30.4.12

Olha que bom

«Empresas do Sector Empresarial do Estado têm “novas necessidades de financiamento no valor previsto de 2,19 mil milhões de euros” este ano.»

Da França, da Europa


 


«Sarkozy foi um dos poucos políticos europeus mandatado para grandes mudanças. Falhou por um motivo que já era perceptivel na eleição de 2007: ele é hiperactivo. As reformas são para políticos aborrecidos. A principal razão por que antecipo, com expectativa, a presidência de Hollande, é pelo seu impacto na Europa.»


 


 


Wolfgang Münchau, FT


 


«Ce n’est pas une fantasmatique "pétainisation" de Nicolas Sarkozy qui pose aujourd’hui problème, c’est la crédibilité même de sa parole. Le président-candidat est un as du cynisme électoral, prêt à tout, ou presque, pour garnir sa besace de nouveaux suffrages, mais un piètre idéologue. Tel n’est pas le cas de son mauvais génie...»


 


 


Renaud Dély, Le Nouvel Obs

29.4.12

Pobres e pequeninos



Os meus níveis de tolerância geral aumentaram razoavelmente. Apesar de continuar a evitar atropelamentos por carros gigantes de bébés (presumo que incluem, pela dimensão, sanita e bidé), já consigo encarar com um módico de ternura o seu conteúdo rosáceo e ranhoso. Também consigo aguentar trinta e seis notícias seguidos sobre o "união de Leiria" e a "ameaça" de, pelo menos, quatro horas de emissão monotemática com Rui Santos com apenas meio Lexotan. Ou as reportagens néscias em torno dos pacóvios "dias da música" do CCB, a chuva despropositada ou o simulacro de feira do livro estacionado no Parque Eduardo VII com a outra metade. O melhor sinal desta súbita beatitude - se tens de viver daqui para diante sem o chamado sentimento estético da vida, agarra-te ao corrimão e ao Lexotan - manifesta-se igualmente com o recuperado gosto pelas falas da Maria Filomena Mónica. Para além de partilharmos o Verdi, outras coisas nos "unem". «E do ponto de vista cultural? Tem sido tudo muito lento. Se falo de Stendhal ou de Balzac, alguns alunos meus, que até são espertos e muito bons alunos, nunca ouviram falar, porque os avós são analfabetos e os pais não têm livros em casa. A evolução cultural leva tempo, é obra de duas ou três gerações. Falhámos a escola pública, que tem um papel fundamental, e isto afecta muito profundamente o país. Os meus filhos andavam numa escola pública, é através da escola pública que as gerações se podem tornar mais cultas, porque infelizmente os pais e avós não lhes podem dar o Verdi, não lhes podem explicar o que é a “Traviata”. (...) Conheço muitos casos, alunos que fazem mestrados e arrastam bolsas pagas pela Europa, através da FCT, sem nunca terminar. Em primeiro lugar, porque não houve uma selecção adequada, não houve a apreciação de um júri que percebesse que este ou aquele jovem nunca fará um doutoramento na vida – não por não ser inteligente, mas porque não tem pertinácia. E porque não há vigilância – a FCT não pede aquilo que até a Gulbenkian pedia no meu tempo: que um supervisor escreva um relatório de três em três meses que diga se o jovem está a cumprir ou se anda só a passear. (...)  Quando vejo as crianças de hoje sempre ocupadas com jogos, consolas, etc., penso que este tipo de tédio que nós tínhamos faz muita falta às crianças.(...) Que avaliação faz do debate de ideias na sociedade portuguesa? Sempre foi péssimo, continua péssimo e possivelmente será sempre péssimo. As pessoas debatem tudo em termos pessoais, não são treinadas para organizar um pensamento racional, dedutivo, calmo. Isto treina-se na escola desde pequeninos. Interrompem-se todos, tudo muito emocional. E os portugueses não são bons a debater também porque acham que há sempre interesses ocultos por trás. Se disser que não gosto de futebol, vão pensar “Ah, isto deve ser porque ela tinha um pai que era futebolista” ou “Ela está ligada a um clube”. A ideia de que alguém pode genuína e independentemente ter uma opinião é difícil de aceitar para os portugueses. E, mais uma vez, é por sermos um país pobre e pequeno.» É mais ou menos isto, de facto.

Uma linda "imagem"

O que Miguel Cadilhe afirma sobre o BPN revela mais o regime do qualquer declaração piedosa por ocasião do "25 de Abril". É, por assim dizer, uma linda "imagem" que convém garantir que jamais se repetirá.

27.4.12

A queda



Ontem, num canal francês de televisão, os dois finalistas das presidenciais do dia 6 de Maio apareceram sucessivamente para responder a vários jornalistas. O "modelo" do debate devia ser estudado pelas nossas televisões - renovação permanente dos intervenientes, perguntas bem preparadas, "ideias fortes". Já na noite de domingo, na primeira volta, a coisa tinha sido assim: estimulante, viva, sem cansaço ou interregnos idiotas. Por cá é quase sempre a mesma pobreza franciscana, com os mesmos de sempre a dizer as mesmas coisas de sempre. Democracia em que o debate político é medíocre é uma democracia coxa. Ora os franceses, por pouco que se aprecie, ainda hoje colocam a política pura em nobres alturas, desde os protagonistas aos jornalistas. Como afirmou uma delas, Sarkozy "desceu" de presidente a candidato enquanto Hollande, a cada dia que passa, "cresce" de candidato para presidente. E isso foi muito claro no programa dirigido por Daniel Poujadas. Adianta pouco agora aos maus conselheiros de Sarkozy recordar-lhe o confronto entre o então incumbente Mitterrand e o seu primeiro-ministro Chirac, na segunda volta de 1988. Mitterrand nunca abandonou o pedestal de presidente da República e manteve sempre Chirac, e tudo o mais, à distância. Sarkozy, acossado, tratou mal os jornalistas que o olhavam não como chefe de Estado que une mas como um arrivista insolente, com a cabeça meio perdida, que divide. Hollande será o próximo PR francês mais apesar dele do que por causa dele próprio. E a Sarkozy, entre outros, o fica dever.

26.4.12

O sentido que lhe falta


 


«Os resultados das eleições traduzem a inequívoca rejeição de Nicolas Sarkozy, das suas políticas como do seu estilo. Ele paga as derivas de uma presidência narcísica, errática e voluntarista: narcísica quando se impunha sentido colegial na governação, errática quando era imperativo fixar um rumo claro para a França e voluntarista quando era vital, não impor uma vontade majestática, mas agregar vontades. A presidência de Nicolas Sarkozy foi um exercício a que faltou coerência, noção das prioridades e sentido de Estado.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

25.4.12

Uma ética da austeridade, segunda parte

Lamentavelmente a RTP 1 preencheu o seu "serão" do "25 de Abril" (ainda decorre em versão "prolongamento" enquanto escrevo) com um jogo da "liga dos campeões" entre duas equipas de futebol estrangeiras. Calhou, para usar um termo português. Andou bem o Governo, enquanto accionista único da RTP, em não consentir que a televisão pública fosse ao leilão dos jogos da referida "liga" para 2013 - quem não tem dinheiro não tem vícios. E andará ainda melhor quando alienar uma licença de exploração de um dos canais generalistas para que a RTP se possa concentrar num verosímil serviço público de televisão.

Uma ética da austeridade


 


Mais logo, pelas 22 horas, a RTP apresenta uma entrevista com o General Ramalho Eanes, militar do 25 de Abril e do 25 de Novembro, e o primeiro Presidente da República eleito por sufrágio directo, universal e secreto em 1976. Finalmente a RTP, mesmo que em menos de uma hora de emissão, "libertou-se" da síndrome Mário Soares. Já perdemos a conta aos documentários, programas e entrevistas que a televisão pública, nos últimos anos, consagrou ao agora melindrado democrata Soares (Sampaio passou recentemente a "comentador" da casa). Da mesma forma que os militares, seja sob que maneira for, não tutelam o regime, também não deve existir qualquer tentação dominadora por parte de personalidades político-partidárias por muito carregadas de biografia que estejam. Ramalho Eanes, neste sentido, é uma escolha oportuna para celebrar o "dia da liberdade". Porque tem sido, seguramente, um dos mais livres dos protagonistas destes trinta e oito anos. E porque é um homem austero e a democracia precisa de gente assim para sobreviver eticamente.

O 25


 


Cá está ele. Pela trigésima oitava vez. Pode ser que um dia lá cheguemos.

23.4.12

Os donos

Três venerandas figuras do regime - o dr. Soares, Alegre e o coronel Lourenço - decidiram privar o país das suas incontornáveis presenças no Parlamento por ocasião dos 37 anos do "25 de Abril". Aparentemente amuaram com a democracia de quem se julgam donos. Sucede que, da última vez que o "povo" falou, precisamente em eleições livres que ditaram a actual composição parlamentar, os resultados não terão sido do agrado de algum mandarinato "anti-fascista" que as referidas criaturas imaginam representar. Pelos vistos a "casa da democracia" só é frequentável quando é nossa. Deles.

O duplo fracasso


 


«Le gaulliste Michel Noir avait lancé aux siens : "Mieux vaut perdre les élections que perdre son âme." Nicolas Sarkozy est en passe de réussir à faire les deux en même temps.»


 


Renaud Dély, Le Nouvel Observateur

22.4.12

A coesão social

Explicada a formas de vida inteligente neste belíssimo texto do António Barreto. «Em tudo o que perdemos, em nome do progresso, incluem-se valores e tradições, culturas e liberdades, costumes e sentimentos cuja falta se faz sentir em permanência. A globalização, a metrópole, as massas, a rapidez, o automatismo, a competitividade e a uniformidade geraram valores contrários à comunidade humana, ao pensamento, à qualidade estética, ao brio e à compaixão. Nem sequer a dimensão do que se ganha é suficiente para esquecer o que se perde. Pode até ganhar-se mais, em proporção, do que se perde. Mas o que se perde é, muitas vezes, uma amputação de humanidade e de cultura (...). A coesão social é isso mesmo, o que junta os diferentes, mantendo-os, não os eliminando. A coesão que destrói diferenças, esbate interesses e remove contradições é uma coesão imposta, isto é, uma forma de despotismo. A coesão não implica unanimidade, nem consenso absoluto. Coesão implica justamente a ligação de diferentes. E implica liberdade e direitos humanos que fortalecem a coesão. A solidariedade, a associação e a entreajuda são infinitamente mais fortes quando repousam numa cultura forte de direitos individuais. Por isso sentimos, com razão, que a coesão social é factor a preservar em tempos de crise e transição. Sem coesão, podemos esperar o pior. Com coesão, para a qual devem contribuir cidadãos e autoridades, indivíduos e empresas, seremos capazes de muito.»

Depois do malogro



«Je n'aurai vraiment réussi que le jour où un autre socialiste que moi sera élu président de la République (François Mitterrand).» Mais do que isto, porém, é o futuro imediato da Europa que está em causa já que Sarkozy não se encontrou, afinal, à altura dela. Um malogro que merece começar a desparecer hoje mesmo.

21.4.12

Problemas de comunicação


 


Jornais, comentadores e até as galinhas poedeiras em risco de extinção por causa de uma directiva comunitária vêm aludindo com frequência a "problemas de comunicação". Normalmente quando alguém se queixa de "problemas de comunicação", ou está à espera que lhe mintam, ou não aprecia que não lhe "comuniquem" o que "comunicam" aos outros. O cinema imortalizou o "problema da comunicação" - na circunstância amorosa, a que mais próxima se encontra da política - na famosa cena de Johnny Guitar cujo diálogo reproduzo de seguida. Se querem todavia um "problema de comunicação" a sério (e não a trivial tagarelice do "meio" político-jornalístico que apenas interessa a meia dúzia de iniciados), vão à página 16 do caderno principal do Expresso. Envolve um alicate, cabos de computadores de serviços públicos, um estudante finalista do IST, a burocracia estúpida e uma frase sintética: «não estava nervoso, estava desesperado.» Os restantes "problemas de comunicação" são, sem o sublime disto, isto que os revela enquanto metáfora em forma de guião cinematográfico. A diferença é que a fita de Nicholas Ray ainda hoje é genial.


 


Johnny: How many men have you forgotten?

Vienna: As many women as you remember.

Johnny: Don't go away.

Vienna: I haven't moved.

Johnny: Tell me something nice.

Vienna: Sure, what do you want to hear?

Johnny: Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.

Vienna: All those years I've waited.

Johnny: Tell me you'd died if I hadn't come back.

Vienna: I would have died if you hadn't come back.

Johnny: Tell me you still love me like I love you.

Vienna: I still love you like you love me.

Johnny: Thanks. Thanks a lot.

20.4.12

Hipócritas refinadíssimos



Entrevista interessante do meu amigo Fernando Dacosta a propósito da edição de bolso do seu Máscaras de Salazar. «Lisboa era fabulosa nessa altura. Os cafés fechavam às quatro da manhã. Os marinheiros que andavam pela cidade, de que o Cesariny tanto falava, eram notáveis. O interdito acabava por ser o mais estimulante. Em compensação, hoje está tudo plastificado e amorfo, as pessoas perderam o desejo. Quando falo em desejo, não é só o desejo sexual. Há um poema da Amália que diz: “Já não temos fome, mãe / Mas já não temos também / O desejo de a não ter” [“Lavava no Rio Lavava”]. Um tipo andava aí na rua em manifestações, levava uma chanfalhada da polícia, mas tinha reagido. As pessoas estavam vivas. Agora parece que estamos mortos psicologicamente. As pessoas pensavam que quando caísse o fascismo viria o paraíso. Tramaram-se. Pensavam que o único mal era o Salazar, mas o Salazar era apenas uma manifestação da situação de Portugal. (...) Nunca assumimos o que somos ou o que fazemos. E quem diz o que pensa está tramado, vai parar à fogueira da Inquisição, à prisão, fica na prateleira, no desemprego. Somos uns hipócritas refinadíssimos, dizemos “sim” a tudo e depois só fazemos o que nos dá na gana.»

Defender a língua portuguesa


«A República Popular de Angola* é o Estado que mais tem apoiado a língua portuguesa como língua internacional.»




 


José Medeiros Ferreira, Córtex Frontal


 


 


*apenas República de Angola

19.4.12

Descompressão corporativa

Por sua vez, na sicn, o engenheiro Carlos Moedas explicou muito bem o que se pretende com o novo regime jurídico de criação, organização e funcionamento das associações públicas profissionais: melhor integração do regime no sistema de direitos, liberdades e garantias fixado na Constituição - em especial, com a liberdade de profissão - e, por outro, o cumprimento dos compromissos assumidos pelo Estado Português no Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades de Política Económica; regras claras sobre o acesso e o exercício de profissões reguladas por associações públicas profissionais no que diz respeito, por exemplo, à livre prestação de serviços, à liberdade de estabelecimento, a reservas de actividade, a estágios profissionais, a regimes de incompatibilidades e impedimentos, a publicidade, à carteira profissional europeia e à disponibilização generalizada de informação relevante sobre os profissionais e sobre as respectivas sociedades. Num país inchado de corporativismo e de "capelismo", é um bom passo em frente.

O sentimento jurídico

Ainda na tvi24, Marques Mendes sovou desapiedadamente os dois principais partidos parlamentares por causa do processo de selecção dos futuros juízes do Tribunal Constitucional. Noutro plano, Jorge Miranda fez o mesmo alargando a crítica ao "processo" em geral e a todos os partidos em particular. Um dia, não sei quando, o regime terá de rever o "estatuto" do Tribunal Constitucional que, de facto, muitas vezes parece uma longa manus do circunstancialismo político independentemente da qualidade dos seus membros ou proto-membros. A hipótese de uma Secção do Supremo Tribunal de Justiça, com as atribuições e competências do actual TC, devia ser ponderada.

Contra o relativismo

A Constança Cunha e Sá, na tvi 24, analisou perfeitamente o Papa Bento XVI (Joseph Ratzinger) que completou hoje sete anos de pontificado: um grande teólogo e um dos maiores intelectuais do nosso tempo, um Papa que critica o relativismo e que interpela a sociedade ao falar à inteligência - e não apenas ao coração - do homem.

18.4.12

O suicida do Campo de São Francisco




Bela homenagem do Google em português a Antero de Quental. No seu desespero poético-político, levado ao extremo, Antero desistiu sentado num banco de jardim em Ponta Delgada. O banco estava situado no Campo de São Francisco, de costas para o Convento da Esperança. Foi literalmente contra qualquer esperança que Antero produziu o célebre tiro. Dias antes tinha resumido bem a coisa: «se no tédio doloroso de nós mesmos encontramos a força para nos sumirmos...». Encontrou.

A sério


 


«O "eduquês" de serviço ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal. E agregaram-se-lhe a concepção da criança como bom selvagem que devia ser deixada tanto quanto possível nesse estado natural de brutidão, a impreparação de muitos professores, as teorias pedagógicas abstrusas e coladas com cuspo na cabeça de muitos outros, as catadupas de faltas ao serviço com atestado médico, as conspirações corporativas, o laxismo das famílias, a evaporação de um sentido mínimo dos valores e das responsabilidades, e tudo o mais que degenerou no presente estado de coisas. Se, em geral, o crédito bancário era fácil, o consumismo desenfreado, a permissividade total, e ninguém perdia tempo a pensar no dia seguinte, porque é que a escola havia de se comportar diferentemente e de abandonar a lei do menor esforço? O eufemismo dominante chama agora "retenções" àquilo a que antigamente se chamava "reprovações" e, na gíria escolar, dava pelo nome de "chumbos". E, o que é pior, começa a isolar-se a questão das "retenções" do contexto em que elas ocorrem e a produzir argumentos viciados e viciosos contra uma maior exigência escolar. A Portugal, diz-se, afivelando umas visagens consternadas pelos relatórios da OCDE, cabe a quarta maior percentagem de retenções nos países da organização. E talvez por isso a OCDE, num dos seus já habituais acessos de idiotia politicamente orientada, recomenda a eliminação gradual dessas perversidades, segundo o Público de 15.04.2012. Não sei se alguém ainda se lembra da visita de uma tal Déborah a Portugal, em tempos de governação socialista: não representava a OCDE, mas por cá a manipulação oficial inculcava o contrário, e então tudo ou quase tudo correspondia ao que a OCDE recomendava... Agora, das mesmas paragens cor-de-rosa sopra a brisa patética de que a introdução de exames corresponde a "uma visão pobre da educação". Não percebo porque é que algumas almas tão acerbamente críticas não ficam identicamente agoniadas por verificarem que Portugal está num dos últimos lugares na escala de qualificações sérias e eficazes, no mesmo universo considerado. Se estivesse num dos primeiros, seria realmente estranho que houvesse tantas reprovações. Encontrando-se num dos últimos, seria normal que o número de chumbos crescesse na razão inversa da percentagem das situações positivas. Vê-se a mesma gente preocupada com o custo dos chumbos no orçamento das escolas e a repercussão desse problema no orçamento do país. É certamente uma questão que merece análise e procura de soluções, mas estas não passam por se acabar com aqueles. Passam por um enquadramento mais exigente dos repetentes e pelo aumento exponencial das aprovações fundamentadas. O argumento, que parece ser o da OCDE, contra a diminuição dos chumbos a fim de se entrar numa poupança significativa é inconsequente. Para quem pensa assim, o futuro do país torna-se irrelevante. Poupar pela via da ignorância acumulada e de uma inércia favorecida pelo sistema é certamente a forma mais estúpida e mais cara de fazer economias. O problema português, e não apenas na escola em qualquer dos seus níveis de ensino, tem muito que ver com o dilema exigência ou não exigência. O Governo sustenta, e muito bem, que o exame é parte integrante da educação, permite concentrar e avaliar a aprendizagem, estabelecer metas e saber se elas são atingidas, bem como identificar as fragilidades que possam ocorrer. Na verdade, uma coisa é o custo dos chumbos no orçamento das escolas e outra o peso das aprovações e das qualificações no futuro do país. Só é aceitável que os chumbos diminuam por o aproveitamento escolar ser cada vez mais efectivo e significativo. E para se chegar a esse objectivo é imperativo que haja mais exames e que estes sejam feitos a sério.»


 


Vasco Graça Moura, DN

16.4.12

Excelente escolha



A do CDS-PP, da Dra. Fátima Mata-Mouros para candidata a juíza do Tribunal Constitucional.

Seguir em frente


 


O Papa Bento XVI na celebração eucarística desta manhã, no Vaticano, por ocasião do seu 85º aniversário. "Nós somos fortes". Parabéns.

15.4.12

Cultura, um activo desprezado



Pela autora de A Roda sou levado a Vargas Llosa. Um pouco por todo o lado, e à conta da crise, assiste-se ao declinar da cultura que, para "facilitar", foi tomada de assalto pelo entretenimento e, nas palavras de Llosa, pela frivolidade. Não devia ser assim. A própria "Europa", através da Comissão, por exemplo, tem chamado a atenção (e muitos estudos internacionais o sublinham) para a importância da cultura no PIB, na economia, na promoção do emprego, na competitividade, na coesão social e, até, no empreendedorismo. Em suma, como um activo, cerne do desenvolvimento humano e da civilização, num mundo imaterial baseado no conhecimento, como a vê (e bem) a Comissão do dr. Barroso. É pena que a Europa do "eixo Merkel/Sarkozy" - tão emblematicamente representado pelo "tratado orçamental" que é uma espécie de versão kitsch do "e tudo o vento levou" - não perceba, ou não queira perceber, esta evidência e se dedique quase em exclusvo à "cultura" unidimensional da pura contabilidade. «Yo creo que sería una tragedia que justamente en una época en que hay un progreso tecnológico, científico, material extraordinario, al mismo tiempo, la cultura vaya a convertirse en un puro entretenimiento, en algo superficial, dejando un vacío que nada puede llenar, porque nada puede reemplazar a la cultura en dar un sentido más profundo, trascendente, espiritual a la vida.» Eu também.

O essencial



Volta não volta, regressa aquela arremelgada idiotice da "necessidade" de o Vaticano (e, em especial, Ratzinger) se "adaptar" aos tempos que correm. O jornal Público dedica meia dúzia de páginas à coisa e resume-as na seguinte frase: «os católicos têm de repensar a sua relação com uma sociedade que lhes escapa.» Esta frase - e os pressupostos em que ela assenta -, salvo o devido respeito, é um equívoco. Desde logo, a Igreja Católica representada pelo Papa Bento XVI é uma instituição cultural milenar que já viu "passar" demasiados "modelos" societários que a história e a "condição humana" se encarregaram de ultrapassar e, nalguns casos, de irradicar totalmente. A Igreja, por natureza, não funciona pela regra da contingência nem se sujeita ao "historicismo". Eles, os "modelos", passaram e a Igreja permaneceu conforme ao instante fundador: «tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.» Depois, Ratzinger é quem menos se importa com a opinião "maioritária" ou que se publica. Desde os anos 70 do século passado que ele afirma que a Igreja deve estar preparada para viver em minoria e não a toque de caixa de "movimentos" ou do "progresso". Na sua primeira viagem apostólica, à Turquia, Bento XVI deslocou-se propositadamente a uma aldeia remota do país para celebrar missa junto de pouco mais de uma centena de fiéis católicos. Este Papa não foi escolhido para ser "estrela pop" ou para abrir telejornais a ler homilias num Ipad. Não possui, aliás, a menor ilusão sobre o homem contemporâneo, o tal que supostamente "lhe escapa" quando ele o topa melhor que ninguém. Bento XVI prefere uma Igreja de poucos, firmes e fortes, a uma Igreja com uma multidão de pusilânimes internos e externos. Quem deve "repensar" a sua relação consigo própria é a sociedade - vazia, indiferente, desesperançada intelectualmente e infantil - à qual "escapa", de facto", o essencial.

14.4.12

Inafundáveis?


A crónica do Pedro Mexia no suplemento Actual do Expresso alude à passagem do centenário do naufrágio do Titanic. "Inafundável", dizia-se do paquete. A conclusão do texto é mais ou menos óbvia e serve tanto para navios como para outra coisa qualquer. «Afundado por erro humano, não por castigo divino, afundado por imprevidência, afundado porque os navios se afundam, isso também o sabemos nós, cem anos depois, que vimos à luz do dia e em águas aprazíveis o "Costa Concordia" a afundar-se e soubemos que uma das sobreviventes do "Concordia" é sobrinha-neta de uma vítima do "Titanic", somos ainda náufragos e espectadores de naufrágios, mas não dizemos tão facilmente a palavra "inafundável."»

O esplendor da superficialidade



«Na primeira década do século XX, o humorista vienense Karl Kraus criticou mordazmente os jornalistas que, a despeito das suas pretensões, evidenciam uma tendência para minar a democracia, em vez de a proteger. Como é preciso encher páginas e vender jornais, estes são uma torrente interminável de banalidades, sensacionalismos e disparates.»...«Não só os mass media são a melhor escola para os demagogos, como estes retiram o seu poder do facto de o povo, à força de se alimentar de uma linguagem que mais não faz do que simplificar, não compreender mais nada, nem querer ler ou ouvir coisas diferentes.»...«O homem moderno necessita de ruído, de excitação constante, quer satisfazer as suas necessidades. Como nos tornámos cada vez mais insensíveis, necessitamos de métodos mais grosseiros de satisfazer a nossa ânsia de estimulação. Tornámo-nos dependentes dos acontecimentos. Se nada acontece, sentimo-nos vazios. "Os jornais não trazem nada", comentamos desapontados. Fomos intoxicados pela ideia de que tem de acontecer alguma coisa, estamos obcecados com a velocidade e a quantidade. Um barco nunca é grande demais, nem um automóvel ou avião suficientemente rápidos.»...«Vivemos passivamente. Submetemo-nos aos telefones, ao nosso trabalho, à moda. A vida torna-se cada vez mais uniforme. O aspecto, o carácter, tudo tem de se parecer com tudo o resto, e a média tende sempre a nivelar-se pelo mais baixo. Uma das características mais chocantes do mundo contemporâneo é a sua superficialidade»


 


Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo, Bizâncio (via Do Médio Oriente e afins)

13.4.12

O tratado e a política


 


Portugal foi o primeiro país da União a ratificar o chamado "tratado orçamental" cuja aprovação no Conselho Europeu teve lugar o mês passado. Se descontarmos a noite de quinta para sexta (de uma forma geral passada a dormir), o "debate" doméstico sobre o "tratado" reduziu-se, para aí, a cerca de duas horas. Em França, por exemplo, o "debate" entra a fundo nas eleições presidenciais. Se Sarkozy for substituído por Hollande, o "tratado" poderá estar ameaçado na sua vigência tal como se encontra redigido. Todavia, e uma vez que por cá o assunto já está arrumado (falta a chancela do PR que decerto honrará o "consenso"), permito-me repetir o que aqui sempre se escreveu desde que se começou a falar em "constituição europeia" ou no "tratado de Lisboa". A Europa da primeira década do século XXI, mais do que défices económicos e financeiros, possui um terrível défice de cultura democrática. A crise só o agravou e pretextou estes desenvolvimentos "legais" destinados, sobretudo, a remover a política da cena europeia. Nem que seja para "vingar" a política - mesmo a federalista - e desejar o seu rápido regresso, que Hollande (mesmo chochinho) vença.

Um país doméstico

Os debates quinzenais parlamentares - uma "conquista" regimental perpetrada pelo actual líder do PS quando era apenas deputado - correm o risco da banalização e da indiferença junto da opinião pública. Para além disso, as circunstâncias obrigam a que se use quase só invariavelmente a langue de bois do "financês" na qual, aliás, todos os intervenientes se entendem perfeitamente com manifesta alegria epistemológica. As coisas teriam mais graça se houvesse mais política (não politiquice estúpida, mas política nobre) mas elas, as coisas, são o que são. Uma frase do editorial do Público de hoje resume-as (e resume-nos). «Não somos pequenos por sermos um país pequeno. Somos pequenos por sermos um país doméstico.»

11.4.12

Uma figura



O meu amigo Júlio de Magalhães recorda aqui o nascimento de António de Spínola. Em 1980, precisamente por ocasião dos 70 anos do então General e dos seis do "25 de Abril", os Reformadores (na altura integravam a bancada da Aliança Democrática no Parlamento) propuseram ao Presidente Eanes que Spínola - o primeiro Chefe do Estado da democracia - fosse promovido a Marechal. Medeiros Ferreira combinou comigo, ao telefone (fixo), a redacção do comunicado dos Reformadores com a dita proposta. Ele ia sair do país e acabei por manuscrever sozinho o dito comunicado que seguiu o seu caminho. Spínola é um grande nome da arma de Cavalaria ao lado de D. Carlos ou Carmona como o atesta o nobre edifício do Regimento de Lanceiros na Ajuda. Nenhum país subsiste sem símbolos. A rapidez com que agora tudo e todos passam, na maior das vulgaridades, não chega para reter grandes nomes quanto mais grandes símbolos. Com toda a carga de virtudes e defeitos que António de Spínola tinha, era, sem dúvida, uma figura. Não há mais disto.

A necessidade de rever o acordo ortográfico

«Com data de 29.3.2012, podemos ler no Blog da Casa Civil do Presidente da República de Angola (http://www.casacivilpr.com/ pt/noticias/2012/03/29/angola-protela-adopcao-do-acordo-ortografico/) que Angola protela a adopção do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, porque pretende estudar e avaliar uma série de aspectos de conteúdo, no sentido de acautelar as implicações no sistema educativo nacional. O AO continua a ser avaliado, para que "no caso de ser ratificado" (note-se bem: no caso de...), "o mesmo não cause dificuldades ao sistema educativo em vigor no país". E aponta-se a falta de preparação dos alunos, professores e as implicações que têm a ver com a produção de materiais didácticos, como alguns factores que condicionam a adesão de Angola ao novo acordo. Acresce um ponto verdadeiramente enigmático na declaração final do encontro: o reconhecimento da "necessidade de se estabelecer formas de cooperação entre a Língua Portuguesa e as demais línguas em convívio nos Estados Membros". O que é que isto quer dizer? O que é cooperação entre línguas? Quais são as línguas em questão? O francês na África Ocidental? O inglês na África Austral? As várias línguas nativas a leste e a oeste? O significado profundo desta coisa traduz provavelmente a confissão envergonhada, por parte do neocolonialismo luso-brasileiro, de que o AO não dispõe absolutamente nada para a grafia de vocábulos das línguas nativas que tenham sido incorporados no português. Se é este o sentido útil desse ponto, isto significa o reconhecimento, por todos os governos, de que, também por esta razão, o AO não pode ser aplicado enquanto não for alterado! Por outro lado, a declaração reconhece a inexistência de vários vocabulários ortográficos nacionais e, ipso facto, a inexistência do vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa exigido pelo AO, o qual deveria arrancar daqueles e ser elaborado com a participação de todos os estados membros. Fala-se depois na necessidade de desencadear acções que diagnostiquem os tais constrangimentos e estrangulamentos na aplicação do AO (volto a perguntar o que será um estrangulamento na aplicação do dito?) e redundem numa "proposta de ajustamento" do mesmo AO. Se se pretende uma proposta de ajustamento, aceita-se o princípio de uma revisão, que terá de ser objecto de tratado internacional e posterior ratificação para ser válida. Ou seja, a declaração final reconhece implicitamente que não tem pés nem cabeça o que se afirma, quanto ao vocabulário ortográfico do ILTEC e quanto ao segundo protocolo modificativo, nas letras gordas da leviana resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, do Governo Sócrates: nenhum vocabulário ortográfico nacional pode substituir o vocabulário ortográfico comum que o AO exige e o tal protocolo nunca entrou em vigor. De resto, o melhor reconhecimento de que essa resolução 8/2011 vale zero vírgula zero, resulta, desde logo, de não haver sombras do AO na ortografia da declaração final. Ninguém, nem mesmo o Governo português, a quis aplicar... Tudo isto significa que Portugal assentou oficialmente na necessidade de revisão do AO. E isso deveria levar à suspensão dele, por não fazer sentido que, enquanto tais acções de revisão e correcção estiverem em curso, se aplique entre nós o que, além de não estar em vigor, ainda não se sabe se vai ser aplicado, nem quando, nem onde, nem em que termos; nem se, afinal, é para todos, ou para ninguém.»


 


Vasco Graça Moura, DN

A festa de Lurdes

De acordo com a presidente da FLAD e ex-ministra da educação de Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues, as obrinhas da Parque Escolar (que, entre outras extravagâncias, incluiam lustres Siza Vieira a 1700 euros cada um), representaram uma "festa" para as escolas. Julgo que a professora doutora, em apenas uma palavra, resumiu perfeitamente por que é que chegámos ao que chegámos. Estávamos, sem o saber, em "festa".

9.4.12

Dar-lhes lume



Não fumo. Não suporto que fumem para cima de mim e, muito menos, para cima do que estou ocasionalmente a comer. Convivi décadas da minha vida ao lado de um fumador, o meu Pai, cujo hábito lhe valeu a morte prematura. Sócrates - que a dada altura passou a fumar às escondidas - proibiu o fumo nos restaurantes e em recintos fechados, e obrigou os estabelecimentos da especialidade a adquirir equipamentos para evacuar o fumo nos espaços reservados à cigarrada. Considero, todavia, que a opção por fumar ou deixar de fumar é tipicamente um direito "humano" e pertence à esfera da liberdade individual a partir da maioridade. Pensava assim quando Sócrates alterou as regras em nome da correcção "antisséptica". Penso exactamente o mesmo hoje.

A ascensão da insignificância



«Os escrevedores que me perdoem mas talento é fundamental. É preciso que haja um barco bêbedo, um erro de gramática, uma mulher de quem se possa dizer: Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (ou então que a mão confesse com lucidez etílica: no se puede vivir sin amor). É preciso que o sentimento não se dirija ao coração mole das pessoas sensíveis que não são capazes/ de matar galinhas... É preciso lembrar Wilde: “A sentimentalist is simply one who desires to have the luxury of an emotion without paying for it”. É preciso que o artificio não mate o pacto narrativo e que o lirismo não desculpe os “cagalhões líricos que por aí andam, passeiam e triunfam”. Talento é fundamental (não confundir a sordidez de Celine com a vulgaridade de Houellebecq). Mundo é fundamental (não confundir ter mundo com descargas confessionais). Imaginação, precisa-se. Distanciamento, exige-se. Oficina, idem mas sem oferta de garantia (“o estilo é uma dificuldade de expressão”). Quanto ao que faz a coisa literária, permanece um “je ne sais quoi” cuja receita é tão ou mais secreta do que a dos pasteis de Belém. O maior mistério, contudo, é escrever-se “valter hugo mãe” no Google e em poucos segundos surgirem 468 mil referências e fazer o mesmo para Herberto Helder e não se ir além das 77 700. Lê-se a poética do primeiro (“… algo em ti me puxa/ sempre ao sentimento, mesmo antes de/ te conhecer, lembras-te, uma propensão para/ te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus/ modos…”), depois o segundo (“Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/ encantarei a noite…”) e só Camões nos impede de cortar os pulsos: UM MILHÃO E VINTE MIL entradas.»


 


Ana Cristina Leonardo, Meditação na Pastelaria

8.4.12

Leituras de Domingo de Páscoa

De Manuel Maria Carrilho, E agora? Por uma nova república, Sextante Editora, 2010:




«É preciso ter mundo, ver longe e ouvir perto: o momentum será, nos próximos tempos, de quem compreender isto. E de quem, depois de o compreender, seja capaz de avançar na linha das sua consequências. É este, a meu ver, o caminho que nos poupará ao dilema entorpecedor que comprometerá os resultados alcançados e tornará ainda mais problemático o futuro do País


 


«O valor do silêncio decorre de três características centrais: ele estimula a prudência, contorna os compromissos e diminui os riscos.»


 


«Se o reformismo é - e é de facto - uma arte muito difícil, ele tem contudo um segredo. E esse segredo está em conseguir construir ao mesmo tempo o que se destrói, e sobretudo em combinar o imediato e o longo prazo, o local e global, a atenção ao detalhe e a audácia da visão.»




 


Da longa e inteligente entrevista de José Medeiros Ferreira ao Jornal de Negócios (Weekend, 5.4.12), com Anabela Mota Ribeiro:


 


«Vivemos numa república de financeiros e jornalistas (com a privatização dos grandes meios de comunicação social) de 1992 por diante. (...) Nos últimos dez anos, Portugal não cresceu. Não cresceu mas fizeram-se muitos negócios. É quase a república dos negócios!»


 


«Durão Barroso será o candidato presidencial do PSD. (...) O Marcelo Rebelo de Sousa já não sai do estúdio de televisão. Ele não sabia, mas quando entrou, a porta fechou-se para sempre. O destino dele é a televisão. Outro candidato que pode correr por fora e obrigar a uma negociação: Santana Lopes.»


 


«Tenho um grande amigo, Vasco Pulido Valente (nem sempre estou de acordo com ele),que dizia para terem cuidado comigo... que eu até no duche pensava em termos políticos!»




 


De um artigo de Paulo Trigo Pereira no Público (8.4.12):


 


«Se o PS quer construir-se como alternativa deverá saber onde deve cooperar com o Governo e onde afirma a sua diferença.»




 


Nota: Dir-se-á que são só autores de "esquerda". Serão. Todavia, por mais que procure com a lanterna de Diógenes na mão, em pleno dia, não consigo encontrar um autor de "direita". Não que eles não existam pelo menos na cabeça deles. Mas, em geral, os que costumamos ver, ouvir e ler não me interessam para nada. Ou, o que é pior, fazem parte do vasto clube da "direita amiguinha" (de uma determinada tralha específica que se desenvolveu na última meia dúzia de anos) que impressiona muita gente mas que a mim não impressiona nada. No fundo, e para recorrer a termos de outro autor de "esquerda", trata-se da mera "ascensão da insignificância" e isso não é bom nem para entreter criancinhas no recreio.


 


 

«O processo de Cristo»


 


«O processo de Cristo não foi injusto só por razões intemporais – foi-o também como processo contra um homem do seu tempo, à luz do direito aplicável. As razões da acusação, conduzida por Herodes, revelam um aproveitamento da ocupação romana pelos representantes políticos dos judeus, para impedir qualquer contestação à interpretação oficial da sua lei. Os "crimes" de Cristo têm carácter religioso. Jesus foi acusado de interpretar a lei num sentido não ritualista, associado à ética, fazer milagres ao sábado, conviver com pessoas de "maus costumes" e se assumir como rei de um reino diferente. A lei do seu povo, que o condenou, tornou-se prepotente e contraditória com o seu sentido último: a salvação. O processo de Cristo foi ainda injusto porque os romanos, detentores do poder político, se demitiram de intervir. Pilatos portou-se como precursor do moderno multiculturalismo, admitindo que Jesus fosse julgado segundo critérios injustos à luz dos seus próprios padrões morais, culturais e jurídicos. A razão de Estado e a pura cobardia vergaram a Justiça. O que se percepciona, numa perspectiva histórica, é que Jesus foi injustamente condenado em qualquer tempo e no seu tempo. Prevaleceu, no julgamento, uma concepção do Direito como lei ritual, isenta de justificação e compatível com qualquer conteúdo. A injustiça residiu na profunda divergência entre a lei formal e o sentido último do Direito e da Justiça. As autoridades judaicas, que não podiam proferir uma condenação à morte, remeteram para a lei romana e esta, apesar de não encontrar nenhuma culpa em Jesus, pois Pilatos reconheceu a sua inocência, remeteu para a lei judaica. A lei que condenou Cristo não existia – foi criada pelo interesse político, que juntou a perversão de uns com a omissão de outros. A condenação de Cristo revela arquétipos do processo penal que devemos rejeitar. Não podemos permitir que convicções baseadas em interesses privados manipulem os processos judiciais, sujeitem os tribunais a uma autêntica coacção e criem o ambiente propício a uma definição do Direito que esteja para além das razões e dos valores da Ordem Jurídica.»


 


Fernanda Palma, CM

7.4.12

De ouro



Segundo Medina Carreira, «estamos a reduzir a democracia a mero paleio em vez de discutirmos os problemas de fundo». Há momentos em que o silêncio é de ouro. Pelo menos o meu.

6.4.12

Quatro páginas

O caderno principal do hebdomadário Expresso - a caminho de comemorar quarenta anos de existência, quase tantos como os do regime - vem esta semana envolto em quatro páginas de publicidade da edp. Para lermos o que o Expresso pensa dos últimos dias da vida da pátria (interessantes, por sinal, sobretudo para quem, como eu, os viu "de longe", em férias) e do mundo, temos que remover primeiro aquelas quatro páginas. Ou então olhar para a coisa de outra forma e tomar aquelas quatro páginas como parte da vida da pátria e do mundo. É capaz de ser mais verosímil.

Sob o sinal humilde do grão de mostarda


A Páscoa, para os cristãos e para os católicos, em particular, deve significar um momento grave de reflexão. Como escreveu em tempos o então Cardeal Ratzinger, «o Senhor saiu: é este o sinal da sua força. Ele desceu para a noite de Getsémani, para a noite da Cruz, para a noite do túmulo. Ele desceu porque, no confronto com a morte, é mais forte; porque o seu amor leva o selo do amor de Deus que tem mais poder que as forças da destruição. É precisamente nessa saída, no caminho da Paixão, que está o acto da sua vitória; no mistério do Getsémani já está o mistério da alegria pascal. Ele é o mais forte, não há nenhum poder que possa resistir-Lhe e nenhum lugar onde Ele não esteja. Ele chama-nos a tentar a caminhada com Ele, porque onde houver fé e amor, aí estará Ele, aí estará a força da paz que supera o nada e a morte.» Ontem, Raztinger, o Papa Bento XVI, na homilia crismal proferida no Vaticano, votou a explicar o essencial a propósito da ordenação de mulheres. O Papa muito cedo afirmou que a Igreja - ao contrário do que acontece noutras actividades hmanas como, por exemplo, a política - não faz proselitismo. E, sobretudo, não pratica a tergiversação. De outra forma não teria a força milenar que, de facto, tem para superar o nada e a morte. Ao abordar a questão da ordenação de mulheres, o Papa foi muito claro. «Recentemente, num país europeu, um grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos autores deste apelo quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a desobediência? Nela pode-se intuir algo daquela configuração a Cristo que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias? (...) Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda. (...) Todo o nosso anúncio se deve confrontar com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniões privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores.»

4.4.12

Uma coisa

Que nos devia preocupar a sério. Mas preferimos o tricot do "diz que disse", não é verdade? Boa noite e boa sorte.

Distinção



A Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa atribuiu um doutoramento honoris causa a Leonor Beleza, actualmente a presidir à Fundação Champalimaud. Num país com gente pequenina em excesso, Leonor Beleza sobressai permanentemente como uma grande Mulher. Não é pela distinção. Porque ela é a própria distinção numa sociedade que não sabe distinguir ninguém.

Amanhã há sol e vida



Na imagem está a praia da Galé. Lá mais adiante, por trás da casa à direita na foto, estende-se parte da Quinta dos Salgados e as suas construções-fantasma aparentemente por ocupar. Entre o areal e essas construções há uma zona preservada, com passagens de madeira, limpa e adequada a longos passeios a pé. Está vento mas, ao fim de dois dias de umas curtíssimas "férias", há algum sol. Aprendi com Francisco Sousa Tavares (que, por sua vez, a aprendeu com ciganos) uma frase que me ampara em permanência há muitos anos - amanhã há sol e vida. Hoje, no meu passeio solitário ao sol vago do Sul, lembrei-me de Diógenes, despido, só e metido na sua baiúca insignificante nas ruas da velha Atenas a apanhar a luz solar. Um dia apareceu-lhe Alexandre, o Grande, para lhe perguntar por que estava assim e o que é que o Imperador poderia fazer por ele. Diógenes limitou-se a afastá-lo com a mão porque lhe fazia sombra. Alexandre incomodou-se com a ousadia. "Não me tires o que não me podes dar", explicou o grande Cínico ao então dono do mundo. Amanhã há sol e vida.

3.4.12

Boa pergunta

Do Pedro Lomba no Público. «Qual a razão para os jornais e as televisões domésticas estarem cheios de políticos em funções, deputados, antigos ministros, fazendo o papel de comentadores interessados, de jogadores e árbitros ou de pretensos observadores externos de um meio em que os próprios estão ou acabaram de estar profissionalmente envolvidos?

Salazar em França


«Salazar é um pensador e até um autor de textos marcadamente literários. Os seus discursos são peças de rigor e podem figurar em qualquer antologia de literatura. Já é tempo de deixarmos os mortos aos mortos e tratar de os integrar no seu tempo. Sabemos, como dizia Zweig no seu belíssimo O Mundo em que Vivi, que "é mil vezes mais fácil reconstruir os factos de uma época do que a sua atmosfera emocional". Deixar de lado a apologia e a catilinária anti-salazarista, deixar Salazar morrer como homem, eis o melhor caminho para lhe apreender o espírito e estudá-lo enquanto um dos mais importantes marcos da cultura política (e literária) portuguesa do século XX. Só os patetas, os facciosos, os labregos do espírito o não querem ver.»


Miguel Castelo-Branco, Combustões (a propósito do lançamento, em França, do livro da foto)

De vez

«Na anterior revisão apontava-se a possibilidade de privatizar ou extinguir a Parpública. A palavra extinção não aparece agora. Aliás, na primeira abordagem da troika a Portugal indicava-se mesmo que a Parpública seria extinguida ou integrada no Estado até final de 2011. Depois adiou-se o início da extinção da Parpública para 2013. Agora fala-se apenas em privatização, através de um plano que deve ser definido este ano.» É lamentável que não se extinga. De vez. 

2.4.12

E assim sucessivamente

O Governo nomeou presidente da chamada Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública o ilustre reitor do ISCSP, João Bilhim. Bilhim tem-se distinguido por, há mais de uma década, andar constantemente a contribuir para a "modernização" da administração pública. Começou, era António Costa ministro da Justiça, por "modernizar" o logotipo do Ministério enquanto Director do Gabinete de Auditoria e Modernização da Justiça. Uns anos depois, Sócrates foi buscá-lo para, uma vez mais, ajudar a "modernizar" e a "reformar" a dita administração pública. Presidiu então à Comissão Técnica do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (mais conhecida por PRACE) e coordenou o PREMAR, o Programa de Modernização da Administração Regional da Madeira, a expensas do Governo de Alberto João Jardim. Finalmente vai agora "escolher todos os dirigentes do Estado e vai também dar parecer sobre a escolha dos gestores das empresas públicas". À semelhança dos cargos que ocupou anteriormente em prol da regeneração do Estado no seu todo pluricontinental, estou certo que, durante e após o encerramento dos trabalhos da nova Comissão, a regeneração continuará. E assim sucessivamente. 

O povo do ópio


Ontem, entre um cachecol da bola e meia dúzia de livrinhos, Marcelo Rebelo de Sousa prodigalizou o elogio do futebol,em doses cavalares, como terapia para "aliviar" o povo. Começou por descrever o excesso - há bola praticamente todos dos dias, da Buraca a Bucareste, do canal público aos privados, com ou sem caixinha -, falou na "alienaçao" sugerida pelo marxismo para concluir que, afinal, no meio da crise e das aflições convinha distrair a populaça com futebol. A ideia é mais ou menos esta: "coitadinhos, ao menos não lhes tirem o futebol da mesma forma que não se deve tirar os brinquedos aos meninos e as bonecas às meninas". Não fica bem a um professor universitário recomendar a infantilização geral e, no limite, a tal "alienação" de que falava Marx. Mas, se repararmos bem, Marcelo há muito que transformou o seu programa de domingo num enorme divertimento pessoal com figurante. Não vale a pena é alargar a coisa ao país.

1.4.12

Os "paços" largos da desqualificação do jornalismo


 


«Tudo o que seja previsões de políticos, comentadores, governantes ou outros protagonistas mediáticos é valorizado em manchetes e títulos e citado em espiral de auto-referenciação noutros media. Haverá razões de carácter nacional para a obsessão com o futuro – o fado, a vivência no sonho – mas explico o fenómeno pelo comodismo. As previsões não implicam investigação, não remetem para quaisquer factos verificados. Não trazem maçadas de nenhum género a quem as reporta e quem as profere assegura protagonismo. Acontece que Passos é avesso a previsões. Em vez de prometer amanhãs que cantam, como outros políticos, tem preferido manter o seu discurso político no presente. Isso deveria ser bem-vindo, por trazer realismo e sensatez ao discurso político, mas é criticado por políticos, comentadores, incluindo do seu próprio partido, como Marcelo Rebelo de Sousa, e, mais espantosamente, por muitos jornalistas comentadores que parecem preferir políticos mentirosos aos que, mesmo escondendo verdades, pelo menos não mintam. Quando comentadores dizem que Passos deveria acentuar o "discurso da esperança", já se sabe que estão a sugerir ao primeiro-ministro que comece a mentir. Parte do jornalismo português, viciado nas mentiras cor-de-rosa do anterior governo, anda desaustinada com um primeiro--ministro que recusa aderir a essa má prática política e jornalística. Ele repete que não quer prever e prometer o que não pode. Mas os microfones sedentos de previsões não o largam. Quando esse jornalismo anseia que lhe contem mentiras, que se pode esperar dele?


 


A inscrição "Paços Coelho" na entrevista do primeiro-ministro na TVI não foi uma simples gralha. Assinalou uma total ignorância sobre a vida nacional. Este terá sido o erro gramatical mais gritante da última década, mas acontece tantas vezes em todos os canais que se trata já de uma característica estrutural da informação na TV portuguesa. Quando falo com jornalistas jovens, verifico que, faltando-lhes cultura geral, vêem-se à nora para escrever sobre matérias de que nada sabem — e não podem informar-se devidamente porque não lhes dão tempo para escrever. A proletarização dos jornalistas é responsável pela decadência, nos velhos e nos novos media, da prática jornalística, que de indústria cultural vai passando a indústria "desculturalizada".»


 


Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã