
«Um desenho que ilustra as actividades do Manifesto em Defesa da Cultura é todo um tratado simbólico do pensamento sobre a "coisa". Há dois glutões armados de dentes e ferrões, com vários olhos, que atacam uma menina indefesa que cai de alto, com os seus longos cabelos, a dita "cultura". "Acorrei que matam a cultura!!!", nem mais nem menos do que com três pontos de exclamação. O texto do Manifesto de Dezembro de 2011 revela bem a imbricação desta "cultura" com a burocracia governamental, nele se refere o PRACE, o PREMAC, o INOVART, o ICA, a DG Artes, todos os acrónimos usados com o à-vontade de quem conhece bem estes meandros do Estado. O Manifesto é um longo e palavroso exercício dominado pelo dinheiro "não mercantil", ou seja, o do Estado, o célebre 1% no Orçamento para a "cultura". Dinheiro e o modo burocrático como é concedido são as preocupações fundamentais: "Destruição e perversão do princípio de serviço público; estrangulamento financeiro; desmantelamento, redução e desqualificação de serviços; centralização e agregação burocrática de instituições; mercantilização: as políticas de agressão à Cultura seguidas pelos últimos governos criaram uma situação insustentável". A preocupação não se afasta nunca do Estado. Repare-se que não se trata de uma queixa contra a censura, contra perseguições a artistas individuais pelo que fazem ou dizem, mas uma queixa geral sobre a falta de encomendas: ""Austeridade" na cultura não destrói só o que existe, destrói o que fica impedido de existir". E o que "fica impedido de existir" é, entre outras coisas, "a criação contemporânea". O que temem é uma "área cultural (...) inteiramente colonizada, sem alternativa, pelos produtos mercantis, rotineiros e homogeneizadores das indústrias culturais". Dono por dono, preferem o Estado e os governos.»
José Pacheco Pereira, Revista Sábado
3 comentários:
É evidente que Pacheco Pereira tem toda a razão.
Cultura é educação e património, essencialmente: cuidar do edificado, explicá-lo às novas e futuras gerações para que o compreendam e cuidem. Porque só compreendendo-o o podem cuidar e amar. E esse património é a nossa razão de ser como comunidade. A intromissão do Estado é perniciosa - a sua tarefa é cuidar dos Jerónimos e da Batalha e de muitas outras formas da memória colectiva e identitária. Dar dinheiro a freaks é um disparate, porque é dinheirop de todos nós, dos nossos impostos e é política de gosto centralizada, o que é inaceitável. Deveráimso andar por essas terras fora com todos os castelos polidos, substituir a pedraria antiga por bom mármore, acabar as Capelas Imperfeitas da Batalha. Isso é cultura, o resto é política de gosto com impostos de todos.
Grande abraço.
Carlos Vidal
Por vezes Carlos Vidal revela uma sensatez, um bom-senso muito pouco normais na sua área política. Terá dupla personalidade?
O caro João Gonçalves é que sabe:
subscreve Carrilho e Pacheco ao mesmo tempo e não lhes acha nenhuma diferença, nem contradição, nem impossibilidade de conciliação nos termos.
Isso é que é.
O verme António Barreto até sabe quanto custa ao Estado por ano uma cadeira no S. Carlos (que ele não frequenta) - outro peso para o Orçamento que convém urgentemente corrigir, acabar ou concessionar.
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