Almoçava para o tarde e reparava no inevitável plasma "pendurado" num canto do restaurante. Anunciava - o canal era a SIC - para dia 10, de amanhã a oito dias, o "regresso" de Gabriela, a telenovela baseada no romance homónimo de Jorge Amado. A primeira Gabriela passou na RTP (não havia mais nenhuma) nos idos de 1977, a preto e branco. Espalhou-se o mito da paragem obrigatória do país, político incluído, para assistir aos episódios então protagonizados por Sónia Braga. Talvez fosse verdade. Com as novas "plataformas" de acesso, a televisão é uma coisa que se pode ver, até, no duche e, cabo incluído, com alguns duzentos canais à escolha. Na altura o monopólio pertencia a dois canais concessionados à RTP e Gabriela "passava", lânguida, entre segunda e sexta, a seguir ao telejornal no "canal 1". Esses trinta a quarenta e cinco minutos justificavam um serão o que hoje dificilmente se pode compreender à luz do que acontece na RTP1 depois do telejornal. Na prática, o serviço público prestado pela RTP1 em horário nobre, salvo um dia ou outro, "pára" no telejornal por volta das nove da noite. Mas não era da RTP que me apetecia falar. Era de Gabriela ou do que ela denota enquanto tempo imóvel imperceptivelmente perdido - "le temps perdu", literalmente, entre a adolescência e o agora. Para o efeito colho ajuda nas palavras de Marguerite Duras, em O Amante, na tradução portuguesa de Luísa Costa Gomes e Piedade Ferreira. «A história da minha vida não existe. Isso não existe. Nunca há um centro. Não há caminho, nem linha. Há vastos lugares onde se faz crer que havia alguém, não é verdade, não havia ninguém. (...) Nunca fiz nada senão esperar diante da porta fechada.»
Sem comentários:
Enviar um comentário