25.9.12

Outra conversa




O meu caríssimo Carlos Vidal apoda-me de "direita profunda e obtusa" a propósito do episódio de vaudeville iniciado por Maria Teresa Horta quando, publicamente (realço o "publicamente" porque foi isso que Horta quis, uns vastos minutos de comício político e de assuada panfletária primitiva que nada tem a ver com valias literárias), revelou ao mundo que não recebia nada das mãos de um primeiro-ministro chamado Passos Coelho. Aceito o elogio, a saber, a alegada profundidade do meu direitismo. Nunca fui adepto da técnica das meias-doses e se as esquerdas são as Hortas, então eu sou das direitas profundíssimas. Quanto à obtusidade, não posso rejeitar em absoluto porque nasci e hei-de morrer cheio de dúvidas apesar de não ser um cartesiano. Imagino, todavia, que o ar esteja pejado de obtusos que não conhecem a Horta de lado algum e que, até agora, sobrevivem sem esse acrescento cósmico-epistemológico. A Horta, no seu "devir" literato ou outro qualquer, limitou-se a acrescentar palavras e ruídos ao mundo sem que, no entanto, o mundo se engrandecesse extraordinariamente com isso. Num mundo como o dos livros da Alice, há glória para a Horta mas apenas naquele sentido que Humpty Dumpty atribuía à palavra "glória": nenhum. E, sim, parece que o cheque vai mesmo para casa. Não tem mal. A literatura não circula entre cheques, apertos de mão e comícios. É, como eu e o Carlos sabemos, outra coisa. Outra conversa.

1 comentário:

C Vidal disse...

Parece-me que não tem dúvidas quanto a Teresa Horta.

E parece-me que não leu o que eu escrevi: não falo de "glória" nem "grandeza", não faço juízos de valor, falo de educação.
(Um premiado não é um crucificado.)