De Gaulle, a propósito de Pétain, afirmou que a velhice é um naufrágio. E acrescentou que, para que nada lhes fosse poupado - a eles, franceses -, ao naufrágio de Pétain juntava-se o naufrágio da França. Com as devidas adaptações, a rápida passagem dos anos aqui, entre nós, é um naufrágio. Nosso e da nação.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
29.11.13
28.11.13
A caminho do nada
«As poupanças alcançadas com a liquidação antecipada de swaps atingem 78 milhões de euros, excluindo as reservas feitas pelos bancos para prevenir o risco de incumprimento e financiar o custo das operações. Dos 500 milhões referidos pelo Governo, cerca de 380 milhões dizem respeito a estas verbas inscritas pelas instituições financeiras. Os 78 milhões de poupança atingidos referem-se ao desconto realmente feito pelos bancos face às perdas potenciais que os 69 derivados liquidados acumulavam. Tendo em conta que o risco de prejuízo, que só se tornou real com o cancelamento de contratos, era de 1463 milhões de euros, o corte feito pelas instituições financeiras é de 5,7%, sem considerar as reservas dos bancos, revela documentação enviada pela Agência de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP) ao Parlamento.» Um dia, espera-se, talvez possa ser contada a "história completa" destes derivados mais conhecidos por swaps. Porém, do tempo que passa, e pese embora estes milhões todos juntos (e como eles pesam), fica o anunciado fim dos estaleiros de Viana do Castelo, o fatal desemprego de mais de seiscentas pessoas e a perplexidade dos agentes económicos e políticos da região. Ainda não passou muito tempo sobre a "promessa" latino-americano-ibérica relativa aos estaleiros. Agora apenas ficou uma "solução" tipicamente latino-americana que prenuncia pouco de bom. Pior do que um país por natureza miserável, é um país amoral, conformado e retalhado a preceito consoante as ocasiões e os protagonistas. Entre milhões e tostões a caminho do nada.
A persistente flor na lapela
«É pois preciso ultrapassar o paradoxo de, enquanto por todo o lado se reconhece (e isto desde o famoso relatório Kern, já de 2006) a contribuição da cultura para o desenvolvimento económico e o crescimento, na União Europeia se assistir a um constante recuo dos meios das políticas culturais. Também aqui inspirados, parece, no exemplo alemão, onde se chegou a debater o temas em termos - imagine-se - de prevenção de um "enfarte" cultural!... Foi talvez já a intuição deste paradoxo que levou Jean Monnet a afirmar, ao enfrentar as primeiras dificuldades da construção europeia, que "se fosse hoje, teria antes começado pela cultura..." Seja como for, é esse o desígnio do Fórum de Avignon: repor a cultura no coração da política, através das revalorização da criatividade e da diversidade cultural como base do debate democrático e alavanca de novas ambições, propostas e medidas, no âmbito das políticas públicas, e não só. Para tal, como se afirma no manifesto deste ano, o élan político é vital, é dele que depende a compreensão da importante dimensão económica da cultura, a projecção do seu papel no dinamismo das sociedades e das empresas, bem como a renovação do imaginário coletivo e o fortalecimento da coesão social. Com as eleições europeias já no horizonte, o Fórum de Avignon assumiu bem a oportunidade que isso representa, focando neste ponto boa parte dos debates. Foi neste quadro que mais participei, nomeadamente na discussão do estimulante estudo sobre "cultura, territórios e poderes", propondo que se introduza a discussão sobre o papel da cultura no futuro europeu através da proposta da criação de um ministério da cultura da União Europeia. Esta proposta baseia-se, antes do mais, no reconhecimento do erro que foi a total ausência da dimensão cultural nos tratados europeus até ao Tratado de Maastricht (1992), mas também no reconhecimento dos equívocos criados pela política de subsidiariedade então definida, bem como na indigência orçamental com que sempre se tem tratado o sector. Ela pretende insistir - se possível, em articulação com um "Erasmus da Cultura" a criar - na importância da escala europeia para as políticas culturais, pois só assim será possível viabilizar um conjunto de medidas estruturais e contínuas que possam configurar uma nova e mais autêntica experiência da Europa, que é, na verdade, o que - para lá da conversa da crise e da dívida - hoje mais falta faz aos europeus.»
27.11.13
A vida cá fora
Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, não é propriamente um "magno" agitador político nem sequer tem sido desagradável para o Governo. Por consequência, o Relatório de Estabilidade Financeira do BP, relativo ao corrente mês, pode perfeitamente ser lido de boa fé pelos governantes sem ter de aparecer, por exemplo, um Aguiar-Branco para "ocupar" o átrio da Rua do Ouro com a sua "indignação". O BP limita-se a alertar para o efeito que o orçamento, recessivo e rapace, ontem aprovado pode provocar na já depauperada economia nacional bem como no sistema financeiro. Tudo, evidentemente, se afunila nas pessoas e nas empresas por mais que a dupla Portas-Lima esbraceje infantilmente com uma "viragem" ou "milagre" por causa das "exportações". O OE para 2014 constitui, para mais, uma derrota política "interna" de alguns membros do Governo - que engolem em silêncio - a quem ainda resta a lucidez de perceber que há vida "cá fora" em risco. «Apesar do perfil de recuperação da actividade económica ao longo de 2013, persiste ainda um elevado grau de incerteza relativamente à sua evolução futura, bem como à do desemprego. Em paralelo, as medidas de consolidação orçamental apresentadas no OE2014, tendentes a diminuir o rendimento dos funcionários públicos no activo e dos aposentados da função pública, após um aumento significativo da carga fiscal, terão efeitos no rendimento disponível das famílias, afectando as respectivas decisões de consumo e de poupança. Estes desenvolvimentos podem ter impacto negativo sobre a procura interna e, assim, dificultar a recuperação do emprego, com eventual reflexo no número de famílias que possam vir a confrontar-se com a impossibilidade de garantir os compromissos de crédito assumidos (...). Por um lado, a desalavancagem das famílias e a redução do seu rendimento afecta a procura destas por activos imobiliários. Por outro, a quebra do investimento público, nomeadamente em obras públicas, restringe também a procura dirigida a este sector.» Depois não se queixem.
26.11.13
A "conduta furtiva"
O Presidente da República - no dia em que a maioria aprovou o documento politicamente mais lamentável e mesquinho do seu mandato e que a levará ao fracasso - permitiu que se conhecessem os fundamentos que o conduziram a pedir a fiscalização da constitucionalidade do chamado regime de convergência das pensões. O que deu azo a que o Doutor Cavaco saísse, mesmo que por instantes, dos maus cozinhados "consensuais" em que se enredou desde Julho e que não terminam manifestamente em lado algum. E que o PR produzisse um adequado texto político-jurídico («a criação de "um imposto especial" de 10% sobre as pensões de aposentação, reforma e invalidez de valor ilíquido mensal superior a 600 euros pode abrir a porta a uma "conduta furtiva" por parte do legislador») o qual, com as devidas adaptações, serve perfeitamente para "julgar" muitos aspectos do infeliz orçamento para 2014. O tal a que Vítor Gaspar, na sua carta de demisssão, traçou previamente o epitáfio.
25.11.13
Sem norte
O testemunho a Eanes decorreu sob o lema "olhar o futuro". As gerações presentes na homenagem talvez possam ser vistas como "incorrectas". Todavia sem, entre outros, o "momento Eanes", para usar o termo do feliz improviso de Eduardo Lourenço (ou o lastro da casa que não pode ser construída sobre a água no exemplo de Adriano Moreira), esta "normalidade", que permite até o pior, nunca teria sido possível. «Considero imperativo o norteamento ético da nossa sociedade. Um sistema social tolerante e pacífico não deve deixar ninguém de fora.» Mas fora da antiga FIL o "futuro" apresenta-se miserável e centrado na auto-suficiência sem valores a não ser os da escatologia contabilística em vigor. E não se vislumbram protagonistas ou "momentos"- embora não falte uma multidão de pseudo elites cheias de "futuro" atrás delas - da estatura de Ramalho Eanes. O país está sem norte.
Foto: Público
As certezas

Até sensivelmente o serão da passada quinta-feira, o ministro Miguel Macedo - embora notoriamente enfadado, pelo menos desde a "crise Portas", com o estado da arte e anelando porventura por outra pasta - esteve sempre à altura dos desafios do sector que tutela. Todavia, dizem-me que uns dias antes, no Instituto de Ciências Policiais, terá falado de tudo (até das exportações) menos do que eventualmente mais interessaria à audiência. Mas, nesse serão, o ministro aludiu à manifestação do dia anterior dando a certeza que não mais os patamares da escadaria do parlamento seriam escalados para lá do "perímetro de segurança". E que colocava no cargo de director nacional o comandante daqueles que, no exercício das suas funções policiais, actuaram com respeito pelo chamado princípio da proporcionalidade (isto sou eu que digo porque o ministro achou a coisa "desproporcionada" e, pelos vistos, pela negativa). Salvo o devido respeito, o ministro praticou um oxímoro político. Se tudo aquilo era "inaceitável", nas suas palavras, como é que o Governo escolhe quem alegadamente permitiu uma intervenção diferente que evitou o pior embora "inaceitável"? É porque, afinal, o comandante da unidade especial, hoje director-nacional da PSP, esteve certo. O ministro é que talvez precise rever com urgência as suas certezas.
Eanes, o homem que se ergueu contra o medo
24.11.13
Não há remédio
«Mais uma vez, a RTP celebrou a RTP, desta vez num “dia do serviço público”. Mais uma vez, debateu-se com pompa o “futuro do serviço público”. Eu explico porque se fala do futuro da RTP: para não se falar do seu presente. Há décadas que se debate o futuro, com o único objectivo de se ocultar o debate verdadeiramente necessário, sobre o seu presente. Esta fuga do que interessa é bem visível hoje, porque tudo o que é proposto por toda a gente para “futuro da RTP” é negado pelo presente da RTP nos seus diversos canais e actos de gestão. Mas sobre isso ninguém fala, nem o ministro da tutela, nem os deputados, nem os “especialistas”. E depois ainda dizem que o PCP é que fala de “amanhãs que cantam”. Não há remédio.»
Eduardo Cintra Torres, CM
Foto: Correio da Manhã
É para levar a sério?

O senhor vice primeiro-ministro prodigalizou este fim de semana um "momento inspector Jacques Clouseau" quando apareceu a verberar o dr. Mário Soares. Classificou de "lamentáveis" as declarações que envolveram o termo "violência" e tirou delas as conclusões que bem lhe apeteceu. É caso para falar no roto e no nu. Então como deveremos classificar a famosa demissão de Julho último que era, nas palavras do autor da cartinha a pedir a dita, "irrevogável"? E as consequências que esse gesto leviano e chantagista provocou junto dos "credores" a quem, uns escassos dois meses depois, o referido autor se apresentou com a mesma cara de pau com que tinha "revogado" o "irrevogável"? É para levar a sério ou é apenas lamentável?
23.11.13
Ao ataque, portanto
Há para aí cerca de três anos, no pavilhão Chinês, o Medeiros Ferreira contou-me (repetiu-o nesta entrevista) que Victor Cunha Rego, já muito doente, lhe disse em 1999: «promete-me que se vires que Portugal está mal dentro da UE, tira-o de lá como o puseste.» Parafraseando livremente o Medeiros, ajudei a pôr este Governo onde ele se encontra - e posteriormente a "compô-lo" - e agora está porventura na hora de ajudar a tirá-lo de lá. Isto serve para aqueles que, sob anonimato ou não, vêm aqui repetidamente admoestar-me por alegado "ressabiamento" ou com outros mimos irreproduzíveis. Esquecem-se que, neste regime, e dentro dos partidos do regime, houve sempre rupturas e foi assim que, parcamente, é certo, ele evoluiu. O ambiente de pacificação institucional e de desanuviamento da opinião pública que se seguiu a Junho de 2011 há muito que desapareceu. O próprio programa do Governo, em cuja elaboração participei, foi progressivamente sendo substituído pela redacção única do "programa de ajustamento" a qual, por seu turno, foi-se transformando num alien que acabou a devorar parte dos seus "criadores" como Gaspar, aliás, bem notou em carta de 1 de Julho de 2013. Portas entretanto anda por aí a devorar politicamente o que lhe consentem e, todos juntos, já nos entram no osso, com especial destaque para um secretário de Estado com foros de ministro, H. Rosalino que, a avaliar pelo que vem noticiado no Expresso, desautorizou, com um veto de gaveta, o antes aplaudido MAI Miguel Macedo perante as forças que tutela. Não faltam exemplos, pois, para seguir indirectamente a recomendação de Cunha Rego. Como alguém que se considera da não-esquerda, estou disponível, sem puerilidades revanchistas, para «atacar a iniquidade, a injustiça, o desprezo, o cinismo dos poderosos para quem a vida decente de milhões de pessoas é irrelevante, não conta, é um “custo” que se deve “poupar”. A transformação da palavra “austeridade” numa injunção moral serve para um Primeiro-ministro, apanhado pelo sucesso dos celtas, sorrir cinicamente para nos dizer que a “lição” da Irlanda é a ainda precisamos de mais austeridade, ainda precisamos de mais desemprego, ainda precisamos de mais pobreza. E sorri muito contente consigo mesmo. O discurso de contínua mentira e falsidade que nos diz como se fosse uma evidência, que “as empresas ajustaram, as famílias ajustaram, só o estado não o fez”, como se as três entidades fossem a mesma coisa e o verbo “ajustarem” significasse o retorno a um estado natural das coisas de que só o vício de quererem viver melhor afastou os portugueses. Na verdade, pode-se dizer que “as empresas ajustaram”. Sim algumas “ajustaram”, mas a maioria “ajustou” falindo e destruindo o emprego, - que para quem não tem outra “propriedade” é o seu modo de vida. As famílias não “ajustaram”, empobreceram e estão a empobrecer muito, para ter que ouvir como insulto os méritos de perderem a casa ou o carro, ou a educação superior para os seus filhos, e o valor moral de deixar de comer bife e passarem a comer frango. No entanto, há uma coisa em que estou de acordo, de facto o estado não “ajustou”, continua religiosamente pagar os desmandos dos contratos leoninos das PPPs, a negociar com vantagem para o sistema financeiro, os contratos swap, em vez de receber a lição do sucesso judicial de empresários que recorreram aos tribunais, a baixar uns impostos para algumas empresas ao mesmo tempo que continua a permitir que um contínuo entre um establishment no poder ligado ao sector financeiro capture as decisões políticas, tornando intangíveis os seus interesses na razão directa em que viola todos os contratos com os homens e mulheres comuns, destruindo toda a confiança que numa sociedade democrática é a garantia do contrato social.» Ao ataque, portanto.
Por que é que não se trata?

Uma vez assisti, em substituição de uma colega que costumava acompanhar o ministro Relvas nessa função, a uma reunião de conselho de secretários de Estado. Pelo menos à parte em que o ministro presidiu. E nessa parte houve uma intervenção do secretário de Estado da Saúde, Leal da Costa, que, se bem entendi, retomava a defesa de um diploma a que os seus colegas torceram muito adequadamente o nariz. Tinha a ver com o tabaco e a proibição de fumar aqui e ali. Leal da Costa pretendia erradicar o fumo praticamente até à estratosfera começando por invadir a privacidade terrena das famílias: os paizinhos e as mãezinhas não podiam fumar junto das crias. Segundo o Expresso, a coisa alastrou para cadastro. Ou seja, progenitor que fume ao pé da cria pode sujeitar-se a figurar numa vulgar lista de criminosos. Não só não fumo como não gosto que fumem para cima de mim. Mas nunca me passaria pela cabeça subscrever legislação norte-coreana a propósito dos costumes. O "liberalismo" de Leal da Costa - como, aliás, o restante liberalismo do Governo, meramente de pacotilha - traduz-se mais ou menos num chip e numa trela que ele apreciaria ver colocados no pescoço dos fumadores. Por que é que não se trata?
22.11.13
A carta por ler
Entretanto os dados da execução orçamental demonstram, uma vez mais, que são as pessoas, através do IRS, e sem tugir nem mugir, que "contribuem" de uma forma brutal para "aumentar" as receitas. E demonstram que continua por ler a carta de demissão de Vítor Gaspar.
Poder e autoridade
Nas aulas de ciência política de Francisco Lucas Pires aprendia-se, via Max Weber, a distinguir poder de autoridade. Ontem, nas escadarias da Assembleia da República, uma manifestação pacífica - sim, pacífica - de milhares de cidadãos que exercem funções policiais acabou por exemplificar a distinção. Poder e autoridade ficaram separados por uns lances de escada. A circunstância de alguns daqueles cidadãos terem acedido a um patamar superior possui um simbolismo que não deve ser desprezado. E ainda mais simbólico foi o facto de, como maior ou menor exaltação (própria do humano, do demasiadamente humano), não ter havido violência. O que pretendo significar é que a autoridade do Governo perdeu-se entre a base e o primeiro patamar daquela escadaria. Pacificamente. A do Presidente da República, perdida desde Julho, acentuou-se com uma coisa nunca vista nestes quarenta anos de regime: o inusitado pedido público da sua demissão por parte de um seu antecessor. Em suma, somos pastoreados por poderes representativos sem sombra de autoridade. Se calhar não merecemos melhor.
Adenda: Percebi ao longo do dia que algumas vestais ficaram perturbadas com o que se passou ou deixou de passar. Na realidade, não se passou nada se tivermos em conta que os envolvidos são o que são e actuam num quadro de deveres e de direitos bem distintos do chamado cidadão comum. Por isso não entendo a demissão do director nacional da PSP. Pedida ou exigida, esta demissão é mais uma consequência canhestra de não se saber conciliar poder com autoridade. O respeitinho e o temor reverencial, quando substituem um e a outra, transmitem um sinal errado à sociedade. Mas ao ponto a que isto chegou, não vale a pena chover no molhado. Quem só se lembra das instituições, ou dos compromissos institucionais, de calças na mão, o que é que deve esperar?
Adenda2: Constança Cunha e Sá, na tvi 24, afirmou que lhe constou que o MAI, ontem à noite, terá ligado ao director nacional da PSP a felicitá-lo pelo comportamento das forças de segurança na escadaria de São Bento. E que, de manhã, o chamou, no fundo, para o demitir. O que se terá passado no interim? Algum telefonema mais "elevado"? Não seria a primeira vez, nem decerto seria a última, que o telefone toca e que, de seguida, uma cabeça intermédia é "servida".
21.11.13
Quanto deve "medir" um Estado de direito?
Esta "honra nacional", decretada por Sampaio em 2004, nunca nos falha. Por que não, já agora, Bruxelas passar a definir, como faz para os preservativos ou para as alfaces, a "medida" tolerada pela Comissão do Estado de direito português? Depois admiram-se que mesmo a não esquerda acabe por ter de se "juntar" ao dr. Soares para não perder totalmente a vergonha de se ser português.
E se melhor for possível?
«Às vezes a gente esquece-se do mais evidente, do mesmo muito mais evidente, mas há sempre quem se lembre por nós e desta vez foi o FT, a escrever sobre a Grécia. E é o seguinte: se o Estado português caminha para um excedente "primário", isto é, arrecada mais impostos do que o dinheiro que gasta, com excepção dos juros que tem de pagar pela dívida acumulada, então só precisa de financiamento para pagar aos credores passados e não precisa de financiamento para o futuro. Simples. Ora isso não quer dizer que não se pague a dívida: quer simplesmente dizer que o poder negocial do Estado aumentou. Incomensuravelmente. Aliás, como lembra o FT, os credores internacionais há muito que sabiam que esse momento iria chegar e terá sido por isso que a Alemanha, Durão e Passos não descansaram enquanto não passaram a esmagadora parte da dívida para os credores institucionais. Embora restem problemas, como é referido no mesmo artigo: "historically governments receiving international assistance become far less co-operative once they can fully pay for their own daily activities. Indeed, if Athens had its own central bank to shore up its financial sector, there would be few incentives to keep paying off the EU and IMF at all." Mas uma coisa é mais certa do que muitas: à medida que o estúpido programa de ajustamento prossegue, diminuem os custos de fazer alguma coisa de diferente. A pressão sobre o Tribunal Constitucional tem de estar relacionada com isso, mas para o demonstrar ainda será preciso queimar mais algumas células cinzentas.»
20.11.13
Não chegar a cavalo
Já aqui tinha referido que a passagem por gabinetes governamentais, fora uma uma ou outra relação amistosa, só me trouxe dissabores. Os detalhes ficam para outra ocasião e sob outra forma menos efémera que um simples blogue. Vi a minha situação profissional diminuída - quando saí para a missão de "elevado interesse público", nos termos legais, exercia uma função de direcção intermédia que, naturalmente e entretanto, "caiu" -, de vez em quando sou insultado no anonimato reinante nos meios imateriais de comunicação e hoje passei pela humilhação de ter de ir questionar a responsável pelo processamento de vencimentos no organismo público onde presto serviço, acerca da razão pela qual, e ao contrário do que aconteceu com todos os meus colegas, não me foi disponibilizado, com o vencimento, o famoso "subsídio de férias". E ainda me foi perguntado delicadamente, é certo, se "não me fazia diferença" se a coisa aparecesse em Dezembro como se fosse esse o ponto. Isto apesar de estar longe de ser rico, de dispor de quaisquer outros "rendimentos" paralelos ou de, sequer, ser "recomendável" de acordo com a cartilha regimental em vigor. Após um quarto de século ao serviço do Estado (a que isto chegou), tenho de subscrever, quase a título de epitáfio, a frase de Jorge de Sena: um burro nasce burro e ao fim de 25 anos não é cavalo.
19.11.13
Já chumbou
O Governo, por causa do prof. Crato, uma catedrática nulidade política, passou pelo vexame de as universidades "cortarem" relações com ele. Mais do que as restrições orçamentais, os reitores queixaram-se da forma - a ausência de sentido institucional da criatura - como a tutela, desde pelo menos Agosto, tem tratado o ensino superior público. Aparentemente a qualificação não consta do livro vermelho-liberal do ministro que, após este medíocre exercício governativo, devia pensar duas vezes antes de regressar ao espaço universitário público. Já chumbou.
Soares vintage
O melhor que há em Mário Soares é Mário Soares, o homem de liberdade e da coragem serena que substituiu Ramalho Eanes em Belém. É verdade, como ele escreve, que todos nós, os da "época", nos lembramos do que foi a "convivência" política entre estas duas criaturas. Por isso mesmo este texto de Soares não pode ser produto de um qualquer sentimento menor de hipocrisia mas, antes, do que de mais genuíno Soares reserva numa altura da sua vida em que não precisa de fazer prova de coisa alguma a ninguém. «Vai ser feita uma homenagem ao primeiro presidente da República eleito em democracia, Ramalho Eanes. Toda a gente desse tempo sabe que tive algumas divergências com Ramalho Eanes. Mas isso não me impede de o considerar - porque é a verdade - um presidente importante, cumpridor da Constituição, que jurou respeitar e fazer cumprir. E mais: que conseguiu normalizar as Forças Armadas após a Revolução dos Cravos, o Estado de direito e a democracia social e a política de entendimento entre os trabalhadores e os empresários. Participei, como se sabe, activamente na primeira candidatura fazendo campanha em seu favor e fui aliado do chamado Grupo dos Nove, que o apoiou imenso até ao fim e com o qual tanto conspirei nos momentos difíceis, quando era necessário evitar que Portugal se transformasse, como se dizia então, numa espécie de Cuba europeia. Tivemos divergências depois da reeleição do presidente em quem aliás votei. Muitas das pessoas de então, civis e militares, se lembram dessas querelas. Mas isso não exclui que, tantos anos depois, com a crise terrível que hoje se vive - e dado o comportamento do actual Presidente, Cavaco Silva, que não faz caso da Constituição que jurou cumprir e fazer respeitar - deva considerar hoje o primeiro presidente em democracia, Ramalho Eanes, como um exemplo de honestidade à prova de bala e que soube cumprir a Constituição da República. É verdade que nem tudo foram rosas nos seus dois mandatos e que teve, do meu ponto de vista, algumas falhas e maus conselhos. Contudo, para um militar genuíno que veio da guerra colonial directamente para presidente e então sem grande cultura política, havemos de concordar que nunca envergonhou Portugal, antes pelo contrário. Como disse, normalizou as Forças Armadas e enraizou a democracia portuguesa. Por isso o aprecio, respeito e acho oportuna a homenagem que lhe vai ser feita.»
"Contos" da loucura normal
«Michael Noonan, ministro das Finanças do governo irlandês, declarou ontem que receava que o processo negocial do eurogrupo para um programa cautelar para Dublin «acabasse por prejudicar a reputação do país.(...) Tinha medo de poder acabar em Bruxelas, às três da manhã, lá para Dezembro, com um caso de sucesso transformado numa espécie de crise irlandesa.» Perceberam melhor a objectividade desses defensores da zona euro, e as suas opiniões ad-hoc? Gostam do processo? Confiam nesta gente? Gostam de os tratar por tu?»
Medeiros Ferreira, Córtex Frontal
«Ouvido na rádio: não sei quantos funcionários públicos "escapam" aos cortes, porque ganham entre 600 (proposta inicial) e 675 (proposta final). "Escapam"? Pois é, é nas palavrinhas que se transmite muito da ideologia do poder. O verbo "escapam" indicia que, ao terem sido isentos dos cortes previstos, ou estão a gerar uma injustiça ou a fugir, a "escapar", a uma obrigação qualquer (como se "esacapassem" aos impostos ou da prisão.) É assim que se gera a normalidade "equitativa" das "poupanças" onde só há anormalidade punitiva dos cortes.»
«Segundo informação que corre no site Forum Cidadania LX no facebook, a CML vai mesmo autorizar a demolição do Odeon. Pouco importa o belo palco, o tecto de madeira do Brasil, a iluminação de neon importada da Alemanha nos anos 30. Tal como a escória mandante nos tem habituado - poupar adjectivos para quê? -, ficará a fachada e o interior receberá um parque de estacionamento, um centro comercial a juntar-se a dúzias de outros - o vergonhoso Paladium ali tão perto - e "serviços", nome de disfarce para escritórios, numa cidade que conta com dezenas de edifícios destinados a esse fim e que se encontram totalmente devolutos.»
Nuno Castelo-Branco, Estado Sentido
«Se Portugal conseguir passar (...) na Suécia, o povo sairá feliz às ruas, a crise económica será esquecida e o Governo estará de parabéns. Mas, se não passar, será mais uma desmonstração da incompetência nacional, ficando o povo português plenamente convencido de que isto não tem solução, e que precisaremos seguramente de um segundo resgate ou até mesmo de um terceiro. Esteja o Governo atento que a sorte do país joga-se afinal é num campo de futebol em Estocolmo.»
18.11.13
A vingança
Estive a tentar decifrar o recibo da pensão e do chamado "subsídio de natal" da minha Mãe, oriundo da CGA, relativo ao corrente mês. Não percebi patavina - imagino que os pensionistas entre os oitenta e os noventa anos de idade ainda menos - a não ser que, só por conta do IRS, há sete (7) alíneas e que, líquido, o dito "subsídio" não chega a cento a cinquenta euros. Uma coisa, todavia, entendi. Este mês de Novembro é o mês da vingança sob a forma do esbulho mais debochado. Como não pode ser exercida directamente sobre o Tribunal Constitucional - que mandou pagar os subsídios aos trabalhadores investidos em funções públicas e respectivos aposentados -, exerce-se sobre estas pessoas que, contrariamente ao maravilhoso dr. Mexia, não podem ir ao parlamento travar conversinhas moles de pé de orelha para manterem os seus contratos com o Estado. O Governo serve assim, brutalmente fria, a sua vingança.
Uma "democracia PSI 20"

«Um assunto urgente levou o presidente executivo da EDP, António Mexia, à Assembleia da República na passada sexta-feira de manhã: as alterações à contribuição sobre o sector energético para 2014, que o Governo entregou na véspera aos deputados da maioria para serem introduzidas no debate na especialidade do Orçamento de Estado. Tendo por base os cálculos iniciais da EDP, os novos critérios do Governo agravam a contribuição da eléctrica portuguesa em 17,9 milhões de euros. Acompanhado pelo presidente da EDP Renováveis, João Manso Neto, Mexia foi apresentar ao líder da bancada do PSD, Luís Montenegro, as objecções para tal aumento. Montenegro confirmou ao PÚBLICO ter sido uma audiência a pedido do gestor.» Por consequência, a partir de agora qualquer contribuinte, pessoa singular ou colectiva, tem o direito de se dirigir "à mais famosa casa de Portugal", a da democracia, para "apresentar objecções" aos sucessivos e imprevistos aumentos de impostos e contribuições. A menos que exista uma uma "democracia PSI 20", com especiais direitos de cidadania, distinta do Estado de direito democrático que é suposto isto ser. E que implica a subordinação do poder económico ao poder político e não o contrário. Qual é a parte que os drs. Mexia e Montenegro não entendem?
«Houve um regresso clandestino do escudo.»
Uma entrevista perspicaz do José Medeiros Ferreira, fora do "registo papagaio loiro" em vigor, sobre nós e a Europa. «O mapa cor-de-rosa é assim: nós temos de ter uma política realista de negociação. Eu nunca teria posto a negociar com a troika um ministro como Vítor Gaspar, saído da dogmática do BCE. É um colonizado, viu a revelação, soube a catequese, já estava com o lacinho da comunhão. Interiorizou aquilo até ter percebido que estava errado, como escreveu na carta de demissão. Um bom negociador seria o ministro da Saúde, Paulo Macedo. Ou uma pessoa como Bagão Félix (...). Paulo Portas não é um bom negociador, quer é chegar à conferência de imprensa e dizer umas coisas... O facto de ele ter recuado na demissão de MNE retirou-lhe toda a credibilidade. [Mas ele recuou e avançou]. Não avançou nada, ficou sem aparelho. Uma pessoa que é ministro dos Negócios Estrangeiros, que tem um aparelho no Palácio das Necessidades que é um dos melhores corpos do Estado em Portugal, vai ficar pendurado no palácio das Laranjeiras sem um aparelho próprio? Está tudo dito sobre a capacidade negocial que vai ter com a troika. Pode fazer chantagem... Mas como já fez uma vez, com as "linhas vermelhas", e recuou... Quando [a troika] o viu, lá perceberam logo que ele é um franguito, vai dar para assar durante um certo tempo (...) [Estamos preparados para negociar um bom programa cautelar?] Não, é por isso que defendo uma mudança de Governo. E a negociação devia acontecer depois de eleições. [Já podíamos ter tido eleições.] Esse impasse deve-se inteiramente ao professor Cavaco Silva, que estimou mal os tempos para a negociação portuguesa. Achou que isto ia lá com este Governo, o que é um erro de estimativa que lhe pode ser fatal e para Portugal também. Este Governo já não tem capacidade negocial, anda a reboque de tudo (...) Neste momento, temos de ser grandes negociadores dentro da Europa e ter algumas propostas. E ter uma política externa virada para as nossas alternativas, dos EUA à China, ao Brasil e a Angola. [Isso não está a ser feito?] Está, à nossa maneira, uma maneira ad hoc e com muitos ruídos e atrapalhações pelo meio. [Não andamos a confundir política externa com um caixeiro-viajante?] A política externa tornou-se um bocadinho isso. Eu sou um empirista. Tenho um certo receio de coisas como a exploração da plataforma continental [extensão submarina do continente europeu quanto à qual Portugal está a negociar direitos nas Nações Unidas]. Sou a favor, mas desconfio de que nos vamos perder outra vez num oceano de nada, com muita retórica. É isso que nos desvia. [E dentro da Europa?] Temos de ter um parceiro forte, que me permita estar à vontade com a Espanha, mas que esteja um bocadinho mais longe e seja mais forte. Os EUA, a Grã-Bretanha, se fosse mais pró-europeia, a França, se existisse. [Disse que não imagina Portugal a sair sozinho do euro. E se fossem vários países a sair ao mesmo tempo?] Nessa altura, Portugal era capaz de ser amparado para não sair. [Mas o caminho continua a ser estar no euro?] Eu acho que nós, neste momento, temos duas moedas. Houve um regresso clandestino do escudo. Temos é de criar condições para que a zona euro seja uma zona de crescimento. Se isso for feito, vale a pena continuar. Se não for feito, significa que as consequências da saída e as consequências da manutenção serão uma questão da oportunidade. [Que Europa vai sair desta crise?] Durante uns tempos, vamos viver numa União Europeia residual. Depois, logo se vê. Se resolverem a crise do euro, dá um passo em frente. Se ficar assim-assim, ela estagna.»
16.11.13
Entre as Berlengas e Marrocos?
Como escreve o João Pereira Coutinho no Correio da Manhã, o anúncio pela Irlando de que vai prescindir de "programa cautelar" gelou literalmente o regime, desde o drs. Passos e Seguro ao Doutor Cavaco. Até agora o tableau de bord do "ajustamento" oscilava entre o mais longe possível da Grécia e o mais próximo possível da Irlanda. Porque o "ponto de referência", para depois de Junho de 2014 nas palavras do Governo, era, quando muito, o proto "programa cautelar" irlandês. Sem isto, entrámos num "ponto de solidão" para o que quer que venha a passar-se nesse final da próxima primavera. O que obriga a "europeizar" mais a nossa fraca prestação política num espaço em crise e em transe - na economia, no "social", na moeda. Até porque perdemos na comparação com a Irlanda: não temos "almofadas" de 25 mil milhões de euros, não temos aquelas taxas de juros em sede de financiamento autónomo nos mercados financeiros e, sobretudo, não temos elites à altura dos desafios. Basta atentar na reacção do regime sustentada no muito português "logo se vê" à mistura com um desejo mimético pueril que todos sabemos ser inverosímil. O orçamento de 2014, à falta de outra coisa, é o melhor espelho dessa atrapalhação. O que este pretende atingir para o grand final do "programa de ajustamento", em matéria de despesa pública, a Irlanda resolveu logo no início do seu programa, de uma vez só, e com o famoso "consenso" laboral e partidário. Não é dois anos depois, após o irresponsável amuo de Verão do dr. Portas e com uma austeridade a mudar todos os dias, que se pode esperar por coisa parecida na paróquia por mais que o Doutor Cavaco se esprema. Dublin está perto de Londres, e vice-versa, o que explica boa parte da "história". E nós, onde é que estamos? Entre as Berlengas e Marrocos?
15.11.13
E assim sucessivamente
Também me parece óbvio que João César Monteiro mandaria esta gente toda para os mais obscuros dos lugares. "E assim sucessivamente". No entanto, num acesso do mais elementar bom senso, o prof. Poiares Maduro "percebeu". Oxalá esta clarividência o acompanhasse, por exemplo, no dossiê RTP em que não dá uma para a caixa.
Foto: Luís Miguel Cintra em Recordações da Casa Amarela de João César Monteiro, de 1989
Não os conheciam?
Há pessoas e coisas que essas pessoas fazem, ou deixam de fazer, que são autotélicas. Alguns crédulos e porventura bem intencionados, mas mal informados, deputados do PSD pretendiam que o orçamento de 2014 não se dedicasse quase exclusivamente a martirizar, pelos cortes (permanentes, vá lá, já está na hora adulta de o assumir) e pelo fisco, as pessoas e "afligisse", mesmo que moderadamente, por exemplo as PPP's e as empresas de telecomunicações. Mas uma vaca sagrada é uma vaca sagrada para toda a vida. E o Governo, o regime, não consegue deixar de exibir o seu liberalíssimo temor reverencial por esta gente que, de certa maneira, alguns dos seus membros veneram por razões variadas que não vale a pena explicar pelo inefável autotelismo delas. «Foi o próprio Governo que travou a medida. Além da oposição das Finanças, os deputados do PSD também se depararam com a resistência do Ministério da Economia, tutelado por António Pires de Lima, e do parceiro de coligação, o CDS. E, por isso, a ideia não deverá chegar a nascer, o que está a causar alguma frustração dentro do partido.» Não os conheciam?
14.11.13
«Longtemps, je me suis couché de bonne heure»
A nebulosa
Para parabenizar as duas décimas do crescimento do PIB no último trimestre surgiram três ministros. A procura interna - no querido Verão - terá ajudado a isto. De resto, o senhor vice e o seu mais directo ajudante, o milagreiro dr. Lima, não perderam tempo a fazer disto um foguetório comicieiro felizmente moderado pelo bom senso e pelo realismo de Marques Guedes. Aliás, em plena discussão do orçamento para 2014, é o comportamento político mais razoável por parte de Governo e, dentro deste, dos ministros do PSD. Porque, na verdade, o orçamento coloca os cabelos em pé a qualquer economia. Quanto mais a uma economia desgraçada como a nossa que tem sido persistentemente marcada por uma baixíssima taxa de poupança interna que está, no essencial, na base dos "ciclos" económicos e financeiros do século passado e dos primeiros treze anos deste. A dita dupla também insiste em dividir o país entre o que já terá realizado o "ajustamento" (os "privados") e os outros, os "públicos" que, por sinal, andam pelo menos há três anos a ser "ajustados" sem um murmúrio. Como se o "ajustamento" austeritário, sobretudo a partir de Janeiro, não tocasse a todos, e por muitos anos e bons, como já foi certificado por quem de direito no Governo. Em suma, tudo o que sirva para esquecer a "reforma" do guiãozinho, serve àquelas extraordinárias pessoas. Poiares Maduro e Pedro Lomba foram substituídos na "comunicação" e na "coordenação" pela dupla da economia, o coordenador e o coordenado. A nebulosa, porém, apesar de mais apurada é a mesma.
Adenda: Como escreveu o Carlos Vargas no Facebook, «o PIB português do terceiro trimestre de 2013 (Julho a Setembro) foi 1 por cento inferior ao do mesmo período de 2012. Por que é que ninguém deu esta notícia ?»
13.11.13
O homem que iluminou o pântano

12.11.13
Nada de nada
O dr. Lima "exige" a disciplina "emprendedorismo" ministrada aos meninos e meninas ainda de bibe. O prof. Crato sonha com um ensino superior com cursos "curtinhos" e pratica a destruição metódica da escola pública. No meio disto, o referido dr.Lima vislumbra uma "viragem" económica, mesmo sem "números mágicos" como notou o senhor primeiro-ministro naquele seu português famosamente original. Poiares Maduro, da mão dada com o notabilíssimo dr. Ponte, arranjou uma guerra desnecessária com os operadores privados de televisão à conta de uma megalomania inexplicável sobre a RTP. Chegámos à fase do total improviso organizado que teve no recente episódio indiano do dr. Machete o seu apogeu "bollywoodesco". Aqui chegados só já podemos esperar pelo decurso do tempo. E nada de nada destas pobres pessoas.
Leitura obrigatória

Os ministros e outros dignitários, quando se deslocam, deviam obrigatoriamente levar na pasta o livro de Medeiros Ferreira. Ajudava-os a, por exemplo, evitar inscrever pantomimices em "guiões" dignos de programitas escolares de partido, limitar as baboseiras aviadas a torto e a direito, em qualquer parte do mundo ou na paróquia parlamentar, sobre "o que se vai passar" quando não conseguem dar conta do que se está a passar e, sobretudo, a tentar perceber o que é que andamos a fazer por cá e na Europa. Nesta, normalmente, os ditos dignitários fazem figura de corpo presente ou, quando vão mais longe, como a Washington para "fazer peito", ninguém verdadeiramente os leva a sério. Aliás, não se pode levar a sério quem recorre sistematicamente a uma semântica infantil (estilo o qualificativo "fantástico", seguido de ponto de exclamação, em referência às exportações) para descrever os "progressos" da imensa fantasia em que isto tudo se tornou. A cibernética governativa é, cada vez mais, orientada como antigamente se dirigia uma redacção de jornal do que em função de um qualquer desígnio sufragado pelo "povo" e representado pela legitimidade e pela autoridade de um chefe de Governo: quantos chefes de Governo não caberão neste Governo, de Portugal à Índia, dos jazigos do Caldas aos jazigos da Lapa? Regressemos à lucidez erudita de Medeiros Ferreira e deixemos o raquitismo de espírito político entregue a si próprio e à felicidade inteiramente privada do Senhor Presidente da República. «A segurança de Portugal, como de outros países europeus, passa por um entendimento internacional sobre as "dívidas soberanas". Caso contrário assistiremos ao desmantelamento dos serviços públicos do Estado desde a Península Ibérica à Península Balcânica. Até o relatório da OCDE sobre Portugal [de 2013], na sua III Parte, chama a atenção para este risco, propondo a robustez e a capacidade efectiva dos serviços públicos (...). O maior perigo que espreita a República Portuguesa é mesmo o da alienação da sua vontade de participar activamente na política internacional, no exacto momento em que os mecanismos próprios do sistema financeiro mundial e do funcionamento actual da UE tendem a anular os interesses de países como Portugal. Ora, a sociedade portuguesa só pode vencer esse desafio com uma política externa própria e activa. E sem novas ilusões sobre qualquer Mapa Cor-de-Rosa que o prolongamento das dificuldades tem tendência a suscitar.»
11.11.13
A paciência tem limites
A título meramente facultativo, dispus-me a preencher uma candidatura electrónica a um cargo dirigente na administração pública no site da Cresap. Desisti a meio. Para além de me parecer estar a escrever a mesma coisa vezes sem conta, fui-me apercebendo que mais de um quarto de século ao serviço do Estado - que inclui a passagem pela tropa, três inspecções-gerais, uma "autoridade", um "serviço secreto", um cargo de direcção superior (dos tais que a Cresap agora avalia), dois cargos de direcção intermédia e um trabalho de "terreno" na Guatemala e em El Salvador, com o Inspector Geral da Administração Interna, para a Comissão Europeia - não pode "pesar" suficientemente quando olho para a ocupação de determinadas posições de direcção por "biografias" que não faço a menor ideia como é que "encaixaram" naquela parafernália de questões, justificações, cruzinhas e auto-avaliações. Não me refiro apenas à idade de algumas dessas pessoas, o que seria manifestamente reaccionário e politicamente incorrecto. É, sobretudo, a "experiência profissional" para usar um termo recorrente nos vários "passos" da candidatura e, em alguns casos, da ligação desta com o decurso do tempo biológico. Em suma, não tenho de "provar" nada a ninguém a não ser perante mim mesmo. Prefiro permanecer "bicho da terra", "tão pequeno" como o de Camões, a sujeitar-me ao insujeitável apropriado para neófitos e outras espécies em vias rápidas de "progressão". Não admira, por consequência, que alguns dirigentes presentemente em funções, com "experiência", tempo ou as duas coisas simultaneamente, não se disponham a estes "questionários" por mais "independentes" e "isentos" que eles sejam. E que optem por regressar aos lugares de origem ou a casa. A paciência, e não outras coisas mais em voga e comezinhas, sempre tem os seus limites.
O somador negativo
Durante o fim de semana, o PSD de Lisboa escolheu os seus chefes. Pedro Rodrigues, um tipo civilizado com quem me cruzei durante pouco tempo enquanto dirigiu o gabinete de Poiares Maduro, perdeu para o incumbente Pinto Luz que não conheço de lado algum. Saí do PSD em 2004 e o último dirigente da distrital de Lisboa de que me recordo é o dr. Preto, agora, julgo, afastado das "lides" partidárias. A avaliar pelo que li, Pinto Luz (e Mauro Xavier da "concelhia", igualmente reeleito) entronca naquilo que talvez já possamos apelidar de "tralha passista". Basta atentar nessa egrégia figura política que é o derrotado Pedro Pinto à câmara de Sintra, e vice-presidente de Passos, que ornamenta a presidência da assembleia geral da distrital à qual também concorria Nuno Morais Sarmento. Em declarações a um jornal, Pinto Luz recomeça na pior das aparelhísticas maneiras. Afirma que o seu propósito é "adicionar" para logo a seguir dizer esta coisa extraordinária: "não expulsar militantes (aqueles que integraram e apoiaram outras listas nas autárquicas) seria uma injustiça". Então o homem quer "adicionar" expulsando? Miguel Relvas: mesmo à distância, ponha lá um pouco de ordem nesta azougada cabeça mais papista (ou "passista") que o papa.
10.11.13
Cada um tem o que merece
Lamentavelmente o dr. Rui Machete, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, não pára de dar sinais de que se enganou na reflexão de três horas que o conduziu ao Governo. Vaidade? Nunca se chegará a saber. O seu desfasamento permanente, a sua delicada incontinência verbal, a sua imagem de quem se questiona logo de manhã, ao espelho, sobre "o que é que eu estou aqui á fazer?", já se tornaram uma verdadeira "imagem de marca". Agora, dos confins da Índia, Machete recuperou a "ameaça" de um segundo resgate após um breve exercício retórico em torno de taxas de juro. Passos Coelho não tem tido sorte com os seus ministros de Estado. Mas, na verdade, cada um tem o que merece.
Já enjoa
Li ontem no Expresso que o Senhor PR insiste num "acordo" que "salve" não necessariamente o país mas o orçamento para 2014. Começou por ser o "compromisso de salvação nacional" de Julho. Também, de vez em quando, se chama "consenso" e, agora, é "acordo". Não percebo a insistência do Presidente num "acordo" antes de eleições a não ser pelo terror que lhe inspira os dias a seguir a Junho de 2014, o mesmo seguramente que o levou a abdicar de convocar eleições legislativas conjuntas com as autárquicas e em empossar o embuste do "novo ciclo". Para aprovar o orçamento - a única "reforma do Estado" no terreno e não em Marte - basta a maioria. Se o Doutor Cavaco pretende outra coisa, sabe muito bem, desde 1985 pelo menos, como é que se faz. É que tanto "compromisso", "consenso" ou "acordo" vazios já enjoa.
Álvaro Cunhal 1913-2013
Há um século nascia Álvaro Cunhal. Quando visitei a exposição que o PCP organizou para esta comemoração, retive as suas últimas disposições, datadas de Dezembro de 1999, que resumem uma vida nunca derrotada nos "ideais" mas inevitavelmente pela história: «a todos desejo que, vida fora, realizem os seus sonhos». Cunhal confunde-se com a "biografia" política do país, no século XX, à semelhança de Salazar. Cunhal "aceitou" a democracia e fez do PC o partido mais respeitador dos seus rituais, das suas normas, das suas defesas: a derradeira "conquista" é sempre a melhor da que dantes não prestava. O "colectivo" foi sempre a sua maneira de dizer "eu" embora, aqui ou ali, sobretudo nas derradeiras entrevistas, deixasse transparecer o homem.. "Despersonalizo, portanto...", diria a Maria João Avillez. "Eu não adivinho, batalho", "eu não alimento nada, tenho apenas a minha maneira de viver". Cunhal poderá ter-se tornado incompreensível à luz dos "valores" vigentes na Europa e no mundo. Este "modelo político" representa tudo o que Cunhal intelectual e intimamente desprezava. Não aludo a questões puramente ideológicas mas a coisas mais profundas que se prendem com a própria "natureza" humana. Cunhal era demasiado elegante para poder suportar a ascensão planetária da vulgaridade pequeno-burguesa sem um sorriso malicioso e, sem dúvida, amargo como revela Avillez no livro Conversas com Álvaro Cunhal. «Era o último encontro, mas eu não sabia. A derradeira vez que eu via aquele homem doente («eu estou a ver muito mal, não vale a pena mostrar-me isso, não vejo, não consigo ver...») que durante quase trinta anos me fez sempre partir com precipitação e os sentidos alerta para um segundo andar da avenida António de Serpa e, depois, para um gabinete descarnado e nu da rua Soeiro Pereira Gomes. Um homem envelhecido que agora sorria mais tristemente, agarrado à sua "convicção" («sim, a convicção foi e é, fundamentalmente, o segredo da resistência e dos combates».) E se eu disser a palavra "derrota"?, perguntei-lhe subitamente nesse dia, mas quase a medo, diante do gravador ainda ligado (e detestando-me por selar aquela longa conversa com uma única palavra que, afinal, lhe cabia por inteiro): Uma derrota ... "amarga", Dr. Cunhal? «Amarga é uma palavra muito pequenina para o que foi.» E foi. Aquando da sua chegada triunfal ao aeroporto de Lisboa, era, ainda, um mistério. As primeiras imagens e as primeiras palavras recortavam todavia a figura definitiva que a "revolução" e a democracia iriam consagrar. O porte aristocrático, o olhar da “noite do mundo”, o discurso cortante, a mordacidade evasiva, a concentração obsessiva, o messianismo do “colectivo”, tudo isso emergiu imediatamente. Era o único que sabia perfeitamente ao que vinha. E no seu “sentido único”, Cunhal foi de uma verticalidade rara. E, por aí, um homem raro. A sua visão do “pacote” da democracia era radicalmente diferente daquele que nós, par delicatesse, aceitamos. Respeito a memória de Álvaro Cunhal cem anos depois do seu nascimento. Tive familiares que estiveram detidos em Peniche ao mesmo tempo que o “camarada Duarte”, um dos seus pseudónimos na clandestinidade. Tive e tenho familiares que foram sempre comunistas. Eu parti muito cedo, e definitivamente, numa outra direcção. Faltava-me tudo o que eles possuiam: acreditar no "homem" e na sua "salvação doutrinária", a disciplina férrea, a "felicidade pela coerência" e, sobretudo, a “história” de um "Portugal dos Grandes" entretanto desaparecido.
Foto: Público
9.11.13
As "bolsas de terras" e as castanhas
Vi numa peça do telejornal da sic a ministra da agricultura numa "apanha de castanhas", muito contente da vida. Até levou a família. Mas, no que interessa, a dra. Cristas não andará mais a "apanhar bonés"?
O Papa no seu labirinto

Desde a renúncia de Bento XVI tenho procurado não escrever sobre a Igreja e o seu "futuro". A escolha do bispo de Buenos Aires não me entusiasmou precisamente porque cedo começou a "entusiasmar" gente a mais. Nunca, como católico, entendi a Igreja como qualquer coisa fashion ou trendy. Ainda cardeal, Ratzinger já advertia a Igreja para se habituar a viver em minoria. Nas suas viagens apostólicas, rodeado de multidões, Bento XVI jamais cedeu nesta premissa. A Igreja - e com ela o Cristianismo católico - não seria a instituição milenar que sobreviveu às maiores contrariedades e perseguições se tivesse claudicado perante as contingências. Ela acolhe os pecadores - os fiéis são fundamentalmente pecadores porque são pessoas com os defeitos e as qualidades de todo o ser humano o qual deve ser sempre "analisado" com cepticismo - no perdão, na caridade e na fé. Não é por acaso que na Oração se solicita ao Senhor que não olhe aos pecados mas "à Fé da (Vossa) Igreja". Francisco tem feito os possíveis para "não olhar" e "agradar" mas, quando chegar ao fim, estará no mesmo lugar. O sucessor de Pedro não faz proselitismo, ou pratica o populismo, como repetidamente explicou Bento XVI. «Em princípio, Francisco, como, antes dele, João Paulo II e Bento XVI, pode escolher um de dois caminhos. Pode escolher o caminho do compromisso, na esperança de reconduzir à Igreja alguns dos milhões que se afastaram ou estão à sua margem. Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao Anglicanismo. O segundo caminho para o Papa Francisco é ficar em público pela retórica e, na substância, defender o que está. Esta estratégia, além de lhe ser pessoalmente nociva, aumentaria a desconfiança geral dos fiéis pela Igreja como hipócrita e fraudulenta. Apesar da sua imensa popularidade, e mesmo por causa dela, Francisco acabou numa velha armadilha, em que esbraceja em vão.» (Vasco Pulido Valente, Público). E até o "inquérito" que mandou distribuir pelas paróquias de todo o mundo - precisamente sobre a "mundanidade" - «não o ajudará (idem).»
Uma educação medíocre

Os jornais divulgam este sábado os rankings das escolas secundárias e as médias dos exames nacionais no secundário. As escolas públicas não saem particularmente beneficiadas do exercício. E os distritos do país, todos juntos, registam uma média geral negativa naqueles exames. Isto traduz o que já se sabia: ao défice de que se alimenta a língua de pau vigente junta-se outro, mais profundo e mais sério, que respeita à qualificação da pátria. Os "cheques" e os premiozinhos de circunstância não conseguem colmatar esta questão mais vasta da qualificação nacional que ultrapassa a contingência do voluntarismo mais ou menos politicamente néscio deste ou daquela cujo lastro encontra no irrelevante prof. Crato a sua estátua do comendador. É um mal nacional que esteve sempre presente nas legiões de "intelectuais" que "pensaram" no assunto desde, para não irmos mais longe, Verney. Resta-nos melancolicamente reler o que essa gente foi debitando e esquecer a léria das "gerações mais bem qualificadas" do que outras. Há um "nervo" que não muda. Estes resultados limitam-se a revelar mais uma vez a facilidade com que esse "nerveo" se "infecta". Não saímos disto.
8.11.13
A "reactividade pró-activa"

A RTP do académico Maduro
«A RTP, estação oficial, oferece agora de madrugada (à volta das duas da manhã), ao pequeno grupo dos seus fiéis, pornografia light e um pouco mais, talvez para aumentar uma audiência em risco de extinção. Desde segunda-feira, passou um documentário sobre o Crazy Horse, para quem está particularmente interessado na anatomia feminina e se diverte com o espectáculo, presumivelmente erótico, de um travesti. E passou também dois filmes do artista espanhol Bigas Luna (ou do Panamá, da Costa Rica ou do Peru, é indiferente), em que o light já anda perto do hard e se mostram, dentro da variedade possível, e com grande devoção e um inusitado brilho, exercícios sexuais que certamente contribuem para a educação do povo boçal e a alegria do país. Não sou pudibundo, nem tenho nada contra aqueles que gostam ou precisam de pornografia, light ou hard, para o seu descanso. Mas não deixa de me intrigar a razão por que a RTP resolveu escolher este audacioso caminho. Por equívoco? Por um acaso feliz no meio da trapalhada vigente? Por uma subtil estratégia de programação? Ou por simples zelo do princípio constitucional da igualdade, a benefício das velhinhas de Trás-os-Montes, sem computador, que nunca foram a Paris, ao Meco ou às praias do Algarve? Por mais que pense não consigo decidir. Nem, de resto, a própria Igreja Católica Apostólica Romana, que sob a influência do Papa Francisco leva hoje estas coisas com evangélica tolerância. Só que desgraçadamente, em tempo de crise, as dúvidas não acabam aqui. Qualquer cidadão que paga a RTP com a conta da electricidade ou com impostos, a pretexto de que a RTP é um serviço público indispensável, perguntará com certeza se a pornografia light ou hard é um serviço público. O ministro Poiares Maduro já declarou que o futebol (no mínimo, um jogo por semana) era um direito imprescritível dos portugueses. A súbita aparição da pornografia a horas recatadas vem da mesma generosa visão? E, se vem, a que outros campos se alarga ela? Imagino muitos, mas não quero limitar a liberdade criativa da RTP, e menos a do sr. Maduro. De qualquer maneira, a pergunta essencial pede resposta: que espécie de argumentos justificam a promoção (admito que merecida) da pornografia a serviço público? Nós, que a sustentamos, queremos perceber.»
Vasco Pulido Valente, Público
Foto: globalimagens.pt
Adenda: A "RTP Ponte-Maduro" do "liberalismo" em vigor vista pelos operadores privados.
7.11.13
Zero vírgula qualquer coisa

A vírgula do título separa a percentagem reservada para a Cultura, no orçamento de Estado para 2014, da unidade. O "qualquer coisa" é uma imagem política sugerida pelo senhor primeiro-ministro a propósito do pós-troika de Junho do mesmo ano, "programa cautelar" ou "qualquer coisa". Tudo entrou subitamente neste registo imaterial da "qualquer coisa". A pessoa que está sentada provisoriamente na Ajuda bem se esforçou: «vamos fazer um esforço para garantir que a missão de serviço público não será afectada.» Cá está, "fazer um esforço"."Qualquer coisa". E acrescentou: "tal como as outras áreas, a cultura não está fora das dificuldades financeiras. Este não é o orçamento que queríamos, nem o desejável, mas o possível." Ou seja, qualquer coisinha. Porquê? Porque a Cultura de há muito que foi aprisionada pela mercearia e pela falaciosa "gestão flexível" que é a declinação politicamente correcta para limitar cada vez mais o papel do Estado relativamente às suas responsabilidades (ou co-responsabilidades) em matéria de equipamentos culturais, de preservação patrimonial material e imaterial e de calibragem sensata dos apoios às chamadas artes performativas. Vamos praticamente em treze anos disto. Nos últimos, então, o "financês" demonizou tudo, e as quatro horas e meia que o responsável político pela Cultura passou no parlamento são a demonstração disso mesmo, da sua concludente impotência política e da ausência de um desígnio. Como escreve Manuel Maria Carrilho, «alimenta-se um permanente fetichismo dos números, como se em cada centésima se decidisse o destino do mundo, um fetichismo mágico que aparece como a única base de uma cada vez mais pobre compreensão da sociedade e do mundo. Precisamos de lentes novas que olhem em primeiro lugar para o bem da sociedade e para o bem comum, e depois mobilizem todas as disciplinas e saberes disponíveis (entre os quais estará, claro, a economia) como instrumentos dos objectivos a atingir. Precisamos de lentes novas que permitam compreender que, em si, o mercado é na verdade indiferente à justiça, à igualdade ou ao progresso, que o que determina tudo é a política - isto é, a vontade expressa dos cidadãos -, que tem sempre de o enquadrar e regulamentar.» Sem a Cultura no coração da política não vamos, como de qualquer forma não iremos, a lado algum.



