31.3.13

Franqueza




Aos jornais, preferi neste domingo de Páscoa a troca de argumentos entre dois homens inteligentes ao longo de várias décadas. Refiro-me a Óscar Lopes e a António José Saraiva e à "correspondência" reunida no livro da foto por Leonor Curado Neves. Correspondência deste jaez é praticamente impossível de encontrar hoje em dia. Quer porque o "mundo" editorial português mudou radicalmente, e  para pior (e muitas das cartas tratam dele, sobretudo por causa das sucessivas reedições da História da Literatura Portuguesa de ambos), quer porque o "mundo" dito literário português de agora não se confunde com o que eles frequentaram enquanto estudiosos, quer ainda porque a densidade das prosas respectivas não "toca" os espíritos shallow nem o mandarinato medíocre que rege o "meio". Estes homens nunca precisaram de lambuzar ninguém para se afirmar. As cartas contam a história de uma amizade intelectual que sobrelevou sempre a "razão" de cada um. Numa delas, aliás, Lopes diz a Saraiva que prefere a amizade deste a ter propriamente razão. «Franqueza é amizade e confiança.» Incompreensível, não é? Mas, como escreve Lopes na mesma missiva de 1969, "é tão fácil ser E. L." Ainda hoje é.


 


Adenda: Sobre Óscar Lopes, este "depoimento" de José Pacheco Pereira

«O populismo católico»






«Coisa estranhíssima num país católico, ou que se diz católico, quase ninguém discutiu a política do novo Papa, já mais do que evidente. E essa política é importantíssima para a América e para a Europa, onde a Igreja passa pela sua mais grave crise de sempre. A maioria dos católicos aproveita da Igreja o que lhe convém e rejeita o resto. A doutrina ortodoxa foi substituída por uma mistura de crenças, variável e muitas vezes contraditória, que se adapta melhor ao estilo de vida ocidental, não incomoda os crentes no dia-a-dia e sobretudo não impõe a mais leve proibição ao que eles querem pensar ou fazer. Um católico pode hoje, por exemplo, aprovar os contraceptivos, como pode ser a favor da homossexualidade e do casamento homossexual, sem qualquer dor ou distúrbio de consciência. Nestas matérias, o Vaticano passa por uma instituição obsoleta e anquilosada, cuja intransigência se não deve levar muito a sério. O Papa Bento XVI, um velho professor de Teologia Dogmática, insistiu em relembrar os fundamentos da doutrina e em reconstituir, na medida do possível, uma tradição ignorada e, agora, crescentemente desprezada. Não chegou longe, impedido pela indiferença geral e pela resistência interna e externa, que pouco a pouco o isolou. Quando saiu, o seu pontificado estava sem destino. O Papa Francisco resolveu seguir outro caminho. Sendo - como o seu nome indica - um franciscano, pensa manifestamente em reconstruir a Igreja de baixo para cima. Daí a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa a que ele mesmo conseguiu chegar: não aceitou os sapatos da convenção, recusou o apartamento (suponho que magnífico) que era o dos papas desde o princípio do século XX e escolheu para ele uma hospedaria de padres num canto do Vaticano. Outros gestos como estes não tardarão a vir com o propósito transparente de surpreender e mobilizar o "povo de Deus". O franciscanismo foi na sua origem um movimento popular, que pretendia reconduzir a Igreja à sua pureza primitiva. Este Papa também não se interessa muito por batalhas teológicas, o que lhe interessa é reconquistar as massas, perdidas no ateísmo e na heresia, para o catolicismo: e a sua vocação para o espectáculo irá com certeza mudar a face da Igreja. Mas sem nenhuma concessão no essencial. O Papa Francisco acredita no Diabo e acredita que o Diabo está por detrás das desordens de que os verdadeiros crentes sofreram a partir de Pio XII. E, além disso, o Pai da Mentira é um inimigo familiar.»


 


Vasco Pulido Valente, Público




Nota: Vários leitores "indignaram-se" por VPV se ter referido a Francisco como franciscano e não como discípulo de Santo Inácio. Não sei se é um lapso mas isso só o próprio pode esclarecer. Para além disso, "franciscano" também pode querer dizer o que VPV escreve a seguir, isto é, "a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa". E não tanto a pertença à respectiva ordem. Mas, para usar um novo uso filológico e substantivo facultado recentemente pelo serviço público de televisão, o que aqui importa é a "narrativa" e menos os detalhes. Não é o que toda a gente aplaude?

30.3.13

Sobre nada

Infelizmente já não consegui o Diário de Notícias para ler, em papel, a entrevista do senhor presidente do conselho (de administração) da RTP. E estar a ver um clip com a criatura, sinceramente não tenho pachorra. Bastaram-me, para ficar esclarecido, meia dúzia de reuniões. Mas o Público resume o essencial. E, como seria previsível, a coisa não se recomenda. O senhor presidente não faz uma pequena ideia do que seja o serviço público de rádio e televisão. Confunde-o, desde logo, com audiências. Depois cita mal a BBC e transforma, por exemplo, Sócrates numa espécie de boneco de feira - «o que é popular é bom, e o que é bom é popular» -, reduzindo-o a um mero talk show de televisão de sucesso garantido. Não acredito que Sócrates agradeça ou aprecie especialmente este "populismo popular" do senhor presidente. Sobre a sua relação com o ministro da tutela, o dever de reserva pelo menos a mim impede de produzir qualquer comentário. A ele, pelos vistos, não. Numa completa inversão da ordem natural das coisas, é o senhor presidente quem "avalia" o desempenho de quem o escolheu. E para se estabelecer narcisicamente como o novo campeão nacional da defesa da RTP no modelo actual. Uma vez mais o dever de reserva (o meu) trava, para já, outros desenvolvimentos sobre estas "convicções" presidenciais. O mesmo se diga do "processo" Nuno Santos acerca do qual o senhor presidente também parece ter certezas absolutas, quer de calendário, quer de procedimentos. No lugar dele, eu não teria nenhumas. Sobre nada.

Argo e não só


 


Só esta madugada vi Argo, de Ben Affleck. Parece que ganhou, este, uns quantos óscares. Mais do que a peripécia - o repatriamento bem sucedido, executado no fio da navalha, de meia dúzia de diplomatas norte-americanos no auge da revolução iraniana de 1979 - interessou-me a personagem desempenhada por Affleck, o "especialista" nessa manobra que, famosamente, está sozinho no  "terreno", entalado entre a missão oficial à última hora abortada "por cima" e a determinação moral (e, no caso, a coragem física) em a levar até ao fim. Nem sempre é possível reagir com sucesso à impotência ou às dificuldades causadas pela pusilanimidade alheia. Quanto tempo inútil se perde, tantas vezes, a tentar explicar "por a mais b" que, por este ou aquele caminho, esta ou aquela omissão se está a levar tudo tão alegre quanto inconscientemente para o fundo? Ou que, ao chamar a atenção para disparates clamorosos se procura fazer elevar a voz crítica, sempre incómoda, claro, mas porventura mais sensata que a da superficialidade manobrista e da facilidade desastrosa? Ou, ainda, que é preciso denunciar o obtuso que parece o óbvio ou não tergiversar perante o óbvio que é mesmo obtuso? Foi ao não ter hesitado em responder a questões como estas, na solidão do quarto de hotel em Teerão, que a personagem de Affleck pôde ajudar aqueles pobres diplomatas norte-americanos a tremelicar de medo. No limite, eles souberam segui-lo.

29.3.13

Merecem perder

À conta das eleições autárquicas deste ano, têm sido servidos ao país diversos e prometedores "aperitivos". Desde logo a preciosa ambiguidade jurídica em torno da interpretação da chamada lei de limitação "de" mandatos autárquicos. Como o parlamento, do alto da sua excepcional presciência, decidiu que a lei não carecia de ser interpretada a não ser pelos tribunais, estes andam a fazer-lhe a vontade em prestações suaves. Depois, há pessoas que aparentemente fizeram profissão da contingência do voto que receberam para exercer mandatos nas autarquias. E que pretendem manter uma espécie de direito de pernada sobre uma junta ou uma câmara que nunca viram na vida à conta desse extraordinário chamamento. Finalmente sobram aqueles que, com a maior ligeireza, trocam responsabilidades de Estado pela precaridade de uma candidaturazinha paroquial a fim de satisfazer a gula torpe da intriga partidária. Nuns casos como nos outros, merecem perder.

«A verdadeira realeza»

 



 




«No cimo da cruz de Jesus – nas duas línguas do mundo de então, o grego e o latim, e na língua do povo eleito, o hebraico – está escrito quem é: o Rei dos Judeus, o Filho prometido a David. Pilatos, o juiz injusto, tornou-se profeta sem querer. Perante a opinião pública mundial é proclamada a realeza de Jesus. O próprio Jesus não tinha aceite o título de Messias, enquanto poderia induzir a uma ideia errada, humana, de poder e de salvação. Mas, agora, o título pode estar escrito ali publicamente sobre o Crucificado. Ele, assim, é verdadeiramente o rei do mundo. Agora foi verdadeiramente «elevado». Na sua descida, Ele subiu. Agora cumpriu radicalmente o mandamento do amor, cumpriu a oferta de Si próprio, e precisamente deste modo Ele é agora a manifestação do verdadeiro Deus, daquele Deus que é amor. Agora sabemos quem é Deus. Agora sabemos como é a verdadeira realeza. Jesus reza o Salmo 22, que começa por estas palavras: «Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?» (Sal. 22/21, 2). Assume em Si mesmo todo o Israel, a humanidade inteira, que sofre o drama da escuridão de Deus, e faz com que Deus Se manifeste precisamente onde parece estar definitivamente derrotado e ausente. A cruz de Cristo é um acontecimento cósmico. O mundo fica na escuridão, quando o Filho de Deus sofre a morte. A terra treme. E junto da cruz tem início a Igreja dos pagãos. O centurião romano reconhece, compreende que Jesus é o Filho de Deus. Da cruz, Ele triunfa sem cessar.»




Joseph Ratzinger

Do CEO caiu uma estrela

O dr. Pires de Lima, CEO da Super Bock, é entrevistado pelo Expresso. Às tantas deparo com a "chave" da entrevista tal como nos sonetos se espera pelos três versos finais para o interpretar: "pensamos em nós próprios e isso é muito salutar". O CEO não estava, evidentemente, a pensar nas cervejas (por sinal as que prefiro), na economia ou na mudança da hora mas no seu partido. Só que um partido que faz parte de uma coligação e cujo lema - "salutar" - é o "pensamos em nós próprios", parece mais uma organização autocomplacente do que um partido convicto na coligação constituída com um propósito nacional e cívico que transcendia os partidos que a integram. Para citar o ministro Paulo Macedo, pessoalmente isto, ou o referido CEO, não me preocupa nada. Todavia, o que parece em geral é

28.3.13

Não haja ilusões


 


O Papa Francisco escolheu prodigalizar o momento do lava-pés pascal numa instituição de menores delinquentes, conhecida como "reformatório" ou, no nosso "correcto" jargão jurídico, por "centro educativo". Também afirmou que não quer que os padres andem "tristes" e trocou os aposentos papais no Vaticano por um quarto, salvo erro, na Casa de Santa Marta, ao lado. Não usa uma cruz de ouro e prefere manter os sapatos que usava. Sai a torto e a direito do jipe para saudar os circunstantes na praça de São Pedro. E por aí fora. Estes episódios têm feito a alegria daqueles que imaginam que o Papa - um homem tipicamente latino-americano -, por causa de um gesto ou outro, é "diferente" dos que o antecederam. Como repetia o Papa Emérito Bento XVI, a Igreja não pratica o proselitismo. Francisco não guarda uma fé distinta dos sucessores de Pedro. Terá um modo diferente de a evidenciar, mas é só uma (e única) a que proclama e defende. Há tantos caminhos para Deus quanto há homens, escreveu Ratzinger. O Papa sabe isso melhor do que ninguém. Não haja ilusões.

Torquato






O Torquato partiu. Em silêncio. Meu querido Amigo, que falta me vão fazer as nossas conversas sobre a história recente desta treta toda, destes velhos gnomos que Você tão bem conhecia e que andam por aí, entre a puta, o cabrão e o tartufo, armados nos humanos que nunca chegarão a ser. Não esqueci nada desses momentos de boa disposição, ironia e realismo sobre o curso disto tudo - a sua humanidade, a sua generosidade, a sua poesia. Agora, Torquato, o Senhor é o seu pastor. Nada, ao contrário de nós, lhe faltará.

Vem aí mais chuva


 


Lisboa, pelo menos, está invadida por turistas. Mesmo sob uma pressão meteorológica a raiar já o insuportável, eles aí andam, todos contentes, a fazer nos restaurantes cativos do fisco as vezes dos autoctónes tombados pela crise e pelo tédio pascal. E também se deslumbram nos eléctricos que fotografam profusamente antes de lhes furtarem, lá dentro, a máquina e o resto. Os de Lisboa terão ido presumivelmente para as hortas, para a "terra", e uns quantos para "low costs" de ocasião. Num alfarrabista, "apanhei" o Óscar Lopes. Está feita a páscoa. Vem aí mais chuva.

"Tomar a palavra"


 


Há dois momentos "fortes" na entrevista de José Sócrates. O primeiro, o único erro que assumiu: ter aceitado formar um governo minoritário, em 2009, depois da perda de 500 mil votos e ter continuado como se vivesse em maioria absoluta. Depois, quando chamou à colação a necessidade de trazer a política para o debate público e para o "comando" e para a "direcção" políticas. Foi só isso, aliás, que ele praticou, com método e proficiência, durante cerca de uma hora. Não vem mal algum ao mundo, como se verá, Sócrates ter decidido "tomar a palavra" mesmo contra os seus previsíveis ódios de estimação. Mas em democracia, como costumo dizer, quem bebe pelo gargalo compra a garrafa. De resto, se o país não continuar a "viver habitualmente" será sempre apesar dele. E não por causa da decisão dele em falar.

27.3.13

"Estratégia meticulosamente pensada"


 


A partir do minuto 4.

Vivências de humanidade e de cultura






«Mas havia um terceiro ponto de encontro com agenda e lugar obrigatórios. Refiro-me às tardes de Sábado na Livraria Leitura, ao cimo da Rua de Ceuta. Carlos Porto e Fernando Fernandes dirigiam-na e sabiam o que faziam. Muitas vezes, nem sequer tentavam vender livros aos clientes. O seu papel era o de catalisadores, indutores, propiciadores de contactos e diálogo, promotores inteligentes das novidades que chegavam em turbilhão. E também o de concederem um generoso crédito para a compra dos livros mais desejados quando não se podia chegar a eles de outra maneira. Sei que esses tempos não regressam e que volta e meia é preciso desencafuá-los dos esconsos da memória nas suas vivências de humanidade e de cultura. Óscar Lopes era uma presença regular e interveniente em todas estas situações. Sempre atarefado, com uma agenda que era um puzzle ilimitado de tarefas profissionais, era capaz de um comentário, de uma intervenção, de uma remissão, de uma ajuda amiga, que não aspiravam a nada de definitivo, excepto a uma coisa: mostrar-nos que há sempre mais mundos a integrar de cada vez no segmento da realidade que consideramos e que a vida, sem essa capacidade de enriquecimento crítico, é muito pouco interessante. Ou, como uma vez lhe ouvi dizer da forma mais despretensiosa do mundo e nunca esquecerei: "Todos nós fazemos filosofia, e da melhor, quando falamos."»


 


Vasco Graça Moura, DN


 


Foto: Porto, 10.1.1969, sessão de autógrafos na Livraria Leitura com Jorge de Sena. Presentes Óscar Lopes e Vasco Graça Moura entre outros.

26.3.13

Menos uma estátua do Comendador






Este post é de 2008. Passaram quase cinco anos. Finalmente Vicente Moura saiu. Parabéns ao dr. José Manuel Constantino.

Pavor e tédio

Passei pela Rua Anchieta para dar um abraço ao Francisco José Viegas. Depois assisti à missa celebrada na Igreja da Encarnação pelo meu amigo cónego João Seabra. A Palavra do dia - Jo 13,21-33.36-38 - alude ao momento que antecede a saída de Jesus para a "noite escura" da solidão mais radical. «Naquele tempo, estando Jesus à mesa com os discípulos, sentiu-Se intimamente perturbado e declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem de quem falava. Um dos discípulos, o predilecto de Jesus, estava à mesa, mesmo a seu lado. Simão Pedro fez-lhe sinal e disse: «Pergunta-Lhe a quem Se refere». Ele inclinou-Se sobre o peito de Jesus e perguntou Lhe: «Quem é, Senhor?» Jesus respondeu: «É aquele a quem vou dar este bocado de pão molhado». E, molhando o pão, deu-o a Judas Iscariotes, filho de Simão. Naquele momento, depois de engolir o pão, Satanás entrou nele. Disse- lhe Jesus: «O que tens a fazer, fá-lo depressa». Mas nenhum dos que estavam à mesa compreendeu porque lhe disse tal coisa. Como Judas era quem tinha a bolsa comum, alguns pensavam que Jesus lhe tinha dito: «Vai comprar o que precisamos para a festa»; ou então, que desse alguma esmola aos pobres. Judas recebeu o bocado de pão e saiu imediatamente. Era noite. Depois de ele sair, Jesus disse: «Agora foi glorificado o Filho do homem e Deus foi glorificado n’Ele. Se Deus foi glorificado n’Ele, também Deus O glorificará em Si mesmo e glorificá l’O-á sem demora. Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos judeus, também agora vos digo: não podeis ir para onde Eu vou». Perguntou-Lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?». Jesus respondeu: «Para onde Eu vou, não podes tu seguir-Me por agora; seguir-Me-ás depois». Disse-Lhe Pedro: «Senhor, por que motivo não posso seguir-Te agora? Eu darei a vida por Ti». Disse-Lhe Jesus: «Darás a vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo, sem que Me tenhas negado três vezes». Na homilia, o João Seabra referiu-se a Mateus sobre o mesmo momento: "não lhe serviram de estorvo a tristeza, o pavor e o tédio". Isto é, o Senhor não recuou perante a traição, a negação e a cruz. Mas sentiu pavor e tédio na "descida" solitária para a escuridão do mundo, para a "condição humana" todos os dias confirmada.

Compro ou aceito



Os dois volumes.

Os mesmos, segunda parte, ou o verdadeiro problema

Vistos pelo Henrique Monteiro. «Sempre me surpreendeu a sanha contra o ministro Álvaro. De todos, foi aquele que desde o início mais ataques sofreu. (...) Aqui há muito tempo, mal começaram as críticas ao ministro da Economia, coloquei, na crónica que escrevo na última página do Expresso, a seguinte hipótese: será que detestam Álvaro porque ele não é um 'almoçarista'? Um daqueles ministros que dá palmadinhas nas costas dos empresários e os deixam utilizar os fundos do Estado para os seus negócios? Será porque Álvaro, finalmente, não entende as funções de ministro da Economia como muitos (ou todos) os seus antecessores? Como uma espécie de delegado sindical dos empresários dentro do Conselho de Ministros? Na verdade, bem ou mal, Álvaro lá teve a sua concertação social, lá falou da única medida positiva que se ouviu durante estes tempos (uma redução de impostos, no caso o IRC). Em suma, não se distinguiu particularmente pela negativa em relação aos seus pares. A dúvida persiste, pois. O problema está em Álvaro ou em quem quer correr com Álvaro?»

25.3.13

Os mesmos

José Gomes Ferreira, na SIC, explica porque, volta não volta, o ministro da economia é "remodelado", a propósito dos preços da electricidade, dos interesses (financeiros e não só). E porque são sempre os mesmos a "fazer" a "remodelação". Devem achar que somos todos parvos. 

24.3.13

A "novidade"


 


A "concorrência" de Sócrates, o comentador, já se pronunciou praticamente toda sobre o exercício. Faltou, porém, dizer uma coisa fundamental. Nem o governo nem a oposição souberam (ou quiseram), neste "intervalo", trazer a política para o centro das ponderações e das decisões. Não basta suspirar entre portas por melhores dias (ou melhores pessoas), intrigar a favor ou contra este ou aquele, preencher cargos, apresentar moções, discursos ou gráficos numa novilíngua qualquer para prodigalizar uma política. Não. É mesmo preciso "fazer" política a sério, a famosa velha senhora que, dizem, tem horror ao vazio. Foi precisamente por ter pressentido esse vazio (como calculam, não falei com o homem sobre o assunto) que Sócrates decidiu aparecer para, uma vez mais, separar, suscitar o conflito, o cerne (custa mas é assim) da democracia. Mesmo com um passivo e uma história que o desfavorecem e execram, Sócrates arrisca. Só esse gesto "é" política pura. Dir-se-á que não é um programa que muda a natureza das coisas e que a vergonha, em geral, não abunda. É verdade. Sócrates, aliás, pode acabar, como tantos outros, capturado pelo estúdio de televisão, sem consequências. Só que mais do que a sua vontade - ou a alheia de quem o contratou e consentiu nessa contratação -, é como resposta, (imagino que entre o divertido e o decidido) ao vazio e ao torpor instalados que (pasme-se) Sócrates emerge como uma antiga "novidade". É bem feito. Boa noite e boa sorte.

"Nós seremos os últimos"






O TNSJ, do Porto, recorda Fernanda Alves e Ernesto Sampaio, talvez das poucas histórias efectivas de amor que não me enxofram. Fernanda estava no Porto, no início de 2000, para uma peça e morreu, sozinha, no quarto do hotel onde estava hospedada. Ernesto, em Lisboa, aguentou pouco mais que um ano sem ela. Foi, diria Cesariny, a única pessoa que viu morrer de amor. «A tua ausência é como essas árvores perdidas num jardim ao abandono, que parecem transplantadas de uma floresta antiga, quando um perfume de infância habita a sua madeira. De mim não resta grande coisa. Não me chores. Aqui já não há fogo para apagar. Não me olhes (sei que não podes olhar-me). Estou quase a cair. Já não sinto o meu eu, o meu peso. Perco o equilíbrio, flutuo. Eras tu a gravitação da terra e do céu, e anulaste-as (...) Os últimos, nós seremos os últimos estendidos de uma grande família ignorada que atravessou os séculos dos séculos em termiteiras a perder de vista destruídas e reconstruídas, abatidas quando faz mau tempo, ensolaradas, dissolvidas em chuva, pisadas pelas multidões, sacudidas por abalos, revoltas, incêndios, contágios, milagres obscuros, futilidades ruidosas, feridas de sangue e de água, tiros. Por cima disto nada, ninguém soube nada, ninguém saberá nada.» Os dias felizes não voltam mais.

O regresso do "inspector"



Francisco José Viegas traz esta semana de volta o "inspector Jaime Ramos". Nesse contexto é natural que aproveite a "boleia" que a RTP lhe ofereceu para "coordenar" o telejornal deste domingo. Na realidade, o domingo é o primeiro dia da semana pelo que o que se passou na que terminou porventura já não interessa. Mas foi a semana em que o jornalista Nuno Santos, ex-director de informação da mesma RTP que convidou o Francisco, foi despedido por alegada justa causa, leia-se, por delito de opinião, no lastro de uma "escola" que dificilmente será banida da nossa vida colectiva, e que tem mais epígonos, por acção e omissão, do que se imagina. O substituto de Santos, Paulo Ferreira, não obstante ter-se louvado em Voltaire a propósito do seu magnífico ovo de Colombo, Sócrates ("não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo"), não achou que Santos merecesse idêntica deferência filosófica. A ela preferiu o silêncio cúmplice e autocomplacente. Como escreve Nuno Azinheira no Diário de Notícias, "quando um facto cria ruído e impacto negativo na imagem de uma empresa, nada como criar um novo facto poderoso para que se deixe de falar do antigo." Isto é, não há como um dia depois do outro, do que um Sócrates depois de uma remoção ilegítima como se as pessoas fossem bonecos de trapos. Que diria o "inspector Jaime Ramos" disto?

23.3.13

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar

Algumas pessoas cuja opinião prezo "passaram-se" para o Canal CM TV o que me priva de os ver e ouvir porque não sou cliente MEO. É o caso do Pedro Santana Lopes. E vai ser interessante escutá-lo na segunda-feira sobre o seu ex-colega de comentarismo, numa outra encarnação, que lhe sucedeu como primeiro-ministro. Hoje vi e ouvi Marques Mendes. Oxalá outros tenham feito o mesmo.

Um bem do espírito


 


Estou a reler Óscar Lopes. É a melhor maneira de homenagear os melhores de entre nós em tempos de ocupação da esfera pública quase exclusivamente pelos piores de nós. É, nas suas palavras, um bem do espírito.

Hipocrisia

Esta notícia resume eloquentemente o regime e explica, a partir de um episódio circunstancial - que Vasco Pulido Valente classifica no Público como uma "vergonha nacional" pelo que poderá tornar-se não tão circunstancial quanto isso - por que é que o modelo de gestão da RTP jamais, repito, jamais será alterado. Um dia explicarei, com o detalhe sempre desagradável mas clarificador dos factos, porquê. Nem que seja porque a hipocrisia deixa-me doente.

Por um fio

Retido na cama por um mau estar geral provocado pelo meu sistema otorrinolaringologístico (e pelo "sistema", em geral), leio jornais. Detecto no Expresso uma frase de Luísa Meireles que resume bem o "estado da arte": "em boa verdade, tudo está por um fio".

22.3.13

Óscar Lopes


 


Morreu Óscar Lopes. Não sei se na secretaria de Estado da Cultura o conhecem. É provável que nas próximas horas lhe dediquem as costumeiras linhas apesar de Lopes não ser um "evento" ou um sapato gigante enfiado numa sala. Há uns anos, numa feira do livro em Cascais, arranjei o "par" que me faltava dos seus livros de ensaios editados pela Inova, do Porto, Ler e Depois. O outro intitula-se Modo de Ler". Ler e Depois foi publicado em 1969. Ou seja, em pleno "fascismo". Lopes nunca escondeu a sua "formação" ideológica (marxista) mas nunca fica diminuída a escrita. Pelo contrário, lêem-se referências a autores que só nas décadas seguintes surgiram sob o signo de "grandes referências". Ou de outros, como Heidegger, cujo "modo de ler" de Óscar Lopes ajuda a compreender mesmo através de demoradas e perspicazes notas "de pé de página". Lopes era irmão de Mécia, a mulher de Jorge de Sena, que, para felicidade dela, ainda reside nos Estados Unidos. Com António José Saraiva escreveu a mais reeditada História da Literatura Portuguesa. Dvidiram bem o trabalho e, dos dois, há uma recolha relativamente recente da correspondência. O seu desparecimento é mais um no lastro de perda em que mergulhámos enquanto "cultura" e sociedade. As coisas são o que são.

Quem bebe pelo gargalo compra a garrafa

Nunca fui dado a petições públicas internáuticas. Recentemente assinei uma destinada a saudar o pontificado do Papa emérito Bento XVI que foi entregue na Nunciatura. Sucede que ontem, por causa de Sócrates, apareceram pelo menos duas petições, uma "contra" e outra "a favor", e a primeira, em menos de 24 horas, já reunia mais de 95 mil assinaturas enquanto a segunda ainda não tinha atingido as 6 mil. O que é que isto vale? Nada. Aliás, alguns dos que subscreveram a primeira, a do "contra", não têm por que se queixar. Vi por exemplo Ribeiro e Castro, do CDS, a verberar a coisa por ser na RTP e, suponho, por se tratar de quem se trata. Um argumento idiota, este último, porque Sócrates não tem menos direitos a pronunciar-se nas televisões do que muitos dos papagaios que por lá costumam passar. E julgo de todo o interesse ouvi-lo na próxima quarta-feira numa grande entrevista a Vítor Gonçalves e a Paulo Ferreira. Já a ligação das palavras de Castro à RTP merece duas ou três linhas. Castro é um dos campeões nacionais pela manutenção da RTP tal como está - paga, directa ou indirectamente pelos contribuintes e por seis minutos/hora de publicidade. Decerto muitos dos que o acompanham na petição também são. A justificação que o director de informação da RTP deu para a contratação de Sócrates é coerente com o registo "RTP tal como está", isto é, a placa político-mediática giratória das vozes dos donos e ex-donos dela. Castro opôs-se tenazmente à alteração do modelo de gestão da empresa enquanto esse debate esteve em cima da mesa. E até viu o actual presidente do conselho de administração da RTP juntar-se-lhe na 25ª hora e arrebatar a medalha de ouro do campeonato "não mexam no modelo", "não privatizem", apesar de antes ter defendido outra coisa. Agora que teve o que quis, protesta. Ora quem bebe pelo gargalo compra a garrafa.

21.3.13

Debaixo do nevoeiro


 


Depois do nevoeiro introduzido, certamente por mera coincidência, pelo "caso Sócrates", a realidade. Por um lado, «a resolução dos problemas no nosso país não está nos salários baixos.» Por outro, «se a Europa quiser realmente evitar o declínio, então a Europa tem que mudar. Só com investimento, crescimento e criação de emprego é que a Europa pode ter futuro.» Dito isto, estamos a falar de decisões políticas. Sem decisão e coordenação política fortes - e não com taticismos e chico-espertismos aprendidos nas cadeiras gastas das secções partidárias - não vamos a lado nenhum.

Aceitam-se apostas

Como aqui referi, sou ferozmente adepto da liberdade de expressão. Isso inclui, naturalmente, o cidadão José Sócrates. É-me indiferente que ele "comente" na televisão pública ou noutro sítio qualquer -"les beaux esprits se rencontrent". As coisas que para mim são verdadeiramente relevantes não passam por pessoas como o eng. Sócrates, ou sucedâneos, isto é, por questões e figuras apenas pedestres. A "notícia", sim, interessa-me. Não é por acaso que ela aparece no dia seguinte ao despedimento por delito de opinião do antigo director de informação da RTP. Não é por acaso que, numa rede social, o responsável pela comunicação da RTP rejubila com a "ideia" apesar de, e passo a citá-lo ipsis verbis, «esqueci-me de dizer q tenho pena de a ideia de contratar o Scrates nao ter sido minha.» De quem terá sido, então? De Seguro, duvido. De Cavaco Silva, também. E não creio que o primeiro-ministro perca tempo a ver televisão. Aceitam-se apostas.


 


Adenda (com a devida vénia ao Manel Falcão no FB): «Pensamento para o final do dia: quando uma determinada entidade está a ser muito falada em função de alguma coisa que aconteceu, a melhor maneira de deixar de falar do assunto é criar um novo facto que sirva para iniciar outro debate. Não sei porquê, lembrei-me disto depois de ter olhado para o ciclo de comunicação da RTP ao longo desta semana.»

Atracção pelo muro

«O que acaba de se passar com Chipre assusta. No dia a seguir ao completo fiasco do Conselho Europeu dedicado ao emprego e ao crescimento, a União Europeia decide abordar o grave problema financeiro cipriota atacando o coração de sistema bancário, isto é, a confiança dos cidadãos nas instituições que têm de garantir a segurança dos seus depósitos. Há de facto um sério problema de impunidade financista em Chipre que não pode ser ignorado. Mas ele não pode ser resolvido poupando mais uma vez os especuladores e caindo em cima das poupanças dos cidadãos, impondo-lhes taxas que aparecem como uma inequívoca forma de extorsão. Trata-se de uma machadada que se pode vir a revelar irreparável, não só na confiança dos cidadãos no sistema bancário mas também nas instituições europeias que promovem e caucionam este tipo de soluções. Era do que a Europa, nesta fase, menos precisava. Mas parece que, também aqui, a atracção pelo muro é muito forte.»


 


Manuel Maria Carrilho

Axioma

A pátria está doente.

20.3.13

Cá estaremos

Hoje é um dia triste para os defensores da liberdade de expressão. O despedimento de Nuno Santos por parte da administração RTP é, na sua gravidade, um sinal. A memória de Soares Louro ou de Cunha Rego, a decência de Ramalho Eanes ou a competência de Almerindo Marques, enquanto responsáveis máximos pela história da RTP nas últimas décadas, foram indignamente aviltadas. Porquê? Porque N. Santos é removido por um "crime" consagrado na legislação do Estado Novo - o delito de opinião - e que há muito desapareceu quer do chamado sentimento jurídico colectivo (salvo, é claro, da mente daqueles que olham para o Outro como mero capacho ou que só sabem viver em ambiente de "respeitinho"), quer da própria lei, a começar pela Constituição de 1976. N. Santos é removido, não por ter sido comprovadamente incompetente como jornalista ou director de informação, mas porque teve a "ousadia" de se dirigir (recorro aos termos do Estado Novo) menos respeitosamente ao senhor presidente do conselho (de administração) em declarações prestadas, imagine-se, no Parlamento. O mesmo que, publicamente, tinha afirmado que nenhum trabalhador de RTP seria perseguido disciplinarmente por causa do incidente dos chamados "brutos". Ora se não foi por isso, fica inequivocamente claro por que foi - delito de opinião. Coisas destas, num estado de direito democrático, devem debater-se na esfera pública (condenando-as activamente e sem reservas mentais de qualquer espécie) e resolver-se nos tribunais, sem "pressões" e "recados" ameaçadores. Como escrevi na altura em que este processo kafkiano começou, não se atira impunemente a honra de quem quer que seja aos cães com processos sumários ou tentativas de linchamentos públicos. O velho Soares, onde nem tudo é famosamente mau, tem razão nisto: só é derrotado quem desiste de lutar. Cá estaremos.

19.3.13

O "desenho"

De repente descobriu-se que o "programa de ajustamento", afinal, estava mal "desenhado". Se bem me lembro, os "desenhadores" rodaram por três partidos, faz precisamente agora dois anos, para garantir a qualidade consensual do "desenho". Houve, aliás, quem se gabasse de a parte mais bonita do "desenho" possuir direitos autorais. Ao fim de sete revisões e avaliações do "desenho", o dito não parece agradar especialmente a ninguém. Por baixo do "desenho", porém, está a realidade, a triste realidade, constituída pela vida das pessoas. Se o "desenho" não melhora a realidade dessas pessoas, para que é que ele serve?

Pedaços de céu cinzento e a luz da esperança


 


Sob um céu quase primaveril em Roma, Francisco iniciou oficialmente o seu pontificado. «Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afecto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão (cf. Mt 25, 31-46). (...) Na segunda Leitura, São Paulo fala de Abraão, que acreditou «com uma esperança, para além do que se podia esperar» (Rm 4, 18). Com uma esperança, para além do que se podia esperar! Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança.» Aqui, debaixo de um inverno que tarda em desaparecer, num momento de sério desânimo nacional e de manifesta desconfiança na capacidade institucional em romper esse desânimo, num momento de inexplicável teimosia em não querer perceber que ocorreu um ponto fatal de chegada que não dá sinais de ser rapidamente contornado, a palavra de Francisco ressoa com a pureza do realismo da verdade racional da fé: «perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança

18.3.13

A exaltação das fraquezas

«Todos nós somos convidados para entrar num castelo, diariamente, vá lá saber-se por quem. Pode o castelo estar cheio de esplendores e de multidão ruidosa que não deixará de acabar em sepulcro, mais depressa do que seria de esperar, se não desconfiarmos dessa exaltação de fraquezas e se, quando ficarmos sem fôlego, não soubermos que esse é o momento de nos reencontrarmos, reconquistando a dignidade e a personalidade. O castelo é um inferno onde cada instante é um milagre. Agarrar esses instantes, que formam o tempo, escapar da ladainha dos que mergulharam no ruído, viver como um desafio, ter a honra de não se submeter a quem não merece submissão e de depender do amor de quem merece essa dependência, é o que deveria ser - se pensássemos. Mas só quando se está cansado de nunca estar só é possível vencer a violência da solidão e pensar no que vale a pena. As coisas são o que são.»


 


Victor Cunha Rego

Ler os outros pelos outros



Apesar de o autor ser apologista do acordo ortográfico ilegal, como referi noutro lugar não se trata propriamente de um "soarista" indefectível, aliás, como eu. Mas a leitura do livro tem-me divertido e ilustrado. E Soares, goste-se ou não, é uma personagem e não um gnomo.

A "reforma"

Com o devido respeito, parece-me que existe um pequenino equívoco em torno dos "debates" e "conferências" sobre a reforma do Estado. Na realidade, a reforma do Estado está implícita em qualquer programa de qualquer governo. Nenhum governo é escolhido para pastar simplesmente a vaca. Até um governo de transição para eleições, como da eng.ª Pintasilgo em 1979, fartou-se de "reformar" e de legislar.  As reformas do Estado que estão previstas são tipicamente medidas que decorrem da acção política e administrativa do governo tal como a Constituição a define. E, agora, de algumas "obrigações" impostas pelo "ajustamento" que tendem a confundir reformas com tesouradas. Não é preciso dourar a pílula com conversas ensimesmadas e inúteis.

16.3.13

Era uma vez a Europa

«E cruza a linha que o Eurogrupo tinha dito que não ultrapassaria.»

A nossa dimensão


 


Passam vinte anos sobre a morte de Natália Correia. A poesia de Natália é desequilibrada na sua qualidade e há demasiada prolixidade nos seus escritos. O Fernando Dacosta acha que era tocada pelo "mistério", um respeitável disparate, mas sempre preferi o seu lado bem terreno que misturava, nem sempre nas doses adequadas, com um certo romantismo político e cultural  traduzido na veemência das suas posições públicas, mesmo as aparentemente mais contraditórias. Natália pertencia a uma "escola" de polemismo que desapareceu por completo. Agora, uma "polémica", ou uma crítica, é tomada por coisa pessoal e as pessoas afastam-se estupidamente umas das outras em nome de uma "honra" que nem sequer dá para ser perdida. Pessoas como ela fazem falta nas horas anódinas que vivemos onde "a nossa dimensão/ Não é a vida. Nem é a morte."


 



Dão-nos um lírio e um canivete

E uma alma para ir à escola

E um letreiro que promete

Raízes, hastes e corola.


Dão-nos um mapa imaginário

Que tem a forma duma cidade

Mais um relógio e um calendário

Onde não vem a nossa idade.


Dão-nos a honra de manequim

Para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos o prémio de ser assim

Sem pecado e sem inocência.


Dão-nos um barco e um chapéu

Para tirarmos o retrato.

Dão-nos bilhetes para o céu

Levado à cena num teatro.


Penteiam-nos os crânios ermos

Com as cabeleiras dos avós

Para jamais nos parecermos

Connosco quando estamos sós.


Dão-nos um bolo que é a história

Da nossa história sem enredo

E não nos soa na memória

Outra palavra para o medo.


Temos fantasmas tão educados

Que adormecemos no seu ombro

Sonos vazios, despovoados

De personagens do assombro.


Dão-nos a capa do evangelho

E um pacote de tabaco.

Dão-nos um pente e um espelho

Para pentearmos um macaco.


Dão-nos um cravo preso à cabeça

E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça

A forma da alma que o procura.


Dão-nos um esquife feito de ferro

Com embutidos de diamante

Para organizar já o enterro

Do nosso corpo mais adiante.


Dão-nos um nome e um jornal,

Um avião e um violino.

Mas não nos dão o animal

Que espeta os cornos no destino.


Dão-nos marujos de papelão

Com carimbo no passaporte.

Por isso a nossa dimensão

Não é a vida. Nem é a morte.

Ideias fortes

Luís Marques Mendes estreia-se este sábado, como comentador, no telejornal da SIC generalista. Tem o portefólio cheio. Com a política praticamente ausente da vida pública - e a pouca que existe não se recomenda -, a Mendes não faltam "temas". Os domésticos são quase todos desastrosos e, por isso, precisam de ideias fortes. Resta Francisco, o novo Papa, a surpresa luminosa nestes tempos que vão ficar para a história pelos piores motivos.

15.3.13

Avaliação

Hoje, dois economistas investidos em funções políticas falaram. Um fez o "balanço" da avaliação dos funcionários dos credores externos no jargão desses funcionários. Outro olhou para a realidade, enquadrou as questões nacionais nas questões europeias, apelou ao crescimento económico e ao investimento por causa do emprego e explicou que quaisquer mudanças nas políticas de finanças públicas e das funções do Estado têm de passar pelo parlamento. Também aludiu ao cansaço europeu  - das pessoas, das empresas - com a austeridade. Uma avaliação é sempre uma avaliação política. E este economista, por sinal Presidente da República, fez a sua. Concordo com ele.

Confessar a única glória


 


O novo Papa foi claro no improviso em que consistiu a sua primeira homilia como sucessor de Pedro: «edificar a Igreja sobre o sangue do Senhor, derramado na cruz, e confessar a única glória, Cristo crucificado: assim a Igreja avançará.» Mais. «Quando professamos um Cristo sem cruz não somos discípulos do Senhor, somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, Papas, mas não discípulos do Senhor.» No lastro de Bento XVI, Francisco entende que não cabe à Igreja dedicar-se ao proselitismo, ser uma espécie de "ONG piedosa". É "sobre a rocha", e não em cima de "castelos de areia", que a universalidade do escândalo da Cruz se revela. Em plena Quaresma, importa pois afirmar a fé no sentido apontado pelo Papa que veio "do fim do mundo". Nas palavras do então cardeal Ratzinger, «o Senhor saiu: é este o sinal da sua força. Ele desceu para a noite de Getsémani, para a noite da Cruz, para a noite do túmulo. Ele desceu porque, no confronto com a morte, é mais forte; porque o seu amor leva o selo do amor de Deus que tem mais poder que as forças da destruição. É precisamente nessa saída, no caminho da Paixão, que está o acto da sua vitória; no mistério do Getsémani já está o mistério da alegria pascal. Ele é o mais forte, não há nenhum poder que possa resistir-Lhe e nenhum lugar onde Ele não esteja. Ele chama-nos a tentar a caminhada com Ele, porque onde houver fé e amor, aí estará Ele, aí estará a força da paz que supera o nada e a morte.»

14.3.13

Erro de casting

Quando vamos à ópera e, sobretudo, estimamos o intérprete e ele falha, sentimos aquilo como se tivéssemos sido nós a falhar - enterramo-nos na cadeira e esperamos que passe. É o que sinto cada vez que ouço o presidente do conselho de administração da televisão pública. Não por ele, evidentemente, mas por quem manda nele.

Jorge Jesus* upgraded?


 


Transcrevo na íntegra o artigo de Manuel Maria Carrilho no Diário de Notícias, com a devida vénia amiga, porque nesse se desmonta um dos maiores embustes "comunicacionais" em funções, o extraordinário José Gil e a sua indecifrável "inscrição", ou "não inscrição", consoante o veio da hora. Confesso que na altura em que publicou O Medo de Existir o li com atenção. Só que, daí em diante, o referido Medo entrou em crisálida e Gil não mais saiu daquilo. Repetiu-o em doses industriais, consoante os "tempos" e os protagonistas, como um vulgar e superficial comentador dos muitos que enxameiam os jornais, as revistas e as televisões com a sua alacridade. Safa-se um livrinho (e nem sequer todo) sobre Fernando Pessoa e pouco mais. Que Gil inscreva a modéstia e o silêncio na sua cabeça de uma vez por todos, são os meus mais sinceros votos.


 


«A ideia surpreende: "Os portugueses, pela primeira vez, estão a entrar numa mudança da sua mentalidade profunda. Eles já não vão contentar-se com o tal paradoxo da não-inscrição, de viver em círculo sempre, como a pescada de rabo na boca, a fugir sempre à realidade, numa irresponsabilidade. Não. Pela primeira vez, o português encontrou a realidade. E encontrou a realidade como? Quando lhe tiraram tudo, todas as possibilidades." A ideia é de José Gil, e foi exposta aqui nas páginas do DN, em entrevista de João Marcelino, publicada no domingo passado. E ela é intrigante: será mesmo assim, o País estará, ao fim de uma inesperada série de choques e de privações, a descobrir uma outra luz no túnel da realidade e a mudar de mentalidade? Seriam talvez boas notícias, finalmente, mas não creio que José Gil tenha razão. E as minhas dúvidas reforçam-se ao ler o que ele afirma nesta conversa sobre o poder ou a democracia, a política ou o socialismo, bem como o que diz sobre a crise que se vive hoje, por cá e no mundo. A dificuldade surge com a noção de "não-inscrição", há muito usada pelo autor para interpretar Portugal. Ele pensa que há um problema especificamente português, que radicaria no que designa como a "não-inscrição", noção de sentido vago e equívoco, mas que no essencial aponta para a convergência de duas falhas: a da consciência histórica e a da consciência subjetiva daquilo que em cada momento se está a viver, processo que estaria na origem de um "medo de existir" que seria típico do Portugal contemporâneo. A principal dificuldade, a meu ver, está em que esta "não-inscrição" pouco ou nada adianta em relação aos conceitos tradicionais de alienação social, de negação psíquica ou de reconstrução histórica, muito usados para descrever os fenómenos e os acontecimentos a que José Gil se refere. Que, de resto, na grande maioria dos casos, só por caridoso simplismo ou inesperado paroquialismo se pode dizer que são especificamente portugueses... E se isto já era bastante claro há dez anos, quando o autor sugeriu esta alambicada noção, hoje é-o muito mais. É justamente isto que o confronto com os acontecimentos da atual crise, abordados na entrevista, revela de um modo inequívoco. Senão vejamos: a certa altura, José Gil afirma que hoje "as condições são completamente diferentes, não há uma nova Revolução dos Cravos a fazer. O que há a transformar é todo o sistema político. Há que reinventar a democracia que queria ser inscrita pela Revolução dos Cravos." João Marcelino pergunta então ao seu entrevistado - antecipando bem todo o interesse, para os leitores, da radical reinvenção política assim reclamada - quais as pistas que ele sugere nesse sentido. A resposta não podia ser mais esclarecedora: "Não, não tenho pistas", para a seguir remeter para "muitos pequenos autores internacionais que pensam, que querem pensar outra sociedade, uma sociedade a que eles ainda chamam socialista e que tem de ser inventada". Lapidar!... Assim arrumada a reinvenção da democracia, vejamos o que diz José Gil sobre o socialismo. Ele é de facto diversas vezes referido na conversa, mas pouco se sai das trivialidades mil vezes repetidas sobre a sua situação depois da queda do Muro de Berlim, e do seu recolhimento à famosa gaveta. Contudo, acrescenta: "Meteu-o na gaveta porque não tinha outro socialismo a apresentar, porque não havia, porque aquele já não dava! E o que ele devia ter feito, e isso é um enigma e um mistério, digo-lhe eu, só se explica talvez por preguiça mental, porque a preguiça mental traz benefícios secundários de gozo e de prazer." A novidade, aqui, é que a preguiça parece substituir a "não-inscrição", a não ser que tenham sido sempre - a hipótese é plausível - a mesma coisa!... Com arroubos destas sobre a democracia e o socialismo, o leitor poderá estranhar que a "não-inscrição" reapareça agora, digamos, reinscrita com um papel de destaque nas manifestações que têm ocorrido por todo País. Mas, diz José Gil, "o que se está aqui a manifestar não é uma contestação só de uma política. É isso também, mas é outra coisa mais, é uma manifestação porque, precisamente, 'eu me quero inscrever'". E o que é que isso significa, perguntará o leitor? Pois bem, diz José Gil, "eu quero inscrever-me significa: eu quero ter uma família, quero ter filhos, quero ter futuro, quero ter iniciativa". Bom, se é disto que se trata, é de prever que as inscrições agora sejam muitas. Mas será isto a tal mudança de mentalidades que José Gil diagnostica no País? Não o creio, repito. Portugal está hoje com uma intensidade sem paralelo desde 1974, tão atordoado como desvitalizado, e segue rebocado numa crise que ninguém parece capaz de enfrentar. É isso que as manifestações na verdade revelam, no seu silêncio cada vez mais pesado, na sua quase total inarticulação de ideias ou de propostas, nos seus olhares desamparados. Imaginar aqui "energias e forças" de inspiração mais ou menos "grillista", pensar a política e relação com o poder em termos do que "mete medo", etc., tudo isto não passa de tributos pueris que se pagam a uma radicalidade palavrosa que parece pensar quando, na verdade, apenas impede de compreender.»




*Um competente treinador de futebol a quem endereço todas as venturas.

13.3.13

As benevolentes

Os nossos patuscos "meios de comunicação social" foram buscar os tudólogos do costume, e dois ou três católicos "progressistas", para comentar o novo Papa. Vi, por exemplo, a Constança Cunha e Sá a ter de pôr na ordem a sra. D. Sande Lemos - duma coisa chamada "somos igreja" mas que não deve fazer a mais vaguíssima ideia do que seja a igreja - a tremelicar contra Raztinger, o perigoso "conservador", como se o Papa Francisco representasse um misto de Obama com Dilma no Vaticano. Noutro sítio, o cachimbeiro prof. Rosas, ao lado do freizinho Domingues e de uma alta comissária para os "diálogos", insinuava contemporizações do novo Papa com a ditadura argentina e muita crítica à "modernizadora" Kirchner o que, vindo de um historiador, só um pano encharcado na cara poderia eventualmente resolver. Nem o baladeiro padre Borga escapou. E assim sucessivamente na costumada insolência ignorante com que se fala e escreve sobre tudo sem saber nada. Alguém no seu perfeito juízo católico, apostólico e romano imagina que Bergoglio representa alguma descontinuidade em mais de dois mil anos de história da Igreja fundada por Pedro? Ou que seja, à semelhança dos que o antecederam, susceptível da menor tergiversação relativamente à fé e aos seus fundamentos?

"Tu es Petrus"



«Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais o foram buscar quase ao fim do mundo… Eis-me aqui!»

Hope against all hope

O "plano"


 


Por ocasião do 56º aniversário da RTP, escrevi este post. Entretanto o conselho de administração entregou ontem ao ministro da tutela um "plano" que apelidou de "reestruturação e redimensionamento" da empresa e o ministro, por sua vez, entregou-o à comissão parlamentar de ética e comunicação por onde passou de manhã. Como escrevi naquele post, «a realidade não é famosa: quebra brutal nas audiências, insatisfação e desmotivação dos trabalhadores, direcções erráticas, autocomplacência presidencial e um processo disciplinar por delito de opinião a um director com vista ao seu despedimento. Tudo somado, isto não prodigaliza uma ambição com futuro nem homenageia um passado indisputável.» Durante cerca de um ano e meio, trabalhei ao lado de Miguel Relvas para ajudar a calibrar o papel da RTP no meio audiovisual português. Suponho que falhei e, como me competia, tirei daí a devida ilação. Não acredito, porém, que este "plano" - e muito menos este conselho de administração ou o seu actual presidente, em concreto, que foi praticamente "transformado" em secretário de Estado para a RTP - altere a conclusão ali exposta: a RTP, no Estado ou fora dele, merece melhor.

O dever do cepticismo

Tenho andado a ler esta biografia de Soares a qual, por vezes, me arranca enormes sorrisos. Ainda vou por alturas das eleições para a constituinte, em Abril de 1975, e Joaquim Vieira, pelo recurso a depoimentos certeiros, de facto reconstitui um percurso notável tanto pela persistência quanto, sobretudo, pela contingência. Ficamos a saber que se dormia a sono solto nos longos conselhos de ministros do "gonçalvismo" (Vasco Gonçalves, pelos vistos, não abdicava da sua sesta e prolongava a coisa até madrugada sem que antes não dormisse mais um bocadinho), que Soares foi "identificado" por seguranças privados da facção esquerdista do PS antes de poder entrar no congresso de 74 na Aula Magna («Vão bardamerda mais a identificação, seus cabrões. Identifiquem-se vocês. Não os conheço de lado nenhum») ou que Medeiros Ferreira, ainda na "tropa", foi convidado para ministro da educação depois da saída abrupta de Magalhães Godinho e recusou. Medeiros, aliás, foi dos poucos que ao longo destes anos todos conseguiu sempre bilateralizar as conversas com Soares ("conversa bilateral" é o termo usado por Medeiros para classificar a primeira aproximação do futuro secretário-geral do PS). Isto tudo para chegar a Mário Mesquita, outra das "fontes" do livro, um compagnon de route de Soares que nunca prescindiu, como Medeiros, da sua liberdade crítica. Foi um título dele, de 1978, salvo erro, quando era director do Diário de Notícias, que resumiu as tormentas de Soares primeiro-ministro perante um pujante presidente Eanes que o removeu: "Deus não dorme". Soares também não e Mesquita acabaria por deixar a direcção do jornal porque, famosamente, as coisas em geral começam e acabam no umbigo mimado de Soares como esta biografia bem atesta. Por isso não estranho que Mesquita intitule o seu mais recente livro como O Estranho Dever do Cepticismo (Tinta da China, 2013). Escreve, a propósito, Medeiros Ferreira que Mesquita «viu-se envolvido desde cedo no compromisso com a luta tenazmente filosófica pela liberdade dos outros e de si próprio num país velhacamente descrente de tudo que o faça progredir.» Nesta matéria, de facto, não avançámos por aí além. Mas o que avançámos a esta geração de cépticos alguma coisa devemos.

12.3.13

Episódios da loucura normal

Enquanto almoçava, no restaurante, ao alto, a SICN - felizmente em silêncio - transmitia em directo uma peroração de um rapaz do Bloco, directamente de Aveiro. A coisa durou o tempo que levei a comer, e eu gosto de comer devagar. Isto evidencia, de certo modo, a insanidade a que chegou a nossa vida pública mediática. Não bastavam as intermináveis transmissões directas de comissões parlamentares, em demótico, para consolar as donas de casa desesperadas da Pinheiro, da Lopes ou do Baião. Não. Também é preciso abrir espaço à pouca actividade sináptica que geralmente ressuma da actividade partidária contemporânea. É neste contexto que, depois, aparecem manifestos inúteis como este mas onde formas de vida inteligente coexistem pacificamente com puras catástrofes ambulantes. É como digo. Por estes dias só se está bem dentro da Capela Sistina, longe da loucura normal.


 


Adenda: O ridículo não tem limites. O mesmo canal até vai fazer uma sessão de "opinião pública" sobre a sucessão de Bento XVI da mesma forma que, se for preciso, amanhã fará uma sobre a sucessão do sr. Lopes do Sporting. A alacridade é isto. É de esperar o pior.

Para ler nestes dias

11.3.13

O declínio


 


«A Europa vai entrar num declínio sob todos os aspectos – económico, cultural, intelectual. Aliás, se se vir a evolução das universidades na Europa, é aterradora. Não na parte das ciências exactas, mas no que era o chamado “ramo das humanidades” — e que infelizmente se passou a chamar “ciências sociais” — as universidades entraram numa decadência aflitiva. A universidade pública tem desprezado esse ramo do saber. Como é que se alimenta cultura e os valores da cultura, se se nega pertinência, validade e interesse àquilo que são saberes não científicos, mas que são saberes à mesma? Então a Guerra e Paz do Tolstoi, O Vermelho e o Negro do Stendhal, o D. Quixote do Cervantes, um trio do Schubert, a Filosofia, não interessam para nada? Todo este ramo do saber está descuidado e pervertido pelos estudos culturais e pelo pós-modernismo. Daqui vem uma ameaça à sanidade cultural do pensamento do Ocidente.(...) Há uma relação entre pósmodernismo e neoliberalismo. O neoliberalismo corrói e opõe-se à social-democracia e à democracia cristã. O pós-modernismo é a outra lei da selva, é a lei da selva no campo cultural e intelectual. Não é por acaso que surgem, alastram e invadem ao mesmo tempo. Eu sou muito conservadora, mas não subscrevo, nem nunca subscreveria, a tese de que a vida em sociedade está sujeita à lei da selecção natural dos mais fortes e que os mais fracos podem rebentar contra a parede.»


 


Maria de Fátima Bonifácio, Público

E sai nada

«Um indivíduo, quando não quer trabalhar - todo o trabalho académico exige 90% de suor - põe-se a "pensar" sobre tudo e sobre coisa alguma e o resultado é o "pensamento" à José Gil. Uma torrente de lugares-comuns, dourados por "cultura", "cidadania", "inquietação" e "indignação" e, pronto, cá temos "filosofia". Esprema-se a converseta, digna da Mexicana ou do Café Gelo e sai...nada.»

10.3.13

Dói-me a cabeça

«Não se lê um jornal e não se abre a televisão que não apareça logo um tropel de peritos com a solução perfeita para os nossos males. Do desemprego à segurança social e da saúde ao crescimento, não há nada que eles não saibam e não resolvessem logo. O debate público é uma sopa de aletria em que as letras não ligam com as letras. Nem o que se disse ontem com o que fatalmente se dirá amanhã», escreve Vasco Pulido Valente, no Público. É isso e o sr. Juncker, um dos nossos maiores amigos de Peniche, não sei bem onde, a jurar pela "ameaça" de uma guerra na Europa se famosamente a rapaziada de onde ele provém não se entender. Dói-me a cabeça.

Persistir na resistência


 


Na semana em que é escolhido o sucessor de Pedro, um belo texto de Pacheco Pereira sobre os desafios que Ratzinger lançou ao mundo, católico e não só. «Bento XVI, quer como Joseph Ratzinger, quer como Papa, sabia muito bem que para defrontar a competição com a descrença no mundo contemporâneo, era preciso resistir ao "progressismo" que descaracterizava a Igreja, a tornava numa variante profética do marxismo na "teologia da libertação", abrindo-a de forma perversa a um mundo que se tinha feito contra ela e sem ela, e que acabaria por a dissolver no "século" sem diferença. A resistência à "modernidade", e foi o próprio Ratzinger que o lembrou, é mais moderna e interpela mais a descrença, do que a contínua cedência ao "mundo" secular, aos seus hábitos e costumes. E foi também por isso que, ao associar o seu acto prosaico de renúncia ao papado a uma "peregrinação" mística e de intensa religiosidade, apelou aos incréus, seus pares na mesma tradição greco-latina da cultura ocidental que tanto prezava, e fez muito mais pela "propaganda da fé" do que alguns dos seus pares mais modernizadores reconhecem.»

9.3.13

Grandeza


 


A partir das 19.30, no canal Mezzo, recapitulação da versão Barenboim de A Valquíria, no Scala de Milão em 2010. Imperdível num serão de sábado televisivo nacional quase sempre a raiar a indigência mental.

A longa marcha Bruxelas-Lisboa



O hebdomadário Expresso aprecia dar corda ao narcisismo de algumas personagens (escolhidas com dedinho metódico e amiguinho, basta folhear alguns dos cadernos) da vida pública nacional. É, por exemplo, o caso do actual presidente da Comissão Europeia, o prosélito Durão Barroso, que alegadamente anda a fazer o enorme favor de nos ajudar a partir do seu posto em Bruxelas. O jornal até tropeça no título e fica a ideia que Barroso apoia, não apenas mais tempo para cumprir a meta do défice, mas um "alargamento" do dito, um défice maior. Enfim, seja o que for, é matéria para consumo interno. Barroso - o honorável fugitivo de 2004, que teve na altura a complacência do regime todo, a começar por Sampaio, para precisamente fugir e refugiar-se numa redoma dourada em Bruxelas - anda a "testar" as suas competências como candidato a candidato presidencial em 2016. É só disto que se trata. Ele quer lá saber do défice.

"Moderador e árbitro"





O prefácio do Presidente da República ao novo volume de Roteiros dá capa aos jornais e peças nas televisões. Cada qual albardou o exercício a seu gosto, como é aliás costume, pelo que não vale a pena perder tempo com inutilidades hermenêuticas. Cavaco não precisa de exercícios frívolos de interpretação. Ou por serem novinhos, ou por serem simplesmente parvos, muitos dos actuais parasitas epistemológicos do desempenho presidencial esquecem ou ignoram que, em 1982, os drs. Mário Soares e Francisco Balsemão, respectivamente líderes do PS e do PSD, decidiram uma revisão constitucional que, entre outras coisas, porventura meritórias, retirou ao PR a tutela política sobre o governo. Na sua versão incial, a Constituição previa a chamada dupla dependência política do Executivo, a saber, perante o Parlamento e perante o Presidente. Eanes, no uso dessa competência, removeu Soares em 1978 e entregou o comando do governo sucessivamente a três independentes. Com a AD em maioria na Assembleia, Soares "serviu-se" de Balsemão para assegurar que os chefes do governo, daí em diante, não mais pudessem ser demitidos ou escolhidos pelo Chefe de Estado. Ironicamente, após ter regressado ao poder com o Bloco Central de 1983-1985, Soares foi o primeiro a "provar" o fel da Constituição revista em virtude da implosão do governo a que presidia. Como Balsemão antes dele, em 1982 (Eanes recusaria dar posse ao chamado "governo Vítor Crespo" proposto pelo então chefe do PSD já em queda livre interna). Para "chegar" ao governo, o PR passou a só poder dissolver o Parlamento e a convocar eleições, o que mudou a forma e o método das intervenções presidenciais. Não foi por acaso que Soares, o Presidente, num livrinho de entrevistas, apelidou a função como a de "moderador e árbitro" e insistiu na tecla da "magistratura de influência". Com a aceleração da vida política nacional a partir da demissão de Guterres, em Dezembro de 2001, o Presidente, na circunstância Sampaio, só uma vez (e por escassos meses) deu posse a um primeiro-ministro que não foi a votos, Santana Lopes, numa espécie de abraço do urso que seria fatal à maioria da época. Foram os resultados das eleições legislativas, por um lado, as contingências partidárias ou a vontade do líder do governo, por outro, que ditaram a sorte dos Executivos. É evidente que o "poder da palavra" dos presidentes conta. Não imagino que Cavaco gaste 20 páginas para nada, que não pondere meticulosamente o que diz com louvável parcimónia ou que não actue com a discrição e a eficácia necessárias (ainda na passada terça-feira recebeu o ministro da economia e emprego com quem discutiu a estratégia de fomento industrial e onde convergiram numa matéria cara a ambos, a concertação social, na qual Cavaco foi, enquanto 1º ministro, como que um percursor). Alguns dos sobreviventes dos idos de oitenta que hoje criticam Cavaco, e o acusam de "passividade", são os mesmos que aplaudiram entusiasticamente a restrição da liderança institucional do PR através da Constituição. Quiseram um "moderador e árbitro", um "magistrado de influência". É isso, muito adequadamente, que têm.

Uma amiga

Num tempo em que a afectividade inexiste a não ser no chamado binómio homem-cão, um beijo amigo para a Dra. Cândida Almeida.

8.3.13

Fenómenos do Entroncamento

«Os movimentos de comboios, metro, autocarros, barcos e aviões definem um verdadeiro sistema de circulação do trabalho, da produção e da comunicação entre pessoas. Bloquear este sistema circulatório da forma leviana, como fazem repetidamente os privilegiados funcionários das empresas públicas de transporte, é um crime económico e cultural que não dever ser mais tolerado com a habitual bonomia democrática que nos caracteriza. Imaginem que os trabalhadores do sector eléctrico cortavam a energia às nossas casas de cada vez que queriam negociar a revisão de um acordo de empresa, ou energia de borla para os familiares. Ou que o sector das águas interrompiam os fornecimentos do precioso líquido de cada vez que queriam um aumento de salários, ou defender a manutenção de certas regalias. Porque não o fazem? Porque são sectores vitais da economia e da sociedade. Ora bem, o sistema circulatório dos transportes, nomeadamente públicos, deve ter a mesmíssima prioridade institucional. (...) As pessoas, a quem a aristocracia dos transportes e os sindicatos corporativos roubam o direito ao trabalho e espezinham o dinheiro já pago nos passes, estão cada vez mais furiosas.» O António Maria tem razão. É uma verdadeira prioridade institucional acabar com isto.

Os louceiros






«O PC domina a gente à esquerda do PS. O PS, aos tropeções, lá vai aguentando. O Bairro Alto mudou. A “modernidade” não entusiasma ninguém. E, como costuma suceder, o Bloco, reduzido a metade, dia a dia se afunda em intrigas sem sentido, em querelas sobre quem lá manda (ou não manda) e até em altercações sobre quem irá ou não irá para vereador. Não faltam dezenas de aventuras como esta na história política portuguesa: partidos temporários que se julgaram com um grande futuro.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

7.3.13

E se melhor for impossível?


 


Parece que é dia de aniversário da RTP. Parabéns, pois, à prima. A RTP de agora nada tem a ver com a criada há 56 anos. Nos jardins do que viria a ser a Gulbenkian - era aí que funcionava a defunta "feira popular" -, muitos lisboetas, entre os quais o meu Pai, assistiram às primeiras transmissões. Salazar percebeu rapidamente que o "meio" era excelente para a propaganda e aproveitou-o até ao fim. Quando queria mudar de governantes, e lhe sugeriam nomes, dizia ao interlocutor: "passe-mo na televisão". Até ao princípio dos anos 90, a RTP reinou, absoluta, sobre o universo do audiovisual português. De "sociedade anónima de responsabilidade limitada", onde o Estado sempre mandou por interpostos governos, passou, com o PREC, a "nacionalizada" com o dito Estado como seu accionista único. Nessa qualidade, foi-lhe concessionado, logo por Salazar, o chamado serviço público de rádio e televisão, uma espécie de vaca depois sagrada constitucionalmente, o que tem servido de pretexto para a confusão oportunista entre a empresa e o dito serviço. Todavia, mais do que confundir-se com o serviço público, a RTP confundiu-se sempre com o regime. Não houve cão nem gato que não sugerisse um amigo ou uma amiga, um coitado ou uma coitada que estivessem para aí "sem fazer nada" para engrossar as prateleiras da empresa. Muitos cargos foram criados não porque fossem necessários mas porque era "preciso" dar guarida ao coitado ou à coitada. Quer o PS quer o PSD não se pouparam nesta obra misericordiosa e a RTP, já por si endogâmica (daria um estudo heráldico interessantíssimo), acabou transformada num centro de acolhimento do regime "desempregado" à semelhança, aliás, do extinto IPE. Como se parte geralmente do princípio que o Estado tem solvência perpétua, foram injectados milhões de contos e de euros na RTP à conta de um "princípio" elementar: "se eu, membro do governo, seja lá ele qual for, precisar de ir à televisão daqui a meia hora, tenho de ter pelo menos um canal que me garanta isso". A retórica dos "ideólogos" do serviço público nunca fala deste "princípio" que aparentemente os incomoda menos porque têm capelas, as deles, a defender. Basta consultar o cardápio dos "serviços externos" da RTP ou as lunáticas "propostas de trabalho" que lá entram ou tentam entrar por portas e travessas (sei o que estou a dizer porque também recebi algumas que guardo religiosamente para memória futura). Dito isto, a RTP possui excelentes profissionais (foi de lá que partiu quase toda a gente que "formou" os operadores privados) em todos os seus sectores de actividade, bem como um acervo tecnológico e de memória que devem ser preservados. Como? O regime - do CDS ao Bloco - decidiu que a RTP não pode ser privatizada e, por consequência, foi pedido pelo Governo à administração que evidencie como é que pode "governar-se" nas contingências impostas. Conhece-se pouco do que pensa a administração - e o que se conhece não se recomenda - mas sabe-se que a realidade não é famosa: quebra brutal nas audiências, insatisfação e desmotivação dos trabalhadores, direcções erráticas, autocomplacência presidencial e um processo disciplinar por delito de opinião a um director com vista ao seu despedimento. Tudo somado, isto não prodigaliza uma ambição com futuro nem homenageia um passado indisputável. A RTP, no Estado ou fora dele, merecia melhor. Todavia, como perguntava o outro, e se melhor for impossível?

Quem?

Bela frase de Francisco Assis no Público: «o país não precisa de pequenos catequistas, carece de verdadeiros políticos.» Mas podia acrescentar-lhe os célebres versos de Rilke -"se eu gritar, quem poderá ouvir-me nas hierarquias dos Anjos?"

Brandão



Hoje, às 18h30, o lançamento do livro de Raul Brandão, A Pedra Ainda Espera Dar Flor, organizado pelo Vasco Rosa. No Centro Nacional de Cultura, Largo do Picadeiro (ao lado do São Carlos), nº 10, 1º.

6.3.13

O funil


 


O debate parlamentar foi, de novo, pouco mais que a mesma "contabilidade" indecifrável para o mundo lá fora. Sem rasgo e, perigosamente, sem política. Que ninguém, depois, se queixe.


 


Adenda: Apareceu entretanto, e felizmente, o Presidente da República a falar na economia, nas empresas e no emprego, no investimento e nas exportações. E a salientar que o crescimento económico e a criação de emprego devem ser a prioridade política doméstica e europeia. Salvou o dia.

A Igreja e a Europa






«O Cristianismo modelou a Europa e o conjunto dos seus valores identitários. A despeito das cisões e heterodoxias que se produziram no seu âmbito pelos tempos fora, e não obstante a Europa ser um espaço civilizacional e cultural que se tem problematizado e posto sistematicamente em questão, os valores éticos fundamentais propostos pela doutrina cristã foram sendo espiritualmente partilhados no espaço europeu, mesmo quando houve terríveis perseguições religiosas, esmagamentos e pressões insuportavelmente totalitárias, ou quando o sombrio flagelo da guerra incendiou tragicamente o continente. Dentro do Cristianismo, a Europa católica ocupa um espaço muito vasto, predominantemente coincidente com os países do Sul, é certo, mas incluindo a Polónia e a Irlanda, bem como muitas áreas disseminadas um pouco por toda a parte nos países protestantes. Conquanto a maioria dos papas tenha sido italiana e a despeito de tudo o que possa dizer-se quanto ao jogo político internacional da Santa Sé ao longo dos séculos, a Igreja de Roma teve um papel muito importante na formação de uma identidade cristã da Europa. E desde o tempo dos Descobrimentos, participou activamente na "exportação" de valores europeus para o resto do mundo. Hoje, e sobretudo a partir de magistérios recentes como os de João XXIII e Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, está à vista que a Europa, crente ou não crente, pelo menos no tocante ao quadro dos valores que defende, de algum modo se revê na figura desses pontífices. Lembremo-nos do ecumenismo e do diálogo com outras religiões reafirmado pelos dois primeiros em termos inovadores, ou da contribuição de João Paulo II para o desmoronamento da cortina de ferro, ou de como Bento XVI é referenciado como um paradigma do espírito europeu, procurando conciliar razão e fé, filosofia e existência, espírito cristão e tolerância. Não se pode ignorar a vocação ecuménica da Igreja, nem o conjunto de factores que podem levar o próximo conclave a escolher um papa não europeu. Os interesses da Igreja e da sua projecção no mundo irão porventura nesse sentido e essa preocupação terá de ver-se como perfeitamente legítima. Creio todavia que vale a pena propor uma reflexão sobre a íntima conexão histórica que tem havido entre a figura do Papa, a sua mensagem e o seu papel na cena internacional, e uma certa configuração, tanto espiritual como geopolítica, que costumávamos conceber como própria da Europa ocidental, isto é, como uma espécie de "supremacia" hoje em declínio. Parece que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas estou em crer que, se o Papa seguinte vier a ser um não-europeu, a construção europeia se tornará ainda mais difícil.»


 


Vasco Graça Moura, DN

5.3.13

A Morte vital



De repente, entre tagarelas e bola, bola e tagarelas, dou pelo canal TCM onde passa Morte em Veneza, de Visconti. Por muito que o tempo passe pelo filme, há um tempo que não sai do filme. Existe uma espécie de eternidade vital naquela Morte, uma eternidade que, aliada à prosa de Thomas Mann, é porventura incompreensível ao "som" da chamada "modernidade". Visconti, porém, não precisa dos "modernos" para nada porque, famosamente, nunca foi outra coisa no seu realismo excessivo, no seu classicismo exigente, no seu traço tão italiano quanto cosmopolita nos filmes ou na ópera. Tinha mundo e era do mundo. Morte em Veneza confronta a inevitabilidade da decadência física com o escândalo da juventude e da beleza. Tadzio representa uma certa ideia do belo infinito e intangível. Noutro registo, e anos depois da novela de Mann, Genet escreveria sobre a impossibilidade de "tocar" a beleza ("ne permettez pas que je vous touche car on ne doit pas toucher la beauté") associando essa impossibilidade, também, à morte. Visconti, na tela, foi o percursor definitivo dessa impossibilidade. Ninguém fez melhor.

O caminho dos pedragulhos

No café onde bebo a bebida homónima de manhã, o dono estava a fazer contas à mão. Perguntei-lhe o que era. "Iva", porque ele paga ao mês. Uma brutalidade para o volume de negócio. Tal como existe uma "cadeia alimentar", também há outro tipo de cadeias potencialmente nocivas se não forem equilibradas. Uma fiscalidade confiscatória, por exemplo, não favorece a economia que, no nosso caso, "vive" sobretudo das pequenas e médias empresas. Por consequência, estas empresas dificilmente podem criar postos de trabalho ou, mesmo, manter alguns dos que têm. Os "problemas" existenciais do dr. Pinhal, ex-BCP, ao pé disto seriam risíveis se não fossem trágicos pelo que evidenciam de irresponsabilidade social. O senhor e afins terão todos os direitos deste mundo e do outro à indignação. Mas estou como o Clark Gable no final do E tudo o vento levou: "frankly, dear Mr. Pinhal, I don't give a damn". É que, por este caminho de pedragulhos fiscais, entre outras deambulações perigosamente astronáuticas, tudo o vento acabará por levar.

4.3.13

"Brilla nell'alma"