31.1.04

UMA MULHER SOZINHA


Eu não morro de amores pela Dra. Cardona. Acho que a sua escolha para a Justiça se ficou a dever exclusivamente à estreita ligação que mantinha com Portas e a algumas suas necessidades estratégicas de circunstância. No Governo praticamente não se dá por ela e, para sua infelicidade, esteve gravemente doente. Porém, neste episódio dos descontos dos funcionários do seu Ministério, Cardona foi literalmente lançada às feras. Primeiro, pela baralhada discursiva e inócua do seu secretário de Estado. Depois, pelo silêncio incomodado e pela falta de solidariedade do seu mentor e lider, cujos traços mais impressivos do seu carácter se revelam nestes momentos. Finalmente porque o primeiro-ministro, só depois de devidamente "picado", lhe manifestou vaga confiança. Se a matéria que deu azo a este desconforto nas hostes maioritárias é séria, como parece que é, então também um outro ministério, o das Finanças, aparece pelo meio. Mas desta casa não se falou. Et pour cause. O episódio vale o que vale e porventura haverá por aí um relativo manancial de situações idênticas que suavemente virão a lume. Cardona foi apanhada no fogo das dissenssões subterrâneas que grassam na contentinha maioria, dentro do PSD, e entre o PSD e o pequeno partido à sua direita. É provável que depois disto já tenha percebido qual é o seu lugar e o que é que ele vale na contabilidade dos interesses da coligação. A imagem de Celeste Cardona, ontem, sentada na bancada do Governo, era apenas a de uma mulher sozinha.

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UMA MULHER SOZINHA

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<b>UMA MULHER SOZINHA</b><br /><br /><img src="http://www.justicaemmovimento.org/images/fotos/min_justica.jpg" border="0"<br /><br /><div align="justify">Eu não morro de amores pela Dra. Cardona. Acho que a sua escolha para a Justiça se ficou a dever exclusivamente à estreita ligação que mantinha com Portas e a algumas suas necessidades estratégicas de circunstância. No Governo praticamente não se dá por ela e, para sua infelicidade, esteve gravemente doente. Porém, neste episódio dos descontos dos funcionários do seu Ministério, Cardona foi literalmente lançada às feras. Primeiro, pela baralhada discursiva e inócua do seu secretário de Estado. Depois, pelo silêncio incomodado e pela falta de solidariedade do seu mentor e lider, cujos traços mais impressivos do seu carácter se revelam nestes momentos. Finalmente porque o primeiro-ministro, só depois de devidamente "picado", lhe manifestou vaga confiança. Se a matéria que deu azo a este desconforto nas hostes maioritárias é séria, como parece que é, então também um outro ministério, o das Finanças, aparece pelo meio. Mas desta casa não se falou. <i>Et pour cause</i>. O episódio vale o que vale e porventura haverá por aí um relativo manancial de situações idênticas que suavemente virão a lume. Cardona foi apanhada no fogo das dissenssões subterrâneas que grassam na contentinha maioria, dentro do PSD, e entre o PSD e o pequeno partido à sua direita. É provável que depois disto já tenha percebido qual é o seu lugar e o que é que ele vale na contabilidade dos interesses da coligação. A imagem de Celeste Cardona, ontem, sentada na bancada do Governo, era apenas a de uma mulher sozinha.</div>

30.1.04

SEM CONSENSOS

Soares é fixe...

Um grupo de anacoretas transversais aos dois principais partidos, desta vez em número de 30, apelou ao "consenso" em sede de finanças públicas, para salvar a consolidação orçamental, como se ela tivesse salvação. Estas estimáveis luminárias não perceberam que o "clima" não é o melhor para consensos gelatinosos. A moleza da indiferenciação, nos dias que correm, é o que melhor convém ao processo de afundamento social, económico, cultural e cívico "em curso". Bem andou Mário Soares que, num artigo na Visão e hoje na televisão, disse que era fundamental "separar as águas" e estar disponível para rupturas. Deve saber-se com quem se está e contra quem é preciso travar combate, escreveu. Neste momento, qualquer tentativa de consenso, seja em que sector for, é um puro equívoco. Apenas nos olhos de Durão Barroso brilha uma esperança que mais ninguém vê. Uma vez mais, ele sabe que tem que acontecer qualquer coisa, só não sabe é quando... Só mesmo o papagaio do "regime", o Sr. Luis Delgado, é que consegue ver coisas extraordinárias no meio desta barafunda devidamente institucionalizada, "maioritária", sem sentido e "SA". Por isso me coloco ao lado de Mário Soares. Há momentos na vida em que é preciso mudar de lugar, curvar noutra direcção e passar a estar num "outro lado" qualquer. Sem consensos.

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SEM CONSENSOS

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<b>SEM CONSENSOS</b><br /><br /><img src="http://www.parleurop.pt/parleurop/site/images/msoares.jpg" border="0"<br /> <b> Soares é fixe...</b><br /><br /><div align="justify">Um grupo de anacoretas transversais aos dois principais partidos, desta vez em número de 30, apelou ao "consenso" em sede de finanças públicas, para salvar a consolidação orçamental, como se ela tivesse salvação. Estas estimáveis luminárias não perceberam que o "clima" não é o melhor para consensos gelatinosos. A moleza da indiferenciação, nos dias que correm, é o que melhor convém ao processo de afundamento social, económico, cultural e cívico "em curso". Bem andou Mário Soares que, num artigo na <i>Visão</i> e hoje na televisão, disse que era fundamental "separar as águas" e estar disponível para rupturas. Deve saber-se com quem se está e contra quem é preciso travar combate, escreveu. Neste momento, qualquer tentativa de consenso, seja em que sector for, é um puro equívoco. Apenas nos olhos de Durão Barroso brilha uma esperança que mais ninguém vê. Uma vez mais, ele sabe que tem que acontecer qualquer coisa, só não sabe é quando... Só mesmo o papagaio do "regime", o Sr. Luis Delgado, é que consegue ver coisas extraordinárias no meio desta barafunda devidamente institucionalizada, "maioritária", sem sentido e "SA". Por isso me coloco ao lado de Mário Soares. Há momentos na vida em que é preciso mudar de lugar, curvar noutra direcção e passar a estar num "outro lado" qualquer. Sem consensos.</div>

27.1.04

A CULTURA DO BOLHÃO

Na posse do director do fundido Instituto das Artes, e instado pelo recém nomeado no que respeita às "cativações" em PIDDAC e à ameaça que este e outros eventuais "cortes" orçamentais representam para o sector, no cumprimento dos seus "objectivos" para 2004, o Ministro da Cultura recorreu à sua já gasta algibeira da "gestão flexível". Pedro Roseta, aliás, para além de ministro da jóia perdida, ficará certamente na história da Ajuda como o "gestor flexível". Alguém que, ao depauperamento financeiro e estratégico da sua área de governação, responde com a amabilidade do contorcionismo da intendência. Eu sugeri lá para trás que se fechasse a Ajuda e se entregasse o assunto nas mãos da DGO, até por uma questão de dourada poupança e de maior competência, um registo muito a propos.. Um dia virá em que a "gestão flexível" não vai chegar, e nem sequer os bons ofícios "todo-o-terreno" da multifacetada adjunta do ministro para estes assuntos lhes acudirão. Numa outra banda da cultura, houve notícia de que uma cátedra de Português na Sorbonne fechou, e não me constou que alguém com responsabilidades políticas tivesse emitido um vago pio sobre o tema. Conviria, pois, que estas matérias que se prendem com a qualificação da Pátria- artes, património, leitura, teatro, ópera - não fossem tratadas como couve-flores cambadas ou peixe miúdo, e geridas, nalguns casos, como se se tratasse de bancadas de legumes ou de peixe do mercado do Bolhão.

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A CULTURA DO BOLHÃO

Na posse do director do fundido Instituto das Artes, e instado pelo recém nomeado no que respeita às "cativações" em PIDDAC e à ameaça que este e outros eventuais "cortes" orçamentais representam para o sector, no cumprimento dos seus "objectivos" para 2004, o Ministro da Cultura recorreu à sua já gasta algibeira da "gestão flexível". Pedro Roseta, aliás, para além de ministro da jóia perdida, ficará certamente na história da Ajuda como o "gestor flexível". Alguém que, ao depauperamento financeiro e estratégico da sua área de governação, responde com a amabilidade do contorcionismo da intendência. Eu sugeri lá para trás que se fechasse a Ajuda e se entregasse o assunto nas mãos da DGO, até por uma questão de dourada poupança e de maior competência, um registo muito a propos.. Um dia virá em que a "gestão flexível" não vai chegar, e nem sequer os bons ofícios "todo-o-terreno" da multifacetada adjunta do ministro para estes assuntos lhes acudirão. Numa outra banda da cultura, houve notícia de que uma cátedra de Português na Sorbonne fechou, e não me constou que alguém com responsabilidades políticas tivesse emitido um vago pio sobre o tema. Conviria, pois, que estas matérias que se prendem com a qualificação da Pátria- artes, património, leitura, teatro, ópera - não fossem tratadas como couve-flores cambadas ou peixe miúdo, e geridas, nalguns casos, como se se tratasse de bancadas de legumes ou de peixe do mercado do Bolhão.

25.1.04

EQUÍVOCOS

O PS colocou em Lisboa uns cartazes contra Santana Lopes. A experiência já lhes devia ter ensinado que, mesmo a contrario, essa é a melhor maneira de o ajudar a promover-se. Santana adora fazer-se de vítima e sai-se bem no papel. Basta ler a última crónica dele no DN ou as intervenções nas televisões. Este tipo de propaganda "anti-propaganda" só favorece o supostamente criticado e há exemplos concretos que bastam para o confirmar. Com este fait divers apenas alimentam ainda mais a sua doentia obsessão belenense. Entretanto, é bom que o PS lhe vá atirando "mais" Carrilho "às canelas". MMC tem esse saudável dom da provocação inteligente que gera em Santana uma irritação que o denuncia. Tudo o resto é folclore e pequenos equívocos sem importância.

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EQUÍVOCOS

O PS colocou em Lisboa uns cartazes contra Santana Lopes. A experiência já lhes devia ter ensinado que, mesmo a contrario, essa é a melhor maneira de o ajudar a promover-se. Santana adora fazer-se de vítima e sai-se bem no papel. Basta ler a última crónica dele no DN ou as intervenções nas televisões. Este tipo de propaganda "anti-propaganda" só favorece o supostamente criticado e há exemplos concretos que bastam para o confirmar. Com este fait divers apenas alimentam ainda mais a sua doentia obsessão belenense. Entretanto, é bom que o PS lhe vá atirando "mais" Carrilho "às canelas". MMC tem esse saudável dom da provocação inteligente que gera em Santana uma irritação que o denuncia. Tudo o resto é folclore e pequenos equívocos sem importância.

24.1.04


....No Teatro Nacional de São Carlos, até dia 1. Embora a encenação de Andrei Serban date de 1984, no meio do deserto em que estamos presentemente sentados, esta produção lírica é um trabalho competente e que conta no papel titular com uma das suas melhores intérpretes da actualidade, Alessandra Marc. Para mais, nada como recorrer à opinião especializada.

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<img src="http://www.r-ds.com/images/ImagesPuccini/turandot-poster.jpg" border="0"<br /><br /><b>....No Teatro Nacional de São Carlos, até dia 1. Embora a encenação de Andrei Serban date de 1984, no meio do deserto em que estamos presentemente sentados, esta produção lírica é um trabalho competente e que conta no papel titular com uma das suas melhores intérpretes da actualidade, Alessandra Marc. Para mais, nada como recorrer à <a href="http://criticomusical.blogspot.com">opinião especializada</a>.</b><div align="justify"></div>

23.1.04

SEM TECTO ENTRE RUÍNAS

1. Uma organização futebolística internacional, cujo nome me escapa, considerou os estádios do Benfica, do Porto e do Sporting como dos melhores por esse mundo. As três semanas de circo anunciado para Junho de 2004 justificaram as obras, mas nem este evento próximo consegue animar a Pátria. O pobre do Dr. Arnaut deve andar preocupado com a circunstância de o País não estar já a rejubilar com o Euro 2004. Apesar de tudo, eu acho que as pessoas não são completamente parvas.
2. Lá de Bruxelas, da Comissão, veio a análise demolidora para a agenda das nossas finanças públicas, do nosso mercado de emprego, do nosso investimento no conhecimento, etc, etc. Para quê investir no conhecimento e na investigação se o betão do futebol é mais vistoso? Não me lembro de tamanha degradação da nossa vida colectiva desde a altura em que, em 1981, o Dr. Balsemão teve a infelicidade de ser primeiro-ministro. Quem votou em 2002 para mudar, deve sentir-se defraudado. O Governo tem uma agenda medíocre e, em certas áreas, mesmo má. A peripécia do bilião de euros para a formação e para a investigação, proclamada em Óbidos, diz tudo. Não há nada de novo, é pura execução do QCA em vigor para esses registos. Porém, nem o Dr. Barroso resistiu à bravata barata, que já foi desmentida pela ministra do sector no Parlamento. Segundo os doutrinadores oficiais, foi avistada em Óbidos a "viragem". Só mesmo nas pobres e vendidas cabeças desses patetas é que ocorrem visões deste gabarito. No País dos três gloriosos estádios, há quase meio milhão de desempregados, falências em série, um serviço nacional de saúde anestesiado em demagogia, a promoção cultural e do património a degradar-se e um profundo mal-estar social e psicológico.
3. Pela primeira vez na minha vida, fiz greve. Fi-la contra esta parasitagem institucional da nossa inteligência cívica, contra o domínio do que foi outrora um grande partido nacional por uma agremiação populista de expressão popular diminuta, contra a incompetência caciqueira instalada e contra o comodismo carneiro. É lamentável que esta situação só se mantenha por causa da matemática parlamentar e da névoa mediática de um processo judicial. Na realidade, e se se vasculhar com seriedade, não há mesmo nada por trás do cenário. Lembrando Raul Brandão, estamos sem tecto, entre ruínas.

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SEM TECTO ENTRE RUÍNAS

1. Uma organização futebolística internacional, cujo nome me escapa, considerou os estádios do Benfica, do Porto e do Sporting como dos melhores por esse mundo. As três semanas de circo anunciado para Junho de 2004 justificaram as obras, mas nem este evento próximo consegue animar a Pátria. O pobre do Dr. Arnaut deve andar preocupado com a circunstância de o País não estar já a rejubilar com o Euro 2004. Apesar de tudo, eu acho que as pessoas não são completamente parvas.
2. Lá de Bruxelas, da Comissão, veio a análise demolidora para a agenda das nossas finanças públicas, do nosso mercado de emprego, do nosso investimento no conhecimento, etc, etc. Para quê investir no conhecimento e na investigação se o betão do futebol é mais vistoso? Não me lembro de tamanha degradação da nossa vida colectiva desde a altura em que, em 1981, o Dr. Balsemão teve a infelicidade de ser primeiro-ministro. Quem votou em 2002 para mudar, deve sentir-se defraudado. O Governo tem uma agenda medíocre e, em certas áreas, mesmo má. A peripécia do bilião de euros para a formação e para a investigação, proclamada em Óbidos, diz tudo. Não há nada de novo, é pura execução do QCA em vigor para esses registos. Porém, nem o Dr. Barroso resistiu à bravata barata, que já foi desmentida pela ministra do sector no Parlamento. Segundo os doutrinadores oficiais, foi avistada em Óbidos a "viragem". Só mesmo nas pobres e vendidas cabeças desses patetas é que ocorrem visões deste gabarito. No País dos três gloriosos estádios, há quase meio milhão de desempregados, falências em série, um serviço nacional de saúde anestesiado em demagogia, a promoção cultural e do património a degradar-se e um profundo mal-estar social e psicológico.
3. Pela primeira vez na minha vida, fiz greve. Fi-la contra esta parasitagem institucional da nossa inteligência cívica, contra o domínio do que foi outrora um grande partido nacional por uma agremiação populista de expressão popular diminuta, contra a incompetência caciqueira instalada e contra o comodismo carneiro. É lamentável que esta situação só se mantenha por causa da matemática parlamentar e da névoa mediática de um processo judicial. Na realidade, e se se vasculhar com seriedade, não há mesmo nada por trás do cenário. Lembrando Raul Brandão, estamos sem tecto, entre ruínas.

21.1.04

ENTRE O RISO E O ESQUECIMENTO



O Sr. Bush brindou os EUA e o mundo com mais uma pérola sobre o "estado da União". Como está em fase eleitoral, prometeu para "dentro" mais dinheiro nas áreas da governação que mais votos podem dar ou tirar. Para "fora", esclareceu que, lá onde os interesses norte-americanos se encontrem ameaçados, ele manda avançar a tropa, sem dar satisfações a ninguém. Mas a parte trágico-cómica da peroração da criatura deu-se quando Bush se referiu a coisas inteiramente privadas, tais como o sexo e o casamento. Aos jovens americanos, o presidente recomendou (sic) a abstinência sexual, designadamente por causa das doenças. Relativamente ao casamento, lembrou os distraídos do carácter "sagrado" (sic) deste contrato, evidentemente só celebrável por pessoas de sexos diferentes. O que equivale a dizer que zurziu a hipótese demoníaca de same sexers se unirem, de direito ou de facto. Embora eu considere o casamento em geral como uma piroseira burocrática, seja entre quem for, entendo que não compete a nenhum poder político definir com quem é que os seus cidadãos devem dormir. George W. Bush, do alto do seu limitado horizonte intelectual, não pensa assim e disse-o ao mundo. O que é grave é que este cavalheiro seja tido por alguns governos do planeta como o seu guru político e, em casos extremos, espiritual. Bush já deu provas suficientes de que não compreende o mundo em que vive. Nem sequer se pode dizer que seja medievo, porque isso constituiria uma ofensa histórica. A América, que eu muito admiro, não tem praticamente memória nenhuma, tendo lá simultaneamente o seu "tudo" e o seu "nada". Os EUA "profundos", conservadores, desconfiados e puritanos, apesar de tudo mereciam melhor do que esta pudicícia pouco mais que boçal de um presidente perdido algures entre o riso e o esquecimento.

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ENTRE O RISO E O ESQUECIMENTO

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<b>ENTRE O RISO E O ESQUECIMENTO</b><br /><br /><img src="http://www.alteich.com/tidbits/bush4a.jpg" border="0"<br /><br /><br /><div align="justify">O Sr. Bush brindou os EUA e o mundo com mais uma pérola sobre o "estado da União". Como está em fase eleitoral, prometeu para "dentro" mais dinheiro nas áreas da governação que mais votos podem dar ou tirar. Para "fora", esclareceu que, lá onde os interesses norte-americanos se encontrem ameaçados, ele manda avançar a tropa, sem dar satisfações a ninguém. Mas a parte trágico-cómica da peroração da criatura deu-se quando Bush se referiu a coisas inteiramente privadas, tais como o sexo e o casamento. Aos jovens americanos, o presidente recomendou (sic) a abstinência sexual, designadamente por causa das doenças. Relativamente ao casamento, lembrou os distraídos do carácter "sagrado" (sic) deste contrato, evidentemente só celebrável por pessoas de sexos diferentes. O que equivale a dizer que zurziu a hipótese demoníaca de <i>same sexers</i> se unirem, de direito ou de facto. Embora eu considere o casamento em geral como uma piroseira burocrática, seja entre quem for, entendo que não compete a nenhum poder político definir com quem é que os seus cidadãos devem dormir. George W. Bush, do alto do seu limitado horizonte intelectual, não pensa assim e disse-o ao mundo. O que é grave é que este cavalheiro seja tido por alguns governos do planeta como o seu guru político e, em casos extremos, espiritual. Bush já deu provas suficientes de que não compreende o mundo em que vive. Nem sequer se pode dizer que seja medievo, porque isso constituiria uma ofensa histórica. A América, que eu muito admiro, não tem praticamente memória nenhuma, tendo lá simultaneamente o seu "tudo" e o seu "nada". Os EUA "profundos", conservadores, desconfiados e puritanos, apesar de tudo mereciam melhor do que esta pudicícia pouco mais que boçal de um presidente perdido algures entre o riso e o esquecimento.</div>

20.1.04

DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE JUSTIÇA?

1. Tendo pela frente os rostos patibulares dos senhores que administram a justiça neste País, o poder político legitimamente sufragado nas urnas foi dizer como acha que as coisas, justamente na justiça, se devem passar. Aos ditos senhores, os que estavam acordados, deve-lhes ter entrado por um ouvido e saído por outro. A imagem da justiça tem tudo a ver com aqueles facies inexpressivos, quase etéreos e geralmente alheios à vida vivida no quotidiano das pessoas vulgares. O Dr. Sampaio quer controlo judicial sobre determinados actos do Ministério Público (boa ideia!), o Dr. Barroso, promete "reformas" e o Dr. Júdice, da "câmara corporativa", exige-as. Aliás, o primeiro-ministro referiu há dias que a Justiça estava a passar por uma "revolução tranquila" que, de tão tranquila, como a sua sorridente titular, nem se dá por ela. Voltemos, porém, aos "administradores da justiça". Se há coisa que o nosso País tem a mais é juristas. É um curso que dá para quase tudo, e até pela negativa, como se viu nas recentes admissões ao curso de magistrados do CEJ. Para além disso, por detrás de cada gestor político, existe sempre um legislador impaciente e putativo. Todos gostam de deixar a sua "marca" e nada melhor do que um "diploma legal", a juntar aos muitos que servem para muito pouco, que ninguém lê e que ninguém cumpre. Por causa da "mediatização" de determinados processos, a justiça anda na rua. Vai ser "julgada" na rua, aliás, e muito por sua culpa. Talvez fosse mais útil aos seus "operadores" lerem Michel Foucault ou Gilles Deleuze do que marrar nas sebentas sofríveis dos nossos doutrinadores domésticos, ou aplicar cegamente códigos ou proclamar reformas que banalizam o conceito e a mensagem. A justiça desceu da barra do tribunal para a praça, para os jornais, para as televisões, para o abismo. Não está mais onde devia estar, nem se sabe quando e se voltará a estar. O exemplo disto está nas palavras do Procurador Geral da República, cujo discurso se centrou "num" processo concreto. O escândalo absorveu a justiça e, daqui em diante, é ele quem a vai absolver ou danar.


2. Diz Deleuze:
A jurisprudência é a filosofia do direito, e procede por singularidade, prolongamento de singularidades. Evidentemente, tudo isto pode dar lugar a tomadas de posição se se tiver alguma coisa a dizer. Mas hoje não basta "tomar posição", ainda que concretamente. Seria necessário um mínimo de controlo sobre os meios de expressão. Caso contrário, rapidamente daremos por nós na televisão a responder a perguntas idiotas, ou num frente-a-frente, num costas-a-costas, a "discutir um pouco". Participar, portanto, na produção da emissão? É difícl, é uma actividade profissional, já não somos nós os clientes sequer da televisão, os verdadeiros clientes são os anunciantes, os famosos liberais.

(in Conversações (1972-1990), trad. de Miguel Serras Pereira, Ed. Fim de Século, 2003)


Michel Foucault
e Gilles Deleuze

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DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE JUSTIÇA?

1. Tendo pela frente os rostos patibulares dos senhores que administram a justiça neste País, o poder político legitimamente sufragado nas urnas foi dizer como acha que as coisas, justamente na justiça, se devem passar. Aos ditos senhores, os que estavam acordados, deve-lhes ter entrado por um ouvido e saído por outro. A imagem da justiça tem tudo a ver com aqueles facies inexpressivos, quase etéreos e geralmente alheios à vida vivida no quotidiano das pessoas vulgares. O Dr. Sampaio quer controlo judicial sobre determinados actos do Ministério Público (boa ideia!), o Dr. Barroso, promete "reformas" e o Dr. Júdice, da "câmara corporativa", exige-as. Aliás, o primeiro-ministro referiu há dias que a Justiça estava a passar por uma "revolução tranquila" que, de tão tranquila, como a sua sorridente titular, nem se dá por ela. Voltemos, porém, aos "administradores da justiça". Se há coisa que o nosso País tem a mais é juristas. É um curso que dá para quase tudo, e até pela negativa, como se viu nas recentes admissões ao curso de magistrados do CEJ. Para além disso, por detrás de cada gestor político, existe sempre um legislador impaciente e putativo. Todos gostam de deixar a sua "marca" e nada melhor do que um "diploma legal", a juntar aos muitos que servem para muito pouco, que ninguém lê e que ninguém cumpre. Por causa da "mediatização" de determinados processos, a justiça anda na rua. Vai ser "julgada" na rua, aliás, e muito por sua culpa. Talvez fosse mais útil aos seus "operadores" lerem Michel Foucault ou Gilles Deleuze do que marrar nas sebentas sofríveis dos nossos doutrinadores domésticos, ou aplicar cegamente códigos ou proclamar reformas que banalizam o conceito e a mensagem. A justiça desceu da barra do tribunal para a praça, para os jornais, para as televisões, para o abismo. Não está mais onde devia estar, nem se sabe quando e se voltará a estar. O exemplo disto está nas palavras do Procurador Geral da República, cujo discurso se centrou "num" processo concreto. O escândalo absorveu a justiça e, daqui em diante, é ele quem a vai absolver ou danar.


2. Diz Deleuze:
A jurisprudência é a filosofia do direito, e procede por singularidade, prolongamento de singularidades. Evidentemente, tudo isto pode dar lugar a tomadas de posição se se tiver alguma coisa a dizer. Mas hoje não basta "tomar posição", ainda que concretamente. Seria necessário um mínimo de controlo sobre os meios de expressão. Caso contrário, rapidamente daremos por nós na televisão a responder a perguntas idiotas, ou num frente-a-frente, num costas-a-costas, a "discutir um pouco". Participar, portanto, na produção da emissão? É difícl, é uma actividade profissional, já não somos nós os clientes sequer da televisão, os verdadeiros clientes são os anunciantes, os famosos liberais.

(in Conversações (1972-1990), trad. de Miguel Serras Pereira, Ed. Fim de Século, 2003)


Michel Foucault
e Gilles Deleuze
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<b>DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE JUSTIÇA?</b><br /><br /><div align="justify"><b>1.</b> Tendo pela frente os rostos patibulares dos senhores que administram a justiça neste País, o poder político legitimamente sufragado nas urnas foi dizer como acha que as coisas, justamente na justiça, se devem passar. Aos ditos senhores, os que estavam acordados, deve-lhes ter entrado por um ouvido e saído por outro. A imagem da justiça tem tudo a ver com aqueles <i>facies</i> inexpressivos, quase etéreos e geralmente alheios à vida vivida no quotidiano das pessoas vulgares. O Dr. Sampaio quer controlo judicial sobre determinados actos do Ministério Público (boa ideia!), o Dr. Barroso, promete "reformas" e o Dr. Júdice, da "câmara corporativa", exige-as. Aliás, o primeiro-ministro referiu há dias que a Justiça estava a passar por uma "revolução tranquila" que, de tão tranquila, como a sua sorridente titular, nem se dá por ela. Voltemos, porém, aos "administradores da justiça". Se há coisa que o nosso País tem a mais é juristas. É um curso que dá para quase tudo, e até pela negativa, como se viu nas recentes admissões ao curso de magistrados do CEJ. Para além disso, por detrás de cada gestor político, existe sempre um legislador impaciente e putativo. Todos gostam de deixar a sua "marca" e nada melhor do que um "diploma legal", a juntar aos muitos que servem para muito pouco, que ninguém lê e que ninguém cumpre. Por causa da "mediatização" de determinados processos, a justiça anda na rua. Vai ser "julgada" na rua, aliás, e muito por sua culpa. Talvez fosse mais útil aos seus "operadores" lerem <a href="http://en2.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault">Michel Foucault</a> ou <a href="http://en2.wikipedia.org/wiki/Gilles%20Deleuze">Gilles Deleuze</a> do que marrar nas sebentas sofríveis dos nossos doutrinadores domésticos, ou aplicar cegamente códigos ou proclamar reformas que banalizam o conceito e a mensagem. A justiça desceu da barra do tribunal para a praça, para os jornais, para as televisões, para o abismo. Não está mais onde devia estar, nem se sabe quando e se voltará a estar. O exemplo disto está nas palavras do Procurador Geral da República, cujo discurso se centrou "num" processo concreto. O escândalo absorveu a justiça e, daqui em diante, é ele quem a vai absolver ou danar.</div><br /><div align="justify"><br /><b>2. </b>Diz Deleuze: <br /> <i>A jurisprudência é a filosofia do direito, e procede por singularidade, prolongamento de singularidades. Evidentemente, tudo isto pode dar lugar a tomadas de posição se se tiver alguma coisa a dizer. Mas hoje não basta "tomar posição", ainda que concretamente. Seria necessário um mínimo de controlo sobre os meios de expressão. Caso contrário, rapidamente daremos por nós na televisão a responder a perguntas idiotas, ou num frente-a-frente, num costas-a-costas, a "discutir um pouco". Participar, portanto, na produção da emissão? É difícl, é uma actividade profissional, já não somos nós os clientes sequer da televisão, os verdadeiros clientes são os anunciantes, os famosos liberais.</i> <br /> <br />(in <b>Conversações</b> (1972-1990), trad. de Miguel Serras Pereira, Ed. Fim de Século, 2003)</div><br /><br /><b>Michel Foucault <br />e Gilles Deleuze<br /></b><img src="http://www.sospeso.com/images/images_interviews/foucault.gif" border="0" <br /> <img src="http://www.mythosandlogos.com/Deleuze.jpg" border="0"<br /><br />

19.1.04

TRÊS VEZES


Nos 81 anos de Eugénio de Andrade, não é justo inventar palavras gastas para o felicitar. Basta-me a delicadeza do seu verso depurado e singelo, como um olhar manso lançado ao sol inesperado de Inverno, um lume onde tantas vezes me aqueço, aqui três vezes repetido.

BALANÇA

No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida


(Ofício de Paciência, Porto, 1994)

DO LADO DO VERÃO

Vinha do sul ou dum verso de Homero.
Como dormir, depois de ter ouvido
o mar o mar o mar na sua boca?

AO LUME

Nem sempre o homem é um lugar triste.
Há noites em que o sorriso
dos anjos
o torna habitável e leve:
com a cabeça no teu regaço
é um cão ao lume a correr às lebres.


(O Outro Nome da Terra, Porto, 1988)

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TRÊS VEZES

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<b>TRÊS VEZES</b><br /><br /><img src="http://omni.isr.ist.utl.pt/~cfb/gif-store/eugenio.andrade.jpg" border="0"<br /><br />Nos 81 anos de Eugénio de Andrade, não é justo inventar palavras gastas para o felicitar. Basta-me a delicadeza do seu verso depurado e singelo, como um olhar manso lançado ao sol inesperado de Inverno, um lume onde tantas vezes me aqueço, aqui três vezes repetido.<br /><br /><b>BALANÇA<br /><br />No prato da balança um verso basta<br />para pesar no outro a minha vida</b><br /><br />(<i>Ofício de Paciência, Porto, 1994</i>)<br /><br /><b>DO LADO DO VERÃO<br /><br />Vinha do sul ou dum verso de Homero.<br />Como dormir, depois de ter ouvido<br />o mar o mar o mar na sua boca?<br /><br />AO LUME<br /><br />Nem sempre o homem é um lugar triste.<br />Há noites em que o sorriso<br />dos anjos<br />o torna habitável e leve:<br />com a cabeça no teu regaço<br />é um cão ao lume a correr às lebres.</b><br /><br /><i>(O Outro Nome da Terra, Porto, 1988)</i><br /><br />

18.1.04

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937-1984)



O Diário de Notícias andou a semana toda a perguntar a leitores, com direito a fotografia e a profissão, se sabiam quem era Ary dos Santos. Naturalmente as respostas variaram entre o disparate e a aproximação. Houve sensatos que declararam não fazer a mínima ideia. Para além de poeta do amor e da cidade, Ary era essencialmente uma voz. Enorme, incómoda, corrosiva, por vezes irritantemente panfletária e de rima despropositada, essa voz (ao lado de outras vozes diferentes, como Natália Correia, Cesariny, Luis Pacheco ou Francisco Sousa Tavares, num registo completamente distinto) tinha o timbre da indignação e da insubmissão. Ao mesmo tempo que se entregava generosamente à vida, através da publicidade onde trabalhou, dos poemas que inventou, das canções que "poemou", Ary dos Santos sofria por dentro essa ternura mansa e quase vegetal de que falava O' Neiil e que, afogada precocemente em álcool e solidão, o exauriu aos 47 anos. Era convictamente comunista, morrendo na mágoa da rejeição da sua efectiva militância, pela ortodoxia de costumes do PCP, por ser homossexual. Frequentou as Faculdades de Direito e de Letras, contudo teve o bom-gosto de não concluir qualquer licenciatura. Em 1966, quando editou a sua Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Natália Correia incluiu nela dois poemas de Ary dos Santos. É um desses textos, praticamente desconhecido no acervo mais divulgado do poeta, que aqui fica em jeito de saudação memorialística.

Em louvor e simplificação de Mário Cesariny de Vasconcelos

Por quê Mário?
Por quê Cesariny?
Por quê - ó meu Deus de Vasconcelos?
Não sabes que um polícia de costumes é o agente interino
da moral dos vitelos?

Alarga Mário a larga pássara do canto
e verás que à ilharga da imagem
o deus da vadiagem
fará de ti um santo.

Meu santo minha santa
Filomena tirada dos altares
quando a alma dos outros é pequena
melhor é ir a ares.

Areja Mário a pluma que sobeja
ao teu surrealismo
antes o ar de Londres que o de Beja
antes a bruma do que o sinapismo

Fornica meu poeta
sem a arnica
dos padrecas da terra.
Antes em Telavive que o tal estar
aqui
de cu pró ar
a ver quem nos enterra.

A fundo Mário se quiseres
baratinar os chuis.
Nem vinho já sabemos nem mulheres
mas os colhões de teres
os três olhos azuis.



Untitled

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937-1984)

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<b>JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937-1984)</b><br /><br /><img src="http://www1.rdp.pt/arquivo/sons/ler/i/foto-ary-dos-santos.jpg" border="0"<br /><br /><br /><div align="justify">O <i>Diário de Notícias</i> andou a semana toda a perguntar a leitores, com direito a fotografia e a profissão, se sabiam quem era Ary dos Santos. Naturalmente as respostas variaram entre o disparate e a aproximação. Houve sensatos que declararam não fazer a mínima ideia. Para além de poeta do amor e da cidade, Ary era essencialmente uma voz. Enorme, incómoda, corrosiva, por vezes irritantemente panfletária e de rima despropositada, essa voz (ao lado de outras vozes diferentes, como Natália Correia, Cesariny, Luis Pacheco ou Francisco Sousa Tavares, num registo completamente distinto) tinha o timbre da indignação e da insubmissão. Ao mesmo tempo que se entregava generosamente à vida, através da publicidade onde trabalhou, dos poemas que inventou, das canções que "poemou", Ary dos Santos sofria por dentro essa ternura mansa e quase vegetal de que falava O' Neiil e que, afogada precocemente em álcool e solidão, o exauriu aos 47 anos. Era convictamente comunista, morrendo na mágoa da rejeição da sua efectiva militância, pela ortodoxia de costumes do PCP, por ser homossexual. Frequentou as Faculdades de Direito e de Letras, contudo teve o bom-gosto de não concluir qualquer licenciatura. Em 1966, quando editou a sua <i>Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica</i>, Natália Correia incluiu nela dois poemas de Ary dos Santos. É um desses textos, praticamente desconhecido no acervo mais divulgado do poeta, que aqui fica em jeito de saudação memorialística.</div><br /><div align="center"><b>Em louvor e simplificação de Mário Cesariny de Vasconcelos</b></div><i></i><br /><b><i>Por quê Mário?<br />Por quê Cesariny?<br />Por quê - ó meu Deus de Vasconcelos?<br />Não sabes que um polícia de costumes é o agente interino<br />da moral dos vitelos?<br /><br />Alarga Mário a larga pássara do canto<br />e verás que à ilharga da imagem<br />o deus da vadiagem<br />fará de ti um santo.<br /><br />Meu santo minha santa<br />Filomena tirada dos altares<br />quando a alma dos outros é pequena<br />melhor é ir a ares.<br /><br />Areja Mário a pluma que sobeja<br />ao teu surrealismo<br />antes o ar de Londres que o de Beja<br />antes a bruma do que o sinapismo<br /><br />Fornica meu poeta<br />sem a arnica<br />dos padrecas da terra.<br />Antes em Telavive que o tal estar<br />aqui<br />de cu pró ar<br />a ver quem nos enterra.<br /><br />A fundo Mário se quiseres<br />baratinar os chuis.<br />Nem vinho já sabemos nem mulheres<br />mas os colhões de teres<br />os três olhos azuis.</i></b><br /><br /><br />
A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA

Descobri Maria Filomena Molder, na década de oitenta, num seu ensaio acerca de Jorge Martins ( Imprensa Nacional-Casa da Moeda ). Mais recentemente, "encontrei-a" num livro sobre Walter Benjamin, Semear na Neve ( Relógio D' Água ). A propósito da publicação de um novo livro, A Imperfeição da Filosofia, desta última editora, Helena Vasconcelos proporcionou uma notável entrevista com Filomena Molder no suplemento Mil Folhas do Público , de 17 de Janeiro. É reconfortante - deveria antes dizer inquietante, no melhor do seu sentido - o confronto com as palavras luminosas de Maria Filomena Molder. É uma vez mais no "consolo" da filosofia que apetece continuar depois de a ler. No meio de tanto lixo que nos entra pela porta através de tanta folha inútil de jornal, no meio da insuportável ignorância tagarela em vigor, esta serenidade perturbante é como que um bálsamo. Como tudo é efémero, desde as páginas web dos jornais até à própria utilização da linguagem, troco o habitual link pela reprodução integral desta inteligente entrevista, com a vénia costumeira a Helena Vasconcelos, directora da revista online Storm Magazine.

Um Brilho sem vacilações

Por Helena Vasconcelos

Maria Filomena Molder, filósofa, professora e escritora reúne em "A Imperfeição da Filosofia" (Ed. Relógio D'Água, Novembro, 2003) textos que exploram o universo do pensamento e seduzem pela sua extrema limpidez, aliada a uma enorme erudição. Filósofos - dos Clássicos aos que marcaram o século XX como Wittgenstein e Walter Benjamin - escritores e poetas - como por exemplo, Dante, Jorge de Sena e Rilke - pintores, fotógrafos, cineastas (como David Lynch) chegam-nos "revigorados" por esta voz que, ainda que meditativa , tem a capacidade de nos atingir em pleno e de nos estimular.

Maria Filomena Molder iniciou a sua fulgurante trajectória como docente do Departamento de Filosofia da Universidade Nova em 1980, onde lhe foi atribuída a cadeira de Filosofia Medieval. Dessa experiência ficou-lhe o interesse por Santo Agostinho, Santo Anselmo e outros doutores da Igreja com quem mantém vivo contacto, apesar de os seus interesses terem continuado a expandir-se, principalmente em campos tão férteis como a Estética e a Filosofia da Linguagem. Desta autora, é possível encontrar na mesma editora a obra "Semear na Neve".


Mil FOLHAS - Como se tem desencadeado o seu percurso de professora de Filosofia Medieval até esta "abertura" para a Estética e para a Filosofia da Linguagem?

Maria Filomena Molder - Na verdade, não estava preparada para ensinar filosofia medieval, no sentido de já ter levado a cabo uma longa e exaustiva investigação. Mas foi a cadeira que me foi distribuída quando, em 1980, entrei para o Departamento de Filosofia da Universidade Nova, precisamente no seu segundo ano de existência, e me dediquei inteiramente ao seu estudo durante os dois breves anos em que a leccionei. No entanto, desde os meus tempos da Faculdade de Letras que alguns dos autores medievais e dos seus problemas me tinham afectado profundamente (e evoco aqui o Padre de Cerqueira, meu professor de Medieval). Exemplifico: Santo Agostinho e o mistério do tempo e da memória, o modo original de conceber a linguagem, o modo de citar (que tomei como regra íntima) - quanto mais próximo de nós está um texto, menos a citação aparece como uma citação, ficando, por assim dizer, incorporada nas nossas palavras; Santo Anselmo e a sua delirante prova ontológica, que tantas voltas nos dá à cabeça, uma autêntica mina para exploração das relações entre o possível, o real e o pensável; o problema dos universais (a Arca de Noé é uma das suas apresentações mais antigas), que vem ter connosco sempre que tentamos distinguir um gato de um cão ou de saber qual é a diferença entre a arte e uma obra de arte. Além destes, tive a oportunidade de voltar a estudar durante esses dois anos um autor, que é como o último dos Gregos, Plotino, aquele que já não se vê propriamente como filósofo, e se atribuiu apenas o papel de intérprete, e que para as coisas da Estética (que é uma palavra tão recente!) se revelou um autêntico manancial, sobretudo para a compreensão da relação entre forma e informe e para a visão do universo como o acto de um dançarino.

P.- Acha que a sua base "medievalista" a preparou para o desenvolver do seu pensamento ou precisou de fazer um "corte" , voltando às raízes clássicas da nossa cultura?

R.- Releio sempre Plotino, que não é um pensador medieval, mas foi tão lido directa ou indirectamente pelos medievais, e regresso muitas vezes aos abismos agostinianos: ao imenso palácio da memória, ao labirinto do tempo (não só o famoso "se não mo perguntam sei o que é, se mo perguntam não sei o que é", mas também o surpreendente, o admirável, resultado - é que ele acaba mesmo por nos esclarecer em que consiste o tempo: uma distensão da alma). E, recentemente, por obrigações de distribuição de serviço, voltei à filosofia medieval, mas agora, e mantendo-se a minha impreparação nos termos referidos, decidi-me a ler com os estudantes "A Divina Comédia", na qual encontrei tudo o que esperava encontrar, mais tudo o resto: o "absoluto que pertence à terra", que sendo um leit-motiv de Broch, não se podia aplicar melhor a Dante - ele chamava-lhe liberdade; as relações entre poesia e filosofia, entre sonho, visão e poesia; a visão infernal do tempo; uma das compreensões mais temíveis do suicídio; o carácter desmedido, insolente, da poesia; uma metafísica da luz... Na verdade, encontra-se tudo n' "A Divina Comédia"! Levou-me a reler, por exemplo, o tratado sobre os anjos de São Tomás de Aquino. Acrescente-se que o melhor guia para "A Divina Comédia", poema que não poderia ser mais medieval e continua a resistir a qualquer esforço de classificação, é o poeta russo Óssip Mandelstam.

P.- O seu trabalho tem vindo a desenvolver-se de uma forma segura e revigorante. Como chegou a esta íntima conexão do pensamento filosófico com a literatura, a fotografia, o cinema, a ciência e as artes plásticas?

R.- Gostaria de lembrar que se pode fazer filosofia (aliás, o mesmo se passa com a arte) a partir do que quer que seja (embora não se faça de qualquer maneira, como também acontece com a arte), e sempre se fez. O primeiro crítico sistemático da poesia foi Platão, e o seu primeiro defensor, Aristóteles, que ainda sabia (e aqui ele já citava o dificílimo Heraclito) que em todos os lugares pode haver deuses ou, usando as palavras de Colli, o primeiro dever do filósofo é não caluniar as aparências. Desde pequena que não posso viver sem música e sem cinema. Descobri na adolescência a poesia, as outras artes.

P.- Fala de Sócrates e do seu pedido para que seja aceite a "natureza incompleta da filosofia". Em relação ao título deste seu livro - "A Imperfeição da Filosofia" - será que está a reportar-se às palavras do filósofo ? Ao debruçar-se sobre essa "imperfeição" quer dizer que a sabedoria implícita no termo Filosofia não é completa e que em vez de "consolo" traz a inquietação inerente à descoberta continuada?

R.- Reli Boécio e a sua "A Consolação da Filosofia" - uma obra escrita na prisão de Ticinium em 524 ou 525, antes de ele ser executado - por causa do Dante. É um admirável esforço de se libertar do desespero, da desilusão, do medo da morte e do desprezo pela morte desonrosa. Nessa obra, vemos pela última vez brilhar sem vacilações a relação entre filosofia e modo de vida ou, melhor, a filosofia entendida como modo de vida, coisa que os Modernos tenderam a ocultar de forma mais ou menos eficaz. No meio da devastação, há quem jogue ao xadrez. Que a filosofia providencie a consolação tem alguma parecença com o jogo: suspende-se a relação com a imediatez, abre-se uma pequena fenda e tenta-se respirar melhor. Por seu lado, a imperfeição tem a ver com incompletude, um sentimento de perda, e com agilidade, leveza, tentar não cair como o acrobata. Isto é, a filosofia traz realmente inquietação e só atravessando essa parede ardente podemos chegar a vislumbrar que ela rima com "descoberta continuada".

P.- Refere o suicídio no contexto a que a ele se referiu Camus que disse: "Só há um problema filosófico realmente sério: o suicídio."?

R.- Não me sinto capaz de falar do suicídio a não ser por interposta pessoa. N' "A Divina Comédia", Dante dá-nos a ver duas inexcedíveis aproximações, ambas perturbadoras. Num dos círculos do Inferno, numa vastidão hostil, crescem umas estranhas árvores, em cujos ramos retorcidos em vez de seiva corre sangue humano. Com crueldade involuntária, Dante parte um desses ramos e ouve uns lamentosos gritos de dor. Sem o saber, acaba de mutilar um suicida, por quem ele tem grande admiração e sente piedade, Piero della Vigna, homem de espírito nobre, acusado injustamente de traição. O suicida aos olhos da crença cristã é um escândalo, pois é um gesto de rebelião contra a vontade criadora de Deus, através da rejeição de si próprio, do seu corpo próprio. E, por isso, o suicida é aquele que jamais poderá resgatar o seu corpo, perdeu o direito a ele, quer dizer, o mistério da ressurreição foi por ele absolutamente selado. A outra aproximação encontramo-la à entrada do Purgatório, guardada por alguém que não é só um pagão, mas também um suicida, Catão. Mas, aqui, que a morte própria tenha origem no amor pela liberdade é um excesso bem-vindo aos olhos de Dante. Mais perto de nós, e próximo de Camus, temos o testemunho de Jean Améry.

P.- No seu texto sobre Rilke fala da "atmosfera da civilização", essas sucessivas "crostas" criadas pelo ser humano, que nos isolam de Deus. Será que, como diz Steiner, a religião poderia ser definida como uma resposta narrativa à interrogação de Leibnitz: "Por que há alguma coisa em vez de nada?"?

R.- Que a civilização seja constituída por uma sobreposição de crostas que nos separariam de Deus é uma ideia wittgensteiniana, ou melhor, é a devolução por Wittgenstein de um lugar- comum de muitas culturas, incluindo a ocidental, qualquer que seja a sua formulação, e isto desde que nós nos podemos lembrar. Esse lugar comum exprime o sentimento de perda de um contacto íntimo com o mistério da vida, do ser, de deus ou dos deuses, e obriga muitas vezes a procedimentos mais ou menos austeros de desprendimento e ascetismo, que atravessam a religião, a filosofia, a arte: voltar a conhecer a simplicidade do coração, voltar a beber a água pura das fontes. O que é uma maneira de reconhecer um grau de inadaptação "quantum satis" do ser humano à sua própria história. A pergunta pelo nada, a pergunta de Leibniz (retomada de maneira particular por Heidegger, do qual Steiner é um grande leitor), é a pergunta que não se refaz nunca do mistério de haver isto tudo que há, e conheceu respostas antes de a filosofia as ter formalizado. A descrição do Génesis é uma dessas respostas, que protege, como um tesouro ou um escândalo incomunicável, o porquê. Num dos mais belos hinos védicos, isso, que não pode deixar de ser ocultado, é apontado assim: pode ser que aquele que sustenta tudo saiba o porquê desta existência secundária (que inclui os homens e os deuses), mas também pode acontecer que esse também não saiba.

P.- Diz que a "imoderação própria da actividade filosófica tem a ver com a natureza do amor".Parece uma referência a uma espécie de movimentação física arrebatadora como o sexo. Será que se refere a Eros e à nossa mortalidade?

R.- Há uma embriaguez própria do acto contemplativo, no sentido em que a suspensão da vida a que ele obriga pode levar a um comprazimento solipsista, mas esse estar consigo próprio também pode originar formas mais ou menos agudas de dilaceração. Como muito bem diz a imoderação a que me refiro, atribuindo-a à natureza do amor, tem a ver com o deus Eros, essa força física, cósmica, que faz mover tudo e, em particular esses que tentam decifrar os discursos escritos nas suas própria almas, e, portanto, apresenta-se como um desafio à nossa mortalidade. É no "Fedro" que Platão descobre esse chamamento, que permita vencer a tentação (e a ilusão) solipsista, e toma formas paradoxais. No caso do discurso de Aristófanes, encontramos esta pergunta: os amantes não procuram outra coisa a não ser estarem juntos, que querem eles? No caso do discurso de Diotima, que se faz ouvir pela voz de Sócrates, no termo da descrição da escala de graus da experiência erótica, surpreendemos a alma a deixar cair tudo o que parecia decisivo: a figura, o saber, o logos, de modo a poder despenhar-se no pélago, no mar do desejo.

P.- A linguagem utilizada na sua escrita é muito próxima da Poesia e, em muitos aspectos possui uma espécie de esplendor da visualização cinematográfica e/ou fotográfica. Aliás, a sua íntima ligação com essas duas linguagens é bem explícita. Como distingue o olhar sobre a pintura, a fotografia, o cinema e o olhar focado na palavra e no pensamento?

R.- Há quem tenha, e de modo excelente (em particular os poetas e os artistas), encontrado grandes afinidades entre a palavra e a pintura. Mas, na verdade, trata-se mais da aproximação entre escrita e pintura do que da relação entre palavra e pintura. O pensamento dá-se bem com a palavra. Não me encontro entre aqueles para quem as palavras não chegam e, em contrapartida, estão convencidos de que há outras coisas que chegam. A palavra nasce na nossa boca, um dos lugares íntimos do nosso corpo, e, ao mesmo tempo, solta-se, expandindo-se, criando correntes de energia, e, como se não bastasse, é imediatamente um esforço compreensivo e expressivo. Ao contrário do que acontece com as mãos, instrumentos de realização, à voz humana, paradoxalmente, porque não podia ser-nos mais íntima, é atribuído um estatuto de mediação, que certamente provém da sua vocação conceptual, a palavra engana, louva, fere, mata, calcula. Quer dizer, a palavra não se mistura com aquilo de que fala, as palavras não são coisas. As artes passam adiante dessa separação entre o que há e o nosso dizer, há um elemento nelas que resiste definitivamente ao poder do logos (o que também sucede na poesia, mas com contornos únicos: a palavra resiste à palavra, e aí a música faz uma das suas aparições), que é o poder de irem ter directamente com as coisas, de se colocarem ao lado delas. Não sendo um prolongamento do corpo, as artes fazem parte do reino dos corpos, e qualificam directamente o espaço (aqui a arquitectura toma a dianteira). A escrita, em parte, também conhece estas determinações, daí a relação com as artes, mas há uma parte da escrita que não pertence ao espaço, que procede do som e do espírito da voz. Acho que não respondi inteiramente à sua pergunta. Mas sugiro-lhe que fiquemos por aqui.

P.- Os problemas da linguagem atravessam a sua obra. Vivemos em tempos babélicos? Ou, pelo contrário, estamos já num pós-Babel? Será que a palavra se transformou em ruído, que vivemos enclausurados neste "mortal coil" [invólucro mortal] onde ecoa o "shuffle" [tumulto] de que fala Shakespeare em "Hamlet"?

R.- Dá muito que pensar que na "Epopeia de Gilgamesh", onde existe a primeira referência ao grande Dilúvio, destruidor de toda a vida (a que só escapou um ser humano, o primeiro versão de Noé), tenha sido decidido pelos deuses, pela razão simples e suficiente de já não poderem suportar o ruído que os homens faziam. A Torre de Babel é um lugar de atracção atormentada e um lugar que originou muitos lamentos, em que se misturam a confusão das línguas, a mudez e a surdez, o ruído. De tempos a tempos o projecto da Torre retorna. Mas o momento em que Babel fosse resgatada, e o coração humano não conhecesse essa desmedida (talvez um outro nome para a pedra sacrílega que Nietzsche diz estar à porta de qualquer civilização), não seria o dia da vitória sobre a multiplicidade das línguas. Vejo-o mais como equivalente ao dia de Pentecostes: cada um falaria na sua própria língua e todos seriam capazes de entender.

P.- De que é que nós, os seres humanos, temos medo? Do vazio? Do Nada?

R.- Gostaria de lembrar que o primeiro texto literário conhecido, escrito na Suméria centenas de anos antes da "Ilíada" e da "Odisseia", a "Epopeia de Gilgamesh"(que é por um lado o nome da personagem e o próprio autor), concentra-se em volta de duas experiências, que se podem abater sobre qualquer um de nós separadamente, mas que no poema são simultâneas: cair em si e descobrir o medo da morte pelo escândalo da morte alheia, a daquele que se ama. Devido a essas descobertas, acompanhadas por sentimentos insuportáveis de terror e de perda, Gilgamesh empreende uma viagem à procura da imortalidade. No termo da viagem, depois de ter falhado todas as tentativas de o conseguir (e que se resumem, por um lado, à impossibilidade de dominar o tempo e, por outro, à incapacidade de se metamorfosear até ao fim), o príncipe Gilgamesh regressa à sua cidade de Uruk, senta-se à beira das suas muralhas e escreve num poema tudo aquilo por que passou. Quer dizer, aquele que procurou desesperadamente, e em vão, por uma imortalidade incomportável, acaba de surpreender uma outra forma de imortalidade, a única que nos convém: imprimir sinais em tabuinhas de barro, contar uma história. Mesmo presentes, os deuses não atravessam sempre essa história, sobretudo quando o que está em causa é contar a alguém aquilo que aconteceu, uma prerrogativa humana. É aí que se engendram o poder da memória, o dever da transmissão e a tarefa de rememorar. Por outro lado, se nós conseguimos imaginar a corrupção do nosso corpo, o nosso tornar-se cadáver, já não somos capazes de modo nenhum de antecipar a irrealidade do nosso pensamento, quer dizer, a imaginação sem a condição do espaço emudece e paralisa. Isso é fonte de grande angústia.

P.- No ensaio que dá o título ao livro fala de Platão e do seu "projecto de uma arte de escrita" que escapasse ao "destino" da maior parte dos textos: ou serem uma "fonte de equívocos", encantando os leitores com falácias - domínio do romance, da ficção a que tanto quis fugir Daniel Defoe; ou serem um instrumento mais ou menos imposto ao leitor quando se entra nos domínios da retórica, da política ou da pedagogia. Essa "arte de escrita", do domínio filosófico, ganha em liberdade, permitindo uma espécie de "desprendimento" e de alastramento nos vários campos da experiência e do saber que parece ser do seu agrado. Concorda?

R.- Nessas hipóteses interpretativas, acerca do que a escrita filosófica não é, fazem-se ouvir as palavras de Platão sobre o assunto: a escrita é sempre enganadora ou porque encanta ou porque persuade e, em qualquer dos casos, em geral, a escrita é impotente, muda e incapaz de se defender. E ele, no "Fedro", tenta a introdução do único gesto que poderia diminuir essa impotência, justamente um projecto de escrita filosófica ou uma arte da escrita, em que aquele que escreve adverte aquele que lê contra os perigos em que está aquele que escreve, contra a petrificação, a esclerose, a mudez do efeito retórico. Gosto muito dessa expressão: "uma espécie de 'desprendimento'", que é ao mesmo tempo reserva, poder juntar um tesouro, e liberdade de seguir em qualquer lado, e em qualquer coisa, os vestígios daquilo que se procura.

P.- Alain de Botton - que escreveu "As Consolações da Filosofia" - diz que os seres humanos têm seis "gurus" para seis preocupações universais: Sócrates e a impopularidade; Epicuro e a falta de dinheiro; Séneca e o estado de frustração; Montaigne e a imperfeição; Schopenhauer e desgosto, Nietzsche e a necessidade da dificuldade. É uma espécie de "filosofia, modo de usar". Que autores escolheria - estes ou outros - como "pilares" a que podemos sempre recorrer?

R.- Não há experiência mais gratificante do que o reconhecimento da grandeza de alguém, mas essa experiência contém uma ameaça, a de se ser aniquilado. Para escaparmos a essa ameaça, é preciso que transformemos o reconhecimento da grandeza alheia em sentimento de veneração. Não se pode começar a pensar verdadeiramente sem essa forma de iniciação, que implica olhar para trás, conservar as cinzas, pagar as suas dívidas, provar a si próprio que não se é mais indigno do que aqueles que nós desprezamos. Estas palavras não poderiam ter sido escritas por mim, sem Goethe, Baudelaire, Benjamin e Montaigne. Mas ainda falta falar de Heraclito, Platão, Aristóteles, Plotino, Kant, Nietzsche, Wittgenstein, Broch, Colli. É evidente que a série está incompleta.

P.- Os seus livros possuem a inefável qualidade de poderem ser lidos sem uma preparação puramente filosófica. [Será que deseja fazer da prática do pensamento um instrumento vivencial, como em tempos idos era a leitura da Bíblia?] Aquilo a que chamou a "descoberta continuada" poderá estar ao alcance de (quase) todos?

R.- "Os limites da alma nunca os conhecerás", terá dito Heraclito por meio de um dos seus transmissores, o que é uma bela maneira de se contrapor à advertência socrática sobre os limites, o célebre "conhece-te a ti mesmo!". Ele que era e foi conhecido pelo seu desprezo indefectível pela multidão dos homens e pelas suas variadas formas de cegueira e embuste, não pôde evitar uma declaração de comunidade, que é, ao mesmo tempo, uma prova de confiança na possibilidade de nos decifrarmos a nós próprios: "A todos os homens pode caber a sorte de se reconhecerem a si mesmos e de sentirem a imediatez (o mais íntimo, o frémito da vida)"



Walter Benjamin

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A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA

Descobri Maria Filomena Molder, na década de oitenta, num seu ensaio acerca de Jorge Martins ( Imprensa Nacional-Casa da Moeda ). Mais recentemente, "encontrei-a" num livro sobre Walter Benjamin, Semear na Neve ( Relógio D' Água ). A propósito da publicação de um novo livro, A Imperfeição da Filosofia, desta última editora, Helena Vasconcelos proporcionou uma notável entrevista com Filomena Molder no suplemento Mil Folhas do Público , de 17 de Janeiro. É reconfortante - deveria antes dizer inquietante, no melhor do seu sentido - o confronto com as palavras luminosas de Maria Filomena Molder. É uma vez mais no "consolo" da filosofia que apetece continuar depois de a ler. No meio de tanto lixo que nos entra pela porta através de tanta folha inútil de jornal, no meio da insuportável ignorância tagarela em vigor, esta serenidade perturbante é como que um bálsamo. Como tudo é efémero, desde as páginas web dos jornais até à própria utilização da linguagem, troco o habitual link pela reprodução integral desta inteligente entrevista, com a vénia costumeira a Helena Vasconcelos, directora da revista online Storm Magazine.

Um Brilho sem vacilações

Por Helena Vasconcelos

Maria Filomena Molder, filósofa, professora e escritora reúne em "A Imperfeição da Filosofia" (Ed. Relógio D'Água, Novembro, 2003) textos que exploram o universo do pensamento e seduzem pela sua extrema limpidez, aliada a uma enorme erudição. Filósofos - dos Clássicos aos que marcaram o século XX como Wittgenstein e Walter Benjamin - escritores e poetas - como por exemplo, Dante, Jorge de Sena e Rilke - pintores, fotógrafos, cineastas (como David Lynch) chegam-nos "revigorados" por esta voz que, ainda que meditativa , tem a capacidade de nos atingir em pleno e de nos estimular.

Maria Filomena Molder iniciou a sua fulgurante trajectória como docente do Departamento de Filosofia da Universidade Nova em 1980, onde lhe foi atribuída a cadeira de Filosofia Medieval. Dessa experiência ficou-lhe o interesse por Santo Agostinho, Santo Anselmo e outros doutores da Igreja com quem mantém vivo contacto, apesar de os seus interesses terem continuado a expandir-se, principalmente em campos tão férteis como a Estética e a Filosofia da Linguagem. Desta autora, é possível encontrar na mesma editora a obra "Semear na Neve".


Mil FOLHAS - Como se tem desencadeado o seu percurso de professora de Filosofia Medieval até esta "abertura" para a Estética e para a Filosofia da Linguagem?

Maria Filomena Molder - Na verdade, não estava preparada para ensinar filosofia medieval, no sentido de já ter levado a cabo uma longa e exaustiva investigação. Mas foi a cadeira que me foi distribuída quando, em 1980, entrei para o Departamento de Filosofia da Universidade Nova, precisamente no seu segundo ano de existência, e me dediquei inteiramente ao seu estudo durante os dois breves anos em que a leccionei. No entanto, desde os meus tempos da Faculdade de Letras que alguns dos autores medievais e dos seus problemas me tinham afectado profundamente (e evoco aqui o Padre de Cerqueira, meu professor de Medieval). Exemplifico: Santo Agostinho e o mistério do tempo e da memória, o modo original de conceber a linguagem, o modo de citar (que tomei como regra íntima) - quanto mais próximo de nós está um texto, menos a citação aparece como uma citação, ficando, por assim dizer, incorporada nas nossas palavras; Santo Anselmo e a sua delirante prova ontológica, que tantas voltas nos dá à cabeça, uma autêntica mina para exploração das relações entre o possível, o real e o pensável; o problema dos universais (a Arca de Noé é uma das suas apresentações mais antigas), que vem ter connosco sempre que tentamos distinguir um gato de um cão ou de saber qual é a diferença entre a arte e uma obra de arte. Além destes, tive a oportunidade de voltar a estudar durante esses dois anos um autor, que é como o último dos Gregos, Plotino, aquele que já não se vê propriamente como filósofo, e se atribuiu apenas o papel de intérprete, e que para as coisas da Estética (que é uma palavra tão recente!) se revelou um autêntico manancial, sobretudo para a compreensão da relação entre forma e informe e para a visão do universo como o acto de um dançarino.

P.- Acha que a sua base "medievalista" a preparou para o desenvolver do seu pensamento ou precisou de fazer um "corte" , voltando às raízes clássicas da nossa cultura?

R.- Releio sempre Plotino, que não é um pensador medieval, mas foi tão lido directa ou indirectamente pelos medievais, e regresso muitas vezes aos abismos agostinianos: ao imenso palácio da memória, ao labirinto do tempo (não só o famoso "se não mo perguntam sei o que é, se mo perguntam não sei o que é", mas também o surpreendente, o admirável, resultado - é que ele acaba mesmo por nos esclarecer em que consiste o tempo: uma distensão da alma). E, recentemente, por obrigações de distribuição de serviço, voltei à filosofia medieval, mas agora, e mantendo-se a minha impreparação nos termos referidos, decidi-me a ler com os estudantes "A Divina Comédia", na qual encontrei tudo o que esperava encontrar, mais tudo o resto: o "absoluto que pertence à terra", que sendo um leit-motiv de Broch, não se podia aplicar melhor a Dante - ele chamava-lhe liberdade; as relações entre poesia e filosofia, entre sonho, visão e poesia; a visão infernal do tempo; uma das compreensões mais temíveis do suicídio; o carácter desmedido, insolente, da poesia; uma metafísica da luz... Na verdade, encontra-se tudo n' "A Divina Comédia"! Levou-me a reler, por exemplo, o tratado sobre os anjos de São Tomás de Aquino. Acrescente-se que o melhor guia para "A Divina Comédia", poema que não poderia ser mais medieval e continua a resistir a qualquer esforço de classificação, é o poeta russo Óssip Mandelstam.

P.- O seu trabalho tem vindo a desenvolver-se de uma forma segura e revigorante. Como chegou a esta íntima conexão do pensamento filosófico com a literatura, a fotografia, o cinema, a ciência e as artes plásticas?

R.- Gostaria de lembrar que se pode fazer filosofia (aliás, o mesmo se passa com a arte) a partir do que quer que seja (embora não se faça de qualquer maneira, como também acontece com a arte), e sempre se fez. O primeiro crítico sistemático da poesia foi Platão, e o seu primeiro defensor, Aristóteles, que ainda sabia (e aqui ele já citava o dificílimo Heraclito) que em todos os lugares pode haver deuses ou, usando as palavras de Colli, o primeiro dever do filósofo é não caluniar as aparências. Desde pequena que não posso viver sem música e sem cinema. Descobri na adolescência a poesia, as outras artes.

P.- Fala de Sócrates e do seu pedido para que seja aceite a "natureza incompleta da filosofia". Em relação ao título deste seu livro - "A Imperfeição da Filosofia" - será que está a reportar-se às palavras do filósofo ? Ao debruçar-se sobre essa "imperfeição" quer dizer que a sabedoria implícita no termo Filosofia não é completa e que em vez de "consolo" traz a inquietação inerente à descoberta continuada?

R.- Reli Boécio e a sua "A Consolação da Filosofia" - uma obra escrita na prisão de Ticinium em 524 ou 525, antes de ele ser executado - por causa do Dante. É um admirável esforço de se libertar do desespero, da desilusão, do medo da morte e do desprezo pela morte desonrosa. Nessa obra, vemos pela última vez brilhar sem vacilações a relação entre filosofia e modo de vida ou, melhor, a filosofia entendida como modo de vida, coisa que os Modernos tenderam a ocultar de forma mais ou menos eficaz. No meio da devastação, há quem jogue ao xadrez. Que a filosofia providencie a consolação tem alguma parecença com o jogo: suspende-se a relação com a imediatez, abre-se uma pequena fenda e tenta-se respirar melhor. Por seu lado, a imperfeição tem a ver com incompletude, um sentimento de perda, e com agilidade, leveza, tentar não cair como o acrobata. Isto é, a filosofia traz realmente inquietação e só atravessando essa parede ardente podemos chegar a vislumbrar que ela rima com "descoberta continuada".

P.- Refere o suicídio no contexto a que a ele se referiu Camus que disse: "Só há um problema filosófico realmente sério: o suicídio."?

R.- Não me sinto capaz de falar do suicídio a não ser por interposta pessoa. N' "A Divina Comédia", Dante dá-nos a ver duas inexcedíveis aproximações, ambas perturbadoras. Num dos círculos do Inferno, numa vastidão hostil, crescem umas estranhas árvores, em cujos ramos retorcidos em vez de seiva corre sangue humano. Com crueldade involuntária, Dante parte um desses ramos e ouve uns lamentosos gritos de dor. Sem o saber, acaba de mutilar um suicida, por quem ele tem grande admiração e sente piedade, Piero della Vigna, homem de espírito nobre, acusado injustamente de traição. O suicida aos olhos da crença cristã é um escândalo, pois é um gesto de rebelião contra a vontade criadora de Deus, através da rejeição de si próprio, do seu corpo próprio. E, por isso, o suicida é aquele que jamais poderá resgatar o seu corpo, perdeu o direito a ele, quer dizer, o mistério da ressurreição foi por ele absolutamente selado. A outra aproximação encontramo-la à entrada do Purgatório, guardada por alguém que não é só um pagão, mas também um suicida, Catão. Mas, aqui, que a morte própria tenha origem no amor pela liberdade é um excesso bem-vindo aos olhos de Dante. Mais perto de nós, e próximo de Camus, temos o testemunho de Jean Améry.

P.- No seu texto sobre Rilke fala da "atmosfera da civilização", essas sucessivas "crostas" criadas pelo ser humano, que nos isolam de Deus. Será que, como diz Steiner, a religião poderia ser definida como uma resposta narrativa à interrogação de Leibnitz: "Por que há alguma coisa em vez de nada?"?

R.- Que a civilização seja constituída por uma sobreposição de crostas que nos separariam de Deus é uma ideia wittgensteiniana, ou melhor, é a devolução por Wittgenstein de um lugar- comum de muitas culturas, incluindo a ocidental, qualquer que seja a sua formulação, e isto desde que nós nos podemos lembrar. Esse lugar comum exprime o sentimento de perda de um contacto íntimo com o mistério da vida, do ser, de deus ou dos deuses, e obriga muitas vezes a procedimentos mais ou menos austeros de desprendimento e ascetismo, que atravessam a religião, a filosofia, a arte: voltar a conhecer a simplicidade do coração, voltar a beber a água pura das fontes. O que é uma maneira de reconhecer um grau de inadaptação "quantum satis" do ser humano à sua própria história. A pergunta pelo nada, a pergunta de Leibniz (retomada de maneira particular por Heidegger, do qual Steiner é um grande leitor), é a pergunta que não se refaz nunca do mistério de haver isto tudo que há, e conheceu respostas antes de a filosofia as ter formalizado. A descrição do Génesis é uma dessas respostas, que protege, como um tesouro ou um escândalo incomunicável, o porquê. Num dos mais belos hinos védicos, isso, que não pode deixar de ser ocultado, é apontado assim: pode ser que aquele que sustenta tudo saiba o porquê desta existência secundária (que inclui os homens e os deuses), mas também pode acontecer que esse também não saiba.

P.- Diz que a "imoderação própria da actividade filosófica tem a ver com a natureza do amor".Parece uma referência a uma espécie de movimentação física arrebatadora como o sexo. Será que se refere a Eros e à nossa mortalidade?

R.- Há uma embriaguez própria do acto contemplativo, no sentido em que a suspensão da vida a que ele obriga pode levar a um comprazimento solipsista, mas esse estar consigo próprio também pode originar formas mais ou menos agudas de dilaceração. Como muito bem diz a imoderação a que me refiro, atribuindo-a à natureza do amor, tem a ver com o deus Eros, essa força física, cósmica, que faz mover tudo e, em particular esses que tentam decifrar os discursos escritos nas suas própria almas, e, portanto, apresenta-se como um desafio à nossa mortalidade. É no "Fedro" que Platão descobre esse chamamento, que permita vencer a tentação (e a ilusão) solipsista, e toma formas paradoxais. No caso do discurso de Aristófanes, encontramos esta pergunta: os amantes não procuram outra coisa a não ser estarem juntos, que querem eles? No caso do discurso de Diotima, que se faz ouvir pela voz de Sócrates, no termo da descrição da escala de graus da experiência erótica, surpreendemos a alma a deixar cair tudo o que parecia decisivo: a figura, o saber, o logos, de modo a poder despenhar-se no pélago, no mar do desejo.

P.- A linguagem utilizada na sua escrita é muito próxima da Poesia e, em muitos aspectos possui uma espécie de esplendor da visualização cinematográfica e/ou fotográfica. Aliás, a sua íntima ligação com essas duas linguagens é bem explícita. Como distingue o olhar sobre a pintura, a fotografia, o cinema e o olhar focado na palavra e no pensamento?

R.- Há quem tenha, e de modo excelente (em particular os poetas e os artistas), encontrado grandes afinidades entre a palavra e a pintura. Mas, na verdade, trata-se mais da aproximação entre escrita e pintura do que da relação entre palavra e pintura. O pensamento dá-se bem com a palavra. Não me encontro entre aqueles para quem as palavras não chegam e, em contrapartida, estão convencidos de que há outras coisas que chegam. A palavra nasce na nossa boca, um dos lugares íntimos do nosso corpo, e, ao mesmo tempo, solta-se, expandindo-se, criando correntes de energia, e, como se não bastasse, é imediatamente um esforço compreensivo e expressivo. Ao contrário do que acontece com as mãos, instrumentos de realização, à voz humana, paradoxalmente, porque não podia ser-nos mais íntima, é atribuído um estatuto de mediação, que certamente provém da sua vocação conceptual, a palavra engana, louva, fere, mata, calcula. Quer dizer, a palavra não se mistura com aquilo de que fala, as palavras não são coisas. As artes passam adiante dessa separação entre o que há e o nosso dizer, há um elemento nelas que resiste definitivamente ao poder do logos (o que também sucede na poesia, mas com contornos únicos: a palavra resiste à palavra, e aí a música faz uma das suas aparições), que é o poder de irem ter directamente com as coisas, de se colocarem ao lado delas. Não sendo um prolongamento do corpo, as artes fazem parte do reino dos corpos, e qualificam directamente o espaço (aqui a arquitectura toma a dianteira). A escrita, em parte, também conhece estas determinações, daí a relação com as artes, mas há uma parte da escrita que não pertence ao espaço, que procede do som e do espírito da voz. Acho que não respondi inteiramente à sua pergunta. Mas sugiro-lhe que fiquemos por aqui.

P.- Os problemas da linguagem atravessam a sua obra. Vivemos em tempos babélicos? Ou, pelo contrário, estamos já num pós-Babel? Será que a palavra se transformou em ruído, que vivemos enclausurados neste "mortal coil" [invólucro mortal] onde ecoa o "shuffle" [tumulto] de que fala Shakespeare em "Hamlet"?

R.- Dá muito que pensar que na "Epopeia de Gilgamesh", onde existe a primeira referência ao grande Dilúvio, destruidor de toda a vida (a que só escapou um ser humano, o primeiro versão de Noé), tenha sido decidido pelos deuses, pela razão simples e suficiente de já não poderem suportar o ruído que os homens faziam. A Torre de Babel é um lugar de atracção atormentada e um lugar que originou muitos lamentos, em que se misturam a confusão das línguas, a mudez e a surdez, o ruído. De tempos a tempos o projecto da Torre retorna. Mas o momento em que Babel fosse resgatada, e o coração humano não conhecesse essa desmedida (talvez um outro nome para a pedra sacrílega que Nietzsche diz estar à porta de qualquer civilização), não seria o dia da vitória sobre a multiplicidade das línguas. Vejo-o mais como equivalente ao dia de Pentecostes: cada um falaria na sua própria língua e todos seriam capazes de entender.

P.- De que é que nós, os seres humanos, temos medo? Do vazio? Do Nada?

R.- Gostaria de lembrar que o primeiro texto literário conhecido, escrito na Suméria centenas de anos antes da "Ilíada" e da "Odisseia", a "Epopeia de Gilgamesh"(que é por um lado o nome da personagem e o próprio autor), concentra-se em volta de duas experiências, que se podem abater sobre qualquer um de nós separadamente, mas que no poema são simultâneas: cair em si e descobrir o medo da morte pelo escândalo da morte alheia, a daquele que se ama. Devido a essas descobertas, acompanhadas por sentimentos insuportáveis de terror e de perda, Gilgamesh empreende uma viagem à procura da imortalidade. No termo da viagem, depois de ter falhado todas as tentativas de o conseguir (e que se resumem, por um lado, à impossibilidade de dominar o tempo e, por outro, à incapacidade de se metamorfosear até ao fim), o príncipe Gilgamesh regressa à sua cidade de Uruk, senta-se à beira das suas muralhas e escreve num poema tudo aquilo por que passou. Quer dizer, aquele que procurou desesperadamente, e em vão, por uma imortalidade incomportável, acaba de surpreender uma outra forma de imortalidade, a única que nos convém: imprimir sinais em tabuinhas de barro, contar uma história. Mesmo presentes, os deuses não atravessam sempre essa história, sobretudo quando o que está em causa é contar a alguém aquilo que aconteceu, uma prerrogativa humana. É aí que se engendram o poder da memória, o dever da transmissão e a tarefa de rememorar. Por outro lado, se nós conseguimos imaginar a corrupção do nosso corpo, o nosso tornar-se cadáver, já não somos capazes de modo nenhum de antecipar a irrealidade do nosso pensamento, quer dizer, a imaginação sem a condição do espaço emudece e paralisa. Isso é fonte de grande angústia.

P.- No ensaio que dá o título ao livro fala de Platão e do seu "projecto de uma arte de escrita" que escapasse ao "destino" da maior parte dos textos: ou serem uma "fonte de equívocos", encantando os leitores com falácias - domínio do romance, da ficção a que tanto quis fugir Daniel Defoe; ou serem um instrumento mais ou menos imposto ao leitor quando se entra nos domínios da retórica, da política ou da pedagogia. Essa "arte de escrita", do domínio filosófico, ganha em liberdade, permitindo uma espécie de "desprendimento" e de alastramento nos vários campos da experiência e do saber que parece ser do seu agrado. Concorda?

R.- Nessas hipóteses interpretativas, acerca do que a escrita filosófica não é, fazem-se ouvir as palavras de Platão sobre o assunto: a escrita é sempre enganadora ou porque encanta ou porque persuade e, em qualquer dos casos, em geral, a escrita é impotente, muda e incapaz de se defender. E ele, no "Fedro", tenta a introdução do único gesto que poderia diminuir essa impotência, justamente um projecto de escrita filosófica ou uma arte da escrita, em que aquele que escreve adverte aquele que lê contra os perigos em que está aquele que escreve, contra a petrificação, a esclerose, a mudez do efeito retórico. Gosto muito dessa expressão: "uma espécie de 'desprendimento'", que é ao mesmo tempo reserva, poder juntar um tesouro, e liberdade de seguir em qualquer lado, e em qualquer coisa, os vestígios daquilo que se procura.

P.- Alain de Botton - que escreveu "As Consolações da Filosofia" - diz que os seres humanos têm seis "gurus" para seis preocupações universais: Sócrates e a impopularidade; Epicuro e a falta de dinheiro; Séneca e o estado de frustração; Montaigne e a imperfeição; Schopenhauer e desgosto, Nietzsche e a necessidade da dificuldade. É uma espécie de "filosofia, modo de usar". Que autores escolheria - estes ou outros - como "pilares" a que podemos sempre recorrer?

R.- Não há experiência mais gratificante do que o reconhecimento da grandeza de alguém, mas essa experiência contém uma ameaça, a de se ser aniquilado. Para escaparmos a essa ameaça, é preciso que transformemos o reconhecimento da grandeza alheia em sentimento de veneração. Não se pode começar a pensar verdadeiramente sem essa forma de iniciação, que implica olhar para trás, conservar as cinzas, pagar as suas dívidas, provar a si próprio que não se é mais indigno do que aqueles que nós desprezamos. Estas palavras não poderiam ter sido escritas por mim, sem Goethe, Baudelaire, Benjamin e Montaigne. Mas ainda falta falar de Heraclito, Platão, Aristóteles, Plotino, Kant, Nietzsche, Wittgenstein, Broch, Colli. É evidente que a série está incompleta.

P.- Os seus livros possuem a inefável qualidade de poderem ser lidos sem uma preparação puramente filosófica. [Será que deseja fazer da prática do pensamento um instrumento vivencial, como em tempos idos era a leitura da Bíblia?] Aquilo a que chamou a "descoberta continuada" poderá estar ao alcance de (quase) todos?

R.- "Os limites da alma nunca os conhecerás", terá dito Heraclito por meio de um dos seus transmissores, o que é uma bela maneira de se contrapor à advertência socrática sobre os limites, o célebre "conhece-te a ti mesmo!". Ele que era e foi conhecido pelo seu desprezo indefectível pela multidão dos homens e pelas suas variadas formas de cegueira e embuste, não pôde evitar uma declaração de comunidade, que é, ao mesmo tempo, uma prova de confiança na possibilidade de nos decifrarmos a nós próprios: "A todos os homens pode caber a sorte de se reconhecerem a si mesmos e de sentirem a imediatez (o mais íntimo, o frémito da vida)"


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<b>A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA</b><br /><br />Descobri Maria Filomena Molder, na década de oitenta, num seu ensaio acerca de <i>Jorge Martins </i>( Imprensa Nacional-Casa da Moeda ). Mais recentemente, "encontrei-a" num livro sobre Walter Benjamin, <i>Semear na Neve </i>( Relógio D' Água ). A propósito da publicação de um novo livro, <i>A Imperfeição da Filosofia</i>, desta última editora, Helena Vasconcelos proporcionou uma notável entrevista com Filomena Molder no suplemento <i>Mil Folhas</i> do <b>Público</b> , de 17 de Janeiro. É reconfortante - deveria antes dizer inquietante, no melhor do seu sentido - o confronto com as palavras luminosas de Maria Filomena Molder. É uma vez mais no "consolo" da filosofia que apetece continuar depois de a ler. No meio de tanto lixo que nos entra pela porta através de tanta folha inútil de jornal, no meio da insuportável ignorância tagarela em vigor, esta serenidade perturbante é como que um bálsamo. Como tudo é efémero, desde as páginas<i> web</i> dos jornais até à própria utilização da linguagem, troco o habitual <i>link</i> pela reprodução integral desta inteligente entrevista, com a vénia costumeira a Helena Vasconcelos, directora da revista <i>online</i> <i><a href="http://www.storm-magazine.com">Storm Magazine</a></i>.<br /><br /><b>Um Brilho sem vacilações</b><br /><br />Por <b>Helena Vasconcelos</b><br /> <br /><i>Maria Filomena Molder, filósofa, professora e escritora reúne em "A Imperfeição da Filosofia" (Ed. Relógio D'Água, Novembro, 2003) textos que exploram o universo do pensamento e seduzem pela sua extrema limpidez, aliada a uma enorme erudição. Filósofos - dos Clássicos aos que marcaram o século XX como Wittgenstein e Walter Benjamin - escritores e poetas - como por exemplo, Dante, Jorge de Sena e Rilke - pintores, fotógrafos, cineastas (como David Lynch) chegam-nos "revigorados" por esta voz que, ainda que meditativa , tem a capacidade de nos atingir em pleno e de nos estimular. <br /><br />Maria Filomena Molder iniciou a sua fulgurante trajectória como docente do Departamento de Filosofia da Universidade Nova em 1980, onde lhe foi atribuída a cadeira de Filosofia Medieval. Dessa experiência ficou-lhe o interesse por Santo Agostinho, Santo Anselmo e outros doutores da Igreja com quem mantém vivo contacto, apesar de os seus interesses terem continuado a expandir-se, principalmente em campos tão férteis como a Estética e a Filosofia da Linguagem. Desta autora, é possível encontrar na mesma editora a obra "Semear na Neve". </i><br /><br /><b>Mil FOLHAS - Como se tem desencadeado o seu percurso de professora de Filosofia Medieval até esta "abertura" para a Estética e para a Filosofia da Linguagem? </b><br /><br /><b>Maria Filomena Molder </b>- <i>Na verdade, não estava preparada para ensinar filosofia medieval, no sentido de já ter levado a cabo uma longa e exaustiva investigação. Mas foi a cadeira que me foi distribuída quando, em 1980, entrei para o Departamento de Filosofia da Universidade Nova, precisamente no seu segundo ano de existência, e me dediquei inteiramente ao seu estudo durante os dois breves anos em que a leccionei. No entanto, desde os meus tempos da Faculdade de Letras que alguns dos autores medievais e dos seus problemas me tinham afectado profundamente (e evoco aqui o Padre de Cerqueira, meu professor de Medieval). Exemplifico: Santo Agostinho e o mistério do tempo e da memória, o modo original de conceber a linguagem, o modo de citar (que tomei como regra íntima) - quanto mais próximo de nós está um texto, menos a citação aparece como uma citação, ficando, por assim dizer, incorporada nas nossas palavras; Santo Anselmo e a sua delirante prova ontológica, que tantas voltas nos dá à cabeça, uma autêntica mina para exploração das relações entre o possível, o real e o pensável; o problema dos universais (a Arca de Noé é uma das suas apresentações mais antigas), que vem ter connosco sempre que tentamos distinguir um gato de um cão ou de saber qual é a diferença entre a arte e uma obra de arte. Além destes, tive a oportunidade de voltar a estudar durante esses dois anos um autor, que é como o último dos Gregos, Plotino, aquele que já não se vê propriamente como filósofo, e se atribuiu apenas o papel de intérprete, e que para as coisas da Estética (que é uma palavra tão recente!) se revelou um autêntico manancial, sobretudo para a compreensão da relação entre forma e informe e para a visão do universo como o acto de um dançarino. </i><br /><br /><b>P.- Acha que a sua base "medievalista" a preparou para o desenvolver do seu pensamento ou precisou de fazer um "corte" , voltando às raízes clássicas da nossa cultura? </b><br /><br /><i>R.- Releio sempre Plotino, que não é um pensador medieval, mas foi tão lido directa ou indirectamente pelos medievais, e regresso muitas vezes aos abismos agostinianos: ao imenso palácio da memória, ao labirinto do tempo (não só o famoso "se não mo perguntam sei o que é, se mo perguntam não sei o que é", mas também o surpreendente, o admirável, resultado - é que ele acaba mesmo por nos esclarecer em que consiste o tempo: uma distensão da alma). E, recentemente, por obrigações de distribuição de serviço, voltei à filosofia medieval, mas agora, e mantendo-se a minha impreparação nos termos referidos, decidi-me a ler com os estudantes "A Divina Comédia", na qual encontrei tudo o que esperava encontrar, mais tudo o resto: o "absoluto que pertence à terra", que sendo um leit-motiv de Broch, não se podia aplicar melhor a Dante - ele chamava-lhe liberdade; as relações entre poesia e filosofia, entre sonho, visão e poesia; a visão infernal do tempo; uma das compreensões mais temíveis do suicídio; o carácter desmedido, insolente, da poesia; uma metafísica da luz... Na verdade, encontra-se tudo n' "A Divina Comédia"! Levou-me a reler, por exemplo, o tratado sobre os anjos de São Tomás de Aquino. Acrescente-se que o melhor guia para "A Divina Comédia", poema que não poderia ser mais medieval e continua a resistir a qualquer esforço de classificação, é o poeta russo Óssip Mandelstam. </i><br /><br /><b>P.- O seu trabalho tem vindo a desenvolver-se de uma forma segura e revigorante. Como chegou a esta íntima conexão do pensamento filosófico com a literatura, a fotografia, o cinema, a ciência e as artes plásticas? </b><br /><br /><i>R.- Gostaria de lembrar que se pode fazer filosofia (aliás, o mesmo se passa com a arte) a partir do que quer que seja (embora não se faça de qualquer maneira, como também acontece com a arte), e sempre se fez. O primeiro crítico sistemático da poesia foi Platão, e o seu primeiro defensor, Aristóteles, que ainda sabia (e aqui ele já citava o dificílimo Heraclito) que em todos os lugares pode haver deuses ou, usando as palavras de Colli, o primeiro dever do filósofo é não caluniar as aparências. Desde pequena que não posso viver sem música e sem cinema. Descobri na adolescência a poesia, as outras artes. </i><br /><br /><b>P.- Fala de Sócrates e do seu pedido para que seja aceite a "natureza incompleta da filosofia". Em relação ao título deste seu livro - "A Imperfeição da Filosofia" - será que está a reportar-se às palavras do filósofo ? Ao debruçar-se sobre essa "imperfeição" quer dizer que a sabedoria implícita no termo Filosofia não é completa e que em vez de "consolo" traz a inquietação inerente à descoberta continuada? </b><br /><br /><i>R.- Reli Boécio e a sua "A Consolação da Filosofia" - uma obra escrita na prisão de Ticinium em 524 ou 525, antes de ele ser executado - por causa do Dante. É um admirável esforço de se libertar do desespero, da desilusão, do medo da morte e do desprezo pela morte desonrosa. Nessa obra, vemos pela última vez brilhar sem vacilações a relação entre filosofia e modo de vida ou, melhor, a filosofia entendida como modo de vida, coisa que os Modernos tenderam a ocultar de forma mais ou menos eficaz. No meio da devastação, há quem jogue ao xadrez. Que a filosofia providencie a consolação tem alguma parecença com o jogo: suspende-se a relação com a imediatez, abre-se uma pequena fenda e tenta-se respirar melhor. Por seu lado, a imperfeição tem a ver com incompletude, um sentimento de perda, e com agilidade, leveza, tentar não cair como o acrobata. Isto é, a filosofia traz realmente inquietação e só atravessando essa parede ardente podemos chegar a vislumbrar que ela rima com "descoberta continuada". </i><br /><br /><b>P.- Refere o suicídio no contexto a que a ele se referiu Camus que disse: "Só há um problema filosófico realmente sério: o suicídio."? </b><br /><br /><i>R.- Não me sinto capaz de falar do suicídio a não ser por interposta pessoa. N' "A Divina Comédia", Dante dá-nos a ver duas inexcedíveis aproximações, ambas perturbadoras. Num dos círculos do Inferno, numa vastidão hostil, crescem umas estranhas árvores, em cujos ramos retorcidos em vez de seiva corre sangue humano. Com crueldade involuntária, Dante parte um desses ramos e ouve uns lamentosos gritos de dor. Sem o saber, acaba de mutilar um suicida, por quem ele tem grande admiração e sente piedade, Piero della Vigna, homem de espírito nobre, acusado injustamente de traição. O suicida aos olhos da crença cristã é um escândalo, pois é um gesto de rebelião contra a vontade criadora de Deus, através da rejeição de si próprio, do seu corpo próprio. E, por isso, o suicida é aquele que jamais poderá resgatar o seu corpo, perdeu o direito a ele, quer dizer, o mistério da ressurreição foi por ele absolutamente selado. A outra aproximação encontramo-la à entrada do Purgatório, guardada por alguém que não é só um pagão, mas também um suicida, Catão. Mas, aqui, que a morte própria tenha origem no amor pela liberdade é um excesso bem-vindo aos olhos de Dante. Mais perto de nós, e próximo de Camus, temos o testemunho de Jean Améry. </i><br /><br /><b>P.- No seu texto sobre Rilke fala da "atmosfera da civilização", essas sucessivas "crostas" criadas pelo ser humano, que nos isolam de Deus. Será que, como diz Steiner, a religião poderia ser definida como uma resposta narrativa à interrogação de Leibnitz: "Por que há alguma coisa em vez de nada?"? </b><br /><br /><i>R.- Que a civilização seja constituída por uma sobreposição de crostas que nos separariam de Deus é uma ideia wittgensteiniana, ou melhor, é a devolução por Wittgenstein de um lugar- comum de muitas culturas, incluindo a ocidental, qualquer que seja a sua formulação, e isto desde que nós nos podemos lembrar. Esse lugar comum exprime o sentimento de perda de um contacto íntimo com o mistério da vida, do ser, de deus ou dos deuses, e obriga muitas vezes a procedimentos mais ou menos austeros de desprendimento e ascetismo, que atravessam a religião, a filosofia, a arte: voltar a conhecer a simplicidade do coração, voltar a beber a água pura das fontes. O que é uma maneira de reconhecer um grau de inadaptação "quantum satis" do ser humano à sua própria história. A pergunta pelo nada, a pergunta de Leibniz (retomada de maneira particular por Heidegger, do qual Steiner é um grande leitor), é a pergunta que não se refaz nunca do mistério de haver isto tudo que há, e conheceu respostas antes de a filosofia as ter formalizado. A descrição do Génesis é uma dessas respostas, que protege, como um tesouro ou um escândalo incomunicável, o porquê. Num dos mais belos hinos védicos, isso, que não pode deixar de ser ocultado, é apontado assim: pode ser que aquele que sustenta tudo saiba o porquê desta existência secundária (que inclui os homens e os deuses), mas também pode acontecer que esse também não saiba. </i><br /><br /><b>P.- Diz que a "imoderação própria da actividade filosófica tem a ver com a natureza do amor".Parece uma referência a uma espécie de movimentação física arrebatadora como o sexo. Será que se refere a Eros e à nossa mortalidade? </b><br /><br /><i>R.- Há uma embriaguez própria do acto contemplativo, no sentido em que a suspensão da vida a que ele obriga pode levar a um comprazimento solipsista, mas esse estar consigo próprio também pode originar formas mais ou menos agudas de dilaceração. Como muito bem diz a imoderação a que me refiro, atribuindo-a à natureza do amor, tem a ver com o deus Eros, essa força física, cósmica, que faz mover tudo e, em particular esses que tentam decifrar os discursos escritos nas suas própria almas, e, portanto, apresenta-se como um desafio à nossa mortalidade. É no "Fedro" que Platão descobre esse chamamento, que permita vencer a tentação (e a ilusão) solipsista, e toma formas paradoxais. No caso do discurso de Aristófanes, encontramos esta pergunta: os amantes não procuram outra coisa a não ser estarem juntos, que querem eles? No caso do discurso de Diotima, que se faz ouvir pela voz de Sócrates, no termo da descrição da escala de graus da experiência erótica, surpreendemos a alma a deixar cair tudo o que parecia decisivo: a figura, o saber, o logos, de modo a poder despenhar-se no pélago, no mar do desejo. </i><br /><br /><b>P.- A linguagem utilizada na sua escrita é muito próxima da Poesia e, em muitos aspectos possui uma espécie de esplendor da visualização cinematográfica e/ou fotográfica. Aliás, a sua íntima ligação com essas duas linguagens é bem explícita. Como distingue o olhar sobre a pintura, a fotografia, o cinema e o olhar focado na palavra e no pensamento? </b><br /><br /><i>R.- Há quem tenha, e de modo excelente (em particular os poetas e os artistas), encontrado grandes afinidades entre a palavra e a pintura. Mas, na verdade, trata-se mais da aproximação entre escrita e pintura do que da relação entre palavra e pintura. O pensamento dá-se bem com a palavra. Não me encontro entre aqueles para quem as palavras não chegam e, em contrapartida, estão convencidos de que há outras coisas que chegam. A palavra nasce na nossa boca, um dos lugares íntimos do nosso corpo, e, ao mesmo tempo, solta-se, expandindo-se, criando correntes de energia, e, como se não bastasse, é imediatamente um esforço compreensivo e expressivo. Ao contrário do que acontece com as mãos, instrumentos de realização, à voz humana, paradoxalmente, porque não podia ser-nos mais íntima, é atribuído um estatuto de mediação, que certamente provém da sua vocação conceptual, a palavra engana, louva, fere, mata, calcula. Quer dizer, a palavra não se mistura com aquilo de que fala, as palavras não são coisas. As artes passam adiante dessa separação entre o que há e o nosso dizer, há um elemento nelas que resiste definitivamente ao poder do logos (o que também sucede na poesia, mas com contornos únicos: a palavra resiste à palavra, e aí a música faz uma das suas aparições), que é o poder de irem ter directamente com as coisas, de se colocarem ao lado delas. Não sendo um prolongamento do corpo, as artes fazem parte do reino dos corpos, e qualificam directamente o espaço (aqui a arquitectura toma a dianteira). A escrita, em parte, também conhece estas determinações, daí a relação com as artes, mas há uma parte da escrita que não pertence ao espaço, que procede do som e do espírito da voz. Acho que não respondi inteiramente à sua pergunta. Mas sugiro-lhe que fiquemos por aqui.</i> <br /><br /><b>P.- Os problemas da linguagem atravessam a sua obra. Vivemos em tempos babélicos? Ou, pelo contrário, estamos já num pós-Babel? Será que a palavra se transformou em ruído, que vivemos enclausurados neste "mortal coil" [invólucro mortal] onde ecoa o "shuffle" [tumulto] de que fala Shakespeare em "Hamlet"? </b><br /><br /><i>R.- Dá muito que pensar que na "Epopeia de Gilgamesh", onde existe a primeira referência ao grande Dilúvio, destruidor de toda a vida (a que só escapou um ser humano, o primeiro versão de Noé), tenha sido decidido pelos deuses, pela razão simples e suficiente de já não poderem suportar o ruído que os homens faziam. A Torre de Babel é um lugar de atracção atormentada e um lugar que originou muitos lamentos, em que se misturam a confusão das línguas, a mudez e a surdez, o ruído. De tempos a tempos o projecto da Torre retorna. Mas o momento em que Babel fosse resgatada, e o coração humano não conhecesse essa desmedida (talvez um outro nome para a pedra sacrílega que Nietzsche diz estar à porta de qualquer civilização), não seria o dia da vitória sobre a multiplicidade das línguas. Vejo-o mais como equivalente ao dia de Pentecostes: cada um falaria na sua própria língua e todos seriam capazes de entender. </i><br /><br /><b>P.- De que é que nós, os seres humanos, temos medo? Do vazio? Do Nada? </b><br /><br /><i>R.- Gostaria de lembrar que o primeiro texto literário conhecido, escrito na Suméria centenas de anos antes da "Ilíada" e da "Odisseia", a "Epopeia de Gilgamesh"(que é por um lado o nome da personagem e o próprio autor), concentra-se em volta de duas experiências, que se podem abater sobre qualquer um de nós separadamente, mas que no poema são simultâneas: cair em si e descobrir o medo da morte pelo escândalo da morte alheia, a daquele que se ama. Devido a essas descobertas, acompanhadas por sentimentos insuportáveis de terror e de perda, Gilgamesh empreende uma viagem à procura da imortalidade. No termo da viagem, depois de ter falhado todas as tentativas de o conseguir (e que se resumem, por um lado, à impossibilidade de dominar o tempo e, por outro, à incapacidade de se metamorfosear até ao fim), o príncipe Gilgamesh regressa à sua cidade de Uruk, senta-se à beira das suas muralhas e escreve num poema tudo aquilo por que passou. Quer dizer, aquele que procurou desesperadamente, e em vão, por uma imortalidade incomportável, acaba de surpreender uma outra forma de imortalidade, a única que nos convém: imprimir sinais em tabuinhas de barro, contar uma história. Mesmo presentes, os deuses não atravessam sempre essa história, sobretudo quando o que está em causa é contar a alguém aquilo que aconteceu, uma prerrogativa humana. É aí que se engendram o poder da memória, o dever da transmissão e a tarefa de rememorar. Por outro lado, se nós conseguimos imaginar a corrupção do nosso corpo, o nosso tornar-se cadáver, já não somos capazes de modo nenhum de antecipar a irrealidade do nosso pensamento, quer dizer, a imaginação sem a condição do espaço emudece e paralisa. Isso é fonte de grande angústia.</i> <br /><br /><b>P.- No ensaio que dá o título ao livro fala de Platão e do seu "projecto de uma arte de escrita" que escapasse ao "destino" da maior parte dos textos: ou serem uma "fonte de equívocos", encantando os leitores com falácias - domínio do romance, da ficção a que tanto quis fugir Daniel Defoe; ou serem um instrumento mais ou menos imposto ao leitor quando se entra nos domínios da retórica, da política ou da pedagogia. Essa "arte de escrita", do domínio filosófico, ganha em liberdade, permitindo uma espécie de "desprendimento" e de alastramento nos vários campos da experiência e do saber que parece ser do seu agrado. Concorda? </b><br /><br /><i>R.- Nessas hipóteses interpretativas, acerca do que a escrita filosófica não é, fazem-se ouvir as palavras de Platão sobre o assunto: a escrita é sempre enganadora ou porque encanta ou porque persuade e, em qualquer dos casos, em geral, a escrita é impotente, muda e incapaz de se defender. E ele, no "Fedro", tenta a introdução do único gesto que poderia diminuir essa impotência, justamente um projecto de escrita filosófica ou uma arte da escrita, em que aquele que escreve adverte aquele que lê contra os perigos em que está aquele que escreve, contra a petrificação, a esclerose, a mudez do efeito retórico. Gosto muito dessa expressão: "uma espécie de 'desprendimento'", que é ao mesmo tempo reserva, poder juntar um tesouro, e liberdade de seguir em qualquer lado, e em qualquer coisa, os vestígios daquilo que se procura. </i><br /><br /><b>P.- Alain de Botton - que escreveu "As Consolações da Filosofia" - diz que os seres humanos têm seis "gurus" para seis preocupações universais: Sócrates e a impopularidade; Epicuro e a falta de dinheiro; Séneca e o estado de frustração; Montaigne e a imperfeição; Schopenhauer e desgosto, Nietzsche e a necessidade da dificuldade. É uma espécie de "filosofia, modo de usar". Que autores escolheria - estes ou outros - como "pilares" a que podemos sempre recorrer?</b> <br /><br /><i>R.- Não há experiência mais gratificante do que o reconhecimento da grandeza de alguém, mas essa experiência contém uma ameaça, a de se ser aniquilado. Para escaparmos a essa ameaça, é preciso que transformemos o reconhecimento da grandeza alheia em sentimento de veneração. Não se pode começar a pensar verdadeiramente sem essa forma de iniciação, que implica olhar para trás, conservar as cinzas, pagar as suas dívidas, provar a si próprio que não se é mais indigno do que aqueles que nós desprezamos. Estas palavras não poderiam ter sido escritas por mim, sem Goethe, Baudelaire, Benjamin e Montaigne. Mas ainda falta falar de Heraclito, Platão, Aristóteles, Plotino, Kant, Nietzsche, Wittgenstein, Broch, Colli. É evidente que a série está incompleta. </i><br /><br /><b>P.- Os seus livros possuem a inefável qualidade de poderem ser lidos sem uma preparação puramente filosófica. [Será que deseja fazer da prática do pensamento um instrumento vivencial, como em tempos idos era a leitura da Bíblia?] Aquilo a que chamou a "descoberta continuada" poderá estar ao alcance de (quase) todos? </b><br /><br /><i>R.- "Os limites da alma nunca os conhecerás", terá dito Heraclito por meio de um dos seus transmissores, o que é uma bela maneira de se contrapor à advertência socrática sobre os limites, o célebre "conhece-te a ti mesmo!". Ele que era e foi conhecido pelo seu desprezo indefectível pela multidão dos homens e pelas suas variadas formas de cegueira e embuste, não pôde evitar uma declaração de comunidade, que é, ao mesmo tempo, uma prova de confiança na possibilidade de nos decifrarmos a nós próprios: "A todos os homens pode caber a sorte de se reconhecerem a si mesmos e de sentirem a imediatez (o mais íntimo, o frémito da vida)"</i><br /><br /><br /><img src="http://www.dhm.de/lemo/objekte/pict/ba009888/200.jpg" border="0" <br /><br /><b><i>Walter Benjamin</i></b>