
Em Portugal abunda a tendência para a centrifugação rápida das poucas formas de vida diferente que andam, ou andaram, pela política. Enquanto não "repõem" a "normalidade" com uma ecologia de gnomos subservientes ou de inteligência única, não descansam. Se, por exemplo, olharmos para os "comunicadores" que em geral comunicam em nome dos respectivos partidos (filiados ou afins), o afunilamento cerebral é confrangedor. Para o governo, e à medida que saem algumas criaturas com modos diversos de autonomia e de expressão crítica razoáveis, entra a "rapaziada" dos partidos da coligação que já desesperava não poder assistir em directo ao afundamento anunciado. Aproveitam-se poucos dos que estavam. O que sempre não se recomendou politicamente, como o gabinete do primeiro-ministro, parece estar ainda pior como se pôde constatar pelas trapalhadas retóricas do chefe do governo na primeira sessão de debate do orçamento. São como os pavões dos jardins de São Bento: cada um pupila para seu lado. Aliás, o que apanhei do dito debate revelava uma impreparação geral e uma indiferença pelos resultados do que se está a discutir que chegam a ser obscenas. Todos, governo e oposição, já só olham gulosamente para o acto eleitoral por vir como se não houvesse vidas sem módicos de qualidade de vida fora do plenário do antigo convento. Tem, pois, razão Manuela Ferreira Leite quando lembra que «se me tivessem ouvido certamente que o país não estaria como está. Nesse tempo chamavam-me Cassandra considerando que eu era um arauto do pessimismo. Também me recordo que no meu próprio partido aquilo que eu dizia em alguns casos era considerado aselhice política, porque se considerava que eu devia dizer o contrário. Por outro lado, nem sempre todo o partido esteve de acordo comigo e em alguns casos esteve com PS. Não esqueço os silêncios do meu partido e do partido da oposição. Se a política é só isto não vamos longe.» Não vamos mesmo.
Adenda: Anda um tipo uma vida inteira a produzir auditorias sobre diversos sectores públicos (claro está, dentro da execrada administração pública ou através da Comissão Europeia na longínqua América Latina, o mais próximo de nós nestes "costumes"), quando, parafraseando o Rui Unas no final de Os Imortais, se descobre que há sempre uns "auditores" mais "auditores" do que nós. Este país derrota.


























