E para que os que têm responsabilidades políticas, v.g. parlamentares, não fizesssem das "homilias" desses "sacerdotes" guiões das suas pífias tentativas de intimidação alheia.
«A grande manifestação deste fim de semana em Portugal é a que ocorre em Fátima. Alguma imprensa portuguesa, manifestamente desiludida com o fracasso da operação «indignados» por estas bandas, opta por dar maior destaque a uma manifestação qualquer que ocorreu no país vizinho.»

Logo nas primeiras frases das Antimemórias, André Malraux conta que, ao falar com o padre de Drôme (antigo camarada da resistência), perguntou o que é que a confissão lhe ensinou acerca dos homens. O antigo camarada respondeu-lhe: «Sabe, a confissão não nos traz nada porque a partir do momento em que nos confessamos, tornamo-nos outro, há a Graça. Para além disso as pessoas são muito mais infelizes do que imaginamos e, sobretudo, no fundo não há grandes pessoas.» Não há, de facto. Fátima é um sobressalto permanente e uma esperança teimosa num mundo em que não há grandes pessoas. Não por causa dos "milagres" mas apesar deles. Há dois anos o Papa estava por esta altura em Fátima como peregrino. O peregrino é a imagem daquele que sabe que não há grandes pessoas e que prefere a esperança contra toda a esperança. Em certo sentido, o peregrino é aquele que comprendeu perfeitamente a mensagem do Senhor: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida.» A começar por ele, o Papa ajoelhado diante da imagem de Fátima como símbolo dessa vitória sobre o não haver grandes pessoas. Parece, assim de repente, uma derrota. Uma imensa derrota. Todavia, como Bento XVI disse nessa ocasião, «ao meditar os mistérios luminosos, dolorosos e gloriosos ao longo das «Ave Marias», contemplamos todo o mistério de Jesus, desde a Encarnação até à Cruz e à glória da Ressurreição; contemplamos a participação íntima de Maria neste mistério e a nossa vida em Cristo hoje, também ela tecida de momentos de alegria e de dor, de sombras e de luz, de trepidação e de esperança.»
Leio no Correio da Manhã que Futre se apresta a passar da tvi para a RTP a troco de uma chamada "proposta irrecusável" (o jornal chama-lhe "aliciante"). Leio e não acredito. Se tiver de acreditar, é um mau sinal. E há um conjunto de pessoas que sabe perfeitamente porquê.
Adenda: Na recente cimeira ibérica julgo que o tema "televisão pública" não foi abordado. Esta semana, porém, um jornal espanhol dava conta que o presidente do governo vizinho, e passo a citar no original, «prefiere un administrador que ejecute el recorte de 204 millones en el presupuesto de RTVE .» Ou seja, procura-se um gestor que efectivamente faça os cortes previstos pelo governo para a RTVE. Ora "cortar" quer dizer reduzir custos operacionais e financeiros e não andar a "navegar à vista". Quem não é capaz de fazer isto, deve dar lugar a outros que o façam sem tergiversações. O que "cortar" em nenhuma parte do mundo quer dizer é aumentar a despesa pela via de fornecimentos e de prestações de serviços externos por valores como os anunciados na notícia do Correio da Manhã. Quem não entender isto, meta rapidamente explicador.

«O corpo estava batido pelo mar.» Para os lado do Abano, do Guincho, do mar que mais amo. E o que mais amamos é sempre o que mais nos destrói e consome. Há uma injustiça qualquer nisto que não tem a ver com o mar. Tem a ver com a vida, infinitamente mais estúpida.
Mozart, Don Giovanni. Bryn Terfel, Simon Keenlyside, Matti Salminen, Carmela Remigio, Bruno Lazzaretti, Anna Caterina Antonacci, Ildebrando D'Arcangelo, Patrizia Pace. Teatro Comunale di Ferrara, Chamber Orchestra of Europe. Claudio Abbado. 1997
A partir de hoje, a edp apenas depende do Estado em acções de categoria B que configuram 4,14% do capital social da empresa e respectivos direitos de voto. Durante anos a edp foi uma empresa do regime. Levará ainda algum tempo até que seja devidamente percepcionado que isso deixou de acontecer e, bem mais importante, que em ambiente de mercado energético liberalizado, os consumidores (pessoas colectivas, indivíduos e famílias) podem optar por outras alternativas. Esperemos que estas alternativas sejam tão "agressivas" como a edp conseguiu ser, anos a fio, com a complacência geral. É, por assim dizer, um desejo genuinamente republicano.

«Apesar de herdar uma situação, nacional e europeia, que o vai obrigar a governar no fio da navalha, François Hollande tem alguns trunfos valiosos. Nomeadamente dois: a sua visão da política e uma boa preparação nos dossiers mais decisivos. Quanto ao primeiro, ele compreende bem que a política é, antes do mais, uma questão de imaginário e de simbolismo, e que é esta a chave do espírito colectivo de qualquer nação e, nomeadamente, da base popular de qualquer transformação. O oposto, como se sabe, do que fez Nicolas Sarkozy, que apostou desde o dia da sua eleição, em 2007, na dessacralização da função presidencial e na banalização do exercício político. Sarkozy - como muitos outros líderes - foi nisto vítima de uma das mais vulgares ilusões político-mediáticas dos últimos tempos: a de que o que importa numa liderança é a velocidade, a energia e o voluntarismo que exprime, numa permanente combinação - como se de um action man se tratasse - da vertigem do movimento com a manipulação estatística e a amnésia do cidadão/espectador. O tempo tem mostrado sem piedade a enorme fragilidade desta ilusão performativa, e as suas trágicas consequências. Como tem mostrado, e bem, que sem ideias novas não há políticas inovadoras; que sem reflexão paciente não há acção eficaz; que sem deliberação ponderada não há decisão acertada; que sem profundo conhecimento dos problemas não há soluções consistentes.»
Acabei de ver e ouvir Berta Cabral numa entrevista com Mário Crespo. Berta Cabral é presidente da Câmara de Ponta Delgada e candidata à presidência do Governo Regional dos Açores. É uma mulher a todos os títulos notável e uma combatente de primeira água. Augura finalmente, e a partir de Outubro, bom tempo no canal.
O dr. Soares concede uma entrevista ao jornal i na qual defende que o PS rompa o acordo com a troika. E onde sustenta mais meia dúzia de disparates. Na cabeça do dr. Soares, as Tulherias foram de novo assaltadas a bem das venturas da esquerda e Afonso Costa ainda mora em Paris. Não foram e Costa não passa de um quadro na faculdade de Direito de Lisboa. Podia, antes, com os seus magníficos "conselhos", ajudar o líder da esquerda radical grega a formar governo.
«A campanha promocional levada a cabo pelos supermercados Pingo Doce, em Portugal, a 1 de Maio, não parece configurar qualquer violação do ponto de vista da política comunitária de concorrência, disse hoje à Lusa fonte comunitária. Questionada pela agência Lusa sobre se a Comissão estava a averiguar o sucedido, fonte comunitária indicou que, em princípio, os preços baixos só podem levantar problemas, do ponto de vista da concorrência, se forem levados a cabo com o recurso a ajudas estatais ou se uma companhia abusar da sua posição dominante no mercado, "o que não parece ser o caso", indicou.»
Dizia-me há dias alguém que conhece razoavelmente bem a política francesa que Mitterrand apreciava "mandar" os seus colaboradores a votos para se "validarem". O próprio Mitterrand passou a sua vida política em eleições e apenas à terceira vez, com 65 anos, conseguiu a chefia do Estado. O presidente eleito François Hollande, seu antigo assessor "alistado" através de Jacques Attali, foi enviado para Corrèze logo nas legislativas de 1981 que inauguraram o primeiro septenato de Mitterrand, onde perdeu para o cabeça de lista do então RPR, Jacques Chirac. Só em 1988 foi eleito para a Assembleia Nacional. Dezessete anos após a saída de Mitterrand do Eliseu, Hollande é escolhido para "la plus haute charge", nas palavras do primeiro quando tomou posse em Maio de 1981. Acabou por ser bem "mandado". «Nous ne sommes pas n’importe quel pays de la planète, n’importe quelle nation du monde. Nous sommes la France.»

Se nada de extraordinário acontecer - como, por exemplo, alguns dos nossos comentadores, até dos mais lúcidos, conseguirem convencer o eleitorado francês que François Hollande vai devolver o seu país às "trevas" progressistas de 1789 e seguintes e, por consequência, a Europa vai sair do maravilhoso momento que a caracteriza com Sarkozy - o antigo colaborador de François Mitterrand será, a partir de logo à noite, o próximo chefe de Estado francês. Hollande tem a crédito a normalidade (fartei-me de escrever aqui que essa era a mais-valia de Passos Coelho nas legislativas de Junho passado) contra a adolescente crispação do incumbente. E, uma vez eleito, a fatal realidade acabará por se impor a qualquer veleidade "ideológica". Sarkozy, em 2007, parecia uma coisa nova nas direitas europeias e para futuro exemplo delas. Não foi nem uma coisa nem a outra. Conseguiu a proeza de virar o métier (que ele domina) contra si próprio e revelar-se um político frívolo, instável e arrivista. O que acontece hoje em França é muito mais o reflexo da sua rejeição (é esse o sentido fundamental dos quase seis milhões e meio de votos em Marine Le Pen e da decisão solitária do prestigiado centrista Bayrou) que um desvelo inusitado por Hollande. A Europa das grandes figuras desapareceu de cena há muito tempo. Tal como ela mesma se arrisca a desaparecer se persistir nas tolices dos últimos anos, ensimesmada e impotente perante a crise. Por isso, vive-se com o que se tem e vota-se com o que há. François président.
«As indignações políticas e comentadas à promoção do Pingo Doce têm nome: ódio de classe. E duplo: contra o empresário Soares dos Santos, sem papas na língua e crítico do governo de Sócrates; contra o povo, que a chamada esquerda adora abstractamente e odeia concretamente. Despreza pessoas que ganham 600 euros e aproveitaram uma promoção que lhes valia 10% do salário.»
O dr. Azeredo Perdigão, um sage e um dos melhores advogados portugueses, gostava que o General Ramalho Eanes lhe tivesse sucedido na presidência da Gulbenkian. Não aconteceu. Depois dele, vieram Ferrer Correia, Sá Machado e Rui Vilar. Esta semana Vilar trocou de cadeira com Artur Santos Silva (o "Arturinho" da dra. Maria Barroso) que, entre as trezentas e quarenta e sete funções e cargos que detém, passou de administrador não executivo da Fundação a seu presidente enquanto Vilar passou de presidente a administrador não executivo. Ambos levam anos e anos de regime às costas e asseguram a sua respeitabilidade endogâmica. Vilar começou logo nos governos provisórios, passou pelos primeiros socialistas e redundou fatalmente em gestor de coisas públicas e aparentadas, de preferência bancos. Santos Silva, por parte do pai, vinha daquela oposição nortenha, liberal e burguesa ao Doutor Salazar, o que lhe garantiu para todo o sempre um "estatuto" regimental que ele exibiu em comissões patrióticas tais como a dos cem anos da República e na curta passagem pela Porto 2001 de onde se demitiu quando Manuel Maria Carrillho, à altura ministro da Cultura, o colocou no devido lugar. No essencial, foi, evidentemente, banqueiro. Dir-se-á que não há mais ninguém. Talvez. Jorge de Sena chamava a isto "mesmice". Era, porém, no tempo da "outra senhora". Só que então ninguém sabia que a referida "senhora" tinha uma irmã gémea que ainda hoje, pelos vistos, é viva.

O episódio Pingo Doce já enjoa. Até porque coloca as pessoas mais inesperadas a dizer as coisas mais inesperadas por brotarem delas. Da próxima vez que, por exemplo, uma "grande superfície" que venda roupa, preferencialmente íntima, anunciar cuecas, soutiens, calças e calções de borla ou a metade do preço para quem lá aparecer nu ou apenas com as cuequinhas ou os boxers, o que é as diversas patrulhas de serviço vão fazer? Ou quando as gasolineiras que vendem "marcas brancas" de combustíveis baixarem mais os preços do que as galps, as bps e as repsol estiveram cercadas por condutores enervados uns com os outros e que esperam horas a fio para atestar o depósito e poupar uns euritos? Chamar o ex-execrado dr. Nunes da ASAE, e novo herói das mencionadas patrulhas, para obrigar a cobrir as "vergonhas" ou ir encher o depósito a outro lado mais respeitável? Promover um colóquio internacional de sociologia no ISCTE patrocinado por algum concorrente da Jerónimo Martins ou pela galp? Rui Ramos escreve no Expresso que «o último argumento do socialismo foi sempre a polícia.» O que nem ele nem eu sabíamos é que há mais socialistas no céu e na terra do que nas nossas pobres "filosofias". A miséria humana é, também, miséria instintual. Os factos e as reacções a eles revelam muito mais esta do que a primeira.
Foto: Eu sou uma ilha
Com a idade e a indiferença geral que nos rodeia, talvez esteja a ficar piegas. Mas, e por vir sobretudo de quem vem, a crónica de hoje do Público de Vasco Pulido Valente, dedicada a Fernando Lopes, comoveu-me profundamente. Mais do que falar do seu amigo Fernando Lopes, VPV escreve sobre um tempo (e um tipo de gente) que acabou. Nem sequer os anos que me separam do autor e de F. Lopes diminuem a horrível percepção desse fim. Bem pelo contrário. «Costumávamos ficar os dois a falar, com a sala vazia, como se essa fosse a nossa verdadeira ocupação na vida. Raramente encontrei uma pessoa tão inteligente como ele. Via o mundo com uma pertinência, uma originalidade e uma subtileza, que muitas vezes me faziam sentir menor. E com uma espécie de irremediável melancolia, que só quem o conhecia bem acabava (e nem sempre) por notar (...). Por isto e por aquilo, o ritual do "Gambrinus" enfraqueceu, como o prazer e a ajuda que me dava. O Fernando existia, mas longe e, pior do que isso, intermitentemente. Os tempos felizes não voltaram mais. Não me consolei disso.»

«Encontrámo-nos como dois não-lisboetas que gostavam de Lisboa e suas ilhas de liberdade num Portugal amordaçado. Para o Fernando, o Cinema, para mim as Associações de Estudantes, para os dois o mundo da cultura, da inovação e do convívio entre gente de qualidade. O local de encontro foi o VÁVÁ, esse café mágico dos anos sessenta, no cruzamento das avenidas dos EUA e de Roma onde se teceu a modernidade, e até a post-modernidade, entre estudantes subversivos, artistas rebeldes e publicítários criativos. Lembro-me como se fosse hoje, e especialmente hoje, da nossa partida do café para irmos, em grupo comandado por essa agregadora chamada Milice Ribeiro dos Santos, à estreia do Belarmino em 1964. Um literal murro no estômago, com savoir-faire. E, depois, as noites da Lisboa dos cafés e dos restaurantes, desde o Monte Carlo e Monumental, à Ribadouro e ao Gambrinus. Uma amizade tecida entre notícias das novidades culturais e políticas, com muita emulação para agradar ao auditório feminino da emancipação emergente. O meu exílio interrompeu esse convívio quotidiano por seis anos, durante os quais o Fernando se revelou aquele líder da organização do moderno cinema português que todos reconhecem. Mas o 25 de Abril voltou a reunir-nos de várias maneiras: estivemos juntos em alguns dos bons combates políticos do nosso tempo, e o Fernando produziu das melhores campanhas políticas, como as do General Ramalho Eanes. Sim, porque o Fernando Lopes não foi só um cineasta e um director de programas de referência - foi ele o responsável pela vinda do Sesame Street- e o que deu o selo de qualidade ao Canal 2 do seu melhor tempo. Ele foi sobretudo um cidadão e um homem de cultura inovador, muito à frente do seu tempo e das suas circunstâncias.»

No longo debate televisivo entre Sarkozy e Hollande, o primeiro louvou-se várias vezes em Mitterrand - com manifesto mau gosto porque não lhe chega sequer aos calcanhares políticos - para atacar o segundo. E atirou-lhe delicadamente à cara com Zapatero como o "exemplo" socialista que, alegadamente, Hollande seguiria uma vez eleito. Também mencionou Papandreou. Sucede que em matéria de socialistas "modernos", foi Sarkozy, e não Hollande, quem passou os cinco anos de mandato a apaparicá-los como no caso do infalível Sócrates, um íntimo do ainda presidente francês. Eram todos uns gajos "porreiros", independentemente de se chamarem Sarkozy, Merkel, Zapatero, Berlusconi ou Sócrates, como se via nos conselhos europeus. E como se viu, em especial, no extravagante evento que bolçou o tratado de Lisboa o qual, à semelhança de outros espectáculos de semelhante índole, nós organizámos com pompa e circunstância provinciana à beira Tejo. Os socialistas eram "bons" para Sarkozy desde que fossem bons para Sarkozy. Agora deixaram evidentemente de ser. Estes "porreiros" todos juntos representaram e representam o passivo da Europa actual. Se Sarkozy puder ser riscado desta conta-corrente no próximo domingo, eu, enquanto europeu, fico grato aos franceses.

«O 1º de Maio foi sempre usado para a celebração ideológica dos trabalhadores como um grupo homogéneo. A existência de diferentes relações laborais e capitalismos não impedia que o trabalhador fosse encarado como uma categoria, com uma relativa união e capacidade de acção colectiva. Visto desta forma, o trabalhador seria alguém que, por estar subordinado a outro, por ter a sua esfera de liberdade dependente de outro, tinha facilitada a aquisição da sua identidade política. E, no entanto, no mundo ocidental o trabalho atravessa uma das crises mais violentas da sua História. A principal ameaça não está hoje em relações de força opressivas e desequilibradas. O que está agora em causa é o processo de destruição e rarefacção do trabalho, um processo que, na realidade, começou há algum tempo com a maquinização do mundo. Um desemprego crescente e resistente criou uma nova classe social politicamente sub-representada: o desempregado de longa duração. O mundo laboral construiu várias distinções sociais, a começar pela que dividia os detentores dos meios de produção dos outros. A ascensão dos profissionais dos serviços, de todas as pragas de consultores, aliada à indústria da educação, trouxe outro importante foco de separação: entre trabalhadores especializados e não especializados – engenheiros de um lado, telefonistas do outro. Dito isto, essa distinção só era possível porque todos tinham emprego, embora alguns empregos fossem aceites como melhores. Mesmo hoje, apesar da sua notória queda, ainda subsiste um prémio de remuneração para quem acabou uma licenciatura. Sucede no entanto que é impossível pensar no trabalhador de hoje sem reconhecer a crise destas distinções. O trabalhador diplomado e doutorado que ninguém tragicamente compra, simboliza a grande revolução do nosso modo de ver o mundo do trabalho. Um licenciado que não conseguiu mais do que trabalhar num call-center arrasa com décadas de políticas nos países ricos que apostaram tudo na educação e nas oportunidades. Foi, de facto, a competição global no trabalho que colocou esses trabalhadores numa posição inédita e vulnerável. Não é verdade que a globalização dinamitou apenas as profissões fabris, os ditos operários dos têxteis e sapatos. A globalização destruiu milhões de empregos de topo, entre consultores, analistas, arquitectos, isto é, profissões que podem ser desempenhadas em qualquer lugar. Há uns anos, o economista Alan Blinder escreveu na Foreign Affairs que o mundo do trabalho deixou de assentar na antiga divisão entre educados e não educados. Agora, a divisão crítica opõe trabalhos que podem ser prestados através de ligações electrónicas e trabalhos em que isso não é possível. Por outras palavras, o mercado distingue hoje entre “serviços pessoais” e “serviços impessoais”. Um médico não precisa de se preocupar com a globalização do seu trabalho, mas outras profissões como consultores, programadores, analistas sofrem as consequências de na Índia ou nas Filipinas existirem milhares disponíveis para trabalhar mais por menos. E se acrescentarmos o efeito dos computadores, ficamos com um aterrador cenário de irrelevância humana. O feriado do trabalhador corre por isso o risco de ser um feriado histórico, idealizando um mundo laboral que deixou de existir. E é porque estas transformações do trabalho afectam tanto os de cima como os de baixo que é hoje bem mais incerto perceber como pensa politicamente a classe dos que trabalham e dos que desesperam para trabalhar.»
*por Pedro Lomba, Público de 1.5.12. Um texto notável que reproduzo com a devida vénia e amizade

A ERC pronunciou-se, em relação a um projecto de lei do Bloco que visava interditar as touradas no operador público de televisão, a favor da unidade e da coerência do sistema jurídico para emitir parecer negativo. A ideia subjacente ao parecer é que a tourada é um acquis tipicamente português, uma "tradição", logo o serviço público de televisão pode perfeitamente passar duas ou três por mês para assegurar a referida tradição. Para mais, o contrato de concessão celebrado entre a RTP e o Estado (seu accionista único), acrescenta a ERC, contempla a transmissão de coisas como touradas. Daí "a unidade e a coerência do sistema jurídico" ficarem garantidas com a transmissão das ditas e não com a não transmissão. Independentemente do que penso de touradas (muito mal), julgo que temperadas com transmissões de teatro, de cinema português, de ópera, de bailado, de concertos ligeiros e clássicos, de programas de divulgação literária e estética em múltiplos registos, que passem pois as touradas tal como passam espectáculos com selecções nacionais desportivas (e não exclusivamente com a doentia bola). Uma tourada não qualifica especialmente ninguém mas, parece, a sua violência bruta, "tradicional", diverte e excita alguns. E ao serviço público de televisão compete, também, respeitar as minorias. Literalmente.