28.2.15

Nas mãos dele


 O dr. Passos Coelho foi entrevistado por um semanário. São quatro longas páginas de conversa. As dedicadas à economia e às finanças são previsivelmente insuportáveis. Há, aliás, uma "confissão" curiosa quando o primeiro-ministro assume poder ter existido medidas e cortes "cegos" (designadamente na saúde) mas era preciso apresentar a conta-corrente, de três em três meses, à "consideração superior". Devia ter "encaixado" aí o regresso, já em Maio, aos PEC's sobre os quais não profere uma palavra. Quanto à parte "política", Passos sai-se bem salvo nos elogios indirectos a dois ministros pseudo "reformistas" que inexistem há muito. Demonstra a sua autoridade sobre o governo (e a maioria), desmitifica a "alternativa" Costa (a qual, aliás, se tem encarregado de "desmitificar" a si próprio com denodado método e uma notável persistência) e pede uma maioria para continuar a governar. Se ela não vier, o presidente do PSD não fecha as portas nem sequer à sua permanência à frente do partido ou como lugar-tenente de um hipotético "bloco central". O "estudo de opinião" sobre as eleições que o mesmo semanário edita parece dar-lhe razão. Sessenta e tal por cento dos inquiridos revê-se no "arco da governação" com uma ligeira tendência de supremacia favorável ao PS. Numa palavra, e apesar de o "estudo" ser simpático para a coligação, Passos, ao contrário de Costa, só ganha se ganhar absolutamente. Ora quer um quer o outro estão longe dos 116 deputados para o efeito embora a Costa sirva perfeitamente "chegar na frente" com cerca de cem ou menos. À coligação só serve os cem mais os dezasseis. Abaixo disso acabou-se. Não faço ideia como é que Passos tenciona gerir a apresentação eleitoral da maioria por forma a que o país torne a confiar nele. Talvez lhe conviesse chamar às listas independentes de centro-esquerda e críticos do "pensamento único" destes últimos quatro anos que, apesar de tudo, rejeitam a falácia Costa. E menos das figuras cabisbaixas e quase nulas provenientes da intendência partidária. Não estará tudo em aberto. Todavia nem tudo estará completamente fechado. Fica nas mãos dele.

27.2.15

A Comissão e os jogos florais


 


A Comissão Europeia - que faz de preboste na execução do estúpido tratado orçamental, a verdadeira "constituição europeia" - veio lembrar a um dos seus melhores alunos, o governo português (em funções ou outro qualquer por vir), que o PEAF não só não chegou como da sua aplicação resultaram "desequilíbrios excessivos" (como se estes estupores não soubessem o que é que ia "resultar" na periferia) tais como o aumento da dívida, do desemprego e da pobreza. No fundo a Comissão escreveu o prefácio do primeiro PEC do governo do dr. Passos o qual entrará já em vigor na saison primavera-verão e em plena pré-campanha eleitoral doméstica. Ou seja, o "arco da governação" não pode ter outro programa a não ser o que lhe vai ser imposto pelas "entidades" do costume que resultam do dito tratado. É esse, também, o engulho do dr. Costa e menos a sabujice circunstancial a terceiros. O resto são jogos florais.

26.2.15

Sob o signo da cabra


 


O sr. Melo do CDS - que Paulo Rangel tem andado a promover a inteligente - esgaravatou e deu de caras com um clip com o dr. Costa. Era no casino da Póvoa e o secretário-geral do PS falava para uma plateia composta fundamentalmente por cidadãos chineses. Celebravam, parece, o início do "ano da cabra". Costa, como lhe competia, disse aos que o escutavam o que eles queriam ouvir. Amanhã, se estiver diante de marcianos, fará exactamente o mesmo: elogios. Sugeriu um país "diferente" do de há quatro anos, presumivelmente "melhor" também por causa daqueles magníficos cidadãos. O sr. Melo, e atrás dele uma pequena multidão de serventuários menores da maioria, achou que isto era imperdível para a glorificação do exercício governativo. Não se enganou. Conseguiu colocar um candidato a primeiro-ministro no lugar de candidato a, por exemplo, secretário de Estado do dr. Portas. A "conversa" de Costa não andou longe das arengas de feira nacional ou internacional tão do agrado do senhor vice. Chapeau.

25.2.15

Schadenfreude dos nossos cãezinhos de Pavlov


 


«Em política, Pavlov reina como mestre de cãezinhos. É tudo tão previsível, tão fácil de identificar, tão rudimentar, tão… pavloviano. Grite-se Sócrates, Costa, Boaventura, Syriza, Bagão, Louçã, Manuela, eu próprio, os gregos, Varoufakis e logo uma pequena multidão começa a salivar nas redes sociais, nos blogues, nos "porta-vozes" oficiais e oficiosos do PSD e do CDS. Muita desta raiva vem do desespero. Os melhores dias já estão no passado e as perspectivas são sombrias. É verdade que muitos aproveitaram estes anos de ouro para se incrustar em lugares de nomeação ou influência governamental. E vão continuar lá. Claro que há de vez em quando uns pequenos grãos na engrenagem. Jardim, por exemplo, do "je suis Syriza", ou Marcelo que dá uma no cravo e outra na ferradura. Mas para estes pequenos propagandistas não pode haver hesitações. É o combate final e não há "mas", nem meio "mas", é tudo a preto e branco. Ou se é grego ou alemão. Animam-se com o facto de as manifestações pró-gregas terem pouca gente, mas ignoram as sondagens que mostram que muita gente ultrapassou os argumentos mesquinhos de Cavaco e Passos e tem simpatia pelos gregos. À direita e à esquerda, porque toda a gente precisava de um assomo qualquer de dignidade nacional numa União Europeia manietada pela elite política mais autoritária e escassamente democrática que chegou ao poder nestes últimos anos. Enganam-se se pensam que são os esquerdismos do programa do Syriza que mobilizam as simpatias. É por isso que há pouca gente nas manifestações, porque elas são miméticas desse esquerdismo. Mas o que faz as sondagens maioritárias pró-gregos, a "maioria silenciosa", é a afirmação nacional, a independência, a soberania, a honra perdida das nações resgatada por um povo. É uma gigantesca bofetada nos patriotas de boca e empáfia que aceitaram tudo, assinaram tudo, geriram o "protectorado" com zelo e colaboração, e terminam o seu tempo útil servindo para fazer o sale boulot alemão.»


 


José Pacheco Pereira, revista Sábado

24.2.15

Outras coisas


 


Quem conheceu um pouco por dentro a "coligação" só pode ser contra a reedição dela nas próximas legislativas. Sem capacidade de alargamento para o centro-esquerda, viciada em remoques internos puramente taticistas, descoordenada e alheada da vida das pessoas, prisioneira ora da vaidade de uns ora da inépcia de outros, mantida pelo decurso do tempo e pelo exercício do poder, refém de um passado contraditório e austeritário (o "peso" carregado pelas costas do dr. Passos como Gaspar salientou quando saiu), a coligação terminou politicamente com a finalização "técnica" do PAEF. Pela sua parte, como aliás lhe compete, o dr. Portas será o que for preciso para se manter quer à frente do seu partido quer ao lado de quem lhe der mais jeito. É essa a essência do seu tão admirado "pragmatismo" que mereceu das mais altas instâncias do Estado a devida vénia aquando da sua promoção a vice-PM, coisa impensável em qualquer das anteriores AD's. No voto também se julgam carácteres. E assim será, uma vez mais, em relação aos principais protagonistas das próximas legislativas, às direitas e às esquerdas. A emergência de outras coisas não brotará do acaso.

22.2.15

Disposto a tudo


 Um conselheiro nacional do CDS escreveu uma carta aos companheiros (não sei se é assim que eles se tratam entre eles). Provavelmente não valerá de nada num partido unipessoal em que o líder define, em exclusivo, quem é quem e onde é que pode ser alguma coisa. Portas "acumula" a função de presidente do partido com todas as outras funções do partido. É o mais antigo dirigente partidário no activo descontando a pequena intermitência do sr. Castro. Talvez por ter pensado um bocadinho neste caldo cujo futuro assenta, no essencial, num passado autosuficiente e autocomplacente - os três ou quatro acólitos directos do chefe limitam-se a alimentar acefalamente este estafado egocentrismo - e numa lata infinita, o militante colocou pelo menos as suas mãos na ferida narcísica nunca assumida. "Quando foi chamado a reformar o Estado não estava lá", "nunca o CDS pareceu estar, como devia, confortável nesta coligação”, foi obrigado "a meter as suas ideias na gaveta, depois de terem perdido parte das suas competências ou de terem de nomear boys para cargos da administração pública quando haviam jurado que jamais o fariam”, "deve ser, na verdade, muito desconfortável! Mesmo para o presidente do partido que, apesar de tudo, logrou ver reconhecido o seu lugar na sequência do seu próprio pedido de demissão", etc, etc. O conselheiro revela adequadamente o "estatuto" deste, afinal, velho CDS na coligação depois da farsa do "irrevogável": disposto a tudo para sobreviver.

21.2.15

O "arco" no seu labirinto


 


Não acompanho a "tese bipolarizadora" do autor - na substância equivale a uma mera mudança, ou nem isso, nas mãos que embalam o "arco da governação" que persistiria inerme - porque, ao contrário do que aconteceu nesta legislatura, espero que a próxima tenha duas partes e seja menos "simplificada": uma turbulenta e animada pelo atomismo dos resultados eleitorais e uma segunda, negociada e ponderada, que reflicta politicamente mais as necessidades do país do que as das suas estafadas "elites". De resto, Pacheco Pereira "bate no ponto". «Aquilo que se tem chamado a “ditadura dos mercados” é a forma moderna de fusão dos interesses económicos com a política, que já não permite a caricatura dos capitalistas de cartola, senhores do aço e das fábricas de altas chaminés, mas sim os impecáveis banqueiros e altos consultores vestidos de pin stripes, assessorados por uma multidão de yuppies vindos das universidades certas com o seu MBA, que num qualquer gabinete do HBSC movem dinheiro das ilhas Caimão para contas numeradas na Suíça. Entre os perdedores não está apenas quem trabalha, no campo ou nas fábricas, ou a classe média ligada aos serviços e à função pública, mas estão também os interesses económicos ligados às actividades produtivas, ao comércio que ainda não é apenas uma extensão de operações financeiras, e à indústria. A rasoira que tem feito na Europa, usando com grande eficácia as instituições da União Europeia, não é da “política” em si, porque o que eles fazem é política pura, mas sim de qualquer diversidade política, tendo comido os partidos socialistas ao pequeno-almoço, com a ementa do Tratado Orçamental. É por isso que, nestes anos do “ajustamento”, o PS foi muito mais colaborante no essencial do que os combates verbais pré-eleitorais indiciam, com os socialistas europeus domados pelos governos do PPE como se vê na questão grega. Os partidos socialistas e sociais-democratas têm de facto a “honra perdida”. O PSD penará por muitos anos o ter-se tornado não apenas um partido do “ajustamento”, mas o partido do “ajustamento”, o mais alemão dos partidos nessa nova internacional política dos “mercados”. Fez o papel que o CDS sempre gostaria de ter feito e desagregou-se em termos ideológicos, perdeu a face e a identidade. O seu destino próximo será recolher os votos necessários para manter uma frente conservadora, muito à direita, com um CDS que por si só não tem os votos necessários para governar. É mais instrumental do que confiável pelas mesmas elites que ajuda a servir, que consideram a sua partidocracia como muito incompetente, e perdeu há muito o mundo do trabalho, as universidades, a juventude estudantil, os genuínos self-made men

20.2.15

Ainda "lixo"

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Mesmo que ao de leve a "Europa" recuperou o lastro negocial, de boa tensão, que a instituiu. Até o "eixo franco-alemão", presentemente uma caricatura do que foi noutras alturas, se manifestou pela "segurança" do euro e pela permanência do Eurogrupo na sua presente configuração. O dr. Passos, aliás, já estava atrasado em relação a este "eixo" (ou à parte que lhe é mais simpática nele) quando, no parlamento, se pronunciou sobre países-membros que tem por pouco atiladinhos. Mesmo assim o nosso, apesar de mostrado ao mundo como "exemplar" cumpridor de programas ditos "indignos" e como pagador certinho de reembolsos a credores, não consegue sair do "lixo" da  Moody's. Constou que, entre outros, se teria "empertigado" contra as mais recentes decisões encontradas no Eurogrupo com outro Estado-membro. Também constituiria uma forma de "lixo".

19.2.15

A Europa Unter den Linden


Agora é que se vai ver se a "Europa" passou a ser um diktat contabilístico Unter den Linden ou se ainda se concebe como uma união política de soberanias. E também se vai ver, ou rever, até onde chega a capacidade de agachamento de alguns Estados-membros. Quanto às "instituições" tipo Comissão Europeia, o mea culpa farsolas do sr. Juncker só será válido se corresponder, como se diz no direito, a uma declaração séria no meio do monte do estrume que representa, desde as eleições helénicas, o princípio e o fim da conversa não democrática alemã. Não há mapas cor de rosa.

18.2.15

Conferência Medeiros Ferreira


 Decorre entre amanhã e sexta-feira, na Fundação Gulbenkian (Auditório2), a conferência José Medeiros Ferreira, O cidadão, o político, o historiador, com entrada livre. Participarei num dos painéis e, do depoimento que escrevi para o livro da foto editado na circunstância deste debate, deixo aqui um excerto a propósito dos dias que correm. «Ponderava, como poucos, as funções de soberania no Estado moderno democrático e falava disso com a vivacidade lúcida e informada de quem conhecia bem a história contemporânea portuguesa. Há apenas quatro anos, informado da minha colaboração com o programa do XIX Governo Constitucional no qual recorri a um título seu, brincou a sério: «eu vi logo que não era a malta do «estado mínimo!» Em Medeiros Ferreira surpreendi constantemente aquela inquietação intuitiva que separa os políticos de métier dos homens que encaram a política como uma cibernética, entre a reflexão e a acção, que calibra, em ambiente de contingência e de forma contínua, a ininterrupta conversa democrática mesmo quando “lançada” de um “exílio interior”.»

17.2.15

Dia da intolerância selectiva de ponto


 


Comemora-se hoje uma das mais notáveis "reformas estruturais" do governo em funções: o dia da intolerância selectiva de ponto. E comemora-se, à portuguesa, de uma maneira original. A dita intolerância foi decretada para o Estado, em sentido amplo, mas apenas a chamada administração central é forçada a cumpri-la. Nas outras - autarquias, Regiões Autónomas, o que resta de empresas públicas, etc. - pratica-se a tolerância carnavalesca, a saber, desobedece-se. Não há distrubuição de correio, os transportes públicos praticam horários de feriados e fins de semana, etc. Detesto o carnaval e a minha vida, por assim dizer, é impessoal e intransmissível pelo que não é afectada por decisões parvas. Se as quisesse "furar", "furava" com férias por exemplo em Paris (onde estava precisamente há cinco anos) e onde ninguém sabe o que é uma "terça-feira de carnaval". Os meus dias úteis, aliás, são-me tão indiferentes como os inúteis e vice-versa. Dito isto, e porque escolhi como ilustração o senhor holandês dos caracóis embebidos em gel e das sinapses embebidas em Schäuble, impôe-se uma "explicação". O socialista que preside ao Eurogrupo - cujo currículo aldrabado com um mestrado que não terá concluído o recomenda para pouca coisa - é um dos rostos da estupidez sistémica que permite insignificâncias amesquinhadoras com a da intolerância selectiva de ponto imposta por um executivo preiférico que integra, com manifesta alegria, essa estupidez. A unanimidade bovina registada na reunião de ontem contra um país-membro revela a inutilidade do Eurogrupo e, por tabela, do Conselho Europeu. Bastava fazer circular imaterialmente uma papeleta elaborada sobre o que quer que fosse, sem discussão e para assinar em baixo, e poupava-se na mercearia, a causa única que os junta. O governo grego, ao arrepio da medonha criatura e dos seus lacaios, pôs cá fora uma dessas papeletas "confidenciais" que revela o carácter do holandês. Fez muito bem. Ficámos a conhecer melhor o "carácter" da "Europa" e dos seus mandarins intolerantes de ponto.

16.2.15

Os intermediários


Sempre, enquanto cristão, procurei "dispensar" os intermediários. No meu "tempo útil" contam-se cinco Papas até ao presente: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Dos cinco apenas Bento XVI  e intermitentemente João Paulo II me "confirmaram" na fé. Era muito novo no pontificado de Paulo VI, um intelectual solitário, e demasiado céptico nos dos outros dois. Li Ratzinger de fio a pavio e considero-o, de longe, o mais sólido daquele grupo. A sua renúncia foi um rude golpe, espiritualmente sentido, apesar.de ter ficado ciente de que ela, de alguma forma, representou uma extraordinária reafirmação de fé: "Eu venci o mundo". Bento VI apontou à Igreja o caminho da rocha sobre a qual ela foi edificada. Não apreciava o "espectáculo da fé" ou o proselitismo macaqueado em torno dela e, por consequência, não transigiu no essencial. Aos olhos da "correcção" e do "mercado da opinião pública", Ratzinger não passava de um "conservador" empedernido que não "acompanhava" os tempos e as "modas". Para mais, supunham, "encobria" a parte doente na Igreja e no Vaticano, em especial, quando fez exactamente o oposto. O seu sucessor, nessa matéria, não deu início a nada que Raztinger não tivesse consumado. Francisco outorgou este fim de semana o barrete cardinalício a uns quantos clérigos. Entre eles encontrava-se Manuel Clemente, o "prémio Pessoa" do patriarcado de Lisboa. Em matéria de cardeais-patriarca, "convivi" com quatro, este incluído. O mais preparado de todos era, de longe, Manuel Gonçalves Cerejeira. António Ribeiro "apanhou" a transição de regimes e, sendo um fruto "mediático" vindo da RTP a preto e branco, acabou discreto e timorato. Policarpo comportou-se sempre mais como um alto dignitário do regime do que propriamente da Igreja que procurou "integrar", sem fazer grandes "ondas", naquele. E em Manuel Clemente luzia desde cedo a mesma terrena "tentação" a qual, finalmente, consagrou-se em Roma. Mas os "tempos" correm de feição para estes intermediários do Vaticano a Lisboa. Não tenho idêntica certeza quanto à fé.

15.2.15

A leveza do ser


Com a costumeira "sustentável leveza do ser" que o caracteriza, o dr. Portas transitou directamente do Vaticano para uma feira de sapatos em Milão. Na promoção cardinalícia de Manuel Clemente - em que o venerando Machete fez mera figura de corpo presente e o senhor à esquerda do senhor vice presumivelmente nenhuma -, Portas consolou o "espírito" com umas tiradas frívolas sobre a circunstância. Junto dos sapatos retomou a bravata propangadística e falaciosa das "exportações" e do "crescimento". O dr. Passos consente nestes espectáculos indecorosos porque sempre se reserva para outras coisas que toma por mais "sérias". Se houver coligação, é expectável que estas duas almas apareçam juntas o menor número de vezes possível. O dr. Passos, afinal, sempre precisa dar-se ao respeito.

Viver habitualmente


 


«Apesar do tempo, apesar do mundo, apesar da crise, os resultados da última sondagem continuam, no essencial, a ser os resultados das legislativas de 1976: 38 por cento para o PS e 27 por cento para o PSD (...). Os portugueses acham que o PS está do lado dos “pequenos” e o PSD do lado dos “grandes” e, em quarenta anos, nada perturbou esta confortável convicção: nem o triste consulado de Cavaco, nem Guterres, nem Sócrates. Quando havia dinheiro, Cavaco ganhava, porque o bom povo gosta de sossego e de se dar bem com os “ricos”. Quando não havia ou havia pouco, era do PS que se esperava um emprego no Estado, um subsídio ou um negócio a precisar de “facilitação” (de uma parceria, por exemplo, ou de um decreto). Adelino Amaro da Costa costumava melancolicamente lamentar o “esquerdismo” do indigenato. Só não se lembrava que esse “esquerdismo” ia de Ricardo Salgado ao último escrevente das Finanças. Hoje, mesmo sabendo isso, o país não quer abandonar o seu conforto mental (...). Ronaldo e José Mourinho satisfazem o apetite de glória da nação. E o império é agora a TAP e a RTP, embora por toda a parte as companhias de bandeira e os canais “em aberto” estejam a morrer por obsolescência técnica e penúria económica. A salvação de que por aí se fala é para o cidadão ou a cidadã normal, como compete a uma sociedade pobre, a segurança e não uma incursão no desconhecido. Por aqui, a modernidade, para não ofender os destinatários, precisa de ser inócua e superficial: o telemóvel, a internet, coisas que não perturbem o deserto intelectual e, claro, emocional em que a Pátria se habituou a viver.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

14.2.15

Uma "Europa" irreformável


 
«O que aconteceu na Grécia, nesta versão, é culpa do povo, não dos anteriores governos gregos. Percebe-se, porque o povo votou mal e derrotou o governo preferido por Cavaco Silva e Passos Coelho: o tandem troika-Nova Democracia. Sim, porque se o PASOK tem culpas no passado, a Grécia era até Janeiro governada por um governo membro do Partido Popular Europeu (de que faz parte Merkel, Rajoy, Passos Coelho e Portas) que foi apoiado pelos partidos no poder na Alemanha, Espanha e Portugal. E mais: foi governado pela troika, em conjunto ou em cima, e se os resultados deixaram a Grécia com a gigantesca dívida que tem, e sem “ter feito o trabalho de casa”, a culpa é de quem? Do Syriza? Silêncio. E os gregos não querem austeridade, o pecado mortal da Grécia para Cavaco e Passos. Mas o que é que eles tiveram nos últimos anos: despedimentos, falências, encerramentos, corte de serviços fundamentais, cortes na educação, na saúde, na segurança social, uma queda brutal do produto Interno Bruto? De onde é que isto veio, do esbanjamento e da preguiça inata aos gregos? Como é que se chama a isto, senão uma dura, penosa, cega, punitiva austeridade? Na verdade, como Passos Coelho diz com todas as letras: foi pouco, têm ainda que ter mais. Mas o que nem Cavaco nem Passos dizem, é aquilo que é evidente: não resultou, nem resulta, nem resultará. É uma receita errada quer em Portugal, quer na Grécia. Mas era a continuação dessa receita, aquilo a que chamam “cumprir as regras”, que Passos queria para a Grécia, com aquela cegueira que têm os acólitos e que continua mesmo quando os mestres já estão noutra (...). Ora, a questão não é a de validar o programa do Syriza, ou assinar por baixo de Tsipras e Varufakis, mas a de saber se, no fim de tudo, os gregos têm ganhos de causa ao terem votado como votaram. E se sim, como é que ficam os que tinham para eles a receita de tudo continuar na mesma, votando na Nova Democracia, na obediência à troika, e na política até agora intangível da Alemanha. Esse é que é o mal grego que Cavaco e Passos querem extirpar.»


 


José Pacheco Pereira, Público


 


«A “construção” que a burocracia de Bruxelas promoveu foi abstracta e universalista. A realidade não interessava aos “pais” dessa utopia que se veio a chamar a “União”. Não distinguiam, nem queriam distinguir, entre um luterano da Turíngia e um ortodoxo de Salónica. Distribuíam direitos e deveres como se toda a gente entendesse os direitos da mesma maneira ou tomasse os deveres igualmente a sério. E o euro, além de ser um erro técnico (hoje reconhecido e lamentado), pela sua própria natureza ignora a diferença (...). Pouco a pouco um entendimento de pura mercearia acabou por se transformar na utopia da Europa política, exemplo para o mundo e grande potência. A Grécia vivera desde o século XV ao século XIX no império turco; a Itália até quase ao fim do século XIX era parte do Império austríaco, parte do Papa e parte dos Bourbons- Sicília, que tranquilamente continuavam no século XIX; a Alemanha nasceu em 1870; Portugal e Espanha só saíram das ditaduras de Franco e de Salazar em 1974-1976. Mas que importavam a cultura e a história? No grande saco de Bruxelas cabia fosse quem fosse, lambuzado de uma retórica vácua e de mão estendida à caridade do próximo. A “solidariedade” da “Europa”, que hoje se invoca, não se manifestou em mais do que alguns subsídios relutantes, em troca de uma arregimentação que ninguém pedira ou agradecia. Quando agora os portugueses discutem com exaltação se devem ou não devem apoiar a Grécia ou juram candidamente reformar a União, não se lembram, como de costume, que o seu peso é nulo e, pior ainda, que a “Europa” é irreformável.»


 


Vasco Pulido Valente, idem

13.2.15

O homem tranquilo


 


O cão, ontem à noite, esperou pacientemente que eu acabasse de ver e ouvir em directo o dr. Passos de Bruxelas. Para o que o dr. Passos é, esteve bem. Traduziu para português o que a senhora Merkel tinha dito à entrada para o Conselho Europeu - as "regras", as "regras" -, afirmou não ter estados de alma relativamente à Grécia até porque não é dado a eles, preparou as coisas para o regresso ao PEC IV ou V que irá substituir o PAEF terminado em Maio último e deu quase a entender que somos a falecida D. Branca dos nossos parceiros helénicos, na linha, aliás, do bom gosto político há dias expresso pelo senhor PR. O dr. Passos recusa-se, e está no seu direito, a processar politicamente a questão grega enquanto questão europeia. Toma a Europa pelo tratado orçamental e pouco mais. Está "seguro" no seu cantinho, até mesmo em relação ao terrorismo, e em relação a tudo. Os portugueses apreciam esta "segurança" e esta "autoridade" como reza uma longa história de respeitinho e de indiferença. E é o que o dr. Passos tem para "vender", e com que conta, em ano eleitoral. O dr. Costa que se cuide.

12.2.15

Chalaças presidenciais


 «O Doutor Cavaco poderá ter sido o derradeiro "candidato natural" num lastro que começou em 1976, com Eanes, o "candidato natural" da ala militar vencedora do 25 de Novembro e dos partidos que a apoiaram. Agora parece ter sido aberto um leilão no mercado mediático, com destaque para o televisivo, para ver "quem serve". O que, mais do que uma consequência do estado a que chegou o regime, revela duas coisas. A primeira, a progressiva decadência das nossas elites políticas que também se sinaliza nesta absurda "cascata" de putativos presidenciáveis em primeira, segunda ou terceira mãos partidárias ou saídos à pressa do subsolo para alimentar egos e ilusões. A segunda, mais séria, a tentação de banalizar a eleição por sufrágio directo do presidente e a única que "imediatiza" a relação política democrática. É verdade que o Doutor Cavaco não abundou como o "presidente protagonista" que prometia ser. Mas não convém "brincar aos presidentes" quando o próximo, tudo o indica, terá muito para fazer. Num estudo publicado em 1983, na revista "Análise Social", Luís Salgado de Matos explicava o significado e as consequências desta escolha unipessoal. O presidente, "só frente aos cidadãos", recebe "o excesso de procuras sociais que o Parlamento não está em condições de absorver" e, nessa medida, funciona como "banco central do sistema político português: garante-lhe a solvência quando os actores faliram". Não pode ser o fruto de pequenas chalaças.»


 


Jornal de Notícias


 

11.2.15

Lamentável


 


O Doutor Cavaco foi primeiro-ministro da época política "dourada" da Europa. Mandavam Delors, Kohl e Mitterrand. A sra. Thatcher era um belíssimo contrapeso com um sentido pedestre das proporções. Todos "trouxeram" os EUA para a Europa e levaram a Europa até aos EUA. Com defeitos, não tinham nada a ver com os contabilistas e os paspalhões políticos que há mais de uma década mandam na "Europa". E que, à sua pequena medida, acham que inventaram agora a "Europa". Tudo somado, o Doutor Cavaco - que faz questão, sempre que pode, de mencionar à unidade os Conselhos Europeus a que assistiu - tem a estrita obrigação de saber "como se fez e faz" a Europa. Não é certamente com um argumentário deste jaez: mesquinho, anti-europeu, anti-cosmopolita e típico de uma periferia instintual que julgávamos ultrapassada. Lamentável.    

10.2.15

Os caminhos da senhora


 


Vimos ontem o dr. Portas, rodeado pela "sua gente" no governo, muito contentinho com os dados da balança comercial em 2014. O senhor vice parece-se cada vez mais com algumas das personagens em que Alice tropeça nos livros de Lewis Carroll: «If I had a world of my own, everything would be nonsense. Nothing would be what it is, because everything would be what it isn't. And contrary wise, what is, it wouldn't be. And what it wouldn't be, it would. You see?». Não, o senhor PM não "apanha" e está como o melancólico Rei: «"I see nobody on the road," said Alice. "I only wish I had such eyes," the King remarked in a fretful tone. "To be able to see Nobody!» Entre eles, porém, erguem-se os caminhos da Senhora, a fórmula feliz do Medeiros Ferreira para se referir a Merkel, a "Raínha" desta pobre historieta: «if I lose my temper, you lose your head! Understand?» Percebem?

8.2.15

Fazer de conta


 


À semelhança de Franco e Salazar, Costa e o seu homólogo espanhol encontraram-se em Badajoz. E Costa, tal qual Seguro, vai ao rendez-vous socialista paralelo ao Conselho Europeu da próxima semana onde não abundam primeiros-ministros socialistas. Tudo isto faz parte de uma "estratégia" conhecida no mundo profano por "fazer de conta". Desde que ganhou o PS, Costa anda a fazer de conta que tem uma "alternativa" e que, além disso, é a "alternativa" e que tem "ideias" evidentemente melhores, claras e distintas, das da coligação governamental.  Este cartesianismo partidário é quase tão recomendável como o do seu pai filosófico: pouco. Costa não é uma alternativa ao "arco da governação", nem sozinho nem acompanhado. É uma peça da mobília como outra qualquer, com os mesmos defeitos e virtudes, apenas disponível para esperar praticamente sentado que o poder - mesmo o relativo e bem longe das megalomanias de Maio de 2014 - lhe caia em cima da mesa. Tem sido essa, aliás, a "ambição" de todos os que o antecederam no referido "arco" desde pelo menos este milénio. O que, mais tarde ou mais cedo, os acaba por revelar.

Manuel de Lucena


 


Morreu ontem Manuel de Lucena. Os mais "novos" provavelmente não o conhecem porque, apesar de ele ter sido até ao fim de "andar por aí" de sacola ao ombro e genuinamente informal, escrevia agora menos nos media. Mas escreveu muito e bem. "Cruzei-me" cedo com ele por causa do livro da foto e por causa dos "Reformadores", em 1979, que ele apoiou no âmbito da AD de então (o "então" é esdrúxulo porque não houve mais nenhuma). Em Genebra, no exílio, juntamente com o Medeiros Ferreira, António Barreto, Eurico de Figueiredo e outros fundou a revista Polémica. Por cá passou pelo Semanário e pela Tarde, por exemplo, com o Vítor Cunha Rego. Era fundamentalmente um académico sem pretensões, livre e discreto, daqueles que tentam perceber e que nos ajudam a tentar perceber. Um tipo, nas suas palavras, que pensava "umas coisas que não eram mal pensadas".

7.2.15

Somos o mundo, somos as crianças


 


Se não tivesse visto, na televisão, não acreditava nesta palhaçada (vale a pena ver o clip). O texto do jornal, aliás, resume-a perfeitamente. «Batem com as mãos nas pernas, no peito, agitam os braços, fazem a onda, gingam as ancas e gritam “Aicep go go go”, às ordens de três figuras no palco. Os 300 jovens do programa de estágios Inov Contacto completam assim – com uma equipa motivacional - o segundo dia de formação antes de partirem para um estágio no estrangeiro. A imagem é desconcertante: Não parece, mas pouco passa das nove da manhã e espera-se pelo vice-primeiro-ministro num circunspecto auditório da faculdade de Economia da Universidade Nova. Paulo Portas viria a dar uma espécie de aula de economia, também ela motivacional, mas já com a sala em silêncio. Os mais de 40 minutos de sessão motivacional, com muita linguagem corporal, acabaram com uma selfie improvável (tirada do palco para o auditório e uma moldura kitch de luzes verdes e vermelhas intermitentes) tirada pela equipa de animação contratada, ao som de All You Need Is Love e muitas palmas da plateia. Minutos de descontração que fazem arrancar o segundo dia de formação destes jovens – a média de idades é de 25 anos – que só ao final desta sexta-feira vão saber qual o seu país de destino do estágio proporcionado pelo programa apoiado pelo Aicep (Agência de Investimento e Comércio Externo de Portugal). Pode ser Estados Unidos, Brasil ou Moçambique. Mas levam algumas lições de Paulo Portas que conseguiu calar o ânimo da sala, depois de entrar ao som de um êxito de Anselmo Ralph: ‘Agora não me tocas…’.» A propósito deste misto de carnaval propagandístico com gravitas de opereta, lembrei-me de Heidegger, num pequeno livrinho, "Serenidade" ("Gelassenheit"): «a ausência de pensamentos é um hóspede sinistro que, no mundo actual, entra e sai em toda a parte». E também de Alain Finkielkraut, em "A derrota do pensamento", reflectindo sobre a emergência dos mega concertos rock e citando Paul Yonnet, "L' esthétique rock": «Face ao resto do mundo, o povo jovem não defendia apenas gostos e valores especí­ficos. Mobilizava igualmente, diz-nos o seu grande turiferário "outras zonas cerebrais para além das da expressão linguística. Conflito de gerações, mas também conflito de hemisférios diferenciados do cérebro (o reconhecimento não verbal contra a verbalização), hemisférios durante muito tempo cegos, neste caso um para o outro". A batalha foi dura, mas o que chamamos hoje comunicação, atesta-o: o hemisfério não verbal acabou por vencê-la, o clip triunfou sobre a conversa, a sociedade "tornou-se por fim adolescente", encontrou o seu hino internacional: we are the world, we are the children. Somos o mundo, somos as crianças.»

5.2.15

Custe o que custar


 


Como costuma escrever o Rui Ramos a propósito de todos aqueles que não seguem as "boas práticas" políticas defendidas pelo Observador, os "oligarcas" não eleitos da "Europa estilo Draghi" - infelizmente com a complacência servil de periféricos eleitos - decidiram antecipar-se à boa-fé negocial do governo grego e despromoveram-lhe a dívida. Algumas alimárias domésticas aplaudiram o exercício porque "nós não somos a Grécia" e porque, no fundo, sofremos de uma mesquinhez pequeno-burguesa congénita. O "tratado orçamental" a que apreciam assoar-se, e eventualmente limpar outras partes do corpo, é aparentemente inamovível: as pessoas, as economias e as soberanias nacionais que se adaptem, mortas ou vivas, ao "tratado". Como se viu ontem a propósito de medicamentos, o dr. Passos comunga fervorosamente desta "tese" do "custe o que custar". Sucede que nós só nos livramos, para já, das NEP's do sr. Dragui porque há uma - uma e apenas uma - agência de notação canadiana que acha que a nossa dívida não é lixo e que serve para investimento. Senão estaríamos a negociar, como adultos e como a Grécia, com estes nossos tristes parceiros inconfiáveis e hipócritas. Assim continuamos sob o espectro da leveza, a pagar mais juros do que os gregos e com uma dívida directa do Estado que, no final do ano, ascendia a cerca 218 mil milhões de euros. Coragem, portugueses. Havemos de a pagar. Custe o que custar.

4.2.15

Menos números


 


Paulo Macedo juntou-se ao silencioso cortejo de governantes em agonia política. Bastou uma simples quanto terrível frase ("não me deixe morrer") para que isso acontecesse. Isto depois de um mandato bem gerido  - interna e mediaticamente - até ao momento em que deixou de poder antecipar as consequências de alguns actos técnicos, financeiros e administrativos que, pela natureza deles, porventura lhe escaparam. Todavia, politicamente está ao leme desses mistérios insondáveis da burocracia. E a burocracia não pode ser nunca um fim - e, em certos casos dramáticos, "o" fim - mas, antes, um meio ao serviço de qualquer coisa concreta e, sobretudo, das pessoas. "Quem salva uma vida salva o mundo inteiro", lê-se no Talmud. No tempo político que lhe resta à frente do ministério da saúde, sugiro-lhe delicadamente que reflicta mais nisto do que nos números.

A responsabilidade de falar


 


Numa outra ocasião escrevi que Sócrates, ao "falar", acaba por prestar um serviço ao universo daqueles que não pensam que o "dever ser" do direito processual penal se destina, a final, a produzir uma sociedade "moralmente" pura onde só haja lugar para os "honestos" definidos a partir do "apuramento" desse importante ramo do direito das liberdades. Mais. Talvez Sócrates, o antigo agente político, tenha mesmo um "dever de falar", a responsabilidade de falar. Foi legislador e executante de legislação ao contrário dos restantes cidadãos que, neste momento, estão também sujeitos a medidas de coacção. Nesta parte não comete, até porque ele inexiste, qualquer delito de opinião. Permite, aliás, que se debata o "estado da arte" do procedimento processsual penal em Portugal quando o falacioso "segredo de justiça" anda todos os dias, e em letra de forma, pelos becos da amargura. Começo a pensar que o melhor é acabar, de jure e de facto, com ele.  E acompanho João Lisboeta Araújo: «Aquilo de que me queixo não é das notícias. É do facto de serem tendenciosas e mal informadas. Normalmente com desprezo pela verdade, porque não são factuais, são opinativas. O caso justifica ser amplamente divulgado, o problema é que as notícias visam a destruição, a degradação de uma pessoa e isso aborrece-me. Muito do que foi dito é crime mas eu agora não tenho tempo de me ocupar disso. A seu tempo... Talvez seja pela minha idade, mas fui educado por um outro código, que já não vigora. Que código? O de que não se bate numa pessoa que está caída, não se goza com um preso, não se brinca com um doente, não se ri de um soldado coxo na formatura. Foi o que aprendi. Mas o que assisto é a um bacanal contra uma pessoa que está presa e não se pode defender. Está sujeito a toda a maledicência, à fantasia, a falsidades e algumas coisas verdadeiras, mas não tem possibilidade de se defender. Acha que na hierarquia do Departamento Central de Investigação e Acção Penal tem havido conivência com a violação do segredo de justiça? A violação do segredo de Justiça é um crime. Como é ao Ministério Público que compete perseguir os criminosos e eu não tenho visto grande sucesso nisso, não digo que haja um conivência, mas há, pelo menos, uma tolerância evidente. Esses factos são criminosos…»

3.2.15

Retrato de um misericordioso que ri


 


O jornal i entrevistou o senhor presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos. Ficámos a saber, como se isso interessasse para a prova de Deus, que a criatura ocupa o cargo «depois da junção de uma série de factores: estava divorciado e, por isso, com mais disponibilidade, os filhos tinham o percurso encaminhado e reunia experiência na área social, acrescendo ao facto de ser católico». Um bonzinho, portanto, por natureza votado a obras de misericórdia - casar-se, divorciar-se e "encaminhar" os filhos. Só na avaliação da pobreza é que se desvanecem as bem-aventuranças. De acordo com Lemos, a pobreza "é uma questão de auto-estima, acima de tudo" que também chegou àquela aquela "casta" - criada pela novilíngua política - dos que "vivem acima das suas possibilidades: «estamos a falar da classe média que comprou casa e carro, fazia férias no estrangeiro e, de repente, se viu sem nada disso. Isso entra num plano íntimo das pessoas que se manifesta numa agressividade latente, no ar triste do dia-a-dia, nos insultos ao governo e, agora, até à oposição.» Pelo contrário, Lemos fez o que pôde: «quanto à natalidade, devíamos ter 2,1 filhos [o que será 0,1 filho?] para garantir a renovação das gerações e eu, como tenho dois filhos, já dei a minha contribuição (risos).» Revela-se um homem para qualquer estação: «Face às pessoas, este governo foi uma desilusão, tendo em conta que lhes cortou reformas, subsídios, etc. Em relação às instituições, este governo foi exemplar, porque se sentou a conversar connosco. O governo percebeu que, sem nós, tínhamos tido uma situação muito pior. Quando se diz que somos a almofada social, nós somos a almofada, o travesseiro, o edredão, o colchão com penas. É um apoiante deste governo? É comum dizerem isso, mas eu não apoio o governo, apoio as Misericórdias. Se o governo quer conversar comigo sobre isso, claro que me interessa, mas se o governo me vem dizer o que fazer, já não me interessa. Eu sei que é fácil bater em Passos Coelho, mas atendeu-me sempre que eu precisei. Não é muito cool dizer isto, mas é verdade (...) O PS tem uma tradição fantástica e única de ligação ao sector social que o PSD e o CDS estão a recuperar.» E fominha, em geral? Responde o misericordioso-mor: «Em algumas zonas urbanas e bairros sociais é um problema, sim. Mas também digo que, em Portugal, só passa fome quem quer. Há quem passe fome por desconhecimento da presença das cantinas sociais e temos também os casos de pobreza envergonhada que preferem não pedir ajuda. Mas não é por falta de resposta. » Também não lhe falta a resposta quanto ao seu próprio futuro. «O seu nome é apontado como o mais certo para substituir Silva Peneda no Conselho Económico e Social. Como tem sido abordado o tema? Não me tenho preocupado nada com isso. Fiquei muito surpreendido, mas não entra na minha equação. Não pensa aceitar o cargo? Esse cargo é de exclusividade. Não seria compatível com a presidência da União das Misericórdias. Entre os dois cargos, qual escolheria? A União das Misericórdias. Uma coisa é fazer uma substituição pontual de um presidente e ficar lá uns meses. Para ajudar, estou sempre disponível, mas para ficar em permanência não. Quem acha que seria a pessoa ideal? (risos) Pergunte ao dr. Passos Coelho ou ao dr. António Costa.» É caso, porém, para perguntar a ele: ri de quê?

2.2.15

Entre o anjo e o monstro


 


Strauss-Kahn vai ser julgado por supostamente ter cometido um crime de proxenetismo. As prosas que correm nos jornais sobre o homem recomendam-se em geral menos do que ele. O antigo ministro e director-geral do FMI era, sem margem para grandes dúvidas, das poucas figuras políticas verosímeis e estruturadas da França e da Europa. Deixa qualquer seu camarada socialista a milhas de distância. Sarkozy, ao pé dele, parece uma barata tonta e talvez, embora muito distintos, só Alain Juppé esteja presentemente a um nível semelhante de prestígio e de densidade políticas. Strauss-Kahn gosta de sexo e de mulheres o que não tem de ser exactamente a mesma coisa. Os tempos "fracturantes" em que mergulhámos permitiram que a privacidade fosse invadida pelo legislador anónimo que estabeleceu, a régua e esquadro, como, onde e em que circunstâncias os adultos podem fornicar. O que fez com que o sexo emergisse ainda mais como uma poderosa arma político-moralista da "modernidade". Não é por acaso que os crimes directamente associados ao sexo são os mais "mediáticos" sobretudo quando envolvem, ou deixam de envolver, agentes políticos. Strauss-Kahn regressa agora a um Golgotá que conhece perfeitamente e para o qual, deve dizer-se, pôs-se a jeito. Ou foi posto se acreditarmos em "teorias da conspiração" ou em coincidências. Longe vão, pois, os idos dos Césares contados por Suetónio e comentados por Gore Vidal. Esse Suetónio que, «ao apontar um espelho a esses prolixos e lendários Césares, reflecte-os não apenas a eles mas também a nós: criaturas divididas cuja maior obrigação moral é manter o equilíbrio entre o anjo e o monstro que carregamos connosco dado sermos ambos. Ignorar esta dualidade conduz inevitavelmente ao desastre.»

1.2.15

O "sistema"


 


É pouco provável que o autor deste blogue, depois de ter divulgado a respectiva identidade, prossiga. Todavia o mais "interessante" do que escreve não será sobre outras pessoas mas sobre si próprio. Porque remete para algumas das condições em que decorre a aplicação de medidas de coacção em Portugal. Na semana passada ficámos a saber, por exemplo, que o ex-director do SEF, em prisão domiciliária, vive uma espécie de não-situação jurídico-financeira na sua relação laboral que o jargão burocrático traduz por em "faltas injustificadas". Não está de férias, não está doente, não está de licença sem vencimento, em suma, não está ao abrigo de qualquer regime de faltas porque aparentemente a lei (a nova "lei geral condensada", tipo colcha de bilros, do trabalho em funções públicas) não contempla a possibilidade de o trabalhador estar ausente do seu posto de trabalho em consequência de um processo-crime que se encontra em fase de investigação. Se o arguido for a única fonte de rendimento, seja apenas para si, seja para a família, o procedimento penal, de alguma maneira, já lhe está a aplicar uma valente "pena" antes de uma condenação efectiva ou de um arquivamento. Este inspector da PJ detido preventivamente em Évora queixa-se do mesmo: «apesar de terem retirado na totalidade o meu ordenado, sem ter sido condenado em processo disciplinar na P.J. ou ter sido condenado no âmbito do processo pelo qual me encontro preso preventivamente (sem ordenado desde Junho de 2014) conquanto a minha mulher não ter sido ainda colocada – ela é Educadora de Infância – encontrando-se desempregada, ainda que o camarada de reclusão, Eng. José Sócrates, apresente uma providência cautelar por causa de umas botas, e tem-nas agora calçadas porque daqui o estou a ver a passear no pátio, e eu que apresentei providência cautelar relativamente ao meu ordenado, ainda não obtive resposta (continuando sem ordenado desde Junho de 2014).» O "sistema" está a precisar urgentemente de ler mais Foucault e menos "direito".