A não perder no Malomil - sobretudo porque a "obra" analisada faz parte daquele amontoado de coisas que podem ser compradas nas chamadas "grandes superfícies" juntamente com os iogurtes, os pêssegos, as águas e levadas para a praia ou para um bucólico cenário de montanha em versão piquenique -, as leituras dos livros ditos de ficção de Domingos Amaral: 1º parte, 2ª parte, 3ª parte e a última. «– Sabes que o meu pai comeu as duas?”; “– A que morreu e a cega. É pior do que eu! Eu só comi a filha!.» Promete
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
31.7.12
O passado é um país estrangeiro
Quando saiu, chamei-lhe "Portugal, uma biografia política". Por consequência, a iniciativa do Expresso, ao "fasciculizar" o livro coordenado por Rui Ramos, da sua autoria, e de Nuno Gonçalo Monteiro e Bernardo Vasconcelos e Sousa, corresponde a um serviço público. Facilita a leitura e o manuseamento, permite a familiarização inteligente e estimulante dos leitores com um percurso - de constantes e brechas, presumivelmente conhecido mas tantas vezes desconhecido - com base num princípio simples enunciado no ensaio introdutório no 1º volume. «O passado é um país estrangeiro: tudo lá era de outra maneira» (L.P. Hartley) - e para quem limita os seus horizontes à actualidade e aos seus mitos e valorizações, nenhum passado parecerá por vezes tão estrangeiro como o do nosso próprio país. Daí a importância do seu estudo.»
Adenda: Em 25ª edição, está por aí a História Concisa de Portugal de José H. Saraiva que ainda é agora um bom livro de bolso. Saraiva ensinou história no Passos Manuel (depois do 25 de Abril, no Gil Vicente) e não usava "manual" ou livro de referência. Debitava e mandava os alunos à Rua da Prata comprar uns caderninhos especiais onde deveriam transcrever as suas aulas para as quais não levava um papel ou uma ficha. "Chumbava" muito. É sobretudo dessa experiência que sai este livro escrito no recato da Nazaré.
30.7.12
Calamidade
Não percebo nada de desporto, não gosto de desporto, embirro com a ideia de "vida saudável", mas julgo que a passagem portuguesa por Londres raia a calamidade. A alguma coisa há-de fazer mal.
Sentimentos
Parece que o "indicador de sentimento económico (ISE)" deteriorou-se em Julho, na União Europeia, e na zona euro segundo dados hoje divulgados em Bruxelas pelo Eurostat. Os tempos não estão, de facto, para grandes sentimentos.
29.7.12
Coerências

"Cultura" enquanto riso e esquecimento
Por uma ou duas vezes fiz aqui um ponto, por via do José Paulo Fafe, para a atenção que deve ser prestada ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira. Não tenho entretanto notícia de que alguma coisa tivesse sido feita por parte do Estado. O caderno principal do Público, através do jornalista António Marujo, dedica-lhe duas páginas ("Os trabalhos e as paixões de Nuno Teotónio Pereira"): «Ao entrar em casa, disse: "Despedi-me de Lisboa." À hora de jantar, perdera completamente a visão.» Noutro jornal, o Correio da Manhã, o João Pereira Coutinho, provavelmente sem saber o que se passa com Teotónio Pereira, acaba ironicamente por descrever o tropismo cultural em que vive o regime a propósito dos famosos chanatos parisienses de Joana Vasconcelos. «Para mostrar um ‘Portugal moderno’, os contribuintes ajudaram a pagar uma extravagância de 2,5 milhões de euros. Hoje, como ontem, o ‘Portugal moderno’ não se faz com contas em ordem, corruptos na cadeia – e o fim da nossa megalomania saloia. Faz-se com o tipo de festas onanistas que nos conduziram à falência. O nosso Estado é tão grotesco que nem uma obra da srª Joana lhe faria inteira justiça.»
Beatriz
28.7.12
Reservado ao veneno
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte (recordado por Nicolau Santos no suplemento Economia do jornal Expresso)
A contra-festa
Depois de umas semanas enevoado pela doxa, Medeiros Ferreira regressa ao seu melhor com esta reflexão sobre a Europa, verdadeiramente o único "tema" que deve ser levado para cima da toalha de praia ou para o enlevo das montanhas enquanto os nossos atletas em Londres são eliminados em tempos recorde (ainda Cavaco e o secretário de Estado do Desporto e Juventude não regressaram da festa e já o número de luso-afastados cresceu inopinadamente em várias modalidades, à excepção de um que se qualificou para tiro a 10m). «O que agora se anuncia é a própria desacreditação dos rankings de triplo A da banca alemã e do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) que têm servido de garantia aos empréstimos internacionais para alguns países da zona euro a taxas de juro mais baixas. O incêndio está pois a chegar às melhores searas que se julgavam protegidas. »
De Píndaro ao criancismo global

Estava a jantar com um amigo enquanto começava o "evento" global dos jogos olímpicos. Consequentemente não vi um segundo do espectáculo de variedades montado pelos ingleses para o efeito. Também não me interessava nada. A melhor exaltação do espírito e do herói desportivos encontra-se nos versos de Píndaro e não em espectáculos infantilizantes. Mas reconheço que as pessoas não estão, de todo,"viradas" para clássicos ou maçadas. Na ausência do pão, o circo ocupa praticamente todo o espaço, por todo o lado, em qualquer "plataforma". A figura do herói serve-se com ingredientes bem distintos daqueles que iluminavam o mundo grandioso, viril e austero das odes de Píndaro. We are the world, we are the children.
27.7.12
Biblicamente estúpidos
«Num jantar com deputados do PSD, com alguns ministros e com a presidente da Assembleia da República, Pedro Passos Coelho disse que não queria saber para nada de eleições (que se "lixem" foi a expressão). Houve logo algumas pessoas biblicamente estúpidas para interpretar a frase de uma maneira que nem a ocasião, nem o contexto permitiam. Uns concluíram que o primeiro-ministro se estava a "lixar" para a democracia. Outros –o que não passa de uma variante - que a opinião dos portugueses não lhe interessava. Quase ninguém percebeu (ou muita gente resolveu fingir que não percebia) o que Passos Coelho claramente comunicou às suas tropas. A saber: que o Governo não mexeria um dedo para ajudar o partido na série de eleições que se aproximam (Açores, câmaras, Parlamento Europeu). É preciso ter andado a dormir durante trinta anos para não perceber, apesar da crise, ou por causa disso mesmo, que as clientelas do PSD não pensam noutra coisa. Antes de Passos Coelho o PSD, longe do poder, era uma federação de câmaras, que se aliavam ou guerreavam, para fazer e desfazer as direcções nacionais. Muita gente com algum talento ou sem talento nenhum desapareceu politicamente naquele insuportável circo. E a vida do militante comum acabou por se reduzir à intriga e às clientelas com mais força ou habilidade. O primeiro-ministro veio agora dizer que esse tempo acabou e que daqui em diante subordinará o partido ao interesse nacional, como ele o entende. A este acto de inteligência e coragem o público informado respondeu com comentários rasteiros, que envergonham um morto. Para começar, como já expliquei, a história inteiramente idiota de que Passos Coelho desprezava a democracia. Segundo, o protesto hipócrita e pequeno-burguês por ele se atrever a usar, numa espécie de comício, a terrível palavra "lixem". Isto que, em formas bem mais duras, se tornou habitual na imprensa inglesa ou americana ainda ofende o ouvido de certas damas da academia e da sociedade, que por aí despejam opiniões sem sentido. Vale a pena insistir numa atitude tão ridícula? Vale porque ela mostra bem a que ponto chega a má-fé e a obnubilação da esquerda. O PS e arredores preferiam com certeza que o primeiro ministro se envolvesse nos sarilhos correntes do PSD e que, em nome deles, distorcesse a política geral do país, que eles no fundo não se importam que se lixe. E, afinal de contas, sempre iam ganhando uns lugarzitos para a malta em dificuldades. Nada de melhor ou de mais lúcido.»
Vasco Pulido Valente, Público
26.7.12
O fardo
O Estado vendeu um dos grandes monumentos ao desvario das últimas duas décadas, o pavilhão Atlântico. De facto, 1998, ali para os lados do oriente lisboeta, foi o ano de todas as festas e festanças - os galhofeiros que acreditam piamente que o dinheiro aparece sempre chamam-lhes "eventos" -, desde a expo propriamente dita até à inesquecível abertura da ponte Vasco da Gama, com o regime todo (do Presidente à oposição) a atravessá-la em autocarros tão abertos como os sorrisos inconsequentes. A este espectáculo deprimente e oficioso seguiu-se um enorme picnicão em cima da dita ponte para o "povo" provar um módico da "modernidade" guterrista e, depois, lavar a loiça com Fairy. Há mais tralha para vender e nada disso tem a ver com colocar em causa funções essenciais do Estado ou a sua soberania na ordem interna. O problema esteve sempre em "carregar" para o Estado, logo para os contribuintes, coisas (materiais ou imateriais, imóveis ou contratos) que apenas a ideologia, a idiotice e o negocismo puro justificam que tivessem sido carregadas. Libertar os cidadãos deste fardo custa politicamente. Mas custará muito mais mantê-lo.
A generalização do curto-termismo
«O que tem acontecido é que nos sujeitamos cegamente à lógica da aceleração temporal, que partindo do domínio da técnica tomou conta de todas as áreas da vida, sejam elas a laboral, a social ou a pessoal. Em todas elas o nosso quotidiano é permanentemente atravessado por uma urgência que impõe os fluxos mais diversos, multiplicando as situações de dessincronização patológica entre várias actividades. Com as consequências que se vão vendo, nomeadamente a nível subjectivo, seja no stress ou na depressão, na incapacidade de atenção ou de concentração. E generalizando o curto prazo como o único horizonte de sentido - ou melhor, da falta dele - da humanidade contemporânea. E o "curto-termismo" traz com ele não só o impasse, mas também a irresponsabilidade. O impasse porque, sem tempo de médio ou longo prazo, não há projeto de vida individual ou colectiva que consiga vingar. E a irresponsabilidade, porque ele coloca todos os processos de deliberação sob a ditadura da celeridade e do instante, incapazes de dar atenção à complexidade dos problemas das sociedades contemporâneas. E assim se vive, como escreveu J.-L. Servan-Schreiber, como se nos deslocássemos de noite, num automóvel cuja velocidade aumenta à medida que o alcance dos faróis diminui. É bom lembrar que a modernidade assentou num projecto de autonomia, entendida como a emancipação da humanidade de diversos constrangimentos: materiais, sociais e culturais. Ora o que hoje constatamos é, inversamente, a perda dessa autonomia. Como diz Hartmut Rosa, um dos mais perspicazes estudiosos do fenómeno da aceleração, o indivíduo submetido à lógica da aceleração é cada vez "menos senhor da sua própria vida. Esta não parece ter direcção, não se vê que conduza a algum lado, tudo o que se faz é patinar a um ritmo desenfreado". Como se, acrescenta ele numa metáfora que descreve inspiradamente bem a crise atual, "a roda motriz que fazia avançar e dava um sentimento de liberdade se tivesse tornado uma roda de hamster na qual giramos freneticamente sem sair do mesmo sítio". É mesmo isso: faz exactamente hoje um ano que começou uma quinzena negra que marcou o verão de 2011, com as bolsas em queda e as dívidas espanhola e italiana sob enorme pressão, o que obrigaria o BCE a comprar mais de 180 mil milhões de dívidas soberanas. Um ano depois continuamos, como se vê, na mesma, a viver dias politicamente escaldantes numa Europa cada vez mais próxima do colapso, mas sempre a girar freneticamente no mesmo sítio, como um hamster na sua roda! Gastando, como ele, toda a sua energia nas rotinas cegas de um carrossel de ilusões.»
25.7.12
A situação é excelente

De dia para dia, cresce o sorriso tumular do desdentado Mao. «Tudo debaixo dos céus está num caos total, a situação é excelente».
24.7.12
Do marechalato intelectual
A Sra. Dra. Ferreira Alves, sem que Hermano Saraiva pudesse suspeitar (ele nem sequer devia saber de quem se tratava pelo que, por essa banda, morreu em paz), preenche adequadamente os requisitos do marechalato intelectual a que ele se referiu.
Na Europa como na vida
«O carácter dos amigos mede-se pela sua capacidade de ficarem ao nosso lado, contra tudo e contra todos, nas horas de perigo e desgraça.»
Um limbo

Quando entrei na universidade, a Católica, depois de meia dúzia de exames escritos sobre história, filosofia e português se bem me lembro, as faculdades públicas recuperavam lentamente do desvario do PREC. Em Direito, por exemplo, os exames orais chegavam a realizar-se num sofá onde, ao mesmo tempo, se sentavam três ou quatro alunos que iam sendo interrogados à vez. A Católica acolheu, por isso e por outras coisas, muitos dos professores estupidamente expulsos da cátedra, ou mal aproveitados, por causa da política et al, o que me deu o privilégio - a mim e a centenas de pessoas - de ter aulas com Vasco Pulido Valente, Jorge Miranda, António Luciano Pacheco de Sousa Franco, Mário Júlio de Almeida Costa, Jorge Borges de Macedo, João de Matos Antunes Varela, Francisco Lucas Pires, Carlos Mota Pinto, Pedro Soares Martinez, Maria da Glória Garcia, a nova reitora da UCP, Manuel Cavaleiro Ferreira, Mário Bigotte Chorão, António Castanheira Neves, Maria dos Prazeres Beleza, etc., etc. Mais. Muitos dos nomes que citei não apenas garantiam as chamadas aulas teóricas como davam as aulas práticas. Para além das "públicas" e do estado delas, praticamente só havia a Católica e, depois, a Livre que rapidamente se dividiu em facções. Com o tempo e os costumes, abriram-se vários estabelecimentos de "ensino superior" e a própria Católica começou a oferecer extravagâncias que nada tinham a ver com a sua matriz original. Entretanto, para os vários "departamentos" desses novos estabelecimentos foram sendo convidados nomes (mais do que "professores" propriamente ditos) que "emprestavam" os referidos nomes (a notoridedade ou "reputação", como há dias notei aqui, adquire-se nas novas mesas de café que são as tribunas partidárias ou televisivas) aos departamentos. Nalguns casos os nomes coincidiram com uma carreira académica normal, feita de acordo com os concursos públicos exigidos para o efeito, noutros não. Não será este último caso o dos directores de uma das faculdades de uma universidade ultimamente muito em voga que decidiram colocar "os cargos à disposição". Todavia não deixa de ser curioso que tenham escolhido este momento para o fazer. Até agora, e dentro da dita universidade, o que é que afinal dirigiam? Um limbo?
23.7.12
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - epílogo

Semanário - Depois de ter andado por esse País fora, o que é que ficou?
José Hermano Saraiva - Que o futuro está nas nossas mãos. Estou a falar em mãos em sentido muito concreto. O povo português é dotado de um talento, de uma capacidade de imaginação, de improviso, que é preciso institucionalizar e valorizar através de uma profunda remodelação de todo o sistema escolar. Em todo o caso, ainda somos os melhores do mundo em muita coisa. Estou a pensar na cristalaria, no azulejo, no mobilário do Norte, na cerâmica, nos têxteis, nas confecções. Tudo quanto meta o ingrediente "talento", o português é muito bom. Um País cuja característica específica, cuja marca de origem se chama "talento", é necessariamente um País de futuro, desde que não malbaratemos o talento do povo. Ainda hoje vemos a cada passo pessoas com uma extraordinária capacidade mental que não puderam andar na escola. Inversamente vemos pessoas de uma indigência espiritual total que atingiram os mais altos postos do marechalato intelectual. Às vezes perguntamo-nos como foi possível que esta criatura se tivesse formado. Isto é que tem de acabar. É preciso administrar a cultura e a escola na proporção directa do mérito, e num País que tem tão pouco, não desperdiçarmos o único diamante que Deus nos deu: o talento do povo português.
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 4

Semanário - Ressalta da sua exposição uma grande preocupação em se fazer entender bem e depressa, sem artifícios. A sua mensagem chega com facilidade. Lembramos uns programas remotos, O Tempo e a Alma, justamente o título da última obra.
José Hermano Saraiva - Talvez que o que houvesse de específico nesses programas de que fala, fosse a preocupação do concreto. Recorda-se que eu, em regra, levava uma peça, levava algo que servia de símbolo. Sabe que o próprio Cristo falava por parábolas. A parábola é um exemplo que conta muito mais do que parece contar. Tem um conteúdo e uma significação que extravasa para fora do seu perímetro e que faz compreender. Este livro que agora saiu tem realmente esse objectivo. Sob a aparência de um passeio, é uma meditação que eu gostava que tivesse sido mais optimista. Eu procurei dar-lhe um tom optimista e reconheço que, por vezes, o optimismo degenerou em elegia.
Semanário - Como assim?
José Hermano Saraiva - Disse elegia, não disse elogio. Vamos encontrar, particularmente na zona sul e na zona interior - os montes raianos como eu digo no 2º volume -, um sentido desanimado. E não é só nas zonas dos sentimentos e do estado de espírito. Vamos encontrar estruturas profundamente arcaicas, de vida económica e social. E não vamos encontrar a mesma disposição das elites locais para, ombro com ombro, arrancar desse estado doentio em que estão caídas as nossas instituições.
Semanário - Haverá algum pormenor que desejasse destacar nesta abulia?
José Hermano Saraiva - Num dos últimos capítulos do livro, eu relato o que se passou comigo no norte do País. Eu ia justamente no alto de um monte, numa estrada de gelo e neve em que havia uma grande beleza. Ia a pensar num livro onde eu tinha lido o elogio dos montes, uma coisa em que se começa por dizer que "nenhum autor nem nenhuma mitologia fez nascer os deuses nos montes, os vales são para os infernos porque os Olimpos e os Parnasos são sempre nos altos das montanhas". Isto vem da Descrição do Reyno de Portugal de Duarte Nunes de Leão. Mas estava a pensar nisto qaundo uma pardalada de garotos se me atravessa à frente do carro. Eu travei, era uma escola primária que funcionava ali e os miúdos, em vez de estarem lá dentro, estavam cá fora. Parei o carro, falei com os miúdos a pretexto de lhes perguntar onde era isto ou aquilo, e depois disse-lhes: "então, com um frio destes por que é que vocês não estão lá dentro?"; e um miúdo deu-me esta resposta: "cá fora está frio, mas lá dentro está gelo". Bem, a escola primária gelada! Eu pergunto: como é que aqueles garotos vão amanhã ler a Descrição do Reyno de Portugal de Duarte Nunes de Leão? Não a lerão com certeza e não vão perder muito com isso. Mas não lerão outros livros, talvez não leiam mesmo livro nenhum.
Semanário - A questão endémica e incurável, a educação.
José Hermano Saraiva - Sabe que noventa por cento dos portugueses não leram livro nenhum? Mas como é que nós podemos esperar de quem associa a experiência dos anos juvenis a uma imobilidade de salas que lá dentro são gelo, o gosto e o culto da leitura? Só que não encontrei em parte nenhuma a consciência da urgência e da gravidade destes problemas. Continuamos a ouvir falar nas coisas escolares como problemas mais ou menos platónicos. Ninguém percebe que tem de haver uma reconversão profunda da formação do homem português visto que as condições históricas mudaram totalmente neste País. Nós éramos uma Nação exportadora de quadros para as colónias, quadros encarregados de tarefas e de missões que fomos cumprindo ao longo da história.Mas agora todo esse capítulo está definitivamente encerrado. A nossa missão é outra. Só que o esquema de estudos continua basicamente a ser o mesmo do tempo do Marquês de Pombal.
Semanário - À vista uma conclusão devastadora.
José Hermano Saraiva - Não vejo que por este caminho se chegue a algum resultado. A mensagem com que o livro termina não é, por isso, optimista. Em todo o caso, assisti também a espectáculos encorajantes. Depois de tudo percorrer, posso chegar a esta conclusão: o verdadeiro ouro, aqui, é o povo. O que coloca imediatamente um outro problema: na ordem das prioridades da política global portuguesa, a mais urgente de todas é a maximização dos nossos recursos humanos. Há que preparar esta Nação para sobreviver, para viver do suor do seu rosto. Por isso este livro vem contra, por exemplo, a historicite, vem contra a museologite, vem contra o passadismo, vem contra certa calculite, vem contra este culto ingénuo e primário de pretensas artes artesanais que já não existem senão na imaginação e nas fotografias de 1900, vem contra este tentar fazer renascer o que já lá vai irremediavelmente. E ninguém tem nada a ganhar com o regresso.
(continua)
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 3

Semanário - O que pensa o Professor Hermano Saraiva da relação do livro de história com a opinião pública? Há um público para o livro histórico?
José Hermano Saraiva - Isso põe um outro problema que é o das relações entre o escritor e o público. Por vezes o escritor português abstém-se da sua posição relacional. Não há escritor sem público, como não há emissor sem emissário. Nós falamos com uma colectividade com certas características sociológicas e culturais que temos de ter presentes. Ignorá-las completamente e escrever ao arrepio dessa capacidade de absorção dos destinatários da obra feita, penso que é não servir plenamente os interesses da comunidade. Isto nada tem que ver com vulgarização, não se trata de nada disso. Trata-se de que a problemática mais complexa é sempre redutível a termos que a tornem inteligível qualquer que seja o grau de público. Os grandes pensadores, os grandes filósofos, aqueles que influenciaram efectivamente o pensamento do seu tempo, foram pessoas que encontraram uma maneira de se fazer entender. Agora aquelas prosas por vezes propositadamente estrábicas e esdrúxulas em que se parecem comprazer certos dos nossos intelectuais, gera-me a suspeita de que quem precisa de uma bruma tão grande para envolver os seus movimentos, é porque, porventura, não pretende que seja visto claramente. Isto a propósito da acessibilidade das nossas obras e do efeito que elas podem ter sobre o público. Porém, e mesmo com todas as suas limitações, penso que a literatura histórica é aquela que está neste momento a encontrar uma maior aceitação.
*Pergunta e resposta não editadas na entrevista:
Semanário - O Professor é um homem atento ao homem, às figuras na circunstância. Os factos só adquirem verdadeiro significado como coisas nossas, dos homens.
José Hermano Saraiva - Não há factos no mundo. Fala-se muito nos factos. A verdade é que o mesmo facto descrito por si é um e descrito por mim é outro. Vou-lhe dar um caso concreto. A propósito das lutas liberais, eu verifiquei que em determinada cidade, os liberais, selvaticamente, caíram na cadeia distrital e lincharam dezenas de pobres miguelistas que lá estavam. Passados dias, recorrendo a outra fonte, li que nessa mesma cidade, por essa mesma altura, os miguelistas, facínoras e perversos, haviam caído na cadeia distrital e tinham chacinado todos os liberais que lá estavam. É o anti-facto, o reverso da medalha. Pensei, "bom, aqui algum dos dois autores trocou o nome ao santo, ou os liberais mataram os miguelistas, ou os miguelistas mataram os liberais". Fui à terra e verifiquei qua ambos os factos eram verdadeiros e, portanto, se há um facto, tem as duas faces. O que aconteceu foi que na véspera da rendição miguelista, há uma chacina dos prisioneiros liberais que lá estavam; os liberais entraram no dia seguinte, prenderam os miguelistas que tinham feito a chacina e chacinaram-os a eles. É este o facto - a violência e a sua repercussão violenta é que interessa, mas a este facto ninguém se tinha referido. A história não se explica, compreende-se e cada um tem a sua compreensão da história.
(continua)
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 2
Semanário - Depois, foi a vez de Camões entrar na sua história. O Professor foi ao encontro de um outro tempo e de uma alma que é, afinal, dos nosso dias.
José Hermano Saraiva - Surgiu, entretanto, um outro facto curioso. Em 75 ou 76 (não sei ao certo), ao aproximar-se o 10 de Junho, a Comissão encarregada das comemorações decidiu publicar um jornal dedicado aos emigrantes. Surgiram logo estes problemas "à portuguesa", respeitantes à publicação desse número (enfim, todos os jornais entendiam que deviam ser eles a garantir a publicação), e o governo resolveu a coisa de uma forma muito eclética, com uma solução de compromisso: esse jornal seria editado por dez jornais e, para representar a imprensa da província, é escolhido um jornal ao qual estou profundamente ligado, o Jornal do Fundão. Ao director desse jornal pareceu-lhe, da lista dos seus colaboradores, que eu estaria ligado ao tema e pediu-me um artigo sobre Camões.
Devo dizer que eu nunca tinha estudado em especial Camões, a alternativa Camões-emigrante. A alternativa estabelece imediatamente uma associação pois a Camões chamamos nós muitas coisas: é o príncipe dos nossos poetas, é o símbolo da nossa grei. Agora, aquilo que ele foi realmente - um pobre emigrante - isso não costumamos chamar-lhe. Camões é essencialmente isso: um homem que não tem, no próprio País onde nasceu, oportunidade para ganhar o pão de que precisa para comer. Emigra. Emigra - e devo dizer-lhe isto porque nem sempre se tem chamado a atenção para o facto - e todo o canto de Camões é um canto de emigrante. Ele chega a dizer a certa altura que, quando canta, é para enganar a profunda saudade da ausência. A situação é precisamente esta: as saudades angustiam-no e diz ele, "e as águas que então bebo e o pão que como, lágrimas tristes são que nunca saberão senão como fabricar uma fantasia, fantásticas pinturas de alegria."
Lancei-me ao estudo da vida de Camões levado por esta perplexidade: como é possível que Camões, que é um homem de uma cultura perfeitamente excepcional para o seu tempo - devo dizer que a época de Camões é já a segunda metade do século XVI, não tem aquela riqueza de valores intelectuais que caracteriza a primeira metade -, quando começa a faltar gente, sobretudo porque nós havíamos estabelecido uma administração efectiva sobre uma larga parte do mundo e faltavam homens capazes de se ocupar da administração, da facturação, enfim, de todo esse vasto Império que tínhamos estabelecido desde a Índia ao Brasil. como é possível, dizia eu, que apesar desta falta de pessoal capaz para as tarefas administrativas, Camões não tenha conseguido arranjar emprego?
Semanário - Dúvidas que o levam à busca da "vida ignorada" do autor de Os Lusíadas?
José Hermano Saraiva - É ele próprio que alude à fome que passou, em versos dos próprios Lusíadas, em que fala em "tanta necessidade avorrecida". "Necessidade avorrecida" significa exactamente isso: Ora como é possível isto? Paira sobre este homem alguma maldição? Eis a pergunta que eu fiz a mim mesmo. Qual era a razão que levava Camões a ser marginalizado em relação aos quadros sociais da sua época? É que, por outro lado, há documentação que permite estabelecer que o nome literário de Camões já estava rodeado de prestígio. Pode literalmente dizer-se isto: ele era reconhecido como um homem de uma altíssima estatura intelectual. Estas questões lançam-me numa investigação acerca de Camões na qual tive a fortuna do meu lado.
Semanário - Chegamos, assim, a outro livro.
José Hermano Saraiva - Sem dúvida nenhuma que o conjunto de coincidências levou-me rigorosamente às fontes históricas e foi-me possível escrever uma biografia chamada Vida Ignorada de Camões. Não tenho hoje dúvida alguma de que Camões é um jovem nascido no campo, rigorosamente da região de Chaves (região de fronteira), que é trazido para a Corte por esses dez anos para servir na casa de um homem - Fernando Álvares de Andrade -, um cristão-novo que era tesoureiro-mor do Rei D. João III. É levado para a casa da filha, Violante de Andrade, quando ela casa com um filho do Duque de Linhares, D. Francisco de Noronha. A partir daí começa toda aquela dramática situação de que a obra de Camões é uma dolorosa autobiografia. Eu hoje não duvido que, mesmo os próprios Lusíadas, uma obra de génio em que o colectivo, o relativo a toda a comunidade portuguesa é legível num outro plano, o da intimidade sigilosa e que é uma autobiografia.
(continua)
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 1


Como aqui mencionei, estive uma tarde na Academia de Ciências de Lisboa com o Prof. Hermano Saraiva onde o entrevistei para o Semanário. Não foi em 1985 mas, sim, um ano depois, em Maio/Junho de 1986 como pude verificar nos meus arquivos. O que então me disse permanece actual , razão por que decidi reproduzir o produto desse trabalho com uma ou outra resposta inédita que o espaço não permitiu incluir. Sou do tempo em que o jornal era paginado à mesa, literalmente à unha, antes de ir para a impressora. Recordo ter ido posteriormente à sua casa do Restelo talvez buscar as fotografias e talvez rever aspectos do texto com ele. Ainda bem que fui.
Semanário - O Professor José Hermano Saraiva é um homem que, sendo das leis e da história, mais das primeiras se ocupou, numa primeira fase das suas investigações, para depois se entregar - de corpo, tempo e alma - à segunda. Como transitou?
José Hermano Saraiva* - Tem um aspecto quase romanesco a forma como isso me aconteceu. Eu estive sempre estreitamente ligado à história, sou autor de algumas investigações originais sobre temas delicados, mas não era essa a minha carreira. Digamos que isso era um interesse acessório. Quando voltei a Portugal, na altura do 25 de Abril - eu ocupava a embaixada de Portugal em Brasília - entendi que era meu dever colocar o cargo à disposição do governo que deveria querer ter lá uma pessoa da sua confiança. Seguiu-se depois um período turbulento da vida política portuguesa, um período em que havia um certo ambiente de alarme que nunca me assustou (não sou homem de grandes sustos), mas que em todo o caso incomodava pessoas da minha família. Pedi a uma pessoa então muito ligada às esferas mais altas do poder o favor de me mandar pôr o telefone sob escuta para se poder fazer a triagem das informações (para acabar com certas brincadeiras). Essa pessoa disse-me: "V. é um grande optimista, mas devo dizer-lhe que não são tão brincadeiras como V. supõe; infelizmente há um grupo de pessoas insensatas que perderam literalmente a cabeça e não é uma coisa muito simples garantirmos que não possa acontecer algo de desagradável que nenhum de nós desejaria. Sugiro-lhe, pois, que saia de Lisboa por uns tempos."
Fui passar, então, dois meses para uma locaalidade distante de Lisboa onde um amigo meu me proporcionou uma casa. E não tinha literalmente nada que fazer. Peguei num grande bloco de papel, numa caneta e num frasco de tinta e pus-me a escrever um livro, de certo modo um livro que se pudesse escrever de cor, um livro que não obrigasse a uma consulta analítica e persistente das fontes, um livro que fosse uma grande perspectiva da história nacional tal como eu a conhecia. Nasceu assim um livro que estava destinado a um êxito perfeitamente surpreendente - a História Concisa de Portugal - e creio que isso vem exactamente em resultado da forma como foi escrito. Escrito sem o pormenor minucioso do autor que tem à sua disposição grandes ficheiros, uma bibliografia extensa que servisse para enriquecer os seus textos, o livro entrou na linha de preferência do leitor que pretende apenas estabelecer contacto com as coordenadas fundamentais da evolução histórica nacional. A partir desse momento, as solicitações, quer das editoras, quer de entidades privadas para a realização de trabalhos históricos, não cessaram mais.
* resposta não editada:
José Hermano Saraiva - Eu, a essa questão, daria uma resposta fluvial. Fluvial por isto: se você observar numa carta geográfica o curso descrito por um rio, vê que ele tem inflexões que subitamente mudam. O seu percurso foi obstaculado por acidentes naturais que o obrigam a procurar outras direcções. No caso concreto, o direito e, em particular, a filosofia do direito eram a minha vocação e foram, durante alguns anos, o tema de todas as minhas investigações. Uma parte considerável dos livros que publiquei têm esse objecto e, para ser inteiramente sincero consigo, dir-lhe-ei que se pudesse apenas obedecer aos impulsos das minhas apetências naturais, seria sobre isso que eu hoje estaria ainda a trabalhar. Simplesmente esse tipo de investigação não tem um público e só se pode fazer dentro do quadro natural do ensino superior pelo qual eu passei durante alguns anos - precisamente a esses anos se referem esses livros - mas, depois, essa experiência foi interrompida e, precisamente nessa altura, interrompeu-se a minha obra de teórico do direito.
(continua)
Mais Torquato, meu amigo
Esquece as horas de dor, o sofrimento
tornado rotina,
esse relógio a marcar o lento
correr dos dias, lâmina fina
que tudo por dentro
dilacera e mina.
Esquece o último tempo, a aflitiva
sensação do fim breve
e retoma na alma em carne viva
a doçura do Verão, cântico leve
que tanto se escreve
como se esquiva.
22.7.12
O ponto de vista da cegueira
O FMI, uma organização normalmente composta por gente sensata, está farto da Grécia. Custa assistir ao afundamento de um lugar que foi uma civilização e uma centralidade de cosmopolitismo, de cidadania, de cultura e de um humanismo ainda não infectado pelo privilégio da primeira pessoa. Se falir, como se calhar merece, a Europa terminará o Verão a rever a matéria. A ver vamos como diriam os cegos da velha tragédia.
Clip: Shirley Verrett, Gluck: Orfeo ed Euridice. 1971
"Reputações"

Durante o dia de ontem, sábado, um canal do cabo anunciou consecutivamente uma entrevista. A entrevista passava à noite e o entrevistado, presumivelmente, está em estágio para passar à categoria epistemológico-política de "senador". O "senador" é uma invenção de alguns meios de comunicação social destinada a produzir um upgrade quer no medium propriamente dito, quer no dito "senador" ou "senadora", normalmente seu ou sua avençados. O órgão de comunicação social decreta que a, b ou c são "senadores", eles adquirem essa"reputação" e não se fala mais nisso. Por exemplo, o hoje ominoso Dias Loureiro já foi reputado "senador" pátrio à conta desta subtileza antes de cair em desgraça justamente às mãos daqueles que o tinham nomeado "senador". Mas mais do que a entrevista que referi e que não vi, interessou-me particularmente a publicitação dela. Por diversas vezes o entrevistado surgia a falar em "reputação". Percebi que a "reputação", na boca do candidato a "senador", tinha um subtexto que se prendia com o grau académico de um membro do governo. E que, consequentemente, era esse, e praticamente só esse bocado-isco, que interessava passar interminavelmente. É claro que o candidato a "senador" e entrevistado, por ser reputado empresário e, embora em menor escala, reputado político, tinha opinião fiscal que certamente veiculou. Todavia, o que ficou foi a ideia da "reputação", ou seja, aquele candidato a "senador" tem uma opinião acerca da "reputação" alheia que a pátria, manifestamente, não pode desconhecer. Ora à dele (e à de mais cem como ele), prefiro a de Jorge de Sena. Quando juntou as suas "andanças do demónio", as "antigas" e as "novas", Sena escreveu-lhes uma "nota introdutória a uma dupla reedição", de Março de 1977, já andávamos nós há três anos a preparar estes "senadores" sem o saber. Aí conta as vicissitudes de publicar livros em Portugal (os dele, o universitário, o poeta, o contista, o romancista e o ensaísta exilado na altura nos EUA e, antes, no Brasil), porque tudo «convém lembrar à tradicional leviandade portuguesa, e àquele gosto de sempre nos roubar alguma coisa (ou de nos acusar de alguma falta), a que nem os melhores amigos e os mais dedicados admiradores sempre escapam (tão português também, enquanto persistir a pressão social para as pessoas serem inferiores a si mesmas).» Sena usava estas "notas introdutórias" e os seus famosos "prefácios" como «uma das formas de o autor afirmar aquela presença que os outros mostram ao apresentar os seus cumprimentos ou assinar o respeitoso ponto, nas mesas de café [hoje em dia a net e as televisões], e outros lugares de reunião pública e privada aonde as reputações se fazem ou desfazem (cuidado com a segunda e a terceira sílabas daquela palavra tão honrada como as outras, nestes tempos em que tais luxos de honra se vão perdendo no universo).» E, assim, Sena soltava "o diabo às canelas dos bem-pensantes de todas as cores e feitios", categoria onde se incluem os "senadores" e candidatos a "senadores" criados, muito adequadamente, para fazer e desfazer "reputações" nos novos cafés da cidade instalados em vulgares salinhas de estar.
21.7.12
O triunfo da vitalidade abestalhada
«Quem pode negar que a época dos meios de comunicação conduziu a um triunfo da vitalidade abestalhada, orientada por um modelo desportivo-musical que raia a insanidade mental? O último homem: o transeunte frente a um microfone. Todavia, o processo da civilização não é uma decadência linear: a dinâmica da vida ainda compreende mais do que o mero consumo das forças iniciais maníacas até ao estupor final. Na verdade, salta à vista de qualquer europeu que esteja atento a linha descendente que primeiro marca a conversão de Deus em homem e, em seguida, de homem em imbecil.»
P. Sloterdijk, Weltfremdheit
Helena Cidade Moura

Entretanto também morreu Helena Cidade Moura. Ficamos a dever-lhe, entre outras coisas, a fixação de texto e a edição dos livros de Eça nos Livros do Brasil, sempre acompanhados de posfácios ou de notas cultas e pertinentes onde não havia ressumo de preconceito nem "ideias feitas" (Cidade Moura era uma mulher das esquerdas e alinhada contra o regime do "Estado Novo" e nem por isso deixava de citar, por exemplo, Marcello Caetano sobre Eça). Depois do "25 de Abril" esteve ligada aos "planos de alfabetização" da pátria alimentados pelo MFA. Foi pena não ter começado precisamente por alguns membros do referido MFA. Em suma, e em tempos em que a cultura parece quase só uma miragem desenhada em folhas de cálculo, o desaparecimento de Helena Cidade Moura deixa-nos evidentemente mais desvalidos.
Impressões sobre um país de lacaios e vadios
1. As reacções esquerdófilas à morte de Hermano Saraiva, em geral provenientes das "elites" forjadas no comadrio ideológico-partidário que tomou conta da academia e da chamada "comunicação social e cultural" nos últimos anos, apenas amplificam o som grunho do burgesso adormecido dentro de cada uma delas. Deus terá seguramente piedade de tanto dislate. Eu não.
2. Vêm aí os jogos olímpicos embora não estejamos ainda inteiramente refeitos das "emoções" da bola. E sobre mais esse "evento" (e nós), Vasco Pulido Valente, no Público, resume bem a coisa: «As dívidas da Expo persistem em nos perseguir. Pela última contagem, a empresa de "urbanização" Parque Expo deve cem milhões, que pretende passar para as câmaras de Lisboa e Loures, como quem passa os restos de um almoço. Lisboa e Loures, naturalmente, e o contribuinte inerme acabará, como sempre, por pagar a conta. Os Jogos da Grécia deram uma especial contribuição para arruinar a Grécia. Os Jogos de Londres, pelo menos, provocaram a indignação e a fúria de uma parte substancial do país. Mas nós, na nossa obtusidade saloia, continuamos muito orgulhosos de "Guimarães, Capital da Cultura". Somos quem somos. Infelizmente.»
3. O bispo Januário passou um atestado de javardice pública ao funcionamento institucional da democracia. Todavia não lhe faltaram elogios por parte de gente com a qual o país contou para, famosamente, assegurar a partir de 1976 que "isto" manteria pelo menos a aparência de uma democracia, com eleições e toda a parafernália correspondente. Céline tinha um termo para estas confusões: «la vacherie du tronc des hommes.»
4. Ainda mal arrefeceram as operações de privatização da EDP e da REN e já as assessorias privadas delas estão a ser investigadas. Será que não seremos nunca capazes de fazer nada sem um cheirinho a cócó de cão nos sapatos?
5. Finalmente, o Rui Ramos, no Expresso - esse hebdomadário virtuoso onde nunca nada vacila, nem as alucinações - sumariza o "trampismo" que nunca nos fará sair do mesmo sítio, das mesmas pessoas, do mesmo estúpido egoísmo, da mesma vontade torpe de deixar tudo como está para ver como é que fica, aludida por Ruben. A. noutra encarnação mas acerca da mesma pequenina burguesia de espírito: «Para limitar o poder, em vez dos "freios e contrapesos" da fórmula americana, inventámos um sistema de chalaças e dichotes. É um sistema próprio de lacaios e vadios, não de cidadãos. Vivemos na democracia da anedota.»
20.7.12
José Hermano Saraiva

Estava a almoçar quando o plasma à minha frente, na RTP1, noticiou a morte de José Hermano Saraiva. Era a cores mas Hermano Saraiva apareceu pela primeira vez na minha vida aí pelos idos de 1971,1972, quando frequentava o ciclo preparatório no Externato da Luz em Lisboa. Os meus pais tinham uma televisão que era um móvel bonito, da Philips, e H. Saraiva surgia uma vez por semana num programa chamado O Tempo e a Alma. A preto e branco, com um olhar profundo em direcção do espectador, Saraiva iniciava-me na nossa história sem preocupações de erudição ou de academismo pueril. Ele comunicava e nós comunicávamos com ele. Mais do que o historiador de ideias ou o periodista histórico, Hermano Saraiva era sobretudo o divulgador excepcional. Excepcional porque sabia "fazer" televisão. Histriónico, actor imenso como poucos que denotam a profissão, Saraiva "era" o programa de televisão e, essencialmente, serviço público dela. Porventura seria melhor jurista que historiador mas ficamos a dever-lhe a memória mediática de um País enquanto retrato físico de si mesmo. Havia excesso e fábula? Havia seguramente. Todavia nenhuma sociedade sobrevive sem um módico de "realismo mágico" ou de imaginação que era aquilo que Saraiva transmitia como ninguém. Nem mesmo o irmão, o cosmopolita exilado e enorme historiador da cultura nacional, Antonio José Saraiva, conseguiu, anos depois, na mesma ainda descolorida RTP, prodigalizar esses momentos únicos de televisão. Em 1985, numa sala escurecida da Academia das Ciências, passei uma tarde inteira a entrevistar - como se não tivesse sido sempre ao contrário - José Hermano Saraiva para o Semanário, talvez a pretexto da sua muito discutida Vida Ignorada de Camões. Aquele iconoclasta ironista - fisicamente pequeno e grande na sua fala, nos seus gestos, na sua generosidade contida - estava sozinho comigo e com o meu bloco de notas e falava como se à sua frente estivesse uma multidão. Nunca sentiu necessidade de bajular o regime saído do 25 de Abril ao contrário de outros que ele tão bem descreve nas suas "memórias" que o semanário Sol devia agora reeditar em um livro só. E nunca renegou Salazar a cuja memória seguramente permaneceu fiel até à manhã de hoje, ao arrepio de alguns prosélitos notórios que ainda segregam a ridícula "vergonha" freudiana por terem servido o "Pai". José Hermano Saraiva talvez não fosse um "democrata" como muitos soit-disant que vão aparecer por aí para o carpir ou insultar. Pouco importa. Isso nunca impediu os dois irmãos - o anti-salazarista António e o salazarista José - de se amarem profundamente como a correspondência e os gestos o atestam. O que revela um Homem. Chega-me.
Adenda: A RTP, através de uma entrevista realizada ainda este ano por Fátima Campos Ferreira a José Hermano Saraiva, esteve à altura de um serviço público de televisão que foi, afinal, o que Saraiva protagonizou durante quatro décadas praticamente sem interrupções. Bela recordação do irmão António: «a outra metade da minha alma.»
Subitamente saídos de um cano

«Muito pouca gente percebe o significado do défice e da dívida ou as discussões labirínticas com que um bando de peritos, subitamente saídos de um cano, deu em se entreter na televisão ou em artigos maciços que a boa imprensa publica em letra miudinha.»
Vasco Pulido Valente, Público
Da vida enquanto catástrofe

Um dia destes, um leitor chamou-me a atenção para o aniversário, hoje, da mulher de Céline, Lucette Destouches. Completa cem anos e ainda vive em Meudon. «Bien sûr je devrais être mort depuis longtemps, depuis 14. J'ai triché avec la mort. Lucette toute mignonne est venue me chercher. Je l'ai compris la première fois qu'elle est montée me voir rue Lepic. Lucette est venue pour m'emmener, cela c'est sûr, je l'ai vu tout de suite». Na dedicatória na Voyage, disse: «A Lucette, déjà si secrète au seuil de la vie.» Numa entrevista afirmou que Céline, no trabalho como na vida, via tudo como uma catástrofe. Nenhum dos dois se enganou.
19.7.12
Quase tudo
Os incêndios, ano após ano, recordam da pior maneira que há muito para fazer. Quase tudo menos descrições.
Sublimes macacos

Ao som de Mozart - concerto para clarinete e orquestra, aquele com que Robert Redford enternecia e acalmava os macacos selvagens no filme Out of Africa -, folheio jornais e revistas, em versão material e imaterial. Leio a doxa que vai da "carta ao leitor", do professor catedrático ao cómico do regime, do avençado previsível ao idiota inútil, etc., etc. E lembro Gore Vidal, o derradeiro romano. As suas "injustiças" confortam-me. Coisas como «sou tão insociável quanto é possível ser-se" ou "não existe um único problema humano que não pudesse ser resolvido se as pessoas seguissem os meus conselhos» são pressupostos básicos, de par com a água do Guincho, para um módico de equilíbrio pessoal. Assevera nunca ter tido «uma opinião excessivamente elevada do mundo» até porque «o mundo não fez nada para mudar.» Como ele, «decidi cedo que aquilo que penso dos outros é mais importante do que aquilo que eles pensam sobre mim. Qualquer jogo tem de ter um árbitro e, então, decidi que eu seria o árbitro.» A doxa por natureza não se arbitra. Despreza-se, à semelhança daqueles lugares-comuns que Nabokov descrevia como cruzamentos de elefantes com cavalos. Sublimes macacos, os do Redford.
18.7.12
Mário

Não sabia que Mário Soares perpetrava "catequese" parecida com a do bispo Januário. Ou, ainda menos, que o antigo "pai da pátria democrática", afinal, só respeita resultados eleitorais que não lhe desagradem. Todavia, jamais cometeria a indelicadeza de o acusar de promover "ataques raivosos" a um membro do governo. Afinal, não foi Soares, em 1984, quem escreveu que o governo, qualquer governo, não se deve «deixar perturbar por agressões verbais, por incompreensões ou por injustiças» e «aguentar de pé»?
17.7.12
Januário
A tvi24, no serão de ontem, para além da catilinária habitual de Constança Cunha e Sá - copiada diariamente de qualquer anónimo do "facebook" -, presenteou-nos com o bispo Torgal Ferreira. Como católico, não reconheço ao referido bispo a menor gravitas católica, apostólica e romana e jamais poria os pés em qualquer acto litúrgico celebrado por semelhante criatura. Aliás, não sei que mais mal ainda se pode fazer às Forças Armadas (depois do fim do serviço militar obrigatório) do que colocar uma pessoa daqueles como seu bispo. Torgal Ferreira, à semelhança do que dias antes tinha feito outro género de apóstolo, noutro canal, ao apodar um ministro de "bandido", alargou por assim dizer o espectro e adjectivou de "corrupto" todo o governo. Bento XVI, quando em 2007 recebeu os bispos portugueses no Vaticano, não deve ter dado pela presença deste homem. Porque Ratzinger não se costuma misturar com casos nitidamente patológicos como os do "democrata" Januário que imagina a igreja sediada no Vaticano como um grande armazém de moda que muda a montra consoante as estações. No dia em que a igreja fosse a primeira a ceder à "inevitabilidade" do relativismo que Januário incensa, deixava de ser igreja. Mas isto reclama um congresso extraordinário na cabeça de Januário. Talvez o vejamos naquele das esquerdas do 5 de Outubro como já o vimos de mão dada, no patético manifesto contra a privatização da RTP, com a aurea mediocritas ideológica do regime. Não se esqueçam de o convidar.
Adenda (in Combustões, do Miguel Castelo-Branco): «Este Januário - que nada é a São Januário de Benevento, mártir da Igreja - vem de uma linha mais chã, aparentado do frade Melícias e do Martins de Setúbal. Aquela grosseria desabafo-de-taxista, a linguagem soez de cocheiro ou de moço de estrebaria, o facciosismo partidário de que dá provas - nunca o ouvi indignar-se com matérias atinentes ao seu múnus sacerdotal - oferece sobejas provas da nova santa aliança entre o altar e as curibecas.»
16.7.12
Um vocabulário alarve
«Perante o estado de avanço do Acordo Ortográfico, não reconhece que combatê-lo hoje em dia é uma luta quixotesca?
Eu acho que quixotesco é pretender aplicá-lo, porque envolve uma dose de irrealismo, fantasia e inviabilidade, só comparáveis com os do fidalgo da Mancha.
Porém, já está a ser aplicado por editoras e órgãos de comunicação, sem grandes dramas...
Está por uns e não está por outros. Os dramas são os dos professores, dos responsáveis pela educação, dos próprios alunos. E vão agravar-se.
Sendo obrigatória a aplicação do Acordo Ortográfico nos serviços do Estado desde Janeiro último, classifica a sua recusa em aplicá-lo no CCB como uma desobediência perante o Estado? Que reacções recebeu do governo a esse respeito?
O que é impossível não pode ser obrigatório. Era e é o caso. Não se tratou de desobediência, mas de inviabilidade verificada no caso concreto.
Voltando atrás: tem sido viável a diversos níveis. Porquê inviável?
Não, o que está a ser aplicado não é o acordo. É um vocabulário que não corresponde às exigências do próprio acordo e não foi elaborado de acordo com ele.»
Adenda: No livrinho que estou a ler - Temperamentos Filosóficos, de Peter Sloterdijk, do Grupo Almedina, antigas Edições 70, esta frase: «Na sua clássica formação escolar, a doutrina de Platão queria transmitir na teoria as instruções para a vida feliz; era, na verdadeira aceção do termo, uma religião do pensamento que se julgava capaz de unir investigação e edificação sob um só teto.» Se fossem mamar na teta da vaca!
15.7.12
“Fiquei viva, sabe-se lá porquê”
Há muito tempo que não lia um trabalho num jornal tão bom como este, de Paulo Moura, sobre um Portugal que não passa nas televisões onde, em geral, só passam patetas e plumitivos embotados do "meio" amiguinho. Talvez não tenhamos avançado muito mais no país que Paulo Moura tão brilhantemente descreve. Se calhar também não merecemos melhor.
O 14 de Julho
Com um dia de atraso, a celebração do Dia Nacional da França: Julho de 1989, por ocasião do Bicentenário da Revolução Francesa promovido sob a égide de François Mitterrand, a Marselhesa dirigida por Georges Prêtre na abertura da Ópera da Bastilha.
Parabéns

O Presidente da República, Cavaco Silva, completa hoje setenta e três anos de idade. Daqui, deste veículo solitário que sempre o apoiou e defendeu - da injúria soez, do ódio de classe partilhado por algumas esquerdas e direitas, da pseudo-superioridade moral dos "donos" do regime, da fabriqueta de lugares-comuns que é tanta da opinião que se publica - lhe endereço sinceros parabéns. Como qualquer apoiante leal, critiquei o que me pareceu indisputável criticar. Mas, no essencial, e depois de Eanes, Cavaco é uma constante política minha há mais de vinte e cinco anos. O Presidente, aliás, sabe disso. Cavaco, o primeiro-ministro e com a "Europa", mudou, com décadas de atraso, um país pouco mais que rudimentar. Cavaco, o Presidente, não tem culpa de a revisão constitucional de 1982-83 ter amputado os poderes de intervenção presidencial ao acabar com a dupla dependência do governo do Parlamento e do Chefe do Estado. Cavaco não podia evitar, por consequência, o "estado da arte" que começou a delinear-se com mais clareza a partir de 2008. Todavia, não se poupou em avisos e alertas apesar de o "povo" ter preferido continuar com Sócrates em Setembro de 2009, um "ganho" de praticamente três anos perdidos. Tudo visto e ponderado, não é seguramente ao Professor Cavaco Silva que eu conheço que o editorial do Público alude quando escreve que «é do lado de Belém que têm chegado os mais sonoros apelos à saída de Miguel Relvas». Não imagino Cavaco em "sonoros apelos" e, muito menos, ad hominem. Isso tem estado mais ou menos por conta dos mesmos que, sobretudo na última campanha presidencial, deliberaram emporcalhar o debate público com processos difamatórios e insinuações torpes difundidos através de uma vasta e complacente campanha mediática. Feliz dia de aniversário.
14.7.12
Clint Eastwood, serviço público de televisão
Na RTP2, a partir das 22.30. Primeiro, O Profissional do Perigo, a seguir Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal.
Consenso ou o picnicão do regime
Esta semana falou-se muito em "consenso". Por isto ou por aquilo foi "quebrado o consenso", é preciso "preservar o consenso", etc., etc. Confesso que não gosto da ideia de consenso. Acho que é prejudicial para a democracia que pressupõe o conflito e o debate. Cheira-me a empadão, a inércia, a picnicão com comida sem sal. O que é o "consenso sobre a Europa", o "consenso sobre a justiça" ou o "consenso sobre o serviço público de televisão"? Não faço ideia. Sei, sim, o que é um programa sufragado em eleições livres. E esse ou se cumpre ou não se cumpre. O resto é "fairy" para lavar a loiça do picnicão.
A história de um fracasso
A coisa começou com Veiga Simão ou, mesmo antes, talvez com Hermano Saraiva. No PREC, os militares chegaram a ministros da educação com o interlúdio Vitorino Magalhães Godinho que, muito sensatamente, quis fechar as escolas para pensar o que fazer com elas. Saiu, evidentemente, e o festim continuou: até Vasco Gonçalves acumulou a pasta interinamente. Com Soares veio Cardia, um modelo de coragem inteligente em tempos ainda quase revolucionários. Entre Cardia e Roberto Carneiro é praticamente tudo esquecível e irrelevante, com a excepção do "barthesiano" José Augusto Seabra. Depois de Carneiro é sensivelmente a mesma coisa. Até Manuela Ferreira Leite aceitou fazer um favor improvável ao amigo primeiro-ministro. Guterres trazia na bagagem a promessa da qualificação e aquele jargão colorido de as pessoas não serem negócios. Deslumbrado com os poderes da internet, Guterres (os ministros da educação dele não relevam, salvo Marçal Grilo) "era" o ministro da educação e só não foi da cultura porque Manuel Maria Carrilho é uma personalidade política pouco afoita ao pensamento débil. O interregno da "direita", com Barroso e Lopes, não pesa nesta história apesar da seriedade simpática de David Justino. Sócrates foi um caso mais sério. Maria de Lurdes Rodrigues começou bem mas as necessidades da propaganda do chefe - com as"oportunidades", os "magalhães" e o ódio cego aos professores, confundidos com os sovietes da "fenprof", como se a educação se fizesse por obra e graça dos meninos e dos paizinhos deles - deram cabo dela. Isabel Alçada não conta. Pelo lado do "superior", Mariano Gago - que tinha sido um relativamente prestigiado ministro da ciência e do dito com Guterres - entrou quase mudo e saiu calado, com as universidades exauridas e a investigação depauperada. Mas era na educação que estava. Acabo de ler que cerca de dois mil e quinhentos alunos que perpetraram exames nacionais de filosofia não passaram dos cinco (5) valores e que a "média nacional" na disciplina foi de 7,9. Isto quer dizer que os alunos não só mal sabem escrever como não sabem pensar, e nem sequer são "treinados" para o efeito. Isto sobretudo quer dizer, ao olhar para o "historial" que descrevi desde a década de 70 do século passado até aos nossos dias, que perdemos a batalha da qualificação. Na filosofia, como na vida, é mais importante perguntar que responder. Toda a sua história, aliás, não é muito mais que isso: colocar problemas. Os resultados dos exames nacionais revelam um problema de outra natureza, porventura oposta ao que absorve a filosofia. E igualmente sem resposta mas pelas piores razões. Um fracasso.
13.7.12
Enfim

Li no Público que o São Carlos mais a Companhia Nacional de Bailado (juntos naquele trambolho inventado pela dra. Pires de Lima e que se chama, ou chamava, OPART), têm, em 2012, um orçamento de 14,5 milhões de euros dos quais apenas 850 mil euros servem a programação propriamente dita do Teatro lírico e 500 mil a da Companhia. O resto, pelos vistos, é "funcionamento". Em dez anos, sensivelmente, tantos quantos os que passaram sobre a minha curta estadia na direcção do Teatro, pelos vistos pouca coisa mudou. Até a Parpública - que já devia estar extinta há séculos - continua a cobrar a sua rendinha anual de 175 mil euros pelo Teatro Camões como se os equipamentos culturais em causa não fossem todos públicos. Enfim.
Nada está escrito afinal

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal
Mário Cesariny
Adenda: Fui buscar este poema de Cesariny para celebrar o Joaquim Manuel Magalhães, meu amigo há mais de duas décadas, também ele enorme poeta e professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa onde acabou de se aposentar. Pouca gente falou tão bem da poesia em Portugal como ele. Não sei se ela se ensina mas as suas aulas ajudavam a perceber esse bocado de carne, atirado ao cão enquanto os larápios assaltam a casa, de que falava Eliot. Não gosto dos meus "tempos". Estão todos trocados. Tudo acontece ou aconteceu cedo ou tarde de mais. Tudo acontece ou aconteceu em geral mal ou retorcidamente. Há, todavia, o que perdura. O pedaço de carne. A poesia. O Joaquim.
Adenda2: É curioso verificar como certos tartufos que, nos idos de 70 dos exames ad hoc para entrar na mencionada Faculdade de Letras, não conseguiram sequer obter aproveitamento em português, têm lata para "comentar" licenciaturas alheias et al. Mas passam por "escritores" e há uns quantos lerdinhos que os tomam por tal porque lhes ornamentam a mesa.
12.7.12
Duas recomendações e um facto

Um livro que é uma conferência, uma conferência que fez os bonzos rosnar de "indignação". Regras para o Parque Humano, de Peter Sloterdijk (Angelus Novus). Duas recomendações tiradas de lá em tempos de circo doméstico superficial que é único que os frouxos, lamentavelmente secundados por meia dúzia de formas de vida inteligente, conseguem perpetrar. «O humanista devia cortar com o hábito da própria bestialidade potencial e distanciar-se da escalada desumanizadora da vociferante matilha do espectáculo.» Para os falsamente distraídos, em democracia as coisas da política são escrutinadas politicamente e em liberdade absoluta de consciência e de expressão. As coisas que não são da política, como, por exemplo, a difamação (crime previsto e punido nos termos da legislação penal), tratam-se noutro lado. E isto não é uma recomendação. É um facto.
11.7.12
Património

O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura vai homenagear o arquitecto Nuno Teotónio Pereira por, entre outros aspectos, «a estatura ética e criativa de Nuno Teotónio Pereira representa[rem] uma lição de humanidade para todos nós e uma luz oportuníssima para pensar o lugar e o modo da arquitectura reinscrever-se no presente e no futuro.» Como se lê na notícia do Público, «a acta do júri do Prémio Árvore da Vida recorda ainda “uma história curiosa, que atesta bem como a arte e a dimensão moral do percurso de Nuno Teotónio Pereira se conjugam para constituir uma fecunda árvore da vida”: foi enquanto estava preso por razões políticas (o arquitecto esteve detido três vezes, entre 1967 e 1974), na prisão de Caxias, que Teotónio Pereira desenhou o sacrário da Igreja do Coração de Jesus», no quadro de uma relação com o catolicismo, através do MRAR, «do qual Teotónio Pereira foi o primeiro presidente e do qual faziam parte, entre outros, artistas como José Escada, Jorge Vieira, Cargaleiro, Madalena Cabral ou Eduardo Nery, e arquitectos como Nuno Portas, Luís Cunha, Diogo Lino Pimentel ou Formosinho Sanches. O MRAR, que se definia como “uma comunidade católica de artistas, com o fim genérico de promover, em todos os domínios da arte religiosa, o encontro de uma verdadeira criação artística com as exigências do espírito cristão”, dinamizou uma série de projectos na arquitectura, pintura e escultura, que procuravam também traduzir uma nova linguagem religiosa e uma nova conceptualização formal do espaço litúrgico. Nesta área, a obra maior de Teotónio Pereira é a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa.» Já tinha chamado aqui a atenção, via José Paulo Fafe, para a situação da saúde de Teotónio Pereira e para a sua precária condição económica. Depois do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, com este belo gesto simbólico, espera-se um mais decisivo da Secretaria de Estado da Cultura. Quando se pensa nos dinheiros e pendões que se atribuem a uma data de gente que, há anos, recebem prebendas do que foi o Ministério da Cultura e é hoje a SEC – basta ir ao Diário da República e recorrentemente lá vêm as listas dos beneficiários, alguns deles sem necessidade nenhuma porque juntam às duas e três fontes de receita – talvez conviesse atentar nisto. Algumas, cada vez menos, pessoas são elas mesmas parte de um património especial que vai desaparecendo, o da memória. Este homem parece-me ser o caso.
Atacar o "estado da nação"
«A solução deve passar por um "mix" de despesa, receita e calendário. Agindo prioritariamente sobre a diminuição da despesa (e não apenas reprimindo-a temporariamente) de uma forma corajosa perante os lóbis habituais: empresas rendeiras, parcerias público privadas, redução de autarquias e, sobretudo, redução do volume do Estado e "estados paralelos" (com custos que poderiam não entrar no défice através de um fundo com receitas das privatizações). Mas também apanhando a "boleia" espanhola para ganhar pelo menos um ano no processo de consolidação orçamental e negociando uma diminuição dos juros do empréstimo externo (p. ex. 0,5 % a menos pode representar 400 milhões de poupança). Um difícil problema para o país, para o governo e para o PS que deixou Portugal à beira do incumprimento e que não se pode eximir das suas responsabilidades.»
Bagão Félix, Jornal de Negócios
10.7.12
Medição

Perguntava adequadamente Jorge de Sena em 1972: «se a gente passar todas as semanas a ler 80% de porcarias e 20% de obras boas, a gente acaba por medir as coisas boas pelo nível da porcaria, não é?»
9.7.12
8.7.12
«Sei o teu nome»
Puccini, Turandot. Festival de Salzburgo, 2002. Filarmónica de Viena. Gergiev. Encenação de David Pountney.
Não há coincidências

A propósito deste post, fui ler as declarações do promotor do "manifesto". E fiquei esclarecido tal qual Nietzsche quando afirmou que existe qualquer coisa de desprezo no acto (no meu acto) de falar sobre esse "manifesto" complacente com a inércia oportunista. Parece que a maior parte dos comentadores online do DN também.
7.7.12
Com três letrinhas apenas
Leio no Expresso um "manifesto" contra a privatização da RTP e em defesa do serviço público de televisão. Uso, aliás, os termos do dito "manifesto". Os subscritores são, evidentemente, pessoas respeitáveis, uma ou outra, até, minha amiga. Antes de prosseguir, faço uma declaração de interesses: trabalho presentemente com o ministro que tem a tutela chamada técnica sobre a comunicação social pública, a saber, RTP e Lusa onde o Estado é accionista maioritário. Todavia, repito, o que escrevo aqui é escrito a título pessoal e não reflecte, em circunstância alguma, aquela colaboração. Dito isto, o argumentário daquelas respeitáveis criaturas constitui uma falácia e não é inocente a escolha do veículo para o tornar público. Não li em nenhum momento do "manifesto" a menor preocupação com os custos operacionais e financeiros da RTP. A coisa fica-se por, e passo a citar, uma "dimensão financeira dispicienda" na linha da famosa "doutrina Mário Soares", apontada em 2005 na Casa da Música, do Porto, por ocasião da sua terceira candidatura presidencial: "o dinheiro aparece sempre". Sucede que não aparece. Aos subscritores não incomoda que, em 2011, como consta de relatórios públicos da empresa, os custos de grelha tenham sido sido praticamente equivalentes (para menos) aos custos de pessoal. Como o orçamento da RTP está evidenciado no Orçamento de Estado para 2012, deixo de cor duas ou três notas. No ano corrente, 2012, a RTP recebe a título de subvenção estatal 90 milhões de euros, sem IVA, mantém o valor da chamada cobrança para o audiovisual (2,25 € per capita/mês) e o Estado já liquidou no primeiro trimestre a dívida de médio e longo prazo da empresa (344,5 milhões de euros). Quando o Governo quer reduzir os custos operacionais e financeiros da RTP para cerca de 150 a 180 milhões de euros a partir de 2013, quer com isso dizer que aqueles valores são um "problema" no contexto geral de um país assistido internacionalmente embora isso não interesse nada à "ideologia" do "manifesto". Só assim a RTP se poderá manter e não em permanente estado de elefantíase autofágica e endogâmica onde não se pode mudar nada, e em que tudo deve ficar na mesma, independentemente dos governos que veriam passar os comboios. Os subscritores parecem ser adeptos desta "teoria" pois decerto não ignoram que em nenhum momento se pretende colocar em causa o serviço público de televisão, seja através de um canal generalista da RTP, seja pela concessão de conteúdos de serviço público a operadores privados. Conhecem porventura os crédulos subscritores a estrutura da RTP, as suas direcções, os seus centros regionais, a sua rádio ou o seu parque automóvel? Ou acham que tudo se reduz a accionar o comando remoto da televisão, sentadinhos no sofá, e que o que "compromete o futuro da empresa" é pensar em como resolver (e resolver efectivamente e não retoricamente) aqueles nós cegos para garantir um serviço público de televisão para um cidadão ou para dez milhões deles, e não para o mandarinato habitual do regime?
6.7.12
Decisões políticas
O acórdão do Tribunal Constitucional sobre a inconstitucionalidade dos cortes dos subsídios de férias e de natal a apenas um segmento dos trabalhadores por conta de outros - os funcionários públicos - gerou já mais "doutrina" barata do que jurisprudência propriamente dita. Era previsível apesar da "originalidade" da aplicação no tempo da decisão. Todavia, há uma leitura do acórdão - até os acórdãos podem ser lidos como um exercício de crítica literária, aquele que procura tornar estranho o familiar - que é mais plausível porque mais exigente. Não são os funcionários públicos (uma ampla categoria profissional que vai da magistratura, aos professores universitários, aos médicos ou aos coveiros dos cemitérios) que constituem o "Estado" em exclusivo. Pelo contrário, o peso dos vencimentos daqueles no "bolo" da despesa pública é incomparável com o que os contribuintes (e os funcionários públicos também são contribuintes como quaisquer outros) pagam para sustentar um sector empresarial do mesmo Estado, as rendas derivadas de contratos leoninos provenientes, ou não, de parcerias público-privadas, fundações, risíveis institutos públicos, fornecimentos de serviços externos quando o Estado tem internamente gente habilitada para os produzir (v.g. pareceres, auditorias, estudos) ou um património imobiliário ou um parque automóvel mal geridos. Reduzir, por exemplo, o sector empresarial do Estado a danças grotescas de entradas, saídas e manutenções de gestores em que nem as entradas, nem as saídas e, muito menos, as manutenções dão qualquer garantia de maior eficácia e eficiência no uso dos dinheiros públicos, é parafrasear simplesmente o acórdão. Aprende-se no direito que "quem pode o mais pode o menos". O que não se aprende é que quem não pode o menos, pode o mais. O que aí vem já não passa só pelas folhas secas da contabilidade. Ou passa pela política, ou então não passa.
5.7.12
O Mercador de Veneza

Por Ricardo Pais, logo à noite no excelente Festival de Almada. Nas suas palavras e «enquanto não cumpre o seu sonho de comprar um jazigo em Itália, agradece a todos os que virem O Mercador de Veneza que estejam atentos ao seu respeito e paixão pelos Actores (que em certos momentos da sua carreira tem adquirido foros de Escola) e à sua luta cândida pela transparência narrativa e de sentido.»
Pensar nisto
Sei que o que vou escrever não me trará a menor "popularidade". Faço-o, como é óbvio em relação a tudo o que escrevo aqui, a título pessoal: o "poder editorial" sou eu. Mas após a fantástica audição do conselho regulador da ERC ocorrida ontem numa comissão parlamentar, fica mais evidente a necessidade de ponderar oportunamente um novo destino para aquele regulador. Adepto, desde a sua criação, do seu fim, talvez se possa juntar a outro regulador (a ANACOM) que passaria assim a constituir "dois em um" com, por assim dizer, duas "secções", uma para as comunicações e outra para o que é hoje a ERC devidamente reformulada nas suas atribuições e competências. E com a manutenção do seu excelente corpo técnico. Aliás, o programa do Governo em matéria de regulação é muito claro. Para estas "autoridades administrativas independentes" o Governo prevê reforçar a sua "autonomia e responsabilidade": «A forma de designação dos titulares dos órgãos de direcção ou administração será alterada. Em função da natureza de cada entidade este processo de designação deverá envolver o Governo, a Assembleia da República e o Presidente da República, tendo a preocupação de garantir consensos alargados quanto aos seus méritos. A sua designação deve ter o cuidado de prevenir comportamentos corporativos, mediante a aprovação de regras claras de impedimentos e incompatibilidades. A alteração da arquitectura institucional e legislativa destas entidades deverá conduzir a um novo quadro de entidades reguladoras.» Recordo que a ERC substituiu uma aberração denominada "alta autoridade para a comunicação social", uma daquelas coisas que o regime inventou para dormir de consciência tranquila. Quando digo regime, quero dizer política, economia e OCS. A ERC apenas sofisticou a actuação da defunta "alta autoridade" o que significa que, a seu tempo, deverá desaparecer. Salvo para duas ou três almas penadas, julgo que nem sequer valerá uma missa.

