29.4.15

Teatro de marionetas


 


Não vale a pena increpar a figura que a generalidade dos órgãos de comunicação social fez, de cócoras, diante da apresentação da mais recente (e talvez única) marioneta política concorrente às eleições presidenciais. Até o meu cão consegue ter mais respeito por si próprio. Mas o exercício encomendado teve ao menos a virtualidade de demonstrar duas ou três coisas. Desde logo que o dito concorrente é tão "independente" como uma formiga no carreiro. Os "donos" do regime e as oligarquias que mandaram "nisto tudo" até recentemente não  faltaram, desde o jazigo de família do pior PS até "vultos" como o Coronel Lourenço ou o dr. Granadeiro. Depois é manifesto que o concorrente se imagina a concorrer à chefia do Estado não em 2016 mas em 1916. Tudo ressumou a ranço salvo na "modernidade" no uso do "acordês". Por consequência, e apesar dos esforços abjectos de comentadores e jornalistas, o concorrente é um programa a preto-e-branco a quem nem sequer faltou o palco da salazarenta FNAT. Ao que a "esquerda" chegou.

Da "velha" a uma nova república


 


O regime portou-se mal na semana em que se assinalaram dois momentos históricos fundamentais: o 25 de Abril e as primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte. Porventura não podia ter-se comportado melhor com os protagonistas com que entretanto se dotou. As oficiosidades saldaram-se pela banalização e pela mediocridade retórica. Começou de véspera através de uma intentona gerada no "arco da governação" destinada a condicionar a liberdade editorial dos meios de Comunicação Social na cobertura de eleições. Se já têm a ERC, que devia ser extinta numa próxima revisão constitucional, que mais queriam? É claro que esta estupidez permitiu a certa gente, cujo acrisolado amor pela liberdade de expressão não é nem nunca foi o seu forte, aparecer a tremelicar de indignação por todos os lados. A peripécia, porém, reforçou a convicção generalizada da progressiva perda de qualidade de vida democrática da República. Quando pensamos nos primeiros representantes livres da nação, de uma forma geral, e depois damos de caras com a maior parte dos incumbentes, ficamos com a impressão de que algo se deteriorou irremediavelmente. E a apreensão aumenta porque, em breve, as nomenclaturas terão de escolher novas fornadas para apresentar a sufrágio. Um partido até se desfez miseravelmente do seu chefe para, entre outros edificantes propósitos, o grosso do respectivo grupo parlamentar (que o execrava) se poder manter nas listas. Apesar da anunciada "abertura a independentes", não se deve esperar muito da coligação firmada neste 25 de Abril para descaso daqueles que se ufanam "donos" da data. A mercearia em dose dupla, mais do que o bom senso, a biografia ou a eficácia, prevalecerá. Nos mais pequenos e nos novatos estas fatalidades terão idêntico curso, ou pior, por causa das vaidades unipessoais à solta. O PC está, como sempre esteve desde o final do PREC, num registo intermédio entre a rua e a lisura institucional. Faz contas de outra maneira. Triunfam assim a improbabilidade e a indigência acrítica sublimadas na fixação pelo "lugar", por quem os distribui ou autoriza e pouco mais. O regime fechou-se numa espécie de laboratório onde "fabrica" em série os seus. Hoje mesmo apresenta-se um candidato presidencial efémero, fruto desse experimentalismo espúrio e partidário sem futuro. Outros se seguirão. Todavia nada terão para dizer a uma sociedade inquieta que reclama por uma nova república.


 


Jornal de Notícias

28.4.15

Opiniões fortes


 


Passou ontem um ano sobre a morte de Vasco Graça Moura. Relembro a coragem desassombrada com que a sua "opinião forte" sempre se impôs na defesa do português contra o chamado "acordo ortográfico". Também por causa da barafunda que se introduziu na cabeça dos alunos que, em breve, pura e simplesmente deixarão de saber ler e escrever em nome das "facultatividades" abertas pelo "acordo" entre outros disparates "normativos" assassinos da língua. Para já, é preciso rever a coisa. Idêntica posição tem o candidato presidencial Henrique Neto. «A minha opinião relativamente ao acordo ortográfico nunca foi muito favorável. Porque a Língua, que deve unir as pessoas e os povos, no caso do acordo ortográfico contribuiu para alguma desunião que tem prevalecido e que tem sobrevivido na sociedade portuguesa e presumo também que noutros países de língua oficial portuguesa (...). Quero chamar a atenção do país para a importância política, social, cultural e geo-estratégica da Língua Portuguesa. Trata-se de um património insubstituível, que não pode correr riscos experimentalistas ou facultativos como os que estão previstos no chamado “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990″. Acordo que continua a merecer críticas generalizadas da comunidade científica e dos mais qualificados utentes do nosso idioma, incluindo poetas, escritores, professores, jornalistas e tradutores. E não apenas em Portugal; as reservas ao acordo multiplicam-se também nos diversos países e territórios onde o Português funciona como língua oficial e veicular. Na realidade, o Português só pode impor-se no mundo através de elevados critérios de exigência que o promovam como elemento essencial nos mais diversificados sectores de realização da cidadania. As fundamentadas críticas que têm sido dirigidas ao acordo ortográfico não podem, por isso, ser ignoradas pelo Presidente da República, garante supremo da Constituição, na qual se estabelece o Português como língua oficial. Tais críticas reclamam, pelo contrário, uma ponderação séria, que, sem prejuízo dos trabalhos até agora efectuados, da legislação aprovada e dos caminhos percorridos pelas indústrias culturais mais directamente ligadas ao livro, designadamente o escolar, incluam a possibilidade de uma efectiva revisão do acordo. Há poucas semanas, tive a ocasião de me insurgir contras as leis escritas em mau Português. Desde então, diversos acontecimentos evidenciaram, mais uma vez, as grandes disfunções que o chamado “acordo ortográfico de 1990″ continuam a causar, desde logo no meio educativo. Outros acontecimentos alertaram-me para a indiferença com que o poder político nacional tem aceite a perda de influência da Língua Portuguesa no plano internacional, que a recente votação da Assembleia da República, legitimando o directório da Alemanha, França e Inglaterra, na União Europeia, com a retirada do Português no caso do Tribunal Unificado de Patentes é o exemplo menos edificante. Ao fim de 20 anos, não se podem ignorar as críticas generalizadas e persistentes da comunidade académica, científica e artística, e dos cultores mais qualificados do nosso idioma. Longe de ser um factor de união, o chamado “acordo ortográfico” tem semeado a discórdia. Longe de utilizar a escrita, promoveu variantes e usos facultativos absurdos, de que todos os dias se oferecem exemplos abundantes. Defendo, assim, a continuação do debate nacional numa matéria tão nuclear, com base em três propostas muito precisas: em primeiro lugar, a oportuna nomeação de uma “comissão de peritos”, com carácter interdisciplinar e multinacional, mandatada para uma revisão profunda do acordo, devendo as respectivas conclusões ser de carácter vinculativo; em segundo lugar, a aprovação de uma moratória de cinco anos, correspondentes à duração do próximo mandato presidencial, até à entrada em vigor do acordo, devidamente revisto e melhorado, na ortografia oficial da República Portuguesa; em terceiro lugar, fazer depender a entrada em vigor da nova ortografia da prévia ratificação do acordo por todos os Estados integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, algo que nunca chegou a ocorrer, e da sua simultânea entrada em vigor.»

26.4.15

Um final e um princípio


O Doutor Cavaco proferiu ontem um dos seus derradeiros discursos enquanto PR. Ficará para história muito mais por causa dos erros gramaticais e das discordâncias verbais enunciadas do que pela "substância". Enquanto as cabeças dos partidos só já estão a funcionar para eleições, o Doutor Cavaco preferiu predicar pelo "consenso" e pelo horror à conflitualidade. Pelo caminho sugeriu o mar e a reprodução, esta a bem de concepturos empreendedores que nos redimam da miséria, do isolamento e da irrelevância. Não é agora, em final de mandato, que vale a pena explicar ao Doutor Cavaco a importância da simbologia em política. Pelo contrário, os drs. Passos e Portas percebem-na perfeitamente. A escolha do acto fundador da coligação para o "25 de Abril" acabou por constituir o facto político do dia. E, dos dois, Portas foi o mais certeiro ao "abrir" as festividades a independentes, e ao país, enquanto Passos surgiu, como sempre, demasiado enamorado dos seus "resultados" e da sua auto-suficiência. O PS apenas necessita de mais um voto como Costa não se cansa de "lembrar" ao PR a propósito da fisiologia da formação de governos. A coligação, pelo contrário, necessita de muitos para ter mais um deputado que as "esquerdas". Já o disse numa crónica do Jornal de Notícias: mais para a "direita" e para abstracções ultraliberais e politicamente débeis a coligação já não pode ir. Agora desenrasquem-se.

Ventos de loucura


 


«A megalomania de (Vasco) Lourenço não impressionaria muito se fosse um caso isolado. Mas também o CDS, o PSD e o PS deram esta semana provas de um transtorno mental, que não anuncia nada de bom. Não se sabe como, nem porquê, entrou em certas cabeças destas distintas entidades a ideia de censurarem (e dirigirem) a televisão e a imprensa durante a campanha eleitoral para as legislativas. Perante o berreiro, os responsáveis juraram logo que se tratava de uma brincadeira. Seja como for, resta que três criaturas sem coisíssima nenhuma que as recomende acharam sensato e permissível suspender a seu benefício uma liberdade fundamental. Pior ainda, o dr. Passos Coelho e o dr. António Costa alegaram uma angélica ignorância sobre o que se passava nos seus próprios grupos parlamentares e lavaram as mãos do episódio, sem uma palavra de aviso aos prevaricadores. São azares da vida, não é? Como a extraordinária greve dos pilotos da TAP, que os vai deixar na rua de triciclo. Claro que a TAP acorda o que há de pior nos portugueses. Basta substituir a expressão corrente “companhia estratégica” por “companhia colonial” para se perceber o histerismo que a história invariavelmente provoca. Os portugueses, coitados, quanto mais pobres ficam, mais se querem dar ares de grandes senhores. A TAP e a lusofonia são as muletas tradicionais da miséria interna: a lusofonia, de facto, não existe e a TAP está falida. Não importa: a nossa putativa importância no mundo continua a ser um bom pretexto para o sentimentalismo de cançoneta e algumas palhaçadas na praça pública. O contribuinte, esse, que se lixe. Sopra por aí um vento de loucura.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

25.4.15

Uma nova República


 


«Os portugueses viveram séculos na esperança de pertencer à “grande civilização” da França, da Inglaterra e da Alemanha; e a copiar em pormenor as modas culturais de Paris. Não se muda uma velha e venerada herança histórica com algumas cenas de histerismo na televisão. Desde o princípio dos princípios que a distribuição na Assembleia da República não muda: 80% para os partidos do que hoje se chama “o arco da governação” e 20% para a extrema-esquerda. O que dá uma definitiva vantagem à direita (que ganhou a maioria absoluta cinco vezes), mas condena o PS a uma quase permanente menoridade (a maioria de Sócrates não passou de uma aberração passageira) (...). Um governo PS será por força um governo precário e fraco e num tempo de crise pode complicar a vida aos portugueses. Os partidos, de resto, no seu conjunto não têm conseguido fazer as reformas de que o país precisa, por falta de legitimidade e força. Estão corrompidos, sem um propósito ou uma visão da sociedade e do mundo; e dominados por bandos de intriguistas profissionais que eles próprios criaram. De certa maneira, a democracia parlamentar em Portugal chegou ao seu fim. Mas não com certeza a democracia em outras formas — como, por exemplo, o presidencialismo - capazes de ordenar a perene balbúrdia em que vivemos e representar o eleitorado como os partidos da República de 76 já não representam.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

24.4.15

Visto pelos seus

«Se o PS mantiver a cultura que teve no passado, não se consegue implementar isto", afirmou Paulo Trigo Pereira ontem à noite na Rádio Renascença . "Isto" é a "Agenda para a Década", que um grupo de 12 economistas, coordenado por Mário Centeno, entregou esta semana a António Costa.»

Alívio ou desastre?


 


«O PS ficou sozinho no meio das querelas portuguesas, com um arzinho responsável e sabichão, mas terrivelmente desamparado. Quem vai votar por ele? A direita não, por costume e prudência. A esquerda não, porque vê nas contorções de Costa uma segunda “evolução na continuidade”, que não muda o essencial e se finge inovadora e salvífica. O eleitorado, esse, que não sabe interpretar as contas da “comissão” dos sábios do partido, por enquanto não se manifesta (...). O PS, como um bom aluno, um dos melhores da classe, jura agora respeitar os compromissos que Portugal tomou e, principalmente, os credores da sua imensa dívida — com a Europa e os mercados não se brinca. Mas, respeitando a autoridade, não lhe sobra grande espaço para promover o crescimento ou para aliviar a vária miséria dos portugueses. Depois de muito anseio e algumas voltinhas, Costa acabou por engolir a receita tradicional: “aliviar” a crise, prolongando por mais tempo a austeridade. Isto evidentemente não traz, no imediato, um especial alívio ao português comum: e pior ainda não garante que o alívio de hoje não seja amanhã o princípio de um novo desastre.»  


 


Vasco Pulido Valente, Público

23.4.15

A "vontade transformadora"


 


Francisco Assis é indiscutivelmente uma forma de vida inteligente no meio da nomenclatura oficiosa do PS, sensivelmente a mesma há décadas. Pensa por si, não é oportunista, tem um módico de biografia que lhe permite ser lido ou escutado com alguma atenção contrariamente a algumas e alguns cristãos-novos partidários velhíssimos em sabujice rasca e videirinha. Todavia é pueril quando fala na "vontade transformadora" do PS. Na realidade, quer para as eleições legislativas, quer para as presidenciais onde já pôs (com complacências várias que a seu tempo se tornarão clarinhas como água) a sua marioneta vaga em exercícios de aquecimento, o PS não pretende "transformar" nada mas, sim, manter  o que for possível manter do regime sem o reformar. Um ou outro rosto novo, uma ou outra "ideia" mais agradável, um ou outro "ajustamento" distinto do "ajustamento" dos outros não fazem exactamente uma primavera. É que faz agora ainda muito pouco tempo que o PS não queria "transformar" nada e tão somente "ficar" por "ficar". Até Teixeira dos Santos se espantou com tamanha lata como recentemente reconheceu numa entrevista à TVI. Costa já informou, com a sua delicadeza habitual, que o documento que encomendou não é a "bíblia". E só corre para ter mais um voto, quer lá saber de "transformações". Quem se se esquecer disto, não entende nada do que se vai seguir.

22.4.15

A RTP e o regime

No Jornal de Notícias. Ou do fracasso e da ausência de uma política para o audiovisual protagonizada pelo governo em funções.

21.4.15

Cuidado com o que se diz


 


O PS do dr. Costa "arrancou" para as legislativas com um programa preparado por um conjunto de economistas. De uma maneira geral, pareceu-me, bons economistas. E com propostas debatíveis e, no fundamental, contrapostas às presentemente em vigor e às já previstas quase até à eternidade. Neste aspecto a conversa democrática ganhou alguma coisa com estas papeletas. Nem que seja para desenjoar das outras. Há, porém, um "senão" comum a ambas: a imprevisibilidade nos comportamentos domésticos e "europeus". Costa "recebeu" o programa sentado na primeira fila como se, de novo, a economia precedesse a política. E perpetrou o pior comentário político que podia ter perpetrado: "é preciso pensar à grande". Ora o "pensar à grande" rebocou o país para o estado a que chegou em Abril de 2011, estado esse que os economistas convidados a pensar com mero bom senso tinham acabado de rejeitar. E reboca o novo evangelho do "crescimento como nunca se viu" dos austeritários drs. Passos e Portas que também deram em "pensar à grande". É preciso cuidado com o que se diz.

20.4.15

A "Europa" e a morte


 


Já não sei quem escreveu que há duas coisas que o homem não consegue encarar de frente: o sol e a morte. Esta última é particularmente verdadeira para o homem ocidental e europeu, em especial. As tragédias consecutivas que têm lugar no Mediterrâneo, às portas da mirífica Europa, dizem muito sobre a impotência em que esta "União" caiu. No meio desta catástrofe - e a antecedê-la - está um pouco de tudo: negócios, medo, esperança, cobardia. O recalcado triunfa sobre a retórica judaico-cristã que, por exemplo, o Papa fez questão de "terrenizar" indo a Lampedusa. Também lá foi a burocracia europeia de Bruxelas, encabeçada ainda por Barroso, o cretino, para nada. A verdade é que a "Europa" não sabe o que fazer com estes milhares de pessoas que sonham com ela. Transformada numa gigantesca secção de contabilidade e de negocismo político rasca, a "Europa" apenas consegue aparentemente patrulhar a morte. A sua e a dos outros.


Foto: Público

18.4.15

Notícias do bloqueio (2)


 


«A “cunha” continua a ser crucial na vida portuguesa, embora hoje tenha outros nomes e outra circulação. Mas a proximidade ao poder, a qualquer poder, continua a ser uma vantagem enorme na obtenção de vantagens injustas e no bloqueio ao mérito. Os “facilitadores” vivem desse mundo e olhando para certas carreiras mesmo no topo do estado a pergunta é como é que chegaram lá. Como é que meia dúzia de pessoas sem qualquer carreira, saber académico, experiência de vida, trato do mundo, podem mandar nalguns casos mais do que um Primeiro-ministro ou um Presidente da República, ao deterem o controlo dos partidos? A resposta é: meteram muitas “cunhas” e prestaram muitos serviços numa fase da vida, e facilitaram muitas “cunhas” noutra. São espertos e hábeis. Conhecem-se entre si e sabem melhor do que ninguém as regras do jogo. Uns sofisticaram-se, outros não, mas há “espaço” para todos. Mas o seu efeito na vida pública é baixar os níveis de qualidade, estiolar a competição política, controlar o seu território com mão de ferro, e gerar à sua volta um círculo de iguais. E pôr em risco a democracia.»


 


José Pacheco Pereira, Público


 


«A televisão e os jornais por comum acordo quase não tocaram na extravagante irrupção do dr. Manuel Maria Carrilho pela cena política, mostrando assim um inesperado civismo e também uma certa pena do dr. António Costa. Esta atitude não foi seguida, como de costume, pela gente do PS que não perdeu uma oportunidade de se exibir. Cá tivemos, portanto, a inenarrável Isabel Moreira, o apparatchik José Lello e o advogado Ricardo Sá Fernandes, há muito tempo apaixonado por si mesmo. Na impossibilidade de fechar as 200 mais notórias personalidades do partido num manicómio especializado, António Costa tem dia sim, dia não que refazer o que elas desfazem, enquanto tenta desesperadamente convencer a Pátria que o PS é um partido suficientemente responsável e discreto para nos governar. Mas basta a qualquer momento abrir a porta à questão das “presidenciais” para desencadear uma nova balbúrdia. Pior ainda, essa particular balbúrdia já se desenvolve e espalha por si própria, sem necessidade de um estímulo externo (...). O académico [o sr. António Nóvoa, antigo autor de uma tese intragável, com o título de “Le Temps des Professeurs” ] recebeu logo o apoio público de Mário Soares, de Manuel Alegre e de Carlos César; e, segundo uma insistente boataria, o apoio privado de Sampaio e de Eanes. Não se sabe o que estes beneméritos viram em Nóvoa, principalmente considerando que Nóvoa não tem nada para ver. Perante tudo isto, cresce um grande movimento de caridade, inspirado pelo destino injusto de António Costa. O pobre António, um mancebo tão prometedor, não merecia estas maldades.»


 


Vasco Pulido Valente, idem

17.4.15

Notícias do bloqueio


 


Como previsto, o governo apresentou ao país o seu PEC, quinto, talvez, se contarmos com o que Passos negou a Sócrates. Trata-se do PAEF concluído em Maio último corrigido, aumentado e diminuído consoante as perspectivas. Politicamente é um documento que se destina a "entalar" o PS: "digam-nos, sff, como e em que medidas podem fazer distintamente disto e qual o custo dessa diferença". E é uma decorrência provinciana do estúpido tratado orçamental relativamente ao qual ninguém tem a coragem de promover propostas de revisão. O "bloco central" é o tratado orçamental e vice-versa, não é preciso inventar um. Depois, contam alguns jornais que a "vontade" de transformar o vazio ex-reitor Nóvoa numa espécie de Américo Tomás travestido de "abrilista" reciclado se estende a três antigos PR incluindo Eanes. Como amigo de sempre de Eanes, só posso lamentar. Erra, como errou com o PRD e Zenha, e não compreendo este acrisolado e súbito temor reverencial por António Costa (sim, é disso que se trata, e não de Nóvoa que não conta nada) mesmo antes de Costa merecer genuinamente algum. Talvez, também, por o senhor reitor, em cinco minutos, ter conseguido juntar três ou quatro poetas nacionais numa arenga "unitária" na Aula Magna. Ou por emergir, desde Junho de 2012 pela mão de Cavaco, como o mínimo denominador comum metafísico da parte bem sentada de um regime que aprecia saloiamente a gravitas académica. Por outro lado, li que Henrique Neto disse não sei a quem que tencionava votar no PS nas legislativas. Trata-se, parece-me, de uma declaração esdrúxula uma vez que, sendo militante do dito partido, não seria verosímil outra opção. Não diminui o carácter nacional da sua candidatura - Soares, Sampaio e Cavaco nunca esconderam as origens e as opções em eleições legislativas e receberam apoios diversificados  - mas não deixa de ser, naqueles termos, redundante. Finalmente soube-se que o novo conselho de administração da RTP - que o regime quis que permanecesse todinha pública - vai remunerar-se, com autorização do governo, diferentemente dos restantes gestores públicos, acima do PR e do PM. É uma vergonha. Não me venham  falar em "impulsos reformistas" e em "reformas estruturais" quando, na prática, reforçam o sistema e insultam, com gestos destes, o mais que aviltado mundo do trabalho e de quem já trabalhou. Isto dá vontade de morrer como melancolicamente se exauriu o exilado de Vale de Lobos? Não. Dá vontade de mandar isto à merda.

Do roçar do rabo desde cedo nas secções partidárias


 


«No meio da sua preocupação com o bem-estar dos portugueses (que, aliás, morrem no desemprego e na miséria) e do seu amor ao viçoso crescimento da nossa querida juventude, o Estado permite a ascensão e a influência das “mocidades” partidárias. Um menor está impedido de comprar tabaco, de beber álcool, de se casar sem a autorização dos pais. Desde os 14 anos não está, em contrapartida, impedido de escolher qual o regime que melhor convém à sua doce pátria e as políticas mais capazes de a salvar e modernizar. Para essas actividades menores, nem o Governo, nem os partidos o consideram irresponsável ou inepto. Depois de beber o seu leitinho ou a sua limonada sob a vigilância da polícia e provar (com testemunhas) que nunca comprou um único cigarro, a criancinha irá daqui em diante pastorear o povo no exercício dos seus plenos direitos.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


Foto: Expresso

15.4.15

O evangelista e a realidade


 


Para ser bem-sucedida, a maioria - partindo do princípio que vai haver uma coligação - precisa, ao contrário do dr. Costa, de ganhar absolutamente. Não chega aquela lengalenga trôpega de "mais um voto". Mais um voto na coligação, ou no PSD, do que no PS quer dizer nada. Ainda não vi, no meio de tanta tagarelice oficial e oficiosa dos principais tenores governamentais e da maioria, uma vontade firme em estabelecer com o país uma base de solidariedade estratégica. O reiterado recurso a abstracções que nada dizem às pessoas "reais", por um lado, e a deliberada ignorância do mundo do trabalho privado e público, por outro, não "atraem". O investimento e a consolidação orçamental são excelentes mas não votam. As empresas são indispensáveis mas os empresários são voláteis. A balança comercial é muito bonita mas tem dias. O desemprego e a dívida têm todos os dias dramaticamente por sua conta. Tal como os impostos. Em resumo, mais para a "direita" e para abstracções ultraliberais e politicamente débeis a coligação já não pode ir. Experimentem, antes, puxar a vida das pessoas para cima. Talvez seja por aí.


 


Jornal de Notícias


 


Foto: José Sena Goulão/Lusa

14.4.15

Um acto inaceitável


 Fico satisfeito por ver que Henrique Neto - menos preocupado com capas de jornais ou em fazer de "emplastro" de outros e mais atento ao que deve realmente interessar ao país - reparou neste dislate aprovado praticamente à socapa, numa sexta-feira, pela maioria parlamentar com a abstenção do PS. «O candidato presidencial disse “lamentar a recente aprovação no Parlamento (do acordo sobre o Tribunal Unificado de Patentes) por colocar em causa a dignidade da língua portuguesa», considerando que «se está a desvalorizar o facto de “a língua portuguesa ser a 3ª língua global, a 3ª língua do Ocidente e a 4ª língua mais falada no mundo”. Trata-se “de um acto inaceitável, porque vem acentuar a periferização de Portugal, quando o momento exige justamente que se trabalhe com afinco no sentido contrário”. "Portugal não pode aceitar uma tal decisão”, salientou Henrique Neto, certo que se trata de algo “incompreensível”.» Finalmente «o Presidente da República deveria pronunciar-se com clareza sobre este acordo, exigindo a reconsideração das posições dos partidos políticos responsáveis pela sua aprovação.»


 


Fonte: Notícias ao Minuto

13.4.15

A estupidez dos penedos


 


A "história" da chamada Casa Manoel de Oliveira é ilustrativa e dispensa comentários. Por respeito pelo cineasta. «Concluído há 12 anos, o imóvel foi projectado para ser residência e museu do realizador que morreu no dia 02, aos 106 anos, mas nunca foi utilizado (...). Em 22 de Abril de 2014, o presidente da autarquia, o independente Rui Moreira, justificou a venda do equipamento com o facto de não fazer sentido “manter uma casa que nunca foi utilizada”, recordando ser conhecido o projecto de construção de um edificado para Manoel de Oliveira em Serralves. Uma das fracções do equipamento que vai agora novamente à praça é identificada como “edificado destinado a equipamento cultural”, com entradas pela rua Viana de Lima e rua Bartolomeu Velho, com uma área coberta de 160 metros quadrados e área descoberta de 1.800 metros quadrados, sendo o valor base de licitação 1,014 milhões de euros. A segunda fracção, também com entrada pelas ruas Viana de Lima e de Bartolomeu Velho, foi definida como “habitacional” e está avaliada em 568,8 mil euros (...). O projecto da casa na Foz foi lançado em 1998 e a obra ficou pronta apenas em 2003, ano em que a Câmara era já liderada pelo social-democrata Rui Rio, que derrotou o socialista Fernando Gomes nas eleições autárquicas de 2001. Nunca foi formalizado um acordo com o realizador para o uso da casa e, em Novembro de 2013, a Fundação de Serralves assinou um protocolo com a família de Manoel de Oliveira para instalar o espólio do cineasta no extremo nordeste do Parque de Serralves.» Como perguntava Teixeira de Pascoaes, "sem a estupidez dos penedos, que seria do nosso espírito?"


 


Foto: Marco Oliveira

12.4.15

Igual a si próprio


 


Em inglês, numa entrevista televisiva gravada algures, António Guterres despediu-se das eleições presidenciais de 2016. Em todo este equívoco acabou por não estar à altura do que esperavam dele: no PS e, pelos vistos, no país. Permitiu que a nomenclatura "costista" andasse ainda mais torturada e baralhada do que já andava. E ignorou olimpicamente os "sinais" das sondagens que o davam como imbatível. Escolheu, e é um direito seu, uma outra vida fora de uma política doméstica cada vez mais mediocratizada. Nunca seria, claro, um bom batalhador por uma nova República. Mas, dentro do enquistamento sistémico em vigor, ainda era apresentável. Entretanto foi a Évora imagino que, para além da parte privada da coisa, em missão. Alguém precisava dizer duas ou três coisas a Sócrates com um módico de autoridade. Desde logo que as procissões "socráticas" de alguns dos agora, de novo, dirigentes do PS não ajudam Costa. Sobretudo não ajuda não estarem calados. Depois é preciso que a "politização" do processo judicial, por tabela, não acabe por prejudicar o mesmo Costa. Finalmente é preciso convencer Sócrates e os "dele" que, se calhar, o PS terá de apoiar alguém para Belém que "omita" o antigo líder. Mesmo sem ser candidato a candidato, Guterres foi igual a si próprio.

O dado


 


Os barulhos que tomaram conta da vida política na última semana impediram que se prestasse a devida atenção a coisas aparentemente mais duradouras pelas piores razões. Refiro-me à "proposta de resolução do governo que transpõe o Acordo relativo ao Tribunal Unificado de Patentes que cria "um sistema de patente europeia unitária" dominado exclusivamente pelas línguas francesa, inglesa e alemã. Os bufarinheiros da "lusofonia" desta vez não se interessaram e a proposta foi aprovada na sexta-feira pela maioria, com a abstenção do PS e os votos contrários dos restantes parlamentares e do deputado Ribeiro e Castro do CDS. Foram, claro, prestadas as costumeiras e piedosas declarações de voto. Mas a verdade é que, pouco a pouco, a tal língua que tem não sei quantos milhões de falantes no mundo inteiro, que suscita delíquios extremos em piqueniques literato-poéticos e em "cimeiras" de chefes de Estado e de Governo da grotesca CPLP e que, graças a um "acordo" absurdo e ilegal entre nós, escreve-se oficiosamente de maneira irreconhecível, começa logo por ser pouco respeitada "em casa". A ignorância e a complacência geral do regime não se poupam nos esforços. É triste mas é o dado.

11.4.15

A culpa é de Passos Coelho?


 


António Costa revela-se um fraco candidato à sucessão de Passos Coelho. Nada que não se pressentisse no lamentável processo da remoção apressada de Seguro. Este levou três anos pacientemente a preparar uma alternativa apesar das constantes minas e armadilhas distribuídas, com método e persistência, pelos diversos inquilinos da casa socialista, de Soares ao grupo parlamentar ou a Sócrates "dos últimos dias". De dentro para dentro e de fora para dentro. Mesmo assim ganhou duas eleições nacionais. Novas e velhas oligarquias socialistas (de que Costa é apenas o "camerlengo") não podiam permitir que fosse Seguro a gerir as escolhas para as legislativas de 2015. Sabiam que iam, como aliás mereciam, para o olho da rua. Costa não teve outro remédio a não ser perpetrar duas tristes figuras. A primeira, apear Seguro à bruta com a complacência dos seus amigos nos media. A segunda, atirar o respeito pelos eleitores lisboetas aos pombos. E daí para cá não tem feito outra coisa a não ser estatelar-se, rodeado mais de cortesãos do que de conselheiros, aos pés gélidos de Passos Coelho. «Costa é conduzido exclusivamente pelas suas emoções: berra quando se irrita ou julga que vai impressionar o “povo”; explica numa voz normal o que não o comove. O resultado é que o cidadão comum não o leva a sério. O ar de improvisação e de amadorismo anula a importância e a pertinência de qualquer declaração. No fim, fica sensação de que o homem se esganiça e se agita por puro desespero. E, de facto, desde que chegou a secretário-geral, Costa acumula erros sobre erros (...). Não conseguiu até agora meter na cabeça de um único português a mais vaga ideia do que pode esperar dele (...). No estado a que as coisas chegaram, António Costa continua no meio de uma desordem crescente, que tarde ou cedo dará cabo dele.» A culpa é de Passos Coelho?

9.4.15

Todos a reboque

 



 


Numa das oitenta reflexões sobre "o que lá vem", integrada no seu livro mais recente, Manuel Maria Carrilho cita Marcel Gauchet em 2014: «tem-se a impressão de que o que hoje existe é uma direita de imbecis face a uma esquerda de idiotas.» Podemos transferir esta "impressão" para Portugal hoje: um país atordoado, desvitalizado e rebocado. A fórmula é do próprio Carrilho e uma súmula feliz da infelicidade colectiva e instintual que denota. Vejamos alguns exemplos. Uma jornalista "senior", Maria João Avillez, lembrou-se de questionar as "aspirações" das "elites"  sobre o futuro próximo da pátria. E quem foi a "elite" escolhida? Salvo um imberbe com aspirações a escritor, Avillez foi ao mundo que ela conhece praticamente desde o 25 de Abril recolher opiniões. Estão no Observador e dispensam quaisquer comentários: é a mobília do regime excluídos os que entretanto caíram, por motivos mais ou menos claros, em desgraça e os que, por limitações "ideológicas" de quem concebeu a futilidade do exercício, não cabem. E o que quer a "elite"? Tudo menos chatices, naturalmente. Falam do "futuro" como se não pertencessem à "seiva" do passivo e do passado que corre nos interstícios do comadrio nacional em todos os sectores. Rebocam e desvitalizam e andam, como sempre desvitalizaram e andaram a reboque. Outra jornalista "senior", Constança Cunha e Sá, dissertou ontem sobre o folclore presidencial em curso que ilumina perfeitamente a frase de Gauchet: uma direita de imbecis e uma esquerda de idiotas. O pormenor é que ela as alimentou "puxando", talvez como lhe competia", pelo seu colega comentadeiro Marcelo Rebelo de Sousa esquecendo-se deliberadamente (ao insistir na interrogação que representa António Nóvoa) que, na verdade (o que será a verdade para estes Pilatos comunicacionais?), o "lateral" Henrique Neto, contrariamente ao pelotão de proto-candidatos a candidatos em circulação, não precisa clonar pensamentos alheios ou surgir a correr com "ideias" e cravos na lapela. Basta lê-lo com alguma honestidade intelectual. Comentadores atordoados, desvitalizados e rebocados. Na esquerda de idiotas, para não ir mais longe, já pensei brevemente nela ontem porque conta. Não se deve perder tempo com vaidades individuais ou grupusculares anunciadas fruto, aliás, das perdições socialistas e das dissoluções esquerdistas: todos atordoados, desvitalizados e à espera que os reboquem para lugares no parlamento ou, mesmo, num governo. Finalmente a direita de imbecis que permite coisas como este vaguíssimo "instituto do território", aparentemente uma plataforma interesseira que se quer oficiosa e que "gira" em torno do amável Rogério Gomes que conheci na Católica. O qual, da derradeira vez que o vi, era tratado reverentemente por "senhor professor doutor" por um membro do governo. Aparentemente o PSD, a parte dele que "estuda" no respectivo "gabinete", é rebocado por este homem. Depois não se queixem. Todos, os comentadeiros, as esquerdas e as direitas. Como escreveu Foucault, citado igualmente por Carrilho a propósito do grotesco em política, este surge quando "a maximização dos efeitos de poder acontece a partir da desqualificação de quem os produz". Mesmo, ou sobretudo, atordoados, desvitalizados e a reboque.

8.4.15

Unir os portugueses


«Ao iniciar esta caminhada em direcção à Presidência da República, aquilo que me move é essencialmente servir o meu País da melhor forma que posso e sei, o que é indissociável do debate de ideias, com o objectivo de encontrar soluções para os grandes desafios que temos pela frente: unir os portugueses, criar empregos, fomentar o crescimento económico, pagar a dívida, reformar o sistema político, promover a continuidade e a estabilidade das políticas públicas. Em resumo, criar as condições necessárias para melhorar a vida dos portugueses. Venho em paz, porque estou certo que nenhum destes objectivos será facilitado por um clima de confrontação e de guerra permanente entre ideologias, partidos e agentes políticos. Não pretendo nenhuma ruptura na nossa democracia. Antes, quero evitar que ela ocorra entre os portugueses e o sistema político, como está em desenvolvimento noutros países, mas para que isso aconteça o sistema político vai ter que mudar o seu funcionamento colocando os cidadãos no centro das preocupações da política, e dando-lhes mais capacidade para exercer um escrutínio reforçado sobre a escolha dos seus representantes e sobre a sua actuação. Pela minha parte, o debate será baseado em convicções, muitas delas adquiridas na minha experiência de operário, técnico industrial, gestor e empresário, bem como o resultado de inúmeras viagens que fiz por todo o mundo e dos contactos internacionais a que tive acesso. Alguma coisa terá também resultado das leituras e do estudo, que os muitos anos de vida sempre proporcionam. Portanto, serão essencialmente ideias e convicções o que apresentarei aos eleitores, para ouvir a avaliação que sobre elas é feita por todos os sectores da vida nacional e de forma tão rigorosa e pedagógica quanto o engenho nos permita (...). É importante melhorar a nossa capacidade de previsão e saber antecipar as transformações necessárias, seja nos planos social e económico, seja na ciência e nas tecnologias. Temos também de mudar os comportamentos e passar a ser mais rigorosos, chegar a horas aos nossos compromissos e deixar de fugir às dificuldades e ao debate sobre as formas de as vencer. Finalmente, não me digam que a Presidência da República não tem poderes para ser um catalisador de mudanças nos comportamentos e nas políticas destinadas a ajudar os portugueses a vencer a crise e a criar uma Nação onde valha a pena viver e legar com orgulho aos nossos filhos. O verdadeiro poder está em nós, na força das nossas convicções e na criatividade que nos foi legada por gerações de outros portugueses.»


 


Henrique Neto, in Diário Económico


 

Tudo o que não nos faz falta


 


A desgraça nas eleições regionais da Madeira, a "agenda para a década" despedaçada, dia sim dia não, por improvisos avulsos, demagógicos e descontrolados, uma "agenda presidencial" ao deus-dará, uma irreprimível tentação de ressentimento e um ensimesmamento irritável e errático de quem acha que bastava aparecer para que a pátria se salvasse são apenas alguns sinais que deviam preocupar o PS. Porque, com António Costa, o PS está exactamente no mesmo ponto em que estava com Seguro segundo a versão mais delicada do "costismo": não aquece nem arrefece. E isto levará o país - sobretudo a "maioria silenciosa" que não se pavoneia entre o Terreiro do Paço, o Cais do Sodré ou os Paços do Concelho através da "nova" Ribeira das Naus - a questionar-se sobre a que vem, afinal, este homem que trocou Lisboa pela sua própria incógnita. Julgo, aliás, que nem ele próprio conhece a resposta no meio de tanta improbabilidade, inconstância e incerteza. Precisamente tudo o que não nos faz falta.


 


Jornal de Notícias


 


 

6.4.15

Um gesto pequenino


 


Leio que o dr. Costa, candidato a 1º ministro em full time, recusou o nome do eng. João Proença, ex-secretário-geral da UGT e seu camarada de partido, para substituir Silva Peneda na presidência do Conselho Económico e Social. A ele prefere Vítor Ramalho - um velho cortesão soarista, embotado e tão "consensual" como uma lapa grelhada - porque é "dele". Proença cometeu o pecado original de ter sido fiel a Seguro e isso, neste PS de 2005-2011 corrigido e aumentado, é imperdoável. Para quem quer "crescer" para o país, este gesto pequenino do dr. Costa não está mal.

5.4.15

"Chamamentos"


Numa entrevista ao Diário de Notícias, Pedro Santana Lopes referiu não saber se, lá para Outubro, não sentirá um "chamamento" que o "force" a ser candidato a Belém. Em idêntico registo pastoral, o ex-reitor da Universidade de Lisboa, António Nóvoa, jurou-se "despojado" ao Jornal de Notícias, uma beatitude que, todavia, quer dizer "disponibilidade para dar tudo seja em que lugar for". É claro que o eminente professor está à espera que o "chamem" preferivelmente de uma janela do Largo do Rato. A que deverão seguir-se, depois de competente intervenção do coronel Vasco Lourenço, os "revolucionários" da Aula Magna e porventura parte significativa da complexa "mesa" do Bloco. Com o devido respeito, estas pessoas não têm a mais vaga ideia do que vai ser exigido ao próximo PR e dissertam sobre a coisa com uma candura adolescente e politicamente nula. Apesar do métier que falta a Nóvoa, Santana Lopes não lhe fica muito atrás na improbabilidade. Eles, e outros mais ou menos conspícuos, vagueiam nuns patéticos jogos florais que nada afirmam. Ora o que se exige desde logo a um candidato a Presidente da República, nas presentes circunstâncias nacionais, é afirmação. Tudo o que estes "chamamentos" não têm.

3.4.15

Uma falácia


 


«O menos que se pode dizer da operação que levou António Costa a secretário-geral do PS e a candidato a primeiro-ministro é que não foi “elegante”. Nessa altura, muita gente desculpou ou justificou a grosseria e a brutalidade da coisa, porque esperava de António Costa uma nova oposição ao governo lúcida e compreensível e, sobretudo, com princípio, meio e fim. A discrição e as meias-frases na Quadratura do Círculo davam a impressão de esconder um pensamento sólido e um plano político original, que nos tirasse do lugar-comum e da pura irrelevância do debate instituído. Infelizmente, não aconteceu nada disso. Nem nos rituais do Congresso Socialista, nem a seguir em meia dúzia de entrevistas de uma “prudência” claramente exagerada e de uma ambiguidade extrema, António Costa saiu da mastigação das velhas lamúrias da esquerda e da extrema-esquerda. Esperança não trouxe nenhuma; e extinguiu depressa o entusiasmo das “primárias” do PS, em que não se sabe ao certo quem votou. Apareceu então um putativo salvador que se calava ou, quando se mexia, era como se andasse a pisar ovos. O que, de resto, não o salvou de erros sem desculpa. Prometeu baixar o IVA da restauração para 13% (como se os 23% não tivessem também o objectivo de melhorar a qualidade dos serviços prestados); prometeu a “reposição total” dos salários (do Estado, claro) e das pensões, sem explicar onde iria buscar o dinheiro para essa extravagância; prometeu que os municípios passariam a reter uma indeterminada percentagem do IVA, gerado localmente; e prometeu um “programa nacional” de “requalificação urbana”, aparentemente financiado pela “Europa”. Ora isto por um lado é muito, e por outro lado muito pouco. Meia dúzia de medidas não faz um plano estratégico; e um plano estratégico precisa de uma inspiração unificadora, capaz de ser adoptada e compreendida pelo cidadão comum.  Mas, para nossa desgraça, António Costa, talvez por falta de inspiração própria, não mostrou até agora capacidade para inspirar ninguém. No governo foi um razoável ministro; na câmara um administrador sofrível; e no partido um ambicioso hábil. O que não chega para um país sem futuro certo ou destino visível. Tropeçando de papel em papel e de comissão em comissão, António Costa vai fatalmente desaparecer, já desapareceu, no cansaço e no desespero dos portugueses.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

2.4.15

A maneira de ele ser


Nesse 24 de Janeiro de 1986, o da foto, meti-me cedo num comboio para o Porto e a meio da tarde estava sentado ao lado de Manoel de Oliveira. Acabara o curso de direito, esperava pela tropa, escrevia para o Semanário de Cunha Rego e a entrevista era para lá. Era o momento de Soulier de Satin, baseado na obra homónima de Claudel, e do primeiro MASP. À noite o cineasta também ia ao derradeiro comício da primeira volta de Mário Soares na Avenida dos Aliados. Falámos longamente e Oliveira emprestou-me fotografias do filme que depois lhe devolvi. Encontrámo-nos, de novo, num outro comboio, anos depois. Eu vinha de Guimarães e ele entrou em Gaia. Recordei-lhe a entrevista. Viajávamos praticamente sozinhos na carruagem de 1ª classe da CP pré-Alfa Pendular. Jovial, amável, conversador, sem afectações. De lá para cá envelheci muito mais do que ele jamais envelheceu. O mundo em que o situava foi-me desaparecendo debaixo dos pés sem que desse por isso. Eduardo Prado Coelho, sobre Manoel, em A Mecânica dos Fluídos. «Como sabem, a gama de cor é enorme e o que é visível é muito pequeno. Para a nossa vista o que está aquém dos raios vermelhos já não se vê e o que está para além dos raios violetas também já se não vê. Se nós tivéssemos uma visão total, talvez que pudéssemos ver a alma.» Manoel a Pedro Mexia, no Expresso, em 2013: «Tudo o que gente faz é um prenúncio de derrota. A vida é uma derrota. A gente vive na derrota. Nasce contra vontade, e não é senhor do seu destino. O mundo é complexo, incompreensível, talvez não tanto para quem tem uma crença nalguma coisa firme, mas para aqueles onde a dúvida prevalece. E o que proponho é a dúvida. A dúvida é uma maneira de ser.» Era a maneira de ele ser.

1.4.15

Responder a um regime doente e incapaz


 


Ao contrário da maior parte da opinião que se publica julgo que as próximas eleições legislativas não serão decisivas. Sê-lo-ão no sentido estrito do cumprimento do calendário fixado pelo Senhor Presidente da República em entrevista recente. Mas, pelo andar das diferentes carruagens, tudo indica que novo acto eleitoral legislativo acabará por ser convocado em 2016. Os principais concorrentes - a coligação inexplicavelmente por formalizar e o precário Partido Socialista do dr. António Costa - surgem aos olhos do país desprovidos de quaisquer desígnios de futuro. Parecem velhas comadres aborrecidas com o que lhes vai acontecendo sem conseguirem entender, ou fazer um esforço por entender, o que se passa à sua volta. Quaisquer programas a apresentar serão sempre mais fruto de ressentimentos do passado e dos passivos respectivos do que de uma ambição federadora susceptível de recolher apoio popular maioritário. As sondagens revelam esse desmerecimento quando aproximam a "situação" da "oposição" ou quando deixam uns e outros longe de tentações absolutistas demagógicas. Todavia, nada do que começou a acontecer lá fora, sensivelmente há oito anos, é alheio às circunstâncias domésticas. Só que estas agravaram o mal geral muito por causa da impreparação imobilista das nossas elites: nos partidos, nas empresas, nos sindicatos, no sistema financeiro, nas instituições democráticas. Um regime doente e incapaz não "passa" bem em eleições. Talvez por isso as presidenciais alcancem um outro interesse se assentarem em princípios, num desígnio e numa vontade desprovida de calculismos tagarelas ou enredada em jogos medíocres de oportunidade. É o que, julgo, representa a boa surpresa da candidatura nacional de Henrique Neto.


 


Jornal de Notícias