31.5.15

Isabel


 


Joana Emídio Marques, no Observador, foi ouvir alguns vivos (e leu alguns mortos) sobre Isabel da Nóbrega e fez este texto digno sobre a autora de Viver com os Outros. «Talvez por sermos um país onde a cultura conta muito pouco, os leitores preferem seguir os amores dos jogadores de futebol e das modelos, dos actores de telenovela, e das apresentadoras de televisão.» Talvez. Estive algumas vezes com Isabel, que completa em breve 90 anos, graças ao Júlio de Magalhães e ao José Manuel dos Santos. Com ela e com Lagoa Henriques, seu amigo enorme. Esses tempos terminaram, como tudo termina na vida, sem aviso, mas Isabel é ainda uma imagem relativamente recente entrevista de uma janela do metro de Lisboa. E o texto de o Observador também é digno por outra razão. Porque ergue Isabel da Nóbrega acima da execrável mitologia nacionaleira criada em torno de um escritor e da sua executora testamentária. Desta, muito adequadamente, nem o nome é referido. Para quê conspurcar os olhos doces de Isabel com tamanho horror?

30.5.15

O antigo amanuense de Marcelo


 


Alguém fez uma maldade ao dr. Rio e à coligação. Sugere-se que o primeiro poderá ser candidato presidencial com o apoio da "direcção nacional do PSD" e visto "agradavelmente" pelos "centristas". O antigo secretário-geral do PSD, quando Marcelo Rebelo de Sousa era seu presidente, como já disse por aqui, não passa politicamente da ponte D. Luís. Aliás, seria a primeira vez que um candidato "regional" seria suportado por partidos de raiz nacional. E seria meio caminho andado para ambas as partes se "afogarem" nas águas que passam debaixo da referida ponte. O dr. Costa, de quem Rio é "cúmplice" pela sempre extraordinária via autárquica, agradeceria penhoradamente.

28.5.15

Para quê?


 


Um trabalho da "fundação pingo-doce" concluiu que o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, foi tomado em alguns departamentos pela robusta turma da "cunha". Para além disso, algum material público terá sido alegadamente "desviado" por funcionários públicos para as suas actividades privadas. O "desvio" inclui, como lhes competia, doentes. Isto teria a ver com amiguismo puro, comadrio vário e pertença a seitas, partidárias e menos conspícuas. Ninguém no seu completo juízo imagina que toda a gente que recorre a um hospital público penetra pelas mesmas portas e segue pelos mesmos corredores. Quem se limita a seguir os "sinais" tem, conforme o assunto, para horas, dias, meses ou anos. Das duas vezes que tive de recorrer às urgências do Santa Maria, de uma fui logo atendido (uma luxação que me matava com dores) e da outra, por causa de uma hérnia, foi-me simpaticamente sugerida a intervenção dois dias depois noutro lado. Ali, a hérnia inguinal arriscava passar da forma de ovo que então tinha a uma melancia. Há sempre dois "mundos" nestas coisas. O de quem "conhece" e o de quem não "conhece". O de quem pode pagar e o de quem não pode. Agora vão "investigar". Para quê?

27.5.15

O candidato artificial


 



A "biografia" começou, vai para três anos, num 10 de Junho sob o Alto Patrocínio do Senhor Presidente da República. Conseguiu cativar um pequeno núcleo académico que, de repente, o imaginou subtil depois de umas picardias televisivas espúrias contra o "socratismo" educativo. A seguir deu por si empurrado para as "grandoladas" promovidas pela nova "aliança ex-povo-ex-MFA", a saber, o dr. Soares, os seus bonzos, o notável coronel Lourenço e a extrema-esquerda festiva. Falou, debitou poesia e exibiu o cravo da praxe. Guardou-o para o congresso albanês do dr. Costa onde perorou sem ser ouvido. Ora este descendente apolítico de um híbrido improvável - que junta o "otelismo" GDUP de 1976 ao "movimento pelo aprofundamento da democracia (MAD)" da saudosa Lurdes Pintasilgo passando por alguma descendência nobre da ala militar triunfante no "25 de Novembro" e pelo efémero PRD - apresentou anteontem uma "carta de princípios", no Teatro Rivoli (sempre teatros) do Porto, daquilo que concebe como um mandato presidencial protagonizado pela sua magnífica pessoa. Com receio que o termo "presidencialismo" assuste algum PS mais perplexo, António Nóvoa promete não ser "passivo" nem "cerimonial". Prefere aventurar-se por um caudilhismo romântico e basista que alegadamente "respeita" o prevenido na Constituição para o PR. O resto é, sem remédio, o artificialismo Nóvoa. "É preciso unir uma sociedade rasgada, juntando os portugueses, as portuguesas, numa luta comum, sem medo de existir (aqui uma leve "inscrição" José Gil). Não há destinos marcados", um momento anti-Tony de Matos. Com Nóvoa o destino não marca a hora (marca-a ele, como veremos) porque vive "impacientemente" já que a "esperança é hoje". Talvez para os "jovens, rapazes e raparigas", à moda da Mocidade Portuguesa. Todavia, e apesar deste palavreado oco, "as palavras não são só palavras. São pessoas, são vidas, são passado e são futuro". É Gil outra vez: "inscrever um outro conhecimento da vida e do país real, através do encontro e da escuta". Finalmente, a "mensagem". "Esta é, tem que ser, novamente, a nossa hora, a hora de todas as mulheres e homens deste país, a hora de Portugal". É a resposta retórica da eminência Nóvoa a Pessoa quanto este pergunta "Quando é a Hora?", e mais adiante responde: "É a Hora!". A ideia de hordas de espectadores a abandonar teatros, à pressa, para ir cumprir "a hora de Portugal" do prof. Nóvoa é inverosímil. Tanto quanto o candidato que a quer mandar cumprir.


 



 


Jornal de Notícias


 


Adenda: Depois de escrita esta crónica, reparei que o General Ramalho Eanes baptizou António Nóvoa como "um provocador de reflexões". Já antes era tido por um "transportador de desassossego". Fica-se na dúvida a que é que o homem, na realidade, se candidata com tanto engendramento. A algum prémio literário parecido com aquele que Pessoa disputou com Mensagem e que foi arrebatado por A Romaria do Padre Vasco Reis? A Belém de certeza é que não.

26.5.15

Tenham juízo

Maria Luís Albuquerque até pode ter toda a razão financeira do mundo na questão da segurança social. O dr. Vieira da Silva, o incumbente há quatro anos juntamente com o actual edil de Lisboa, também. Mas aparentemente a matéria é demasiado séria e profunda para ser discutida entre croquetes e coca-colas fornecidos pela "jota". Ou em conferências de imprensa aviadas a correr para animar os jogos florais entre o PSD, o CDS e o PS. Não parece mas há pessoas pelo meio. Tenham juízo.

24.5.15

Incertezas

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Tem a sua piada ouvir o dr. Costa falar em "incerteza permanente" a propósito de uma fala qualquer da ministra das finanças sobre sustentabilidade da segurança social e das pensões. A "solução" abstrusa que o dr. Costa arranjou, ligando aquela aos "incentivos" ao mercado de arrendamento imobiliário, devia impedi-lo, pela natureza das coisas, de comentar as mais leves diatribes da dra. Maria Luís. Que parece apostada em seguir, com o dr. Passos a apoiá-la entusiasticamente, uma ideia do pragmatista norte-americano William James: primeiro continua-se, depois começa-se. A pré-campanha e a campanha legislativas ameçam, assim, tornar-se num chorrilho insuportável de disparates sobrepostos e de regurgitações parvas em "economês". De política, nada. Depois não se queixem da "incerteza" dos resultados.

«A catástrofe»


 


«O sentimento de catástrofe política voltou: no final do PREC e, pouco a pouco, volta agora, à medida que a sociedade se dissolve, o discurso público se torna radicalmente absurdo e cresce a impotência do regime. Nenhum partido, à esquerda e à direita, tem a força e clareza de ideias para nos devolver destino. Sucede que muitos pedem “confiança” ou “prudência”, mas não existe “confiança” ou “prudência”, quando de lado a lado as promessas se tornaram, de facto, em “apostas”, quase sempre insensatas, que por si bastavam para arruinar a República. O sr. Cavaco Silva devaneia, enquanto vai enfraquecendo e restringindo o seu próprio poder. O primeiro-ministro apura a sua própria personagem para consumo eleitoral. O chefe da oposição anda perdido num pequenos caos de planos, de propostas, de medidas, que perturba toda a gente e não esclarece ninguém. E o cidadão comum, se não desistiu já de se interessar, espera com inquietação que Portugal estoire sem aviso e sem remédio. Um dia ouviremos na televisão que a desgraça já está em marcha e nesse dia ninguém nos virá salvar.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

22.5.15

Não havia necessidade


 


O Estado, nas pessoas do seu Venerando Chefe e do Senhor Primeiro-Ministro, inaugura hoje uma coisa em forma de imenso trambolho a que se dá piedosamente o nome de Museu dos Coches. Como uma desgraça nunca vem só, a TVI antecipou-a no seu "jornal da noite" de ontem ocorrido lá. E o "jornal" também não escapou ao infortúnio e ao mau gosto. Pelo meio até apareceu o equívoco da Ajuda, Barreto Xavier, para uns rápidos minutinhos de trivialidades à altura dos intervenientes. Terá, porém, escapado ao apresentador que o Museu original foi fundado pela notável mulher do não menos notável Rei D. Carlos? Obcecado em mostrar o transporte onde o Rei circulava  quando o mataram, o apresentador - e o pior interlocutor que Marcelo jamais teve nos cem anos que leva de estúdios de televisão - decidiu terminar o exercício a ler o "testamento do Buiça" não fosse dar-se o caso de esquecermos que vivemos numa República. Apesar de ser republicano, a futilidade do momento "pedagógico" incomodou-me. Não havia necessidade.

Eanes e o "transportador de desassossegos"


 


Lamento, pela admiração antiquíssima e pela amizade, que o General Ramalho Eanes, estribado em dois ou três lugares-comuns absolutamente pueris, se ligue à candidatura efémera de António Nóvoa. Não imagino o herói militar do 25 de Novembro, e candidato presidencial por uma democracia liberal em 1976, louvar-se em alguém que está para as eleições de 2016 como Otelo esteve para as primeiras presidenciais. Ou Pintasilgo para as de 1986 apesar de ser ainda hoje incomparável o seu legado com esta pura invenção académica e ensimesmada. Não, Senhor Presidente Eanes, Nóvoa não é propriamente um ex voto da "Pátria e dos grandes valores nacionais" e, muito menos, da "sua história,  cultura e ética de inspiração cristã". Depois do que lhe conhecemos, ele próprio deve estar admirado com tamanhos atributos que, apesar do enamoramento pelo que vê ao espelho quando se contempla, não imaginava possuir. Porque, de facto, não os possui. Isto é, o homem apresenta um vazio no lugar da biografia política que, fosse esse o caso, o poderia recomendar para a chefia do Estado. Acho que Maria de Fátima Bonifácio lhe explica isto melhor do que eu. «Nóvoa revolta-se contra “uma austeridade” que fragilizou e empobreceu Portugal e indigna-se com uma “política” incapaz de apresentar “uma única ideia de futuro”. Lê-se e pasma-se: ele próprio não apresenta nem a sombra de metade duma (...). A sua ideia de campanha eleitoral é todo um programa para a Presidência. Informal, basista, feita de “redes animadas pelas pessoas”; sem a “organicidade” que mata a imaginação e coarcta a iniciativa espontânea das “pessoas”. Nóvoa espera delas quase tudo, incluindo as ideias que ele não tem. Resultará? Há “risco”, mas o “transportador de desassossegos” (assim lhe chama Barata Moura) “preferirá sempre morrer ingénuo do que amargurado”. Não lhe ocorre que a ingenuidade na fase adulta da vida ou indica estupidez e imperdoável inexperiência, ou significa que se passou pela vida sem dar por ela, em estado de permanente distracção. Mas grave é apenas a hipocrisia, porque a universidade é um meio humano como qualquer outro: com invejas, raivas, disputas, competições e por aí fora, como na política. E, tal como na política, não se chega a reitor sem muito jogo de cintura. Nóvoa não é puro e virginal (...). Ao cabo de tantos e tantos anos, e de tantos esforços, Nóvoa ainda não assimilou um dado elementar da vida política portuguesa, a saber, que a extrema-esquerda recusa liminarmente todo o “entendimento” com qualquer partido integrante do “insuportável” arco da governação (...). Inquirido, há dias, se se sentia mais próximo do Partido Socialista ou do Partido Comunista, o candidato à Presidência da República respondeu: “Não sei.” Está tudo dito. Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é. Sabe que lhe falta o cursus honorum da política, mas acha natural o desígnio de se projectar logo para o topo. De resto, salvo um convívio informal com a LUAR nos seus tempos de juventude, que lhe proporcionou o conhecimento de Zeca Afonso e “os momentos mais importantes da sua vida”, nunca se conspurcou no antro dos partidos. A sua candidatura, que ainda não recebeu o apoio declarado de nenhuma dessas agremiações, é “pessoal”. Esta circunstância confere-lhe uma “independência” “na qual sectores militares se revêem com alguma simpatia”. Eis o que nos deve tranquilizar a todos. Tanto mais que “sempre [foi] muito desalinhado”. “Nunca me filiei.” Não tenhamos dúvidas de que este “transportador”, caso António Costa cometa o erro colossal de o impor ao PS, vai derramar sobre as nossas cabeças (e sobre a dele) uma chuva de “desassossegos”

21.5.15

O rosto e as máscaras


Passam seis meses sobre a detenção de José Sócrates. Primeiro para interrogatório e a seguir a título de medida de coacção máxima. Ainda há quatro anos este homem era o primeiro-ministro de Portugal. Dirigira entretanto um dos maiores partidos políticos portugueses. Foi deputado, secretário de Estado e ministro. O livro de Fernando Esteves é, até agora, a sua única biografia política. Não me refiro, claro, às primeiras páginas em torno do processo que o mantém detido. Sócrates não está acusado nem "arquivado". Persiste num limbo carcerário que, segundo um companheiro de infortúnio, o mata em vida (o livro termina com esta frase enigmática: "está morto em vida".) Todavia o livro não revela uma personagem susceptível, seja em que circunstância for, de poder "estar morto em vida". O autor optou por sujeitar a ordem cronológica dos "factos" à relevância dos temas. Tratou-se de uma opção inteligente que permite traçar algumas constantes na vida política do biografado desde cedo. E juntá-las. Ambição com intimidação, auto-estima com megalomania, determinação com teimosia, inteligência com esperteza, complexos com excessos, controlo com insegurança, ambiguidade com firmeza, manipulação com imagem. O que sobretudo me impressionou foi a clara ausência de densidade democrática no homem político que a persona Sócrates forjou. António Barreto escreveu uma vez que não sabia se Sócrates era fascista. Prefiro, depois de ter lido o livro, a perplexidade de não ter a certeza se Sócrates é um democrata respeitador das liberdades públicas. Espero que um dia, livre e "vivo em vida" como o concebo, me possa esclarecer.

20.5.15

Antecipar o passado


 


O dr. Costa decidiu "antecipar" a apresentação de uma coisa a que chamaram "o programa do PS para as eleições legislativas". O respectivo "gabinete de estudos", presidido pelo dr. Tiago Silveira, encarregou-se do exercício. O dr. Costa andava manifestamente incomodado com o documento que o dr. Centeno, um generoso académico do Banco de Portugal, lhe tinha preparado. E precisava de sobrepor o que quer que fosse a essa papeleta respeitável para sossegar os seus. Surgiu, assim, esta tábua das "21 causas" ("causas" é um termo que cai sempre bem na matilha) que o próprio dr. Costa resumiu eloquentemente: "tem mais despesa mas também tem menos despesa; e tem mais receita mas também tem menos receita". Depois seguiu-se o dr. Silveira para "desenvolver" esta magnífica oferta do PS ao país. A dra. Edite Estrela, por exemplo, estava embevecida. Não era para menos. Acabara de assistir a uma extraordinária antecipação do passado que ela espera que o dr. Costa volte a prodigalizar. Apesar da relativa juventude, o dr. Silveira das "causas" vem directamente desse passado que pessoas como a dra. Estrela pretendem ver redimido e regressado. Há apenas quatro anos era secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. Antes disso tinha passado pela justiça por recomendação do dr. Costa ao então 1º ministro,  engº. Sócrates, o qual, enquanto secretário-geral do PS, também o colocou como porta-voz do partido. Nesta matéria o dr. Costa desilude. Promete, com mais passado, menos futuro.

A canalha


Na semana passada as televisões, os jornais e as "redes" foram tomadas de assalto por uma gravação com um ano. A coisa passava-se numa rua da Figueira da Foz. Umas raparigas entretinham-se a bater num rapaz, nitidamente mais enfezado do que elas, inerme a socos e a bofetadas. Naquela idade, as meninas tendem a crescer misteriosamente por todos os lados enquanto alguns rapazes, como o dito-cujo, permanecem imberbes e manipuláveis. O miúdo, como se costuma dizer, levou um valente enxerto de porrada, sem um murmúrio, salvo quando as meninas lhe ameaçaram os órgãos genitais que o episódio demonstrou aparentemente não existirem em duas das suas mais garbosas componentes. Por que é que esta gravação só apareceu agora persiste um mistério. Como esta, suponho, deve haver centenas. Mas foi o bastante para a tradicional brigada de psicólogos e de "assistentes sociais" aparecer, a título póstumo, para carpir o evento e para as "autoridades" procederem a "identificações" um ano passado. Isto só tem importância para quem persiste em ignorar no que se transformaram as escolas do politicamente correcto. Varrida a disciplina para não incomodar excessivamente pais e filhos, "estruturados" e "desestruturados", escola e rua tendem a confundir-se. E no meio da miudagem que ainda quer aprender algo, ou que a tal é, como lhe compete, obrigada pelas suas circunstâncias de tempo e de modo, vai proliferando a canalha. Entretanto, entre domingo e segunda-feira, o final simbólico da primeira liga da bola trouxe milhares de pessoas para as ruas. Antes disso, porém, em Guimarães alguma "massa associativa" festejou de outra forma. Armazéns, bares, sanitários e cadeiras do estádio local foram selvaticamente arrombados, assaltados e destruídos. Em Lisboa, as festividades terminaram com mais de cem feridos e mais destruição depois de, no meio daqueles que estavam simplesmente felizes, ter emergido a canalha. A polícia actuou em Guimarães e em Lisboa, embora no primeiro caso não tivesse praticamente conseguido impedir nada. Nada, salvo uma comoção nacional de proporções tão bíblicas quanto ridículas por causa do princípio da proporcionalidade na actuação policial. Todavia, como recordou Miguel Sousa Tavares, sem a polícia há muito que a bola seria infrequentável. O que nos foi mostrado da Figueira, de Guimarães e de Lisboa foi intolerância, estupidez, infantilismo e fanatismo. E, talvez, a manifestação do direito da canalha à liberdade.


 


Jornal de Notícias


 


Foto: Amazon

19.5.15

O essencial...

... Sobre a "racaille" está dito, com coragem e inteligência, nos primeiros minutos do comentário de Miguel Sousa Tavares.

17.5.15

Vocês nas tvs e você que paga a tv


 


1. «Hoje, como no passado, uma ou outra cena de tareia faz parte da infância e da juventude da maioria. A diferença está no estatuto que crianças e jovens assumiram hoje na ideologia da família e da sociedade. São divinizados, até por serem muito menos do que no passado; são pasteurizados pelas famílias, pelo crescente manto protector do Estado e pelo discurso público. Mas eles escapam, como sempre fizeram, e dá-se um choque: o que passa nas leis, nas escolas e no politicamente correcto inculcado diariamente pelos media não tem correspondência no território dos próprios miúdos, que persistem em práticas antigas e nas suas regras sociais, que incluem liberdades e coacções, longe da vista dos adultos. Só agora, um ano depois, este caso saiu do território dos miúdos para o palco nacional acompanhado por uma comoção desfasada no tempo: a vida normal prosseguira desde então. O rapaz agredido também disse à TVI estar arrependido de não ter contado aos pais e que os jovens devem denunciar estes casos. Isto é, percebe-se que o rapaz passou de uma coacção social para outra: primeiro, foi alvo da pressão de grupo e, ao não a denunciar, incorporou-a na sua experiência e na do grupo; mas, um ano depois, perante a divulgação nacional do vídeo, submete-se agora à nova coacção social, a do politicamente correcto consensual na sociedade, induzido pelo discurso público criado nos media e nas redes sociais. Passou do pequeno mundo secreto da juventude, que as famílias, escolas e adultos desconhecem, para o grande palco mediático, que ninguém controla verdadeiramente, a começar por ele, pobre rapaz, mas que origina um terramoto de opiniões e uma comoção generalizada completamente desproporcional ao acontecido algures na Figueira da Foz.»


2. «O Parecer do Conselho de Opinião (CO) da RTP sobre as contas de 2014 é arrasador. Revela a irresponsabilidade da gestão da administração Ponte em todos os domínios, incluindo a estratégia de conteúdos comerciais, para obter mais 8,1 milhões em publicidade e em telefonemas de valor acrescentado, que nem assim compensaram o aumento dos gastos com programas (15,6 milhões), quase todos sem qualidade ou iguais aos privados. A RTP acabou 2014 com piores programas, mais 0,7% de gastos e comprometeu o orçamento para os anos seguintes. O Parecer do CO, como sempre acontece nestas coisas, vem depois do mal feito. Entretanto, os contribuintes e espectadores estão a pagar a factura duma gestão calamitosa.»


 


Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã

16.5.15

Urrar em vez de falar


 


«A vitalidade do nosso português está nos seus grandes escritores, Miranda, Camões, Bernardes, Vieira, Herculano, Camilo, Eça, todos conhecedores do seu Virgílio, do seu Horácio, do seu Ovídio, mesmo do seu escolar Tácito, César ou Salústio. Todos lidos, estimados e estudados no Brasil, que por eles faz muito mais do que nós alguma vez fizemos, por exemplo, com Machado de Assis. E é também por isso, que a maioria dos escritores portugueses contemporâneos recusa o AO, como quase toda a gente que está na escrita e vive pela escrita e é independente da burocracia do estado. Todos sabem que o português permite todas as rupturas criativas, dos simbolistas ao Sena dos Sonetos a Afrodite Anadiómena – “E, quando prolifarem as sangrárias,/ lambidonai tutílicos anárias,/ tão placitantos como o pedipeste”, – ao “U Omãi Qe Dava Pulus” de Nuno Bragança. Criativamente a nossa língua vernácula suporta e bem tudo, menos que seja institucionalizada com uma ortografia pobre e alheia à sua história. O futuro do português como língua já está há muito fora do nosso alcance, mas o português que se fala e escreve em Portugal, desse ainda podemos cuidar. É que é em Portugal que o português está em risco, está na defensiva, e o AO é mais uma machadada nessa defesa de último baluarte. É em Portugal que um Big Brother invisível, que se chama sistema educativo, retira todos os anos centenas de palavras do português falado, afastando das escolas os nossos escritores do passado e substituindo-os por textos jornalísticos. É em Portugal que uma linguagem cada vez mais estereotipada domina os media, com a substituição dos argumentos pelos soundbites, matando qualquer forma mais racional e menos sensacional de conversação. É em Portugal que formas guturais de escrita, nos SMS e nos 140 caracteres do Twitter, enviados às centenas todos os dias por tudo que é adolescente, ou seja também por muitos adultos, se associa à capacidade de escrever um texto, seja uma mera reclamação a uma descrição de viagem. É neste Portugal que, em vez de se puxar para cima, em nome da cultura e da sua complexidade, em nome da língua e da sua criatividade, em nome da conversação entre nós todos que é a democracia, se puxa para baixo não porque os povos o desejem, mas porque há umas elites que acham que a única pedagogia que existe é a facilidade. E é neste Portugal que uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade, que vem dessa coisa fundamental que é falar e escrever com a fluidez sonora do português, mas também com a complexidade da sua construção ortográfica. É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.»


 


José Pacheco Pereira, Público


 


Adenda: Miguel Sousa Tavares, um autor que recusa o "acordo ortográfico", sugere na sua crónica no Expresso que, por exemplo, um candidato presidencial que é "senhor professor doutor" (e autor de uma enternecedora tese intitulada Le temps des professeurs), em vez de se  preocupar em ser um "transportador de desassossego", deveria antes perorar contra isto. Impossível, meu caro Miguel. O "senhor professor doutor" apresenta-se, em letra de forma, em "acordês". Já Henrique Neto, sem ser "professor doutor" ou dar manchetes, tem uma posição clara sobre o "acordo". Vá lá ver.

15.5.15

Bem e mal


 


O dr. Passos foi entrevistado pelo hebdomadário Sol. As frivolidades estilo "sms ou carta" podem vir a dar matéria para um livrinho com, pelo menos, 220 páginas e índice onomástico, mas não interessam nem ao Menino Jesus. Para memória futura, porém, interessa saber que o primeiro-ministro e líder do PSD recusa, e bem, "blocos centrais". E que desfaz, igualmente bem, o triste fado do "arco da governação": «no actual contexto, não há nenhuma hipótese de um Governo juntando PSD, CDS e PS poder sequer funcionar.»  Já numa outra matéria, a do sigilo fiscal, sai-se bem e mal. Bem quando afirma «que o Estado, o Fisco, a Administração Tributária têm obrigação de proteger os dados fiscais dos contribuintes». Mal quando acrescenta que «os contribuintes não estão todos em igualdade de circunstâncias. Vários deles suscitam uma curiosidade e um interesse maiores do que outros. Nesse sentido, uma lista ou um filtro para aqueles que estão numa primeira linha de exposição pode fazer sentido.» A declinação orwelliana implícita de que "somos todos fiscalmente iguais mas uns são mais fiscalmente iguais do que outros" é abstrusa. Uma assuada de café pode, por este critério, "exigir" o seu "filtro" ou a sua "lista". E assim sucessivamente. Para quê insistir em impropriedades? 

13.5.15

Desobedecer ao "acordês"


 


Basta atentar em títulos de jornais, capas de livros, rodapés das televisões, no "Diário da República", em documentos e "sítios" oficiais, oficiosos e "institucionais" para se ter uma dolorosa ideia do desastre a que conduziram as "facultatividades", as "cláusulas de excepção" e as duplas grafias do "acordo". Os alunos, cuja dificuldade com o Português é conhecida e tragicamente demonstrável, ficaram reféns de uma "novilíngua" imposta pelos manuais escolares pelo que corremos o risco de à "mais bem preparada geração" seguir-se "a mais iletrada e analfabeta". Os miúdos não sabem como escrever o que os afastará do gosto de ler. Penalizá-los nos exames por não seguirem o "acordês" não reforça a disciplina mental indispensável à aprendizagem. Apenas confunde e atemoriza. Porque passa a ser considerado "erro ortográfico" escrever em português e não em "acordês", esse aleijão a meio de lugar nenhum que Crato resolveu apascentar. Por outro lado, insistir no argumentário vulgar da "lusofonia" para defender o "acordo" releva da má-fé política e da ignorância histórica. Como sugeria Vasco Pulido Valente pouco tempo após o Governo do doutor Cavaco Silva, por interposto secretário de Estado Pedro Santana Lopes, ter subscrito o dito "acordo", "nada em princípio impede Lisboa de se tornar o centro do estudo do português: não só do português de Portugal, mas do português do Brasil e do português de África". E acrescentava: "Convém talvez lembrar que até ao século XVIII não havia outro senão o nosso e que mesmo a literatura brasileira permaneceu até muito tarde tributária dele. O que impede, na prática, que isso aconteça é a política pacóvia de "afirmação cultural"", agora, da patética "lusofonia" que, paradoxalmente, exibirá, findo em 2016 o período de transição brasileira, três tristes normas ortográficas. Legislar sobre uma língua, na afirmação de Miguel Tamen, é uma tontice e outra maior ainda é "imaginar que leis sobre a língua possam ter efeitos". Um, todavia, com certeza terá. O da desobediência.


 


Jornal de Notícias


 

12.5.15

Um cesarismo indesejável


 


Comecei a ler este livro de António M. Feijó. Lamentavelmente, e para meu espanto, vem impresso em "acordês", uma coisa a que dedicarei a crónica do Portugal em Transe no Jornal de Notícias de amanhã, dia em que o aleijão ortográfico passa a "obrigatório". Será porque a editora é a Imprensa Nacional-Casa da Moeda e deve dar o "exemplo", nem que seja o mau? Relembro a posição de Feijó sobre o dito cujo e, dela, esta significativa passagem. «Não há qualquer acordo ortográfico entre países de língua inglesa, nem poderá havê-lo. A língua inglesa nem mesmo é língua oficial dos Estados Unidos, sendo as tentativas de legislá-la como tal sistematicamente recusadas pelo Congresso. A inexistência de uma língua oficial implica que, em qualquer comunidade em que haja uma significativa comunidade de falantes de um idioma que não o inglês, os documentos oficiais devam escrever-se nesse idioma, bem como em inglês, enquanto idioma mais falado no país. O critério é aqui pragmático e político, o do necessário reconhecimento democrático de uma realidade local. Arrogar-se o Estado legislar sobre intangíveis como a língua, que na realidade o excedem, seria uma extensão abusiva das suas funções. Numa altura em que, em Portugal, se procura definir com parcimónia quais as funções do Estado, a sua extensão a um domínio como a língua é uma forma de cesarismo indesejável.»

11.5.15

Nem um chavo


 


As afirmações deste geronte político-sistémico teriam graça se não tivessem, como não têm, graça alguma. Não tanto pelo que ele diz - que não possui a menor relevância cósmica - mas por ser ele a dizê-lo. Catroga, nos idos de 90 do século passado, foi um bom ministro das finanças num momento de crise. Sem as precauções tomadas aí, o seu sucessor, Sousa Franco, não teria tido as condições para as "flores" a que se entregou a "nova maioria" de Guterres. Entretanto Catroga foi, como se costuma dizer, ficando pelo regime através das suas ligações empresariais e da sua amizade acrisolada pelo Doutor Cavaco. Passos, deslumbrado por figuras destas e para dar alguma respeitabilidade às negociações do memorando de 2011, foi buscá-lo. No fim reclamou para o PSD a "parte boa" do acordado com a troika. Nesta conversa, no entanto, desfez tudo isso, Gaspar e Maria Luís incluídos. "Puxa" o PS, ou empurra-se a ele próprio conforme as perspectivas, para aquilo que chama de "centrão político" que é de onde contempla o nosso pequenino mundo político a partir da edp. Basta atentar no pelotão de bonzos que brota da sua excelsa cabeça como putativos candidatos presidenciais. Catroga faz parte de uma trupe que só costuma fazer "coligações" entre ela. Não interessa um chavo à coligação.

9.5.15

As palavras e as coisas


 


Aquando do debate televisivo entre a saudosa Maria de Lurdes Pintasilgo e Mário Soares, antes da primeira volta das presidenciais de 1986, Pintasilgo desatou a dada altura a debitar "harmonias sociais" sem tom nem som como aquelas que António Nóvoa, 30 anos depois, aprecia igualmente debitar. Soares, com rara delicadeza, explicou-lhe que, por aquele caminho e se ela porventura fosse eleita, não sobraria um castiçal em Portugal. No fundo, Henrique Neto nesta entrevista ao Observador, tira praticamente a mesma conclusão de Soares em 1986: «O discurso do prof. Nóvoa é um discurso que reflecte o currículo dele, a sua vida, o seu passado. É um discurso um pouco lírico, um pouco poético. Nesse plano inquestionavelmente bonito, mas que não se confronta com a realidade dos problemas nacionais. É um discurso feito de palavras, mas discursos de palavras o país já tem anos – o país precisa de acção. Um especialista da palavra não é o que o país precisa neste momento.»

A razão de Paulo Dentinho*


«Os comentadores que são ao mesmo tempo políticos no “activo” ou esperam voltar à política “activa” dentro de pouco tempo estão hoje em larga maioria na televisão e na imprensa. Já lamentei aqui essa promiscuidade. Mas não deixa de ser bom lembrar alguns factos. Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Santos Silva, Manuela Ferreira Leite, António Lobo Xavier, Jorge Coelho, Francisco Louçã e Francisco de Assis pontificam semanalmente na SIC e na TVI. Nos jornais, tirando o Expresso e o Sol, escrevem Mário Soares, Marques Mendes, Luís Amado e meia dúzia mais. Isto para não falar de entrevistas (que não se pagam) ou debates (que também não se pagam), mas que permitem a certas cabeças da “classe dirigente” uma exposição contínua ao público eleitor. O problema que isto levanta é compreensível: por que valor tomar os comentadores que se comentam a si próprios, comentam os seus presuntivos sócios no partido e têm um interesse pessoal na generalidade das questões que discutem? Não há maneira de julgar o peso e a consequência do que eles dizem e menos do que eles, sem dizer, insinuam. Só que, para lá disso, a presença dos políticos no jornalismo cria uma familiaridade e uma cumplicidade que prejudicam, quando não falsificam, a verdadeira opinião. Quem trabalha no mesmo sítio ou na mesma empresa, se encontra regularmente nos corredores, fala do que se vai passando no país, conta casos da sua vida privada ou partilha o último boato, acaba, pouco a pouco, por revelar o que não deve ou quando não deve. O SMS de António Costa a um jornalista do Expresso mostra muito bem a enorme trapalhada em que se caiu. O jornalista escreveu sobre Costa uma coisa qualquer de que Costa não gostou. Fim de história? Não. Em vez de ficar calado (o secretário-geral do PS não “responde” a jornais), Costa resolveu mandar um SMS ao jornalista em que o tratava mal e o jornalista mandou um SMS “atencioso” a Costa e publicou imediatamente toda esta pouco saborosa troca de mimos. Grande escândalo. Mas ninguém perguntou a evidência: como tinha Costa o número do jornalista? Conhecia o homem de algum lado? Por que razão aquela crítica irritou especialmente o nosso putativo salvador? No submundo em que os dois circulam, existe com certeza uma explicação para o caso. Para nós, não.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


*director de informação da RTP que acabou com o "comentário político por político" no canal público generalista, uma medida que devia estender-se aos de "informação" ou  "notícias" que mais parecem jogos amigáveis ou prolongamentos dos pseudo debates da Assembleia da República

8.5.15

Mais uma derrota da "Europa"


Paradoxalmente, ou talvez não, a vitória conservadora na Inglaterra constitui mais uma derrota da "Europa": a de Barroso, de Juncker, da Senhora e de Hollande. O "nivelamento" a que praticamente todas as governações europeias se sujeitaram, sejam mais das esquerdas ou mais das direitas, por causa do "tratado orçamental" alterou profundamente aquilo a que o PC costuma chamar "a correlação de forças". O socialismo e a social-democracia, à força de não se distinguirem dos "conservadores" e "liberais"no austeritarismo e na mistificação política em que se tornou a "Europa", fazem com que a populaça prefira o original (com algumas "originalidades" tais como a ameaça de referendo sobre a pertença à Europa e a moeda própria) ou o "radical" quase inconsequente (como na Grécia) a cópias remoídas. Deve ser por isso que o dr. Costa, que possui um módico de literacia económica e financeira, não se entende politicamente com o "relatório técnico" que encomendou. Está entre aquele clássico querer e não querer o mesmo, "rebocado" pelos mesmos que já não vão a tempo de entender, para citar um título de Manuel Valls, que é preciso acabar com o velho socialismo para ser finalmente de esquerda.

A grande ilusão


 


«Vou escrever sobre meia dúzia, talvez, com optimismo, sobre uma dúzia de intelectuais franceses que dominaram o pensamento político desde o fim da guerra a 1962-1965. Todos se conheciam, todos se viam, todos passavam pelos mesmos restaurantes, pelos mesmos bares, pelos mesmos cafés. Todos se falavam e não paravam de falar, mas ninguém concordava com ninguém. Havia, para começar, uma grande divisão: entre os que estavam dentro e os que estavam fora — do Partido Comunista Francês (PCF), claro está. E, dos que estavam fora, entre os que estavam mais próximos do partido e os que estavam mais longe. A distância era medida pela quantidade de idiotia e de mentiras que cada um alegremente aceitava sobre a URSS e a política francesa; pelos livros que cada um escrevia para justificar o injustificável. Não se pense que esta estranha vida se fazia sem dor. As crises de consciência e as zangas pessoais não paravam nunca. Ferviam insultos. Muitos foram para a província com esperança de recuperar um pouco de sanidade. Não conseguiram. Os dogmas não deixavam saída. O primeiro declarava a URSS a pátria do socialismo real (por muito que a realidade se não parecesse com a descrição), e os verdadeiros revolucionários tinham de a defender contra as calúnias do Ocidente. O segundo dava ao proletariado da França a missão histórica de trazer o socialismo à Europa (apesar de ele já ser nessa altura minoritário e fraco). E o terceiro estabelecia que o PCF representava o proletariado da França. Recusar o PCF era assim simultaneamente recusar a história, a justiça e a Pátria. A herança desses senhores e dessas senhoras acabou por ser um legado de ignomínia e de irresponsabilidade. Verdade que, perante a evidência, a maior parte se arrependeu e, penitentemente, acabou por se confessar em público, como na Idade Média. Mas não ajudaram nada, nem aliviaram o mal que tinham promovido e aplaudido. A esquerda portuguesa de hoje não se distingue muito da esquerda francesa que reinou durante 20 anos e a seguir abjectamente se matou. Os filhos dela continuam a berrar por aí. Até ao dia em que perceberem que as poses não substituem os factos e que não se governa disfarçando e escondendo um passado desagradável. O dr. Costa julga que caiu imaculado no meio de nós. Infelizmente, nós sabemos como e com quem ele chegou ao que chegou.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

7.5.15

Mota Pinto


Passei ontem pela Aula Magna onde o PSD encerrou as comemorações dos 40 anos da fundação do partido. Pertenci ao PSD entre Maio de 1983 e Julho de 2004. Se lá tivesse permanecido, teria levado para casa um "diploma" que distribuíram aos militantes com mais de 25 anos de "casa". O PSD, em Maio de 1983, tinha à sua frente Carlos Alberto da Mota Pinto. Fora meu professor na Católica, em Lisboa, e marcou gerações de alunos na sua Faculdade de Direito de sempre, a de Coimbra. Fundador do então PPD, Mota Pinto foi um grande parlamentar constituinte - foi ele quem baptizou" o parlamento de "Assembleia da República" - e, na sua enorme generosidade, um insubmisso. Partido de tensão e de personalidades fortes, o PPD/PSD "deixou-o" fugir num daqueles momentos de instabilidade crónica genética que só estabilizou (para logo a seguir, pelas razões mais trágicas, regressar) com a formação da AD em 1979 e a sublimação institucional de Sá Carneiro através do cargo de primeiro-ministro. Mota Pinto aceitou, com Nascimento Rodrigues e Nuno Brederode dos Santos, responder ao interregno Balsemão de 1981-1982 e, mais tarde, negociou a formação do "bloco central" com Mário Soares. Foi de uma lealdade irrepreensível ao que assinou o que lhe valeu a constante picardia dos então "jovens turcos" do partido (e seus futuros presidentes entre o século passado e este, e todos putativos candidatos presidencias em 2016) já então empenhados em promover a ascensão de Cavaco Silva. Saiu do governo e da direcção do partido para morrer inesperadamente pouco tempo depois faz hoje 30 anos. O "meu" PSD é o de homens como Mota Pinto. Passos Coelho pode ter em livro duas ou três biografias mas faltar-lhe-à sempre "uma" biografia. É claro que entre ele e Costa, atordoado e impreparado, não hesito porque há muito que deixei os estados de alma à porta da escola onde voto. Todavia isso são contas de outro rosário. Por agora quero apenas traçar a memória de Carlos Alberto da Mota Pinto, um patriota sério e um homem de cultura, de quem este regime patrioteiro e videirinho com ligeireza se esqueceu.

6.5.15

Limpar a casa


«Em ano de eleições a questão é saber se temos no horizonte personalidades políticas com a experiência, a coragem e a ausência de compromissos partidários ou económicos para fazer as mudanças necessárias no sentido de limpar a casa e fornecer os recursos exigidos pela justiça para que esta faça o que lhe compete sem deixar dúvidas acerca da intervenção, activa ou passiva, do poder político. E temos assistido a demasiados silêncios partidários para podermos acreditar que isso aconteça. De facto, não é de esperar que quem foi parte do problema, ou esteve calado durante todos estes anos, possa agora ser parte da solução. Por isso é essencial que nas campanhas eleitorais deste e do próximo ano os portugueses se pronunciem de forma clara sobre estas questões – questões centrais numa democracia feita de valores e de gente honrada, questões que não podem ser iludidas uma vez mais. E que escolham novos interlocutores com o currículo, a coragem e a determinação que a tragédia portuguesa justifica, porque enfrentamos desafios que não se resolvem com discursos ideológicos ou líricos, mas com uma acção experiente e determinada.»


 


Henrique Neto

António Costa e os índios do Paraguai


 


(...) O que se passou é um mero reflexo do que tem dado a crescente promiscuidade entre a acção política e a acção comunicacional. O "namoro" corre razoavelmente até ao momento em que o jornalista não diz, ou não diz bem, aquilo que o político estava habituado a ler e a ouvir ou, no limite, aquilo que queria ler e ouvir. E aí o político tende a reagir com um excesso "que pouco tem a ver com o que aconteceu mas com a forma como vem relatado" (socorro-me de José Pacheco Pereira em "O nome e a coisa", de 1997). Para não irmos mais longe, basta recordar os barulhos entre a Casa Civil do actual presidente da República e Mário Crespo, entre uma mão cheia de jornalistas e Sócrates, entre o "Público" e Relvas ou entre António Costa, na vertente presidente de Câmara, com o mesmo "Público". Costa, porém, não é um cidadão comum quando lê um jornal, escuta a rádio, vê televisão ou navega nas "redes sociais". Por isso as suas reacções no campo das liberdades públicas, onde se inclui a de expressão e a de informar, interessam-me enquanto eventual chefe futuro de um governo democrático. Ou, como perguntava António José Saraiva, "acaso estamos destinados a ser eternamente meninos, como os índios do Paraguai, sabiamente tutelados pelos virtuosos padres jesuítas nas aldeias comunitárias do século XVII"? Talvez Costa ache que sim. E que, numa má declinação da Mertreuil de Laclos, é a sua própria obra.


 


Jornal de Notícias


 

5.5.15

A dialéctica da coligação


É hoje lançada a segunda hagiografia do dr. Passos com um título assaz idiota. Não tenciono ler. Parece, pelas "notícias", que o que interessa nela é a revelação de algumas peripécias do famoso mês de Julho de 2013. Isto é, interessa ao dr. Passos lavar a alma publicamente em relação ao comportamento do dr. Portas nessa altura. Faz bem. O dr. Portas, por interpostas pessoas aqui e ali, sempre que pode recorre ao seu alter ego jornalístico para "deixar" cair umas farpas sobre o parceiro de coligação. Faz  a parte dele. Continuo a dizer que a "história" desses dias ainda não está totalmente contada. As pessoas apreciam novelas e telenovelas e não é por estas historietas de vão de escada que irão votar ou deixar de votar na coligação. Até porque uma coligação não configura uma confraria de amigos ou uma reunião de escuteiros: os envolvidos não têm de estimar-se entre si para prosseguir um objectivo político comum e meramente pragmático. A "esquerda" não tem o monopólio da dialéctica.

4.5.15

A "palavra" pelos ares


 


A bordo de um avião da TAP, imagine-se, o Doutor Cavaco decidiu imitar o Papa. Fez duas ou três declarações em off ou on, consoante as preferências, às quais se prestou mais atenção do que propriamente às que fez no início da viagem à Noruega. Ficou a saber-se que as eleições legislativas serão marcadas para algures em Outubro, que a lei relativa à cobertura eleitoral é "anacrónica" e que, se fosse legislador, o Doutor Cavaco já a teria mudado como mudou a da reforma agrária quando era primeiro-ministro. Muito bem. Segundo o próprio, esta é a componente mais relevante da magistratura presidencial: "a palavra" mesmo que proferida no ar. Agora vamos apreciar como é que ela "aterra" em Lisboa.

2.5.15

Escrever, pensar, poder


 


«Ao começarem a apresentação de um projecto político por aquilo que deve ser um complemento ancilar e não um ponto de partida, aceitaram o “economês” e todas as ideias simplistas sobre a sociedade, a política e a economia que lhes estão associadas. Parece quererem obter o beneplácito dos adversários, fishing for compliments e atestados de responsabilidade dados pelos mentores e apoiantes da actual maioria, que nunca deixarão de pensar que os “outros” fazem melhor. O PS “confiável” é conveniente para eles passarem o intermezzo que acham que os eleitores vão dar à maioria, para diminuir as tensões, mas depois tudo voltará ao normal, um “ajustamento” eterno, que aumenta as desigualdades sociais, fragiliza o poder do trabalho, reduz Portugal a uma versão pobre e medíocre de uma Singapura falhada. Os programas políticos agora são auditados e auditáveis. Por quem? Por técnicos que lhes vão dar notas pelo “trabalho de casa”. Mas esses técnicos não têm opiniões, não são parte quando se trata, no fundo, de analisar políticas? Mas não, não é política é uma folha de Excel. Vão dar notas? Alguém espera que o PS tenha mais do que um sofrível dez e o PSD-CDS um melhor treze? Com que modelos, com que concepção da sociedade, com que ideias, com que “economia”? (...). Pobre país o nosso, entregue a estas cabeças e a este desastre ambulante que é hoje a Europa. Esta é das previsões mais fáceis de fazer: vai haver surpresas e todas elas fora do “consenso europeu”. É que a história não é feita de modelos, mais ou menos neo-malthusianos, que não incluem a complexidade da realidade, agora sem aspas. E essa realidade é o ruído de que falava Max Weber: a regra desses programas é falhar. A regra, não a excepção.»


 


José Pacheco Pereira, Público


 


«A imagem que me ficou dos trabalhos realizados pelos insignes especialistas foi o da história de alguém confrontado com um lençol demasiado pequeno para cobrir todo o corpo e que se afadiga a puxar o lençol, ora para cima ora para baixo, para cima para tapar a cabeça e destapando os pés, para baixo tapando os pés e deixando a cabeça de fora. Ou seja, o PSD/CDS procuram tapar os pés, o PS preferiu tapar a cabeça, nada mais do que isso. Claro que o exercício feito pelo PS e pelo Governo é útil e até algo inovador no vazio de ideias e de falta de transparência que tem sido a governação económica em Portugal. O que promete um debate durante a próxima campanha eleitoral um pouco mais rigoroso do que tem sido a prática passada. Contudo, se um grupo de técnicos da economia é quem define o futuro do País, sem alterar nada nas politicas económicas que nos conduziram até aqui, como podem os portugueses esperar que os seus problemas e a sua vida possam mudar para melhor? (...) Isso seria trabalho para políticos competentes e não apenas para técnicos.»


 


Henrique Neto, Expresso

Haver quem os admira


 


Isto já é um bocado de Observador a mais para meu gosto. Todavia, este texto notável de Miguel Tamen sobre um livro presumivelmente também notável de António M. Feijó sobre Fernando Pessoa entrelaçado de Pascoaes ou o oposto - e que envolve, o artigo, instantes notáveis de crítica literária o que prova que esta sobretudo não precisa de berloques melancólicos ou desinformados para se apelidar "crítica literária" - deve ser lido por quem ainda consegue encontrar aquele "prazer no texto" que não tem de ser necessariamente o "do texto" que Barthes esmiuçou. Imagino que o livro de Feijó esteja à altura da recensão de Tamen, e vice-versa, conhecendo o trabalho de ambos. Pessoa, que não era uma "pessoa" propriamente dita tal como em geral as conhecemos, é ele e aquilo a que por vezes se chama a sua "fortuna crítica", mesmo a menos afortunada. Tamen vai de João Gaspar Simões a Cesariny, passando por um (e um só, não se assustem) Agostinho da Silva e pelo Revisitado, «o único livro de Eduardo Lourenço.» Saem rasurados da lista Jacinto Prado Coelho ou as colectâneas de artigos em forma de livro o que exclui Casais Monteiro e Sena, por exemplo. Mas, resumindo, o que me interessa é que este texto e, segundo Tamen, «este livro é assim, para além de um livro sobre escritores, um livro sobre o facto, cada vez mais raro, de haver quem diz em voz alta que os admira.»

1.5.15

A liberdade de expressão vista por um candidato a 1º ministro


 


«Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava. Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados, incapazes de terem uma opinião e discutirem as dos outros, que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas. Quem se julga para se arrogar a legitimidade de julgar o carácter de quem nem conhece? Como não vale a pena processá-lo, envio-lhe este SMS para que não tenha a ilusão que lhe admito julgamentos de carácter, nem tenha dúvidas sobre o que penso a seu respeito. António Costa.»

Não valia a pena


 


Deixado à solta, entre queijos em Aguiar da Beira, o dr. Passos Coelho reparou a meio do seu desastrado improviso na presença da veneranda figura do dr. Dias Loureiro, o "Manel" como é carinhosamente tratado pelos íntimos. E vai daí apresentou-o como o "empresário exemplar" que levou a bem-aventurança do empreendedorismo nacional aos locais mais remotos do mundo. Um pilar na "exigência" e no "método". O dr. Loureiro, convém recordar, ajudou a fazer e a desfazer algumas lideranças do PSD até passar directamente das actividades partidárias e governativas para os negócios. Criou, como Jorge Coelho, um dos tais "íntimos", a aura senatorial uma vez que o regime, nessa matéria, não é de grandes exigências. O Doutor Cavaco até o conduziu aos altares do Conselho de Estado sem se rir. O eng. Sócrates viu uma sua hagiografia ser apresentada por ele. E um governo, o de Santana Lopes, foi praticamente formado pelo dr. Loureiro em Monsanto. É claro que, pelo meio, houve uma coisinha sem importância, o BPN, o banco do "centrão" em que o dr. Loureiro desempenhou o seu papel como pôde. Nunca mais o vimos, nem sequer nos lembrávamos dele, até este extraordinário louvor público do dr. Passos. Não valia a pena.

A eminência eterna


Leio que o dr. Mota Amaral está "disponível" - é assim desde o antigo regime quando entrou, novinho, para a então Assembleia Nacional - para encabeçar a lista do PSD nos Açores. Consta que o novo senhor do partido no Atlântico, Duarte Freitas, pretende renovar a coisa e remover gentilmente o dr. Amaral dessa primazia. Concordo com o sr. Freitas. O dr. Mota Amaral tem-se em grande conta e, depois de se ter "desinstalado" tranquilamente do Estado Novo (era o único deputado da chamada "ala liberal" em funções no 25 de Abril: os outros ou já se tinham demitido ou nem sequer se recandidataram em 1973 por manifesta inutilidade do exercício), instalou-se confortavelmente no actual regime para, julgava ele, nunca mais sair. Retirar-se a tempo em certas circunstâncias da vida, pública ou privada, é uma razoável saabedoria que a poucos assiste. O dr. Amaral, que não é parvo, devia ser o primeiro a compreender isto. Agora alguém vai ter de lhe explicar.

Degradação


«Meia dúzia de homens de músculo político agarraram na criatura e resolveram enfiar a dita sem grande cerimónia pela goela aberta de um povo miserável e de uma “classe dirigente” sem destino ou vergonha. Claro que os socialistas nunca na vida mostraram o menor escrúpulo em organizar esta espécie de operação. Basta lembrar que o dr. António Costa tomou o partido de assalto com uma grande dose de brutalidade e demagogia, perante a equanimidade e o deleite dos seus queridíssimos camaradas. Agora, a ideia é fazer o mesmo com o país: a tradição ajuda. Soares como Sampaio estão ali para o trabalho sujo. Sampaio com o vácuo de uma cabeça onde nunca entrou nada; Soares com ar rusé, que de quem continua a puxar os fios da intriga. E Manuel Alegre com a sua insofrível jactância e pretensão moral. O candidato, esse, não conta. Cita Sophia de Mello Breyner, “Zeca” Afonso e Sérgio Godinho, e com esta mistura de um lirismo torpe faz declarações sem propósito ou consequência. Promete (imaginem só) não se “resignar” à “destruição do Estado Social”, à pobreza, ao desemprego, à “exclusão” ou à mais leve força que “ponha em causa a dignidade humana”. Como tenciona fazer isto, não confessa. Promete “agir” com “integridade e honradez”, coisa que deve tranquilizar a populaça já com muito pouco para espremer. E promete, para nossa perplexidade e espanto, não assistir “impávido” à “degradação da nossa vida pública”. Não percebe ele que a sua própria candidatura, fabricada por meia dúzia de maiorais do PS, à revelia dos portugueses (que nem o conhecem), é o mais grave e humilhante sinal da “degradação da nossa vida pública”?»


 


Vasco Pulido Valente, Público

O acordês soviético


 


«Todo o processo de engendramento e implantação do Acordo Ortográfico de 1990 só tem paralelo nas experiências agrícolas de Lissenko: a ortografia, como o trigo duro, tem de se vergar às miragens de uma ideologia (que tem nome de “lusofonia”, mas é muito mais do que ela) e conformar-se aos desígnios de políticos e cientistas pioneiros, ditos linguistas, mas que são na verdade agentes de uma ciência politizada. Juntos, gritaram em coro, antes de perderem o pio: “A ortografia é a arte plástica do Estado”. Quem lê jornais, escritos públicos e documentos oficiais percebe que está instalada a anomalia ortográfica (em meia hora de televisão, no dia 25 de Abril, li dois “fatos” em vez de “factos”) e que a aplicação do AO90 é tão desastrosa e tão contrária aos efeitos pretendidos (temos agora três normas ortográficas no “espaço lusófono”) como a agricultura de Lissenko. E é já tão paródica como ela. O que é irritante é que toda a verdade de facto exige peremptoriamente ser reconhecida e recusa a discussão. Por isso é que os políticos com responsabilidade nesta matéria e o respectivo braço armado científico (os cientistas pioneiros do laboratório linguístico de onde saiu o AO90) recusam sair a público e discutir os resultados da sua bela obra: mostram-se às vezes irritados com o ruído da paródia. Mas apostam no silêncio, à espera que das intervenções genéticas no trigo duro nasça, se não cevada e centeio, pelo menos erva para forragens.»


 


António Guerreiro, Público