31.5.14

Coisas que os barulhos escondem

«O défice resiste a doses inconcebíveis de impostos, os “cortes” continuam, a dívida aumenta (e continuará a aumentar), a exportação (que devia ser a cura miraculosa para a incúria indígena) abrandou e “as reformas”, as verdadeiras, foram por aí esquecidas numa gaveta. Mas nada disto impediu o Governo de comunicar à populaça – com uma certa reserva, é certo – que a “recuperação” estava a caminho. O PSD e o CDS têm agora de pagar dia-a-dia as suas mentiras. À medida que os portugueses perceberam que as coisas ficaram exactamente na mesma e que o “tratado orçamental” substituiu a troika, com toda a eficiência, até os 27,7% de 25 de Maio tenderão a descer ou, no caso do CDS, a desaparecer. Para Pedro Passos Coelho, o problema é, como sempre, um problema de “comunicação”. Julga ele que se os ministros tirarem tempo para “atender mais telefonemas” e se os deputados falarem com “mais pessoas”, a retalho ou por grosso, o PSD e o CDS são capazes de “pescar à linha” o milhão e tal de votos que perderam. Isto é, evidentemente uma ilimitada loucura, digna de um governo insensato e falhado. Passos Coelho e Paulo Portas deviam pensar mais numa despedida elegante e numa reforma cómoda do que em truques patéticos para salvarem uma caranguejola que se desfaz. Mas não pensam e o próximo ano acabará por ser o pior desde 2011, com o Governo a saltar como uma galinha sem cabeça e o Presidente a fingir que não vê sangue no galinheiro, enquanto a tarraxa “europeia” não pára de apertar.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 

Barulhos e outras coisas

No meio dos barulhos emitidos por gente de que andávamos esquecidos, democraticamente esquecidos, desde Junho de 2011, e das ameaças veladas aos suspeitos do costume (os trabalhadores do Estado por causa do T. Constitucional) por parte dos senhores PM e vice PM, apareceu uma coisa interessante. Enquanto o dr. Costa, os autores e os difusores dos referidos barulhos esperavam, ansiosos, pela cabeça de Seguro pendurada num pelourinho do Vimeiro, este - como lhe competia pelo menos por respeito pelo milhão e tal de nativos que votaram no PS há uma semana - passou ao ataque. Não tanto ao ataque a estes barulhos mas passando por cima deles ao falar directamente para o país e para o "sistema político". Alargar a base eleitoral e a legitimidade dos dirigentes partidários candidatos a cargos institucionais nacionais para lá dos respectivos "aparelhos", reduzir finalmente o número de deputados e criar círculos uninominais; a par com nacionais, são ideias políticas de elementar bom senso. Boas até para a "direita" as aproveitar.


 


Adenda: Costa, para bem dele, devia recomendar aos seus mais destacados apoiantes que se fizessem de mortos. Aparecer ao país rodeado de mortos-vivos era o pior que lhe podia acontecer.

"Ele pode ser o presidente da câmara mas eu é que sou o presidente da junta""



De novo juntos. Como em Abril de 2011, na Exponor.

Ajeitar a cabeça na "almofada"

Fora o objecto da declaração de inconstitucionalidade na altura (a eliminação dos subsídios de férias e de natal dos trabalhadores do Estado no OE para 2012), continuo a "ler" o "tema" como o lia quando escrevi este post. Estava, então, no gabinete de Miguel Relvas e o ministro das finanças era o dr. Gaspar. Não mudei de opinião.

30.5.14

Um hábito inofensivo


 


«Há várias coisas que nem este nem nenhum acordo alguma vez fará: em primeiro lugar, não vai transformar o que se escreve em qualquer das variedades de português em coisas com sentido, e muito menos em coisas inteligentes; em segundo lugar, não vai tornar mais compreensível a um brasileiro os barulhos linguísticos que se fazem em Portugal; em terceiro lugar, não vai criar nenhum mercado único para coisa nenhuma e muito menos para livros; em quarto lugar, não vai transformar o português naquilo que nunca foi, a saber uma língua mundial (...). A razão por que nenhuma lei sobre a ortografia é adequada é apenas que a ortografia é um hábito inofensivo. Não prejudica ninguém, e é vivida por muitas pessoas como uma espécie de segunda natureza a respeito da qual ninguém pensa dois segundos. É uma maneira de fazer as coisas com que as pessoas se sentem confortáveis e que não ofende crenças ou convicções. E, mais importante, é uma maneira de fazer as coisas para cuja alteração não existe um único argumento razoável. São estes hábitos que tornam possíveis os estados. Os estados não devem legislar sobre estas coisas.»


 


Miguel Tamen, Observador

A mão que sai de trás do arbusto



Não sei o que António Costa pensará do artiguinho perpetrado pelo dr. Soares no Público. A coisa está no registo de bom gosto "soba" do "desapareça, sr. guarda, desapareça" ou do "sei muito bem o que é os dirigentes europeus me diziam de si quando cá vinham" num debate televisivo com Cavaco Silva nas presidenciais de 2006. Com a diferença de que, desta vez, os mimos visam o actual secretário-geral do PS o qual, que se saiba, nunca fez outra coisa na vida a não ser socialista. O ódio político e pessoal que transparece das palavras de Soares não ajuda a tarefa alegadamente "unificadora" de Costa. Já não ajudava aquele cortejo de fantasmas da derradeira encarnação governativa do PS cuja longa mão parlamentar não pensa noutra coisa a não ser perpetuar-se em São Bento às costas de uma hipotética nova liderança. Alguns desses fantasmas - que passavam o tempo a sugerir que estavam "fora da vida política e partidária" - não perderam tempo a "ditar" o "programa" de Costa. A. Santos Silva, por exemplo, deve ter ficado desiludido ao constatar que o "apelo" que dirigiu a Seguro para não votar a moção do PC foi ignorado (fundamentadamente ignorado) por Costa na sua tribuna preferida, a Sicn. Tudo somado, o dr. Passos Coelho, pelo que pude seguir, fez um brilharete na discussão da dita moção. A não esquerda que o critica evidentemente não hesitará entre ele e esta assustadora trupe quando as coisas forem, de novo, a sério. Como escreve Pulido Valente também no Público, «ao mesmo tempo fora e dentro, o dr. Mário Soares organizou uma campanha de radicalismo e ódio, que impedia qualquer tentativa do PS para encontrar entendimentos parciais com o Governo ou moderar as loucuras que ele desde o princípio cometeu.» Para mais, «a gente é, em grosso, a mesma, educada da mesma maneira, com os mesmos vícios da política de café. Basta ouvir as polémicas das duas facções, invariavelmente dominadas pelo objectivo pueril de distribuir as culpas da “cisão” ou de exibir uma camaradagem pública entre indivíduos que se odeiam. A súbita aparição de Costa não irá varrer com facilidade este antro de estupidez, de ambição e de intriga.» Sobretudo se, em vez de ser ele a falar, deixar correr livremente esta traquitana vingativa e rapace.

Bagatelas


 


Do Facebook:


 


Da última vez que o dr. Soares foi a votos, em 2006, obteve 785.355. No domingo, o PS do dr. Seguro obteve 1.033.088. Num caso como no outro foi a "resposta do povo". Que não tem "donos".


 


Ao ver a circunspecta dra. Ferreira Leite a "defenestrar", com tanto empenho, o dr. Seguro na tvi 24, percebi que a "coisa" é mais vasta do que parece. O dr. Costa, coitado, é só a ponta do iceberg.


 


O "congresso extraordinário" do PS já começou nas televisões. É o chamado "poder do amor" (ao comentador televisivo A. Costa).


 


Ao "folhear" os "online" dos jornais, descobri que, afinal, Pacheco Pereira e Miguel Relvas possuem uma coisa em comum: o mesmo acrisolado desvelo pelo dr. A.Costa. Estamos sempre a aprender.


 


Em menos de 24 horas, o dr. António Costa já fez mais pela recuperação dos 500 mil votos perdidos pela coligaçâo do que os drs. Passos e Portas jamais farão no tempo politico que lhes falta até às legislativas.

29.5.14

O "meio" ou o triunfo dos porcos

O "meio político" é uma coisa complexa, indistinta, opaca e cúmplice. Envolve políticos de diversos partidos, meios de comunicação social formais e informais, interesses, redes, negócios e, sobretudo, um dom especial para a filha de putice. As pessoas decentes não cabem no "meio" onde, em conjunto, estão todos bem uns para os outros. Tem donos e trelas impróprias até para cães. Isto é curto e propositadamente grosso porque, como escreveu Gilbert-Lecomte, "tomo por um porco todo o homem que escreve a não ser para dizer o essencial."

28.5.14

Shakespeare e o mito


 


Para gáudio da "direita", o edil de Lisboa deu azo a uma borrasca portuguesa tipicamente "shakespeareana" no PS. Não tanto ele mas as personagens que foram aparecendo para o "glorificar". Algumas delas ainda há dias abraçavam efusivamente António José Seguro nas ruas ou apareciam a seu lado, ou atrás dele, na campanha. Isto é, em encarnações do "humano" inventado pelo dramaturgo inglês para a política e para o amor. Costa já foi tudo no PS e nos seus derivados institucionais - governo, parlamentos nacional e europeu e autarquias - menos secretário-geral. E por uma simples razão, também ela muito "shakespeareana": calculismo. Costa "instalou-se" nas televisões e nos media, em geral, para a partir daí forjar um mito. Em Lisboa, delegou a "vida material" nos veradores e reservou-se adequadamente para "eventos" e para o "social". Tem a "admiração" e a complacência gerais devidas aos mitos. Até aceitou aliar-se a Seguro quando, no último congresso, se orgulhou de ter sido, na prática, o "autor moral" do "documento de unidade" que prevaleceu. Mas os créditos de Seguro - duas vitórias eleitorais - não lhe bastaram. Nem às tais personagens sempre de adaga afiada à ilharga. Seguro integrou, ao ritmo dele - e contra a sofreguidão de muita gente que ainda não percebeu o que se passou em 2011 -, o passado recente do PS no seu presente. Costa dificilmente conseguirá travar a rápida ultrapassagem deste presente minimamente decente do PS por um passado que se vê já em abrangente "futuro". Mas esse é o papel dos mitos: transformar em melhor o que não presta.

27.5.14

Um jantar de bonzos


 


Aquela trupe valentemente sovada nas eleições de domingo, e que constitui o Conselho Europeu, janta esta noite em Bruxelas em mais um "encontro decisivo" para falar do sucessor do fatal dr. Barroso. Parecem personagens de um famoso filme mudo. Infelizmente estes falam.

Os caminhos de um e a austeridade de todos

No dia em que, pela terceira vez, António Costa anuncia candidatar-se à liderança do PS, soube-se que o "documento de estratégia orçamental", de acordo com a insuspeita Teodora Cardoso, contém um milhão e seiscentos mil euros de austeridade mal explicados. Todavia, como Costa é um ilustre membro do star system que anima a malta, é só isso que "passa". Temos, por consequência, tudo o que merecemos.

Actividades tribais


 


Em condições "normais", isto é, se o PSD e o CDS não estivessem no poder (um poderoso lubrificante político), desde domingo que correriam as respectivas actividades tribais as quais, no jargão dos partidos, são traduzidas por "estados de reflexão". Assim, e inteligentemente, o spin governativo mandou calar as hostes e deixar a autofagia tribal por conta do PS. Ao dr. Passos basta, no debate da moção inútil do PC, abrir a boca para dizer duas coisas. A primeira, que, a avaliar por declarações de "responsáveis" do PS (isto é, de pessoas com, pelo menos, a escolaridade obrigatória), quem "chegou ao fim" foi o dr. Seguro e não ele. A maioria erguer-se-á imediatamente para o aplaudir de pé. A segunda, que se o PS não se entende para "governar-se", mesmo ganhando eleições (duas), como é que pode aspirar a governar o país? A maioria repetirá o aplauso, com ocasionais dichotes para a sua esquerda, e não se fala mais nisso nem em nada. Isto porquanto ainda não estavam fechados oficialmente os resultados de domingo e já o PS que execra Seguro reclamava "reflexão", ou seja, a remoção do homem a tempo de evitar, nas legislativas, outra "vitória de Pirro" (Soares moderou-se em público) ou, no limite, uma derrota. Não ocorre a nenhuma destas luminárias o que é que pensa disto quem assiste à coisa de fora. Mal, evidentemente, mesmo que não pense o melhor de Seguro. Porque é este frenesim tribal, inconsequente, dos partidos "tradicionais" que gera "marinhos e pinto", indiferença e desprezo. Se, no caso, entendem que Seguro não "voa", manda o bom senso e a lealdade que se deixem de falsas "reflexões" e de rodriguinhos, e o substituam sem hesitações ou desistências calculistas com medo do "aparelho" que o secretário-geral e os seus dominam. Dêem-se, uns e outros, ao respeito. E, sobretudo, respeitem o país - e o milhão de portugueses que votou no PS - mesmo que ele não mereça nenhum.

26.5.14

Entre o pântano e a farsa


 


Um pouco por essa Europa fora, aquilo a que pomposamente chamam de "arcos de governabilidade" (uma metáfora para designar o apostolado acrítico do tratado orçamental) sofreu um forte abalo. Pessoas que votaram seguramente em Hollande há dois anos, por exemplo, deram agora a sua "confiança" a Marine Le Pen. Na Grécia, decerto sucedeu o mesmo com eleitores da "nova democracia", ou do PASOK, que se "passaram" para o sr. Tripsas. Ou em Inglaterra, ou na Dinamarca, ou na Holanda, etc. etc. Mesmo assim, o sr. Juncker, do alto da sua inconsciência eleitoralista, já proclamou vitória para a Comissão Europeia porque, na verdade, a burocracia bruxelense, da qual ele é um dos principais tenores, "satisfaz-se" com a prevalência bonza do pastelão PPE/PSE. Merkel também venceu, como o panhonha Rajoy, e dificilmente a "europa" estará disponível para reflectir sobre a enorme derrota que a indiferença, a irritação e o individualismo lhe infligiram. Se calhar tem de ir a mal, logo se vê. Por cá, a coligação do governo foi humilhada quer por quem se dispôs a ir votar*, quer por quem ficou a ver passar os comboios. Merecidamente, aliás. E o PS limitou-se a adquirir uma vozinha quando precisava de uma voz. Como se isto não bastasse, o PC veio a correr anunciar uma moção de censura que apenas serve para a defunta "AP" se reerguer um poucochinho exibindo no parlamento a sua legitimidade política formal quando já nada de novo tem a "oferecer" ao país. Tudo somado, entrámos no pântano que Guterres, em Dezembro de 2001, pretendeu evitar com a sua lúcida demissão. O regime, sob o alto patrocínio do Senhor Presidente da República que no 10 de Junho virá reforçar o dito pântano com a converseta dos "compromissos" e dos "consensos", entrou num registo de farsa. O governo vai fingir que governa até às legislativas (e os drs. Passos e Portas que se suportam mutuamente desfeitos em amabilidades cínicas) e o PS vai fingir que "um voto a mais", nessas legislativas, consumará a salvação da pátria. Infelizmente não há ninguém que nos salve desta perigosa mediocridade regimental. Se calhar não merecemos melhor.


 


*«PSD e CDS têm, em conjunto, menos 12,4 pontos percentuais que nas anteriores europeias (quando estavam na oposição), menos 22,8 pontos percentuais que nas legislativas de 2011 e menos 8,3 pontos do que aquilo que as sondagens para as legislativas lhes atribuem neste momento.» (Pedro Magalhães)

24.5.14

A pergunta de Rui Ramos

«Não é possível, porém, esquecer o mês de Julho de 2013, e o que poderia ter acontecido sem o Presidente da República. Os ministros deram nesse momento toda a razão às oposições, que no fundo sempre apostaram numa única coisa: criar um ambiente de tensão e ruptura que induzisse a coligação a entrar em pânico e a desfazer-se. Os acontecimentos de Julho deixaram uma enorme dúvida, sempre alimentada pelo comércio de recados do jornalismo: pode o país confiar nesta maioria para assegurar estabilidade política, ou não?» (Observador). Não pode, Rui, acredite. Eu estava lá em Julho de 2013. E fiquei esclarecido.

Dia de pastar a vaca


 


«O "dia de reflexão", na sua prudência e no seu rigor, impede que se escreva uma palavra sobre política, não vá o eleitor sensível ser indevidamente influenciado à última hora. Esta restrição, de resto, não incomoda ninguém. Segundo a grande imprensa e as televisões, Portugal tem vivido com todo o conforto intelectual da receita para tempos normais: do Benfica, de Ronaldo, do crime e das catástrofes naturais. Bastou o Benfica para nos trazer semanas num incomparável balanço de entusiasmo e de angústia. O campeonato foi uma espécie de acto divino contra a inaturável arrogância do domínio alheio. A Taça da Liga foi uma satisfação merecida. Turim, desgraçadamente, um desespero. E a Taça de Portugal, que fechou um "triplo" nunca visto, desceu até ao fundo do coração. Melhor do que isso, cada português pôde viver esta epopeia em pormenor: os jogos, que nos animaram e apoquentaram; os prognósticos délficos dos sócios; os comentários (muito variados do treinador e dos jogadores do dia); as sessões triunfais no Marquês de Pombal e em vilas num canto obscuro da província. Esta força, esta glória, que desabaram vicariamente sobre nós consolam muito. E também a análise douta dos peritos, que revela o que nós não conseguimos ver e nos descobre de repente a cintilante beleza de um movimento táctico. O Benfica, confessemos, subiu à vertiginosa altura de Portugal. Só a lesão muscular de Ronaldo, que não passa de vez, verdadeiramente nos preocupa. Ele precisa ainda de ganhar a Champions e o Campeonato do Mundo para nos curar e redimir. Entretanto, além da final entre o Real e o Atlético de Madrid e as próximas batalhas do Brasil, a televisão e a imprensa oferecem, para a nossa distracção e aprimoramento cultural, uma dose tranquilizante de crime crapuloso. Não faltam tiros, não faltam facadas, não faltam crianças desaparecidas. Caso mais notável, não faltam mesmo malfeitores desaparecidos. Manuel Baltazar, o Manuel "Palito", por exemplo, que matou a sogra e uma tia e feriu a mulher e a filha, resistiu à perseguição da Judiciária e a forças da GNR a pé e a cavalo durante 34 dias, no imenso território de São João da Pesqueira. A confiança das populações na autoridade, se existia antes, com certeza que se fortificou. E o português valente ressuscitou. Bem precisava.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


«Se eu quiser escrever que foi penoso ver a "rua" dos candidatos, em particular, os da maioria, será que o posso dizer? Será que posso dizer que a "rua" desses candidatos foi uma completa mistificação para obter imagens televisivas, daquilo que foi um dolo total, um não-acontecimento, feito de toca e foge, para não haver sarilhos, será que o posso dizer? Será que posso escrever que foi também penoso ver os líderes do PSD, chamados à campanha pelo mestre da coreografia mediática, numa pirueta do tipo das que os seus discípulos na comunicação social gostam muito, e totalmente vazia de significado político, e depois terem tanta vergonha dos candidatos e da campanha que chegaram às suas imediações pestíferas... para irem apoiar o candidato luxemburguês ou dizerem que "votem A ou B, o que conta é votarem"? Será que posso falar da indigência dos candidatos da maioria, a fazer campanha contra um primeiro-ministro do passado, como se agora o PS resolvesse fazer uma campanha contra Santana Lopes? Ou, do vai-não-vai de Mário Soares, à campanha do super-homem da Juventude Socialista de peito feito em que uma caneta inscreve a fogo ou a sangue uma cruz? Ou de como o selfie do PS é uma afronta aos direitos humanos da câmara fotográfica que teve de rebaixar a sua condição de telefone inteligente para minimizar o ar de parvos dos fotografados, que é o aspecto que os selfies dão às pessoas? Será que posso hoje falar em nome dos direitos da máquina, obrigada a estas violências? Será que posso escrever que a campanha de Marinho e Pinto, a única campanha dos pequenos partidos que, por puros critérios jornalísticos, devia ter uma muito maior cobertura, até porque o seu populismo é uma "fruta da época" que exige atenção, foi a mais prejudicada de todas por critérios que favorecem sempre PSD, CDS, e PS? Será que posso dizer que a campanha mais verdadeira, menos enganadora, aquela em que o que há é o que se viu, foi o retrato cruel da solidão política do POUS, no momento em que as televisões filmaram solitária, com a mesma faixa sempre reciclada, Carmelinda Pereira à porta de uma fábrica? Ou dizer aquilo que é evidente que a única campanha que não teve medo da "rua" foi a da CDU, porque é o que é, e a mais não se sente obrigada? E está hoje, como sempre, melhor entre os velhos de Serpa, do que a do PSD-CDS que nem sequer já tem o "cavaquistão"?»


 


José Pacheco Pereira, idem

23.5.14

Passos e Aquiles


 


De acordo com um "especialista" em Passos Coelho, quando este passa a mão pelo cabelo, como que para o ajeitar, está irritado. Numa cervejaria de Lisboa, ontem ao almoço, e diante de uma plateia de mulheres, de pessoas com barba presumivelmente homens (o evento era primacialmente dirigido a senhoras) e a dra. Assunção Esteves, o PM ajeitou o cabelo antes de começar a falar. Tinha razões para estar aborrecido. Nunca deu qualquer importância à "Europa" e, ali, tinha de dizer duas ou três inocuidades a pretexto de terceiros. Da "Europa" só conhece o tratado orçamental de 2012, de que é um dos mais fiéis prebostes, e que o há-de "trair" mais depressa do que ele imagina. Depois soube-se que a dívida pública já vai em 132,4% do PIB e que a receita do IRS, nos primeiros quatro meses do ano, aumentou cerca de 10%. O que quer dizer que as pessoas, as famílias e as empresas andam sobretudo a pagar os juros da primeira. Uma semana off em Sines bastou para deixar as exportações - e a balança comercial por causa do aumento das importações - a tremelicar na sua manifesta incipiência. A ventoínha europeia, e dos mercados pós-eleições, pode atirar alguma lama para cima da "saída limpa" que, como diz alguém algures, nos pode vir a sair "cara". Finalmente nem os pulinhos do dr. Rangel à volta de cerejas ajudaram a campanha melancólica da "aliança" onde o senhorito Melo passou o tempo a balbuciar trivialidades, em péssimo português, quando, no seu lugar, devia ter andado Diogo Feio. Tudo visto e ponderado, Passos tem motivos de sobra para alisar simbolicamente a melena à semelhança de Aquiles com o calcanhar. A segunda parte da legislatura  - que começou sob a tirada épica "não abandono o meu país" depois da farsa política "irrevogável" do dr. Portas e do "sacrifício", sem uma palavra de reconhecimento, de pessoas sérias em nome da mais reles pantomima - tornou-se progressivamente num enorme embuste. Tão grande como o enorme aumento de impostos que marcou a primeira e cujo lastro persiste, indemne. O dr. Passos decerto não ignora que grande parte da não esquerda que vai votar no domingo votará fundamentalmente contra esta mistificação ameaçadora. O dr. Passos pode não ter "abandonado o país". Mas o país começa a despedir-se dele.

22.5.14

Um voto


 


As votações para a escolha do novo parlamento europeu começaram hoje (na Holanda e no Reino Unido) e acabam no domingo. Em plena campanha, a senhora Merkel, a verdadeira "união europeia" em pessoa, fez saber que já estava a "trabalhar" a próxima Comissão independentemente dos resultados destas eleições todas juntas. Por outro lado, Sarkozy saiu do jazigo provisório em que estava enfiado para defender a blindagem política da "Europa" em torno do eixo franco-alemão e a desigualdade institucional entre os Estados Membros, porventura para tentar travar, pela direita, a anunciada vitória do partido de Marine Le Pen. Apesar de o gigantesco pastelão constituído pelo PS Europeu e pelo PP Europeu assegurar uma vastíssima maioria em Bruxelas e Estrasburgo, tudo indica que os chamados "eurocépticos" crescerão significativamente. Tal como tudo indica que a "Europa" não aprenderá nada com isso. Os sucessos previsíveis desta gente na Holanda, na Inglaterra, em França e do sr. Tsipras na Grécia - o simétrico destes pela esquerda radical grega e um dos mais recentes "amigos" do dr. Soares que entretanto "amuou" com o PS, e vice-versa, talvez por causa disto - são muito mais interessantes para o que se vai passar em Portugal do que o resultado propriamente dito do domingo doméstico. A tão provincianamente celebrada "saída limpa" pode começar a "sujar-se" já na próxima semana se os famigerados "mercados" (que já estão a dar sinais disso) reagirem mal aos resultados naqueles países. E, famosamente, ao resultado grego onde devem andar pelo terceiro ou quarto "programa de ajustamento". De resto, a abstenção anuncia-se merecidamente bíblica porque, por todo o lado, os respectivos "sistemas" e regimes fizeram o possível por "consensualizar" uma campanha imbecil, sem substância, inculta e apolítica a que os "povos" foram alheios. A nossa, na sua rudimentar periferia alimentada a "casinhos" e a dichotes estúpidos, basta como exemplo. Não chegava a bovinidade geral, a alienação pela bola ou a pura indiferença. Os concorrentes, em geral muito medíocres mesmo sob formas de vida inteligente, limitaram-se a acrescentar mais pasto ao pasto. Votarei, todavia. Em homenagem a Medeiros Ferreira que já não foi a tempo de nos ajudar a livrar desta mesmice alucinada e nula com a sua inteligência luminosa e irónica. As pobres tricoteuses das campanhas não devem ter tido tempo para ler o seu último livro. Mas podem começar na segunda-feira. Está lá quase tudo do que aí vem e que não conseguem entender.

21.5.14

A AP e o homem que repetiu o lombo de porco assado


 


«Ainda antes de ser servida a sopa, Marcelo Rebelo de Sousa aproximou-se do púlpito para proferir a intervenção mais aguardada da noite. Falou apenas catorze minutos, longe dos quarenta que interveio no congresso. E praticamente não se referiu a Paulo Rangel ou a Nuno Melo. Uma ou outra referência aqui ou ali, um leve passar a mão pelo pêlo, mas no essencial Marcelo inovou no argumentário: o principal motivo pelo qual ia votar na Coligação Aliança Portugal não era o facto de ele ser do PSD, nem pelo facto de a Aliança Portugal ser uma coligação que envolve o seu próprio Partido, nem por reconhecer mérito e qualidade aos membros da lista PSD-CDS, nem pelo facto de querer premiar o Governo e sancionar o PS (argumento que tem sido invocado até à exaustão nesta campanha). Não. Marcelo disse: "tenciono votar nesta aliança" (sendo que o "tenciono" pressupõe ainda uma margem razoável para dúvidas) "por causa de Jean Claude Juncker" (...) Rangel sorria tímida e discretamente. Melo nem por isso. Os convidados de honra, na mesa dos candidatos, procuravam disfarçar o incómodo. Na sala, viam-se cabeças a rodar para a pessoa sentada ao lado, na mesma mesa, sussurrando-se dúvidas e críticas aos ouvidos uns dos outros. Vai votar em Juncker, diz ele com orgulho. E não em Rangel e Melo ou no PSD-CDS. "Esta é que é a boa razão para se votar na AP" - gritou lá de cima para a sala timidamente aplaudir (...) Depois da sopa, vieram os discursos de Melo e de Rangel. Porém, ninguém falava noutra coisa senão nas palavras de Marcelo. "Vai votar no Juncker?!"; "Mas é disso que se trata?"; "Passou-se?!"; "Nem uma referência abonatória a Passos Coelho e ao Governo?!" (...) Sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada, fez questão de esclarecer que o discurso que fez era "amigo", era "bom para o Governo". Ninguém lhe perguntou, mas quis dizer que não estava a "entalar o Governo", nem estava a ser "mauzinho para o Rangel e o Melo". Quis apenas limitar-se a falar do Juncker porque é, de facto, o que pensa. Estava, no fundo, a fazer uma boa acção. Marcelo jantou bem, em Coimbra. Além da sopa de legumes, repetiu a dose de lombo de porco assado. E em cima, como sobremesa, já perto da meia noite, ainda comeu uma rodela de ananás. Para facilitar a digestão. Estava satisfeito.»


 


Ana Catarina Santos, Diário Metafísico


 


 

20.5.14

O manto diáfano da verdade


 


«Durão Barroso nunca teve peso político nenhum, tendo-se limitado a acatar obedientemente os ditames de Berlim. Perante o apagamento a que conduziu o cargo de presidente da Comissão Europeia, ocorre agora uma farsa, pretendendo fingir que o seu sucessor será eleito nestas eleições europeias. A verdade, no entanto, é que as eleições são para o Parlamento Europeu e o presidente da Comissão é escolhido pelo Conselho, tendo o Parlamento apenas o poder de confirmar ou rejeitar essa escolha. Angela Merkel já avisou que não abdicará de exercer no Conselho essa competência. Os eleitores podem assim votar num presidente e ver escolhido outro qualquer, guardando para recordação as selfies que os candidatos tiraram em Portugal. Tudo isto revela o profundo desprezo que os órgãos da União têm pelos eleitores. Há dias um obscuro funcionário da Comissão apareceu a dizer que com o fim do resgate o país recupera a sua soberania, mas que será apenas “a soberania suficiente para tomar as decisões certas”. Se tal não acontecer, “os mercados rapidamente tomarão a soberania de volta”, podendo ocorrer um segundo resgate. Portugal vive assim num regime de “soberania emprestada”. Comparar isto com 1640 é um insulto à Restauração, na sequência da abolição do feriado. Debaixo desta farsa, o que verdadeiramente existe é uma tragédia nacional.»


 


Luís Menezes Leitão, i

O factor Portas

Aparentemente Manuela Ferreira Leite terá o bom gosto de não aparecer na campanha da "aliança Portugal". Em 2009, enquanto presidente do PSD, incentivou e apoiou a candidatura "original" de Paulo Rangel ao parlamento europeu. Ganhou a aposta. Contra ele teve o CDS presidido pelo mesmo dr. Portas que surge numa fábrica, em 2014, ao lado do mesmo Rangel numa risota às escâncaras, parva e dúplice. Portas, o tudo e o seu contrário, ainda não entendeu que já só os indefectíveis dependentes, e dois ou três analfabetos funcionais, o levam a sério (Passos deixou de o levar quando o alcandorou a vice PM do "guião" da improvável "reforma do Estado" e a "coordenador" de viagens com "empresários"). Ficará para a "história" desta maioria como o seu maior instabilizador político e, para o país, como aquele que, no auge do "programa de assistência" (temporada Primavera-Verão de 2013), se dispôs a deitar tudo a perder em nome da sua vaidade e ambição como ficou adequadamente registado aqui. Se existe um "factor" perturbador dentro da coligação, e no país, ele tem um nome e um rosto. Não é preciso recorrer a fantasmas.

19.5.14

O novo "Observador"


 


 


Há um novo jornal online. É o Observador e nele escrevem pessoas que aprecio intelectualmente. Numa outra encarnação, já existiu um Observador, uma revista onde colaborou Vitorino Nemésio, "de antes" (do imediatamente antes) do "25 de Abril" cujos exemplares, comprados pelo meu Pai na altura, guardo. Este novo Observador começou bem apesar do "acordês". Não se pode ter tudo. Boa sorte.

18.5.14

Da espetada de baratas a Ronaldo


 


«Não se percebe o que o dr. Cavaco e a mulher do dr. Cavaco, com uma comitiva de cem empresários (de quê?) e uns tantos ministros, foram fazer à China. É muito compreensível que a China apeteça a quem gosta de viajar: há a “cidade proibida” para ver e uma espetada de baratas para comer. Melhor ainda, numa “visita oficial” não se espera no aeroporto e um exército de senhores mesureiros abre as portas em toda a parte e sabe onde são os melhores restaurantes. O dr. Cavaco andou sempre muito bem-disposto, com os privilégios que o seu cargo lhe oferece. Mas, para consumo interno, inventou uma teoria para vender ao Presidente lá da terra e, suponho, para impressionar o indígena de cá. Nem os jornais, nem a televisão disseram que espécie de efeito tinha tido este esforço intelectual. A teoria é de facto impressionante e com certeza ficará na história com o nome de “o ponto e o triângulo”. Convém explicar. Segundo o dr. Cavaco, a China deve fazer de Portugal o seu “ponto de entrada” na Europa e poderemos por isso esperar daqui a pouco tempo dezenas de milhões de chineses a desembarcar por essa costa com biliões de coisas para vender à Finlândia ou à Dinamarca, a pretexto de que Sines fica mais perto dos mercados do que, por exemplo, Dover ou Southampton. E Cavaco não pára nesse pequenino “ponto”, quer também que Portugal sirva de intermediário entre Pequim e os PALOPS, que andam ansiosos por arranjar quem tome conta deles, para os defender da roubalheira geral do Ocidente. Esta parte “triângulo” da teoria mostra bem a profundidade de espírito do nosso inspirado Presidente. Só que o sr. Xi, apresentado ao ilustre representante dos nossos navegadores, e pretendendo ser amável, puxou pela cabeça e, depois de muito puxar, saiu com um único nome: Ronaldo. Não se julgue que um homem tão sério como ele planeava trocar Ronaldo pela importação imediata de 300.000 pastéis de Belém, com o intuito perverso de pôr Ronaldo a ensinar futebol a um bilião de chineses e transformar a China em campeã do Mundo e da Europa. De maneira nenhuma. Na bruma, que certamente é o resto da terra para um mandarim, o sr. Xi não se lembrou de mais nada sobre Portugal. Na sua sereníssima cabeça, Portugal é Ronaldo e foi mesmo uma trabalheira para o convencer que o próprio Cavaco, apesar da sua idade avançada, não era Ronaldo. De qualquer maneira, esta viagem serviu para afastar as nuvens que existiam entre os dois grandes países, para nos revelar o fundo do pensamento do nosso querido presidente e para ele descansar durante a campanha eleitoral.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

Num país de enforcados


 


António José Seguro jura que vai formar o primeiro governo do século que não irá aumentar impostos. É uma frase mais simpática do que jurar que não terá condições para baixar significativamente a carga fiscal. Porque, na verdade, é isto que ele quer dizer. O "tratado orçamental" blindou quaisquer bons ofícios e intenções de quem quer que seja que governe na "eurolândia". No entanto, Seguro devia abster-se de mencionar "impostos", uma palavra que geralmente queima a boca de quem a tem proferido. Como se tem observado na cúpula bicéfala do actual governo, para não andar mais para trás, apesar dos discretos "alertas" de M.L. Albuquerque que é quem faz as contas. Para além disso, e apesar da "amabilidade" política em tempos longos de eleições, não se fala de cordas num país de enforcados.

17.5.14

Epitáfios


 


Enquanto o dr. Portas foi para o Caldas presumivelmente desligar o relógio, o eng. Moedas e o dr. Marques Guedes ficaram na Gomes Teixeira, diante de jornalistas nacionais e estrangeiros, a apresentar ao mundo o documento bilingue dito "estratégico para o crescimento". Nada de novo - uma coisa parecida, sem o menor rasgo literário ou outro, evidentemente, às chamadas proposições dos poemas épicos clássicos. Os últimos "indicadores" marraram no porta-aviões do referido dr. Portas (as exportações), a vigilância e as ameaças da "Europa" prosseguem independentemente do patético relógio e sobre a cabeça das pessoas "reais" apenas brilha o sol. É limitado. Politicamente fica tudo preso por filigranas. Como de costume, o mais fiel porta-voz do que perpassa pela cabeça do "libertador" vice PM (o jornalista Filipe Santos Costa, do Expresso) resume o estado da arte na coligação/governo, nas vésperas de um escrutínio popular, após os últimos "improvisos" públicos do dr. Passos: "deslealdade", "desconsideração", "precipitação","inabilidade", "pôr gelo nos pulsos" (sic). Em dia de auto-celebração e a uma semana do "sacrifício" inútil de Paulo Rangel, a maioria não podia ter arranjado melhores epitáfios para si própria.

15.5.14

Da natureza humana


 


Vale a pena ver o trabalho de Anselmo Crespo para as "Sics" na íntegra. São uns quantos minutos de "explicação" da natureza humana às criancinhas com um resultado fatal para os adultos.


 


Adenda: Por outro lado, o Doutor Cavaco nunca nos falha. Deve ser das companhias de viagem. Boa noite e boa sorte.

Sabadabadão governativo

Quando, por volta do meio-dia, me apeteceu um café e desci ao local habitual, estava o dr. Marques Guedes em directo da PCM. Apesar do som baixo, percebi que o ministro da presidência - presumivelmente acabado de sair de um conselho de ministros "ordinário" - falava do "extraordinário" de sábado, o do 1640 do dr. Portas. Falou em "holofotes" (sic) e na presença da imprensa estrangeira para assinalar a mistificadora "saída" da troika e o fim do "programa de assistência". Ou seja, não teve o menor rebuço em anunciar, afinal, um espectáculo estilo "sabadabadão" apenas sem os gritinhos da D. Júlia Pinheiro e os saltinhos de João Baião. O conselho "ordinário" do dia passou, assim, para segundo plano porque a "mensagem" era tão trivial quanto eleitoralista já que a desgraça ambulante que tem sido a "aliança Portugal" precisa de um empurrão. Esta nunca foi a minha "ideia" do "Governo de Portugal". Mas, pelos vistos, é já só isto que resta.

O "facto liberal"

«O facto novo, que impõe uma revisão ideológica geral à direita como à esquerda, é o que Marcel Gauchet tem chamado o "facto liberal", que se traduz na circunstância de a liberdade individual se ter tornado nas sociedades contemporâneas o seu princípio organizador supremo, em toda a extensão das suas consequências, seja qual for o domínio que se considere: pessoal ou empresarial, associativo ou político, educativo ou conjugal, desportivo ou cultural, etc. Foi este princípio que se instalou nas sociedades contemporâneas como nunca na história tinha acontecido, garantindo aos indivíduos o direito de pensar e viver como bem quiserem, tornando na prática impossível pensar-se de outra forma. O grande abalo do Estado, a erosão da confiança no Estado para dirigir a sociedade, vem justamente daqui.»


 


M.M. Carrilho, DN

14.5.14

A probabilidade mínima do candidato máximo



Não é preciso ser socialista ou aparentado (e, muito menos, "guterrista" dos idos de 90) para concluir que António Guterres, se for candidato presidencial em 2015-2016, será de longe o melhor candidato.

Notícias da "nova normalidade" e da "nova estupidez"

Não conhecia esta proposta da maioria mas não me surpreende. Vejamos o que o ministro "verde-mar" Moreira da Silva dirá sobre isto. Por outro lado, a improvável dupla Rangel/Melo, em menos de 48 horas, já se revelou desastrosa. Rangel é civilizado quanto basta (embora lhe ande a puxar o pezinho para a chinela) para aparecer ao lado do marialva Melo que está sempre com aquele ar de quem se prepara para dar um murro no primeiro cidadão que se cruzar com ele na rua. Devia andar sozinho, deixar Melo entregue à sua iconoclastia taurino-política e proibir Fernando Ruas de se afastar do perímetro rural de Viseu.

13.5.14

"Reforma" e "coordenação" com barbas

A "reforma do Estado" será, afinal, quando der mais jeito por causa da "imagem". Por este andar, a "reforma" começa a parecer-se com a Conchita austríaca embora esta seja indisputavelmente mais coerente. E a "coordenação"- não apenas no governo, mas já mesmo dentro de um só ministério, também podia aprender alguma coisa com ela.

12.5.14

Para memória actual


 


«Perante as propostas do FMI de há um ano para reforma do mercado laboral, o então ministro levantou a voz à troika. O mercado de trabalho foi, desde o início do programa, motivo de choques constantes entre o Governo e autoridades internacionais. Mas no Verão do ano passado, no meio de manifestações populares e a semanas da crise política, a coisa atingiu uma outra dimensão: o FMI trouxe um novo pacote de medidas e tentou forçar a sua aplicação, que foi travada pelo então ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira. “Não somos ratos de laboratório”! Fez-se silêncio por momentos, ninguém espera uma reacção tão forte, um grito daqueles, de alguém tão calmo como o ministro da Economia. Era Junho de 2013 e, num fim de semana, Governo e ‘troika’ realizavam mais uma reunião de preparação para a sétima avaliação ao programa, que estava suspensa à espera das medidas compensatórias a mais um chumbo do Tribunal Constitucional. Os encontros eram quase sempre no Ministério das Finanças, mas naquele dia, por causa das manifestações, a reunião tinha sido mudada para a Avenida 5 de Outubro. O FMI trazia novamente na bagagem a insistência nas reformas laborais e pedia, entre outras coisas, a descida do salário mínimo para os jovens. “Basicamente, era a liberalização total do mercado de trabalho”, conta fonte próxima do processo, “um conjunto de medidas que nunca passariam no Constitucional”. A equipa do Governo, com Pedro Roque, Mota Soares e Carlos Moedas, era liderada por Álvaro Santos Pereira, que apresentou um ‘power point’ com a evolução do mercado de trabalho e explicou que as medidas não eram viáveis. “Portugal é um país, não um modelo”, frisou o ministro, acrescentando que o que estava a ser proposto era inconstitucional. Do outro lado, a equipa da troika era liderada ainda por Abebe Selassie, que retorquiu que estavam a exigir aquilo para não terem de regressar com mais dinheiro daí a dois anos. A conversa azedou e os técnicos nacionais chegaram a dizer que “só falta pedirem a descida do salário por raça, é tão inconstitucional como o que estão a pedir”. Mota Soares tentou, no meio das acusações, apresentar um gráfico que mostrava uma redução de salários no privado. “Então afinal há 23% de trabalhadores inconstitucionais”, ironizou de imediato Selassie. O ministro da Segurança Social ainda rebateu que eram negociações entre trabalhadores e respectivas empresas, não uma coisa colectiva, mas já nem era preciso. “Não somos ratos de laboratório, não vamos aceitar isso”, disse Álvaro. Carlos Moedas ainda tentou apaziguar e dizer que se poderiam voltar a analisar as medidas e os números entre técnicos nacionais e internacionais na semana seguinte, mas a reunião tinha acabado. “Faça, as reuniões que quiserem, mas a resposta é não a tudo”, disse Álvaro. A reunião terminou e as medidas não avançaram. Meses mais tarde, depois da crise política, o ministro da Economia deixou o Governo, sendo substituído por Pires de Lima


 


Diário Económico, 12.5.2014 (Texto de Luís Reis Pires e Lígia Simões)


 


Nota: Circe ainda não nos transformou a todos em porcos.

Um ano de embuste


 


«Neste ano, o que aconteceu? “Todos [os documentos legais] do lado do governo estão concluídos”, disse quinta-feira Maduro entrevistado na RTP que tutela. E estão. A lei da TV e rádio está alterada. Mas falta o parlamento aprová-la. Os estatutos e modelo de governança da RTP estão alterados. Mas falta o parlamento aprovar a lei. “Há uma orientação estratégica clara para a RTP”, disse. Pois há, nas lei de papel. Ao invés do que o ministro defende, a RTP acentua uma estratégia comercial agressiva. O cargo de “director-geral” inventado pela RTP é ilegal, e o ministro sabe-o. Nada fez, apesar de legalista. O dossier TDT está na mesma. Quer canais públicos internacionais fortes, mas submetendo os conteúdos a privados através de “parcerias”. Calou-se perante o silenciamento da RTP Internacional nos EUA por capricho autoritário da administração. Defende a “desgovernamentalização da RTP”, mas, sendo os que lá estão os mesmos que a governamentalizaram, o servilismo em potência apenas está hibernado. Para Açores e Madeira virão leis aliviando o desperdício pago pelos contribuintes do Continente, passando a ser os das regiões (e Europa) a pagar soluções semiprivadas ao serviço, como sempre, do poder regional. A RTP2 mudou no papel para o Porto, propaganda em que Maduro colaborou. O caso ilustra o “sistema” instalado: o director foi escolhido pelo seu “perfil” sistémico, agradando ao PSD a que esteve ou está ligado e ao PS que serviu quando na ERC. Escolhido o director, que é do “Norte”, está escolhido o “perfil” da RTP2: faz-se no Porto! Aí está ela, igual a sempre. Assim, após a reviravolta governamental, a RTP está na mesma pois o ministro assume que as suas leis resolvem. Mas não resolvem o carácter miasmático da empresa, sistémico, “pública” no pior sentido, medrosa, servil, alheada do serviço público.»


 


Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã

11.5.14

Temos sempre o que merecemos


 


Sem que se tenha dado por isso, começou este fim de semana a campanha para as "europeias" de 25 de Maio. Aconteça o que acontecer por essa Europa fora, ela já está "amarrada" à "Europa" do tratado orçamental. Vença o Partido Socialista europeu ou vença o Partido Popular europeu, o "destino" da coisa não sofrerá grandes oscilações. É bem mais excitante o que se vai passar na Ucrânia, à conta desse genial criador de eventos e de impérios que é o sr. Putin, do que esperar por "novidades" da sra. Merkel e dos seus pobres epígonos. Resta a frente doméstica. Sem um partido como o de Marine Le Pen, em França, ou o de Nigel Farage em Inglaterra - que a nossa "cultura do compromisso" pudesse diabolizar para se unir e onde os cidadãos pudessem lavar o fígado contra um regime exangue que fez tábua rasa da social-democracia -, o 25 de Maio apenas interessa enquanto "medida" da irritação ou do "amor" do "povo" para com o poder. O governo faz-se representar pelo ex-independente de espírito Paulo Rangel e pelo senhorito "popular" Nuno Melo que está para Diogo Feio como um moço de forcados para um cavaleiro tauromáquico. O PS avança com Assis, em nome da "unidade", e tem o secretário-geral como inevitável cabeça de lista "sombra" por causa do voto "útil" contra a "situação" e, sobretudo, por causa dele. Fora o PC, a prolixidade de agremiações que decidiram concorrer às esquerdas é reveladora do folclorismo de protesto inconsequente que ajuda, afinal, a manter o regime no seu formato original. Num ambiente político de tamanha falta de imaginação, é natural que o país (que também não se distingue especialmente pelo "rasgo") ignore, em geral, o exercício e acabe por se abster significativamente. Vistas bem as coisas, temos sempre o que merecemos.


 


Foto: Le Monde (AFP Lionel Bonaventure)

Gente como deve ser


 


Uma entrevista inteligente de Miguel Sousa Tavares na qual, felizmente, não se fala de literatice. Uma bela homenagem aos Pais, em especial a Francisco Sousa Tavares que conheci, com 18 anos, nos "reformadores" e que me tinha habituado a seguir nos editoriais de A Capital. Foi ele o "autor material" do "manifesto de apoio aos candidatos reformadores e independentes" nas listas da AD de 1979 (de que guardo uma cópia do "original" escrito à máquina). Gente que já não se fabrica mais.


 


«Porque decidiu organizar em livro os textos políticos de Francisco Sousa Tavares?


Primeiro, fui convidado a fazer isto pelo editor. Pensei que gostava muito de fazer um tributo póstumo ao meu pai mas depois sobretudo porque, ao ler os textos, percebi como estavam actuais, o que chega a ser perturbante. Os problemas não se resolveram em 30 e tal anos. Depois, porque o meu pai foi uma testemunha privilegiada dos acontecimentos a seguir ao 25 de Abril, e acho que temos de deixar às gerações seguintes algum testemunho - não apenas dívidas para pagar.


Que escreveria de novo Francisco Sousa Tavares sobre o país de hoje?


Não sei prever, mas uma coisa sei de certeza. Ele arrasaria este Presidente da República. Provavelmente estaria contra o governo, mas não pelas mesmas razões que o Partido Socialista está. Acho que entenderia que Portugal tem um problema próprio para resolver e que o governo não o está a resolver da maneira adequada. É o que eu penso também.»

10.5.14

A suspeita de hipocrisia ou o seu a seu dono

Depois de uma Cenerentola (mais conhecida pela "gata borralheira") vinda directamente de Nova Iorque para a Gulbenkian, passo os olhos pelo Público. Começa com umas páginas sobre o poder local (numa coisa temática sobre os 3 anos do "programa de ajustamento"). Vêm números, mapas e declarações. Das poucas "reformas" que o primeiro governo do dr. Passos conseguiu fazer - e mesmo esta não chegou, como devia ter chegado, às câmaras - a que tocou nas freguesias e nas empresas municipais, por exemplo, teve um rosto político, o do então secretário de Estado Paulo Júlio. Ora quem ler a peça do Público pode ficar com a "ideia" de que o jovem Leitão Amaro, o incumbente que acompanhou o prof. Maduro para as autarquias, é o principal responsável político pelo que se fez. Não é, e não se lhe conhece propriamente "obra". O mesmo se diga do sr. Machado, o presidente da Câmara de Coimbra e da Associação Nacional dos Municípios, que "recomeçou" a sua actividade enquanto munícipe e dirigente associativo apenas aí pelo terceiro trimestre de 2013. E nem sequer faltou, no dossiê, o fatal dr. Portas e o seu "guiãozinho" da capo. Entre Paulo Júlio e o jovem Amaro, Miguel Relvas foi ao BES buscar uma "tia" que praticamente nem tempo teve para se sentar à secretária. Consequentemente, resta, de facto, o "rasurado" da "história" do Público, o eng. Paulo Júlio, uma das pessoas que mais apreciei ter conhecido na minha breve incursão na Gomes Teixeira. No mesmo jornal, Vasco Pulido Valente resume indirectamente tudo isto. «As constantes querelas e contradições entre Portas e Passos Coelho, e entre os próprios ministros, criaram um clima de indisciplina, e uma suspeita de hipocrisia (e dolo, insinuam alguns), que não se recomendava a ninguém e que, pouco a pouco, carregaram o Governo com uma triste imagem de incompetência e desorientação, que não passou e não passará tão cedo.»

9.5.14

Dia da "Europa"

 



 


 


na europeia babel, rios de tinta


correm em cada língua oficial.
um dia, quando os quinze forem trinta,
deixa de haver europa ocidental.


 


Vasco Graça Moura

Demasiado pequenino

Naquele quente, porventura o mais quente, fim de semana da Julho de 2013 em que o governo mudou de "natureza" no Hotel Tivoli - em virtude das demissões (uma real, a de Gaspar, e outra pantomimeira, de Portas) dos ministros de Estado do dr. Passos -, percebi que se preparava uma dolorosa ficção política, avalizada por um Doutor Cavaco timorato e desistente, que garantisse a prevalência das abstracções "ideológicas" que justificavam a teimosia austeritária sobre as pessoas e a produção, a pouca que existe. Ontem, na Ajuda, o governo engendrado naquela altura fez a sua catarse sob a forma de farsa vicentina (sem ofensa para o nosso genial dramaturgo) misturada com uma epopeia de meia-tijela à qual nem sequer faltou o kitsch de um Passos/Gama montado numa barcarola a brincar. A "reforma" do dr. Portas, um chorrilho comicieiro de propaganda eleitoral sem a menos substância ou estudo, foi o "guião" a que ele se agarrou como gato a bofe para se "justificar" (e o "justificarem") no segundo governo do dr. Passos Coelho. As palavras, na boca e nos papéis do senhor vice PM, valem consabidamente o que valem. Todavia, é um "estilo" que contamina. Em poucas horas, o governo "esclareceu" que, afinal, não há mais pontos de partida porque, na verdade, a Ajuda (ou o "17 de Maio") foi um ponto de chegada a partir do qual só se pode continuar a fazer mais do mesmo porque não se sabe fazer, ou dizer, mais nada. O lastro austeritário é para continuar, não obstante a "libertação" mentirosa, e o ódio ao Tribunal Constitucional (e, por consequência, ao Estado de direito na forma que o regime entendeu dar-lhe) e a ameaça sobre o mundo do trabalho, também. É tudo demasiado pequenino para tanta empáfia e "gravidez" palonça de Estado. Mas é o que há.

8.5.14

Um fazer-de-conta


 


O governo da "nova normalidade" parece ter ficado "desempregado" depois da última comunicação do senhor PM ao país. Proliferam as inaugurações, a autocomplacência ensimesmada, as "visitas" revisitadas, os eventos virtuais (reveladores de uma imensa ignorância da história como no episódio ridículo do museco do Porto) e, sobretudo, o espectáculo bacoco dos conselhos de ministros extraordinários encenados "a La Féria". O dr. Portas, por exemplo, vira e revira a sua "reforma do Estado" e já ultrapassou os tweets do dr. Rangel com 120 "medidas" (pessoas que nunca tiveram qualquer contacto com a administração pública, e a desrespeitam metodicamente, vão "reformar" exactamente o quê?). Este fazer-de-conta, "ordinário" ou "extraordinário", vai ser penoso de aguentar até ao fim.

"O livro dos pensamentos"




«“A Gestão do Programa de Ajustamento: 1.000 dias, 450 medidas cumpridas”. Este é o título do livro que o Governo publicou para “transmitir aos portugueses” o que diz ter feito ao longo dos últimos três anos, em que trabalhou no programa de ajustamento económico e financeiro acordado com a troika. “O anúncio de saída [do resgate] é a altura de prestar contas do que foi feito. Prestar contas é a solene obrigação do poder político”, declarou Carlos Moedas, secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, que foi um dos responsáveis por lidar com as três instituições que participaram no resgate a Portugal (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu). Moedas, que falava nos discursos após o conselho de ministros alargado a secretários de Estado com o objectivo de fazer o balanço do ajustamento, indicou que o livro “explica, de forma sucinta, as metas" a que o País se propôs e aquilo que foi alcançado. “Este livro pertence a todos os que participaram neste processo. É uma forma modesta mas sincera de os homenagear”, afirmou o governante na sua declaração, que teve lugar no Palácio da Ajuda, em Lisboa. O livro tem prefácio do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, em que assinala este o que foi cumprido ao longo do programa. O líder do Executivo conclui o prefácio indicando que Portugal tem “todas as razões para ter esperança no futuro”. “Temos encontro marcado com o futuro que colectivamente aspiramos, e não queremos chegar atrasados”, aponta o primeiro-ministro.»


 


Foto: A Comédia de Deus, de João César Monteiro ("o livro dos pensamentos")

7.5.14

VGM



«Como poeta Vasco Graça Moura nunca teve o reconhecimento que merecia. Por um lado porque nunca se encaixou em nenhum grupo e, sobretudo, não estava alinhado com o 'mainstream' literário português. Há mesmo muita gente que diz que nunca lerá Vasco Graça Moura devido às posições políticas que ele tomou ao longo da vida. Mas ele tinha muita consciência disso e, de certa forma, também cultivava uma espécie de solidão poética que se afirmava pela ironia, o sarcasmo, o diálogo com as tradições ocidentais (...) Acredito que agora e com o inevitável apagamento da sua voz política, a sua voz poética possa ressurgir na sua verdadeira dimensão.»


As intenções da carta

«Para as coisas boas, o Governo puxará dos galões que tem e não tem e para as coisas más a troika vai ser substituida pelo Tratado Orçamental e as suas "obrigações". Vai começar no dia a seguir às eleições europeias e só será moderado pela estratégia eleitoral que já está de vento em popa. Não, não há contradição. O Governo continuará a servir os credores e a obedecer ao seu mando, até porque isso lhe serve de pretexto para "democratizar" a economia, ou seja desequilibrar o factor trabalho para garantir mão-de-obra barata e "fazer" um Estado que sirva as clientelas partidárias e os grandes interesses e nada mais. Por outro lado, a pressão vinda dos partidos cresce exponencialmente e leva a políticas eleitoralistas. O tempo será bipolar.  Aqui há duas escolas. Há quem ache que ainda há tempo para inverter a situação e tem esperança de ganhar em 2015. E há quem entenda queo PS ganhará sempre as eleições e por isso trata-se apenas de limitar os estragos e obrigar o PS a coligar-se. Há quem queira jogar tudo por tudo e distribuir benesses, rapidamente e em força, para tentar mudar as sondagens e depois ver-se-á o que acontece. Se for a maioria PSD CDS a ganhar, volta-se aos 20 anos de austeridade, se for o PS, o PS que se arranje para voltar ao equilíbrio orçamental , ou defrontar novo resgate. O PS parece ainda não ter percebido a armadilha. (...) Por que razão toda a gente, inclusive vários membros do Governo, o Presidente, os principais responsáveis económicos nacionais e europeus, as agências de rating, defendia a existência de um plano cautelar, mesmo quando os juros já estavam baixos, e tal acabou por não acontecer? Algum pais da União Europeia se opôs a que houvesse um plano cautelar, mesmo que mínimo, para Portugal? A Finlándia, por exemplo, que posição tomou? A Alemanha, por exemplo, que posição tomou? Não é no blá-blá-blá em público. mas nos gabinetes. Algum pais exigiu contrapartidas e garantias duras a Portugal para vir a ter qualquer plano cautelar, o que tornou polïticamente muito difícil a sua aceitação? Aconteceu com Portugal, o que aconteceu com as condições colocadas à Irlanda? Ou pior? O que é que era efectivamente desejado pelo Governo português, saida limpa ou plano cautelar, visto que é do domínio das histórias da carochinha acreditar que a decisão se deveu apenas ao bom comportamento dos juros nos últimos meses, aliás como se sabe, para todos os paises europeus, inclusive a Grécia, campeã da descida dos juros? Será que a malvada Grécia também vai ter uma saida "limpa"?»


 


José Pacheco Pereira, Sábado

6.5.14

De saída "limpa"



Uma imagem, mesmo improvável, vale mais que mil palavras.

Aprender com Talleyrand


 


Vinte a quatro e mais algumas horas depois do anúncio da "limpeza", e dos redobrados trabalhos "comunicacionais" para a manter na ordem do dia nem que seja a título de pura farsa, ocorreu-me Talleyrand. Charles Maurice de Talleyrand-Périgord, mais conhecido apenas por Talleyrand, foi ministro dos negócios estrangeiros da França à época do Directório. Recomendava aos jovens aprendizes da diplomacia que se masturbassem antes de ir para o trabalho. Tal exercício, dizia ele, permitia-lhes "desembaciar" as respectivas mentes pelo menos durante a parte da manhã. Aprendam.

Requiem pelo PSD


 


Passam 40 anos sobre a criação do PPD, depois PSD. A criatura de hoje nada tem a ver com a que foi apresentada ao País por Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota a 6 de Maio de 1974. Nem tão pouco com o partido do malogrado Mota Pinto, quando para lá entrei em Maio de 1983, ou com o período "cavaquista" independentemente do seu deprimente crepúsculo. Nogueira foi imolado num altar que estava preparado para Durão Barroso, em 1995, quando Cavaco saiu. Marcelo desceu então à Terra para, no esplendor do "guterrismo", ganhar dois referendos e tentar carregar às cavalitas o já "histórico" escorpião do "pequeno partido à sua direita" (expressões usadas por Barroso num congresso em Tavira). Uma entrevista televisiva bastou para Paulo Portas dar início à sua brilhante carreira de "irrevogável". O mesmo Barroso levou-o para o seu governo de 2002 que abandonou às mãos de Sampaio e de um Santana Lopes erradamente escolhido na secretaria do partido. Mendes e Menezes contam pouco. Ferreira Leite poderia ter contado. Com a chegada de Passos Coelho ao poder, no partido e num país exaurido de tudo e de Sócrates, as coisas pareceram desanuviar-se. Agora é que sim, pensava-se no Verão de 2011 de um telhado da Gomes Teixeira com vista soberba sobre o Tejo. Agora é que não, concluí ao arrumar os papéis no andar imediatamente por baixo desse telhado nos derradeiros dias de 2012. Passos Coelho pastoreia em 2014 um partido incaracterístico e acéfalo onde convivem, negoceiam e conspiram "novos" e "velhos" caciques em nome de uma "nova normalidade" imposta por um misto de "liberais estrangeirados" e reaccionários e de homens de affairs, por natureza de quem lhes "paga" melhor. Não há nada para comemorar.

5.5.14

Que farão eles com esta Hora?


 


Apesar de, desde ontem à noite, me encontrar espiritualmente sentado no Marquês de Pombal - envolto num cachecol vermelho e verde de um euro que serve para o "17 de Maio", para a selecção e para o que der e vier -, não pude deixar de reparar em duas coisas. A primeira, no dr. Abreu Amorim que jurou num corredor do parlamento que "todos estão contentes com Portugal". Mais tarde vim a perceber, contemplando embevecido o dito cachecol e algum nevoeiro, que o "todos" fora como que sublimado por uma aparição bruxelense do fatal dr. Barroso em nome dos nossos "amigos" e credores". Algures, nuns textos sobre o provincianismo, Pessoa explica isto melhor que o Freud ou o Jung. Depois, via Facebook, o senhor Presidente da República perguntava para o nariz do Marquês de Pombal "que dizem agora" aqueles que defendiam um segundo resgate, seguramente ainda mais embevecido do que eu depois daquela palinódia deliquescente. Ora a mim apetece-me perguntar a uma data de gente, incluindo o Doutor Cavaco, o que dizem agora aqueles (fundamentalmente economistas como ele) que defendiam um programa cautelar. É claro que isto agora não interessa nada perante a farsa patrioteira de circunstância. Portugal tem uma "almofada" que "paga" quase 900 milhões de euros/ano enquanto eu tenho um reles cachecol imaginário de um. Portugal tem uma dívida que roça os 130% do PIB mas, nas sábias palavras do prof. Braga de Macedo, perpetrou um novo "25 de Abril". Portugal tem um DEO - e o mais que se verá adiante - que obriga a andar constantemente de esfregona na mão a atirar a "limpeza" para debaixo do tapete. Todavia soou, de acordo com dr. Passos, ao vivo, e o Doutor Cavaco em modo esotérico, a "Hora" pessoana de Mensagem. Parafraseando-o, que farão eles com esta "Hora" que é tudo e o seu contrário ao mesmo tempo?

4.5.14

VGM

Um "evento"


 


Passos Coelho anuncia hoje a sua "expo 98", ou o "1640" do dr. Portas, consoante as preferências intelectuais de cada um. Não se trata nem de um ponto de chegado nem de um ponto de partida. Apenas à "Europa", mergulhada em eleições e empenhada no "reforço" da sua imparável inércia institucional e política, aborrece pensar, por um segundo sequer, nos problemas da periferia. Assim como assim, Portugal sai de um programa de ajustamento para se enfiar no tratado orçamental que é a forma "limpa" de poder prosseguir a austeridade sem a qual a dita "Europa" nos abandonaria sem dó ou piedade. Basta aguardar pelos relatórios da derradeira avaliação da troika - o comunicado final já deu um "cheirinho" à coisa -, daqui a umas semanas, para se perceber. De resto, o "segredo" que o primeiro-ministro vai revelar não requer dotes taumatúrgicos especiais até porque já foi amplamente revelado e, sobretudo, sentido. Na sua essência, reside nisto:«De 2011 a 2013, o imposto sobre o rendimento das pessoas singulares deu ao Estado 31.224 milhões de euros de receita (mais de um terço conseguidos em 2013, o ano do “enorme aumento de impostos” protagonizado por Vítor Gaspar, então ministro das Finanças). As mudanças começaram ainda antes da chegada da troika, mas foi durante o resgate – sobretudo no ano passado – que mais se fez sentir este choque fiscal. As diferenças de rendimento são abissais quando se comparam os impostos pagos em 2010 (o ano anterior às primeiras grandes alterações no IRS) e em 2014 (o segundo ano em que a carga fiscal se mantém num nível histórico).Simulações feitas pela consultora PwC para o PÚBLICO mostram que as alterações no IRS penalizam todos os rendimentos. E que são as famílias com menos recursos quem mais sente o agravamento.» Um "evento" sem dúvida.

Lisboa, merda e tudo


 


Há tempos a Câmara Municipal de Lisboa decidiu substituir as tampas dos contentores do lixo doméstico. Agora são verdes, amarelas, cinzentas e azuis. Supostamente cada tampinha representa o tipo de lixo que lá deve ser enfiado. E teoricamente haverá dias específicos para recolher o lixo do contentor conforme a cor da tampa. Sucede que, por causa das hesitações em torno de quem tem a responsabilidade pela recolha - a CML, as juntas de freguesia ou "privados" -, na dúvida, não se recolhe nada independentemente da cor. O que se traduz na proliferação de lixo indistinto, fora ou dentro dos contentores, espalhado aos molhos pelas ruas. Percebo que o mítico dr. Costa não tenha tempo político para minudências como estas. Mas quem não consegue impor-se para evitar prejudicar a "vida material" e a qualidade da saúde pública dos seus munícipes, como é que espera impor-se ao país sem sair do quentinho do ecrã da televisão ou de dois ou três eventos circunstanciais e sorridentes? Dá vontade de deixar os cães fazer as suas necessidades onde lhes aprouver. Para quê andar de saquinhos na mão com tanta merda humana por aí?

3.5.14

Lucia - Dessay


 


Para quem aprecia, está em casa e pode fugir ao terrorismo intelectual que é normalmente oferecido pelas nossas televisões nos sábados à noite, o canal MEZZO passa, a partir das 19.30, a Lucia, de Donizetti, com a Dessay, numa gravação do MET de Nova Iorque que já foi vista num "directo" na Gulbenkian em 2011.

As palavras e as coisas

Expresso - ou,  melhor, os jornalistas do Expresso "acreditados" junto dos gabinetes dos senhores PM e vice PM - teve "acesso" a um documento dito confidencial, distribuído a ministros, dirigentes (presumivelmente da maioria) e comentadores (idem), com o sugestivo título "desvantagens de um programa cautelar". Aparentemente destina-se a que, pelo menos durante algumas horas, os visados consigam não dizer coisas divergentes sobre a mesma coisa, a alegada "limpeza da saída". É, pela descrição dos jornalistas, uma cartilha breve e primitiva, quase maternal, por forma a que ninguém, a começar pelo dr. Passos, tropece em contradições antes deste falar. Por exemplo, de visita à Ovibeja, o próprio dr. Portas não quis debitar mais do que agricultura, comprar azeite e petiscar. O prof. Maduro também foi avistado ao ar livre a balbuciar lugares-comuns esquecíveis. Mas a originalidade desta pequena farsa consiste no termo "confidencial" aposto no "documento" que, para além do Expresso, a Sicn não se tem cansado de mostrar. Ora em vez de ter fornecido o "documento" para entreter o fim de semana noticioso, o governo teria andado melhor se tivesse convocado os partidos, um a um, para lhes explicar por que é que decidiu assim ou assado (o conselho de ministros extraordinário, convocado para domingo ao fim do dia, é apenas mais uma pequenina encenação rebarbativa e sem importância). Sobretudo o PS que, em 2011, conduziu a partir do governo de então as negociações para o programa de ajustamento do qual se trata agora de sair. A maioria e o governo queixam-se com frequência da "falta de compromissos" e de "consensos" dos outros quando, afinal, do que gosta mesmo é de brincar às casinhas através da comunicação social à míngua de, politicamente, saber fazer melhor. Na presente ecologia governamental, as palavras não coincidem com as coisas como se provou abundantemente na semana que passou. Por isso o que é "confidencial" não é "confidencial": é para ser bem conhecido. No mesmo Expresso, Pedro Santos Guerreiro tem razão. «Amanhã haverá festa no Governo. Amanhã o país sabe-se livre da troika - e preso à austeridade. O Governo pode achar que é mau-feitio mas se insistir em ver no regresso aos mercados o sucesso da sua política, não estará a mentir aos portugueses, estará a mentir a si mesmo. Porque isto não acaba aqui.»

2.5.14

DEO ex machina


 


O senhor vice PM não apareceu quando se informou o país do "mais pequeno aumento possível" de impostos e da TSU. O dr. Lima, campeão por parte do CDS da descida virtual de impostos, acha que é tudo, afinal, "equilibrado", "marginal" e "decimal" nas proposições do DEO*. Todavia, como se trata da última avaliação do programa de ajustamento - Portugal "passou" em todas e custou a "fechar" uma, há precisamente um ano, por causa do dr. Portas - , o senhor vice PM não resistiu a surgir "aliado" à vulgaridade do momento com aquela gravitas farsista que é, afinal, o seu único imperativo ético. A fase governativa que começou a ser preparada entre Abril e Julho de 2013, e que está em curso, configura uma falácia política destinada exclusivamente a concorrer a eleições. Comprovam-no as declarações dos principais protagonistas da coligação e da maioria que, quais aprendizes superficiais de Séneca, optaram por uma deriva discursiva de "sempre querer e não querer o mesmo" sem o menor pudor ou, até, respeito pelo programa original do governo, de Julho de 2011. Por este caminho de pedras, o governo ameaça a coesão nacional e social quando sugere, através de termos capciosos como "contribuição de sustentabilidade", em vez de "solidariedade", que "andam uns a trabalhar e a descontar para outros". O que, num país com um lastro histórico de inveja, de ressentimento e de imbecilidade, também acaba por fazer o seu "caminho". Quando já quase tudo se reduz à banalidade do "dividir" para "reinar", sob o enorme embuste da inconsequente e nula "reforma do Estado", é porque algo se quebrou sem regresso. E sem perdão.


 


*O "aumento marginal" ou "decimal" do IVA, segundo os principais corifeus da maioria, não se destina à consolidação orçamental mas a fazer "o bem" e a caridade piedosa, "solidária e sustentável". Mesmo os que não são de direito, deviam saber que, em relação aos impostos, vigora o princípio da não consignação das receitas fiscais. Ou seja, afirmar-se que o aumento da taxa nomal do IVA serve concretamente para isto ou para aquilo, é uma treta.