30.9.14

Um regime em farrapos


 


Depois de passear o cão - e sabe Deus como os cães não têm parado de deixar "prendinhas" nas ruas de Lisboa para parabenizar o "seu" presidente de câmara de entrada por saída! - vi um bocadinho do programa da Fátima Campos Ferreira (um dos poucos bons encontros de vida nos meus últimos três anos e um ser humano de mão cheia cuja generosidade não esqueço depois de tantas águas turvas por que passou neste blogue). O regime sentava-se no palco, do Bloco ao CDS ou do CDS ao Bloco consoante a perspectiva. O PS da "mudança" e do "futuro" enviou Jorge Lacão que dispensa apresentações: é homem para qualquer estação socialista e que levou dois singelos minutos a abandonar Seguro mal enxergou D. Sebastião a curvar a Praça do Município em Maio último. Se é com estas peças museológicas que Costa pensa convencer o país, está bem enganado. A coligação enviou a dupla Montenegro - Melo que não se distingue especialmente pela eloquência. O PC tinha o jovem líder parlamentar Oliveira e o Bloco o bicéfalo Semedo. Na plateia sentavam-se os "novos partidos". Entrevi Mendo Henriques, Rui Tavares e, sobretudo, Eurico de Figueiredo, um dos fundadores do PS e exilado suiço ao lado do saudoso Medeiros Ferreira, de António Barreto e de Ana Benavente. Parece que o Eurico é agora co-fundador do partidinho de Marinho e Pinto, um demagogo com possibilidades de florescer como um cogumelo venenoso. Não ouvi nada mas uma coisa é certa. Em 2015, a fragmentação que começou nas europeias vai acentuar-se e impedir maiorias absolutas de partido único ou de coligação única. A "maioria silenciosa" não votou nessas europeias nem nas "primárias" do PS. E não existe a menor garantia de que esteja disposta a avalizar o regime nas próximas legislativas por forma a confirmar o "sistema" o que obrigará uma data de gente a dizer e a fazer o contrário do que agora proclama. Só um candidato a Belém credível e com um projecto de ruptura presidencialista poderia porventura "mobilizar Portugal". O resto é treta da mais pura. Velha ou nova, falsa-nova ou velhíssima e dissimulada - treta.

29.9.14

Sem fundo


 


Finalmente uma "imagem" realista dos nossos estudantes universitários, os pseudo "mais bem preparados de sempre" na língua de pau do regime e que o dr. Costa, na sua condição de Camarlengo redentor dos destinos nacionais, imagina que vai reter por cá. «Quase metade dos universitários (46%) que participaram no estudo Geração 2020 - O Futuro de Portugal aos olhos dos Universitários acredita que nessa altura vai estar a viver fora de Portugal.» Bom senso da rapaziada. Quem, podendo sair, quer ficar nesta pocilga instintual sem fundo?

28.9.14

Back to basics

Pouco depois das vinte horas, na RTP, o primeiro socialista a celebrar a anunciada vitória de A. Costa nas "primárias" do PS foi José Sócrates, antecipando-se ao putativo vencedor. Assim sendo, é o regresso de um "clássico" - que nunca deixou de estar presente - ao "clássico" da política portuguesa das últimas décadas: supremacia de um "sistema" que é transversal a todo o regime, nas suas manifestações políticas, económicas, sociais, culturais e, sobretudo, comunicacionais para seguir os termos canónicos. Não faço a menor ideia, nem me interessa, aliás, como é que A. Costa vai conviver com o "sistema" interno e externo que o apoiou e que não deixará de reclamar oportunamente os seus direitos. Mas é disso, sobretudo, que vai depender ele "crescer" dos militantes e dos simpatizantes para o país e obter, não a maioria absoluta (nem ele nem ninguém lá vai), mas a proeminência da praxe para mandar nisto. Lamento que uma pessoa decente e séria como o António José Seguro - mais uma - saia de cena. Mas, como Jorge de Sena pergunta na epígrafe deste blogue, «se as pessoas têm a vocação de criado, se as pessoas têm a vocação de escriba, por que é que não hão-de ser criados e não hão-de ser escribas?»


 


Adenda: Escrevi isto antes do A. J. Seguro falar. Digno e sério, como referi, foi embora sem mais. Fez bem. A "mesmice" aos mesmos rapidamente e em força.


 

27.9.14

Visto do lado de cá


 


«O episódio da “Tecnoforma”, qualquer que seja o seu fim, impedirá Passos Coelho de readquirir o respeito do cidadão comum e, por isso, em última análise, a sua presente autoridade sobre o partido. Se o PSD perder as legislativas de 2015, ficará por força à mercê das luzes de meia dúzia de autarcas, que, além de não se interessarem pelo país, vêem tudo pela fresta dos seus negócios locais. Do lado do PS, a campanha das primárias não serviu, como Seguro julga, para “democratizar” a eleição de um putativo chefe, serviu principalmente para nos mostrar o partido por dentro; o ódio fraternal que é a força motora daquela agremiação de ressentimentos. O partido não ganhará a famigerada “maioria absoluta”, que por aí apregoa, e o seu destino não irá além de uma coligação impotente, que, com ou sem o PSD, consumará o desastre.» Isto é Vasco Pulido Valente no Público. E isto é Donna Tartt no excelente O Pintassilgo, e vai dar sensivelmente ao mesmo visto do lado de cá. «Eu parava a meio de um passo no passeio, pasmado. De alguma forma, o presente tinha-se transformado num lugar mais pequeno e muito menos interessante.»

26.9.14

Ruídos e dúvida


 


O primeiro-ministro recorreu à pior das "técnicas" de resposta dita factual por causa de uma coisa dos seus idos de deputado, a "técnica da meia-dose": "não, mas". Acrescentou umas "indirectas" à Câmara, como ele aprecia chamar ao Parlamento, e a colegas da política que aparentemente recorrem, ou terão recorrido, a familiares para a guarda de proventos. Não sei se ele, e outros antes dele ou depois dele, é "agente" ou "vítima" de um sistema nado e apascentado pelo regime. Refiro-me à "exclusividade" cuja clareza semântica deve ser evidente até para qualquer pessoa com o antigo ciclo preparatório. Um regime que permite a ambiguidade no tratamento da "exclusividade" no exercício de funções políticas representativas, é um regime que sujeita os seus protagonistas às figuras tristes que eles por vezes têm de fazer. A de Passos Coelho - que, nos termos em que decorreu, já devia e podia ter tido lugar há dois anos, há dois meses, há duas semanas ou há dois dias - não o livra de ruídos e da dúvida. Na dúvida, o Direito não condena. Na política, a dúvida persiste.

25.9.14

O regresso de Zorro


 


Mário Soares regressou de um merecido descanso e de um ainda mais sensato silêncio para passar, com a gentileza que sempre se lhe reconheceu, atestados de ignorância e de idiotia (ao governo) e para exigir demissões sumárias (do governo e de Seguro). O dr. Soares, como lembrou Pulido Valente noutra ocasião, "possui a cabeça de um governador civil do Sr. Dr. Afonso Costa" (agora, actualizo livremente, do Sr. Dr. António Costa) e "depois de Jaurès não aprendeu nada, nem esqueceu nada. Na realidade, "há quase um século que não lhe entra uma ideia na cabeça, como coisa distinta das trivialidades piedosas para uso oratório, que ele adapta à variável inclinação dos tempos". E que não atrapalham nem o governo - ao governo basta as suas próprias trapalhadas e a frieza suicidária de Passos Coelho - nem Seguro que está por conta da realidade. Outra coisa que Soares, nestes momentos de banda desenhada, impede de entrar na sua gloriosa imaginação de "dono disto tudo".

24.9.14

Política à portuguesa


 


Ontem foi um dia mau para a "política à portuguesa". O chefe do governo entrou no fatal "circuito das suspeitas" (é uma "lateral" praticamente incontornável à do "circuito da carne assada") do qual - já se percebeu - não o vão deixar sair facilmente. A ministra da justiça, numa prestação menor no parlamento, "reduziu" a sua gloriosa "reforma" a uma precária e velhinha folha Excel quando a Justiça constitui um dos pilares aferidores da qualidade da vida de uma democracia liberal. E os dois candidatos às primárias do PS protagonizaram o pior, no sentido de pequenino, dos três debates televisivos o que, com certeza, afastará - fora o resto - muitos dos potenciais votantes de domingo à semelhança do que já tinha acontecido na escolha para as federações. Qualquer deles vai a caminho de uma vitoriazinha, agora, e de outra que tal em 2015. E merecemos melhor?

23.9.14

O "percalço"

Quando passei pelo programa da Fátima Campos Ferreira, na RTP de segunda à noite, deparei com uma pessoa com quem partilhei a única reunião a que assisti, em representação do então ministro da economia, de "coordenação" dita política do governo gerida pelo prof. Poiares Maduro e pelo Pedro Lomba. Nessa altura, a dita pessoa tinha acabado de aterrar (literalmente porque tinha vindo do outro lado do Atlântico) no ministério da justiça para ser chefe de gabinete de Paula Teixeira da Cruz depois da demissão do chefe de gabinete "original" (veio-se a saber depois que este tinha alertado atempadamente para isto a que a ministra chama agora de "percalços" no CITIUS). Entretanto, António Moura - é assim que se chama o cordial diplomata de carreira e a tal pessoa do programa da Fátima - passou a secretário de Estado da justiça e estava no auditório da Champalimaud a dar a cara pelo "percalço". E, presumivelmente, por Teixeira da Cruz. Correu-lhe muito mal. Provavelmente como me teria corrido a mim se estivesse na pele dele. Moura não merecia a provação a que o "dueto" ministra-presidente do instituto que gere o CITIUS o sujeitou. Está num lugar errado. Um "percalço" desnecessário na vida dele.


 


 


Adenda: "Não vou fazer rolar cabeças" antes do CITIUS estar em pleno, afirmou a ministra. Nem parece dela recusar-se a entender que, mais do que técnico, o problema é político. O mau gosto dos termos utilizados roça o das antigas purgas sovieto-chinesas. Mas infelizmente este governo foi-se transformando numa caricatura democrática do pior sovietismo mesmo, ou sobretudo, nos seus acessos liberalóides. E já não sai disto.

22.9.14

Inconsequência


 


O dr. Passos, por enquanto, já se viu livre da "Tecnoforma". Não estava em regime de exclusividade entre 1997 e 1999, como deputado, pelo que podia auferir o que lhe desse, ou lhe dessem, na gana. Do que o dr. Passos não se viu livre, nem vai ver pelos vistos tão cedo, é da inconsequência em que aparentemente o seu governo mergulhou, entalado entre o calendário eleitoral (o seu, o do PSD, o do CDS e não necessariamente por esta ordem) e o presumível "renascimento" do PS em poucos meses seja lá com quem for. Esta semana ainda podem asneirar à vontade porque os drs. Seguro e Costa se encarregam das festividades. Ou pedir mais desculpas. Ou nada que é, de facto, o mais sensato.


 


Adenda: Não diga nada, a sério. Sobretudo não improvise. A dimensão sináptica, tal como nas salsichas, conta.

Um "Ocidente" risível


 


«O Ocidente, desde a América a Portugal (que descobriu um “suspeito” no Algarve), passando pela Austrália e pela França resolveu liquidar, ou pelo menos conter, a guerrilha do Estado Islâmico. Como? Com aviões, drones, helicópteros, satélites de alta resolução; e com a ajuda humanitária e diplomática disponível, incluindo a de países muçulmanos. No meio disto, o que toda a gente se recusa a fazer é usar forças no terreno, como se diz, “de botas no chão”. Mais milhares de mortos em guerras que Bush provocou já não são toleráveis para ninguém, excepto para um Hollande em vias de extinção que resolveu agora fabricar uma popularidade napoleónica. Infelizmente, neste aperto, Obama resolveu seguir o exemplo de Kennedy no Vietname: não mandará “soldados com missões de combate”, longe dele, mas mandará “conselheiros” para treinar o indigenato local. Claro que este esforço americano e europeu tem três defeitos sem remédio. Em primeiro lugar, não há uma língua comum de comando. Em segundo lugar, os “conselheiros” não tardarão a pedir reforços. E, em terceiro lugar, a barbaridade das seitas da região impedirá ainda por muito tempo que se chegue a uma situação estável e consolidada. Os xiitas nunca deixarão que se reconstitua o Iraque e os sunitas nunca viverão em paz sob os xiitas. Nem as dezenas de seitas das várias persuasões do sítio aceitarão o governo de qualquer dos lados. Em pouco tempo, a América estará envolvida no caos que Bush criou, lutando com amigos, protegendo inimigos, misturada em conflitos de tribos e de religiões, de que só um exército a sério a poderá extrair. Mesmo na América o público não consegue perceber o que está a acontecer. O EI decapita jornalistas na internet e na televisão e parece que um caça-bombardeiro trataria expeditivamente do assunto. Nada mais falso. Com boas fotografias de satélite, um caça-bombardeiro é capaz de arrasar uma coluna em marcha durante o dia, mas não é capaz de eliminar uma guerrilha de milhares de homens que não se distinguem da população e que muitas vezes, como na Síria, se refugiam entre cidades, que mudam de mão de hora para hora. O Papa Francisco disse que isto talvez fosse o princípio da III Guerra Mundial. Não acredito. Acredito, com mais frieza, que isto talvez seja o princípio do fim do Ocidente. Portugal, entregue às suas pequenas vaidades, nem sabe que o EI existe.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

20.9.14

Irresponsáveis mas absolvidos

«Toda a gente já sabia, e muito principalmente no ministério e na Procuradoria-Geral da República, que a “plataforma informática” dos tribunais não fora convenientemente preparada para a reforma judicial. E, como não fora, ficaram parados 3,5 milhões de processos. O presidente do Instituto de Gestão Financeira e Equipamento da Justiça “assegurou” a Paula Teixeira da Cruz que as coisas tinham corrido muito bem e estavam prontas para começar. No dia seguinte, de advogados a simples cidadãos, Portugal inteiro constatou que não estavam e o sr. presidente do instituto veio dizer que esse “colapso” era previsível, “mas não havia forma de desenvolver uma plataforma alternativa em tão curto espaço de tempo”. Este aviso manifestamente não se aplicava a ele próprio, nem à ministra Teixeira da Cruz, que desde 2011 trabalhava para esta mudança. Perante esta catástrofe, a senhora resolveu ir à televisão e pedir “desculpa”, como se a “desculpa” a limpasse da irresponsabilidade do passado. Agora, conta que a “plataforma” precisa de ser substituída rapidamente, porque corre o perigo de estoirar de vez. Pedro Passos Coelho não achou necessário correr com a ministra, que lá continua sentada a congeminar asneiras, em prol da Pátria. De resto, o exemplo pegou. Nuno Crato, que tem meses para organizar a colocação de professores, arranjou também ele maneira de provocar um tumulto ou deixar que se provocasse um tumulto por causa de umas “bolsas” de professores que o ministério organizou. A irritação surpreendeu o ministro, mas, seguindo o exemplo da santíssima Teixeira da Cruz, lá apareceu muito lampeiro na televisão, a pedir “desculpa” às suas vítimas e a explicar que a trapalhice era o resultado de uma “fórmula matemática” errada. O dr. Passos também percebeu a terrível angústia do sr. dr. Crato e deixou que ele permanecesse na 5 de Outubro, a ver se consegue aumentar a atávica barafunda da Educação portuguesa. A semana passada o secretário-geral da UGT falou com eloquência do “sentimento de orfandade” dos funcionários do BES, com o recente retiro para o Estoril do dr. Ricardo Salgado, que tanto os protegeu. Há por aí com certeza um arcebispo de Mitilene in partibus ou qualquer outro beato que absolva os portugueses da negligência, da mentira, da irresponsabilidade e da estupidez, como nós gostamos e nos damos bem.»


 


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


 


Adenda: E, à semelhança de Crato na educação, na justiça continua a preferir-se os ajustes directos. Nove milhões de euros deles em apenas 20 dias do mês corrente é praticamente uma "reforma" da própria "reforma". Este final de mandato "passista" vai ser penoso de assistir mas delicioso para lhe perpetrar o que Sena designava por uma "execução capital". Deus não dorme.

Um "verismo" português



Um cartoon vale mais que quatro mil milhões de palavras.

19.9.14

Eu é que sou o presidente da junta

Num lanchinho qualquer por cá, o dr. Horta Osório - que preside, no estrangeiro, a um banco estrangeiro - falou abundantemente sobre o "Novo Banco" e o seu colega Stock da Cunha. Deste afirmou que vinha com "enorme sacrifício pessoal" (sic) e como que lhe ditou a "carta de missão" para as novas funções. Parecia o verdadeiro governador do Banco de Portugal.

A paz dos cemitérios


 


Segundo alguém em Bruxelas, a "Europa" terá "suspirado de alívio" com os resultados do referendo na Escócia. De facto, a derrota dos independentistas representa sobretudo sossego - a paz dos cemitérios como diria o Marquês de Posa, no Don Carlos de Verdi, a Felipe, o "dono" de um império no qual o sol nunca se punha - para a "Europa" funcionária e politicamente inepta em vigor. Os nulos Conselhos Europeus podem continuar a ser nulos, o Parlamento pode continuar a fazer de conta que "fiscaliza" e a Comissão pode, sob a batuta de Juncker, um Barroso ligeiramente mais sofisticado e simpático, continuar a florescer na sua insignificância. O sr. Cameron - que se assustou nos últimos dias antes do referendo e que teve de recorrer aos "dotes" oratórios do criador-sombra do idiota Blair, o sr. Brown - mais dia menos dia terá de fazer a consulta fatal: saber se o seu querido Reino Reunido pretende ficar na "Europa". Ganhou, no fundo, o "sistema" com o qual os media alinharam sem rebuço e com a mesma palonça alegria com que passam a vida a celebrar a sua suposta "independência". Com "vitórias" destas, a "Europa" há-de ir muito longe.

18.9.14

Escola à deriva


 


«A sociedade em que vivemos encontra-se em acelerado processo de fragmentação, ela perdeu qualquer ideia clara e global de si própria, pelo que tem, naturalmente, a maior dificuldade em definir objectivos para a educação. Dito de outro modo, a crise da escola decorre de fenómenos civilizacionais que a ultrapassam, nomeadamente da destradicionalização e da desinstitucionalização das sociedades contemporâneas, que minam o estatuto não só dos saberes mas também dos professores. Fenómenos que desorientam a escola, cada vez mais transformada numa instituição à qual se pedem soluções para tudo, sem se lhe darem meios para nada. Esta mudança acabou contudo por adoptar novas finalidades, em que a aquisição de conteúdos formadores se subalterniza face a um suposto desenvolvimento mais multifacetado do aluno, que deve simplesmente tornar-se capaz de ir aprendendo... a aprender. Se no ensino tradicional e hierárquico a transmissão de conhecimentos era central, o ensino individualista e democrático aposta numa aprendizagem que se confunde com o desabrochar de uma misteriosa espontaneidade criativa. O que, note-se, faz do professor refém de um paralisante paradoxo, que é o de todos reclamarem mais educação, sem que quase ninguém aceite, na realidade, ser educado. As novas tecnologias foram a cereja em cima do bolo deste processo cheio de equívocos, criando uma miragem de facilitismos em que não caíram nem Bill Gates nem Steve Jobs, que, como há dias Nick Bilton contava no The New York Times, nunca dispensaram sólidas bases convencionais para os seus filhos, certos de que é a partir delas que as novas tecnologias revelam o seu extraordinário potencial. Mas a mutação tecnológica não é a única, nem a principal responsável, pela desorientação em que vive a escola. Como já tenho referido, há mais mutações decisivas a ter em conta: a que ocorreu nas relações entre a família e a escola, a que alterou o estatuto dos saberes e a que decorreu da sua democratização. A cumplicidade entre a família e a escola era um elo tradicional que se volatilizou nas últimas décadas, com a primeira a descartar para a segunda as suas obrigações educativas. E, com esta transformação, aumentou também a erosão das funções mais óbvias da escola, sempre em nome dos valores afectivos de uma infância e de uma adolescência altamente idealizadas, que ignoram tanto a escassez da sua experiência como o empobrecimento do seu actual ambiente simbólico. Por outro lado, a mutação do estatuto dos saberes e do conhecimento foi de cento e oitenta graus. A escola tradicional assentava no reconhecimento do valor intrínseco dos saberes que a escola transmitia e na indiscutível necessidade de os adquirir. Ora, este reconhecimento tornou-se nos nossos dias bem problemático, na medida em que a cultura perdeu o estatuto escolar que tinha, e que colocava a curiosidade e o desejo de saber no cerne de todas as concepções da educação. Agora vivemos numa sociedade que, ao mesmo tempo que pretende assumir-se como uma sociedade do conhecimento, se revela como aquela em que o desejo de saber quase desapareceu. Por fim, a mutação democrática conduziu a que qualquer tipo de autoridade seja quase sempre assimilado a um intolerável autoritarismo, como se a autoridade se tivesse tornado incompatível com a democracia. E, com esta erosão da autoridade, a escola ficou cativa de todos os caprichos dos alunos e de todas as contingências governativas. E é nisto que estamos: numa escola à deriva.»


 


M. M. Carrilho, DN


 


Adenda: Entretanto o prof. Crato, uma das maiores fatalidades ambulantes do actual governo, anunciou uma "investigação" ao processo de colocação de professores pelo qual lançou um tosco "perdoa-me". Também se soube que consentiu milhões em ajustes directos. Por que é que não começa, afinal, por se "investigar" extraordinariamente a si mesmo?

17.9.14

Um momento dispensável


 


A ministra da justíça, Paula Teixeira da Cruz, por quem nutro consideração e estima, perdeu uma bela ocasião para continuar em silêncio sobre a "plataforma informática" dos tribunais. E o Rui Pereira, o presidente do instituto que gere a "plataforma" - e em relação a quem mantenho idênticos sentimentos - perdeu uma bela ocasião para colocar o seu lugar à disposição. Se calhar até colocou. Agora vão em busca do tradicional e obscuro bode expiatório depois de umas "averiguações". Mas o que se dispensava era aquele "dueto" em frente aos microfones e às televisões em que ambos acabaram por sair de lá pior do que quando entraram.

São o que são

As propostas de António José Seguro relativas à "higiene" do sistema político - designadamente a redução do número de deputados paralela a um novo sistema eleitoral, a obrigatoriedade de respeitar um período de "nojo" entre funções públicas e mergulhos apressados em áreas negociais ligadas a sectores por onde se exerceram essas funções ou o conhecimento de todas a fontes de rendimento do agente político para além das que resultam da actividade política - foram recebidas pelo dito sistema com previsível acrimónia. Sobretudo pelos "camaradas" do partido de Seguro que "garantem" a manutenção do sistema e que, certamente por mera coincidência, andam a dar à cauda atrás do dr. Costa. É o caso do dr. Lacão que, enquanto ministro dos assuntos parlamentares (não foi assim há tanto tempo), defendia a redução da deputação para o número "mágico" de 180 e agora surgiu indignado nos corredores da A.R. onde, ao lado de grande parte dos deputados do PS, se "especializou" em combater o secretário-geral do seu partido dê lá por onde der e no que der. "A ocasião faz o Lacão", como sugeriu, um dia, António Guterres. Não se enganava. Aliás, esta é a questão de fundo que conduziu, também, à emergência de Costa. Esta gente, entre o destrambelhado e o profissionalmente oportunista que constitui o grosso do grupo parlamentar do PS "herdado" por Seguro de Sócrates, sabe que será adequadamente varrida em 2015 se o secretário-geral se mantiver. Agarram-se agora a Costa como gato a bofe - e Deus sabe o que o próprio Costa não pensará de muitos deles - por pura necessidade de auto-preservação. São o que são.

16.9.14

Callas


 


Passa hoje o 37º aniversário da morte de Maria Callas. Sem ela, o canto lírico contemporâneo teria sido algo completamente distinto daquilo que foi e é. Poderá mesmo dizer-se que a ópera (ou algumas óperas em concreto) naquela asserção do realismo do excesso que a caracteriza enquanto espectáculo total, como que foram inventadas para "esperar" pela Callas. É o caso de Bellini e de muito Donizetti. Toda a imensa gravitas, todo o pathos e todo o bathos do belcanto se fundiram, como um cadinho, na sua voz incomparável. Incomparável não exactamente por ser quimicamente pura - não era - mas porque a aliança da respectiva extensão com uma extraordinária capacidade histriónica, fazia de cada apoteose, de cada recusa e, para o fim, de cada fracasso um momento único e irrepetível. Callas possuía a força das suas fraquezas, a grandeza das suas fragilidades, o sobre-humano da sua condição muito humana. Parecia que tinha uma vida fácil e frívola - começou gordíssima e acabou estilizada, separou-se do único homem que verdadeiramente a amou - Meneghini - para cair nos braços ambíguos do pavoroso milionário grego, posou moda. Entre o cume e o eclipse os anos foram demasiado poucos. Não há herdeiras para fenómenos destes que raramente acontecem. Callas persiste orgulhosamente solitária e fulgurante num universo que parece ter existido propositadamente para ela. E que, sem ela, trivializou-se e só por defeito brilha.


 


 


Clip: Bellini, Il Pirata. Hamburgo, Maio de 1959. Dir. Nicola Rescigno

Para quê?


 


«Há menos editoras, menos livrarias e vendem-se menos livros em Portugal. Estudo encomendado pela APEL demonstra a queda que o mercado livreiro tem sofrido em Portugal. APEL espera que a mudança se possa fazer. João Alvim, presidente da APEL, diz que a associação sozinha "nunca poderá fazer nada". “Este estudo traz a evidência das dificuldades do sector, já não há forma de fugir a esta evidência”, diz Alvim, que encomendou o estudo depois de ano passado vários livreiros se terem manifestado, queixando-se de concorrência desleal por parte de grandes superfícies como a FNAC e a Bertrand. “Vai permitir-nos chegar mais longe, foram detectadas as fragilidades e por isso agora temos de começar a pensar em conjunto como agir”, acrescenta Alvim, que conta entregar em breve estas conclusões ao secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.» Para quê, logo a esse pobre diabo sem ventura?

Retrato do regime enquanto aposentado


 


 


Um jornal, o Correio da Manhã, faz manchete com a circunstância de Vítor Bento se ter reformado com a pensão bruta de x aos 60 anos. E que o pedido de reforma fora efectuado antes da "aventura" BES. Não adianta ir por aí. O regime, do topo às "elites" intermédias, não tem por que se queixar. Quase toda a gente se aposentou ou reformou antes do prazo canónico, quase toda a gente aproveitou as "possibilidadess" que a lei lhe oferecia designadamente com pensões correspondentes aos cargos que exerciam na altura de sair e não o que resultaria da sua "carreira" normal, quase toda a gente acumulou a "aposentadoria" com outras coisas, quase toda a gente se empregou ou foi empregada, depois, por "amigos" aqui ou lá fora, ou "estabeleceu-se" sozinho graças ao telefone que toca sempre as vezes que forem precisas. Só quem, por necessidade ou impossibilidade, não pode ver-se livre "disto" é que fica para trás a remoer o "tempo perdido", e a sua progressiva miséria, e a assistir indemne ao "videirismo" alheio. Vítor Bento, uma vez mais, não constitui excepção. Até o PR preferiu somar pensões a receber republicanamente o seu vencimento institucional como servidor público. Mas, de facto, hoje só um impotente ou um idiota, ou as duas coisas em "acumulação", aceita ser servidor público ou priivado em Portugal à espera que chegue a sua hora legal ou a da providência divina. Ámen.

15.9.14

Um precedente

A célebre "plataforma informática" dos tribunais continua a funcionar mal. Fora isso, que é muito, não acontece nada. Parece que alguns julgamentos foram adiados por causa desta anomalia - e logo quando a "reforma da justiça" também se destinava a acelerar tudo mas, pelos vistos, só no "futuro" já que quase quatro milhões de processos do "passado" pré-reforma ficaram de fora - mas houve pelo menos um que teve lugar. Nele, a antiga ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues foi condenada em 1ª instância pelo crime de prevaricação no exercício de cargo público. O que terá feito esta agente política para isto? Autorizou, por ajuste directo, uma prestação de serviços que, pelos valores em causa, deveria ter sido sujeita a concurso. Num país em que a regra política da contratação pública é o ajuste directo, esta sentença cria um precedente grave. Porque das duas, uma. Ou os membros do governo, seja qual for partidariamente o governo, que perpetraram ajustes directos "inseguros" de ponto de vista jurídico e dos "beneficários" deles - e no "arco da governação" passada e presente é coisa que não falta - passam a usar o concurso como regra e o ajuste como excepção, ou temos uma hipótese séria de os tribunais se encherem de "denúncias" (um termo lindo que diz muito sobre a nossa miséria instintual) contra a "classe" governativa, em especial se não gostarmos dela. Dito isto, Maria de Lurdes Rodrigues, que já anunciou recurso desta sentença, só após o trânsito definitivo em julgado pode ser condenada. Não adianta chover no molhado.

14.9.14

Democracia liberal, democracia adversarial


 


Estou de acordo com  Eduardo Cintra Torres. Os mais de duzentos mil "simpatizantes" que se inscreveram para escolher o candidato do PS a 1º ministro são uma prova de vitalidade de uma democracia liberal, isto é, do confronto adversarial sem o qual essa democracia não passa de um pastelão ressequido. O que significa que Seguro teve razão em convocar as "primárias" quando Costa pretendia o poder "outorgado". O PS - ao contrário da ruminação dominante que teria preferido a saída de Seguro pela porta dos fundos, em Maio, e a entrada triunfal do seu Bonaparte da Praça do Município pela porta grande - sai reforçado deste processo como saiu de anteriores. Logo em 1974, na Aula Magna da UL, Manuel Serra desafiou Soares a "esquerdizar" o partido. O PS acabou "social-democratizado" e apto a vencer as duas primeiras eleições livres. Entre 1979 e 1981, o partido dividiu-se entre "soaristas" e o chamado "secretariado" que se revia em Zenha. Dois anos depois Soares ganhava as eleições de Abril de 1983 e formava o "bloco central" com Mota Pinto. Em 1985, a "esquerda" apresentou três candidatos a Belém, dois deles- Zenha e Soares - oriundos do PS "histórico". Soares passou à segunda volta, e a Presidente, com o apoio de Zenha e Pintasilgo que ficaram para trás. Em 1991, o "choque" da humilhação eleitoral por que passara Sampaio em Outubro contra Cavaco, levou ao embate feroz com Guterres. Entre 1992 e 1995, Guterres preparou-se para São Bento e Sampaio para Belém. A partir de 1996 e até 2001, o país político era todo "cor-da-rosa". Em 2004, depois da vitória singular de Ferro Rodrigues nas europeias a que se seguiu uma não menos singular demissão por causa de Sampaio, o PS apresenta, na oposição, três candidatos distintos a secretário-geral. Em Setembro "passa" Sócrates que em Março do ano seguinte é primeiro-ministro com maioria absoluta. Nas presidenciais de 2006, o PS tem dois candidatos e o "dissidente" Alegre, que nunca abandonou o partido, supera brutalmente o "oficial" Soares. Com a derrota de Sócrates, apenas Seguro se dispôs a reunir os cacos. De lá para cá, ganhou à coligação as duas únicas eleições que entretanto ocorreram. E, fique ou saia depois das "primárias" e do congresso, o PS dificilmente não será responsável pela liderança do processo político depois das próximas legislativas. O governo é já só um cadáver que ainda não entrou em funções mas que se esforça, com método e perseverança diários, por entrar o mais rapidamente possível. Como escreve o Eduardo, «os debates abriram um precedente que espero se torne habitual. É muito melhor para os portugueses, e em especial para os que elegerem o candidato do PS a chefe de governo no dia 28, conhecer melhor os candidatos e o que nos puderem e quiserem dizer, por pouco que digam. Os debates elucidaram mais sobre o carácter do que sobre políticas? Sim, mas, a meu ver, o carácter de um eventual primeiro-ministro é tão importante como as políticas. O caso Sócrates deveria ter vacinado todos os comentadores sobre este assunto. Fernando Pessoa escreveu em 1919 que "o voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento. "Os debates, mesmo sem ideias, permitem avaliar o carácter para além do blá-blá. Assim, percebe-se a táctica de Seguro a que Costa chamou "ataques pessoais". Seguro quis transmitir uma versão do seu carácter e uma versão do carácter de Costa. Costa saiu-se mal, a meu ver, nesta questão, porque tinha de facto mais a perder na avaliação pública do seu percurso político e porque numa luta homem a homem, como esta é, o que Seguro fez foram ataques políticos em ligação com o homem seu adversário. Não se pode separar totalmente o político do homem quando se enfrenta um homem político. Por isso, Costa não queria debates. Discordo doutro argumento da maioria comentatória, o de que Costa é o "challenger", quem desafia o líder instalado. Tecnicamente, é. Mas Seguro é o verdadeiro "challenger", pois diz que Costa representa o "projecto de interesses" (os Sócrates, Almeida Santos e outros instalados no sistema). Na prestação mediática, Costa está na TV como em casa, ou não fosse ele um "quadraturo" há anos; não tem nem faz propostas por ser uma variante do sistema, bastando-lhe comentar, com inegável desenvoltura; em Seguro apresenta-se como o acossado pelo sistema, incluindo o mediático. Vendo os debates neste prisma, é Seguro o desafiador — do sistema.»

O rosto e as máscaras


 


 


É preciso fazer alguma "justiça"ao dr. Marques Mendes. Apesar de ter anunciado a venda do Novo Banco para daqui a duas ou três semanas - seis no máximo -, e, como ontem confirmou, estar perfeitamente a par dos "rumores" da eminente saída dos três administradores liderada por Vítor Bento (viriam desde 23 de Agosto, repara-se na precisão da data) que achou que lá deviam ter ficado a fazer a figura de ursos que eles se recusaram a fazer, o dr. Mendes acabou por reconhecer que o governo foi hipócrita e, também neste assunto, já só pensa nas eleições. Mas se pensa pelos vistos anda a pensar mal. Porque a partir de agora, a "pressa em vender" vai transformar-se em "pressa em vender porventura mal" e a patacos. Do dr. Costa, do BdP, nem vale a pena falar. O sorrisinho permanente do dr. Constâncio - com que ele se deita, levanta e passa a ferro aos fins de semana para estar pronto às segundas-feiras logo pela fresquinha - fala por ele. A "fadiga fiscal", para usar um termo do venerando prof. Moreira, tem as costas largas e é nela que presumivelmente parte desta historieta cinzenta de recorte latino-americano há-de acabar. Como escreve a Leonete Botelho, «a duplicidade do Governo vai mais longe. Temos o lado A, com a ministra das Finanças a repetir a afirmação de que não há qualquer interferência na gestão e administração do dossier BES e o primeiro-ministro a ofender-se com notícias sobre recados dados, a seu tempo, para o afastamento de Ricardo Salgado. E temos o lado B, onde um sorridente Governo indica para o Banco de Portugal o seu antigo secretário de Estado Helder Rosalino e coloca na pasta da supervisão António Varela — que antes indicara, qual bombeiro de serviço, para o Banif aquando da entrada do Estado no capital do banco. Onde um distraído Governo deixa ir para a administração do Novo Banco José Honório e Moreira Rato, ambos com ligações ao Executivo e ambos próximos de Ricardo Salgado. E onde, por fim, o Governo deixa claro, pela voz do ministro da Economia, que a estratégia a seguir no Novo Banco é a sua venda o mais depressa possível. Qual plano de sustentabilidade, qual autonomia de gestão? O Governo dá indicações para a estratégia e para o supervisor. Está omnipresente no processo BES/GES e tão activo quanto lhe permite o seu espartilho liberal. Para já, apenas por trás das máscaras, ali, onde a mão se mantém invisível. Até ter que meter a mão na massa.»

13.9.14

A lista


 


 


Depois disto - "no fim da linha, para estes trabalhadores, está o despedimento" - as pessoas que exercem provisoriamente cargos de responsabilidade política mas que, profissionalmente, pertencem a carreiras de serviço público, com certeza terão o bom senso de nunca mais regressar ao serviço do Estado. Decerto não estarão dispostos a trabalhar com quem afinal desprezam apesar da multidão "colaboracionista". E vice-versa, decerto.

O primeiro a sair e o último a rir


 


Durante semanas e semanas, os "palpiteiros" das televisões e dos jornais - mas sobretudo os recolectores de informação privilegiada - alvitraram o que se ia passar com o defunto BES. Um deles, o dr. Marques Mendes, explicou detalhadamente, com um dia de antecedência, a "operação novo banco vs. banco mau". Depois passaram à fase da "pressão" para vender rapidamente o "novo banco" na qual houve equanimidade de contributos: comentadores, membros do governo e, aparentemente, o dr. Costa do BdP estavam todos de acordo e com pressa. Pelo meio ocorreram umas substituições no referido BdP e, pela viva voz da dra. M. L. Albuquerque, uma maior "pulsão" intervencionista do Estado, quer em relação ao banco central, quer, por tabela, no que respeita ao "novo banco". Percebeu-se desde o início que Vítor Bento, uma pessoa decente, não estava à vontade neste "processo" da "pressão para vender depressa". Isso é coisa para comissionistas, escritórios de advogados, consultadorias e não propriamente para quem está habituado a "servir" desinteressadamente e com um módico de vergonha na cara. Presumo que o Doutor Cavaco - e agora entende-se melhor por que veio falar publicamente da "informação relevante" que não tinha a certeza de ter - também se apercebeu que o "novo banco" podia transformar-se, afinal, numa pay shop mais ou menos oficiosa com a complacência das "autoridades". Talvez o dr. Marques Mendes, como se calhar lhe compete, já possa revelar hoje os "homens de palha" da administração de um "novíssimo banco" mais "adaptável" às trapalhadas do dr. Carlos Costa, e do governo, e aos interesses "negociais" do regime. E, quem sabe, o dr. Salgado ainda vai ser o último a rir-se disto tudo como já foi, na verdade, "dono" deles todos.

12.9.14

Duas faces


 


Da mesma gente - mesquinha, pequenina, vingativa. E ainda não acabou. Como no verso de Sena, «dos homens pequeninos/libera nos Domine".

«Uma tremenda quantidade de vida para acarinharmos»



Durante muito tempo evitei ler Património de Philip Roth. Li-o em dois dias (mais adequadamente noites) esta semana. Tem como subtítulo "uma história verdadeira" e, de facto, relata sem lamechices o final da vida do pai do autor. É mais do que uma parte da sua autobiografia e menos, muito menos, que ficção mas colhe o melhor de ambos. Se afirmasse que "conta" o amor não estaria a exagerar. Não tanto o de um filho por um progenitor que decai fisicamente, sem regresso de um tumor cerebral, mas do amor como, por exemplo, o veio a filmar, muito tempo depois, Haneke em Amor. Amor, também, pela América onde a família Roth, e os amigos da família Roth, passaram as suas vidas transumantes. Amor por gestos aparentemente insignificantes cuja genuinidade lhes retira o pathos da inevitabilidade. E, depois, um valentíssimo amor pela escrita que faz de Roth uma figura indispensável da literatura contemporânea. Susan Sontag disse numa entrevista que não tinha pachorra para "ler" a vida sexual de Philip Roth, querendo com isso significar que porventura estaria farta daquele "realismo" simultaneamente irónico, franco e despojado dos livros do outro. Todavia, nem isso nem tão pouco a evidência judaica recorrente (Roth, aliás, confessa não ser propriamente "religioso" por comparação com o pai) diminuem as obras de arte em que, de uma maneira geral, os seus livros consistem. «Olhei para o seu pénis. Não creio que o tivesse visto desde que era rapazinho, e nessa altura costumava pensar que era muito grande. E revelava-se que tinha razão. Era grosso e substancial, a única parte do seu corpo que não parecia nada velha. Pelo contrário, parecia em muito boa forma. Mais robusto em diâmetro, reparei, do que o meu próprio. "Ainda bem para ele", pensei, "Se lhe deu algum prazer, a ele e à minha mãe, tanto melhor." Finalmente, a vida. Património, que parece descrever a morte, é sobretudo um belíssimo texto de exaltação da vida. «Limpamos a merda do nosso pai porque ela tem de ser limpa, mas na esteira desse limpar tudo quanto nos resta para sentir é sentido como nunca antes foi. Também não era a primeira vez que compreendia isto: depois de contornarmos a repugnância, ignorarmos a náusea e mergulharmos para além dessas fobias fortificadas como tabus, resta uma tremenda quantidade de vida para acarinharmos.»

11.9.14

«Os Maias» revisitados


 


Há mais "Portugal dos pequeninos" do que na modestíssima "filosofia" deste blogue. Como conta João Botelho.

O imenso poucochinho

 



 


No segundo debate com o secretário-geral do PS, António Costa foi ao cofre "socrático" e "mandou" comparar o "compromisso" de Seguro com o programa eleitoral de 2009 do antigo primeiro-ministro. Nessa altura, Costa já não estava no governo mas era o "número 2" de Sócrates no partido. Chegou à conclusão, ou o funcionário dele por ele, que desse programa o "compromisso" do outro só se diferenciava em seis medidas e meia (serão oitenta, parece-me). Dito de outra forma, Costa comprometeu-se e distanciou-se de duas coisas em que esteve envolvido: do programa de 2009 (ele foi o autor da moção de Sócrates no congresso de Fevereiro de 2009) e do "compromisso" de Seguro uma vez que esteve e falou na FIL quando as "oitenta" medidas foram apresentadas e não consta que tenha feito ali qualquer reparo. Muito menos setenta e três reparos e meio. A dissimulação, enquanto programa de vida política ou de festas, é poucochinho.

10.9.14

A "massagem"

Costa, desta vez, socorreu-se de Mcluhan - o da "mensagem/massagem" - para aludir às "propostas" que alegadamente tem para o país. Usou o termo "fisioterapia" para aí umas três vezes e louvou-se na "sua" reforma das freguesias em Lisboa. Com o devido respeito, o dr. Costa não nos pretenda convencer que, desde Maio até agora, criou um "programa" de salvação da pátria. Pois se nem a Capital ele consegue "salvar", como é que pode tratar convenientemente do resto? Mas como tudo vive de "imagens", Costa pareceu "melhor" em relação ao primeiro debate. Levou no bolso o busto de Napoleão que, do alto da sua irreprimível auto-suficência regimental, atirou à cara do secretário-geral do seu partido. Foi a "massagem" da noite.

Lérias


 


Volta não volta, surge na política a conversa do "ataque pessoal". A mais recente, e mais famosa, ficou conhecida por "campanha negra". Tem variantes. "Cabala",  "insulto", "assassinato de carácter" - muitas vezes os ditos "assassinatos" são afinal "suicídios" -, "infâmia" e, ainda a semana passada, "circunstância".  Dizer a um político que praticou um acto desleal ou uma traição não é um "ataque pessoal". É uma opinião política susceptível de contraditório igualmente político e nunca de lamúrias romanescas. "Ataque pessoal" seria, por exemplo, acusar alguém sem provas de que não paga o condomínio há mais de cinco anos, que tem a orientação sexual x ou y quando não tem nenhuma, que alegadamente conduz camiões TIR a abarrotar de cuecas falsas Armani quando só possui carta de ligeiros, que tem supostamente estantes cheias de valter hugo mãe, etc. A deslealdade e a traição são o "sal" da política. São mais frequentes que a decência. É por isso que, se alguém atribui o nome à coisa, "sai" logo da política para passar para o "ataque pessoal". E os competentes cabelos e vestes são de imediato arrancados em nome de uma dissimulada "indignação" para esconder o que importa: ter ou não ter algo de substantivo para dizer e fazer. O resto são lérias.

9.9.14

Uma desilusão, segunda parte

Opinião inteiramente de borla, salvo quanto à Net (paga por mim), não assalariada ou avençada junto de quaisquer meios de comunicação social e cultural: o primeiro debate entre o secretário-geral do PS e o "alto comissário dos referidos meios para o PS" correu bem ao secretário-geral do PS e menos bem para o "alto comissário" e para os ditos meios. É a vida, como diria o proto candidato de ambos a Belém.

"Uma desilusão"


 


Miguel Sousa Tavares, insuspeitíssimo de qualquer simpatia política por António José Seguro, resumiu perfeitamente o mito de pés-de-barro encarnado por António Costa cujo discurso proferido num jantar no Pátio da Galé - a CML dá serventia a tudo menos ao que é preciso -, e que as televisões amiguinhas passaram, revelou a cansada apoteose desse vazio político e semântico: «António Costa “que partiu com muita força” está-se agora a revelar uma desilusão” e as “únicas ideias políticas relevantes entre os dois vieram de Seguro”. Para o comentador, António Costa tem tido uma grande falha que é o facto de o seu programa politico “não ter qualquer informação sobre o que pretende fazer em relação ao défice e à divida”, temas que estarão na ordem do dia do próximo primeiro-ministro. Por isso, considera “que a omissão de ideias de Costa não tem justificação”.

O ministro "único"


 


O ministro "único" das finanças da zona euro, o sr. Schauble, na apresentação parlamentar do seu orçamento, decretou ser «um "erro" pensar que atenuar a disciplina orçamental gerará crescimento na Europa. Violar as regras orçamentais com a expectativa de estimular o crescimento económico "é um erro, não encontraremos o caminho".» E acrescentou que «não podemos comprar empregos e crescimento com dinheiro público» porque «isso também não ajuda o Banco Central Europeu (BCE) porque este faz o que pode, mas não pode impor o crescimento, como se vê actualmente.» De uma penada, o ministro "único" esfolou dois coelhos com uma só machadada. Por um lado, impõe aos executivos europeus mais débeis, como o nosso, a continuação da "quadratura orçamental" centrada na austeridade e nos défices estatutários independentemente do que possa suceder às respectivas economias: esqueçam o investimento, castiguem o consumo, sovietizem as relações entre operadores económicos e sociais, recomenda a criaturinha. Acabaram os "défices virtuosos" para dar  lugar aos "défices Schauble" que nós particularmente engolimos sem sequer inalar primeiro. Depois, com a gentileza de um viking, explicou ao sr. Draghi que escusa de jurar pelo crescimento e pela defesa da "economia real" através da calibragem da taxa de juro directora. A "economia real" é o que o sr. Schauble disser que é e não se fala mais nisso. Aliás, a desculpa para manter tudo como tem estado é justificada pela abdicação política nos sucessivos Conselhos Europeus: «Cumprir as promessas implica também respeitar as regras europeias, toda a gente deveria respeitar as regras europeias, porque decidimos em conjunto.» Schauble não existe apenas porque foi escolhido pela sra. Merkel. Existe e manda porque a generalidade dos "dirigentes" europeus participam naqueles Conselhos como vulgares funcionários, uma espécie de estenógrafos políticamente eunucos, que só tomam notas e aplicam diligentemente o que os mandam aplicar. Entre nós, chefiados por um dos mais eficazes funcionários da criatura viking, a "economia real" segue assim depois do aumento do défice da balança comercial e da diminuição das "expectativas" quanto ao crescimento da referida economia no 1º semestre do ano: «O número de jovens que não estudam nem trabalham não tem parado de crescer. Os chamados “nem-nem” representam já quase 17% da população nacional entre os 15 e os 29 anos, segundo o estudo anual da OCDE sobre o sector da Educação, que foi apresentado nesta terça-feira. Portugal é mesmo um dos países onde esta realidade mais se acentuou (...) Neste retrato, Portugal está quase sempre entre os países onde a crise teve um mais forte impacto sobre o sector da educação e o acesso dos jovens ao mercado de trabalho. O desemprego atinge 10,5% dos diplomados nacionais, ao passo que a média da OCDE se fica pelos 5%.» O ministro "único" deve ficar satisfeito com estas proezas da periferia.


 


Foto: JOHN KOLESIDIS/REUTERS

8.9.14

"Gato por lebre"


 


Uma vez, quando era primeiro-ministro, o Doutor Cavaco concedeu uma entrevista no auge de uma especulação bolsista conhecida. Como quem não quer a coisa, às tantas "deixou cair" uma recomendação famosa que deixou os cabelos em pé aos "investidores": "cuidado, não andem a comprar gato por lebre". No dia seguinte, as cotações previsivelmente desceram e o "jogo" não acabou bem para muitos dos ditos "investidores". Na sua primeira aparição após as férias, o mesmo Doutor Cavaco, agora PR, "deixou cair" que esperava que as "autoridades" - o BdP e o governo - lhe tivessem transmitido "toda a informação relevante" acerca do Novo Banco/BES. Ou seja, o Presidente "espera" que não lhe tivessem "vendido" gato por lebre. E, imagino, "espera" que, quando chegar a hora, ninguém se lembre de vender gato por lebre. O governo "reagiu" pela boca do prof. Maduro que usou o termo mais opaco da língua de pau da política: a "transparência". E Marco António, fora do governo, explicou  como se "pautam" ternamente as relações com o PR. Suponho que o Doutor Cavaco terá ficado tão esclarecido como, para o fim, costumava ficar com as "explicações" do eng. Sócrates. As coisas nem sempre são como são.

O espectro


 


Nos debates televisivos entre Seguro e Costa haverá um "terceiro homem". E um vasto cortejo de sombras, sentadas ao lado de Costa, associadas a esse espectro: Sócrates.

Ganhar juízo


 


O único candidato verosímil que o centro-direita tem para apoiar (ele não precisa que o "apresentem", de babujar "apoios" ou, sequer, de esperar que o "informem": um Presidente segue sempre na frente e não atrás das cadeiras do parlamento ou dos governos) em 2015-2016 para Belém - Marcelo Rebelo de Sousa - foi muito claro no comentário televisivo semanal que deverá "largar" daqui a 7 ou 8 meses. É preciso acabar com o «discurso quadrado de execução orçamental» e «é tempo do PSD e CDS entenderem-se e passarem a ter um discurso conjunto de crescimento» que passe por, «se houver folga e parece que pode haver, dar um sinal no IRS». O dr. Passos, coligado ou não, experimente ir a eleições ferrado na "quadratura" da execução orçamental, e no défice, e vai ver o que lhe acontece. Que figura tem andado a fazer nos Conselhos Europeus? Até por ser insuspeito em relação ao CDS, acho que Portas não deve "largar o osso". As pessoas de facto não comem "eleitoralismo" mas não entendem como é que continuam as "folgas" de milhões nas rendas, nas PPP's e nos fornecimentos de serviços externos ao Estado, ou a entidades dele directamente dependentes como a RTP, e não há "folga" para calibrar racionalmente o nível de fiscalidade das pessoas singulares a roçar e, em alguns casos, a ultrapassar o puramente confiscatório. Até porque os famosos "sinais" são precários. Ganhem juízo.

6.9.14

1995-2015


 


O dr. Marques Mendes - cuja infalibilidade ultrapassa a do meramente pedestre Papa Francisco - garantiu a vitória de António Costa no PS. "E nem sequer é à tangente", acrescentou. A interlocutora ainda tentou introduzir o termo "lealdades" mas aí Mendes foi ainda mais peremptório: "não existem lealdades passadas, só há lealdades para o futuro". Tem razão até porque desde pequenino que sabe do que fala. Daqui a sensivelmente um ano e alguns meses, tudo indica que andaremos duas décadas para trás. Regressaremos, com a benção teimosa do dr. Passos, as contas da dra. Maria Luís e a pusilanimidade do dr. Portas, ao sistema "uma minoria, um governo, um presidente". O Doutor Cavaco, então em fim de carreira, obrigará a que a "minoria" se transforme num consenso glorioso que perpetue o seu múnus em futuras histórias concisas de Portugal. Para isso, entrará em funções um "novo PSD" e, porventura, o mesmo dr. Portas. Pacheco Pereira oficiará como "conselheiro informal" da nova nomenclatura - a socialista com a "adesiva" da direita - depois de ter passado anos a transmitir semanalmente a famosa "visão estratégica" do dr. António Costa. Tudo estará bem quando acabar em bem. Como em 1995.

O estado de choque


 


Ontem, depois da leitura de um acórdão, uma pessoa que foi condenada a cinco anos de prisão efectiva manifestou-se "em estado de choque". É um direito dela como o de recorrer deste veredicto. Não se trata, porém, de uma pessoa qualquer. Nestes quarenta anos de regime, foi deputado, secretário de Estado, ministro e administrador da banca comercial e pública. Ou seja, o regime democrático confiou-lhe responsabilidades, deveres e direitos acima dos do cidadão comum. O que por consequência essa pessoa deve perguntar-se, quando refere a sua "circunstância", é se soube estar à altura dela. Se não soube, quem tem de ficar em "estado de choque" é o regime e a democracia. Não é ele.

O "conceito"


 


A política portuguesa, já em plena rodagem para o longo calvário eleitoralista de mais de um ano, segue previsível e, de uma maneira geral, medíocre. Agora foi-lhe adicionado um "condimento" que, na coligação existe desde o início e que no PS começou em Maio com o "assalto" de António Costa: o taticismo traiçoeiro. Mas, para isto, mais vale ler "romances" de, por exemplo, John Le Carré. Vem lá tudo explicadinho por outras tramas, por outras personagens, por outras ambientes. Ou então rever os três Padrinhos ou a tetralogia do Wagner. Qualquer coisa destas é muito mais agradável e verosímil do que as peripécias paroquiais. Entretanto em França, a, como agora se diz, "ex-companheira" do sr. Hollande, Valérie Trierweiler, publicou um livro com 200 mil exemplares à cabeça. Para se aliviar da traição conjugal onde o presidente da França a trocou por uma actriz deslavada mas com aquele arzinho alegadamente sexy do bed style. Presumivelmente a vida íntima de um político com outra pessoa (não a sua vida privada em sentido mais amplo) não deve ser lavada no tanque de água suja da opinião pública. Trierweiler, a quem assiste todo o direito do mundo a se "vingar" como entender, acabou afinal sentada na mesma lambreta ridícula na qual Hollande ia ter ter com a outra. Os "pormenores" que achou por bem "revelar" não alteram significativamente a "imagem" que tínhamos de Hollande - a de um homem médio, com poder, sem grande densidade política e, instintualmente, pouco diferente do rapaz do talho ou do liceu. A graçola dos "desdentados" constitui um argumentário político para o qual manifestamente Trierweiler não tem talento. O livro que se segue, do até há pouco ministro da economia, será porventura mais preocupante para o presidente do que a dor de corno em letra de forma da jornalista do Paris Match. Até na alcova a França perdeu grandeza. Salvo De Gaulle e, talvez, Pompidou pelo menos quanto a mulheres, os presidentes da V República sempre mantiveram vidas privadas muito "liberais". Mitterrand, por exemplo, "escondeu" até quando entendeu uma filha e a mãe dessa filha que por acaso até era directora de um dos mais conspícuos museus de Paris. Sarkozy divorciou-se e casou-se chefe de Estado. Nada disto os perdeu significativamente embora a leviandade do último presidente da direita não o tivesse ajudado nas outras coisas. O sem jeito de Hollande, que inclui o deslumbramento adolescente por uma actriz chocha, incomparável a Valérie ou a Royal, acaba por não ser propriamente uma "novidade". Trierweiler provavelmente não leu Le Carré que talvez a tivesse poupado, e a Hollande, a esta exibição mediático-comercial sem particular interesse político. Aqui é um "ele" a falar de uma "ela" mas podia ser ao contrário, um "ele" sobre outro "ele" ou uma "ela" sobre outra "ela". O essencial, para o caso - para qualquer caso - é o «conceito». E passo a citar, com os itálicos da tradução da Europa-América. «Ela amava-me enquanto conceito. Não como uma figura talvez, um corpo, um espírito, uma pessoa, nem sequer como parceiro. Enquanto conceito, um adjunto necessário à sua plenitude pessoal e humana (...) Não há factos. Há apenas duas pessoas. Não há factos numa coisa como esta. Em casamento nenhum. É o que a vida nos ensina. As relações são inteiramente subjectivas.» Percebeu o conceito, sra. Trierweiler?

4.9.14

"Esta Europa não vai salvar ninguém"


 


«Tal como aconteceu nos anos 20 com o padrão-ouro, a social-democracia está objectivamente bloqueada num trágico impasse, que a leva a defender constantemente aquilo mesmo que impede a mudança que reclama. Nos anos 20, o padrão-ouro, ao fixar paridades entre moedas nacionais que eram supostas poderem converter-se em ouro, abriu as portas ao espectro deflacionista que, com a "panne" da economia real, levou a uma austeridade que se abateu pesadamente sobretudo sobre o mundo do trabalho. Situação que só se alterou mais tarde, com as lições da grande depressão, as políticas expansivas e os acordos de Bretton Woods, que vigoraram até aos anos 70 do século passado. O euro veio, infelizmente, repor uma situação análoga à que se viveu nos anos 20 com o padrão-ouro - e foi essa situação que entretanto se conseguiu impor em termos de "necessidade". Ora argumento da necessidade, em política, é quase sempre o mais falacioso dos argumentos: ele apresenta como neutro o que o não é e transforma em leis o que são meras opções. A ironia, é que esta necessidade lembra cada vez mais a do socialismo "científico" de má memória... Dobrados ao argumento da necessidade, os socialistas democráticos acabam por aceitar quase tudo o que dizem querer rejeitar: os constrangimentos da gestão financista, os critérios da banca, o sobe-e-desce das agências de notação, o paternalismo burocrático de Bruxelas, etc. O último Conselho Europeu, de sábado passado, ilustra bem tudo isto: uma desesperante incapacidade política para responder à Rússia na Ucrânia, a escolha de personalidades de segundo plano para as funções de presidente do Conselho Europeu e de alto-representante para os Negócios Estrangeiros. Por fim, lá se marcou, para o Outono, mais uma cimeira sobre o crescimento!!!...Não, assim esta Europa não vai salvar ninguém - a não ser, talvez, que a deflação acabe por quebrar o império desta falaciosa necessidade e imponha uma reconfiguração radical da União Europeia e da zona euro.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

A voz do ungido


 


Não sei por que carga de água recebi um mail da campanha do dr. Costa. Um conhecido meu também e supõe que é por estar inscrito num site de busca de empregos. Seria interessante saber quantos mailings a campanha do dr. Costa - para o PS, sublinhe-se, com o qual nem eu nem esse meu conhecido temos quaisquer relações - comprou ou quem os cedeu para aquela específica utilização. Para mim, como se deve notar, o dr. Costa é "spam" e vai directamente para o "lixo". Para outros, como alguns e algumas jornalistas, é a "voz do ungido" que nos chega milagrosamente seja por que via for. Foi o caso, ontem à noite, da exibição politicamente pornográfica de uma jornalista-comentadora num canal de notícias. Melhor do que qualquer um ou uma dos seus inábeis porta-vozes, a jornalista-comentadora "defendeu" o seu há muito "ungido" com um argumentário "notável" do ponto de vista democrático. Em resumo: Costa tem o apoio de toda a gente que conta (ela própria deve estar incuída neste saco de gatos), dando o exemplo das vetustas luminárias Alegre, Sampaio, Santos e Jardim e de todos os antigos secretários gerais à excepção de Constâncio e Guterres; Seguro está, por consequência, "cercado" e não tinha nada de convocar "primárias"; mas já que as convocou, imagine-se o problema que criaria ao PS a sua vitória (sic). Lá concedeu que Costa ainda não foi muito "claro" sobre o que tenciona fazer se ganhar, depois, as legislativas mas isso não interessa nada. O que realmente "preocupa" a jornalista-comentadora é a hipótese - remota, claro, dado o referido "cerco" - de, ao arrepio do que está "previsto", o outro ganhar. Ou seja, as "primárias" só servem (e aí são "boas") se tiveram um único resultado, o "previsto" e desejado. Nunca pensei que esta jornalista-comentadora, em concreto, tivesse estagiado na Coreia do Norte. Vou sempre a tempo de aprender.

3.9.14

"The lady's not for turning"


 


 


«Il est froid. Ne sourit pas. Je suis son faire-valoir, mais je ne dois rien valoir.»

«Como é que se discute um líder que ganha?»

 


 




Na política como no amor não existe gratidão. Com certeza que Seguro andou pelo país inteiro a "puxar" e a apoiar, como era sua obrigação, a maioria destes estupores. Dizem eles, com aquela gravitas palonça e oportunista que caracteriza a maior parte deles, «que Costa tem "a visão, a coragem e a determinação" que lhe permitirá levar a cabo "uma estratégia que vá muito além das vistas curtas e do curto prazo, e que aposte em valores tão caros aos autarcas como descentralização e proximidade".» Mais uma vez, e à semelhança destas funéreas criaturas, estes "autarcas" pretendem que alguém, "lá em cima" e amiguinho, os abasteça com mais poder e, no caso específico deles, com mais dinheiro para "imortalizar" a respectiva "obra". É esse o significado de "descentralização e proximidade". No caso de Lisboa, por exemplo, não foi "a visão, a coragem e a determinação" de Costa que resolveu a questão dos terrenos do aeroporto que lhe permitiu aparecer financeiramente "imaculado" nas derradeiras autárquicas. Foi Miguel Relvas. Mas isso não interessa nada a estes pobres de espírito. Costa segue embalado pelas "elites" - do partido, de outros partidos e da "vociferante matilha do espectáculo" - o que revela a "dimensão" dessas "elites" mais do que revela Costa. Esse, e a sua putativa "visão estratégica", fica bem resumido neste "retratinho" de Vasco Pulido Valente: «na propaganda das primárias (nas suas voltinhas de candidato que em Portugal nunca variam) está sempre rodeado por um bando de jornalistas sem senso à procura de uma frase ou de uma notícia; e a oportunidade para se aliviar de altos pensamentos é nula, tanto mais que na cabeça dele convivem ideias vagas e mutuamente exclusivas: a da maioria absoluta e a do entendimento com a esquerda radical, por exemplo, ou a da “negociação” com a “Europa” contra Merkel e Hollande.» Para a trupe ficar completa, falta Sócrates que chega num jantar dia oito. Sócrates, na noite das "europeias", mostrou-se "indignado" com aqueles que logo ali começaram a falar em substituir o líder: «como é que se discute um líder que ganha? Não faz parte do que é normal em política». Não fazia mas passou a fazer. Estão bem uns para os outros.

Não dar uma para a caixa


 


Poiares Maduro foi falar na "universidade de Verão" do PSD. Não foi bem "falar". Foi emitir propaganda reles e - como aprendeu depressa! - revelou uma clara tendência para a já tradicional relação difícil com a verdade, uma irreprimível característica dos do métier. Segundo Maduro, mais do que reduzir salários e pensões, o governo reduziu consumos intermédios. Ele saberá do que é que está a falar quando usa o termo "consumos intermédios"? Ou "salários e pensões"? Ele conhece alguma coisa da chamada "vida material" das pessoas ditas normais? Do Estado? Do país, no fundo? Depois passou para as "reformas" que é uma espécie de "Ambrósio, apetece-me algo" do governo. «Em Portugal tendemos a cair nas soluções simplistas, que é uma pura questão de reforma do sistema eleitoral. Não é, é muito mais ampla que isso, é uma questão de cultura política", sublinhou, defendeu uma "reflexão alargada", que abranja também a questão da qualificação e capacitação da classe política e do funcionamento das instituições políticas.» Pois é, prof. Maduro. Por que é que não começa por si? Ainda não deu uma para caixa.

2.9.14

Escolas primárias


Parece que Pedro Santana Lopes, num canal de tv de que não disponho, sugeriu que as eleições primárias do PS pareciam uma "escola primária". Talvez. Mas as proto-primárias da "direita" para as presidenciais também não andam longe disso. Está-se na "fase" (para recorrer a um termo freudiano) de ver quem é que agrada mais ao senhor primeiro-ministro. De ver quem é que pode entrar no "quadro de honra" do dr. Passos através do dito e do não dito. O único, com todos os defeitos das suas qualidades e vice-versa, que já saiu (sem sair) dessa "gramática" é Marcelo. Até porque é o único que tem reiteradamente afirmado que não serve para "presidente parlamentarista". Libertem-se do paizinho, primeiro, e depois logo se vê.

As honoráveis múmias

Uma epifania tecnológica conduziu-me ao baú dos "modem" e coisas afins onde recuperei uma pen com um lá dentro. Um pouco como o dr. Costa fez no PS ao "pequeno-almoçar" com algum jazigo de família que ressuscitou propositadamente para o apoiar. Uns querem um PS mais "forte", outros, como o eterno Almeida Santos, agradecem hipocritamente o "combate" de Seguro e dão o homem praticamente como qualquer coisa "arrumada". Sampaio saiu do recato de bom senso onde estava muito adequadamente enfiado, ao arrepio do frenesim radical do dr. Soares, para se juntar aos jarrões. As coisas valem o que valem. No caso, cada uma daquelas luminárias vale o solitário voto dela nas "primárias" do PS. Mas, como dizia o outro, há método nisto. Estas pessoas fazem parte de um conjunto que vagueia pelos partidos do "arco" e pelos interesses do mesmo "arco" que há mais de três décadas se imagina "dono disto tudo", passe a ironia. O que eles estão a dizer a Costa é muito simples: "tens de nos pôr a todos, vivos, mortos e mortos-vivos, lá outra vez custe o que custar". Que importa que tenham estado nos almocinhos da Trindade há menos de um ano - ao lado do secretário-geral a quem agora nem sequer se dão ao trabalho de espetar a faca nas costas: é mesmo pela frente, via instagram  - para recolocar Costa na Câmara de Lisboa. Que importa que Costa não traga nada de novo ao PS e ao país a não ser um acervo pobrezinho de lugares-comuns e um ódio pessoal, antigo e pequenino, a Seguro. Estas honoráveis múmias, na realidade, têm horror ao vazio que, na tonta cabeça deles, é representado pelos três anos de, pelo menos, alguma decência de Seguro. Querem o passado deles de volta. Pode ser que tenham uma surpresa.

1.9.14

Intervalo

O pc portátil "novo" pifou e o velho não tem pressa em reconhecer o "modem". Eu, propriamente dito, estou como ele - tecnicamente misantropo. Segue-se assim, aqui, um intervalo. 'Ceux qui m'aiment prendront le Facebook".