31.10.14

Não vamos longe


 


Em Portugal abunda a tendência para a centrifugação rápida das poucas formas de vida diferente que andam, ou andaram, pela política. Enquanto não "repõem" a "normalidade" com uma ecologia de gnomos subservientes ou de inteligência única, não descansam. Se, por exemplo, olharmos para os "comunicadores" que em geral comunicam em nome dos respectivos partidos (filiados ou afins), o afunilamento cerebral é confrangedor. Para o governo, e à medida que saem algumas criaturas com modos diversos de autonomia e de expressão crítica razoáveis, entra a "rapaziada" dos partidos da coligação que já desesperava não poder assistir em directo ao afundamento anunciado. Aproveitam-se poucos dos que estavam. O que sempre não se recomendou politicamente, como o gabinete do primeiro-ministro, parece estar ainda pior como se pôde constatar pelas trapalhadas retóricas do chefe do governo na primeira sessão de debate do orçamento. São como os pavões dos jardins de São Bento: cada um pupila para seu lado. Aliás, o que apanhei do dito debate revelava uma impreparação geral e uma indiferença pelos resultados do que se está a discutir que chegam a ser obscenas. Todos, governo e oposição, já só olham gulosamente para o acto eleitoral por vir como se não houvesse vidas sem módicos de qualidade de vida fora do plenário do antigo convento. Tem, pois, razão Manuela Ferreira Leite quando lembra que «se me tivessem ouvido certamente que o país não estaria como está. Nesse tempo chamavam-me Cassandra considerando que eu era um arauto do pessimismo. Também me recordo que no meu próprio partido aquilo que eu dizia em alguns casos era considerado aselhice política, porque se considerava que eu devia dizer o contrário. Por outro lado, nem sempre todo o partido esteve de acordo comigo e em alguns casos esteve com PS. Não esqueço os silêncios do meu partido e do partido da oposição. Se a política é só isto não vamos longe.» Não vamos mesmo.


 


Adenda: Anda um tipo uma vida inteira a produzir auditorias sobre diversos sectores públicos (claro está, dentro da execrada administração pública ou através da Comissão Europeia na longínqua América Latina, o mais próximo de nós nestes "costumes"), quando, parafraseando o Rui Unas no final de Os Imortais, se descobre que há sempre uns "auditores" mais "auditores" do que nós. Este país derrota.

30.10.14

O "regular funcionamento das instituições democráticas"


 


O improvável "triângulo" ministra da justiça, PGR e PJ, os oxímoros mais adequados a um evangelista "dos últimos dias" do que a um primeiro-ministro, um caso perdido ou a falta do sentido do ridiculo. O que é que falta?

"Viragem" é quando um homem quiser


 

Um retrato a dois tempos


 


1. «Se a introdução do "amor" na política resolve as dificuldades conjugais reveladas nestes anos de coligação entre o PSD e o CDS, é cedo para se perceber. Os humores na coligação são como o tempo nos Açores: quando persiste uma bruma cerrada dá-se esporadicamente a ingerência de um raio de Sol. As ilhas do canal estavam sob bruma cerrada e nenhum desanuviamento sobre a renovação dos votos com o CDS para as próximas legislativas atravessou o pensamento de Passos Coelho. O assunto vem "a destempo", importa apostar "na reforma do Estado", o tal dossiê que tinha sido entregue a Portas. Passos Coelho, primeiro-ministro e líder do partido mais forte, não facilitará a vida ao parceiro mais frágil: de resto, ao longo deste tempo no governo, nunca facilitou. "Sei que daqui a um ano há eleições", diz Passos Coelho (não foi "o Pedro" a dizer isto, foi o líder do governo que humilhou Portas no Orçamento e que negociará o acordo de coligação que melhor sirva os interesses do PSD). Há mantras que podem tramar um primeiro-ministro. A insistência na "inovação" levou a uma situação absolutamente cómica. Passos é recebido na Câmara da Madalena do Pico pelo grupo etnográfico da Candelária, uma freguesia da ilha. Passos dá os parabéns ao grupo que recolheu os cantares tradicionais do Pico e pede-lhes "inovação".


- Isso não podemos fazer, senhor primeiro-ministro. O nosso trabalho é mesmo preservar as músicas tradicionais.


- Mas devemos pôr inovação em tudo o que fazemos.


Inovação, só a ideia do primeiro-ministro. Mas a tradição ensina: "Eu fui ao Pico, piquei-me/Ai sim, piquei-me, piquei-me lá num picão/O pico nasce da silva/ Nasce da silva e a silva nasce do chão."»


 


Ana Sá Lopes, i


 


2. «A promessa de reposição dos salários dos funcionários públicos em 2016 durou exactamente duas horas. Às dez da manhã, no discurso de abertura da discussão sobre o Orçamento do Estado, Passos Coelho prometia uma “reversão de 20% em 2015 e integral no ano seguinte” para os salários da Administração Pública superiores a 1500 euros. Com uma ressalva que não constava do texto escito: “Se outras propostas não forem feitas entretanto”. Demorou apenas duas horas. Ao meio dia, em resposta a uma intervenção de Os Verdes, Passos contraria o seu próprio discurso e diz que, se for primeiro-ministro em 2016, voltará a propor que a reversão no corte dos salários seja de 20%. “Como se sabe o Tribunal Constitucional não permitiu que se pudesse, em 2016, prosseguir com uma devolução de 20%. Se eu for primeiro primeiro-ministro não deixarei de apresentar novamente essa proposta e proporei que essa reversão seja de 20%”. Ou seja, não haverá ainda devolução integral de salários.»


i

29.10.14

Os outros rankings

«O IPO do Porto está a adiar cirurgias por falta de camas. Os doentes mais afectados, segundo noticia a RTP, são os que sofrem de tumores na mama, próstata e aparelho digestivo. Também a área da reconstrução mamária está com atrasos: a espera pela cirurgia pode ir até aos quatro anos. Em declarações à estação pública, Laranja Pontes, presidente do conselho de administração do IPO do Porto, admite que as longas esperas se devem a restrições orçamentais: "não abro mais camas porque não tenho condições para isso". E o problema poderá piorar, assinala a RTP, devido à impossibilidade da instituição hospitalar contratar pessoal, por falta de autonomia. Para minorar o problema das listas de espera para cirurgias, já foram retiradas camas aos cuidados paliativos.» Lê-se no Diário de Notícias e lamentavelmente acredita-se. Tal como se acredita que, um mês e meio depois, ainda há alunos sem aulas, professores por colocar e um Crato a esvoaçar por aí. Ou uns subalternos para "punir" no "caso Citius". Ou o embuste da "reforma do Estado". Ou uma revista de ciências sociais, outrora prestigiada e livre, agora proibida de circular por causa do respeitinho. Ora se isto tudo somado não é um país de merda, mesmo que "suba" no ranking* dos países bons para "negócios" (da China), o que será um país de merda?


 


* Portugal subiu quinze lugares no ranking do World Economic Forum e seis no Doing Business. As "reformas" assinaladas para o efeito ocorreram fundamentalmente quando Álvaro Santos Pereira era ministro da economia e visaram, sobretudo, o "factor trabalho" centrifugado, a meu ver, em excesso face a outros. Mas quem ouvir as cucarachas do dr. Lima no México ainda pode julgar que foi ele.

28.10.14

Um ano improvável


 


Nos Açores, o primeiro-ministro fez um "balanço positivo" destes três anos de coligação e de governo. Acrescentou estar muito contente com o orçamento de 2015 porque respeita as "exigências europeias". Se melhora, mantém ou piora a vida das pessoas - das pessoas, em geral, e não de grupinhos de pessoas em particular -, nem uma palavra. O dr. Passos não se perde com minudências desde que as contas batam certo em Bruxelas. Parece que na sua simplificada cabeça nada mais há para fazer para além da mercearia e da intendência. Ou, na má hipótese ensaiada nos Açores e confirmada pelo neo-betoneiro Portas no México, há: passar um ano improvável em auto-elogios e em balanços matemáticos. Do outro lado, o dr. Costa inexiste, como em Lisboa, e faz paradoxalmente dessa inexistência a "razão" de ser  do seu sucesso involuntário. Deve estar "aconselhado" a fazer e a dizer o que fez e disse durante a campanha interna até haver eleições a sério: nada. Mas quem dá o que tem a mais não é obrigado.

27.10.14

Os irmãos PTralhas


Esta imagem de recorte norte-coreano não augura nada de bom para a antiga colónia portuguesa a braços com o desforço da "potência emergente". Percebo que, entre milhões e milhões de pobres, a retórica "ptralhista" produza efeitos. Afinal, alguma coisa se fez por eles. O que escapa a esses pobres - e não escapa aos pobres de espírito das esquerdas e das direitas portuguesas que se deixaram deslumbrar pelo nepotismo negocista dos "anos PT" - é a imensa demagogia e o lamentável instinto rapace que já colocou alguma da nomenclatura do partido presidencial adequadamente na cadeia. Lula ainda tem o crédito de ser modicamente simpático, tipo uma daquelas pessoas com quem se deve poder comer alarvemente e que obriga os convivas a arrotar no fim. Já Dilma transpira falta de naturalidade e parece o macho alfa da dupla. Prometeu que, agora, vai "mudar". Só se for de penteado.

26.10.14

O lado bom

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Quando António Costa sair da Quadratura do Círculo, o respectivo "parque jurássico"  passará a integrar um ex-membro da tribo, o honorável dr. Jorge Coelho. Tenho grande estima pessoal por Jorge Coelho desde os tempos em que o conheci ministro da administração interna. Mas o seu regresso à televisão é a própria "imagem" da "quadratura do círculo". A de um regime que, a nível comunicacional, está blindado em torno de meia dúzia de opinadores, uns mais "independentes" do que outros, a que se vão juntando "novas vozes" que já nasceram no regime e que, em alguns casos, são mesmo avós, pais e netos dele. Aliás, a recomposição das colaborações em alguma imprensa escrita é apenas mais uma manifestação desta mesmice auto-complacente do que propriamente uma "renovação". O lado bom destes fandangos improváveis é que se lê mais livros.

Reprise

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O primeiro-ministro fez do encerramento das jornadas parlamentares da maioria um ponto de partida. Já se sabia que estava em campanha mas, no sábado, deixou a coisa bem clara quando, por outras palavras, chamou estúpidos aos jornalistas e aos comentadores que não conseguem enxergar o bem que ele representa para a pátria. Passou-lhes um atestado de "Maria vai com as outras", isto é, a "redacção única" - mesmo muita da de economia e finanças - é "preguiçosa" e "patética" quando não lê pelas mesmas lentes o Excel extraordinário e salvífico que diariamente o dr. Passos apresenta aos pobres de espírito que pastoreia e que, afinal, não o merecem. Se o dr. Costa representa para muitos incautos o Natal, o dr. Passos é o Crucificado e a "vociferante matilha do espectáculo" o seu Golgotá. Quando o dr. Passos apareceu no 1º semestre de 2011 para ficar, aplaudi-lhe, por contraste com o caudilho socialista, a aparente normalidade. A sua vitória desanuviou um ambiente político envenenado pelo ensimesmamento auto-suficiente do anterior chefe do governo. Sucede que o dr. Passos foi-se convencendo - e alguns imbecis encartados ou descartados ajudaram-no nesse convencimento - da sua infalibilidade, à semelhança do antecessor, transformando-se politicamente num papagaio evangélico. Talvez por isso aprecie comparar-se, a seu crédito, com alguns "profissionais" da cacofonia, muitos dos quais, aliás, tal como haviam feito com Sócrates, tão depressa o incensaram quanto o execram agora. A histeria de ontem não augura nada de bom. É uma reprise. E das más.

24.10.14

PPC, o evangélico dos pequeninos


 


«O primeiro-ministro resolveu agora pedir “paciência” aos portugueses, como se não soubesse que a “paciência” se esgotou em definitivo no país. Pior ainda, adoptou um tom paternal e carinhoso para explicar à populaça por que razão era preciso que ela continuasse na miséria; e, falando baixo, insinuou que só a sua alta sabedoria podia perceber o que verdadeiramente se passava. Da sua boca saía a verdade límpida e salvífica, da boca da oposição a babugem nojenta da mentira. Veio também a cena de heroísmo, muito típica destes melodramas. Passos Coelho jurou em público, numa tirada de filme “b”, que nunca abandonaria Nuno Crato. “Até à morte ou à vitória, pela nossa honra, S. Jorge e Portugal”, disse ele aproximadamente ao abananado matemático. A audiência quase que chorava. O dr. Passos Coelho e os seus fiéis julgam que fizeram uma grande obra. Já se esqueceram que a troika os forçou a fazer o que fizeram. Como se esqueceram, com certeza por intervenção do Altíssimo, que não cumpriram o programa (aliás, duvidoso) a que se tinham comprometido. Aumentaram a receita do Estado, sem inteligência ou perícia; e fugiram de reformas substanciais com vigarices, com pretextos e com uma insondável indolência. Quando o dr. Passos Coelho, lá para Outubro, for delicadamente posto na rua, o Governo seguinte com um bocado de papel e uma caneta arrasará numa hora tudo ou quase tudo o que ele deixou. Entrou provavelmente na cabeça do primeiro-ministro a ideia perigosa de “deixar um exemplo”. E deixou. Deixou um exemplo de trapalhada, de superficialidade e de ignorância. Ou seja, nada de original.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

Maior que nós


 


A Fundação Mário Soares, culminando uma série de sessões que intitulou "Vidas com sentido", homenageou o José Medeiros Ferreira. Tremi quando constatei que uma das oradoras era a Maria João Seixas mas o seu bonito improviso surpreendeu-me pelo "retrato" breve que deu do seu antigo "controleiro" da RIA.  Eduardo Paz Ferreira transmitiu, pelas "histórias" que contou dele, a felicidade que irradiava sempre de qualquer tipo de convívio com o Medeiros, desde os seus juvenis 17 anos em São Miguel até ao fim. Estas "vidas" da Fundação eram de pessoas que estiveram ligadas ao Partido Socialista e, talvez por isso, Paz Ferreira não se referiu ao "interregno" reformador e ao PRD na sua intervenção. Mário Soares resumiu bem a relação com Medeiros Ferreira desde os respectivos exílios, passando pelo seu governo onde ele foi MNE e culminando nos tempos mais recentes em que a intimidade política de ambos se reforçou. Na altura, as coisas que os separaram tiveram um peso a que hoje Soares já se refere como não tendo tido, sic, "a menor importância". A "história" de Medeiros com o PS integra o lastro da autonomia intelectual e da liberdade de acção que presidiu ao seu "longo curso": foi sempre Soares quem "procurou" o Medeiros e nunca o inverso. A dada altura, e inexplicavelmente como Paz Ferreira indicou, o PS "desperdiçou" o Medeiros como se tivesse uma mão cheia de gente da craveira dele para exibir. O país também, como ele confessou com aquela sua ironia, porventura mais amarga que o costume, quando numa das últimas entrevistas deixou cair que "Portugal não soube aproveitar-me". O Medeiros (era assim que ele queria que eu o tratasse) e eu encontrámo-nos, ao vivo ou pelos meios comunicacionais disponíveis, muitas vezes nesta derradeira década. Falávamos de grandes e de pequenas histórias, do quotidiano, de livros, de blogues, de ópera e, sobretudo, ríamos muito. As gargalhadas do Medeiros, por dá cá aquela palha, eram inesquecíveis. A sua morte reforçou o meu isolamento mental e a minha solidão intelectual. Não foi apenas mais um interlocutor que perdi, neste caso fisicamente, já que a outros os tenho perdido (ou eles a mim) estupidamente em vida. Foi, em certo sentido, um mundo que hoje em dia só já só posso reviver em alguns livros, nas passagens de umas crónicas ou na superfíicialidade de uma conversa ou duas sem destino. Parte desse mundo aparecerá no depoimento que escreverei (respondendo à instância amiga e gentil da Maria Emília Brederode dos Santos) para o livro em sua homenagem a lançar por ocasião do colóquio a ser-lhe dedicado durante dois dias na Fundação Gulbenkian, em Fevereiro de 2015. Quando "entrei" para o gabinete de um ex-ministro do actual governo, trocámos uns mails. Quis que ele soubesse que a sua expressão "código genético" (do Estado Democrático) aparecia no preâmbulo do programa do dito governo, "furtada" por mim. Respondeu-me: «eu vi logo que não era a malta do «estado mínimo»! De qualquer maneira é um aceno simpático no meio de um terreno adverso.» O Medeiros era assim. Sempre maior que nós.

22.10.14

A "salganhada"

«É evidente que, assumindo como pressuposto a manutenção da carga tributária – num cenário à economista, em que tudo o resto se mantém constante –, obviamente que se há desagravamento do ambiente fiscal para as famílias com dependentes, há um agravamento necessariamente relativo [para] as que não têm dependentes. É tão óbvio… Não percebo como é que se possa mascarar uma coisa destas.» A conversa é do presidente para a auto-denominada "reforma do IRS", menos de 24 horas depois de o governo, ao "mais alto nível", ter garantido uma "espécie de cláusula de salvaguarda" para evitar que a alegada "reforma" fosse mais discriminatória do que é. Para citar o senhor, de constituir uma pura "salganhada" é que ela já não se livra.

Não ceder à colonização economicista


 No meio do deserto e da inocuidade que se instalou ao mais alto nível do Estado - os órgãos eleitos já só parecem aguardar tão mansa quanto irresponsavelmente o decurso do tempo, comportando-se alguns e algumas como as velhas tricoteuses da Revolução Francesa -, ainda há instituições de soberania a funcionar para lá da contabilidade merceeira e parola.. O presidente do Supremo Tribunal de Justiça, desde que tomou posse o ano passado, tem sabido recorrer a uma discreta proficiência pública que não pode deixar de confortar uma sociedade cada vez mais indiferente e descrente em relação a quem nos pastoreia. Não é política. É realismo e atenção, para variar, à vida das pessoas.


 


Foto: Nelson Garrido

21.10.14

Um país que não sabe dar-se ao respeito


 


A PT, outrora "a" galáxia no firmamento do "sucesso" da pátria (agora é uma praga chamada "turistas"), foi até ao Brasil, pela mão do eng. Bava, fazer o negócio da vida dela (e dele). O descalabro do BES, um protagonista fundamental na dita história de "sucesso" da PT, arrastou a operadora para a humilhação por parte do seu parceiro tropical, uma coisa que dá pelo encantador nome de "Oi". Bava recebeu 5,4 milhões e veio embora para reaparecer na Universidade da Beira Interior onde lhe outorgaram uma lauda honoris causa. Fora dos muros académicos, a PT derrete-se um bocadinho mais a cada dia que passa embora o novo doutor lhe assevere venturas. Bava limitou-se a aceitar o que lhe deram. Vale o que vale. Em certo sentido, o exercício revela mais a academia lusitana do que o homenageado propriamente dito. Um país que não sabe dar-se ao respeito, como é que espera merecer algum?

"É o que pode ser"


 


Ontem, numa escola com Crato ao seu lado, o primeiro-ministro assumiu formalmente a pasta da educação e ciência. Fez o incumbente - aparentemente um adulto - passar pelo vexame da absoluta subordinação da sua vontade (quem quer sair não ameaça nem se coloca à "disposição" para sair: sai pura e simplesmente, sem avisos, sofismas ou temores reverenciais) à agora mais desenvolvida via evangélica a autoritária do dr. Passos. O sorriso aparvalhado de Crato diante das televisões valeu mais que qualquer palavrinha oca. Se já não existia, agora desapareceu por completo no bolso traseiro das calças do chefe dele. Mas o desconchavo prossegue noutras áreas. Quando coloquei o termo "Estado paralelo" no preâmbulo do programa do governo, tive de explicar ao actual secretário de Estado Bruno Maçães o que é que tal expressão significava. Ele vinha de "fora" (acho que intimamente nunca saiu de lá) e ignorava o "estado da arte". Pois bem. O governo, a avaliar por esta apreciação da UTAO, persiste em beneficiar o "Estado paralelo" e em apoucar os servidores públicos, v.g. os licenciados em direito persistentemente tratados como atrasados mentais. Por que é que se aumenta, para além de um "grau de razoabilidade", a previsão de despesa em serviços de consultadoria e parecerística? Para "ajudar" os escritórios de advogados onde os amigos exercem ou são "consultores" graças não ao direito que ignoram mas aos contactos que proporcionam? Constata a UTAO que, «como a despesa prevista para 2015 em estudos, pareceres e outros trabalhos especializados e com tecnologias de informação «é superior ao orçamentado para ano de 2014», os técnicos consideram «não [ser] possível a partir das dotações de despesa orçamentadas aferir do grau de razoabilidade dessas poupanças» que o governo estima por estimar em trezentos e tal milhões. Nas palavras do próprio dr. Passos, pelos vistos "é o que pode ser".

20.10.14

Se calhar

As mais "influentes" sibilas comunicacionais com origem na maioria, Marcelo e Marques Mendes, deram a entender este fim de semana que a coligação acabou. Apresentaram com "prova" dessa queda pré-anunciada a impaciência do dr. Passos quer em relação ao país - o OE, a "reforma" do IRS e o CDS -. quer em relação ao partido (as distritais) que pretende ganhar as eleições e não vê como "vender" um produto rançoso nos mercados e nas ruas. Por outro lado, as referidas sibilas consideraram que Passos foi "desleal" com Portas na questão da sobretaxa e que Portas, depois do "número" do "irrevogável", praticamente só tem margem para engolir sapos à custa do seu embotamento. Seja lá o que for, o que parece inverosímil é "isto" aguentar-se mais um ano neste estado decomposto. Passos finge que sim e o Doutor Cavaco, que não quer ouvir falar em maçadas, ajuda-o a fingir que sim. Para reforçar a ilusão até vai ser empossado um secretário de Estado num ministério dirigido por um cadáver político adiado que manifestamente não procria. Se calhar está tudo bem assim e não pode ser de outra forma.

19.10.14

Montini


 


Quando visitei os sepulcros papais por baixo da Basílica de São Pedro, surpreendeu-me o despojamento do túmulo de Paulo VI. Uma laje branca, rasa, que destoava da maior parte das sepulturas que a rodeavam. Aquela discrição "era", de facto, a melhor representação eterna do Cardeal Montini. Cresci com Paulo VI e habituei-me a associar a figura do Papa à austeridade e ao comedimento. Paulo VI, apesar dessa imagem, estava perfeitamente ciente do mundo que o rodeava e angustiava. Beatificá-lo decerto seria a derradeira coisa que desejaria. Esta banalização de beatos e de beatas não me parece que fortaleça por aí além a fé. Cada vez mais a fé é algo que se vive sozinho, fora dos "reality shows" em que se tornaram as "jornadas" disto e daquilo e as visitas papais. Independentemente do papel "político" e "social" que Paulo VI, o homem que concluiu o Vaticano II, desempenhou sem espalhafatos, a sua "lição" humana e religiosa é sobretudo a da vivência sólida e solitária da fé. O que não queria dizer, antes pelo contrário, que a Igreja se fechasse ao mundo e vice-versa. Leia-se, por exemplo, os seus "diálogos" com Jean Guitton. Em muitos sentidos, Montini era muito mais "moderno" que os que se lhe seguiram. Apenas não fazia disso um ariete. Veio a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, sem passar por Lisboa, e "obrigou" Salazar a ir lá ter com ele. Por trás daquele ar frágil, escondia-se uma rocha: a mesma de Pedro que ele honrou como poucos enquanto seu sucessor.

18.10.14

«O tempo e o modo»

 



 «Se este Orçamento foi pensado como um exercício de reabilitação e propaganda, falhou. Há um erro de princípio que este Governo faz, e persiste em fazer, quando se trata de política económica. As palavras que usa para descrever a miséria portuguesa – desemprego, despedimentos, corte nos salários, penhora, falta e colocação de professores, fome pura e simples – não descrevem a realidade. Primeiro, são termos técnicos. Segundo, não contam com o tempo. Dantes, as biografias de autores que tinham vivido a “grande depressão” diziam sempre o que lhes sucedera nessa época de angústia e de catástrofe. As pessoas percebiam ainda que, para lá do sofrimento pessoal, a “depressão” lhes roubava o que nunca lhes poderia voltar a dar: o tempo perdido. Cinco, seis, sete anos da vida que tinham imaginado para si. A crise que nos sufoca desde 2011 também interrompeu, ou suspendeu, a vida de milhões de portugueses: velhos, novos, na idade da força e na idade da fraqueza. Os mais novos perderam o entusiasmo e a curiosidade por um futuro independente e adulto. Os mais velhos perderam a tranquilidade de uma existência relativamente segura e, às vezes, confortável, tremendo, à espera do próximo desastre. O grosso do país, mesmo a parte que não sofreu directamente estados de irremediável carência (e essa é pequena), ficou mutilado; por outras palavras, permanentemente diminuído. O que talvez tivesse sido sem a crise será a medida de tudo o que vier – e é uma medida implacável para os sábios que nos trouxeram aqui, em nome de uma lógica que ninguém percebe e por que ninguém se interessa. O ressentimento, o rancor, o puro ódio que se acumularam – e que as cenas dos políticos dia a dia acirram – não desaparecem com o falso alívio que o Orçamento pretende trazer. Nada de fundamental mudou e principalmente não mudou a maneira como a nossa vida se cozinhou em reuniões secretas, de que simbolicamente não conseguimos saber coisa nenhuma. A cena, de resto, conduzida e representada por indivíduos que não se distinguem pela inteligência, incluiu números de pura pornografia: a diatribe do primeiro-ministro contra o “fanatismo orçamental”; a “fiscalidade verde” para seduzir uma população sem trabalho e uma juventude sem carreira; e a junção a essa sopa turva de uma súbita preocupação com a natalidade para sublinhar os pequenos descontos no IRS, que supostamente exprimem o amor do Governo pela Pátria e pela família. O Orçamento não chegou a tempo, nem veio num modo susceptível de amansar o putativo eleitorado de 2015. A julgar por ele já não está em causa a sobrevivência da maioria, está em causa a sobrevivência do PSD e do CDS.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

17.10.14

Emparedados


 


A última reforma de impostos ocorreu entre 1988 e 1989 pela mão política do dr. Miguel Cadilhe. Acabaram os impostos cedulares e criaram-se dois impostos - sobre os rendimentos das pessoas singulares e sobre o rendimento das pessoas colectivas. O que  foi apresentado ao país como uma reforma não passa de um engendramento técnico-político que mistura alhos (verdes) com bugalhos (ideológicos, de carácter reaccionário e não liberal ou, sequer, conservador) para fins meramente tacticistas. Os dois milhões e meio que vivem ou rondam a "pobreza material" certamente não se podem "orgulhar" deste "passo em frente", para citar a mui nobre "associação das famílias numerosas" onde a maior parte das famílias daqueles dois milhões e meio de pessoas não cabem. Da "verdura" do eng. Moreira da Silva nem vale a pena falar. Do outro lado, vimos o dr. Costa reunido com umas estimáveis almas quase todas nossas velhas conhecidas. Só estranhei a presença do prof. Campos e Cunha. Ter-se-á esquecido do martírio por que passou nos poucos meses em que esteve no primeiro governo Sócrates onde o dr. Costa era ministro plenipotenciário e praticamente exigiu, quase desde o primeiro momento, a sua confundida cabeça? Continuamos a ser, afinal, os lamentáveis emparedados do verso de Cesariny: «entre nós e as palavras, os emparedados/ e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.» Boa noite e boa sorte.

16.10.14

Onde é que estará a graça?


Foto: EPA/JOSÉ SENA GOULÃO



 Foto: Daniel Rocha


«Há muito que o Orçamento do Estado deixou de ser o que sempre havia sido: o principal instrumento de política económica do Governo. Mas nunca foi tão vazio, e nisso inútil, como este. Nunca vi coisa assim: uma reforma fiscal ficar fora do Orçamento. Ao dizer que não faz mal, pois basta que os números do IRS e da fiscalidade verde batam certo, a ministra das Finanças está a confessar que o Orçamento não é resultado de políticas públicas. É uma folha de caixa que as define. E ainda há quem ache isto normal. Não é normal resumir o Estado a fluxos: quanto recebe em vez de quem paga; quanto gasta em vez de quem recebe; quanto perde em vez de o que faz; quanto deve em vez de para onde vai. É um exercício do possível em vez de uma escolha entre possibilidades. Nunca fomos escravos da troika, como se vê agora. Somos ainda escravos da dívida. Com umas folhas de louro em ano de eleições (...) Para Portugal, o problema está na entrega total e sem imaginação nem ousadia às ordens do centro da Europa. As contas deste governo supunham que, ao fim de alguns anos de austeridade, a economia cresceria 4% ao ano, como então António Borges vaticinava. Não aconteceu. Acontece na Irlanda, que fez por si, foi muito mais dura mas rápida na austeridade e não se fez à fotografia para a Alemanha, impondo uma política fiscal rebelde que, aliás, lhe custou juros mais caros (...). Talvez este não seja mesmo o último Orçamento deste governo, pois há espaço para retificativos. Mas este pode ser o último governo deste Orçamento. Porque já não estamos a governar, estamos a gerir a situação.»


 


Pedro Santos Guerreiro, Expresso

15.10.14

Da acção comunicacional

Transcrevo aqui, há anos, crónicas e excertos de crónicas de Manuel Maria Carrilho de quem, aliás, sou amigo. Mas já o lia e citava antes de nos tornarmos amigos não vá o filistinismo sempre de serviço ficar incomodado. Nos últimos tempos, Carrilho escrevia no Diário de Notícias mas, segundo afirmou o director do jornal a uma revista, vai deixar de escrever. “Não é o único que deixa de escrever para nós. Ao todo, são cinco, incluindo Celeste Cardona e Baptista Bastos. Não há um motivo especifico, há um motivo geral: quando entra uma direcção nova, tenta-se refrescar a imagem”, declarou André Macedo. Vamos aguardar o resultado deste "refrescamento" em todo o seu esplendor: quem sai, quem fica e quem entra. Todavia faço votos que o Senhor Director poupe, nos dois últimos casos, os putativos leitores a meras redacções das antigas segunda e terceira classes ou a alguidares de baba.

A passagem estreita

A foto retrata o orçamento de Estado que, para os que não estão familiarizados com finanças públicas, é uma mera previsão. Decerto que a respectiva execução será ilustrada de outra maneira apesar do mais recente "neorealismo" do senhor primeiro-ministro que, muito justamente, "equilibra" (e um orçamento vive de equilíbrios) os seus interesses eleitorais (não sei se também os do dr. Portas) com o austeritarismo herdado do dr. Gaspar. Vai bater todos os recordes em rectificativos. Mas, como reza a epígrafe que figura presentemente neste blogue, do artíficio à impostura passa-se depressa.

14.10.14

O caminho

O Doutor Cavaco ausentou-se ontem por breves instantes da sua pronunciada mudez para dizer duas coisas, ambas sob a forma original do não dito. A primeira, que os drs. Passos e Maria Luís não entendem a "natureza" da CGD (nós, afinal, também não). A segunda que, por ele, o prof. Crato já estaria demitido porque senão não faria sentido a quem é tão parco em comentários políticos afirmar que o início do ano lectivo não correu bem e prejudicou a "excelência" que se espera da educação. Há catorze anos, o antecessor do Doutor Cavaco, sem falar em público, exigiu delicadamente ao eng. Guterres as cabeças políticas de Armando Vara e de Luís Patrão por causa de uma fundação paralela ao MAI. Presumivelmente o actual PR poderá já ter feito o mesmo em relação a Crato junto do dr. Passos uma vez que, no mesmo acto, "ilibou" a ministra da justiça. Também correu que o ainda ministro da educação se colocou à disposição do primeiro-ministro e que este dispôs-se a mantê-lo. Depois do que disse ontem o Presidente, Crato deixou de ter uma segunda oportunidade para mais números de opereta, secundados ou não pelo chefe do governo. Pode continuar a vaguear por aí mas passou a uma mera inexistência política. Diga o dr. Passos o que disser ou deixar de dizer. Cavaco indicou-lhes o caminho.

Ratinhos de laboratório

De há muito que os orçamentos de Estado se encontram desactualizados quando entram em vigor. O que anda a ser preparado, porém, prodigaliza a originalidade de se desactualizar hora a hora, minuto a minuto e de, por consequência, ameaçar constituir um tremendo disparate político. Pedirá, por certo, mais rectificativos do qualquer dos anteriores. E, pelos vistos, nem aos velhos e novos "amigos de Peniche" em Bruxelas agrada uma vez que até desconfiam do que está vigor. O comportamento politicamente medíocre e timorato em relação ao défice, exibido uniformemente nas reuniões do Conselho Europeu e no Ecofin, com uma dívida pública em percentagem do PIB como nós temos e com uma economia que nós não temos, faz dos portugueses autênticos ratinhos de laboratório de uma "Europa" falhada, trôpega e sem desígnio. Da periferia subserviente, Bruxelas só espera "medidas adicionais" sobre "medidas adicionais". As pessoas reais, insisto, não comem défices nem ao pequeno-almoço nem sequer para efeitos eleitorais. Um eventual "brilharete" nominal abaixo dos 3% do "pacto" imbecil é pura espuma como os tais "amigos de Peniche" já fizeram notar (não à França ou à Itália, evidentemente). Não chega para compensar o desastre que se avizinha.

13.10.14

Desprezo


 


Os telejornais de domingo à noite simularam venturas pecuniárias por causa da alegada redução anã da sobretaxa do IRS. A coisa teria sido "consensualizada" nas 18 horas do conselho de ministros juntamente com a já habitual discriminação dos solteiros e viúvos a favor das famílias numerosas e felizes (até inclui os velhinhos desde que não saiam de casa dos descendentes, estejam caladinhos e não ganhem praticamente nada) e da "economia verde" do eng. Moreira da Silva. Tudo, claro está, umas décimas ridículas. Consta que o dr. Passos pediu sigilo e se apresentou muito zangado por o orçamento ter sido antecipado nos jornais. Sucede que o sigilo durou poucas horas (imagino que o dr. Portas não aprecie ficar uma vez mais associado à "revogabilidade" e à "dissimulação" de afirmações suas mesmo quando, como acontece com praticamente todas, não são para levar a sério) e os jornais de segunda-feira dão o dito pelo não dito: a sobretaxa do IRS mantém-se e, quando muito, em 2016 "alivia-se" por conta de uma mais asssanhada luta contra a evasão fiscal. Os "pormenores" para a execução deste tropismo chico-esperto seriam de gargalhada se não fossem o que são e que qualquer pessoa com o ensino básico classificará bem melhor do que eu com léxico à altura. Nunca gostei de circo, mesmo em pequenino, e nunca consegui esboçar um sorriso fosse o palhaço rico ou pobre. Mas tenho um profundo respeito pela profissão. Pelos que a imitam, só desprezo.

12.10.14

É isto

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Após uma maratona tântrica, o conselho de ministros terá aprovado o orçamento para 2015. Percebe-se. Os ministros mal falam uns com os outros, o primeiro-ministro e o seu insondável vice falam apenas o indispensável, o vice e a ministra das finanças nunca verdadeiramente relevaram o episódio de Julho de 2013 e, aos olhos de alguns membros daquele conselho, há alguns outros membros que já não deviam estar lá sentados. É, porém, desta caldeirada turva que precisava emergir um orçamento "misto": eleitoralista e dito de "rigor". Qualquer coisa a meio caminho entre o Terreiro do Paço, o Caldas, a Lapa e São Bento. O ambiente geral, com o BES, a PT e outras trapalhadas mal explicadas a aumentar a desconfiança e a indiferença, é mau. Por ser tão mau, os mortos-vivos do dr. Costa são recebidos sem surpresa como "novidades" e "esperanças". E no PSD "agitam-se" - alguém agita - os tradicionais tigres de papel como o dr. Rio que, talvez pela sua educação alemã, vê-se mesmo que é um homem dado a "compromissos". Em suma, e como diria o protagonista de Platoon, estamos na merda mas estamos vivos o que não deixa de ser uma fraca consolação. «Uma pessoa abre o jornal e começa logo pelo primeiro-ministro. O primeiro-ministro insiste em não dizer quanto recebeu sob a equívoca forma de “despesas de representação”, sem na aparência lhe ocorrer que entre as “despesas de representação” dele e as da rainha de Inglaterra pode haver uma ligeira diferença. Vem a seguir a inefável doutora Paula Teixeira da Cruz, que decretou uma reforma do mapa judiciário, mas não se lembrou de verificar a tempo e horas se ela funcionava e conseguiu desta maneira simples que os tribunais total ou parcialmente parassem – resolveu a coisa pedindo desculpa a meio mundo, na presunção de os portugueses perante esse acto de humildade a desculparem a ela como já tinham outrora desculpado Egas Moniz. Também o dr. Crato, que passa por ministro da Educação, aproveitou o precedente e se precipitou para o parlamento com as suas “desculpas”. Qualquer dia o governo inteiro chega a S. Bento com a corda ao pescoço. Uns por isto, outros por aquilo: todos com um odor a santidade. O dr. Crato, por exemplo, não conseguiu ainda, à sétima tentativa, “colocar” os professores que se “colocam” sempre na mesma altura do ano, que ele, a Pátria espera, conhece muito bem. Consta que um funcionário se enganou numa “fórmula”. Mas não consta que o dr. Crato a tivesse visto e, com o seu olho matemático, corrigido. O sr. Primeiro-ministro acha estes “percalços” normais e abraçou efusivamente o homem em público, para o país ficar a saber. Se continuássemos no Estado, não parávamos. Felizmente que o sector privado não nos priva de escândalos. A falência do banco Espírito Santo (ou de um bocado dele), que prejudicou ou liquidou a vida a muitos milhares de ingénuos, não nos recusou o seu quotidiano fornecimento de angústia. O caso (mesmo na cabeça dos responsáveis) tomou as proporções da queda dos Rothschilds. Os patetas do costume, de que Portugal tem uma gloriosa reserva, declararam rapidamente a sua imorredoira amizade por Ricardo Salgado; e o primeiro-ministro almoçou com José Maria Ricciardi, para presumivelmente o reintroduzir na excelsa seita dos beneméritos do povo. Entretanto, cresceu a intriga e a hesitação no governo e no Banco de Portugal, que os peritos discutem ardorosamente na televisão. A vil ralé, que assiste a este colectivo espectáculo, só gostava que eles todos, do sr. Ricciardi ao primeiro-ministro, se calassem e desaparecessem. Mas já está cansada e com pouca esperança.  (Vasco Pulido Valente, Público)». É isto.

Um casal comum


 


 


A "putinesca" Netrebko perpetrou na tarde de sábado em Nova Iorque - em directo para o fim de tarde e princípio de noite lisboetas da Gulbenkian, o oásis de sempre no meio da cloaca em que permanentemente chafurdamos - uma Lady Macbeth extraordinária. Está quase sempre bem calada, isto é, quando apenas canta e não se põe com gracinhas nos intervalos. Já o Macbeth propriamente dito - Zeljko Lucic, faltam uns acentos que este teclado não possui -, quando foi entrevistado antes dos 3º e 4º actos, afirmou que tinha acabado de endoidecer (a personagem) e que daí em diante a circunstância era imparável. Francesco Maria Piave adaptou Shakespeare para o libreto verdiano e Macbeth, musicalmente falando, "antecipa" (como referiu o maestro Fabio Luisi) muito do que se seguiu. Todos temos um pouco deste casal divinamente demoníaco. No clip, Lady Macbeth/Netrebko está já completamente louca (sorte dela) e caminha para a morte depois de ter feito o que achava que lhe competia fazer. Deixa um lastro de sangue, volúpia e ambição realizados até ao paroxismo. Macbeth e a sua Senhora sobrevivem-nos enquanto sublimes representantes da eternidade do mal  - na peça do inglês e na ópera de Verdi. Ou julgam que isto de andar por aqui é só miosótis e óculos de sol?


 


Adenda: «De onde emana tanto talento? À opulência vocal junta-se a fisicalidade que destila sexo. Na cama, no chão, fodendo o marido, manejando uma lâmpada crua e encandeando-nos, ou sonâmbula, a atravessar uma correnteza de cadeiras, não há obstáculos que a impeçam de casar o vocalismo com a psicologia do papel. Basta observar a maneira como atravessa o palco para se perceber o que lhe vai na alma e na mente.» (Jorge Calado, Expresso, 11.10.2014)

10.10.14

O "compromisso"


 


«O dr. Cavaco, Presidente da República, veio dizer no “5 de Outubro” que o sistema político português estava em risco de implodir. O sistema político, reparem – não o sistema económico. De acordo com S. Exa., os males que levariam a essa tenebrosa catástrofe são dois. Primeiro, a distância entre o parlamento e o governo de um lado, e do outro a indiferença dos portugueses pelo regime aumenta dia a dia. Segundo, os grandes partidos (o PS e o PSD) não têm uma “cultura de compromisso” e não se querem, ou não se podem entender. Estabelecido isto, o dr. Cavaco evita cuidadosamente avançar com qualquer solução, porque essa audácia excederia os poderes que a Constituição lhe concede. Os portugueses ficaram assim um pouco embasbacados e foram como de costume à sua vida. Ninguém explicou ao nosso excelso Presidente que uma parte apreciável do país detesta e teme o que ele considera uma virtude salvífica. Muito bom cidadão não vê qualquer diferença entre o PS e o PSD – teórica, programática ou metodológica – excepto uma franja radical, que vive ainda por volta de 1930. O descrédito dos partidos está mais no facto de eles não se distinguirem do que no facto de se odiarem por causa do monopólio ou da ausência do que o Estado lhes dá ou eles prestimosamente roubam ao Estado. Este arranjo das coisas durou 60 anos na lamentável história da nossa liberdade, talvez não seja familiar ao dr. Cavaco, mas nada o impede de se informar, mesmo que esse dificultoso exercício o obrigue de quando em quando a ler um livro. Quanto à famosa “aproximação” entre as personagens que pastoreiam a Pátria e o nobre povo que nós sempre somos, há uma pequena dificuldade. Os mecanismos que se inventaram para se chegar a esse paraíso de cidadania falharam sempre. O círculo uninominal acabou por se tornar um feudo do deputado do círculo e corromper a própria população: o voto era invariavelmente comprado ou coagido, o recenseamento feito e refeito com o simpático voto dos defuntos (o PS de Braga não inventou nada) e as contagens falsificadas. A famigerada “lista nacional” provou à saciedade ser um óptimo caminho para a ditadura. E a mistura destas várias subtilezas (sobretudo se metiam também a representação proporcional) produziram rapidamente a pulverização dos parlamentos. O nosso Presidente precisa de se acalmar.»


 


Vasco Pulido Valente. Público

9.10.14

Requiem ou Te Deum?


 


Em menos de 24 horas, parece que regressámos ao "programa de ajustamento" relativamente ao qual um relógio instalado no Largo do Caldas, em Maio último,  mostrava segundo a segundo a proximidade da "libertação". Não é afinal bem assim como esclareceram os drs. Passos e Maria Luís e como mostra o "preparado" para o orçamento de 2015. O orçamento é de profunda austeridade. O que eventualmente possa ser "aliviado" em sobretaxa do IRS será "engolido" de outra forma e por outras alíneas, os rendimentos auferidos por conta de outros, seja na versão trabalhador activo ou pensionista, persistem "congelados" e, a título de "brinde", existe a séria possibilidade de os contribuintes, via CGD, acabarem por ter de dar qualquer coisinha para o peditório BES. O "rentismo" público-privado ou puramente privado, por outro lado, prospera (e, no governo, há quem zele por essa prosperidade) e, certamente, mesmo com o descalabro da PT e do BES à frente do focinho de toda a gente, o ano será pródigo para fechar negociatas que ainda estarão por fechar e deixar abertas as que puderem ser deixadas abertas. Assim como assim, e independentemente dos partidos a que pertencem, há sempre a possibilidade de as pessoas certas se encontrarem nos corredores de um escritório de advogados ou de uma consultora. Vítor Gaspar, a partir de Washington, apresentou um paper ao FMI que desmente retoricamente tudo o que ele, na prática, perpetrou no Terreiro do Paço e que continua a servir de "missal" para o derradeiro orçamento da coligação. Como Gaspar é um poço de ironia, não sei se se tratava de um Te Deum ou de um Requiem. Seja lá o que for, é mau de mais e do mesmo.

8.10.14

Vinte valores


 


Numa terra de bandalhos e de candidatos a bandalhos morais, registo a simbologia ética do gesto de renúncia ao mandato de deputado de António José Seguro. Por muito boas pessoas que a maior parte dos deputados do PS sejam, não seria verosímil o homem voltar a sentar-se lado a lado com quem, com inusitado zelo e durante três anos consecutivos, o quis ver pelas costas. Parafraseando o Michaux, sempre que nos esquecemos do que vale a natureza humana, caímos na tentação de a apascentar e de lhe querer bem. E é invariavelmente o que se paga mais caro nesta vida. Vinte valores.

7.10.14

Os novos monstros

Com demasiada frequência aparecem notícias de idosos mortos em casa cujos óbitos oorreram muito antes de os corpos serem descobertos. Num ou noutro caso já teriam falecido, sozinhos e anónimos, há anos. Mas, este fim de semana, um homem de quarenta anos que entrava pelos ecrãs das televisões todas as noites através das telenovelas, foi encontrado em casa, sozinho, morto há dois ou três dias sem que ninguém tivesse dado pela sua falta. O homem continuava a "entreter" enquanto jazia, cadáver, no pesado silêncio da sua habitação. Para além de uma tragédia pessoal, esta é uma tragédia colectiva. Uma tragédia que, como apontava o cônsul de Debaixo do Vulcão, de Malcom Lowry, não está nos tempos mas nos nossos corações. No mundo das "redes sociais", do contacto "em tempo real" pela imagem e pelo som, triunfa, afinal, o hiper-individualismo (tão bem estudado por Gilles Lipovetsky) e a indiferença. O velho monstro narrador de As Benevolentes, de Jonathan Littell, tinha razão. Fora o ar, a comida, a excreção e, num acesso ironista de boa vontade, a busca da verdade, tudo o resto é facultativo. Os novos monstros "aprenderam" com ele. A morte, como a vida, imita a arte e não o contrário como julgam os mais ingénuos. Não consola.

A queda


 


Bava, Granadeiro, o próprio Salgado et al eram, ainda há dias, os "globos de ouro" da "iniciativa" nacional, os meninos dos olhos de cima dos jornaleiros económicos, "exemplos", em suma, para a "geração de estúpidos mais bem preparados de sempre". Não havia ministros, directoras de revistas cor-de-rosa, porteiros de restaurantes e membros honorários da matilha do espectáculo que não quisessem ser vistos com algum deles. O regime não os privou de nenhuma das suas habituais "distinções". O Doutor Cavaco - estou a vê-lo - enfiou uma faixa pelo busto de Bava abaixo, ao vivo e a cores, numa cerimónia qualquer. De repente, estes homens passaram de bestiais a bestas como acontece vulgarmente no meio artístico que é algo muito parecido com a política e com os meios financeiros, hoje praticamente uma e a mesma coisa. Auditorias "provam" que Bava e Granadeiro foram, afinal, gestores deficientes e quanto a Salgado é o que se tem visto. Os que andaram com eles ao colo, ou de joelheiras para não se ferirem, nunca  terão dado conta que as criaturas viviam noutros "planetas", a saber, a então galáxia PT e o próspero Grupo BES, e que Portugal, na sua endémica pinderiquice, representava apenas uma estação intermediária para o fatal negocismo de opereta? Não enxergo razão para indignações. Os srs. Bava, Granadeiro e Salgado são o que nós somos ou gostaríamos de ser. Até na queda.

6.10.14

Perguntas


 


Como é que o inqualificável Crato se mantém em funçóes? O dr. Passos vê, ouve e lê com mediana clareza? O dr. Portas, sempre tão "fatigado" em relação a certas coisas e tagarela face a outras, não usa da palavra? O Doutor Cavaco não aconselha o dr. Passos a frequentar de vez em quando a realidade ou, em alternativa, não lhe explica, às quintas-feiras, como é que ela funciona ou não?

Dilma da Silva

Os meus compatriotas, de uma maneira geral, nutrem um desmesurado afecto pelo Brasil. Tremelicam e choram de desgosto se vão lá e voltam, ou se nunca foram lá ou se vão lá com uma frequência insuficiente para apaziguar a sua acrisolada ansiedade. Devo ser dos poucos portugueses do meu "meio", por assim dizer, que nunca pôs os pés naquela antiga colónia e que não se sente especialmente deprimido por esse inapelável defeito. Dito isto, e como ali se declina (horrivelmente) o português, às vezes presto atenção aos acontecimentos. A circunstância de a D. Dilma ter ficado apenas a seis pontos do familiar de Tancredo Neves soube-me bem. Dilma é um produto do "lulismo", a praga "PTista" que tomou conta da política brasileira e que transformou um "ideal" generoso em puro negocismo desavergonhado. Algumas das boas "conquistas" iniciais deram lugar a um nepotismo desapiedado que fez soçobrar as esperanças do "país emergente". Dilma está a pagar a factura dessa desbragada demagogia e da sua inépcia como mera "designada" do seu antecessor. Para além disso, não gosta de Portugal que ainda é o menor dos seus defeitos. Mesmo assim, não lhe faltam sabujos por cá o que deve agravar a acrimónia da senhora: precisa deles mas intimamante despreza-os. Oxalá regresse à casinha dela no dia 26.

5.10.14

Acto falhado


 


Outra tragédia nacional é a RTP. Ou melhor, o que resta da RTP depois das infelicidades a que tem sido sujeita pela pusilanimidade dos poderes públicos, por um lado, e pelos seus poderes corporativos internos, por outro. Foi um acto falhado em que participei (mais um) e do qual me afastei voluntariamente quando percebi de que "material" eram, afinal, feitos quer o presidente do conselho de administração que Miguel Relvas erradamente escolheu, quer o "camarlengo" que indicou para director-geral de conteúdos para o "compensar" de deixar de ser administrador. Precisamente os conteúdos que é o que separa o serviço público de televisão de outra coisa qualquer. O "ponto de situação" feito pelo Eduardo Cintra Torres é dramaticamente correcto. «A clique dirigente da RTP só pensa em si mesma. "Serviço público" é hoje uma anedota de que se ri nas nossas costas enquanto verte por ele lágrimas de crocodilo em entrevistas e discursos, a empresa costumava ser defendida pela camarilha, pois era uma garantia do seu próprio poder. Chegou-se agora à situação em que não há nem serviço público nem empresa.»

A cerimónia do adeus


 


O regime, em cerca de uma hora, comemorou melancolicamente o "5 de Outubro". Não merece mais. O que se passou nos anos seguintes até 1926 e, depois, por razões inteiramente distintas, entre 1926 e 1974, basta para evidenciar a nossa endémica improbabilidade histórica. Os quarenta anos que entretanto levamos "disto", a avaliar pelo que disse Cavaco e pela realidade, prolongaram sob outras formas essa improbabilidade. O pequeno evento na sede da Câmara de Lisboa serviu apenas para António Costa encerrar com umas trivialidades de circunstância - Costa aparenta ter um medo que se pela do "futuro" - o seu mandato camarário. Aliás, tratou-se em geral de uma autêntica cerimónia do adeus. No próximo glorioso "5 de Outubro", Cavaco falará pela derradeira vez como PR e, dadas as limitações constitucionais impostas aos finais de mandato, ninguém lhe prestará a menor atenção. Os olhos estarão postos nos candidatos ao seu lugar. Costa ou já estará sentado em São Bento, ou para lá caminha talvez mesmo nesse inesquecível feriado a repôr. Passos ou ficou pelo caminho em Maio ou Junho, ou comparecerá praticamente a título de figura de corpo presente. A dra. Esteves, se ainda existir politicamente, pode fazer como hoje e pura e simplesmente desaparecer. O regime estará tão irreformável e desprovido de "compromissos" (essa coisa esquisita que tanto apoquenta o Doutor Cavaco) como agora salvo em alguns arranjos tácticos circunstanciais em que o dr. Costa é perito. O que quer dizer que não evoluímos muito neste século e picos de "República". No fundo, a "história" destes anos pode resumir-se nesta prosa de domingo de Vasco Pulido Valente, o único que escreveu um livro de jeito sobre a memorável "revolução". «Em 1911, a Assembleia Constituinte da República resolveu que iria passar a ser a primeira assembleia legislativa do regime. Nada a autorizava a isso, mas ninguém se importou. Afonso Costa não tinha ainda tomado conta do partido “histórico”, que fizera o 5 de Outubro, e meia dúzia de facções andavam em guerra para eleger – no Parlamento e no Senado – o seu Presidente. Escolheram Arriaga, um velho meio senil e pouco esperto, supondo que ele não incomodaria ninguém. Coisa em que, de resto, se enganaram. Antes de se demitir, à força claro, andou aos trambolhões de uma ilegalidade para a outra e acabou por estabelecer uma ditadura militar, depressa varrida pela Carbonária e pelos bombistas de Afonso Costa. Bernardino Machado substituiu Arriaga, com a duvidosa legitimidade dessa zaragata. Depois de Bernardino, veio Sidónio Paes (em 1917) também trazido por uma insurreição da tropa. Sidónio revogou a constituição de 1911, inventou outra mais conveniente à sua situação e à sua política, e convocou eleições directas para a Presidência da República. Ganhou por à volta de 500 000 votos, num clima que roçava o terror. Não lhe serviu de muito. Em 1918 foi morto na estação do Rossio por um admirador de Afonso Costa. Por uns tempos, durante a guerra civil de 1919, Canto e Castro, um monárquico convicto, designado pelo governo, conseguiu manter a ficção de que a República existia. Mas quando se restaurou um mínimo de ordem, e prudentemente mudada a constituição, o Parlamento e o Senado alçaram António José de Almeida, um demagogo de feira, à Presidência para acalmar a balbúrdia e conciliar a direita. O “António José”, como lhe chamavam, assistiu à tortura e ao assassinato do seu primeiro-ministro e cumpriu o seu mandato até ao fim, uma façanha de que se gabou muito. Para substituir esta personagem, o estado-maior do partido Democrático (palavra de honra!) chamou Manuel Teixeira Gomes, pedófilo, diplomata e escritor, que não aguentou os sobressaltos de Lisboa e se refugiou nos costumes mais brandos da Argélia francesa. No lugar dele, reapareceu o indestrutível Bernardino, de que o 28 de Maio em definitivo livrou a Pátria. Os sucessivos chefes da Ditadura não tinham nem de facto, nem de direito a menor semelhança com um presidente da República. Como a não tiveram os protegidos de Salazar (Carmona, Craveiro Lopes, Tomás). Só Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco merecem o nome. E, a propósito, não se percebe o que sucedeu à nossa tresloucada Assembleia da República para lhe sair do crânio a ideia eminentemente imbecil de uma exposição de bustos (dizem que horríveis) dos nossos “Presidentes”. Inconsciência? Ignorância? Ou simples prazer de gastar o dinheiro do Estado?»

4.10.14

Imperdível


«Não me interessa o que digam ou quão frequente ou persuasivamente o digam: ninguém poderá alguma vez convencer-me que a vida é um brinde maravilhoso, recompensador. Porque a verdade é esta: a vida é catástrofe. O facto básico da existência - de andarmos por aqui a tentar alimentar-nos e encontrar amigos e todas as outras coisas que fazemos - é a catástrofe. Esqueçam todo este ridículo e tonto sentimentalismo do que toda a gente diz: o milagre de um recém-nascido, a alegria de uma só flor a desabrochar, Vida, És demasiado Maravilhosa para Te Compreendermos, etc. Para mim - e persistirei em repeti-lo até morrer, até cair de borco sobre o meu mal-agradecido rosto niilista e estar demasiado fraco para o dizer: melhor nunca ter nascido do que nascer nesta cloaca. Abismo de camas de hospital, caixões, e corações partidos. Sem libertação, sem apelo, sem «transformações», para empregar uma palavra favorita de Xandra, sem caminho para a frente a não ser a idade e a perda, e sem saída a não ser a morte (...) Nós não podemos escolher o que queremos e o que não queremos e essa é a dura verdade solitária (...). O que quer que nos ensine a falar connosco próprios é importante: o que quer que nos ensine a cantar para sairmos do desespero (...) Mesmo que talvez nem sempre nos sintamos contentes por estarmos aqui, a nossa tarefa é mergulhar, de qualquer maneira: passar a vau por ela, pela cloaca, com os olhos e o coração abertos. E no meio do nosso processo de morte, enquanto nos erguemos do orgânico e voltamos a afundar-nos ignominiosamente no orgânico, é uma glória e um privilégio amar aquilo que a Morte não toca.»

 

O "superior interesse nacional"


 


O Expresso, que em tempos designei pela "bíblia do regime", fornece-nos na edição deste sábado um extraordinário retrato do dito regime. Sem nunca verdadeiramente ter abandonado a "democracia", a plutocracia domina. Do "caso BES" ao "caso submarinos/Pandur", do "caso "Tecnoforma/CPPC" ao "caso Citius" passando por esse descalabro inominável que responde pela sigla Crato, dá ideia que a coligação - que é, pormenor porventura secundário, o "governo de Portugal" - entrou num declínio irreversível apesar da generosa teimosia do dr. Passos. Até uma comissão parlamentar de inquérito veio ampliar o buraco negro em que a "situação" vive, com um relatório de 400 páginas apenas destinado a fingir que nada se passou de extraordinário em matéria de "aquisições militares" e de contrapartidas de há cerca de catorze anos para cá. Especialmente há dez quando o dr. Portas morava no Forte de São Julião da Barra com vista para o Tejo e tudo. Julgo que até o dr. Nuno Melo, cuja prestação na comissão de inquérito parlamentar ao BPN foi amplamente meritória, esteja corado de vergonha com esta publicidade política indirecta ao velhinho "Omo lava mais branco" presidida pelo seu correlegionário Telmo Correia. Depois, como se o país estivesse "bem, muito obrigado, e recomenda-se", PSD, CDS, primeiro-ministro, vice e ministros aliviam-se na praça pública, directamente ou por interpostos jornalistas amigos, uns contra os outros. "Não queres baixar o IRS? Então toma lá mais um bocadinho de Tecnoforma". "Andas a falar de mais em reduzir os impostos mesmo com essa treta da "moderação fiscal"? Toma lá com o Trident e um Pandur para amostra". Edificante, não é? Como se isto não bastasse, um secretário de Estado, o dr. Castro Almeida dos "fundos", entregou a privados a escolha dos gestores que hão-de encarregar-se da distribuição da boda como se a administração pública, de que ele faz parte enquanto gestor político, não existisse. Não muito longe desta peça, o artigo de Miguel Sousa Tavares sobre o livro "Os Facilitadores", de Gustavo Sampaio, parece tragicamente comentá-la. Finalmente, e depois de uns tímidos sinais emitidos em pequenas comarcas (5%), o Citius prossegue, de mãos dadas com a dra. Teixeira da Cruz, o seu caminho das pedras. De Crato nem vale a pena falar porque os factos criados por ele falam por si. O Doutor Cavaco, quando o apertam com estas "minudências" (a falência trágica de um sistema e de um regime à conta destas mesmas "minudências"), costuma esclarecer que só se move pelo "superior interesse nacional". Onde é que o Doutor Cavaco vislumbrará o "superior interesse nacional" nas manobras alarves desta gente?

Quem vem com ele


 


«Com certeza não ocorreu a Costa que os portugueses queriam remover Seguro da sua vida, mas também estavam fartos das personagens secundárias, que desde 1976 ajudam à missa. O apadrinhamento de Costa pelas relíquias do PS (Mário Soares, Almeida Santos, Jardim e Alegre) não anunciava nada de bom. A pesca miraculosa de amigos de muitas famílias, que só se distinguem na vida pública pela sua idade e pelo sossego com que atravessaram a democracia, piorou as coisas. Quando a procissão sair do adro com a velha tropa à frente, tropeçando e tossindo, não haverá um único cidadão activo que lhes conceda a mais remota confiança. “Lá voltam eles!”, dirão desconsoladamente os basbaques do costume. “Isto não muda”. Como, aliás, no PSD, não se ouve no PS um nome conhecido pela sua importância autónoma. Parece que nem um médico, nem um advogado, nem um arquitecto, nem um empresário jamais se dignou a pôr os pés no casarão do Largo do Rato. E parece pior. Parece que o mundo do Largo do Rato não comunica com o mundo do cidadão comum. Existia uma esperança, embora ténue, de que a Câmara de Lisboa tivesse transmitido a Costa uma noção do que sucedia cá fora. Seguro até garantiu que ele não largava “a janela”. Talvez não largasse. O pior é que o “novo rumo” com que ele sonhava era a manifestação de “carbonários”, que, em 1910, para nosso mal, proclamou a República. O cozinhado de facções que António Costa esta semana perpetrou (e se prepara para continuar) não anima ninguém. A mediocridade ganhou.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

3.10.14

«Quem é ele?»


«O país não o conhece. Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, era um brilhantíssimo aluno na Faculdade de Direito. Depois trabalhou no escritório de advogados de Jorge Sampaio, Vera Jardim e Júlio Castro Caldas. E a seguir (suponho) na Assembleia da República. O que não o distingue dos milhares de indivíduos da classe média e da idade dele que tentaram a mesma carreira. Esta bagagem típica e ligeira mostra só a superfície do homem. Para falar francamente, e tirando o seu desatinado amor pelo PS, não há maneira de apurar o que ele pensa: sobre a situação da Europa e do mundo, sobre a farsa da reforma do Estado, sobre a dívida e o défice, sobre a educação e a saúde, sobre a Segurança Social e por aí fora. Por mim, e sem maldade, desconfio que muito bom português votou num buraco. Seja como for, António Costa talvez se pudesse revelar (e é de uma revelação que no fundo se trata) através da gente que goza da reputação (neste momento invejável) de o ajudar e aconselhar. Acontece que os jornais trazem umas dezenas de nomes, mas nem um único tem uma reputação nacional e, com meia dúzia de excepções, quase todos seguiram a via-sacra, que o próprio Costa no seu tempo seguiu: partido, adjunto (ou assessor), uma freguesia qualquer, uma ignota secretaria de Estado e expedientes do estilo, perfeitos para provar a “fidelidade” ao “chefe” e para o servir. As “primárias” substituíram o deserto que rodeava Seguro por outro deserto, que não animará o país daqui a três meses.»


Vasco Pulido Valente, Público

2.10.14

O caminho das pedras


«As circunstâncias que têm afectado no último mês o sistema de justiça vão, com certeza, adensar as dificuldades do caminho da recuperação que sentíamos nos índices de confiança [na Justiça]. A tarefa será agora mais difícil e premente. O caminho que temos de caminhar é, sabemo-lo bem, o caminho das pedras.»


Henriques Gaspar, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça

A coisa promete


 


Acordei ao som de Marinho e Pinto na antena1. Passavam excertos de uma entrevista que seria transmitida mais tarde. Designou o dr. Costa por "eucalipto" - não soma, seca -, acenou para a possibilidade da chegada do verdadeiro "pântano" (com Costa e Guterres) e insistiu na retórica da separação da política dos negócios. Pelo "ambiente", já se percebeu que estes, os negócios - passados, presentes e futuros - serão amplamente chamados à colação na campanha eleitoral para as legislativas. Desde os "grandes negócios" aos mais ligeiros esquecimentos e "constrangimentos". E também já se percebeu que Marinho e Pinto (e seguramente alguém mais "estruturado" do que ele ao seu lado) fará disto, e de outras coisas, uma bandeira populista e "ética". A impopularidade do regime, traduzida nas últimas eleições europeias e pelos "estudos de opinião", acabará por prejudicar até os recém chegados que nunca realmente deixaram de fazer parte dele como o referido Costa. Dentro da coligação, os pratos começam a servir-se mutuamente frios com "condimentos" para todos os gostos e feitios. Também a gestão política dos fundos comunitários até 2020 pesa muito nesta trôpega balança. O "ambiente", aos poucos, ficará "irrespirável" como em 1985 quando Cavaco e o PRD "abateram" o "centrão". Cavaco sabia que tinha dinheiro e queria gerir os fundos de então. O PRD contentava-se em "diminuir" o PS "soarista" e em servir de "muleta" ora ao governo minoritário, ora ao partido de Constâncio. Acabou tudo em dez anos de "cavaquismo" absoluto. Agora é diferente. Aconteça o que acontecer daqui até às eleições, não se almeja qualquer tipo de "absolutismo" salvífico. O que Marinho e Pinto veio dizer é que fará tudo para o impedir e que vem para "denunciar" a impotência do "arco da governação" e do Presidente da República. Apontará o dedo "justiceiro" e equânime da responsabilidade a todos pelo "estado a que isto chegou" e fará promessas "negativas" a uma opinião pública farta das outras. Quando o disserem desacreditado, ele responderá que seguramente está bem menos do que os que têm andado por aí nos derradeiros trinta e tal anos. E jogará oportunamente dois ou três "trunfos" para a troca. A coisa promete.