31.7.14

Pragas de verão e a vaca do dr. Costa

Para quem é "remediado" e, por consequência, não pode isolar-se em piscinas, praias, pradarias e coisas semelhantes em regime estival de apartheid, a convivência com três ou quatro pragas é inevitável. Criancinhas que andam pelo seu próprio pé ou que são transportadas em autênticos autocarros vulgo carrinhos de bebés, jogos de bolas de diversas dimensões, adultos a falar alto uns com os outros e ainda mais alto com as criancinhas raramente em número nunca inferior a duas, carros que circulam em vias pacatas como se andassem numa autoestrada, etc., etc. A estas pragas, por assim dizer, da "loucura normal" do "bom povo português", juntam-se este verão outras duas: o BES e o dr. Costa. O dr. Bento já deve estar arrependido de ter pegado naquilo. E estamos a falar do antigo conceito de "boas famílias". Imagine-se se não fossem. Presumivelmente o tema ainda acabará por passar pela Carregueira. Por sua vez o dr. Costa anda para aí a debitar banalidades atrás de banalidades que parecem tiradas da redacção sobre a vaca que ele escreveu na 3ª classe (isto para lhe dar alguma margem de literacia). Se é com a descrição pueril da vaca que o homem pretende vir a pastorear a pátria, estamos servidos. Para o efeito, aliás, já temos o croupier dr. Passos, a sua monomania anti-trabalhadores do Estado e pensionistas e a "pipa de massa" que o fatal Barroso lhe depôs ontem nos braços diante de uma mini plateia de basbaques. As vespas ao pé destas pragas de verão são verdadeiros animais de trazer por casa.


 


 


Adenda: Falta só mencionar os nossos gloriosos MCS. Posso não gostar politicamente de Sócrates mas dou-lhe razão. Uma canalhice é uma canalhice. Não adianta adocicar.

30.7.14

Da malandrice

«O Governo já pediu opinião sobre o anteprojecto que vai aplicar uma taxa a todos os dispositivos que possibilitem a gravação de ficheiros, como telemóveis, tablets e até as caixas descodificadoras de televisão.» Por um lado incentiva-se, em nome do "progresso", da "modernidade" e da "globalização", a compra e o uso generalizado destas coisas. Mais. Qualquer criancinha que ainda mije nas cuecas, mais depressa se adapta a um iphone ou a um tablet (basta andar por aí e olhar para o lado) do que a ir ordeira e civilizadamente a um wc ou a pedir licença para sair da mesa. Por outro, "sovietiza-se" esses incentivos. Lendo o resto da notícia, e independentemente dos legítimos direitos autorais, percebe-se porém que o "anteprojecto" é intrinsecamente estúpido e potencialmente perverso: «enquanto as entidades que defendem os direitos de autor aplaudem a iniciativa, há quem aponte o dedo às falhas que o sistema tem pois, por exemplo, parte do princípio de que todos usam os telemóveis ou cartões de memória para fazer cópias de conteúdos. De acordo com o Jornal de Negócios a proposta que o Governo está a preparar ainda está desalinhada com algumas das novas tendências actuais, como o cada vez mais popular armazenamento de conteúdos na nuvem.» É mais sensato parar porque, como remata um personagem no filme Os Imortais do "imortal" António-Pedro Vasconcellos, há sempre um malandro mais malandro que nós.

Putin e a "Europa"


 


Imagino que o sr. Putin não durma a pensar nisto. A "Europa", um autêntico cadáver em férias dirigido por "políticos" e burocratas que mais parecem agentes funerários, aparentemente não se enxerga. Os "alargamentos" são inversamente proporcionais à "dimensão" política dos seus dirigentes. Acham, coitados, que assustam alguém fora de fronteiras quando, na realidade, apenas têm cavado o fosso da "descoesão" interna, vexando sempre que podem (o "podem" é plural majestático) os parceiros sulistas e periféricos que praticamente já só se deslocam a Bruxelas e a Berlim de cócoras. Putin é literalmente de outro mundo. Despreza, como decorre da carapaça eslava, pusilânimes e balões de feiras políticas. Manifestamente não lê a D. Teresa de Sousa ou escuta os luminosos "correspondentes em Bruxelas e Estrasburgo". Joga nos limites da democracia e dos "direitos" de que a "Europa" se julga guardiã. Pobre polícia. A meter-se com um a sério.

28.7.14

O "António dos Desempates"

Reparei, ontem ou anteontem, no dr. Costa a ser beijocado por uma "popular" efusiva que compareceu quando ele chegou, para um repasto, e no final das vitualhas para partilhar os aplausos com um repolho de flores. Os lisboetas que votaram nele só o entrevêem nas televisões e raramente nas funções para que foi escolhido. Ali prometeu venturas aos "velhinhos" - as pensões e as reformas serão repostas e intocáveis. Isto é, Costa ainda nem sequer deu início ao famoso "circuito da carne assada e dos mercados" e já anda a babujar promessas que não faz a mais vaga ideia se e quando pode cumprir. Mais. Juntou, numa "convenção" que o país adequadamente ignorou, os nostálgicos de 2009-2011 simbolicamente representados pelo sr. César dos Açores - antigo vice-rei regional em situação de "desemprego" político aflitivo - o que, para quem espera "mobilizar" Portugal durante uma década (um verdadeiro pesadelo) com tamanhas trivialidades, é poucochinho (a expressão é do dr. Costa em relação ao secretário geral do PS). Apesar de se chamar António, lembra o "Manel dos Desempates", epíteto que o hebdomadário O Artilheiro aplicou a Manuel da Silva Passos, ministro de D. Maria II, que se distinguiu entre Setembro de 1836 e Maio de 1837 por "balançar" entre a esquerda e a direita em nome de uma putativa "fusão" que ele presumia, como este nosso contemporâneo, de "festa e reconciliação nacional". Sabe-se como acabaram, a "fusão" e ele. As coisas tendem a repetir-se.

27.7.14

Bergonzi


 


Esta manhã, ao abrir o Público, deparei com a notícia da morte de Carlo Bergonzi, aos 90 anos, em Milão. Não vale muito a pena "elaborar" demasiado sobre isto. Não porque Bergonzi não é "apenas" um dos maiores tenores do século XX mesmo sem o "físico" ou um apurado sentido dramático. E que praticamente todas as suas interpretações, profusamente preservadas sobretudo pelas editoras Decca e RCA, não sejam indispensáveis para "perceber" os caminhos do canto lírico contemporâneo. É que, de alguma forma, o tempo dos grandes elencos e das grandes "figuras" - da vedeta no nobre sentido do termo e não no em vigor para qualquer lambisgóia assexuada - desapareceu. Quem vai regularmente à ópera decerto não deixará de reparar que, agora, os agradecimentos finais são feitos em conjunto e as entradas e saídas dos protagonistas são, em geral, muito rápidas. Bergonzi pertenceu à geração dos aplausos, dos regressos infinitos e solitários ao palco para os aplausos. A frivolidade "cultural" que se instalou, até na música dita séria, não permite entender esta extraordinária empatia e esta raríssima felicidade. A minha, com Bergonzi e para além das gravações, ocorreu no São Carlos, quando este Teatro era vivo, na temporada de 1982-1983. Bergonzi cantou La Traviata e, numa récita única por causa de uma greve, Un Ballo in Maschera com Cappuccilli. Como se costuma dizer, já não era "novo" mas a voz - e ele é justamente apontado como um verdiano - era "naturalmente bonita", para usar a mesmíssima expressão a que João de Freitas Branco uma vez recorreu para descrever a de José Carreras. Bergonzi possuía um fraseado tímbrico inconfundível qua está aí para quem o quiser apreciar. Ciao, Carlo.

26.7.14

«Merecidos vexames»

 



 


«Não interessa evidentemente comentar o comportamento da diplomacia indígena no caso da CPLP. Como sempre, foi miserável. Nem interessa dizer muito sobre o dr. Cavaco, que ninguém espera que defenda a dignidade da República ou se porte bem numa situação apertada. Mesmo com o dr. Passos Coelho não se pode contar, se lhe acenam com uns negócios para o seu empobrecido Portugal. O petróleo da Guiné Equatorial e a vontade de Angola pesam mais do que qualquer outra consideração presente ou futura. A nós que por aqui andamos a contar tostões não nos faz mal o vexame público do país, que é uma tradição histórica e, pior ainda, um hábito de vida. Embora obedecer ao Império Britânico seja em princípio menos comprometedor do que obedecer a um bando de cleptocratas. Sobretudo quando esse bando de cleptocratas tem razão. O Jornal de Angola escreveu sobre o assunto um editorial, em prosa duvidosa, mas no essencial cheio de razão. Depois de injuriar meticulosamente a opinião de cá (“preconceituosa”, “incoerente” e “estrábica”), o preopinante continua: “Os Media em Portugal praticam diariamente atentados contra a Língua Portuguesa. Nos jornais já se escrevem mais palavras em inglês do que em português. Nas rádios e televisões a situação é (…) pior. Escrever e falar português contaminado de anglicismos e galicismos é uma traição a todos os que falam a língua que uniu os países da CPLP”. Descontando a hipérbole e um certo desconhecimento do que de facto acontece em Portugal, o Jornal de Angola não se engana. Desde 1976 nenhum Governo se ocupou seriamente da defesa da língua. O Dicionário da Academia de Ciências não passa de uma triste imitação do Oxford Shorter, não há uma gramática decente e acessível ao leigo ou um Thesaurus ou sequer, com as confusões do Acordo, um prontuário ortográfico decente e fiável. Também não há uma edição completa e crítica dos “clássicos” reconhecidos, nem a investigação universitária redescobriu a literatura do século XVI ao século XIX, que merecia outra sorte. Em matéria de língua, os Governos ficaram entre a ignorância e o desdém. Ou seja, abandonaram o principal interesse de Portugal e um dos seus melhores meios de influência. Nunca o Jornal de Angola escreveria o que escreveu se nós lhe pudéssemos responder com uma política e uma obra. Mas não podemos.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

Uma constância na decência


 


«O desaparecimento do espírito crítico vem com a frivolização de uma cultura que só procura entreter e divertir, e que se converteu muito mais num espectáculo do que o que tradicionalmente era: pensamento, ideias, uma visão crítica da realidade, da vida e de todas as manifestações das relações humanas. Creio que esse problema – um problema mundial, porque dá-se tanto em países desenvolvidos,como em países subdesenvolvidos – é a maior ameaça à democracia. No passado, a democracia tinha a ameaça do comunismo, do marxismo, de doutrinas totalitárias, mas essas doutrinas caíram por si e não são hoje o perigo maior que tem a cultura democrática. A democracia, o inimigo maior tem-no no seu seio, e é o desaparecimento da cultura enquanto questionamento constante da realidade. (...) Acho que em todas as sociedades há esses heróis discretos que são os verdadeiros heróis. Os da vida quotidiana, não os de uma acção espectacular e passageira, mas donos de uma perseverança e de constância na decência. Numa sociedade marcada por um discreto racismo e por uma discreta indiferença perante os delitos morais, creio que esses heróis discretos são a grande reserva moral que tem um país, mais do que os heróis militares, os heróis épicos.»


 


Mario Vargas Llosa, Público

25.7.14

O cesarismo costista




 


«Costa parece pensar a sua candidatura como o vértice de um triângulo que, além da direcção do PS, inclui a chefia do PSD e a Presidência da República. Daí os patrocínios que esta semana concedeu às possíveis candidaturas de António Guterres à Presidência da República e de Rui Rio à liderança do PSD. Mais do que o candidato da revanche socrática ou de uma quimérica “unidade de esquerda”, Costa gostaria de ser o candidato de toda a oligarquia política – uma oligarquia decidida a restaurar o esplendor do seu poder após três anos de tremor. O projecto pressupõe três coisas. Primeiro, a submissão do PSD, com a redução do seu líder a uma espécie de lugar-tenente do secretário-geral do PS. É esse o sentido da insistência de Costa na “maioria absoluta”: não quer dizer que espere mesmo uma maioria absoluta, mas convém-lhe que se pense que o primeiro lugar será do PS. E a verdade é que, no debate de terça-feira, Rui Rio pareceu conformar-se com a posição, pelo menos ao ponto de secundar a proposta de calendário eleitoral que mais jeito dá a Costa, com eleições legislativas logo em Abril de 2015. A segunda coisa de que Costa precisa é de um Presidente da República devidamente sintonizado. E como retoque final, terá certamente o cuidado de colher alguns malmequeres ao jardim do Bloco de Esquerda, a fim de compensar os entendimentos à direita, como Mário Soares fez em 1978, ao ir buscar Jorge Sampaio quando se aliou ao CDS. O Bloco Costista começaria por condenar e apagar tudo o que se passou nos últimos três anos em Portugal. Passos, Seguro e Cavaco Silva seriam os bodes expiatórios do regime: Passos não devia ter ido “além da troika”, Seguro devia ter feito “outra oposição”, Cavaco devia ter sido “mais interventivo”. Só por causa deles houve recessão, e só por causa deles não houve compromissos. Ou seja, tudo esteve sempre bem: a economia pujante, a classe política sensata. O que tivemos foi azar com os líderes do momento. Com isto, Costa espera fazer recolher ao redil o PSD anti-passista e o PS socrático, responsáveis pela maior parte do clamor mediático dos últimos tempos. O regime voltará, finalmente, a cheirar a consenso. De fora, ficariam o PCP e o CDS: o primeiro para provar, com as suas manifestações, que Costa está a mudar alguma coisa; o segundo para demonstrar, com as suas críticas, que Costa não está a mudar nada. Como qualquer oligarca, Costa traz sempre os cidadãos na boca. A única coisa que lhe importa, de facto, é a organização da elite partidária. Não sabemos se os outros oligarcas estão disponíveis. Talvez estejam. A classe dirigente apanhou um grande susto. Receou pela sua cadeira nos conselhos europeus, teve de aparar as unhas ao Estado social, perdeu alguns dos seus banqueiros de estimação. Costa propõe-lhe agora um grande arranjo (“um compromisso político generalizado”), que seque alternativas e permita reparar “entendimentos”. Seria de facto, como ele diz, “repor a política no comando dos destinos do país”– se por “política”, claro, entendermos os dirigentes partidários e as suas clientelas. A única questão é: como vai Costa pagar tudo isso? Ele não quer dizer. Mas da última vez que esta “política” esteve no “comando”, tudo nos saiu muito caro.»


 


Rui Ramos, Observador

«Um velho erro»




 


«Desde quase há dois séculos que vários Governos decretaram a educação gratuita e universal e, às vezes mesmo, também obrigatória. Este preceito piedoso nunca se chegou a cumprir. Por uma razão muito simples: saber ler, escrever e contar não ajudava a população rural; e a escola diminuía ou anulava o valor económico dos filhos, que sempre serviam para guardar o gado ou malhar o trigo. De resto, como é notório, na Europa nenhum país se esforçou por alfabetizar os seus súbditos (tirando a França, só existiam monarquias), pensando no que hoje se chama “crescimento”. Os protestantes queriam que as criancinhas conhecessem a Bíblia; os jacobinos queriam combater a “superstição” católica; e todos queriam reforçar a unidade da nação e o nacionalismo, no clima de conflito em que se vivia. Por aqui, as coisas foram bem diferentes. Uma parte, embora pequena, da “inteligência” e do Estado, que o iluminismo e, a seguir, o liberalismo influenciou, achava que a educação iria salvar Portugal de um “atraso” insuportável e ridículo. Além disso, a escola e os professores não custavam caro e, gastando dinheiro em tanta obra inútil ou nociva, os Governos, por uma questão de prestígio, não se importavam de fazer aqui o que se fazia lá fora. Não admira que no fim do século XIX o positivismo (na versão corrigida de Littré) se tornasse a ideologia preferida do “progressismo” dinástico e, depois, da República: bastava, segundo essa receita, que os portugueses passassem da fase “metafísica” para a fase “positiva”, para que chovessem sobre eles prosperidades sem número, para espanto e reverência do mundo inteiro. Ainda anteontem, na televisão, o professor Marçal Grilo, antigo ministro, mostrou como o erro pode perdurar, com a frescura de uma ideia nova. Marçal Grilo, como de resto o esclarecido António Costa, veio pela enésima vez comunicar aos papalvos que o maior recurso de Portugal são as pessoas. Evidentemente com a condição de que o Estado as “forme” ou “eduque”. Esta escola de pensamento não conseguiu até agora perceber (e nunca perceberá) que as dezenas de milhares de emigrantes “qualificados” de hoje são o equivalente aos meninos de 1870, que os pais sensatamente guardavam em casa. Uma espécie de beato como Marçal Grilo não se rala com certeza com o capital, a justiça, a fiscalidade e a reorganização do Estado de que a educação precisa para ser de alguma utilidade aos portugueses. Mas que António Costa partilhe com amor esse velho erro não o recomenda a ninguém


 


 


Vasco Pulido Valente, Público

24.7.14

Uma natureza morta


 


O "caso" do dia fez esquecer o ano que passou sobre a tomada de posse do segundo governo de Passos Coelho. O homem "aguentou-se" e, se calhar, daqui a outro ano está mais "fresquinho" para disputar eleições do que a oposição próxima. Nem ele nem esta obterão qualquer maioria absoluta porque o descrédito geral da política junto das pessoas é total e, apesar de tudo, há coisas que não se perdoam. Para manter a coligação, Passos "ofereceu" a cabeça do então ministro da economia, aceitou três irrelevâncias pomposas (Lima. Moreira da Silva e Machete) e fingiu dar alguma importância ao seu pequeno parceiro pendurando-o num Palácio no cargo de vice-chefe do governo para este poder passear à vontade. Maria Luís Albuquerque foi a grande surpresa: ninguém falou mais de Gaspar. O resto, na prática, não existe ou esfarelou-se entretanto. Todavia a indiferença e o receio de pior são, paradoxalmente, as melhores "armas" de Passos Coelho, um homem sem angústias ou inquietações "metafísicas". Não é de olhar para trás mesmo que lhe digam que há devastação, sofrimento e escassez por perto. Só sai no dia em que ficar claro nas urnas que não o querem. Com isto não o pretendo elogiar mas tão somente "descrevê-lo". À distância e friamente como se se tratasse de uma natureza morta.

Já agora

José Gomes Ferreira, na sic, contou que por "iniciativa" conjunta de uma pessoa conspícua no mundo financeiro - presentemente em queda acelerada -, de uns quantos deputados e de uns quantos advogados, tentou-se que o parlamento aprovasse um diploma ad hominem (o homem era o primeiro) para "resolver" uns "problemas" fiscais do agora famoso ex-banqueiro. A coisa borregou e este pobre contribuinte aproveitaria, mais tarde, um regime especial geral sobre a matéria. Na peripécia que alegadamente conduziu esta criatura, em detenção, a um tribunal de instrução criminal para prestar declarações, estará envolvido um tal "Zé das Medalhas". No auge da "revolução liberal", apareciam nomes curiosos como o "Alfaiate Coxo" ou o misterioso "Águia Inglesa" especializado em lançar patacas e insultos das galerias parlamentares. Portanto, em matéria de "Zé das Medalhas" estamos conversados. Mas quanto à primeira parte da história, não. Apesar da recente parceria com a Guiné-Equatorial, o que nos concede uma certa margem de manobra em pulhice político-financeira (ainda mais), conviria saber quem foram os insignes representantes da nação, e os não menos ilustres  causídicos, que se dispuseram a tão benemérita e patriótica "iniciativa" relatada pelo jornalista da sic. Já agora.

23.7.14

Já chega

Com a habitual ligeireza e a demagogia que constituem praticamente o único "património" de uma já longa "carreira", o dr. Portas declarou o IRS da comissão que apadrinhou "amigo das famílias". Maria Luís Albuquerque - que acabou por ser a revelação política positiva dos idos de Julho de 2013 - colocou, como lhe competia, água na efervescência propagandística do senhor vice PM, e dos seu epígonos no governo, quando recebeu o relatório. Imagino que, no meio das privações do "ajustamento", a ministra evite o mais possível pactuar com mais desigualdades desta feita induzidas pela via fiscal. Conhece a realidade - é trabalhadora do Estado, de carreira, e passou por gabinetes de distintas cores políticas antes de ocupar o cargo que ocupa - pelo que não precisa andar a brincar às casinhas e aos casarões para impressionar o "povo" e as "famílias", um conceito propositadamente distorcido na língua de pau do dr. Portas. Já chega.

22.7.14

Perigo público

Estas "provas" são humilhantes até para um analfabeto funcional, quanto mais para pessoas que completaram, pelo menos, licenciaturas. Crato transformou-se inexplicavelmente num desastre político-científico sem precedentes. Não contente com isto, apareceu em directo num ensebado auto-elogio que o deveria envergonhar (e ao governo). É um perigo público.

Bem vindo, sr. Teodoro


 


O PSD acha que "estão criadas as condições" para a entrada da Guiné Equatorial na grotesca CPLP onde Portugal famosamente não manda nada. Com jeitinho, ainda podem "adoptar", a título póstumo, o fantástico Ceausescu já que a língua romena tem umas certas parecenças orais com o português. E não consta que na terra do sr. Teodoro - talvez seja por ele se chamar tão portuguêsmente Teodoro que o ligam à CPLP - se pronuncie uma palavra em "língua oficial portuguesa". Salvo "negócio" que é tão mundana como não ter vergonha na cara.

A "amalgamação"


 


Estes dois lembram Palmela e Vila Real, o duque e o conde respectivamente. Palmela, aliás, arranjou um neologismo patético (como ele) para tentar impor a sua tristíssima "revolução liberal": a "amalgamação". Do termo, na realidade só se "aplicaram" as duas sílabas centrais. Mas as "ideias" e a superficialidade são idênticas. Juntar o que não se pode juntar pela natureza dos protagonistas e das coisas, excluir o que não se deve excluir pelo menos totalmente. Em suma, fragmentar para a seguir falhar e dar lugar a pior. Porque "o compromisso" - que é o que estas almas e porventura o Doutor Cavaco pretendem - é tão entusiasmante como o melão que paira sobre aquelas duas cabeças: mera água, umas vezes mais doce outras vezes mais amarga. Costa, cuja loquacidade política é inversamente proporcional à sua "imagem", parece um mau ministro da coligação a falar: «para "atacar" os problemas do país é preciso "estabilidade e competitividade (...) e isso implica um outro grau na política, partilha de politicas comuns e de investimentos que não podem ser interrompidos", em resumo uma "agenda para a década que permita consolidar objectivos políticos".» E Rio louva-se num oxímoro (acordo/ruptura) digno da "cultura" política da parelha do século XIX: «o acordo principal é o acordo de regime (...) ou nós temos a coragem de fazer uma ruptura ou continuamos num beco.» Cento e oitenta anos depois, não saímos disto. E destes.

20.7.14

São Carlos não cabe no Mercado da Ribeira e na Ajuda


 


Não me recordo de ter ido ao São Carlos nesta "temporada". Aliás, não me recordo de o São Carlos ter tido sequer uma "temporada". Ou desde quando, nos derradeiros tempos, teve ou deixou de ter uma "temporada" digna dessa designação. De repente, ocorrem-me duas ou três óperas em versão de concerto que vi anunciadas nos corredores do Metro,fruto da "consultadoria" de Paolo Pinamonti. Estamos em Julho e, enquanto lá fora as programações estão de há muito anunciadas e calendarizadas, aqui, no único teatro lírico português, nada. Nada a não ser concertos avulsos e uma coisa chamada "Festival ao Largo" que nunca frequentei. Ora o São Carlos não nasceu para isto e, decididamente, não cabe nem na propaganda palonça do Mercado da Ribeira, nem no impasse Barreto Xavier à Ajuda. Como escreveu Jorge Calado no Expresso (suplemento Actual), «houve um fogacho de esperança com a inteligente, bem sucedida e elencada programação de Paolo Pinamonti, mas agora tudo se esvai. A temporada 2014/2015, que devia ter sido anunciada há meses, continua no segredo dos deuses. Creio que é o único Teatro ocidental com programa por definir. Parece que não há dinheiro. Mas arranjou-se para o Festival ao Largo (FAL). Dizem-me que este financiamento é à parte (Opart?), mas quem dá para este peditório dificilmente abrirá novamente a bolsa para assegurar uma temporada decente. Entretanto, ressuscitam-se fantasmas do passado e esbanjam-se energias que deviam estar focadas no desenvolvimento - incluindo a atracção de apoio mecenático - de próxima temporada. Será que a Opart não percebe que um FAL e outras actividades extra e intramuros só fazem sentido como projecção de uma temporada regular e significativa? É o sexto FAL, mas o Teatro apresenta temporadas regulares de ópera desde 1946 - há 68 anos! É aqui que está o "bife" (pão), como diria o outro. O circo do FAL mereceu textos barrocamente empolados da parte dos responsáveis (que parece não saberem que Elisabete Matos cantou a "Tosca" no São Carlos em 2008). Não vi o mesmo empenho em relação à programação de Fevereiro a Junho. Quanto à ideia decantada de novos públicos, há estudos que mostram que não é assim que eles se formam. Quem apanha espectáculos de borla fica à espera de novos espectáculos à borla. Sim, serve para animar Lisboa à noite; já ém no Verão, a capital do barulho. Mas será essa a missão e função (principal) do Teatro? Há organismos autárquicos com essa vocação, e, se o presidente da CML se presta a todos os beija-mãos da brigada da cultura, então que pague extravagâncias como o FAL.»

Os novos devoristas

«A aristocracia liberal não foi um substituto decente para a aristocracia histórica, que lutara por D. Miguel. Quase toda de origem militar, passou quinze anos a organizar “revoluções”, golpes de Estado e pronunciamentos. Era geralmente pobre, vivia mal e, fora um ou outro caso, não se distinguia nem pela educação, nem pela inteligência. Claro que havia meia dúzia de excepções entre a gente que se atropelava por um lugar no governo ou por um comando de prestígio. Mas vinha quase sempre de trás: Terceira, Palmela, Fronteira e o irmão, o conde de Vila Real e mais meia dúzia. Um pequeno grupo que não chegava para “civilizar” a corte ou exercer qualquer influência sobre uma sociedade brutal e beata; e que ele mesmo se sentia deslocado nos novos tempos de agitação e mudança. À medida que o regime da Carta se estabilizou (principalmente depois de 1851) apareceu uma aristocracia de “conselheiros”, com títulos mais do que recentes, que se aguentou até à República. O ódio visceral que Eça lhe tinha, aliás partilhado por Portugal inteiro, acabou por se tornar um lugar-comum da visão ortodoxa do século XIX. Os representantes por excelência desta pouco saborosa raça não deixaram nada que merecesse ficar na memória dos portugueses. E a parte principal acabou em escândalos financeiros, desde a “falência” do marquês da Foz, que financiava o Partido Progressista, aos sucessivos roubos do Crédito Predial, que envolviam os chefes dos dois partidos do “rotativismo” e lhes criaram uma tristíssima reputação. O que é de certa maneira injusto. O liberalismo roubava, mas roubava pouco. Na República, apesar da retórica oficial, ainda se roubou mais. E, durante a Ditadura, se, como é óbvio, Salazar não roubava, deixava roubar. De qualquer maneira, nenhuma das centenas de criaturas que nos pastorearam do século XVIII ao século XXI serviu de exemplo ou educou o gosto da classe média ou da alta burguesia indígena. É este o mistério de Ricardo Salgado. Segundo consta, andava de Mercedes, passava as férias na Comporta com Marcelo Rebelo de Sousa, talvez fosse de quando em quando a Nova Iorque e a Paris, mas não se lhe conhece a menor extravagância ou o menor vício. Os vinte anos de glória do “Dono disto tudo” são anos de funcionário, que se consolava com a ideia imaginária do poder. Para quê, então, os riscos sem nome que tomou? Para quê a arrogância vácua que ele pessoalmente gostava de exibir? Suspeito porque, no fundo, ele não tinha mais nada na cabeça.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

Auto-retrato de um canastrão da política

Da entrevista do dr. António Costa ao Público, retive duas "ideias". Uma, auto-define-o adequadamente como um dos mais duráveis e persistentes "donos" do regime: «devo ser das pessoas que há mais anos consecutivos exerço funções executivas», passe o mau português original. Então vem agora para "mobiilizar" e "mudar" o quê? O chefe do PS? O presidente da CML? A outra, que reforça a primeira, tem a ver com outro partido. Segundo Costa, «se o PSD tiver uma nova direcção, isso é um contributo político da maior importância para a vida democrática». Resumindo, Costa não faz a coisa por menos. Quer, na verdade, ser o novo "dono disto tudo". Força.

19.7.14

À procura do candidato perdido


 


«O perfil do candidato às presidenciais de 2016 tem de ser o de um estadista, segundo os sociais-democratas. “Não pode ser uma pessoa que tenha pactuado com os branqueamentos que aconteceram nos últimos 30 anos”, disse ao PÚBLICO uma fonte do PSD. Um candidato que “esteja acima das suas ambições pessoais”, acrescenta a mesma fonte.» Esta "fonte do PSD" viverá em que planeta? Não há praticamente ninguém no PSD - tal como no PS, sobretudo, ou mesmo no CDS para já não falar, à sua medida, no PC e na extrema-esquerda "parlamentar" que desaguou no desmembrado Bloco - que não "tenha pactuado com os branqueamentos que aconteceram nos últimos 30 anos", seja a nível central, local ou regional. Todavia, convinha que a "fonte" esclarecesse o que entende por "branqueamentos". Dito assim, o que parece que a "fonte" está a sugerir é que não pode haver mais "Cavacos", mais "Sampaios" e mais "Soares" já que Eanes saiu de Belém no princípio de 1986. Dos putativos "interessados", é evidente que, sem um módico de "ambição pessoal", nenhum chega lá. Marcelo só apareceu no último congresso do PSD no Coliseu por causa disso e não para se aliviar com meia dúzia de graçolas. Barroso não pára de ir e vir, até mesmo a locais remotos da "província" para descerrar lápides com o seu nome, pelo mesmo precaucionatório motivo. Rio anda a ver se "cresce" do Porto para baixo, qual Fabrizio del Dongo perdido em plena batalha, e Santana Lopes, nos intervalos da sua boa prestação como provedor da SCML, não pensa muito legitimamente em outra coisa. De todos, Santana é, em certo sentido, o mais livre e o mais estimulante até pela maneira como aprecia "desconstruir" politicamente os restantes três. A sua maior limitação, quase do foro freudiano-político por causa do que aconteceu há dez anos, consiste em representar o PR como uma espécie de alto comissário do regime "subordinado" ao primeiro-ministro. Ora ninguém vota para eleger um mordomo. Mesmo assim, a entrevista que concedeu ao Expresso é muito inteligente - oxalá o PSD da "fonte" a "saiba" ler - e ajuda a colocar Santana num futuro político necessariamente distinto da aridez e da mesmice do presente e do passado do regime. Com a vantagem de, com a sua autenticidade tantas vezes ingénua e voluntarista, não ter de ir a correr "branquear" coisa alguma.


 


Foto: Luís Barra

Destino de uma resma de papéis

Esta madrugada apanhei na sicn uma peça sobre a "reforma do IRS". Um senhor, com ar amável e que não conhecia de lado algum, entregava a Maria Luís Albuquerque uma resma de papéis. Sorriam um para o outro enquanto eram fotografados na transumância da coisa. Presumivelmente "aquilo" era a "reforma do IRS" proposta por uma comissão a que presidiu a amável criatura. M. L. Albuquerque sentou-se diante dos jornalistas presentes, ladeada pela criatura e por um secretário de Estado, e colocou tudo no condicional e na dependência da redução da despesa. O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, quando chegou a sua vez de falar, praticamente retirou o condicional. A ministra a seguir parafraseou-o de acordo com o que ela própria já tinha dito. Paulo Núncio voltou a usar da palavra para repetir o que ele próprio tinha dito, mas de uma maneira que "concordasse" minimamente com a paráfrase que o antecedeu. Em suma, a resma de papéis desapareceu tão depressa quanto a "reforma". Ou vice-versa.

Costa e a "cultura"

«António Costa prometeu um ministério da Cultura, para quando fosse primeiro-ministro. O conúbio torpe entre a esquerda e o pequeno grupo de pessoas que nos pretendem aprimorar a alma é velho mas dura. A esquerda procura nele a autoridade supostamente superior do “intelecto” e o “intelecto”, quase sempre analfabeto em matéria política, procura algum dinheiro do Estado para ir vivendo. Esta concorrência de interesses talvez traga a Costa uma certa boa vontade na televisão e nos jornais. Infelizmente, assenta em dois postulados falsos. Primeiro, o de que o apoio do “cinema”, do “teatro” e de uma ou outra espécie de “organizadores de eventos” ainda vale meia dúzia de votos de um público céptico e hostil. Segundo, o de que um ministério da Cultura serviria um propósito útil num governo português. O Ministério da Cultura trata no essencial de duas questões: do património cultural e de actividades que passam por “culturais”. Se houvesse alguma lógica nestas coisas, as duas partes seriam claramente separadas, para que se pudessem definir as funções de cada uma e, o que também interessa, para uma maior limpeza de contas. A defesa do património, que vai da Biblioteca Nacional de Lisboa ao mais vago arquivo de uma câmara do interior, da promoção de um dicionário de Português decente e uma edição crítica dos clássicos da língua, e que deve, por exemplo, incluir o salvamento do património construído e dos centros históricos da cidades, precisa de um razoável corpo técnico e de relações permanentes com a Secretaria do Turismo* e com os municípios**. Quanto ao resto, as várias formas de “actividades culturais” põem à partida um problema de princípio. O ministro da Cultura é um funcionário político e, por isso mesmo, incompetente para tomar decisões de natureza estética. Mas, quando decide nomear um júri para escolher os filmes que o Estado irá financiar ou protege um “evento”, que acha particularmente interessante, acaba precisamente no papel “iluminado” de um “mecenas”, pago pelo contribuinte. Ninguém se incomoda com esta aberração e as clientelas uivam à porta do ministério, quando não se tentam mutuamente liquidar. A solução para esta vergonha está em eleger de entre a “inteligência” activa um conselho geral, que distribua a espórtula das Finanças na praça pública e permita que os próprios discutam os critérios que ele usou.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


*Para o efeito era necessário que a secretaria de Estado do Turismo (e Costa enquanto presidente da CML em part time) não tomasse este exclusivamente por um permanente ancoradouro de paquetes de luxo, de rapaziada low cost disposta a invadir Portugal o ano inteiro a troco de uns raios de sol e de uma restauração "barata" que sai cara aos proprietários e aos autoctónes ou como um mero veículo de propaganda torpe de coisas que não existem.


 


**Primeiro conviria "instruir" os municípios acerca da "amplitude" do conceito de qualificação - território, pessoas, instituições - e da utilização de fundos para o efeito.

Não há como um ex-maoísta para descrever outro

Na língua de pau "financeira" em vigor, apareceu recentemente, pela boca de um distinto banqueiro, o termo "abcesso". Ora se há coisa que caracteriza o regime são os "abcessos". No governo, por exemplo, existe um que se distingue pela inoperante galhardia e pela deliberada manhosice, o admirável prof. Crato. Pacheco Pereira, que também "bebeu" a cicuta política do "livrinho vermelho" do Grande Desdentado, "lê" Crato melhor que qualquer um de nós. «A história mais recente e que me fez escrever este artigo foi a desfaçatez do truque que o Ministério da Educação usou para marcar os exames aos professores com três dias úteis de pré-aviso, caindo do céu da surpresa no fim de Julho, com grande estrondo. Na verdade, são teoricamente cinco dias, o mínimo exigido por lei, mas só teoricamente. O truque foi pré-assinar um despacho em segredo, no quinto dia divulgá-lo no Diário da República a contar do dia da sua assinatura, para que na prática faltassem, após o anúncio ser conhecido, apenas três dias úteis até ao exame, 17, 18, e 21 de Julho. Professores que já estavam a receber o subsídio de desemprego, que já estavam de férias, e que não sabiam que iam ter um exame para que é suposto prepararem-se, cai-lhes em cima uma data que é já praticamente amanhã. Nem o gado é suposto ser tratado assim, mesmo quando vai para o abate. Porquê esta rapidez? A resposta é muito simples: para evitar que os sindicatos pudessem apresentar um pré-aviso de greve no prazo exigido pela lei – ou seja, o Governo faz um truque descarado e sem vergonha para contornar uma lei da República, que permite o exercício de um direito. Pode-se ter o ponto de vista que se quiser sobre os exames exigidos a professores que já tinham as qualificações necessárias para ensinar e, nalguns casos, já ensinavam há vários anos. Esta é outra questão e sobre ela não me pronuncio. O Governo pode até ter razão em querer os exames e os professores não ter ao recusá-los. Aqui posso ser agnóstico sobre essa matéria. Não é sobre isto que escrevo, mas sobre o pequeno truque, habilidade, esperteza e os seus efeitos de dissolução social como norma de governação. Vai haver quem encolha os ombros e ache muito bem que se pregue uma partida a Mário Nogueira e aos seus sindicalistas da Fenprof. (No entanto, todos os sindicato, mesmo os da UGT, dirigidos por membros e simpatizantes do PSD, estão de acordo em recusar o truque do Governo.) Mas, como a sociedade portuguesa está em modo de “luta de classes”, há aí muita gente agressiva a querer vingança no tempo útil que sobra até o Governo cair. A mó já é a mó de baixo e daí muita raiva pouco contida, que serve de base à indecência. Sim, porque o que é inaceitável neste acto é que o Governo apresente face aos cidadãos um Estado cuja face é o logro e a habilidade grosseira, sem se preocupar um átomo em humilhar as pessoas, poucas que sejam, que precisam de um emprego, numa altura em que ele escasseia. É isto que é a maldade social. Não é que seja obrigatório fazer um exame, que é uma medida de política que pode ser contestada legalmente, inclusive pela greve. O objectivo principal, sabemos nós, é impedir a greve, o que já é em si mesmo grave. Mas, para isso, usa-se discricionariamente as pessoas, atirando-as a seu bel-prazer de um lado para o outro, sem qualquer vantagem social, profissional, pedagógica. O Governo, mais do que testar os conhecimentos dos professores, o que já abandonou pelo caminho, quer discipliná-los, obrigando-os a obedecer, para poder mostrar autoridade. E, como podiam ter a vontade de fazer greve, tira-lhes essa possibilidade legal com um truque. Não é para melhorar as escolas, é para mostrar quem manda. O resultado é que, se houver sarilhos, é porque andaram a pedi-los. Ao tratar-se as pessoas como cães, não admira que elas possam vir a morder.»

18.7.14

Uma "escritora" para dia nenhum


 


«Se, como assinala a ex-ministra e pianista Gabriela Canavilhas na contracapa do livro, «Isabel Moreira não pára de surpreender», é também um facto que existe uma linha de continuidade temática e estilística, substantiva e formal, numa obra vulcânica, sulfurosa, que surge caracterizada por uma cadência torrencial de palavras, aluvião semântico de frases despojadas de sentido que obrigam o leitor a reencontrar-se, mesmo que a muito esforço e sem sucesso algum, com uma textura linguística impermeável à compreensão. Nesse sentido, Apátrida é também uma obra de resistência (talvez melhor, de re-sistência ou mesmo de re-sis-tência), que apela à desistência (de-sistência) do leitor, impedindo, de forma militante e raivosa, a descoberta de um qualquer sentido no arrazoado de caracteres que Isabel Moreira despejou às noites sobre um écran em branco (...) No corpus literário que agora celebra com desnudada e espumante exuberância, a autora debate-se entre «a gaveta mortuária das palavras» (pág. 11) e a «desistência das palavras» (pág. 23), optando por um acto de não-desistência, pelo que este livro, livro-em-devir (work in progress), é também promessa, ou ameaça, de que outras obras virão, assim haja vida e saúde e nós cá todos a ver. A este propósito do ver/não-ver, sublinhe-se que a visualidade é patente nos constantes (des)encontros desta obra com a recusa de qualquer pragmatismo, num escrutínio minucioso, quase espeleológico, da ontologia do Ser (o Sein, à Morais Soares, nº 14, c/v). É dessa inquirição cruciante que Isabel Moreira extrai um dos tópicos mais densos e recorrentes do seu trabalho: deus, um gajo sempre grafado com minúscula. Em metafísico diálogo com um Criador implacável e severíssimo, de matriz conservadora e veterotestamentária, Apátrida imprime à abordagem do divino um sentido agreste de permanente impugnação e desafio, nas franjas da apostasia. Os dispositivos são vários: árvores «tão altas que esmurram deus» (pág. 22), «o choro inútil de deus» (pág. 27), «deus a dar cabo de tudo» (pág. 32), «a cegueira de um tiro de deus amarelo ao máximo ao nosso encontro» (pág. 28, bisando a pág. 102 com «a cegueira de um tiro de deus amarelo máximo ao nosso encontro»). O mais conseguido de todos ocorre sob condições meteorológicas algo adversas, com «deus a mijar-se de medo pelas pernas abaixo naquele temporal» (pág. 98). Neste cruzamento improvável, quase choque frontal, entre a inspiração tutelar de Rui Nunes e o ferrete freudiano do doutor Alves Moreira, a autora adere plenamente ao cáustico, mas na versão Primavera/Verão 2014. Na página 41, aparece inopinadamente um cigano com uns trocos no bolso, que pergunta à plateia: «− posso levar um bacano?». Podes. »


 


António Araújo, Malomil

Ubaldo para todos os dias (1941-2014)


 


«Explicar que sou um grande homem e não digo que sou uma grande mulher pela mesma razão por que não existe onço, só onça, nem foco, só foca, tudo isso é um bobajol de quem não tem o que fazer ou fica preso a idiossincrasias da língua, como aquelas cretinas feministas americanas que queriam mudar history para herstory, como se o his do começo da palavra fosse a mesma coisa que um pronome possessivo do gênero masculino, a imbecilidade humana não tem limites. Sou um grande homem fêmea, da mesma forma que os grandes homens machos são grandes homens machos, fica-se catando picuinha porque o nome da espécie é por acaso masculino e não neutro, como é possível que seja em alguma outra língua, como se a gramática resolvesse alguma coisa nesse caso. Explicar isso, não existem grandes homens e grandes mulheres, existem grandes homens machos e grandes homens fêmeas. Não há nada mais ridículo do que galeria de grandes mulheres isso e aquilo, fico morta de vergonha. A espécie é humana, como Panthera uncius, Panthera leo, um onça, no feminino por acaso, outro leão, no masculino por acaso, questão de língua, exclusivamente. Explicar isso como quem explica a um marciano. A um terráqueo. Escuta aqui, terráqueo, deixa de ser débil mental.»

17.7.14

Omertà à portuguesa


 


«As elites portuguesas não primam pela "ética republicana" e habituaram-se a conviver com uma fórmula que o Exército dos Estados Unidos usava para lidar com os homossexuais: "Don't ask, don't tell." Irregularidades? Negócios suspeitos? Favorecimento de amigos? Tráfico de influências? Não perguntem, não contem. Esta maneira de viver tem consolado todos os comensais e permitido a cada um recolher, à vez, as respectivas fatias do bolo disponível - irmãmente, como se dizia dantes. Foi este regime apodrecido que permitiu que o devotamente chamado "único banqueiro" do país - e hoje tratado como cão pelos que o incensavam - chegasse onde chegou, com o risco enorme de arrastar meio país consigo. O BPN não era um banco sistémico, o BES, pertença do Grupo Espírito Santo, é um banco sistémico. Dito de outra maneira: é como se fosse o nosso Lehman Brothers. E neste momento não se sabe o fim da história. A ideia de que o Banco de Portugal teve um comportamento exemplar - ao contrário do que se tinha passado com o anterior governador, Vítor Constâncio, relativamente ao BPN - é uma teoria que resiste tão bem aos testes de stresse como resistiu o BES durante estes anos de avaliações europeias. Em Fevereiro de 2013 - há quase ano e meio -, depois de o i noticiar o esquecimento de 8,5 milhões na declaração de impostos de Ricardo Salgado, o Banco de Portugal trata de produzir um raro comunicado em que declara toda a sua confiança em Ricardo Salgado. Sim, o Banco de Portugal tinha pedido "explicações", mas depois disso ficou muito satisfeito. Naquela peça não tão antiga assim, o governador afiança que "as informações recolhidas pelo banco não fundamentam as suspeitas lançadas pela comunicação social". Enquanto o poder de Ricardo Salgado parecia imutável, o Banco de Portugal preferiu lançar as culpas para o mensageiro. Não foi o único: este é o modo de actuar da elite portuguesa, que só se distancia dos seus quando estão mortos. O BES é o regime, a crise do BES é a crise do regime.»


 


Ana Sá Lopes, i

A Europa das normas


 


«O efeito da mercantilização da vida é, assim, o de mudar radicalmente a perspectiva que se tem sobre tudo, quer se trate da liberdade, da maternidade, da educação, da democracia, etc. Voltando ao GES, e ao BES, é talvez tempo de se perceber que o aumento desmesurado do poder da banca privada, e da sua perigosidade, na União Europeia, está estreitamente ligado à norma - que é urgente que seja alterada, ela não existe nos outros bancos centrais - que impede o Banco Central Europeu de emprestar dinheiro aos Estados e de impor, para o fazer, a via indirecta da banca privada, permitindo-lhe fazer lucros extravagantes em vez de estimular a economia real. É o que acaba de acontecer mais uma vez com a decisão de o BCE emprestar à banca europeia até Dezembro 400 mil milhões de euros, à taxa de 0,1%. Como comentou Jacques Attali, embora o BCE diga que o que pretende é orientar os bancos para o financiamento das empresas, o que na verdade faz é institucionalizar o financiamento monetário da dívida pública, com benefícios enormes para o sector financeiro e em detrimento do contribuinte, que paga, e bem, por aquilo que podia ter gratuitamente. Como se, depois de tudo o que se tem passado nos últimos anos, os poderes públicos devessem ser considerados mais incapazes de visar e promover o bem comum e o interesse da generalidade dos cidadãos do que os poderes privados. A Europa das normas obscuras tem de dar lugar à Europa das opções claras. Porque esta Europa das normas tornou-se nas últimas décadas o mundo do "não há alternativas", do que tem de ser sem se saber porquê, da necessidade sem justificação nem debate, da decisão sem legitimidade, da autoridade que não se sabe bem de onde vem mas apenas que é imperativo obedecer-lhe, dando à intimidação um papel central no discurso político. A Europa das normas só conhece as regras do cinismo, ela é em boa parte a sua consagração burocrática, o que significa naturalmente, a prazo, a completa desvitalização, ou mesmo o colapso, da própria democracia.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN


 


Foto: AFP

16.7.14

Karajan, para além do bem e do mal (1989-2014)


 


Há vinte e cinco anos, neste dia, Herbert von Karajan recebia uns empresários japoneses na sua casa na Áustria. Viram-no morrer com um ataque cardíaco fulminante. Afirmá-lo como "um dos maiores dirigentes de orquestra de tal e tal" seria uma grosseria imperdoável. Karajan ainda viveu o suficiente na era que transforma burgessos em génios, e génios em burgessos, pelo que deve evitar-se qualquer confusão. Tal como para Cioran Deus seria sempre uma entidade de terceira categoria se não tivesse existido Bach, a música do século XX (e vindoura) não teria sido a mesma - isto é, os compositores e os seus intérpretes - se não tivesse existido Karajan. Intransigente, despótico e autoritário, como lhe competia, traçou a bissectriz ideal entre o pathos e o bathos das suas interpretações. Arrancou às orquestras, e aos intérpretes que dirigiu, sonoridades e fulgurâncias que a maior parte das suas gravações, audio e audiovisuais, preserva. "Manipulou", com uma inteligência musical única, as partituras até ao limite, razão pela qual alguns "puristas" o detestavam e a ele preferiam, por exemplo, um Böhm supostamente mais "certinho". As "integrais" das sinfonias de Beethoven são caprichosamente distintas: não é o mesmo ouvi-lo com a Philharmonia Orchestra ou com a Filarmónica de Berlim nos anos 50, 60 ou 80. Também por causa de uma ainda menina "imposta" como solista a esta Orquestra - Anne Sophie Mutter -, os músicos da BPO e Karajan romperam uma jornada gloriosa de afortunada cumplicidade aparentemente só retomada quase no fim. De Salzburgo a Viena, de Berlim à América, de Beethoven a Brahms, de Dvorak a Holst, de Verdi a Puccini, de Mozart a Donizetti, de Wagner a Strauss, Karajan deixou nos palcos e nos estúdios um legado indisputável, sem epígonos. Músico completo e perfeccionista, cedo absorveu o poder da imagem como demonstrou recentemente um documentário do canal ARTE . Fisicamente baixo, com uma voz roufenha, amante de castelos, aviões, carros e de mulheres mais jovens, o Maestro não era sobretudo "demasiado humano". Uma coisa é certa. Estava para além do bem e do mal e não se confunde com a enxovia generalizada em que tudo se tornou. Quem se habitou a amá-lo desde cedo, não pode escolher melhor companhia. A obsessão feliz pela imagem passava por querer "perpetuar-se" como parte dessa lux aeterna que ilumina a noite do mundo das nossas vidas. Teve todo o direito.

15.7.14

Uma moral

Uma "comissão de reforma do IRS" e outra da "natalidade" decidiram que apenas as famílias - com pais e mães que dêem à luz preferencialmente com relativa assiduidade - merecem a plena cidadania fiscal, ou seja, "deduções" progressivas consoante a vastidão da prole. Os solteiros e os viúvos - não sei se as adopções por estes seres esquisitos para o Estado contam - sofrem uma capitis diminutio para que a fiscalidade possa contribuir, em glória, para o nascimento de criancinhas. Para além de uma questão de direito, isto aparece como uma questão moral. O Estado, afinal, tem uma moral para além das tradicionais "funções" (agora devidamente apoucadas) que o justificam. O Estado não aprecia os seus funcionários, os seus ex-funcionários, os velhos, os solitários e os sozinhos (são coisas distintas) por força da vida e das circunstâncias. Não. O Estado deseja "famílias numerosas" com muitos meninas e meninos ranhosos que possam entrar nas colunas das declarações do IRS. Se os portugueses não fodem, o Estado obriga-os a foder com o elevado propósito procriativo que, depois, dá "desconto" nos impostos. Outra "moral" estilo "a função faz o "órgão". Ou, mais prosaicamente, o órgão tem uma função fiscal. Como dizia o Chateaubriand, é um horror ter de envelhecer num mundo que não se conhece. E que, cada vez mais, se despreza.

13.7.14

Lorin Maazel (1930-2014)

"Combinados"



O Expresso oferecia-nos ontem um menu de "combinados políticos" para os próximos tempos. São treze - curioso número - e se Herculano fosse vivo com certeza lhe daria, de novo, "vontade de morrer". O PS, com Seguro ou com Costa, prodigaliza a maioria dos "combinados" (5 para cada um) e Passos só tem direito a três. De acordo com os autores do cardápio, o "preferido" de Cavaco é o tandem Costa/Rio o que pressupõe a remoção de Passos e de Seguro, este já daqui a dois meses e o primeiro em 2015. Passos, no entanto, pode surpreender e "ficar" com quem está ou "juntar-se" a Seguro ou a Costa, este com a "vantagem", segundo os jornalistas, de ter Miguel Relvas, seu "amigo", como alegada "ponte" para Passos. Portas e Costa também fazem um bonito "combinado" (o regime andou com ambos ao colo quando eram pequeninos) e a dupla Seguro/Portas não é absolutamente desdenhável porque Portas tem sempre pronta uma prova de vida da sua irrevogável "flexibilidade". O pior para Costa e para Seguro é a esquerda embora Costa trate Semedo por "tu". Aconteça o que acontecer no PS - e essa é a "moral" dos "combinados": não há maiorias absolutas para ninguém -, tudo aponta para o rápido encolher do punho esquerdo depois das primárias de Setembro, fique quem ficar no Rato. O dr. Passos tem pois motivos para sorrir baixinho com tanto "combinado" e "meia-dose". Porque, ironicamente, é o único em sérias condições de apresentar um "prato completo".

Ruínas sobre ruínas





Há perto de trinta anos, mais propriamente em 1983, Vasco Pulido Valente publicava no vespertino A Tarde o artigo da foto. Na altura, o país já tinha passado pelo PREC, pelos governos do dr. Soares, pelos de "iniciativa presidencial", brevemente por Sá Carneiro e pela iimprovável AD do dr. Balsemão. Sobreveio-lhe o "bloco central", com Soares e Mota Pinto, e ainda estavam por vir Cavaco, Guterres, as ADzinhas de Barroso, S. Lopes e Portas, Sócrates e esta coisa em que estamos. Hoje, no Público, Pulido Valente como que recupera e "actualiza" este texto escrito quando o "25 de Abril" era ainda uma criança (9 anos) e não o "quarentão" frustrado e indemne de 2014. «Para a minha geração, que vai agora morrendo, o “25 de Abril” chegou a tempo. Andávamos pelos 30 anos, com uma profissão e uma longa vida à nossa frente. Íamos finalmente mudar Portugal. Fazer um novo cinema, um novo teatro, uma nova literatura, uma universidade exemplar e um Estado democrático. Íamos varrer a miséria atávica do país, que manifestamente nos seguiria. Em vez disso, logo do princípio, apareceu o dr. Cunhal e o PREC, com que, no fundo, ninguém contava. Não vale a pena insistir nesse delírio sem sentido, que não durou muito: em Novembro de 1975, as coisas voltaram a uma relativa normalidade. Mas ficou o sentimento da fragilidade das coisas, que só se consolidaram em 1989-1990. Nessa altura, a grande esperança da “revolução” já desaparecera. Cada um tratou, e não mal, da sua vidinha. Da sua carreira e da sua bolsa. Os partidos tomaram conta da política, com uma irreprimível irresponsabilidade e uma corrupção congénita, contra as quais o cidadão comum era impotente. Cada um meteu-se na sua casca e tentou ignorar o que sucedia fora dela. De qualquer maneira, a aventura deixara algum dinheiro e um módico de liberdade: o que aos 50 anos bastava. Por sorte, na sua imperfeição, a nossa época fora como a “Regeneração” e o “fontismo”, uma época “civilizada”, sem guerras civis, sem “ditaduras”, com menos miséria. Infelizmente, a nossa “sorte” incluía também uma certa esterilidade pessoal e a amargura de uma colectiva desilusão. E à nossa volta sucessivos governos criavam as ruínas da nossa velhice.» Ruínas sobre ruínas.

 

12.7.14

O 18 do Brumário em Aveiro?


 


António Costa, o candidato a 1º cônsul do PS, já conseguiu a "proeza" de as sondagens colocarem a coligação dos drs. Passos e Portas à frente das intenções de voto dos inquiridos. Simultaneamente a "popularidade" de Seguro, o incumbente assediado, subiu embora os "estudos" coloquem o edil lisboeta como preferido como candidato socialista a primeiro-ministro. Tudo visto e ponderado, duas coisas parecem certas. Nem as "primárias" serão favas antecipadamente contadas para Costa, nem Costa, caso vença, oferece quaisquer garantias de obter uma maioria absoluta sozinho em legislativas. O eleitorado até o pode preferir à boleia da notoriedade, das cumplicidades e dos media mas não parece disposto a entregar-se totalmente nas suas mãos. Mais. "Pune" o PS por, depois de lhe ter confiado duas vitórias - autárquicas e europeias -, Costa ter aparecido para brincar às casinhas "empurrado" pelos despeitados de 2011 que não perdoam a Seguro ter escolhido o caminho dele. Agora Costa lembrou-se de uma "convenção", à boa maneira francesa, para «"mobilizar Portugal", por forma a "discutir" políticas, "identificar" medidas e "hierarquizar prioridades"» presumivelmente fora do eixo Rua Nova do Almada - Mercado da Ribeira. Curto, como se vê: não se faz, ou tenta fazer, outra coisa há quarenta anos. Carlyle, que via a história a partir da alegada "grandeza" de algumas personagens, caracterizou Napoleão como "um grande instrumento destruído cedo demais antes de se ter tornado inútil". Costa sabe que é apenas contra esta "inutilidade" histórica, à nossa dimensão, que corre. E pouco mais.

Tirar o caso a limpo


 


«O público ingénuo, já que vai tarde ou cedo pagar o custo desta lamentável embrulhada, gostava de conhecer, indivíduo a indivíduo, quem andou metido na longa e perversa relação do Banco Espírito Santo e do Grupo Espírito Santo (e dos seus representantes) com o Estado, que o puseram na presente miséria. Não é pedir muito. É só pedir que a longa irresponsabilidade em que se viveu durante mais de 30 anos seja exposta e punidos os seus principais promotores. Os portugueses gostariam com certeza de saber as linhas com que os coseram (e bem) e deitar a mão à gola de quem andou a mandar neles sem sombra de legitimidade ou vergonha. Calculo as dificuldades desse trabalho. Mas, difícil ou não, não devemos continuar sem ele. Ainda por cima, a famigerada “promiscuidade” do Banco Espírito Santo e do Grupo Espírito Santo não se ficava pelo Estado e, calculo, poucas vezes tinha um carácter formal. Na maior parte dos casos assentava numa intimidade “social” (almocinhos, jantarinhos, férias por aqui e por ali), em que se estabelecia a confiança, necessária aos “favores” que os parceiros se prestavam e às manobras em que colaboravam. O sentimento de impunidade que cobria estes suavíssimos costumes não prometia nada de bom e era uma maneira quase clandestina de governar o país. As dívidas do Grupo Espírito Santo e a queda do valor do BES não passam das consequências naturais de trinta e tal anos de arbitrariedade escondida, em que tudo era literalmente permitido. Esperemos que desta vez se tire o caso a limpo.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

11.7.14

Transparência e retretes


 


O senhor governador do Banco de Portugal - o lastro anestesiante do último e do incumbente não pára de deixar marcas - decretou que reina a "transparência" na opacidade dos Espírito Santo. A "exposição" não é significativa, assevera a componente bancária do "grupo". O próprio dr. Passos, juntamente com o dr. Seguro, ressuma "tranquilidade e sconfiança". O dr. Carlos Costa está para o regime como o Lexotan para os meus dias úteis e inúteis: "tranquiliza". Entretanto um livro conta que o "último banqueiro", o dr. Salgado, recebeu uma prendinha de milhões para "alavancar" um construtor civil em Angola ex-nossa. O dr. Salgado e o seu primo são reputados (cuidado com as segunda e terceira sílabas da "reputação", como recomendava Jorge de Sena) frequentadores do regime. E o regime, pelo menos até há dias, frequentava-os ainda com maior assiduidade. Os seus homens e as suas mulheres andam ou andaram por aí nas mais distintas sinecuras oficiais e oficiosas. Respeitam-se uns aos outros mas, constata-se agora, não se sabem dar ao respeito e merecem famosamente nenhum. Socorro-me, por antonomásia, da poesia de A. M. Pires Cabral e com ele afirmo por Retretes esse "destino" conformado, colectivo e abestalhado de nunca termos tido outro "senão parar defronte de retretes".


 


O comboio pára numa estação remota


que não vem no mapa.


É noite. Quero saber onde estou.


Desembacio o vidro da janela.


Na parede que me fica defronte,


a palavra Retretes.


 


 


Fico sem saber o nome do lugar,


conformo-me com isso.


 


 


Se calhar nunca tive outro destino


senão parar defronte


de retretes.

9.7.14

A diferença


 


O PSD também tem o seu eterno António Costa, o dr. Rui Rio. Até terão porventura os mesmos "apoiantes" no PS e no PSD. Diferentemente de Costa, porém, Rio não parte de Lisboa mas do Porto de onde já recusou, uma vez, a chefia do seu partido. Ora isso, num país pequenino e macrocéfalo, faz muita diferença.

Sob escombros


 


Confesso que me deu um gozo indisfarçável a derrota humilhante do Brasil, "anfitrião" de um absurdo "mundial" de bola, perante a Alemanha. Ainda há dias caiu um viaduto a meio caminho de um dos não sei quantos estádios construídos sobre a miséria brasileira. O viaduto, que nem sequer esteve pronto a tempo do "mundial", é uma trágica imagem de uma falácia alimentada pela plutocracia democrática - ex-esquerdista e agora convertida ao pior dos capitalismos - do PT de Lula e da D. Dilma. Não sendo propriamente das esquerdas, faz-me impressão que alguns que se dizem delas se revejam nestes novos "heróis" do chico-espertismo mundial e do negocismo anónimo. Mas o deslumbramento é transversal, sobretudo entre nós, onde muita gente sonha chegar a Lula quando for grande e ter, eventualmente, uma casinha em Miami ou parecido da qual irradia para conferências, prémios e colóquios sobre as tradicionais "temáticas" da correcção política. Scolari, o treinador do infortúnio, passou por cá e terá alegadamente deixado um edificante calote fiscal que os contribuintes domésticos acabarão, se for o caso, por pagar. Não é sequer por deficiência profissional, mas tenho asco daqueles que torneiam as suas obrigações tributárias. E ainda mais asco dos que olham embevecidos e com inveja para os primeiros por não poderem, ou não saberem, fazer o mesmo. Todavia, em noventa minutos tudo ruiu e os autoctónes - não a nomenclatura "petralhista" ou os "scolaris" deste mundo - acordaram (verdadeiramente nunca se deixaram adormecer) para a sua triste realidade. D. Dilma, que nos detesta do alto daquele seu arzinho petulante e vazio, vai ter muito adequadamente que penar. Como escreveu Vasco Pulido Valente quando esta treta começou, «o Brasil arranjou maneira de fazer doze estádios, ainda em construção ou de qualidade duvidosa, e gastar milhões com a segurança da rua e dos turistas. Ficará o mundo com mais respeito e admiração pelos responsáveis de uma extravagância sem explicação e sem desculpa? Não me parece. A Interpol até fala em “jogos combinados”, coisa nunca vista, e ao lado do futebol os combates quase diários do exército (repito, do exército) e dos manifestantes “anti-Copa” mostram bem a sociedade caótica e corrupta em que as festividades decorrem. Vale a pena por um espectáculo efémero provocar as cenas de violência que as televisões passam e revelar o verdadeiro atraso de um país que não se consegue governar?» Viu-se. E não há-de ficar por aqui.

8.7.14

Uma trupe como outra qualquer

Ontem, num telejornal, passou uma peça cujo tema era "600 individualidades apoiam António Costa". As "individualidades" seriam fatalmente da "cultura" e não fazem a coisa por menos: "A Cultura apoia António Costa". Ou seja, aquelas almas tomam-se pela "cultura" toda e, atenta a pinderiquice em que tudo é e se reforçou nessa matéria nos derradeiros tempos, não vem mal ao mundo que o suponham. Assim, de repente, avistei duas ex-ministras, uma da dita "cultura" e a outra da "educação", que representam dois monumentos vivos da inutilidade dos respectivos exercícios políticos por conta de um executivo socialista. Também topei o dr. Lacão que talvez bem espremido prodigalize uma "personalidade da cultura" ao nível de um Acácio do século XXI. Ou a Vasconcelos do cacilheiro Trafaria cuja desmesura das suas "criações" é o contraponto perfeito da pequenez rançosa da maior parte desta gente. Até reparei numa pessoa que, ainda há dois anos, pretendia do então ministro da tutela nada mais nada menos que a escolhesse para dirigir um canal da RTP. Mas a "vedeta" presente, para as televisões, era um empresário que manifestou de viva voz o seu acrisolado afecto a Costa. Não é um empresário qualquer. Faz parte da administração de um grupo de comunicação social que ainda agora despediu colectivamente 140 pessoas. Ao apodar Costa de membro da "liga dos campeões" e um "homem de valores", em que "liga" e em que "valores" o empresário estaria a pensar? O resto interessa pouco. São dos mesmos que estão persistentemente no poder, à porta do poder ou do proto-poder, qualquer que ele seja, babujando facilidades, oportunidades e, de novo, poder. Costa, que não é parvo, pediu-lhes que espalhassem a boa nova edificada na sua extraordinária pessoa e prometeu-lhes um ministério que, sucessivamente depois de 2000, pelo menos cinco (5) ministros e ministras do seu partido ajudaram a destruir. Ou seja, percebeu que aquela trupe, ensimesmada e "lisboeta" no mau sentido do termo, não lhe serve rigorosamente para nada.

6.7.14

Portugal, o fardo do homem preto


 


O jornal Público traz este domingo um interessante dossiê sobre a pequena (no sentido de rasca) história da "adesão" da Guiné Equatorial à CPLP. A CPLP sempre me pareceu um resquício ornamental da nossa mal resolvida relação com países que foram Portugal. Escudada na defesa da língua (nem isso conseguiram por causa do imbecil "acordo ortográfico" que é rejeitado por quem efectivamente "manda" na pobre CPLP) e de mais meia dúzia de trivialidades democrático-saudosistas, a "comunidade" não passa de um pretexto frívolo e inconsequente para o Portugal "actual" lavar alguma eventual má consciência "colonialista" que possa ter sobrado dos idos de 70 do século passado. Mesmo que essa má consciência inexista, alguns dos parceiros da "comunidade" estão permanentemente dispostos a recordá-la quando lhes convém. Foi agora o caso com a chegada da ditadura do sr. Obiang à CPLP. A figura pusilânime de Portugal neste processo, agachado diante dos seus "parceiros", dá uma imagem eloquente do "Portugal contemporâneo": um lugar tomado pelo negocismo, pelos interesses e pela irrelevância política que aqueles se encarregam em colocar ao seu serviço. O MNE, fora as "recepções" e os croquetes, foi substituído no seu funcionamento político-institucional pelas consultoras, pelos videirinhos e pelos escritórios da advocacia de negócios "especializados" em África e Brasil. De vez em quando aparece a AICEP, com o inocente Frasquilho à frente, para a coisa não parecer tão descarada. Alguns ex-MNE's, como Martins da Cruz, António Monteiro ou Luís Amado, participam alegremente nestas "actividades circum escolares" da "comunidade" e raramente pelo lado do país do qual foram chefes da respectiva diplomacia. Aliás, Amado ou Portas, para nomear apenas os MNE's mais recentes (Machete é mero corpo presente, não conta nada), bastam nesta edificante peripécia política que conduzirá o glorioso Teodoro ao convívio da "comunidade" por causa do temor reverencial do regime perante as antigas colónias, da América latina e África a, imagine-se, Timor que tanta honesta lágrima fez derramar a tanto crédulo. E, fatalmente, por causa do instinto rapace de sobrevivência próprio de periféricos sem vergonha na cara. Como escreve Miguel Sousa Tavares no Expresso, «foram, de facto, décadas de política externa que consolidaram uma prática que faz com que a nossa diplomacia não seja respeitada em quase lugar algum», culminando desta vez com «a adesão do Estado criminal da Guiné Equatorial à CPLP em troca de umas vagas promessas de negócios com petróleo e dinheiro para o Banif», «sem que alguém do Governo se preocupe em justificar o que quer que seja, sem que o Presidente da República levante qualquer objecção que se conheça e sem que a oposição faça disto um escândalo nacional.» 

5.7.14

Já chega



A lamentável novela BES aparentemente conheceu o seu epílogo - como envolve uma família desavinda e ambiciosa verdadeiramente não tem um desfecho claro - com a escolha de Vítor Bento para presidente executivo. Leva com ele o dr. Moreira Rato que se distinguiu ultimamente pelas vendas de dívida pública. E também lá há-de aparecer Paulo Mota Pinto numas funções quaisquer, não executivas. O dr. Bento é, segundo consta, uma extraordinária luminária económico-financeira. Esteve para ocupar o lugar de Vítor Gaspar antes de Vítor Gaspar. Defende a ortodoxia orçamental em vigor, embora enxergue para além dela e, sobretudo, é adversário de qualquer renegociação ou requalificação da dívida. Está no Conselho de Estado por indicação presidencial mas deveria abandoná-lo, como lhe compete, nestas novas funções. Assim, de repente, e como escreve o Pedro Santos Guerreiro, parece "bem" desde que não pareça outra coisa. Julgo estar relativamente fresca a lembrança das relações do poder político-partidário, na circunstância socialista, com alguma banca comercial e semi-comercial. Espero que ninguém no PSD e afins pense declinar o mesmo deliberado e perverso equívoco. O derradeiro parágrafo do texto de Santos Guerreiro não pode ter respostas positivas às questões que coloca. Já chega.

Cuidar dos seus

De acordo com o Correio da Manhã, o edil de Lisboa «dá emprego a, pelo menos, quase 30 ‘boys' do PS, muitos dos quais são familiares de deputados, autarcas e militantes históricos do partido. A autarquia justifica as contratações com "a natureza das funções, que exige elevada autonomia alicerçada num pressuposto de compromisso e confiança com o eleito, nomeadamente o cariz político inerente à função." A lista de militantes do PS com emprego na câmara inclui, por exemplo, as mulheres dos deputados Marcos Perestrello e Duarte Cordeiro, também vereador na autarquia, a filha de Manuel Alegre, o marido da autarca de Odivelas, ou a mulher de José Miguel Medeiros, ex-secretário de Estado de Costa no Ministério da Administração Interna, que também trabalha na autarquia. A contratação foi feita por nomeação do executivo e contratos de prestação de serviço.» Ontem à noite, em Beja, Costa defendeu a criação de "entidades regionais" entaladas entre os municípios e o poder central o que, enquanto "ideia", é velhíssima e até já foi derrotada num referendo em 1998. Mas que, à luz do que escreve aquele jornal, faz sentido: o sentido de cuidar dos seus.

Embustes

Talvez (ainda) "inspirado" pelos "ensinamentos" de Pol Pot, o conhecido "visionário" cambojano, o prof. Crato decidiu transformar a educação, ou aspectos formais e administrativos dela, num prato de lentilhas. "Reduz-me os professores e dou-te mais uns dinheirinhos", sugere o ministério às câmaras que, em matéria de mercearia, estão em geral dispostas a tudo para mostrar "obra". O prof. Crato revelou-se, para além doutras questões, um dos maiores embustes do actual executivo e um "hospedeiro" do eterno dr. Nogueira que lhe deve chamar um figo. À qualificação Crato preferiu a língua de pau, e a prática, do "financês" e uma "política" errática quando não puramente estúpida. O dr. Passos acha, e bem, que o Estado deve ser "parcimonioso". Todavia, a "parcimónia" pouco passou de uma acrimónia não menos estúpida contra os seus trabalhadores. Tudo o mais, como as "cratices", vem daí sem que se aviste qualquer "reforma" digna desse nome. Ora um Estado depauperado em recursos materiais e humanos pode qualificar o que quer que seja? Ou haverá quem pense - e o uso do verbo "pensar", aqui, é deliberadamente esdrúxulo - que são as empresas, abstractamente consideradas, e os empresários que, fora da usura e do que lhes interessa, vão "apostar" na qualificação? Dizimar o "público" só porque é "público, revela uma total ignorância do país que se governa. Com todos os seus defeitos (dele, país), merecia outra sorte e outro desígnio.

4.7.14

Não existem paraísos artificiais

Há muito tempo que não concordava com Passos Coelho. Mas desta vez o improviso saiu bem. «Não devemos procurar consensos artificiais, não se pode forçar os partidos a pensar todos da mesma maneira e a defender todos as mesmas coisas. Mas há matérias que são tão importantes para o país, no seu todo, que os partidos e as forças sociais têm de manter uma grande abertura e disponibilidade para se poderem entender sobre as questões mais importantes.»

No deserto




«O mundo em que vivemos desde 1948 começa a cair aos bocados; e não se vê um remédio razoável no horizonte. A desculpa tradicional dos portugueses para as suas desgraças costuma ser a de que “também sucede lá fora”. Desta vez, não é mentira. A extrema-esquerda, para efeitos práticos, não existe. O PS, em guerra civil, não inspira confiança a ninguém: Seguro e Costa, com ligeiras variantes de tom, propõem a mesma receita utópica de salvação. O PSD e o CDS falharam e o Tribunal Constitucional não se irá embora amanhã. O Presidente da República, reduzido a pregar o entendimento e o “consenso” a uma multidão política que se odeia, e a um eleitorado na miséria, não serve para nada. Pouco a pouco, o país foi ficando ingovernável, no meio da resignação pública e privada. E não se imagina nenhuma força, ou conjunto de forças, capaz de restabelecer uma ordem e um desígnio. Isto não teria grande importância em tempos normais. Mas sucede que os problemas de Portugal não se resolveram com o programa de “ajustamento”, que se limitou a um exercício contabilístico e recuou perante as verdadeiras reformas. Nem o desgraçado défice se “consolidou” abaixo do que a Europa manda, nem a dívida diminuiu, nem o “crescimento” e o “pleno emprego” saíram miraculosamente da cabeça de Passos Coelho. Voltámos, depois de muita gritaria e autêntica pobreza, à situação de 2010-2011. Com algumas diferenças. O tal “povo que aguenta tudo” não aguentará uma nova dose de “austeridade”. A direita e o dr. Cavaco, que em 2011 eram de certa maneira um recurso, perderam a confiança e o respeito dos portugueses. No deserto de hoje o mínimo solavanco sério é a porta para um desastre como nunca antes conhecemos.»


Vasco Pulido Valente, Público



Foto: Enric Vives-Rubio

2.7.14

Sophia, "uma responsabilidade ética de estar no mundo"


 


Sophia de Mello Breyner é, talvez, ao lado de Vitorino Nemésio (tão parcamente evocado como tal) e de Jorge de Sena um dos poetas fortes do século XX literário português. Se os outros dois fossem, um dia, transladados para o Panteão, acompanhavam-se perfeitamente uns aos outros. Se lá repousa o Junqueiro, essa meia-tijela intelectual nas palavras ácidas de Sena, por que é que aqueles não podem entrar em Santa Engrácia? Entre nós, estas "entradas" no Panteão, apesar de toda a devoção regimental, correm sempre o risco da sua própria caricatura contrariamente ao que que sucede em países como a França, mais dados a prestar à cultura e à história uma atenção que por aqui é quase sempre fruto do descaso. Da poesia de Sophia "falaram" bem alguns seus "confrades" e ensaístas como Óscar Lopes, Joaquim Manuel Magalhães, Eduardo Prado Coelho e, mais recentemente numa peça notável no Expresso, Pedro Mexia. Mas porventura por andar com ele na mão, é a Vasco Graça Moura (Discursos vários poéticos) que peço emprestadas as palavras do título e as seguintes. Porque há nos versos de Sophia um sentido de austeridade, de rigor e de autenticidade, que Graça Moura evoca e resume, um sentido de quem escreve «o poema como o boi lavra o campo/Sem que tropece no metro o pensamento/Sem que nada seja reduzido ou exilado/Sem que nada separe o homem do vivido».


 


«Ela surge, assim, outra vez, na sua nobre voz e no seu vulto frágil, num momento em que a cidade dos homens perdeu o norte e se tornou um pântano em que se respira tanto lixo, tanta porcaria e tanta abjecção. Nunca o que tinha a dizer-nos foi tão imperativamente necessário como agora. Nunca, como agora, precisámos tanto do banho lustral e purificador dos sons da sua lira de oiro e cristal, e dos fustes, dos frisos, das colunas, da justa proporção e da medida, do sonho e da água, do ar cor de safira e da luz que cintilam na sua palavra, atravessando-a e atravessando-nos para nos despoluírem a alma e para nos refundarem em dignidade.»

O estado de dissimulação



A pretexto da substituição de Vítor Gaspar, Paulo Portas apresentava há um ano um falso pedido de saída do governo. Falso porque não só ficou como, apesar de politicamente diminuído pelo primeiro-ministro - que lhe atribuiu a "coordenação económica" do executivo para ele poder andar lá fora a anunciar milhões,"colado" aos investidores privados, e colocar um "homem de palha" de sua confiança no lugar de Álvaro Santos Pereira -, "subiu" na hierarquia formal passando a vice PM. Na altura, naquele dia e até ao fim de semana seguinte no Hotel Tivoli, a pantomimice era "irrevogável" porque, nas suas palavras, "ficar no governo seria um acto de dissimulação" que não era "politicamente sustentável, nem pessoalmente exigível". Viu-se. Esta peripécia patética durou praticamente um mês até à posse do, na verdade, segundo governo de Passos Coelho. Pelo caminho subiram os juros da dívida e o PR hesitou em acabar com a farsa, como devia, antecipando eleições. À distância higiénica deles e de um ano, o "estado de dissmulação" em que o regime passou a viver acabou por "engolir" o seu autor material. Passos "obrigou" o seu vice a ver passar-lhe à frente, e a assinar de cruz, a mesmíssima "receita" que ele alegadamente recusava ver prosseguida com M. L. Albuquerque. Tal como o forçou a estatelarem-se juntos nas eleições europeias. Agora Portas pôe "condições" para renovar o "sucesso" de Maio último nas legislativas previstas para 2015. Está nas mãos de Passos Coelho manter o "estado" a que chegaram e aquele a que previsivelmente chegarão nesse momento. Não o invejo.