28.6.15

Pelo deserto


 


«Portugal não olhará com muita confiança para um governo de João Galamba, Jorge Lacão e Sónia Fertuzinhos. Claro que António Costa já arranjou com certeza quatro ou cinco dos “sábios”, que lhe andaram a escrever papéis, mas que o público não conhece e em que naturalmente não confia. E o que sobra entre a emigração para o Parlamento Europeu e os “negócios” da crise preferiu ficar de fora. O socialismo não enfraqueceu só politicamente, perdendo pelo mundo inteiro deputados, maiorias, governos, presidências. Pior do que isso, o regresso ao desemprego de massa e o fracasso anunciado do Estado Social transformaram um programa e uma doutrina numa escaramuça de retaguarda em defesa do funcionalismo público (da administração ou de qualquer EP), como se dele dependesse a salvação da humanidade. Hoje, por grande que fosse a indignação com Coelho e Cavaco, ninguém iria escolher essa pífia causa como fim e direcção da sua vida política. Basta ver televisão ou ler os jornais para constatar a distância que separa o cidadão comum do que por aí gritam os “jovens” do partido. António Costa anda por esse país a ser abraçado, mexido, beijocado. Anda sem ninguém: como quem atravessa um deserto.»


Vasco Pulido Valente, Público

25.6.15

Fazer a ponte entre pessoas com ideias diferentes


 


«O papel do Presidente é fazer pontes. Não é ter um programa de Governo, não é ter um programa político, não é fazer aquilo que tem na cabeça. É evidente que cada candidato tem as suas ideias (…), mas um candidato a Presidente não é um candidato a primeiro-ministro, não tem um programa de governo. Tem as suas ideias, sabe o que defende para o país, mas tem de ter a humildade para ser sobretudo alguém que faz a ponte entre pessoas com ideias diferentes. Pode acontecer que nos próximos cinco anos, termos um só Presidente e dois ou três governos. [Nesse sentido], vai ser preciso um grande esforço de aproximação e convergência para ultrapassar as clivagens [que existem entre PS e PSD] já daqui a três meses.»


 


Marcelo Rebelo de Sousa

Rio no seu labirinto



 


Como se isso interessasse a alguém, o dr. Rui Rio, uma emanação sebástica dos nevoeiros do Douro, fez saber (ou outros por ele apesar da excessiva paixão por si próprio) que tem "três cenários em aberto": candidatura presidencial, liderança do PSD ou "manter-se fora da política activa". Com a delicadeza e o bom feitio que o celebrizaram nas margens do referido Douro, e na generalidade dos meios de Comunicação Social, garantiu que não vai "alimentar a discussão sobre o tema, pelo que não vou confirmar, nem desmentir a afirmação (de que só decide após as legislativas); como também não confirmaria, nem desmentiria, se tivesse sido feita no sentido contrário". De onde procede, pois, tanta presunção e tanta contradição? Para além da austera formação de origem germânica e financeira (a primeira de pouco lhe serviu para a "acção cultural" da Câmara do Porto, na prática irrelevante quando foi seu presidente), Rio andou pela JSD do Porto, com o rival Menezes, até ser alcandorado em secretário-geral de Marcelo Rebelo de Sousa. Actualizou os ficheiros e saiu para deputado. Sovou monumentalmente Fernando Gomes, em Dezembro de 2001, e cumpriu os mandatos autárquicos que os portuenses lhe confiaram até ao limite legal. Pelo meio foi vice-presidente do breve consulado partidário de Santana Lopes. Em 2008, no Restelo, um grupinho de "elites" sociais-democratas tentou que ele sucedesse ao choroso Menezes. Terá dito que sim mas, mal chegado ao Porto, fez inversão de marcha política o que obrigou Manuela Ferreira Leite a avançar em nome desse luminoso grupo. Nos derradeiros anos como autarca aliou-se, e vice-versa, a António Costa nuns encontros melífluos, ora em Lisboa ora no Porto, para impressionar o "poder central" e as respectivas lideranças partidárias. Costa, como é sabido, não se ficou pelo chá e levou a sua conspiração a bom termo. Rio, por natureza e de acordo com as declarações do princípio da semana, está enfiado no "quadrado" - a expressão é do bardo Alegre em 2005 a pensar em Belém - que gizou para a sua extraordinária pessoa política desde sempre: tudo, alternadamente, e o nada, também alternadamente. O que, na dúvida, não o recomenda para nenhuma das "alternativas" que colocou. Nem mesmo a de "manter-se fora da política activa" - uma manha retórica dos políticos para lá ficar - apesar de ser a mais consistente das três. Quem não suporta a crítica, o erro ou a tentativa tem de meter explicador de democracia. Não lhe pode presidir.


 


Jonrnal de Notícias



 

22.6.15

Referendar o acordo ortográfico


 


«A situação actual, de anarquia gráfica, é insustentável e lesa inapelavelmente a Língua Portuguesa, o nosso Património Cultural imaterial, bem como a estabilidade ortográfica. A riqueza de uma Língua está na sua diversidade. O AO90 não corresponde a uma “evolução natural” da língua, mas a uma alteração forçada, em sentido negativo e empobrecedor. Há muito que a maioria dos Portugueses vê como indispensável um Referendo Nacional, de modo a dar a voz ao Povo nesta matéria. Ora, a Constituição da República Portuguesa (CRP) permite justamente a submissão a Referendo das questões de relevante interesse nacional que sejam objecto de Tratado internacional (artigo 115.º, n.º 3, da CRP); o que é o caso do Tratado do AO90 e das alterações que sofreu (através dos seus Protocolos Modificativos). A Iniciativa poderá provir dos cidadãos (artigo 115.º, n.º 2, da Constituição), como é o caso da presente. Antes da realização de eleições (ou, se for o caso, após estas), os agentes políticos deverão dizer qual o seu sentido de voto, na Assembleia da República, em relação à presente Iniciativa de Referendo: se votarão a favor; ou se, no mínimo, viabilizarão esta Iniciativa, através da abstenção na AR. Convocado o Referendo Nacional, faremos campanha. Os resultados reflectirão o modo como todos os utentes da Língua pensam acerca da ortografia que melhor corresponde a um uso sustentado da mesma, no quadro das línguas europeias da mesma família. Apelamos a cada Português para que assine esta Iniciativa de Referendo; e, na medida do possível, pedimos que angarie assinaturas (dentro do seu meio, da sua família, do seu círculo social; ou até, mais latamente, de forma pública).»

Pequenina novela ribeirinha


Não sei se foi em "conversa", no intervalo de uma, se foi uma "ideia" ou o fumo de uma. O que se sabe é que o senhor arquitecto Salgado, antigo nº 2 de António Costa na Câmara de Lisboa (agora, com Medina, é Duarte Cordeiro), "sonhou" com a Estação de Santa Apolónia. E "sonhou" alegadamente em a aprimorar, fechando-a para dar lugar a um jardim. O arquitecto Salgado é uma figura que Lisboa conhece perfeitamente e, para usar as suas próprias palavras, com um "enorme potencial". Vem pelo menos de 2005 a sua "apetência" por uma vereação camarária conforme dei nota num post antigo. Mas o mais interessante nesta pequenina novela ribeirinha é saber o que pensa Fernando Medina de quem tenho boa impressão. A sua auoridade, no presente e para o futuro, passa por não deixar florescer boatos ou ervas daninhas. Seja em que parte de Lisboa for.

21.6.15

Do que a casa gasta


 


«Depois da catástrofe por que passou, o país não quer ser sujeito a uma nova experiência de engenharia financeira ou social, que nada lhe garante que possa emendar (se correr mal) ou parar a tempo (se não lhe convier). A oposição jura pelos planos que nos pretende aplicar. Só que esses planos são vastos demais, pormenorizados demais, dependentes demais de factores que a oposição não controla: e Portugal, embora frustrado e pobre, não precisa de aventuras. O PS talvez consiga ainda alguma gravidade burguesa e juntar à volta de Costa um grupo de indivíduos com um verdadeiro currículo de eficácia e prudência. Como hoje se exibe, nem lhe falta tirar a gravata ou armar um espalhafato por essas televisões. Já se percebeu do que a casa gasta.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

20.6.15

Da natureza das coisas


 


Entre ontem e hoje, os órgãos de comunicação social que a encomendaram (RTP, DN e JN) têm estado a divulgar os resultados de uma sondagem da Católica. Para as legislativas a sondagem empata tecnicamente a Coligação com o PS, com ligeira vantagem para a primeira (recordo que nas "europeias" outra, da Aximage, a dada altura também deu um resultado parecido). E revela que 55% dos inquiridos não entende que a oposição seja propriamente uma alternativa. Isto somado desfaz a mitomania sebástica do dr. Costa, e dos seus aliados um pouco por todo o lado, de que bastava ele aparecer e a Pátria, reconhecida, seguiria atrás respeitosa e trémula de fervor salvífico. Não segue (ou segue tanto como seguia nas sondagens com Seguro) apesar de 54% dos questionados "achar", contra 32%, que o PS chega à frente no sufrágio. Mas o mais impressionante, e não menos simultaneamente óbvio, é 65% não acreditar que saia dali qualquer maioria absoluta o que aponta, como sempre suspeitei, para a necessidade de novas legislativas em 2016. O que torna, repito-me, as presidenciais mais interessantes do que pareceriam à primeira vista. Tudo visto e ponderado nesta matéria pela sondagem, Marcelo Rebelo de Sousa emerge como o único candidato natural e transversal. Ou seja, como aquele que pode, logo numa 1ª volta, crescer suficientemente do seu "espaço natural" para o país e ser eleito. É claro que os resultados das legislativas irão determinar muitos movimentos ainda imprevistos. Todavia, fique à frente quem ficar, Marcelo deverá ter condições para, no seu último comentário televisivo que coincidirá com a noite desse acto, afirmar-se candidato simplesmente com uma ou duas palavras. Em 1988, a semanas da eleição presidencial, Mitterrand estava numa entrevista numa televisão. Às tantas perguntaram-lhe, estilo "e já agora", se era recandidato ao Eliseu. Ele disse que "sim". "Naturalmente", acrescentou.

19.6.15

Sem responsabilidade e sem brilho


 


«O PS nunca se distinguiu pela especial competência da gente que o dirigiu e governou o país durante mais de 20 anos. Algumas personagens foram com certeza melhor do que outras, mas nenhuma (tirando Salgado Zenha e José Manuel Medeiros Ferreira) deixou uma obra durável e uma memória presente e calorosa. Mesmo agora, com uma eleição decisiva à porta, o pequeno grupo que rodeia Costa não se recomenda pelo que fez, nem muito menos pelo que diz. Na intimidade presumo que se acha mutuamente uma esperança; em público não passa da cartilha que já repetia no tempo de Seguro, e volta hoje a repetir com Costa, ornamentada por um vaguíssimo calão económico e por meia dúzia de promessas, que o cidadão comum não leva a sério, tanto mais que são aéreas e na sua maior parte hipotéticas. O dr. Costa deu anteontem uma entrevista a este jornal em que, entre chover sobre o molhado e soltar livremente a sua fantasia, resolveu tratar de um problema real: a reforma do Estado. Pondo de lado a crítica sem sentido à coligação, Costa identificou três pontos, dignos do seu particular zelo: o mar, a modernização administrativa e (calculem!) o desenvolvimento e ordenamento regional. Mas, para chegar aos seus fins nestes três pontos cruciais, Costa não inventou melhor do que fabricar três novos ministérios, que permitam “existir um ministro (claro) com a função transversal”, que “articule” e defina as “políticas sectoriais”. Não quero dar um desgosto a este novo salvador da Pátria, só gostava de o informar que desde 1980 que se fala nessa tremenda habilidade; que Sá Carneiro teve um ministério da Reforma Administrativa; e Cavaco um ministério do Mar. Isto só serviu, como é natural, para provocar um prodigioso número de querelas de competências; para aumentar o funcionalismo; e para paralisar o Estado nas matérias em que precisamente se queria que aumentasse a sua putativa eficácia. O que na situação em que estamos não aquece, nem arrefece, mas mostra bem por dentro a cabeça de António Costa: uma cabeça de alto funcionário, dedicada a fortalecer a administração central, a diminuir a força e a autoridade dos privados (que “ganham milhões com o outsourcing”) e, entretanto, a rabiscar organigramas para deleite dos militantes, que lá se tencionam pendurar. O PS um partido moderno? Não, um partido de burocratas sem responsabilidade e sem brilho.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

17.6.15

A pedra


 


Findo, cerca da meia-noite, O Crepúsculo dos Deuses no canal Mezzo - as "elites" deviam ser fechadas numa sala durante aquelas quase cinco horas e "obrigadas" a ver aquilo para ver se finalmente percebem o que lhes acaba sempre por acontecer - passei pelas notícias domésticas. Sem som, li num rodapé que ilustrava a dra. Albuquerque que a mesma aludiu a uma "pedra". Ora "a pedra" seria a dívida. E os carregadores da dita seriam os portugueses ainda por muitos e bons anos. A dra. Albuquerque não mente e não erra. Não tem jeitinho nenhum mas não se engana. Aliás, a coisa persegue-nos desde que a história de Portugal passou a ser conspícua. A literatura da especialidade, e a outra, glosou amplamente a matéria sobretudo em torno do consabido binómio dívida-empréstimo. Com a "Europa", onde comemorámos outro dia 30 anos de adesão, o binómio conheceu as oscilações decorrentes dela (antes dela, nos anos 70, e com ela nos anos 80 e em 2011) e do convívio forçado com o benemérito FMI. De 2011 para cá, os juros do empréstimo aumentaram significativamente a dívida desequilibrando o binómio, na realidade o seu estado natural. O dr. Costa, cuja superficialidade nestas matérias assusta o último moderado, acha que a "pedra" se dissolve por artes mágicas da dita "Europa". Mas imagine o dr. Costa, homem assaz desprovido de imaginação, que a "Europa", ou melhor, o tratado orçamental que a constitui e comanda, se "dissolve" antes da nossa pesada "pedra". Aí, com certeza, não ficará pedra sobre pedra.

15.6.15

Praga


 


Fátima Campos Ferreira dedica o programa Prós e Contras ao turismo. Presumo que, sobretudo, ao turismo que toma progressivamente conta de Lisboa: das ruas, do metro, dos ridículos "tuks", dos eléctricos, etc. Dantes havia uma coisa chamada saison. E sabia-se quando íamos deixar de ser atropelados por estas hordas fotografeiras despejadas em pleno centro da Capital a partir de aviões low cost (os mais novos), de transatlânticos gigantescos (as carcaças) e de autocarros (todos). A venda imobiliária ajudou com a "hotelização" do dito centro o que não significa que se lavem. A propaganda saloia do governo, a par com a da Câmara, também. Um dia destes haverá mais camas do que turistas, mais turistas do que lisboetas, mais merda do que a merda que já cá estava. Chamam a isto "progresso" e, os mais avaros, "dinheirinho fresco". Eu chamo-lhe praga.


 


Foto: Público

14.6.15

Limpeza do pó

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A empresa de sondagens do dr. Oliveira Costa (Rui) perpetrou alguns "estudos" no Expresso. Se os tomarmos ao pé da letra, verificamos, por exemplo, que inexiste nos sondados o mesmo acrisolado amor pela TAP que é por aí vendido, a título de fervor patrioteiro sem sentido, pelas esquerdas e pelo cineasta Vasconcelos. O que as pessoas querem é partir e chegar a horas num qualquer avião que os leve e traga em sossego e com alguma qualidade. Também constatamos que não valeu de muito à camarilha do dr. Costa a Vendeia que correu com o dr. Seguro: este derradeiro estudo coloca o primeiro até mesmo abaixo dos piores momentos do segundo nas sondagens. E que a coligação "Portugal à frente" - um anagrama aparvalhado do "P'rá Frente Portugal" do prof. Freitas em 1986 -, sem "mitos", improvisos autocomplacentes ou "independentes" nulos, pode perfeitamente fazer "frente" ao assombrado candidato a 1º ministro do PS. Quanto a presidenciais, o "estudo" mostra relativamente o óbvio no "terreno" com o autor de Le Temps des Professeurs a "impor-se" ao referido PS (não terá sido  por acaso que o homem se formou por cá em teatro embora tal não conste das "biografias oficiais") antes que apareça o segundo homem ou a terceira mulher genuinamente "camarada"; com Henrique Neto, praticamente sem ninguém de jeito por trás, no encalço do centro-esquerda e manifestamente o único daí a poder embaraçar o artificialismo representado pelo emérito reitor; e com Marcelo, ainda por vir, como o preferido a partir do centro-direita para ir à conquista daquela "não esquerda" com a qual se ganham eleições. Dito isto, chove em Lisboa o que é bom para, pelo menos, a limpeza do pó.

13.6.15

Cunhal: "honra e vergonha"

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Dez anos após a sua morte, Álvaro Cunhal é recordado numa entrevista ao Diário de Notícias pelo seu melhor biógrafo político, José Pacheco Pereira. Estão publicados três de quatro volumes desse tão monumental quanto preciso trabalho que culminará, naquele por vir, com a saída de cena de Salazar em 1968. Tem talvez razão o autor quando afirma "perceber" Cunhal, a função específica do historiador. Isto é, não se perceberá Cunhal ou as suas tensões e circunstâncias políticas sem ler, ou reler, com gosto igualmente literário, os livros de Pacheco Pereira. Porquê? Socorro-me da apenas da entrevista. «Era uma personalidade psicologicamente muito complexa. Muitas vezes isso só se revela mais tarde e retrospectivamente percebemos que a persona era a mesma. Cunhal foi transformado numa personalidade a preto e branco, um monge laico do comunismo, que obviamente não era. Uma espécie de teórico absoluto, ortodoxo, inteiramente ligado aos soviéticos, e em vários momentos decisivos ele não foi isso. Mesmo quando muda de posição, como no caso da Checoslováquia, muda por razões geopolíticas: está convencido de que mais importante do que o sucesso da experiência checa, que ele vê com bons olhos, é que a União Soviética não perca o hegemonia no movimento comunista internacional (...). Cunhal nunca abandonou a ideia de que o derrube do regime se faria também através de uma componente de luta armada, que é a tese dominante do Rumo à Vitória, onde fala no levantamento nacional armado. A fórmula é ambígua mas implica uma forma de violência revolucionária (...). Uma biografia de Cunhal é complexa, porque tem de tratar não só evoluções mas também pensamentos (...) O PCP tem uma história política ideológica muito marcada pelas ideias dele. Uma vez chamei-lhe o idealista pragmático, ou o revolucionário pragmático. Manteve sempre uma postura revolucionária, no sentido leninista, nunca abandonou a necessidade da violência, da luta armada, nunca defendeu que a transição em Portugal pudesse ser pacífica (...) Ele deixou ficar inscrito no programa do PCP uma coisa que lhe garantiu a sobrevivência: mais vale ser o que era do que tentar mudar (...). De todas as pessoas públicas que conheço, Cunhal é das mais vaidosas que é possível imaginar. É uma vaidade muito especial, não é dizer “eu sou o melhor”, mas traduz-se na representação que ele faz de si próprio na ficção. São Bernardo fala na vaidade do monge que é perfeito, que escolhe sempre os trabalhos mais difíceis, comporta-se sempre de forma exemplar. E as personagens em que Cunhal se representa na ficção são perfeitas, mesmo nas suas imperfeições (...). É um homem que se descreve a si próprio como a encarnação viva de um ideal que lhe apaga a personalidade, que lhe tira a pulsão pelos defeitos, que lhe apaga os pecados, sem os negar. Cunhal tem um grande corpus de textos – como aliás têm outras pessoas no PC – sobre os defeitos. O entendimento da clandestinidade do PC não é idealizado. Sabe que estão a lidar com homens com defeitos em situações de grande risco. Essa combinação do defeito com o risco e as fragilidades na experiência clandestina Cunhal percebe-a muito bem. Daí que nunca apele à ortodoxia nem à ideologia nem a uma espécie de situação abstracta. Ele usa aliás os valores do mundo mediterrânico: a honra e a vergonha (...). As ambiguidades são interessantes, quem trabalha sobre esta matéria tem sempre de perceber o que não é dito (...). Cunhal é uma das duas ou três figuras que explicam o século XX português, como o Salazar. Há outras pessoas muito importantes para se perceber o século XX. O Afonso Costa, que explica o republicanismo. O Marcello Caetano, o Mário Soares, várias figuras. O Cunhal é sem dúvida uma delas. Muitas coisas que marcam o século XX, ainda hoje vivas, têm a ver com o pensamento dele. Por exemplo, a ideia de que Portugal não é um país pobre (...) Eu percebia-o bem de mais e ele percebia-me bem de mais.»


Cunhal

12.6.15

«Conselhos de Cavaco»


 


«Cavaco já provavelmente descobriu que não haverá convergência alguma entre o PS e a coligação e, por isso, resolveu mudar de táctica e passou a dar conselhos professorais ao próximo governo, para que – segundo ele jura – os portugueses possam olhar para o “futuro colectivo com confiança”, “independentemente” do sr. Costa e do sr. Coelho. Isto, vindo de um Presidente da República, é uma inacreditável ingenuidade política ou uma inclassificável mentira. Mas tem de se ver Cavaco como assistente do ISE ou doutorando da universidade de York para o perceber. A receita está no livro a páginas 147 e só quem não a conhece persiste em “fazer um modo de vida da crítica inconsequente”, como o velho do Restelo e outros sócios de má morte, a que a heroicidade indígena não deve dar ouvidos. Cavaco oferece à Pátria quatro conselhos (a prosa é dele). Primeiro: garantir “o equilíbrio das contas do Estado e a sustentabilidade da dívida”. Segundo: garantir “o equilíbrio das contas externas e o controlo do endividamento para com o estrangeiro”. Terceiro: garantir “a competitividade da economia face ao exterior”. E, quarto: estabelecer “um nível de carga fiscal em linha com os nossos principais concorrentes”. Estas recomendações, que parecem uma lista de pecados mortais ou um folheto de 1930 para defender a castidade de meninas púberes, é, no fundo, como o género indica, uma enumeração de impossibilidades. Pior: uma enumeração que revela a profunda ignorância da história económica de Portugal e da Europa (digamos, desde meados do século XVIII) do Prof. Cavaco Silva. Se os conselhos que ele misericordiosamente nos comunicou em Lamego se tivessem seguido nunca Portugal haveria passado por qualquer espécie de crise e os nossos políticos andariam hoje espanejando o Paraíso com as suas asas. Mas não, não sejamos tão impiedosos com o nosso querido Presidente da República. Afinal ele estudou economia e finanças, disciplina irmã da roleta e do poker, e gosta de apostar: na espiral recessiva, na estagnação, na retoma, no que lhe apetecer. Os colegas também apostam e a bicharada dos partidos também. Mas convém que o povo não se exalte e não caia na asneira de acreditar nele. De Lamego que poderia ele comunicar ao país? Caros portugueses, estamos sem um tostão e deste sarilho não nos safamos tão cedo…? Nem o deixavam voltar a Lisboa.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

10.6.15

«Não tenho a certeza de que estamos contigo, Zé»


 


O fim-de-semana prometia consolo e amenidades ao PS do dr. Costa. A Convenção, no Coliseu de Lisboa, começava com um refrigério anunciado à última hora. António Capucho - uma rodilha política sem préstimo actual nem "pensamento" que o recomende, sequer, para guionista de talk shows de tardes de Júlias e Cristinas - abrilhantou a sala enquanto parte dela adequadamente debandava. Afirmaria, depois, a um jornal que "se o PS o convidar para altos voos" não dirá que não. Isto tem um nome conhecido na praça. Depois, a Convenção exibiu o "melhor" PS de sempre, ou seja, o PS de sempre com a devida rasura de Seguro, dos seus e dos anos em que dirigiu a agremiação. O precursor do evento era Sócrates, os seus e os "anos de oiro" que deu ao partido. Sem a maçada de o ter de ter ali ou de precisar ser nomeado. Até Assis, esse perigoso social-democrata, regressou ao redil. Apenas uma senhora reformada, de cabelo pintado, discutiu a TSU e Costa agradeceu-lhe o voto (um voto) contra na Convenção como exemplo da notável abolição do "pensamento único" no PS. O resto consistiu em explicar, em grupinhos, a solo ou com a ajuda da dedicada jornalista Anabela Neves, o "programa eleitoral" em prol de um "Estado forte, moderno e inteligente" a lembrar o doutrinador Oliveira Salazar que defendia sensivelmente o mesmo: um Estado tão forte que não necessitasse ser violento. Aí pelo final da tarde de domingo, Costa entregou às hostes e às solícitas televisões o seu longo "monólogo do vaqueiro". Ia nisto quando, nos rodapés, apareceu Sócrates por interposto Ministério Público que o queria remover de Évora para casa. João Lisboeta Araújo surgiu à porta do estabelecimento prisional eborense para a confirmação. A Convenção terminava, assim, ingloriamente na Rua das Portas de Santo Antão com os jornalistas, de microfone alçado, a quererem saber de Sócrates por Costa e a não quererem saber do "programa" para nada. É verdade que a Neves fez de tudo para manter a chama viva mas a coisa já tinha partido para destino incerto. Costa percebeu e apressou-se, num fórum da TSF, a garantir que o PS "não fazia acusação nem defesa" a, e de, ninguém, repetindo o cliché da separação da justiça da política. Mas ia tarde. Sócrates já marcara a semana política com uma declaração tão solitária quanto corajosa. Pelo, cito-o, «respeito que devo a mim próprio e com o respeito que devo aos cargos públicos que exerci.»


 


Jornal de Notícias


 


Adenda: Depois de escrita esta crónica soube-se que o Tribunal, a instância do Ministério Público representado pelo meu ilustre colega de curso Rosário Teixeira, decidiu manter José Sócrates em prisão preventiva. Só se pode retirar uma conclusão. Se o MP entendia há dois ou três dias que a medida de coacção mais grave podia ser levantada e a manteve, então o arguido está a ser punido por um "crime" inexistente: o delito de opinião.


 

9.6.15

Pequenitos pequeninos


Vem aí mais um "10 de Junho", um dia particularmente dado às maiores inaninades pátrias. Sobretudo num ano eleitoral em que parece ter aberto a caça ao dito mais cretino e irrelevante. Já vimos o Doutor Cavaco a aproximar-se subtilmente de Lamego através de cestinhos de cerejas de Resende. Ou o dr. Passos, em Coimbra, nos 75 anos do Portugal dos Pequenitos enfiado, com ela, num bule rendilhado da inominável Vasconcelos. Ou o regime inteiro a visitar as vaquinhas e a tomatada da Feira da Agricultura de Santarém, o nosso Davos dos pequeninos a par com a Ovibeja, mais dada a ovelhas e a carneirada. Ou o perdido dr. Costa num fórum radialista a tentar sacudir o precursor Sócrates (amanhã explico isto melhor no Jornal de Notícias). Ou, ainda, os candidatos presidenciais no "terreno" - Henrique Neto, Paulo Morais do distinto Café Piolho e António Nóvoa, até da coligação se lhe pedirem para ir lá "transportar" o seu "desassossego"- demasiado enamorados por si próprios. Também há, em Lisboa, a Feira do Livro. Há dias, certamente por equívoco, o respeitável psiquiatra Coimbra de Matos "apresentava", numa estância editorial qualquer, um livro de uma senhora. Estava muita gente e percebi que a "autora" em causa era uma tal Raquel Varela que eu ignorava que sabia falar quanto mais escrever. Desandei para casa com um digníssimo Grisham de bolso. Mas vinha isto a propósito de nada e do "10 de Junho". O Doutor Salazar celebrava Camões e o Dia da Raça distribuindo e mandando distribuir veneras pelos órfãos e viúvas da sua estúpida guerra. Este regime manteve o Bardo, mudou os destinatários das veneras e lembrou-se dos emigrantes a quem chamou pomposamente "comunidades portuguesas". O que nada tem, releve-se, de "mito urbano". Estas, as de lá de fora, estão-se muito justamente nas tintas para esta tralha toda junta. A partir de certa idade só se liga a trampa distraído.

7.6.15

O caminho


 «Durante quase meio século, as coisas foram andando (com um sobressalto ou outro) sem nenhum desastre de maior. Só o “fenómeno Sócrates”, que não é simplesmente um efeito do indivíduo Sócrates, conseguiu arruinar o difícil equilíbrio que até ali nos sustentara. Em 2007-8, já geralmente se sentia uma certa impaciência com a situação do país, que não crescia e, apesar de incessantes promessas, não se “modernizava”. A “poesia” da qualificação, da ciência e da cultura – historicamente um péssimo sinal – reapareceu com estrondo; e a megalomania de Sócrates, com dinheiro emprestado, tentou fabricar a aparência de um “progresso” falso, mas vistoso. A bancarrota, claro, chegou depressa. O Portugal de 2015 precisa de pagar as dívidas. Só que as dívidas não são o ponto decisivo. O ponto decisivo é meter solidamente na cabeça que o caminho para a Europa pede muito esforço, alguma pobreza e, sobretudo, muitas reformas.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

6.6.15

O apagão


 


O Coliseu, sempre o Coliseu, recebe por estes dias de canícula uma "convenção" do PS. O espectáculo começou com uma guest star - uma estrela cadente vinda do planeta PSD e que imagina que ainda brilha - chamada António Capucho. Parece que, sem se rir, o homem evocou Sá Carneiro e o seu acrisolado afecto à social-democracia que, pelos vistos, terá encarnado em António Costa. Costa está habituado a recolher despojos reutilizáveis a título de idiotas úteis: Sá Fernandes, Helena Roseta e, agora, esta pseudo sumidade. Junta-se-lhes, claro está, António Nóvoa, o emplastro mal amado internamente para as presidenciais que a velha assessoria do Sampaio genuíno (da qual brota o improvável candidato) impôs ao PS. Mas o mais interessante desta "convenção" é o "apagão" que ela representa. É como se o PS tivesse saltado, por artes holográficas, directamente do derradeiro congresso de Sócrates, salvo erro em Matosinhos, para o Coliseu em Lisboa. Com, porém, duas diferenças de peso: o dito Sócrates, ausente por motivos bastamente conspícuos, e António José Seguro que o actual secretário-geral removeu da história do partido na "linha", aliás, de outro secretário-geral de outro conhecido partido da extinta URSS. Fora isso, a "convenção" traduz-se numa apoteose patética do "socratismo" e na negação doentia do "segurismo". Abre-se um canal de televisão e lá está o friso encantador de 2005-2011, desde o organizador das festividades, Correia de Campos, até aos grupinhos "temáticos" onde pululam antigos ministos, secretários de Estado e "criações" deputacionais de Sócrates. As gentes de Seguro são olimpicamente ignoradas como se tal nome jamais tivesse liderado o partido ou, sequer, oferecido dois sucessos eleitorais nacionais sobre a "situação". Como é que Costa quer crescer para o país quando se diminui, e diminui os seus, em casa?

5.6.15

A tristeza de uma ruína


 


«Esta balbúrdia instituída no espírito dos portugueses vem de uma razão irremediável: o fim da ditadura do “progressismo”, que em várias doses se exerceu sobre a vida intelectual portuguesa. Para começar o “intelectual”, como autoridade moral e consciência do público letrado, desapareceu. O último, Eduardo Lourenço, serve intermitentemente de ornamentação a várias cerimónias sem sentido: e, fora isso, já não abre a boca. O que resta – sob o nome de economistas, politólogos, psicólogos, sociólogos, “críticos” disto e daquilo e de coisa nenhuma – é uma vozearia de acaso a que ninguém liga. O colapso do “socialismo real” arrastou como seria de prever as suas variações, incluindo o “socialismo”, que só em relação a ele se definiam. Até a linguagem da “esquerda”, falada ou escrita, deixou de aparecer, excepto por hábito e por erro. O que sobrou não passa de um lamento pela pobreza e pelo desemprego, que, demonstrando bons sentimentos, não leva a nada e, principalmente, a um plano de acção. A devoção pelo papa Francisco, que se tornou hoje numa das grandes personagens do “progresso”, é o perfeito atestado da dependência cultural do que dantes se chamava a “esquerda”: para lá de um certo ponto a caridade e a solidariedade começam a não se distinguir. Em 1970 ou mesmo em 80, nenhum “marxista” de nenhuma espécie aceitaria esta amálgama. Agora, tirando essas longas e, aliás, meritórias queixas sobre a miséria do país, não lhe sobra senão o silêncio. O que os políticos do PS discutem (e com o PSD e o CDS) é engenharia financeira: nada mais. Mas, numa eleição, as vantagens de um “projecto” ou de um conjunto de promessas (supondo que se percebem) não significam coisa alguma. A morte do “progressismo”, que mandou em nós durante meio século, deixou um deserto: meia dúzia de tiques, meia dúzia de asneiras (como a idolatria do Estado, por exemplo); e talvez também a tristeza de uma ruína.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

4.6.15

"Raízes de aço" pouco democráticas


«Rui Rio tem todo o direito de não gostar de certas notícias que são publicadas na comunicação social e achar que elas foram ali plantadas para o prejudicar em última análise, pode até ter razão, e boa parte da sua indignação ser inteiramente justificada. Só que depois ele mistura tudo e é nessa misturada, muito musculada, muito avinagrada e muito pouco ponderada, que eu vejo emergir demasiadas vezes um genezinho autoritário, que à noite sonha humidamente com uma comunicação social bem ordenada, em que os jornalistas nunca se enganam e raramente têm dúvidas. Porque, afinal, basta perguntarem a Rui Rio onde está a verdade, que ele trata logo de informar (...). Mas uma frase como “a liberdade de imprensa também pára à porta da liberdade de todos nós” não quer dizer coisa absolutamente nenhuma e é até de uma assinalável estultice. O que a liberdade de imprensa mais faz é invadir a vida de gente que se tivesse a liberdade de escolher preferiria que nada se soubesse. Rio parece apreciar watch dogs mansinhos, que só ladram quando ele estala os dedos. Ao fim de mais de 30 anos na política, esta falta de cultura democrática é muito preocupante sobretudo para quem anda a pensar instalar-se em Belém.»


 


João Miguel Tavares, Público

Glória


 


Numa sala exígua, quentíssima, no -2 de um hotel de Lisboa, a coligação apresentou as "linhas orientadoras" do programa para a próxima legislatura. Passei por lá com o João Villlalobos que tinha encontrado na feira do livro uns metros acima. Passámos aos corredores antes do começo do exercício. Observava-se melhor. A fauna era a trivial nestas ocasiões. Militantes "anónimos" (poucos), uma vaga criança, alguns do CDS ostentando o símbolo partidário na lapela não fosse alguém confundi-los, deputados angustiados sem saber se vão ou se ficam, membros de gabinetes e declinações permanentes disso, no PSD e no CDS, em idênticas circunstâncias, ministros e secretários de Estado também, uma ou outro dependente crónico, mais seboso, colocado aqui e ali em cargos de escolha "amigável" e, finalmente, os líderes e os seus homens mais à, e de, mão. Alguém presente enviou entretanto uma sms ao Villalobos a dizer que não lhe falava por ele "estar ao lado do João Gonçalves". O que, sem esse glorioso patriota sequer suspeitar, acaba por resumir eloquentemente o que escrevi atrás.


 


Foto do João Villalobos

3.6.15

Ao cuidado do dr. Passos Coelho


Passos Coelho concorre à sua própria sucessão num contexto de liderança incontestável da coligação e do Governo em funções. Razão acrescida para não dar lastro a solturas infelizes de ministros, ou ajudantes deles, que se imaginam politicamente subtis: Paulo Portas pode ter muitos defeitos mas pensa sempre melhor que qualquer um deles. Dito isto, fica claro que defenderei, à minha maneira, a continuação de Passos Coelho à frente do Governo do país. Não estamos em condições nacionais e europeias para preferir aventureirismos revanchistas a um módico de estabilidade, segurança e prudência. A incerteza, a imprevisibilidade, o atomismo de uma crise que ainda não terminou, e de outra que pode seguir-se sem aviso prévio, não aconselham experimentalismos nem regressos ao passado e ao passivo depois dos sacrifícios sofridos e, em tantos casos, em curso. Passos Coelho e a coligação têm agora a obrigação política e moral de se despedir do austeritarismo financista, das abstracções liberalóides dos últimos anos e da pequena burguesia de espírito que triturou gratuitamente amizades e lealdades. E, sem ceder em verdade, rigor ou à demagogia, assegurar pura decência de vida às pessoas. António Costa não o pode fazer. Está sentado sobre o ressentimento; sobre a destituição brutal de uma liderança legitimada pelo voto partidário e duas vezes nacional; sobre o espectro que nos trouxe irresponsavelmente até aqui, à necessidade extrema daqueles sacrifícios, e na solidão política de quem exibe por companhia futura rostos exauridos de passado. As coisas são o que são.


 


Jornal de Notícias (versão original)