30.11.12

Imperfeição


 


Um amigo pediu-me para tentar encontrar no torvelinho dos textos de Eduardo Prado Coelho um sobre um político português contemporâneo que se retirou recentemente. Não encontrei esse texto mas fui parar a outro sobre o casal Michaux. A mulher de Henri Michaux ficara grave e irremediavelmente ferida, queimada, depois de um fogo em casa. Internada num hospital, todos os dias Henri a visitava e procurava falar com o que dela restava. Isso vem descrito num livro autobiográfico cujo título me escapa agora. No desalinho da sua vida e da sua obra, Michaux acabou por sumarizar toda essa luminosa imperfeição que é a vida (a dele, a minha, a de quem quer que pense e, consequentemente, perca)  nesses momentos finais junto de Lou, a mulher. Anos mais tarde, Peter Sloterdijk "recuperou" esta história (de amor e morte, naturalmente) no livro O Sol e a Morte. «Poderíamos dizer que [Michaux] teve de esperar pelo meio da vida para fazer essa mesma experiência da perda que para muitas pessoas começa logo no dealbar da existência, ou seja, o descobrimento traumático de que o Outro íntimo se tornou inalcançável e que, por conseguinte, uma pessoa tem de enquistar-se em si mesma e endurecer-se. De modo geral, resulta inclusive válida a sabedoria de que só poderá converter-se num indivíduo independente aquele que sabe de uma vez por todas ou que quer saber o seguinte: «No fim, ficarei só.»

À atenção do António Costa

A dona do quiosque onde compro jornais e revistas abordou-me, julgando que eu pertencia à CML, para me dizer que "fiscais" da dita estiveram lá dando nota que passava a ser vedado aos quiosques manterem bancas exteriores contíguas aos quiosques. A exiguidade dos quiosques obriga à existência dessas bancas que, no caso concreto, não perturbam a circulação pedonal. Com tanta porcaria para tratar na cidade, as bancas dos quiosques de jornais serão porventura prioritárias? Ou a piroseira das "decorações" natalícias?

29.11.12

Uma carta

Uma trupe lamentável à qual se juntaram duas ou três pessoas razoáveis, com epicentro no improvável dr. Vítor Ramalho, decidiu entregar uma carta, presume-se aberta, ao primeiro-ministro. O objectivo dessa carta é que o destinatário se demita a bem da nação que estas criaturas julgam ser sua propriedade exclusiva. Sucede que o destinatário encontra-se em funções em virtude de uma coisa trivial chamada voto que, suponho, os signatários da cartinha respeitam fora um ou outro velho estalinista reciclado. As coisas não funcionam assim. Pelo menos em democracia.

O segundo volume


 


Num café, esse refúgio dos solitários a que alude George Steiner, escrevo. Não vá dar-se o caso de os zelotas e os lacaios das "redes sociais" tomarem "devida nota", gozo um dia legal de férias. Aproveito-o para tratar de intendências pessoais uma delas a ver com a minha primeira editora, a Bertrand. O livro Portugal dos Pequeninos, uma "ideia" da Maria Teresa Loureiro, lá publicado, abrange o período de 2005 a 2009, princípio de 2009. Assim, está a ser preparado o segundo volume do Portugal dos Pequeninos que começa no segundo semestre de 2009 e terminará em 2012. O período comprendido entre o segundo semestre de 2011 e o ano ainda em curso, para além de recolher alguns dos posts editados neste blogue, conterá material inédito que, espero, contribua para "contar" parte de alguma "história" recente. No fundo, e em homenagem a Eduardo Prado Coelho e a Wittgenstein, tudo o que não escrevi. Sai em Junho de 2013.

"Fazer" anos






«As pessoas mudaram; tornaram-se hostis ou, no limite, perigosamente impessoais. Dou-me conta que talvez tenha mudado tanto que as vejo tal qual elas são, tal qual elas sempre foram. No entanto, é possível que aquilo em que reparei mais cedo fosse a realidade, e que o que observo agora seja uma distorção inteiramente privada dessa realidade embora, e de qualquer maneira, veja o que vejo: hostilidade e perigo. Tenho consciência que a minha posição é exagerada e que há gente inócua no mundo e, bem mais importante do que isso, muitos idiotas. Pelo menos agradeço tamanha fartura» (Gore Vidal)

28.11.12

Fidelidade à realidade


 


O Gabinete do General Ramalho Eanes enviou-me o discurso que o antigo Chefe de Estado proferiu, a semana passada, no lançamento da obra de Maria Inácia Rezola sobre Melo Antunes (Melo Antunes – Uma Biografia Política, da Editora Âncora). Lá encontro palavras certeiras. «A reflexão séria, tendo por evidência o Homem – a sua liberdade e o seu indispensável sistema social de liberdades – exige honestidade e competência: na fidelidade à realidade; na propensão para o compromisso e para o pacto; no profissionalismo; no desejo de clareza (da evidência dos propósitos e decisões e na transparência na sua execução).» Oxalá quem abraça a causa pública - seja em que "posto", tempos ou circunstâncias for - pensasse sempre assim.


 


Foto: DN

27.11.12

Um dia destes


 


Acabamos todos assim.

Marcelo.




O Vitor Matos - que conheci numa noite chuvosa, em Queluz, uma noite longa em que se ultimava o primeiro número da revista FOCUS - enviou-me, com uma simpática dedicatória, a sua biografia de Marcelo Rebelo de Sousa. Levou-lhe quatro anos de trabalho e chama-lhe "biografia consentida". Vou lê-la com a atenção que o autor e o biografado me merecem pelo que a "recensão" ficará para mais tarde. Marcelo interessa-se a vários níveis. Nunca foi meu professor pelo que só nos cruzámos pessoalmente, nos idos de 1996, na praia do Guincho. Antes disso, ouvi-o em coisas do PSD (de que fui militante até 2004), na televisão e li-o nos jornais. Andei com os autocolantes vermelho-vivo da sua candidatura à Câmara de Lisboa em 1989. Enquanto jurista, citei-o muitas vezes em pareceres e em peças processuais.  Na altura do Guincho, Marcelo era presidente do PSD. No país reinava a "pax guterrista" e não era fácil ser líder da oposição. Falávamos muito entre mergulhos e antes de ele sair mais cedo da praia para ir ao Norte ou ao Sul dirigir-se aos militantes. Cheguei a dar-lhe boleia até casa. Como presidente do PSD, Marcelo obteve duas importantes vitórias nos referendos sobre o aborto e a regionalização. Nos congressos, até 1999, venceu a insolência dos "eternos" candidatos ao seu lugar, um dos quais lhe viria a suceder depois de, em Tavira, o ter acusado de ter feito o que ele viria depois a fazer - "carregar o pequeno partido à nossa direita às cavalitas", Barroso dixit. A partir daí, Marcelo passou a fazer política por outros meios através da comunicação social. Chegou a conselheiro de Estado a convite de Cavaco Silva e é um dos mais prestigiados professores da Universidade de Lisboa. Como comentador televisivo, Marcelo, à semelhança de toda a gente, tem dias. Por causa desses "dias", soube por um amigo comum que ele se "zangou" comigo por algumas coisas que aqui escrevi. Todavia, esses meus dias, tal como os dele, não eliminam o essencial. Marcelo é um feroz adepto do optimismo antropológico, um vitalista e um intelectual que aprecia a acção, a começar pela comunicacional. Quando Cavaco terminar o seu mandato, o país provavelmente vai precisar, e muito, de vitalismo e de acção. Não acompanho o Medeiros Ferreira quando sugere que Marcelo ficou para sempre refém do estúdio de televisão e, como tal, não será candidato presidencial. A sua inteligência e intuição decerto saberão melhor do que ninguém quando chegará o momento adequado de largar o estúdio e ir à conquista do país. Marcelo conta comigo para isso.

26.11.12

O poderoso lóbi conservador

Apesar de relativamente mal escrito, este texto lança algumas "provocações" (e factos) interessantes para o "debate" em curso sobre o serviço público de televisão que é uma coisa distinta da complicada galáxia RTP, e da sua eventual privatização, que muitos teimam misturar. «O poderoso lóbi conservador mistura 3 elementos altamente convenientes: operadores incumbentes de fortes interesses económicos; grupo central coeso e permanente de ideólogos e agentes na área audiovisual; grupo de várias individualidades, que vai variando em número e composição; geralmente são ingénuos úteis para mascarar o essencial do que está em causa. Muitos estão apavorados com a aparente diminuição dos instrumentos de acção do Estado, agarram-se ao que ainda existe sem curar (ou minorando a importância) da natureza dos conteúdos que esses instrumentos emitem. O grupo aparece com regularidade para, com sucesso por enquanto, marcar a agenda e acabar por impor as suas posições. Agora destilou um novo manifesto "Em defesa do serviço público de rádio e de televisão", pretexto para marcar e pressionar as instituições.». O autor termina com a recomendação da leitura de um texto de Karl Popper - no qual se louva -, "Uma lei para a televisão". Também recomendo.

Sem ambições






«Jesus não tem nenhuma ambição política. Depois da multiplicação dos pães, o povo, entusiasmado com o milagre, queria pegar n’Ele e fazê-Lo rei, para derrubar o poder romano e assim estabelecer um novo reino político, que seria considerado como o reino de Deus tão esperado. Mas Jesus sabe que o reino de Deus é de género totalmente diverso; não se baseia sobre as armas e a violência. E é justamente a multiplicação dos pães que se torna, por um lado, sinal da sua messianidade, mas, por outro, assinala uma viragem decisiva na sua actividade: a partir daquele momento aparece cada vez mais claro o caminho para a Cruz; nesta, no supremo acto de amor, resplandecerá o reino prometido, o reino de Deus. Mas a multidão não entende, fica decepcionada, e Jesus retira-Se para o monte sozinho para rezar, para falar com o Pai (cf. Jo 6, 1-15). Na narração da Paixão, vemos como os próprios discípulos, apesar de terem partilhado a vida com Jesus e ouvido as suas palavras, pensavam num reino político, instaurado mesmo com o uso da força. No Getsêmani, Pedro desembainhara a sua espada e começou a combater, mas Jesus deteve-o (cf. Jo18, 10-11); não quer ser defendido com as armas, mas deseja cumprir a vontade do Pai até ao fim e estabelecer o seu reino, não com as armas e a violência, mas com a aparente fragilidade do amor que dá a vida. O reino de Deus é um reino completamente diferente dos reinos terrenos. Por isso, diante de um homem indefeso, frágil, humilhado como se apresenta Jesus, um homem de poder como Pilatos fica surpreendido – surpreendido, porque ouve falar de um reino, de servidores – e faz uma pergunta, a seu ver paradoxal: «Logo, Tu és rei!». Que tipo de rei pode ser um homem naquelas condições!? Mas Jesus responde afirmativamente: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz» (18, 37). Jesus fala de rei, de reino, referindo-Se não ao domínio mas à verdade. Pilatos não entende: poderá haver um poder que não se obtenha com meios humanos? Um poder que não corresponda à lógica do domínio e da força? Jesus veio para revelar e trazer uma nova realeza: a realeza de Deus. Veio para dar testemunho da verdade de um Deus que é amor (cf. 1 Jo 4, 8.16) e que deseja estabelecer um reino de justiça, de amor e de paz (cf. Prefácio). Quem está aberto ao amor, escuta este testemunho e acolhe-o com fé, para entrar no reino de Deus.»


 


Bento XVI, 25.11.12

Sabemos por que isto existe





«Neste momento há um conjunto de empresas que estão incluídas, e bem, no Orçamento de Estado, para efeitos de défice e dívida pública. Só três delas (Refer, Metro do Porto e Estradas de Portugal) têm um défice de 852 milhões de euros que nós contribuintes iremos pagar com os nossos impostos. Se ele não existisse, seria possível ou devolver quase um salário aos trabalhadores em funções públicas ou aos pensionistas, ou diminuir a carga fiscal nos portugueses. Sabemos em parte por que isto existe - grandes investimentos públicos (Metro) ou de iniciativa pública (PPP) não rentáveis, nem do ponto de vista operacional decididos por gestores de nomeação política sem qualquer tipo de escrutínio público, sobretudo com recurso a capitais alheios (dívida). Os juros desta dívida são dos grandes responsáveis pelos défices dessas empresas.»




 


Paulo Trigo Pereira, Público

25.11.12

Homens do possível


 


A política portuguesa "moderna" vive quase só de incidentes medíocres, de tagarelice parola, de zangas comadreiras e de "protagonistas" sem história. Em 25 de Novembro de 1975, a coragem moral, política e física de alguns dos melhores de nós -  coisa de carácter que é uma qualidade com tendência a perder-se - evitou uma "guerra civil" original, um híbrido a meio caminho entre um festival de folclore e um tiroteio a sério.  Naquele dia, quando a aventura militar se declarou, de mãos dadas com a extrema-esquerda e a complacência estratégica do dr. Cunhal - que se retirou a conselho de Costa Gomes e mandou evacuar os "civis" das cercanias dos quartéis -, emergiu um homem desconhecido, de ar duro e sombrio, com os olhos escondidos atrás de uns óculos escuros. Liderou com sucesso o "contra-golpe" e impôs-se, de seguida, como chefe incontestado de um exército desfeito, primeiro pela guerra, depois pelas brincadeiras do PREC. Ramalho Eanes foi porventura a criatura que mais poder concentrou nas suas mãos depois da "revolução". Eleito presidente, em 1976, uns escassos sete meses após a sua aparição na conturbada política nacional, era igualmente CEMGFA, comandante supremo e presidente do Conselho da Revolução. Nada disso impediu, antes pelo contrário, que voltasse a disciplina à tropa e que a democracia se institucionalizasse. Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1975, na Amadora, o poder representado pelo Presidente Costa Gomes e pelo Primeiro-Ministro Pinheiro de Azevedo agradeceu publicamente a Eanes e a Jaime Neves, comandante do Regimento de Comandos, aquele gesto refundador e patriótico. Orgulhemo-nos, pois, destes homens sem os quais nada teria sido possível.

24.11.12

Bons exemplos


 


Parece que a Bruxelas não desagrada a ideia dos 10% de taxa do IRC, bem como uma "reforma" global do imposto, conforme há dias sugeriu Álvaro Santos Pereira. O mesmo Santos Pereira, ministro da economia, que tem pensamento próprio sobre a austeridade e os seus riscos para a economia se for continuada. O mesmo Santos Pereira que é por vezes subestimado quando isso sempre se me revelou mais como uma injustiça que a mesmice preconceituosa tributa à independência que não tem exactamente de ser "perfeita". É um patriota que está a fazer o que pode. Willy Brandt quis para seu epitáfio o famoso "fiz o que pude". Mitterrand também. S. Pereira tem direito a louvar-se nos bons exemplos.

23.11.12

Uma tristeza

Esta "Europa".

Processos sumários


 


Numa das múltiplas "notícias" colocadas nos jornais por causa do patético episódio das "imagens não editadas" pelas televisões, leio que a RTP tenciona ter pronto o seu "inquérito" interno na segunda-feira. Há mais de vinte e cinco anos que faço inquéritos, processos de averiguações e disciplinares. Mesmo num caso passado na Madeira - com a PSP (alegadamente a PSP teria aparecido à paisana num reunião do sindicato das bordadeiras locais) -, eu e o meu colega magistrado Ministério Público, na altura ambos inspectores da IGAI, elaborámos um relatório preliminar, curto (fui eu quem o escreveu), depois de quatro dias úteis de investigação local. E o relatório final só foi apresentado após uma segunda visita, semanas depois. O ministro era o dr. Jorge Coelho e corria o ano de 1998. Nenhum inquérito credível, isento e factual pode ser feito em um dia útil, mesmo dois, que é o que sugerem essas "noticias" quando apontam segunda-feira para o termo do prazo para a sua conclusão. E, muito menos, quando as "notícias" indiciam algumas "conclusões" e "visados". Também a intervenção da PSP no "caso" em apreço agora (esta é uma mera opinião pessoal) devia ser objecto de uma acção da IGAI e não da própria PSP. Dito isto, e regressando à RTP, apenas uma nota. Desde Janeiro deste ano que a empresa possui um director geral de conteúdos que superintende as duas principais direcções da casa, a de informação e a de programas. Ora das "notícias" infere-se que o director geral de contéudos da RTP "pairou" acima deste episódio e que até poderá interinamente substituir Nuno Santos, o director de informação demissionário "visado" nas "notícias" e um profissional a quem quero, aqui, protestar livremente a minha consideração e estima pessoais. Não se atira impunemente a honra de quem quer que seja aos cães com processos sumários ou tentativas de linchamentos públicos.

22.11.12

A árvore e a floresta

Como aqui disse, o ministro da administração interna esteve à altura da canalhice que se seguiu à manifestação da CGTP a semana passada. Agora, a pretexto de umas "imagens" - que já provocaram uma improvável e injusta "vítima" -, parece que alguém está interessado em tentar apoucá-lo politicamente. Ora isto é que é "estranho". Ou talvez não.

Da competição à cooperação






«Vivemos agora as diabólicas sequelas deste incontestável triunfo da competição. Seja na Europa, onde a cooperação se revelou a grande falha que abriu o abismo em que hoje nos encontramos, seja no plano civilizacional em que, como Daniel Cohen explica no seu livro Homo Economicus, ele acabou por conduzir ao maior dos paradoxos da nossa época, que consiste em que "a economia é suposta assumir a direcção do mundo, num momento em que as necessidades sociais migram para sectores que dificilmente se inscrevem na lógica mercantil. A saúde, a educação, a investigação científica, o mundo da Internet formam o coração da sociedade pós-industrial. Nenhuma entra no modelo económico tradicional. Quando a criatividade humana é mais elevada do que nunca, o homo economicus impõe-se como um triste profeta, um desmancha-prazeres dos novos tempos." Só a revitalização do imperativo de cooperação poderá salvar a Europa. O que se passou na terça-feira na reunião do Eurogrupo com o FMI, com o bloqueio de alguns países à inevitável reestruturação da dívida grega, revela bem o impasse "competitivo" a que chegámos. E o que se anuncia com o programa Erasmus, em risco de acabar por falta de financiamento, é um alerta bem vermelho... Só este imperativo permitirá superar as tensões existentes entre a austeridade e o crescimento, o egoísmo e a solidariedade, o directório e a colegialidade. A cooperação é a chave perdida da União Europeia, a via para o reencontro com a sua vocação original e o seu adiado destino. Era disto que, na verdade, devia ocupar o Conselho Europeu.»


 


M.M. Carrilho, DN

21.11.12

Mitologia "privada"

Li num jornal que o adminstrador de uma empresa privada defende o despedimento de 100 a 200 mil trabalhadores investidos em funções públicas. À medida que vou conhecendo melhor o "privado" português, em geral espertalhão e nulo, menos respeito tenho por este tipo de leviandades retóricas. Seria aliás interessante ver, com algumas honrosas excepções, como é que o "privado" se "desenvolveu" entre nós sobretudo neste regime - onde é que começou o "privado" e acabou o Estado, e vice-versa, o panorama fiscal do "privado", os interesses públicos do "privado", etc. etc. Não defendo a elefantíase do Estado - defendo a sua reforma desde 1979 e por escrito - mas irrita-me que se apouque a dignidade dos seus servidores em nome de meia dúzia de lugares-comuns que nem sequer chegam a constituir propriamente uma "ideologia". Porque para ter uma ideologia é preciso ter ideias. Não vejo nenhuma.

A grafia pateta


 


Via ma-schamba, feito num “país livre do acordo ortográfico”, Vasco Graça Moura de novo sobre o dito. «O certo é que, se as coisas continuarem assim, dentro de uma geração ninguém conseguirá pronunciar correctamente a língua portuguesa tal como ela é falada deste lado do Atlântico. Por outro lado, o que interessa, para além da questão jurídica e cultural de fundo, é uma questão política assaz bizarra. E a questão política actualmente resume-se a isto: estão a ser aplicadas não uma, mas três grafias da língua portuguesa. A correcta, em países como Angola e Moçambique, a brasileira (no Brasil) e a pateta (em Portugal e não se sabe em que outras paragens).(...) É muito de estranhar que, no ano em que o Brasil se apresenta em Portugal e Portugal se apresenta no Brasil com tanta pompa e circunstância, nenhum dos países interessados tenha feito qualquer reparo à maneira como a grafia do português, que se pretende oficial e oficiosamente seja agora adoptada em Portugal, consagra uma série de enormidades que não estão, nem podem estar, a ser aplicadas no Brasil e que aumentam a desconformidade com a maneira como a língua se escreve de um lado e do outro. Talvez tenhamos de esperar que se realize um ano de Angola em Portugal e de Portugal em Angola para o problema merecer atenção. E então não será de estranhar que tenhamos de agradecer aos angolanos um rigor na grafia da nossa língua de que, por cá, nós portugueses já não somos capazes.»

20.11.12

19.11.12

Não morrer de estupidez






«La responsabilité aujourd’hui est urgente: elle appelle une guerre inflexible à la doxa, à ceux qu’on appelle désormais les “intellectuels médiatiques”, à ce discours général formaté par les pouvoirs médiatiques, eux-mêmes entre les mains de lobbies politico-économiques, souvent éditoriaux et académiques aussi. Toujours européens et mondiaux, bien sûr. Résistance ne signifie pas qu’on doive éviter les médias. Il faut, quand c’est possible, les développer et les aider à se diversifier, les rappeler à cette même responsabilité. En même temps, ne pas oublier que, à cette époque “heureuse” de naguère, rien n’était irénique, certes. Les différences et les différends faisaient rage dans ce milieu qui était tout sauf homogène comme ce qu’on pourrait regrouper, par exemple, dans une appellation débile du genre “pensée 68” dont le mot d’ordre ou le chef d’accusation domine souvent aujourd’hui et la presse et l’université. Or même si cette fidélité prend quelquefois encore la forme de l’infidélité et de l’écart, il faut être fidèle à ces différences, c’est-à-dire continuer la discussion. Moi, je continue à discuter - Bourdieu, Lacan, Deleuze, Foucault, par exemple, qui continuent de m’intéresser largement plus que ceux autour desquels se presse la presse aujourd’hui (sauf exception, bien sûr). Je garde ce débat vivant, pour qu’il ne s’aplatisse pas, ni ne se dégrade en dénigrements. Ce que j’ai dit de ma génération vaut bien sûr pour le passé, de la Bible à Platon, Kant, Marx, Freud, Heidegger, etc. Je ne veux pas renoncer à quoi que ce soit, je ne le peux pas. Vous savez, apprendre à vivre, c’est toujours narcissique : on veut vivre autant que possible, se sauver, persévérer, et cultiver toutes ces choses qui, infiniment plus grandes et puissantes que soi, font néanmoins partie de ce petit “moi” qu’elles débordent de tous les côtés. Me demander de renoncer à ce qui m’a formé, à ce que j’ai tant aimé, c’est me demander de mourir. Dans cette fidélité-là, il y a une sorte d’instinct de conservation. Renoncer, par exemple, à une difficulté de formulation, à un pli, à un paradoxe, à une contradiction supplémentaire, parce que ça ne va pas être compris, ou plutôt parce que tel journaliste qui ne sait pas la lire, pas lire le titre même d’un livre, croit comprendre que le lecteur ou l’auditeur ne comprendra pas davantage et que l’Audimat ou son gagne-pain en souffriront, c’est pour moi une obscénité inacceptable. C’est comme si on me demandait de m’incliner, de m’asservir - ou de mourir de bêtise. (...) Il faut “relever” (Aufheben) le cosmopolitique (voir Cosmopolites de tous les pays, encore un effort!, Galilée, 1997). Quand on dit politique, on se sert d’un mot grec, d’un concept européen qui a toujours supposé l’Etat, la forme polis liée au territoire national et à l’autochtonie. Quelles que soient les ruptures à l’intérieur de cette histoire, ce concept du politique reste dominant, au moment même où beaucoup de forces sont en train de le disloquer: la souveraineté de l’Etat n’est plus liée à un territoire, les technologies de communication et la stratégie militaire non plus, et cette dislocation met effectivement en crise le vieux concept européen du politique. Et de la guerre, et de la distinction entre civil et militaire, et du terrorisme national ou international. Mais je ne crois pas qu’il faille s’emporter contre le politique. De même pour la souveraineté, dont je crois qu’elle a du bon dans certaines situations, pour lutter par exemple contre certaines forces mondiales du marché. Là encore, il s’agit d’un héritage européen qu’il faut à la fois garder et transformer. C’est aussi ce que je dis, dans Voyous (Galilée, 2003), de la démocratie comme idée européenne, qui en même temps n’a jamais existé de façon satisfaisante, et reste à venir.»




Jacques Derrida, Le Monde, 19.08.2004

A mudança


 


«Car le champ culturel a en effet changé. En quinze ans, son centre de gravité s'est déplacé. Internet a affolé les boussoles, déplacé les frontières. Du public au privé, du national au global, du réel au virtuel. Aujourd'hui, les géants de la culture ne s'appellent plus le Louvre, le Metropolitan Opera à New York ou la Royal Shakespeare Company en Angleterre, ni même Universal Music ou Columbia Pictures, les majors américaines. Au coeur de la distribution de produits culturels trônent Amazon et ses livres, Apple et sa musique en ligne, Google et ses vidéos, ses films, son musée virtuel. Des firmes qui, il y a encore quinze ans, ne pesaient rien dans le secteur, quand seulement elles existaient.»

Coitadinhos






«Angela Merkel mal descolou de Figo Maduro foi a Moscovo passar uma noite e tratar com um Putin fortalecido com os seus excedentes financeiros que abrigam a Rússia dos célebres «mercados». François Hollande foi à Polónia para não deixar tudo à Alemanha, e mostrou-se confiante na futura adesão de Varsóvia à zona euro - une vue de l´esprit- embora no presente lhe interesse sobretudo a aliança em torno da PAC nas negociações sobre as «perspectivas financeiras» da UE. Coitados dos estados «periféricos».


 


Medeiros Ferreira, Córtex Frontal

18.11.12

Professor Karamba, I presume






«Entre o quarto e o nono mês de 2013 é quase inevitável haver eleições.»


 

As coisas são o que são

Segundo o Expresso, a maioria não chegou a acordo para "cortar" nos 48 milhões de euros - previstos na proposta de orçamento de Estado para 2013 - destinados a subvencionar a propaganda eleitoral das autárquicas que terão lugar no ano que vem. Aparentemente o CDS pretendia reduzir a coisa a metade e o PSD não aquiesceu. Mesmo que não chegasse aos cinquenta por cento, uma restriçao mais ousada naquela verba teria sido aconselhável. Decerto a democracia local não ficaria em perigo se tal acontecesse (durante muitos anos, por exemplo, fazer parte das mesas de voto não conferia direito a qualquer remuneração e todos convivíamos bem com isso) e sinalizava-se que a austeridade começa nas instituições e nos procedimentos. Todavia as coisas são o que são. Só posso lamentar.

17.11.12

Primeiros

Em alguma coisa este lamentável sertão, para usar um termo de Vasco Pulido Valente, teria de ser o primeiro. Nem que fosse pelas piores razões.

Lisboa um pouco feliz



Exemplo de que como, por vezes, as coisas até podem correr bem. António Costa anunciou a redução das taxas de IMI e de IMT em Lisboa. Santana Lopes juntou-lhe a redução da taxa do IRS de 5 para 2,5%. Ruben de Carvalho anuiu em nome do PC. No meio de tantas infelicidades, Lisboa um pouco feliz.

16.11.12

O paraíso artificial

Depois, é mais ou menos isto. «Durante meio século, e perante a impossibilidade de trazer o eleitorado à terra, a Europa (e na Europa os países mais pobres) viveu uma vida crescentemente artificial. Chegou agora a altura de pagar a conta com juros. Da Grécia a Portugal e de Portugal à Alemanha. Não adianta muito protestar. A nostalgia não paga dívidas.» (Vasco Pulido Valente, Público)

O futuro possível


 


Rui Rio esteve há dias na faculdade de economia da Universidade do Porto e disse umas quantas coisas interessantes. Os economistas costumam ser profundamente desinteressantes embora Keynes, o paizinho desta macro treta toda, tenha mais que se lhe diga. Rio procura "desenquistar-se" disto e do Porto, com o devido respeito territorial, afirmando um espaço próprio no paupérrimo espaço político de debate das direitas. É falta de inteligência ver nestas manifestações "ameaças". Pelo contrário, as direitas - e em Portugal a direita começa num partido social-democrata epónimo - têm o dever de pensar tanto ou mais que as esquerdas porque foram os "paradigmas" destas que dominaram o regime. A imagem das direitas, nesta matéria, é shallow e precisa ser contrariada. Recorro ironicamente a uma frase de um homem das esquerdas, Eduardo Prado Coelho, para explicar isto. «Precisamos de manter firme a bússola de uma governação que tacteia o futuro indecifrável - o futuro possível.»

Homens do provável, homens do possível


 


Olho para os jornais - que leio menos do que apenas folheio -, vejo a televisão, ouço a rádio, leio os online e, de repente (um repente bem durável) sente-se a falta de Eduardo Prado Coelho. Não que EPC não fosse, em tantos momentos, "irritante". Mas, mesmo nessa curva de irritação, havia sempre um ganho ou, como num verso de Sena, "uma pequenina luz bruxuleante". Agora podemos ler, ver ou ouvir quarenta ou cinquenta cromos a desfilar em qualquer medium comunicacional e, no fim, bastava um para os resumir a todos. Até aqueles que tinham maior obrigação intelectual e, até, ética para prodigalizar outra coisa, sentem-se confortáveis no quentinho da banalidade e na superficialidade da "análise" do que acabou de acontecer. E estamos horas, dias e semanas nisto onde só os "temas" ou a "numerologia" muda. Ninguém pensa mas toda a gente fala. Eduardo Prado Coelho, num dos seus últimos livros, explicava este medíocre "sistema" de "homens do provável. «O homem do provável é o homem médio, o homem do possível é, na sua singularidade irredutível, o melhor de cada um de nós.» Como recorda o Tiago Bartolomeu Costa no seu bom trabalho no Público (sim, vou directamente ao que me interessa e, aí, de facto leio), a dado momento do seu diário Prado Coelho é confrontado com um amigo que lhe disse, «tendo lido os seus textos, que os leitores iriam pensar que não fazia mais nada "senão ler, ouvir música, ir ao teatro e ao ballet..." A resposta definia, de uma assentada, esses que assim pensassem e o próprio ensaísta: "Imbecis - medem o tamanho dos dias pela dimensão das suas cabeças".» Os homens do provável são assim.


 

15.11.12

Sem fanatismos e fatalismos






«Nada desculpa (...) a irresponsabilidade política de quem não percebeu as consequências de quase dobrar a divida pública entre 2005 e 2011, como aconteceu em Portugal. Mas o ponto, agora, não é tanto o de saber como se chegou aqui, mas sobretudo o de saber como sair daqui. E nesse sentido é fundamental tirar todas as ilações dos factores que se alteraram no decurso da última década, e do sucessivo impasse em que se tem vivido nos últimos três anos. É suicida continuarmos amarrados à ilusão europeia, ignorando estes factores. Nomeadamente, sem se ter em conta que a especialização produtiva dos países do Sul da Europa não lhes permite, por maior que seja a austeridade, sair no curto prazo da crise apenas pela via das exportações. Só a via federal, com união de transferências - sejam elas orçamentais, fiscais ou sociais -, responderá à gravidade da crise europeia. O montante dessas transferências foi de resto já apurado (cf. Natixis, "The cost of federalism in the euro zone", 16/07/2012), ele corresponde aproximadamente a 1.4% do PIB da Zona Euro. Nada de extraordinário, portanto - e numa zona económica de moeda única, o jogo das transferências garante benefícios para todos, apoiando ora mais uns, ora mais outros, conforme as circunstâncias. Os tempos são, hoje, de grande incerteza. Mas o pior modo de a enfrentar é - como tem acontecido - combinando o fatalismo dos problemas com o fanatismo das soluções. É isto que é urgente mudar.»


 


M.M. Carrilho, DN

14.11.12

Bem


 


Miguel Macedo, ministro da administração interna, resumiu adequadamente  - e com manifesto sentido de Estado - a coisa. Por um lado, ao defender o direito à greve e o direito à manifestação, ambos inconfundíveis com os acontecimentos do final do dia junto ao parlamento. Por outro, ao sublinhar o profissionalismo, a serenidade e a firmeza das forças de segurança num ambiente anti-democrático de provocação minoritária e violenta. Se alguém esteve bem ao longo do dia, foi ele. Boa noite e boa sorte.

A canalha

Uma coisa é o direito democrático, de cidadania, à manifestação. Outra coisa é a canalha. E a canalha não merece perdão.

As perguntas e os problemas da "reforma"


 


A "reforma do Estado" - por causa do afamado corte, "estrutural" ou não, de 4 mil milhões na despesa a realizar até Fevereiro de 2013 na ecologia da proposta de orçamento de Estado para 2013 - entrou definitivamente na conversa pública. No entanto julgo que se trata de coisas distintas embora ligadas pelo cordão umbilical da estrita necessidade. Sem querer recuar muito, louvo-me em Cavaco Silva. Em Maio de 2001, numa conferência no Porto, o actual PR problematizou perfeitamente a questão da "reforma do Estado". E digo "problematizou" porque ninguém pode começar pelas respostas sem saber quais são os problemas. E Cavaco colocou aquelas que, a meu ver, são as perguntas fundamentais nos prolegómenos de qualquer reforma regimental. Foi vai para doze anos, mas a actualidade delas é perfeita. O autor estava naturalmente a pensar «no comportamento normal dos políticos" perante as mesmas. Ei-las, limitando-me a destacar as que, agora, serão as mais prementes.


 


« - Quem tem coragem para cortar nos benefícios dos sistemas da segurança social e da saúde, incluindo a função pública?


- Quem tem coragem para enfrentar os grupos de interesse associados ao descontrolo das despesas no sector da saúde?


- Quem tem coragem para introduzir a gestão privada nalguns grandes hospitais, favorecendo mais concorrência no sector?


- Quem tem coragem para impor a transferência de competências para as autarquias locais, sem a correspondente transferência de verbas orçamentais?


- Quem tem coragem para impor mais produtividade às escolas e aos professores e controlo da qualidade do ensino?


- Quem tem coragem de aceitar uma verdadeira concorrência entre o ensino superior público e privado, sem que isso signifique menos   oportunidades de acesso para os jovens das famílias de menores recursos?


- Quem tem coragem para extinguir institutos públicos que foram criados só para empregar boys e girls partidários e pagar-lhes melhor?


- Quem tem coragem para enfrentar o problema das fraudes no rendimento mínimo garantido, adoptando um sistema mais barato e mais eficiente em termos de combate à pobreza?


- Quem tem coragem para voltar a criar um quadro de excedentes da função pública e impor, por exemplo, por cada quatro funcionários que se reformem, em média, só um novo seja admitido?


- Quem tem coragem para impor feroz disciplina financeira nas empresas públicas, sorvedouros sem fundo de dinheiros públicos, e promover a privatização de parte da RTP?»

13.11.12

Leve, amena, superficial



Entre outros, ando a ler o livro de Vargas Llosa A Civilização do Espectáculo, da Quetzal. Llosa é um homem que participa activamente nos debates contemporâneos sem a soberba de outros escritores que receberam o Nobel da literatura. Não segue a correcção política e isso, por vezes, vale-lhe o epíteto de reaccionário ou liberal o que na cabeça de determinados analfabetos é a mesma coisa. Em matéria de comunicação social e cultural, Llosa intui perfeitamente o que se passa sem se exceder em derrames inúteis. «Por iniciativa própria, o jornalismo dos nossos dias, seguindo o mandato cultural imperante, procura entreter e divertir informando, com o resultado inevitável de fomentar, graças a essa subtil deformação dos seus objectivos tradicionais, uma imprensa também light, leve, amena, superficial e que entretém, a qual, nos casos extremos, se não tiver à mão informações desta índole para relatar, ela própria as fabrica.»

12.11.12

Prosa culta

Independentemente de quaisquer outras considerações, mais uma vez o Jornal de Angola dá-nos um bom exemplo de como o jornalismo pode contribuir para a solidez da língua portuguesa sem pruridos "acordográficos" ou complexos de outro tipo. «Camões, faminto de tudo, até de pão, na hora da partida desta vida, descontente, ainda foi capaz de um último grito de amor. Morreu sem nada, mas com a sua ditosa e amada pátria no coração. Ele que sofreu as agruras do exílio e foi emigrante nas sete partidas, escorraçado pelos que se enfeitavam com a glória de mandar e a vã cobiça, morreu no seu país. O mais universal dos poetas de língua portuguesa deixou-nos uma obra que é o orgulho de todos os que falam a doce e bem-amada língua de Camões. Mas também deixou, seguramente por querer, a marca das elites nacionais que o desprezaram e atiraram para a mais humilhante pobreza. O seu poema épico acaba com a palavra Inveja. Desde então, mais do que uma palavra, esse é o estado de espírito das elites portuguesas que não são capazes de compreender a grandeza do seu povo e muito menos a dimensão da sua História. Nós em Angola aprendemos, desde sempre, o que quer dizer a palavra que fecha o poema épico, com chave de chumbo sobre a masmorra que guarda ciosamente a baixeza humana. A inveja moveu os primeiros portugueses que chegaram à foz do Rio Zaire e encontraram gente feliz, em comunhão com a natureza. Seres humanos que apenas se moviam para honrar a sua dimensão humana e nunca atrás de riquezas e honrarias (...) “De sorte que Alexandre em nós se veja,/ sem à dita de Aquiles ter inveja.” Estes são os dois últimos versos de Camões no seu poema épico. Os restos do império, que estrebucham na miséria moral, na corrupção e no embuste, deviam render-se à evidência. Angola não é um joguete! Nós somos Aquiles! Tão grandes e vulneráveis como ele. Mas não tenham Inveja do nosso êxito, porque fazemos tudo para merecê-lo.»

À mesma mesa

A breve visita de Merkel a Portugal - mais propriamente a Lisboa, eixo Belém-Oeiras - só terá algum interesse se for para falar de política e, em espcial, de política europeia. A intendência, como ela explicou à RTP, está aparentemente em boas mãos e o que não falta é pastas de "negócios". Por consequência, a Portugal apenas lhe interessa demonstrar que tem uma opinião sobre a Europa e a crise que também ameaça a Alemanha (que não deverá crescer em 2013) e a França (com uma anunciada recessão). A compreensão do que estamos a fazer à custa de sacrifícios brutais terá outra ponderação se o quadro for europeu e não meramente doméstico. Portarmo-nos bem, só, não chega. É preciso que a Europa, toda, o faça.


 


Adenda: Dito isto, e neste contexto, o líder do maior partido da oposição também devia encontrar-se com a chefe do governo alemão.

11.11.12

Coisas que me interessam


 


O programa pode ser lido aqui. Quanto ao resto da "actualidade", bardamerda.

10.11.12

As coisas são o que são

António José Seguro anda em "excursão" político-partidária pelo país. Foi a empresas, escolas, universidades. Aparece na rua, dentro de casa, à porta de entrada ou de saída. Vê-se em púlpitos verdejantes. Os media dão-lhe corda. Não tenho a certeza que o "povo" lhe dê a mesma corda. Todavia, as coisas são sempre como, há muitos anos e num contexto político naquele momento muito difícil (Soares "passar" à segunda volta das presidenciais em 1986), me dizia o saudoso José Ribeiro da Fonte: onde nós não estivermos outros estarão por nós.

9.11.12

«O cálice»

«António José Seguro tocou a corneta: eleições, sim, estamos preparados. Bravo! Mas como espera Seguro conseguir eleições antecipadas? E, já agora, como tenciona ele promover a renegociação (necessária) do programa de ajustamento? A resposta para estas questões é básica: nada, rigorosamente nada, está nas suas mãos. Para começar, a queda do governo pressupõe a falência da coligação para o ano. Um cenário possível, admito, mas que depende exclusivamente da vontade de Portas. Ou de Passos. Ou de ambos. Não do PS e da minoritária oposição parlamentar. Finalmente, é imperioso renegociar juros e prazos? Afirmativo. Mas que teria Seguro para propor se, alçado ao poder, os nossos parceiros internacionais não estivessem para aí virados? Rasgar unilateralmente o acordo? Sair do euro? Processar a sra. Merkel pelos danos causados? Seguro fala e fala e fala porque, no fundo, ele sabe que ainda existe um abismo confortável entre o PS e o cálice envenenado.»


 


João Pereira Coutinho, CM

Merkel e nós


 


Só neste pobre país de palonços miméticos é que a visita de escassas horas de Angela Merkel provoca tanto alarido e tanta "indignação". Pode não se gostar da senhora ou nem sequer simpatizar com a sua política europeia. Mas a senhora foi eleita pelos alemães parecisamente para não fazer uma figura muito diferente da que tem estado a fazer. A Europa, e Portugal por tabela, está refém dela? Não só, mas também. Do que está sobretudo refém é da estupidez sistémica que praticamente corre do Atlântico aos Urais. Até nós ajudámos, em anos não muito recuados, a dívida alemã embora muitos dos papagaios que abundam na numerologia ignorem sistematicamente esse dado. A Alemanha podia olhar para fora de forma mais "generosa" até em função disto? Podia, mas a política não se faz com bons sentimentos. Merkel é o que é e nós somos o que somos. Se Merkel é hoje uma omnipresença a culpa decorre do miserável historial doméstico dos últimos anos. Se querem verter tomates, atirem-os antes à cara uns dos outros.

8.11.12

Uma marciana

Aquela "tia" Jonet, do meritório "banco alimentar", estragou tudo há dias quando, na televisão, veio afirmar que não havia miséria em Portugal. Será que ela transferiu o "banco alimentar" para Marte?


 


Adenda: Os comentários a este post confirmam uma velha suspeita. Ou talvez duas. Desde logo, há entre nós uma "casta" intocável que pode prodigalizar o que lhe aprouver, mesmo em modo Humpty Dumpty, que não se lhe pode assacar o menor reparo. Depois, o lastro da nossa frágil literacia, entre outras coisas, impede o uso reiterado da ironia. Dito isto, fica um apontamento que deixei no Facebook. Não existe nenhuma razão especial para Isabel Jonet sair do Banco Alimentar por causa de duas ou três infelicidades afirmadas na televisão. Há gente que diariamente profere disparates e nunca ninguém se preocupou em "peticionar", pelo menos, o seu santíssimo silêncio. Portugal, para além dos problemas que já tem, ainda lhe acresce a tagarelice e a ruminação preferencialmente sempre à conta dos mesmos papagaios. Jonet apenas não teve jeito para se explicar em tempos domésticos sombrios sobretudo quando devia conhecer o "terreno". Nada mais.

Coisas de Deus


 


Nestes tempos de vingança póstuma de Marx, como referiu há dias o Paulo Rangel, e às mãos das pessoas mais improváveis, é reconfortante poder assistir a coisas como o filme do meu amigo Joaquim Sapinho, Deste lado da ressurreição, uma produção da Rosa Filmes. Hegel, através da sua concepção de Bildung e do Absoluto (no qual ele acreditava vigorosamente), criou em nós a convicção que ser culto corresponde a uma certa forma de ascese, ou melhor, que é necessário morrer para o Imediato em todas as suas formas para lá chegar. Talvez isso apareça traduzido numa das falas do filme. «Quando sabemos o que devemos fazer, encontramos razões para não o fazer. Essas razões não são de Deus, são do Diabo.» Ámen.

6.11.12

A árvore e a floresta


 


Mário Soares lançou ontem mais um livrinho. Desta feita parece, a avaliar pela capa, que este recolhe a sua mais recente encarnação de indignado profissional, "estação 2011-2012". Quem tiver pachorra, coteje esta "obra" com outra, de 1985, intitulada A Árvore e a Floresta, que junta as principais intervenções de Soares enquanto chefe do governo do chamado "bloco central". E tente descobrir o Soares ortónimo no Soares heterónimo e vice-versa. Em suma, a árvore e a floresta.

A apoteose do vazio

Fora a "numerologia", o debate político, como adequadamente Marcelo Rebelo de Sousa notou, persiste no "nada". António José Seguro vai pastoreando o seu, um pouco por todo o lado, como pode. Empresta-lhe gravitas mas não retira ao "nada" a natureza de "nada". É a generalizada apoteose do vazio.

Estado de necessidade (II)

Ainda na sequência deste post, uma entrevista de Pierre Rosanvallon citada por Paulo Pedroso. «Mi idea es que son necesarias políticas que fomenten la igualdad de oportunidades —pensemos en la sanidad o en la educación—, pero que la igualdad de oportunidades no puede convertirse en una filosofía.... Las desigualdades crecieron y, como dijo Rousseau, la desigualdad material no es un problema en sí misma, sino solo en la medida en que destruye la relación social. Una diferencia económica abismal entre los individuos acaba con cualquier posibilidad de que habiten un mundo común

À espera da decisão decisiva

«As questões decisivas nunca são agendadas a tempo.»

Malgré tout



Foto: The Guardian

5.11.12

Estado de necessidade


 


Esta manhã, numa das minhas estantes de casa, dei pela presença de um livro "velhinho", da Inquérito, intitulado A Crise do Estado Providência. É de Pierre Rosanvallon e, no original, data de 1981. A tradução portuguesa é de 1984. Na altura, Victor Cunha Rego deu-me o livro e pediu-me que fizesse a recensão para o Semanário. Daí a sua presença na minha estante. Isto para dizer duas ou três coisas. Rosanvallon é militante do PS francês e há trinta anos já pensava na "reforma" do Estado (social-democrata, que é a verdadeira "matriz" do Estado dito providência). De alguma forma, o livro antecipa em anos e anos a dita "crise" do dito Estado. O índice podia ter sido elaborado ontem. Não foi em Portugal, nos últimos dias, que foi inventada a roda. Ou brotou, por causa da intendência ou do Divino Espírito Santo, um qualquer ímpeto reformador que nunca existiu. Não. A crise do Estado providência tem quase tantos anos como os da sua existência. Nós só entrámos agora nessa discussão retórica em virtude de outro "estado" - o de necessidade. Nada mais.

4.11.12

O híbrido


 


Por que é que Mário Soares não reflecte a sério sobre a Europa e o seu actual torpor centrípeto, à semelhança do que faz, por exemplo, o também socialista Manuel Maria Carrilho (e, mesmo, António José Seguro), em vez de andar para aí armado em híbrido paroquial de Vasco Lourenço com Francisco Louçã?

A síndrome fatal da redacção única






«A maioria dos portugueses informa-se pela TV. A queda de tiragens da imprensa, sendo a principal excepção o CM, indica que muitos portugueses não podem pagar ou não sentem os jornais que temos como "seus". Assim, os jornalistas deveriam reflectir sobre as suas próprias responsabilidades na crise da imprensa. Seria bom que a Conferência dos Jornalistas, no dia 24, não iludisse essa questão, ficando-se por lamúrias e reivindicações. Cada vez mais portugueses prescindem de comprar jornais por acederem a informação de forma quase gratuita na TV e na Internet, considerando-a suficiente para o nível de cidadania que se atribuem: por considerarem que alguns jornais pouco acrescentam ao que já leram ou ouviram ou por apenas reproduzirem valores hegemónicos dos poderes; por os jornais não lhes proporcionarem, por norma, informação que considerem valiosa. A maior parte da informação repete-se de media em media. Por isso, ganhou importância o espaço de opinião dos media: é dos poucos conteúdos em que cada um deles se distingue. No debate [Prós e Contras de dia 29 de Outubro, na RTP] , referiu-se que os blogues não são jornalismo, o que é verdade: mas encontramos neles e noutros sites na Internet, quer muita informação que os media não divulgam apesar de verdadeira e relevante, quer análises muito interessantes. Os jornais que fazem jornalismo alternativo ao da TV e atendem ao interesse geral são aqueles que têm resistido mais à crise e ao desinteresse dos cidadãos. Só vejo dois caminhos para os jornais: cobrarem pelos conteúdos na Internet e, em alguns deles, deixarem de escrever só para os amigos e procurarem com coragem informação alternativa à das TV.»


 


Eduardo Cintra Torres, CM

Marradas contra a parede

«No simpático cerco de quarta-feira ao Parlamento, alguns manifestantes, citados na imprensa, interrogavam-se: onde está o milhão de desempregados? Onde estão os estudantes? Em casa, digo eu, que as dificuldades vigentes nem sempre convencem as respectivas vítimas a incendiar propriedade alheia e a colocar em perigo a integridade física dos deputados que o país em peso elegeu. Uma coisa é remoer a austeridade, outra é combatê-la às marradas contra a parede. Percebe-se que os exemplos dos delinquentes de Madrid, cuja fúria destrói estabelecimentos comerciais e provavelmente empregos, sejam apelativos para quem nunca conquistou o poder nas urnas e sonha consegui-lo nas ruas. Não se percebe que, ainda que fechem o punho ou o estendam ao jeito hitleriano (juro), as forças por detrás da violência à porta de S. Bento se julguem revolucionárias.»




Alberto Gonçalves. DN

3.11.12

Das sombras


 


O recente James Bond, realizado por Sam Mendes, é talvez o mais original Bond dos últimos filmes baseados nos livros de Ian Fleming. Mais do que a tradicional "acção" o que mais conta em Skyfall é o lastro de sombras - um termo que "M" usa recorrentemente no filme - que denota o pathos (e o bathos) do envelhecimento. A "Bond girl",  uma escanzelada que desaparece rapidamente de forma assaz humilhante, não conta. Bond e "M" são, desta vez, os anti-heróis persistindo heróis. É o poema de Tennyson - "M" (Judi Dench) lê-o a dada altura da película - que "revela" esse mundo de sombras sem o qual, no fundo, Bond jamais seria Bond. James Bond.


 


Though much is taken, much abides; and though
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven; that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.

A Europa enquanto falha


 


O Expresso traz uma entrevista com o eurodeputado Paulo Rangel cuja perspicácia e oportunidade políticas devem ser relevadas no meio de tanto barulho tão inútil quanto superficial. Pouca gente consegue verbalizar (talvez porque não quer pensar nisso a sério) que o nosso "problema" só tem solução no quadro europeu, num maior envolvimento europeu de Portugal e numa "refundação" da Europa, menos no sentido do "financismo" e mais num trilho claramente político. A não ser assim, a "Europa" só pode ser declinada com aspas enquanto aguardar bovinamente o desfecho, a quase um ano de vista, das eleições alemãs, sob o olhar sobranceiro da chanceler Merkel. A Comissão, neste contexto, é ornamental, tal como o presidente do Conselho Europeu (a função exclusiva dele parece ser a de distribuir apertos de mão à entrada dos Conselhos) ou aquela aristocrata inglesa que passa por ministra dos negócios estrangeiros da UE e a quem, muito adequadamente, ninguém presta a menor atenção. No meio deste torpor explosivo, o eurodeputado Paulo Rangel coloca hipóteses certeiras. «Há uma falha europeia. E a falha portuguesa é não reconhecer a falha europeia. Mas penso que o PM percebeu e quer usar este consenso com o PS para melhorar o nosso ajustamento. (...) A médio prazo é o programa no seu todo que deve ser reequacionado - refundado, para usar a expressão em voga -, talvez num quadro europeu mais geral. Em concreto, a baixa gradual dos juros, a utilização dos 6 ou 7 milhões não usados com a banca (custear indemnizações de funcionários que saiam), a não contabilização de certas despesas para o défice, um programa para o crescimento. Isto corre tudo com a Europa em movimento. Mas não temos de ficar à espera. Em termos europeus há muito a fazer e devíamos estar a fazer diplomacia em força. (...) A credibilidade do PM na Europa é excepcional e inquestionável. Penso é que é importante que ele comunique mais o que faz. O facto de estarmos resgatados não nos deve inibir de ter uma visão sobre a Europa e o futuro. Isto é um resgate... mas é só um resgate. (...) Temos tido uma redução económico-financeira do discurso político que é negativa. Mas não é só em Portugal, é em toda a Europa e essa é a verdadeiraa vitória de Marx: a ideia de que o económico-financeiro esá primeiro e determina tudo o resto. Eu continuo a não acreditar no abcesso económico.» Estamos de acordo.

2.11.12

Um palmo

«Sabemos que o debate político e partidário muitas vezes vive mais de divisões do que de aproximações, mas aqui é que se mostra a grandeza das pessoas e a sua capacidade de perceber o conjunto e andar para a frente conjuntamente naquilo que é essencial e que não pode ser resolvido particularmente.(...) O futuro não existe. Somos nós que o criamos e precisamos de ser todos e essa ideia que muitas vezes tinha de que cada um vai organizando a sua vida e depois há governantes que então resolvem o todo, isso não funciona assim, porque os próprios governantes, seja cá ou seja no estrangeiro, também já não vêem um palmo à frente do nariz.»


 


D. Manuel Clemente

Bem feito


 


O PSD-Madeira aparentemente vai ter hoje de escolher entre Alberto João Jardim e o presidente da Câmara do Funchal, Miguel Albuquerque. É a primeira vez, em mais de trinta anos, que Jardim é "desafiado" internamente. Sucede que aquela gente que sempre andou atrás, ao lado e abaixo dele nunca se distinguiu pela qualidade política. Se o PSD na Madeira é o que é e se a Madeira, enquanto pura periferia europeia, chegou a determinados patamares de qualidade de vida, a Jardim e à sua persistência, mesmo que errática e tantas vezes demagógica, o deve. Nunca ao friso dos seus lugares-tenentes onde se incluía, até há pouco tempo, o referido Albuquerque que deverá sair democraticamente sovado de um processo esdrúxulo que ele próprio desencadeou. Bem feito.

1.11.12

Grandeza barroca


 


Na Gulbenkian, hoje e amanhã.

A "harrypotterização" da política

"Yes, we can" (...) é um slogan que não remete para nada, que se esgota num "nós" tão cheio de si como vazio de conteúdo, sem complemento nem consequências, o que o aproxima dos slogans meramente comerciais e o afasta das palavras de ordem políticas. Ele cumpre o imperativo publicitário de fundir os parâmetros que, justamente, a política tem que manter separados, o que releva do princípio de realidade e o que decorre do princípio de prazer. E é esta fusão que conduz à ilusão de um uso mágico de certas palavras, como se por si só elas criassem ou transformassem a realidade. No fundo, como o filósofo R.Redeker a seu tempo sublinhou, é como se a "harrypotterização" da cultura tivesse chegado à política, e tudo fosse uma questão de palavras mágicas, alimentadas por um desejo que já não comporta qualquer sonho.»




M.M Carrilho, DN

Perplexidades

Confesso que me causa alguma perplexidade - o termo é usado a partir da sua denotação retórica - e não propriamente admiração, porque pouca coisa doméstica já me "admira", esta boutade néscia. Por motivos diferentes, também fiquei perplexo por ter sido um comentador televisivo (uma pessoa respeitável e responsável, evidentemente, mas a falar naquela qualidade) a "anunciar" coisas que deviam ter sido anunciadas por quem de direito - dada a importância delas para o futuro de milhões de portugueses - como quem anuncia um enlace de "socialites" ou um episódio picante da "casa dos segredos". Onde é que fica o sentido de Estado? Séneca, que vem aqui mais vezes do que eu desejaria, é sempre eloquente na sua apenas aparente singeleza. Mas, na realidade ("é" a realidade), "não há bom vento para quem não conhece o seu porto".

Debaixo do vulcão


 


Hoje é dia de Todos os Santos e amanhã de finados. Um livro extraordinário, daqueles escritos para todo o sempre em língua inglesa, Under the Volcano, de Malcom Lowry, passa-se durante a noite e o dia de finados numa cidadezinha do México. Por cá, aparentemente será a última vez que o feriado de Todos os Santos é feriado. De resto, dias de finados são todos os dias. Quem ler Lowry entenderá.