31.12.08

OUTRO DIA



Este "clip" com uma "valsa" de Strauss, dirigida por Herbert von Karajan e cantada por Kathleen Battle, é a minha forma de homenagear os esforçados leitores deste blogue, outros bloggers (eles e elas sabem quem são) e gente a quem eu jamais teria chegado (e eles a mim) sem estas irritantes prosas. São, de facto, os meus mais fiéis companheiros (muitos ou quase todos eu nem sequer conheço) depois da debandada de tantos e tantos "amigos pessoais" e da frieza dos "próximos", afinal sempre distantes. Dito de outra maneira: «comunicar, como aqui fazemos dia a dia, é um dos mais poderosos exercícios contra a solidão.» O poema do Joaquim Manuel Magalhães exprime a minha mágoa por tudo isso e a irremediável tristeza que vem com a passagem do tempo. A famosa "sabedoria" - que é suposto chegar também - é meramente facultativa. Todavia (e nunca me esqueço disto) não há como um dia depois do outro. Para os que sabem e merecem, amanhã é outro dia.

Tenho uma tristeza
no bolso de dentro
do velho casaco.
Dobrada, quebrado.
Tenho uma tristeza
suja de papel
e de letras gastas.

Eu quero deixá-la
no café sem noite
tiro-a do bolso
pouso-a nos olhos,
em cima da mesa
também é de ti.
Vinha de ninguém.

Charco de jardim
dádiva na mão
triste, por abrir
e depois a dor
aperta-me o punho
por anoitecer.
Venho de uma rua
para o teu lugar.

Olha para mim
para a sala toda
para esta tristeza
atirada ao chão
entre rastos de água
os dedos acolhem
um sorriso vão.

Parou tudo agora
neste ritual
que nada detém.
Bolso de casaco
costas da cadeira
chuva na cidade
vou da tua beira

para um quarto triste
com a mãe que dorme
noutro corredor
o sangue vigia
a pequena lei
a minha tristeza
chamavas-lhe amor.

OUTRO DIA



Este "clip" com uma "valsa" de Strauss, dirigida por Herbert von Karajan e cantada por Kathleen Battle, é a minha forma de homenagear os esforçados leitores deste blogue, outros bloggers (eles e elas sabem quem são) e gente a quem eu jamais teria chegado (e eles a mim) sem estas irritantes prosas. São, de facto, os meus mais fiéis companheiros (muitos ou quase todos eu nem sequer conheço) depois da debandada de tantos e tantos "amigos pessoais" e da frieza dos "próximos", afinal sempre distantes. Dito de outra maneira: «comunicar, como aqui fazemos dia a dia, é um dos mais poderosos exercícios contra a solidão.» O poema do Joaquim Manuel Magalhães exprime a minha mágoa por tudo isso e a irremediável tristeza que vem com a passagem do tempo. A famosa "sabedoria" - que é suposto chegar também - é meramente facultativa. Todavia (e nunca me esqueço disto) não há como um dia depois do outro. Para os que sabem e merecem, amanhã é outro dia.

Tenho uma tristeza
no bolso de dentro
do velho casaco.
Dobrada, quebrado.
Tenho uma tristeza
suja de papel
e de letras gastas.

Eu quero deixá-la
no café sem noite
tiro-a do bolso
pouso-a nos olhos,
em cima da mesa
também é de ti.
Vinha de ninguém.

Charco de jardim
dádiva na mão
triste, por abrir
e depois a dor
aperta-me o punho
por anoitecer.
Venho de uma rua
para o teu lugar.

Olha para mim
para a sala toda
para esta tristeza
atirada ao chão
entre rastos de água
os dedos acolhem
um sorriso vão.

Parou tudo agora
neste ritual
que nada detém.
Bolso de casaco
costas da cadeira
chuva na cidade
vou da tua beira

para um quarto triste
com a mãe que dorme
noutro corredor
o sangue vigia
a pequena lei
a minha tristeza
chamavas-lhe amor.

UM MAU ANO - 5

No meio das "bejecas", o que é que isto interessa? Ou, apesar do OE publicado (Lei n.º 64-A/2008,de 31.12), já se estar a preparar o "rectificativo"? Ou, quem sabe, o primeiro dos "rectificativos"?

UM MAU ANO - 5

No meio das "bejecas", o que é que isto interessa? Ou, apesar do OE publicado (Lei n.º 64-A/2008,de 31.12), já se estar a preparar o "rectificativo"? Ou, quem sabe, o primeiro dos "rectificativos"?

UM MAU ANO - 4

Foi-o para todos os partidos, transformados em caixinhas de ressonância de pequenos e grandes mandarins. O PS não é um verdadeiro partido mas sim um chefe com um friso de amigos, ornamentado por duas ou três almas coloridas e irrelevantes. O PSD, sobretudo depois do episódio açoriano, não conta. O PP é um PS em miniatura, uma aberração unipessoal. Os outros dois divertem-se à conta da não esquerda que tomou conta do PS e parece que ganham alguns votos com isso. Todos alargaram o espaço para o partido da indiferença que crescerá, como um cogumelo, em 2009. Não tenho a menor pena.

UM MAU ANO - 4

Foi-o para todos os partidos, transformados em caixinhas de ressonância de pequenos e grandes mandarins. O PS não é um verdadeiro partido mas sim um chefe com um friso de amigos, ornamentado por duas ou três almas coloridas e irrelevantes. O PSD, sobretudo depois do episódio açoriano, não conta. O PP é um PS em miniatura, uma aberração unipessoal. Os outros dois divertem-se à conta da não esquerda que tomou conta do PS e parece que ganham alguns votos com isso. Todos alargaram o espaço para o partido da indiferença que crescerá, como um cogumelo, em 2009. Não tenho a menor pena.

UM MAU ANO - 3

«Porque será que nós - tanto os homens como as mulheres, mas principalmente os homens - estamos preparados para aceitar as rejeições e as recusas do real, cada vez mais recusas à medida que o tempo passa, cada vez mais humilhantes, e contudo voltamos ao mesmo? Resposta: porque não podemos passar sem a coisa real, a coisa mesmo real; porque sem o real morreríamos como que de sede.»

J. M. Coetzee, Diário de um mau ano

UM MAU ANO - 3

«Porque será que nós - tanto os homens como as mulheres, mas principalmente os homens - estamos preparados para aceitar as rejeições e as recusas do real, cada vez mais recusas à medida que o tempo passa, cada vez mais humilhantes, e contudo voltamos ao mesmo? Resposta: porque não podemos passar sem a coisa real, a coisa mesmo real; porque sem o real morreríamos como que de sede.»

J. M. Coetzee, Diário de um mau ano

UM MAU ANO - 2

Se existiu coisa ruim no ano que termina - e, por causa das eleições que se avizinham, é de esperar o pior - essa coisa correspondeu à degradação da noção de informação, mais prosaicamente, de comunicação social. Salvo honrosas e pontuais excepções, a qualidade do que "comunica a comunicação social" redundou por não ter tido praticamente qualidade alguma. Informar não é produzir fretes. Informar não é massajar o ego do poder esteja ele onde estiver. Informar não é opinar de acordo com qualquer interesse de circunstância. E, sobretudo, informar não é manipular a ignorância alheia que é muita e pode pouco. Podia desejar melhoras. Podia mas sei que não vale a pena. Até há blogues que, voluntaria ou involuntariamente, são uma espécie de longa manus de outras coisas. Pior do que a má informação é a informação que se auto-mutila ou que se "vende" por precários pratos de lentinhas. Na sua deliberada inconsciência, esquece-se que, mais tarde ou mais cedo, será a primeira vítima da própria pusilanimidade. E entre liberdade e pusilanimidade, nunca se deve hesitar.

UM MAU ANO - 2

Se existiu coisa ruim no ano que termina - e, por causa das eleições que se avizinham, é de esperar o pior - essa coisa correspondeu à degradação da noção de informação, mais prosaicamente, de comunicação social. Salvo honrosas e pontuais excepções, a qualidade do que "comunica a comunicação social" redundou por não ter tido praticamente qualidade alguma. Informar não é produzir fretes. Informar não é massajar o ego do poder esteja ele onde estiver. Informar não é opinar de acordo com qualquer interesse de circunstância. E, sobretudo, informar não é manipular a ignorância alheia que é muita e pode pouco. Podia desejar melhoras. Podia mas sei que não vale a pena. Até há blogues que, voluntaria ou involuntariamente, são uma espécie de longa manus de outras coisas. Pior do que a má informação é a informação que se auto-mutila ou que se "vende" por precários pratos de lentinhas. Na sua deliberada inconsciência, esquece-se que, mais tarde ou mais cedo, será a primeira vítima da própria pusilanimidade. E entre liberdade e pusilanimidade, nunca se deve hesitar.

30.12.08

UM MAU ANO


Há pouco, no RCP, o Alexandre Honrado perguntava-me por uma coisa boa do ano. Não consegui lembrar-me de nada. Por isso não faço "balanços" nem "escolho" nada nem ninguém. Tudo que dissesse sobre 2008 seria sempre a redundante memória de um mau ano. O livro da foto, pelo menos, não é um mau livro.

UM MAU ANO


Há pouco, no RCP, o Alexandre Honrado perguntava-me por uma coisa boa do ano. Não consegui lembrar-me de nada. Por isso não faço "balanços" nem "escolho" nada nem ninguém. Tudo que dissesse sobre 2008 seria sempre a redundante memória de um mau ano. O livro da foto, pelo menos, não é um mau livro.

HAVER DEUS



Mozart: 2º Andamento do Concerto para Clarinete e Orquestra, KV 622. Andrew Marriner. London Symphony Orchestra.

HAVER DEUS



Mozart: 2º Andamento do Concerto para Clarinete e Orquestra, KV 622. Andrew Marriner. London Symphony Orchestra.

PARA LÁ DO SITUACIONISMO


«Temos quem nos defenda e quem defenda a democracia.»

Francisco José Viegas, A Origem das Espécies

PARA LÁ DO SITUACIONISMO


«Temos quem nos defenda e quem defenda a democracia.»

Francisco José Viegas, A Origem das Espécies

A ÁRVORE E A FLORESTA


Oportuna esta "lembrança" do Eduardo Pitta sobre o BPP do sr. Rendeiro e de outras regimentais figuras como o dr. Balsemão cujo "grupo" de comunicação social anda com o primeiro-ministro nas palminhas. Por exemplo, Mário Crespo - alguém que, desde aquela triste figura pelas ruas de Washington na noite em que Obama ganhou, nunca mais recuperou o tino - chamou ao seu telejornal dois "isentos" comentadores por causa de Cavaco. Um, apresentado como "politólogo", é do PS e pertenceu à defunta direcção de Ferro Rodrigues. O outro, é a nova coqueluche da SIC-Notícias e "peão de brega" do "jovem" e "liberal" Passos Coelho. Esta "troika" esteve amplamente entretida a zurzir no Chefe de Estado. Como Ricardo Costa, o director, tinha elogiado Cavaco no canal principal, a "lei das compensações" do dr. Balsemão "determinou" que Crespo e os seus convidados fizessem o pífio papel do coro das tragédias gregas em versão revisteira. Para atingir a perfeição, Crespo devia agora convidar o pequeno tiranete açoriano que também já bolçou qualquer coisa acerca do seu excelso estatuto, algo que qualificou, sem noção do ridículo, de "acto de superior interesse nacional". Todavia (e regressando ao Eduardo) o BPP, Balsemão e Sócrates são a verdadeira floresta. O episódio de ontem é apenas uma árvore oportuna.

Nota: Sei que não gostam da foto. Mas querem melhor ilustração do "estado da arte" informativa em Portugal?

A ÁRVORE E A FLORESTA


Oportuna esta "lembrança" do Eduardo Pitta sobre o BPP do sr. Rendeiro e de outras regimentais figuras como o dr. Balsemão cujo "grupo" de comunicação social anda com o primeiro-ministro nas palminhas. Por exemplo, Mário Crespo - alguém que, desde aquela triste figura pelas ruas de Washington na noite em que Obama ganhou, nunca mais recuperou o tino - chamou ao seu telejornal dois "isentos" comentadores por causa de Cavaco. Um, apresentado como "politólogo", é do PS e pertenceu à defunta direcção de Ferro Rodrigues. O outro, é a nova coqueluche da SIC-Notícias e "peão de brega" do "jovem" e "liberal" Passos Coelho. Esta "troika" esteve amplamente entretida a zurzir no Chefe de Estado. Como Ricardo Costa, o director, tinha elogiado Cavaco no canal principal, a "lei das compensações" do dr. Balsemão "determinou" que Crespo e os seus convidados fizessem o pífio papel do coro das tragédias gregas em versão revisteira. Para atingir a perfeição, Crespo devia agora convidar o pequeno tiranete açoriano que também já bolçou qualquer coisa acerca do seu excelso estatuto, algo que qualificou, sem noção do ridículo, de "acto de superior interesse nacional". Todavia (e regressando ao Eduardo) o BPP, Balsemão e Sócrates são a verdadeira floresta. O episódio de ontem é apenas uma árvore oportuna.

Nota: Sei que não gostam da foto. Mas querem melhor ilustração do "estado da arte" informativa em Portugal?

29.12.08

BEM FEITO


O governo prepara-se para sonegar aos jornais os "anúncios" dos actos da administração pública. Remete tudo para um "site" adequado e poupa uns milhões com o exercício. Já os jornais deverão perder com isto cerca de quarenta por cento de receita publicitária. Nunca um governo nos últimos anos (a excepção é o bonzinho Guterres que esteve em "estado de graça" durante praticamente todo o seu primeiro mandato) mereceu tanta sabujice e complacência por parte da maior parte da "opinião que se publica". Lambuzaram o mais que puderam (e continuam a lambuzar) o senhor engenheiro. Só que, com esta legislação, o senhor engenheiro fez aquilo que se costuma fazer aos capachos. Serviu-se deles e lava as mãos quanto ao resto. É bem feito.

BEM FEITO


O governo prepara-se para sonegar aos jornais os "anúncios" dos actos da administração pública. Remete tudo para um "site" adequado e poupa uns milhões com o exercício. Já os jornais deverão perder com isto cerca de quarenta por cento de receita publicitária. Nunca um governo nos últimos anos (a excepção é o bonzinho Guterres que esteve em "estado de graça" durante praticamente todo o seu primeiro mandato) mereceu tanta sabujice e complacência por parte da maior parte da "opinião que se publica". Lambuzaram o mais que puderam (e continuam a lambuzar) o senhor engenheiro. Só que, com esta legislação, o senhor engenheiro fez aquilo que se costuma fazer aos capachos. Serviu-se deles e lava as mãos quanto ao resto. É bem feito.

A LEALDADE


Além de lorpa, a Assembleia da República está povoada por juristas que devem tirado o curso em fascículos da Farinha Amparo. E apenas acolhe uma imensa massa bovino-obediente que responde a impulsos que lhe chegam por telemóvel ou através de ordens perpetradas na secção do partido. Entristece-me, pois, ver pessoas minimamente qualificadas como António Filipe ou Paulo Rangel a fazerem a figura que têm vindo a fazer a propósito de uma lei ordinária inconstitucional. De Canas, do PS, nem vale a pena falar. Não se comenta a miserável "voz do dono". Dito isto, talvez Cavaco tenha finalmente percebido o tipo de gente com quem tem de conviver institucionalmente. Deu sinais disso. Do Bloco ao PP, passando pela pusilanimidade do seu antigo partido, todos se comportaram vergonhosamente na questão dos Açores. "Absurdos" é pouco. Daqui para diante Cavaco deve-lhes o mesmo respeito que eles manifestaram pelo Chefe de Estado. Ou seja, nenhum. A lealdade aprende-se com os cães e jamais com os homens, sobretudo com homens "feitos" nos vãos de escada dos partidos. Esses, como disse um dia Mitterrand de parecidos doutra profissão, são mais de atirar a honra aos cães como quem lhes atira um osso. Cavaco não precisa dissolver a inutilidade conhecida por "casa da democracia" por causa disto. Seria manifesto disparate. Não. Basta-lhe assistir à lenta dissolução deste simulacro de democracia entregue a uma mão cheia de idiotas úteis. A lealdade, a verdadeira, é fantasticamente cruel. E como outra coisa, deve servir-se gelada.

A LEALDADE


Além de lorpa, a Assembleia da República está povoada por juristas que devem tirado o curso em fascículos da Farinha Amparo. E apenas acolhe uma imensa massa bovino-obediente que responde a impulsos que lhe chegam por telemóvel ou através de ordens perpetradas na secção do partido. Entristece-me, pois, ver pessoas minimamente qualificadas como António Filipe ou Paulo Rangel a fazerem a figura que têm vindo a fazer a propósito de uma lei ordinária inconstitucional. De Canas, do PS, nem vale a pena falar. Não se comenta a miserável "voz do dono". Dito isto, talvez Cavaco tenha finalmente percebido o tipo de gente com quem tem de conviver institucionalmente. Deu sinais disso. Do Bloco ao PP, passando pela pusilanimidade do seu antigo partido, todos se comportaram vergonhosamente na questão dos Açores. "Absurdos" é pouco. Daqui para diante Cavaco deve-lhes o mesmo respeito que eles manifestaram pelo Chefe de Estado. Ou seja, nenhum. A lealdade aprende-se com os cães e jamais com os homens, sobretudo com homens "feitos" nos vãos de escada dos partidos. Esses, como disse um dia Mitterrand de parecidos doutra profissão, são mais de atirar a honra aos cães como quem lhes atira um osso. Cavaco não precisa dissolver a inutilidade conhecida por "casa da democracia" por causa disto. Seria manifesto disparate. Não. Basta-lhe assistir à lenta dissolução deste simulacro de democracia entregue a uma mão cheia de idiotas úteis. A lealdade, a verdadeira, é fantasticamente cruel. E como outra coisa, deve servir-se gelada.

TUDO BONS RAPAZES


«Para acontecerem os tumultos gregos, mais que descontentamento ocasional, são necessários dois elementos principais. O primeiro é uma desilusão profunda e recalcada, desconfiança latente e generalizada, raiva surda e intensa. Se ouvirmos as conversas de café e comentários de blogs parece que tal estado de espírito já domina em Portugal. Muito disso é a tradicional resmunguice nacional. Mas algo começa a despontar. O início foi o sonho guterrista de uma prosperidade sem custos. Lançou-se então o endividamento nacional e a bola de neve orçamental que já fez fugir dois primeiros-ministros, cair um terceiro e oprime o actual. Os protestos de professores e os medos dos jovens, bem como as esperanças de PCP e BE, clivagens no PS, crise do PSD e oportunismo do PP nascem daqui. Mas é crucial notar as diferenças entre a tempestade lusitana e o furacão helénico. Na Grécia a desilusão, desconfiança e raiva são muito mais antigas e profundas, num país muito mais difícil de governar. Teríamos de descer alguns degraus de decadência para chegar a esse estado, que atingimos em 1580, 1839, 1908 e 1925. O segundo elemento, indispensável para passar dos sentimentos e palavras aos actos, é uma liderança clara. O que começa espontaneamente só permanece se for planeado. Tal orientação, conseguida na Grécia pelo antigo e poderoso movimento anarquista, ainda falta por cá. Em Portugal até os extremistas são boas pessoas.»

João César das Neves, Diário de Notícias

TUDO BONS RAPAZES


«Para acontecerem os tumultos gregos, mais que descontentamento ocasional, são necessários dois elementos principais. O primeiro é uma desilusão profunda e recalcada, desconfiança latente e generalizada, raiva surda e intensa. Se ouvirmos as conversas de café e comentários de blogs parece que tal estado de espírito já domina em Portugal. Muito disso é a tradicional resmunguice nacional. Mas algo começa a despontar. O início foi o sonho guterrista de uma prosperidade sem custos. Lançou-se então o endividamento nacional e a bola de neve orçamental que já fez fugir dois primeiros-ministros, cair um terceiro e oprime o actual. Os protestos de professores e os medos dos jovens, bem como as esperanças de PCP e BE, clivagens no PS, crise do PSD e oportunismo do PP nascem daqui. Mas é crucial notar as diferenças entre a tempestade lusitana e o furacão helénico. Na Grécia a desilusão, desconfiança e raiva são muito mais antigas e profundas, num país muito mais difícil de governar. Teríamos de descer alguns degraus de decadência para chegar a esse estado, que atingimos em 1580, 1839, 1908 e 1925. O segundo elemento, indispensável para passar dos sentimentos e palavras aos actos, é uma liderança clara. O que começa espontaneamente só permanece se for planeado. Tal orientação, conseguida na Grécia pelo antigo e poderoso movimento anarquista, ainda falta por cá. Em Portugal até os extremistas são boas pessoas.»

João César das Neves, Diário de Notícias

28.12.08

O FUTURO VISTO A PARTIR DA TAILÂNDIA



Desta vez não concordo com o Miguel. Ou melhor, acompanho-o parcialmente no "balanço" mas, porque contraditório com ele, não o sigo na "previsão" nacional. "O ano foi devastador para a imagem do regime." Foi. "Nunca tantos, e de que maneira, disseram de forma tão desabrida que o regime, como está e como não tem servido Portugal, se possa aguentar por muito tempo sem uma reforma profunda?" É verdade. "Não fosse a Europa, já a tropa teria tomado de assalto o poder?" Impossível. Pela Europa e porque não há tropa, pelo menos tropa em regime de conscrição o que faz toda a diferença. "A corrupção, o divórcio absoluto entre o país real e o país político, o soçobrar das instituições que aquietam o povo, o eclipse da Presidência da República, a falência da Saúde, do Ensino, da Justiça e da autoridade das forças da ordem (...)." Tudo realidades. Só que contrastam com a imensa fantasia que tem sido alimentada nos últimos anos e que concorre com a mansidão do "povo" que jamais se "aquieta". Sucede que, nos últimos anos, essa fantasia (com uma ou outra nuance insignificante) tem um rosto perfeito. Justamente o rosto que o Miguel prevê "com fortaleza anímica capaz de se impor aos portugueses." Pior. O Miguel ainda pretende juntar a esta "fortaleza anímica" o pobre oportunista do dr. Portas que, de bom, só tem dois ou três parlamentares decentes. Conclui por um governo PS-PP lá para 2010. Vê-se mesmo que não pretende regressar tão cedo à Pátria. Não deseje, porém, tanto mal a quem de cá não pode sair.

Clip: Montserrat Caballé em Turandot, de Puccini. Seiji Ozawa dirige. Ópera de Paris.1981

O FUTURO VISTO A PARTIR DA TAILÂNDIA



Desta vez não concordo com o Miguel. Ou melhor, acompanho-o parcialmente no "balanço" mas, porque contraditório com ele, não o sigo na "previsão" nacional. "O ano foi devastador para a imagem do regime." Foi. "Nunca tantos, e de que maneira, disseram de forma tão desabrida que o regime, como está e como não tem servido Portugal, se possa aguentar por muito tempo sem uma reforma profunda?" É verdade. "Não fosse a Europa, já a tropa teria tomado de assalto o poder?" Impossível. Pela Europa e porque não há tropa, pelo menos tropa em regime de conscrição o que faz toda a diferença. "A corrupção, o divórcio absoluto entre o país real e o país político, o soçobrar das instituições que aquietam o povo, o eclipse da Presidência da República, a falência da Saúde, do Ensino, da Justiça e da autoridade das forças da ordem (...)." Tudo realidades. Só que contrastam com a imensa fantasia que tem sido alimentada nos últimos anos e que concorre com a mansidão do "povo" que jamais se "aquieta". Sucede que, nos últimos anos, essa fantasia (com uma ou outra nuance insignificante) tem um rosto perfeito. Justamente o rosto que o Miguel prevê "com fortaleza anímica capaz de se impor aos portugueses." Pior. O Miguel ainda pretende juntar a esta "fortaleza anímica" o pobre oportunista do dr. Portas que, de bom, só tem dois ou três parlamentares decentes. Conclui por um governo PS-PP lá para 2010. Vê-se mesmo que não pretende regressar tão cedo à Pátria. Não deseje, porém, tanto mal a quem de cá não pode sair.

Clip: Montserrat Caballé em Turandot, de Puccini. Seiji Ozawa dirige. Ópera de Paris.1981

HAROLD PINTER


Na morte de Harold Pinter (que li compulsivamente em livros requisitados à biblioteca do Instituto Britânico quando, entre o fim do liceu e a universidade, lá andei), o Augusto M. Seabra: «um mestre das palavras e dos silêncios, das situações tão rigorosamente prescritas nos seus textos, um dramaturgo da estatura de poucos.»

HAROLD PINTER


Na morte de Harold Pinter (que li compulsivamente em livros requisitados à biblioteca do Instituto Britânico quando, entre o fim do liceu e a universidade, lá andei), o Augusto M. Seabra: «um mestre das palavras e dos silêncios, das situações tão rigorosamente prescritas nos seus textos, um dramaturgo da estatura de poucos.»

QUE ELE PERCEBESSE

«Gostaria que alguém explicasse ao Primeiro-ministro, ou que ele percebesse por si mesmo, que o excesso de propaganda, de demagogia e de publicidade enganosa pode ter efeitos contraproducentes, parecidos com os verificados durante a revolução de 1975, que se traduzem no facto de os governantes acreditarem no que eles próprios mandam dizer. De caminho, poderia também compreender que a crispação autoritária não se pode confundir com determinação. Mudasse ele esses atributos, trouxesse ele à vida pública um novo estilo, mais adequado às dificuldades dos tempos, e até talvez voltasse a ganhar as eleições.»

António Barreto

QUE ELE PERCEBESSE

«Gostaria que alguém explicasse ao Primeiro-ministro, ou que ele percebesse por si mesmo, que o excesso de propaganda, de demagogia e de publicidade enganosa pode ter efeitos contraproducentes, parecidos com os verificados durante a revolução de 1975, que se traduzem no facto de os governantes acreditarem no que eles próprios mandam dizer. De caminho, poderia também compreender que a crispação autoritária não se pode confundir com determinação. Mudasse ele esses atributos, trouxesse ele à vida pública um novo estilo, mais adequado às dificuldades dos tempos, e até talvez voltasse a ganhar as eleições.»

António Barreto

BESTAS

Os "Hamas" são umas bestas. Os israelitas reagem aos "Hamas" como bestas alegadamente "superiores". Até quando vamos ter de andar de chapéu na mão (ou na cabeça) a pedir-lhes desculpa?

De um comentário: «(...) recordaria que o HAMAS foi criado com o apoio de Israel (sim, é verdade) para enfraquecer a liderança laica de Yasser Arafat e para dividir os palestinianos. Há em toda esta história muitas estórias mal contadas, que um dia se conhecerão, ou talvez não! Porventura o HAMAS não deveria disparar contra o território de Israel (apesar da população da Faixa de Gaza - milhão e meio de habitantes vivendo a maior parte em campos de refugiados há décadas - estar com certeza farta dos falhados processos de paz), mas a ofensiva israelita é no mínimo desproporcionada (para usar um termo jurídico elegante), embora na verdade constitua um crime de guerra nos termos da legislação internacional. As vítimas, são sempre os palestinianos, que continuam a pagar um preço elevado à conta do "holocausto" nazi. Termino perguntando o que tem feito um homem chamado Tony Blair, especialmente encarregado desta questão a nível internacional desde que deixou a chefia do governo britânico. Que é feito dessa sinistra personagem? Ainda é vivo? Ou anda a resolver outras questões na esteira de Lord Balfour?»

BESTAS

Os "Hamas" são umas bestas. Os israelitas reagem aos "Hamas" como bestas alegadamente "superiores". Até quando vamos ter de andar de chapéu na mão (ou na cabeça) a pedir-lhes desculpa?

De um comentário: «(...) recordaria que o HAMAS foi criado com o apoio de Israel (sim, é verdade) para enfraquecer a liderança laica de Yasser Arafat e para dividir os palestinianos. Há em toda esta história muitas estórias mal contadas, que um dia se conhecerão, ou talvez não! Porventura o HAMAS não deveria disparar contra o território de Israel (apesar da população da Faixa de Gaza - milhão e meio de habitantes vivendo a maior parte em campos de refugiados há décadas - estar com certeza farta dos falhados processos de paz), mas a ofensiva israelita é no mínimo desproporcionada (para usar um termo jurídico elegante), embora na verdade constitua um crime de guerra nos termos da legislação internacional. As vítimas, são sempre os palestinianos, que continuam a pagar um preço elevado à conta do "holocausto" nazi. Termino perguntando o que tem feito um homem chamado Tony Blair, especialmente encarregado desta questão a nível internacional desde que deixou a chefia do governo britânico. Que é feito dessa sinistra personagem? Ainda é vivo? Ou anda a resolver outras questões na esteira de Lord Balfour?»

MEMÓRIA DE SUSAN SONTAG


O Público recorda a morte, há quatro anos, de Susan Sontag. Lembro a sua intervenção numa conferência em Lisboa sobre a "Europa e a Cultura" do tempo em que a Gulbenkian era viva. Sontag era uma americana para quem a Europa - enquanto ideia e cultura - era indispensável. Não por acaso quis ser inumada no cemitério de Montparnasse. Seria, de acordo com os "critérios" em vigor, de esquerda. Não me interessa. Interessa-me compreendê-la com o mesmo entusiasmo que ela colocava em tudo a que se dedicou, de Nova Iorque a Sarajevo. As suas palavras não são propriamente de "esquerda" ou de "direita". São exactas como a vida jamais o poderá ser. Porque «a legitimidade e a necessidade de continuar a formular uma estética da resistência, resistência às barbaridades da nossa cultura, aos apocalípticos jogos de planificação dos nossos líderes e ao conformismo das nossas imaginações e das nossas vidas" não cessam. Porque é fundamental persistir no esforço de ser «contemporâneo consigo mesmo, na nossa vida, prestando toda a atenção ao mundo, contra a ideia solipsista de que está tudo na nossa cabeça», com a certeza de que «toda a verdade é superficial» e que «algumas (mas não todas) as distorções da verdade, (mas não todas) as loucuras, algumas (mas não todas) as negações da vida, são fontes de verdade, produzem sanidade mental, criam saúde e tornam melhor a vida.»

MEMÓRIA DE SUSAN SONTAG


O Público recorda a morte, há quatro anos, de Susan Sontag. Lembro a sua intervenção numa conferência em Lisboa sobre a "Europa e a Cultura" do tempo em que a Gulbenkian era viva. Sontag era uma americana para quem a Europa - enquanto ideia e cultura - era indispensável. Não por acaso quis ser inumada no cemitério de Montparnasse. Seria, de acordo com os "critérios" em vigor, de esquerda. Não me interessa. Interessa-me compreendê-la com o mesmo entusiasmo que ela colocava em tudo a que se dedicou, de Nova Iorque a Sarajevo. As suas palavras não são propriamente de "esquerda" ou de "direita". São exactas como a vida jamais o poderá ser. Porque «a legitimidade e a necessidade de continuar a formular uma estética da resistência, resistência às barbaridades da nossa cultura, aos apocalípticos jogos de planificação dos nossos líderes e ao conformismo das nossas imaginações e das nossas vidas" não cessam. Porque é fundamental persistir no esforço de ser «contemporâneo consigo mesmo, na nossa vida, prestando toda a atenção ao mundo, contra a ideia solipsista de que está tudo na nossa cabeça», com a certeza de que «toda a verdade é superficial» e que «algumas (mas não todas) as distorções da verdade, (mas não todas) as loucuras, algumas (mas não todas) as negações da vida, são fontes de verdade, produzem sanidade mental, criam saúde e tornam melhor a vida.»

27.12.08

BLOGOFILIA/BLOGOFOBIA


Salazar ainda une. Um "socrático" e um "anti-socrático". E por razões opostas. Uma "socrática". A outra "anti-socrática". Salazar é apenas um pretexto para a "blogofilia/blogofobia" de ambos.

BLOGOFILIA/BLOGOFOBIA


Salazar ainda une. Um "socrático" e um "anti-socrático". E por razões opostas. Uma "socrática". A outra "anti-socrática". Salazar é apenas um pretexto para a "blogofilia/blogofobia" de ambos.

O EXEMPLO E O PRECEITO

Pressenti nalguns jornais (nas televisões, então, nem se fala) alguma (muita) tolerância em relação ao episódio da escola do Cerco, no Porto. No fundo, a magnífica miudagem estava apenas a antecipar o carnaval, por causa da pistola de plástico, e a turma até é, afinal, "exemplar". Ninguém parece preocupado em perceber o que antecede o acto. O que interessa é desculpabilizar e meter tudo no caldeirão da pedagogia "democrática". Acredito que haja professores que se colocam a jeito. E que até os mais inofensivos meninos têm "direito" a recreios deste género. São corolários da retórica de que "não há rapazes maus" e de que toda a gente deve conviver em paz com a inelutável "evidência". Dito de outra forma, maus mesmo são os telemóveis que "filmam". Se os proibirem nas aulas, acabam magicamente os "problemas". O que não se vê, não existe. É esta a "tese" da "escola democrática", "inclusiva". A do regime. Sou, desgraçadamente, de outra época. Daquela que Isaiah Berlin descreve como do "exemplo", e não do "preceito", "através da descoberta ou preparação de professores que tenham conhecimentos, imaginação e talento bastantes para fazer com que os estudantes vejam aquilo que eles próprios vêem, experiência que, como sabe qualquer pessoa que tenha tido um bom professor seja de que disciplina for, é sempre fascinante, e poderá ser transformadora." Como é que se mete ideias destas em cabeças e rostos improváveis como os dos representantes das associações de pais, em professores complacentes ou em meninos sem - literalmente - educação? E em locais a que, sem sorrisos, apelidam de escolas?

O EXEMPLO E O PRECEITO

Pressenti nalguns jornais (nas televisões, então, nem se fala) alguma (muita) tolerância em relação ao episódio da escola do Cerco, no Porto. No fundo, a magnífica miudagem estava apenas a antecipar o carnaval, por causa da pistola de plástico, e a turma até é, afinal, "exemplar". Ninguém parece preocupado em perceber o que antecede o acto. O que interessa é desculpabilizar e meter tudo no caldeirão da pedagogia "democrática". Acredito que haja professores que se colocam a jeito. E que até os mais inofensivos meninos têm "direito" a recreios deste género. São corolários da retórica de que "não há rapazes maus" e de que toda a gente deve conviver em paz com a inelutável "evidência". Dito de outra forma, maus mesmo são os telemóveis que "filmam". Se os proibirem nas aulas, acabam magicamente os "problemas". O que não se vê, não existe. É esta a "tese" da "escola democrática", "inclusiva". A do regime. Sou, desgraçadamente, de outra época. Daquela que Isaiah Berlin descreve como do "exemplo", e não do "preceito", "através da descoberta ou preparação de professores que tenham conhecimentos, imaginação e talento bastantes para fazer com que os estudantes vejam aquilo que eles próprios vêem, experiência que, como sabe qualquer pessoa que tenha tido um bom professor seja de que disciplina for, é sempre fascinante, e poderá ser transformadora." Como é que se mete ideias destas em cabeças e rostos improváveis como os dos representantes das associações de pais, em professores complacentes ou em meninos sem - literalmente - educação? E em locais a que, sem sorrisos, apelidam de escolas?

REALISTA

Conforme se disse aqui, o OE (Orçamento de Estado) estaria fatalmente desactualizado quando entrasse em vigor para a semana. O Presidente da República, pelos vistos, também pensa assim. Como chefe do governo, ainda por cima economista e ex-ministro das finanças, preparou mais de uma dezena de OE's. Por isso, nem sequer precisa fazer demagogia com o assunto. Basta-lhe ser realista e obrigar o governo a sê-lo.

REALISTA

Conforme se disse aqui, o OE (Orçamento de Estado) estaria fatalmente desactualizado quando entrasse em vigor para a semana. O Presidente da República, pelos vistos, também pensa assim. Como chefe do governo, ainda por cima economista e ex-ministro das finanças, preparou mais de uma dezena de OE's. Por isso, nem sequer precisa fazer demagogia com o assunto. Basta-lhe ser realista e obrigar o governo a sê-lo.

O SURTO


As "urgências" dos hospitais são o que são. Todavia, dois espirros chegam para as entupir. Daí a um "surto" virtual de gripe vai apenas um centímetro alimentado pelas televisões. Mais vale reenviar estes mitómanos ao velhinho Júlio de Matos.

O SURTO


As "urgências" dos hospitais são o que são. Todavia, dois espirros chegam para as entupir. Daí a um "surto" virtual de gripe vai apenas um centímetro alimentado pelas televisões. Mais vale reenviar estes mitómanos ao velhinho Júlio de Matos.

26.12.08

NÃO FUGIR À LUTA

«O cristianismo já foi acusado de morbidamente triste, avesso à felicidade e ao prazer de viver, e também de ópio das massas, cobrindo a realidade com o véu de uma fantasia conformista, que as impedia de ver a verdade. Ao pregar o perdão, dizem, é filosofia da tibieza; ao reafirmar a autoridade divina, acusam, é autoritário. Pouco afeito à subversão da autoridade humana, apontam seu servilismo; ao acenar com o reino de Deus, sua ambição desmedida. Em meio a tantos opostos, subsiste como uma promessa, mas também como disciplina vivida, que não foge à luta.»

Reinaldo Azevedo

NÃO FUGIR À LUTA

«O cristianismo já foi acusado de morbidamente triste, avesso à felicidade e ao prazer de viver, e também de ópio das massas, cobrindo a realidade com o véu de uma fantasia conformista, que as impedia de ver a verdade. Ao pregar o perdão, dizem, é filosofia da tibieza; ao reafirmar a autoridade divina, acusam, é autoritário. Pouco afeito à subversão da autoridade humana, apontam seu servilismo; ao acenar com o reino de Deus, sua ambição desmedida. Em meio a tantos opostos, subsiste como uma promessa, mas também como disciplina vivida, que não foge à luta.»

Reinaldo Azevedo

EM CASA

O PGR mandou instaurar um inquérito por causa de mais um acto de bandalheira escolar, desta vez com uma "arma" de plástico apontada a uma professora de psicologia de um liceu do Porto. A edificante cena foi filmada e houve quem se mostrasse mais indignado pelo filme do que pelo gesto. A dra. DREN, Margarida Moreira, disse que foi uma "brincadeira de mau-gosto" e desvalorizou o gesto, entregando-o à burocracia do inquérito escolar. Andou bem o dr. Pinto Monteiro. Há gente que não tem lugar nas escolas pagas pelos nossos impostos. Quando muito, (e nós também pagamos para isso) coloquem-nos em "centros educativos" do ministério da justiça. E "reeduquem-se" alguns progenitores, tão ou mais burgessos do que as crias. Como aquele de uma associação qualquer de pais nortenhos que não gostou de ver os "meninos" exibidos na televisão e, ainda menos, da reacção dos professores. O mal, pelos vistos, começa em casa.

EM CASA

O PGR mandou instaurar um inquérito por causa de mais um acto de bandalheira escolar, desta vez com uma "arma" de plástico apontada a uma professora de psicologia de um liceu do Porto. A edificante cena foi filmada e houve quem se mostrasse mais indignado pelo filme do que pelo gesto. A dra. DREN, Margarida Moreira, disse que foi uma "brincadeira de mau-gosto" e desvalorizou o gesto, entregando-o à burocracia do inquérito escolar. Andou bem o dr. Pinto Monteiro. Há gente que não tem lugar nas escolas pagas pelos nossos impostos. Quando muito, (e nós também pagamos para isso) coloquem-nos em "centros educativos" do ministério da justiça. E "reeduquem-se" alguns progenitores, tão ou mais burgessos do que as crias. Como aquele de uma associação qualquer de pais nortenhos que não gostou de ver os "meninos" exibidos na televisão e, ainda menos, da reacção dos professores. O mal, pelos vistos, começa em casa.

TUDO ENCALHA


TUDO ENCALHA


QUEM O AVISA

Até o cristão-novo do "socratismo" José Miguel Júdice deu mostras de um resquício de lucidez. «2009 será um dos piores anos da história económica de Portugal e o pior desde a implantação da democracia», escreve ele no Público. Faça uma ficha com isso e aproveite para a dar ao admirável Sócrates enquanto ele está de pé.

QUEM O AVISA

Até o cristão-novo do "socratismo" José Miguel Júdice deu mostras de um resquício de lucidez. «2009 será um dos piores anos da história económica de Portugal e o pior desde a implantação da democracia», escreve ele no Público. Faça uma ficha com isso e aproveite para a dar ao admirável Sócrates enquanto ele está de pé.

25.12.08

O ELIXIR DA DETERMINAÇÃO



De pé, como a árvore de natal atrás dele, Sócrates veio falar de "esperança", de "confiança" e, claro, do abono de família. Cauteloso como não foi há um ano - vinha aí um 2008 "ainda melhor" do que 2007 - o admirável 1º ministro tem andado a cumprir um "programa" que não estava previsto no teleponto. O não estar sentado faz parte da encenação geral que se apelida governar Portugal. Sócrates é o homem que não dá descanso a si próprio e que interrompe por breves instantes a sua labuta para nos cumprimentar rapidamente. No que depende dele, a imaginação já não abunda. No que não depende - quase tudo - limita-se a navegar à vista. É impossível (e seria politicamente desonesto) fazer quaisquer "promessas" depois do fracasso do ano que termina. Mesmo assim, não resistiu a falar em "determinação no apoio à economia", em "determinação na defesa e na promoção do emprego" e em "determinação, sobretudo, na protecção das famílias, especialmente às famílias de menores rendimentos, protegendo-as das dificuldades que sentem e ajudando-as nas suas despesas principais." Precisamente tudo o que falhou apesar da mesma "determinação" de há um ano. Qual é o segredo para tanta "determinação"? Um elixir?

Clip: Giuseppe Taddei canta a ária do "Dr." Dulcamara do Elixir de Amor, de Donizetti.

O ELIXIR DA DETERMINAÇÃO



De pé, como a árvore de natal atrás dele, Sócrates veio falar de "esperança", de "confiança" e, claro, do abono de família. Cauteloso como não foi há um ano - vinha aí um 2008 "ainda melhor" do que 2007 - o admirável 1º ministro tem andado a cumprir um "programa" que não estava previsto no teleponto. O não estar sentado faz parte da encenação geral que se apelida governar Portugal. Sócrates é o homem que não dá descanso a si próprio e que interrompe por breves instantes a sua labuta para nos cumprimentar rapidamente. No que depende dele, a imaginação já não abunda. No que não depende - quase tudo - limita-se a navegar à vista. É impossível (e seria politicamente desonesto) fazer quaisquer "promessas" depois do fracasso do ano que termina. Mesmo assim, não resistiu a falar em "determinação no apoio à economia", em "determinação na defesa e na promoção do emprego" e em "determinação, sobretudo, na protecção das famílias, especialmente às famílias de menores rendimentos, protegendo-as das dificuldades que sentem e ajudando-as nas suas despesas principais." Precisamente tudo o que falhou apesar da mesma "determinação" de há um ano. Qual é o segredo para tanta "determinação"? Um elixir?

Clip: Giuseppe Taddei canta a ária do "Dr." Dulcamara do Elixir de Amor, de Donizetti.

MONOMANIA

Já da outra vez ninguém se "revia" na candidatura dele a Lisboa. E ele ganhou.

MONOMANIA

Já da outra vez ninguém se "revia" na candidatura dele a Lisboa. E ele ganhou.

O SÍMBOLO


A foto é de há minutos atrás. Uma bandeira nacional, enquanto farrapo, atirada à relva das traseiras de uns prédios de Lisboa. Costumava ser um "símbolo" da nação. Continua, pelos vistos, a representar fidedignamente o seu "estado".

O SÍMBOLO


A foto é de há minutos atrás. Uma bandeira nacional, enquanto farrapo, atirada à relva das traseiras de uns prédios de Lisboa. Costumava ser um "símbolo" da nação. Continua, pelos vistos, a representar fidedignamente o seu "estado".

24.12.08

UM ARISTOCRATA

Um investidor francês, de origem aristocrática, reagiu como um aristocrata quando perdeu todo o seu fundo (e a cara perante os seus clientes) por causa do sr. Madoff. Matou-se.

UM ARISTOCRATA

Um investidor francês, de origem aristocrática, reagiu como um aristocrata quando perdeu todo o seu fundo (e a cara perante os seus clientes) por causa do sr. Madoff. Matou-se.

O HOMEM "MODERNO"

«A nossa moral é a do catavento.»

Rui Ramos, Público

O HOMEM "MODERNO"

«A nossa moral é a do catavento.»

Rui Ramos, Público

IR AO FUNDO DAS COISAS


«A fé é, antes de tudo o mais, Jesus Cristo nascido na palha de uma pobre gruta. Não pode, por isso, deixar de ser a inspiradora de um radicalismo evangélico que obriga o homem a ir ao fundo das coisas e a não se resignar perante as injustiças, por mais que a mansidão lhe tenha sido ensinada.»

Victor Cunha Rego

«Estamos divididos entre dois mundos, um, aquele de que emergimos, e o outro, aquele em direcção ao qual caminhamos. Este é o sentido mais profundo da palavra "humano": somos um elo, uma ponte, uma promessa. É em nós que o processo da vida está a ser levado a efeito. Temos uma tremenda responsabilidade, e é a gravidade disso que desperta o nosso medo. Sabemos que se não formos em frente, se não realizarmos o nosso ser potencial, recairemos, nos apagaremos, e arrastaremos o mundo connosco na queda. Levamos o Céu e o Inferno dentro de nós e toda a Criação está ao nosso alcance. Para alguns são perspectivas aterrorizantes. Mas desejariamos que fosse diferente? Seriamos capazes de inventar um drama melhor? (...) Se fores capaz de ser um verme, serás também capaz de ser um deus.»

Henry Miller


É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora


Mário Cesariny

IR AO FUNDO DAS COISAS


«A fé é, antes de tudo o mais, Jesus Cristo nascido na palha de uma pobre gruta. Não pode, por isso, deixar de ser a inspiradora de um radicalismo evangélico que obriga o homem a ir ao fundo das coisas e a não se resignar perante as injustiças, por mais que a mansidão lhe tenha sido ensinada.»

Victor Cunha Rego

«Estamos divididos entre dois mundos, um, aquele de que emergimos, e o outro, aquele em direcção ao qual caminhamos. Este é o sentido mais profundo da palavra "humano": somos um elo, uma ponte, uma promessa. É em nós que o processo da vida está a ser levado a efeito. Temos uma tremenda responsabilidade, e é a gravidade disso que desperta o nosso medo. Sabemos que se não formos em frente, se não realizarmos o nosso ser potencial, recairemos, nos apagaremos, e arrastaremos o mundo connosco na queda. Levamos o Céu e o Inferno dentro de nós e toda a Criação está ao nosso alcance. Para alguns são perspectivas aterrorizantes. Mas desejariamos que fosse diferente? Seriamos capazes de inventar um drama melhor? (...) Se fores capaz de ser um verme, serás também capaz de ser um deus.»

Henry Miller


É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora


Mário Cesariny

23.12.08

BERGANZA





Teresa Berganza: Manuel de Falla, Siete Canciones Populares Españolas. 1990

BERGANZA





Teresa Berganza: Manuel de Falla, Siete Canciones Populares Españolas. 1990

UM REVÉS

O "Código do Trabalho", uma das obras-primas do governo e da obediente maioria que o apoia, foi competentemente chumbado no Tribunal Constitucional. O Tribunal deu assim razão ao PR em relação à inconstitucionalidade de uma das suas normas. Deve haver mais. Por consequência, o texto já não entra em vigor dia 1 de Janeiro. Em compensação, toda a legislação laboral da função pública entra. Ninguém tugiu nem mugiu. É bem feito.

Adenda: O PSD, pelo menos naquela parte que parece que manda, deu em tomar "posições" estilo "meia-haste". Depois do estatuto do sr. César, Rangel veio "explicar" que, apesar do PSD concordar com parte do Código, há outra parte com que não concorda pelo que concorda com o "chumbo" do TC. O dr. Rangel corre a passos largos para ser chumbado.

UM REVÉS

O "Código do Trabalho", uma das obras-primas do governo e da obediente maioria que o apoia, foi competentemente chumbado no Tribunal Constitucional. O Tribunal deu assim razão ao PR em relação à inconstitucionalidade de uma das suas normas. Deve haver mais. Por consequência, o texto já não entra em vigor dia 1 de Janeiro. Em compensação, toda a legislação laboral da função pública entra. Ninguém tugiu nem mugiu. É bem feito.

Adenda: O PSD, pelo menos naquela parte que parece que manda, deu em tomar "posições" estilo "meia-haste". Depois do estatuto do sr. César, Rangel veio "explicar" que, apesar do PSD concordar com parte do Código, há outra parte com que não concorda pelo que concorda com o "chumbo" do TC. O dr. Rangel corre a passos largos para ser chumbado.

O PAÍS...

De eventos. Pobre país de Macbeths de trazer por casa.« Life's but a walking shadow, a poor player,/That struts and frets his hour upon the stage,/And then is heard no more; it is a tale/Told by an idiot, full of sound and fury,/Signifying nothing.»

O PAÍS...

De eventos. Pobre país de Macbeths de trazer por casa.« Life's but a walking shadow, a poor player,/That struts and frets his hour upon the stage,/And then is heard no more; it is a tale/Told by an idiot, full of sound and fury,/Signifying nothing.»

LER LIVROS


Também tenho uma "prenda" para os meus leitores. Li muita coisa ao longo do ano. De portugueses, suponho que não li nada. De outros, parece-me dispensável o derradeiro Roth, Indignation. Prefiro as imediatas prosas anteriores sobre o envelhecimento e a morte. Li e reli muito Sloterdijk. Nunca o largo, aliás. "Um homem muito procurado", de John Le Carré, "recupera" um bom escritor de um relativamente aborrecido "O canto da missão". Por isso "ofereço" uma recomendação do ano passado e que me parece insubstituível. Há meses, para a Ler, o F.J. Viegas pediu-me para "explicar", em poucas linhas, "por que é que se devia ler As Benevolentes". Apesar da pretensão (é-me indiferente que leiam ou deixem de ler), alinhavei a pequena prosa que se segue a qual, pela primeira vez, "sai" na íntegra. A que foi editada na revista é diferente desta. Nunca me dei ao trabalho de perguntar porquê. Não me interessa. Mas imagino.

JONATHAN LITTELL, O NOVO MESTRE DA SUSPEITA

Correm os derradeiros anos da segunda guerra mundial. O narrador, ex-nazi convicto, olha agora para esse tempo com a melancolia da indiferença, sem remorsos nem pesos na consciência. É um ironista que reflecte sobre os escombros sem um vislumbre de arrependimento. O que foi, foi o que foi porque teve de ser assim, como se um determinismo amoral tivesse arrastado milhares de homens inteligentes para um abismo no qual, sem excessiva repugnância, experimentaram os cheiros e as cores da mais repugnante das mortes. As “memórias” de um antigo oficial nazi são o pretexto para Jonathan Littell “reconstruir” os derradeiros passos do regime de Hitler - para o Leste onde se atafulhou e perdeu –, recortando, vistos a partir do lado “deles” (até agora só tínhamos tido direito às versões romanceadas “correctas” da história, a dos vencedores), os perfis de homens do regime tal como eles existiram ou como o autor os ficcionou. “As Benevolentes” também é um imenso livro de história onde se surpreende a esquizofrénica burocracia do III Reich, algo a que Fest apelidou de improvisação organizada, já a caminho do seu fulgurante crepúsculo. No texto de Littell revela-se como o bem e o mal se misturam nas peripécias de uma vida pessoal e de uma narrativa colectiva sem que isso lhe confira um estatuto de fatalidade dentro da fatalidade que efectivamente foi. Revela-se como a ficção da realidade - a realidade e a ficção que coincidiam no III Reich -
pode ser “ultrapassada” através de um passeio numa paisagem paradisíaca que deixou para trás o cheiro fétido de cadáveres ou o estampido de uma arma disparada contra a nuca anónima. Revela-se como Bach ou Monteverdi sublimavam a violência interior que massacra o adversário indefeso com uma tranquilidade que, devendo assustar o leitor, apenas o sossega umas quantas páginas mais adiante. Littell entendeu bem o que Arendt quis significar com a expressão “banalidade do mal” a propósito do julgamento de Eichmann em Jerusalém. A leitura mais simplista exclamaria: “lê-se e não se acredita”. Ora a “tese” de “As Benevolentes” é justamente a contrária. Lê-se e acredita-se e eu, narrador, acreditava especialmente. Por que é que “As Benevolentes” arrisca ser simultaneamente um dos grandes momentos da literatura contemporânea e uma tragédia clássica? Julgo que, enterrado o fantasma do “novo romance” e, sobretudo, quando se enchem escaparates com novos “romancistas”que nos vêm contar histórias de embalar que, de tão medíocres, acabam por ser pornográficas, Littell – provavelmente impossibilitado de escrever o que quer que seja depois deste “fresco “ monumental - emerge como o novo “mestre da suspeita”. O respeitável oficial das SS que nos explica a sua vida e a tenta perceber, anos volvidos sobre a catástrofe, é, no desalinho dessa “história” cruel, revista, corrigida e aumentada, o Deus sem fé que se esconde no coração do homem vazio de hoje. Crê-se, afinal, um justo nos antípodas da personagem da peça de Camus. Quem, de entre nós, poderá atirar a primeira pedra?

LER LIVROS


Também tenho uma "prenda" para os meus leitores. Li muita coisa ao longo do ano. De portugueses, suponho que não li nada. De outros, parece-me dispensável o derradeiro Roth, Indignation. Prefiro as imediatas prosas anteriores sobre o envelhecimento e a morte. Li e reli muito Sloterdijk. Nunca o largo, aliás. "Um homem muito procurado", de John Le Carré, "recupera" um bom escritor de um relativamente aborrecido "O canto da missão". Por isso "ofereço" uma recomendação do ano passado e que me parece insubstituível. Há meses, para a Ler, o F.J. Viegas pediu-me para "explicar", em poucas linhas, "por que é que se devia ler As Benevolentes". Apesar da pretensão (é-me indiferente que leiam ou deixem de ler), alinhavei a pequena prosa que se segue a qual, pela primeira vez, "sai" na íntegra. A que foi editada na revista é diferente desta. Nunca me dei ao trabalho de perguntar porquê. Não me interessa. Mas imagino.

JONATHAN LITTELL, O NOVO MESTRE DA SUSPEITA

Correm os derradeiros anos da segunda guerra mundial. O narrador, ex-nazi convicto, olha agora para esse tempo com a melancolia da indiferença, sem remorsos nem pesos na consciência. É um ironista que reflecte sobre os escombros sem um vislumbre de arrependimento. O que foi, foi o que foi porque teve de ser assim, como se um determinismo amoral tivesse arrastado milhares de homens inteligentes para um abismo no qual, sem excessiva repugnância, experimentaram os cheiros e as cores da mais repugnante das mortes. As “memórias” de um antigo oficial nazi são o pretexto para Jonathan Littell “reconstruir” os derradeiros passos do regime de Hitler - para o Leste onde se atafulhou e perdeu –, recortando, vistos a partir do lado “deles” (até agora só tínhamos tido direito às versões romanceadas “correctas” da história, a dos vencedores), os perfis de homens do regime tal como eles existiram ou como o autor os ficcionou. “As Benevolentes” também é um imenso livro de história onde se surpreende a esquizofrénica burocracia do III Reich, algo a que Fest apelidou de improvisação organizada, já a caminho do seu fulgurante crepúsculo. No texto de Littell revela-se como o bem e o mal se misturam nas peripécias de uma vida pessoal e de uma narrativa colectiva sem que isso lhe confira um estatuto de fatalidade dentro da fatalidade que efectivamente foi. Revela-se como a ficção da realidade - a realidade e a ficção que coincidiam no III Reich -
pode ser “ultrapassada” através de um passeio numa paisagem paradisíaca que deixou para trás o cheiro fétido de cadáveres ou o estampido de uma arma disparada contra a nuca anónima. Revela-se como Bach ou Monteverdi sublimavam a violência interior que massacra o adversário indefeso com uma tranquilidade que, devendo assustar o leitor, apenas o sossega umas quantas páginas mais adiante. Littell entendeu bem o que Arendt quis significar com a expressão “banalidade do mal” a propósito do julgamento de Eichmann em Jerusalém. A leitura mais simplista exclamaria: “lê-se e não se acredita”. Ora a “tese” de “As Benevolentes” é justamente a contrária. Lê-se e acredita-se e eu, narrador, acreditava especialmente. Por que é que “As Benevolentes” arrisca ser simultaneamente um dos grandes momentos da literatura contemporânea e uma tragédia clássica? Julgo que, enterrado o fantasma do “novo romance” e, sobretudo, quando se enchem escaparates com novos “romancistas”que nos vêm contar histórias de embalar que, de tão medíocres, acabam por ser pornográficas, Littell – provavelmente impossibilitado de escrever o que quer que seja depois deste “fresco “ monumental - emerge como o novo “mestre da suspeita”. O respeitável oficial das SS que nos explica a sua vida e a tenta perceber, anos volvidos sobre a catástrofe, é, no desalinho dessa “história” cruel, revista, corrigida e aumentada, o Deus sem fé que se esconde no coração do homem vazio de hoje. Crê-se, afinal, um justo nos antípodas da personagem da peça de Camus. Quem, de entre nós, poderá atirar a primeira pedra?

UM CRESCENTE JURO DE MONSTRUOSIDADE


O Miguel "deu-me" como prenda um "livro" e uma bela epígrafe: "de baioneta em riste na terra de ninguém esventrada pela estupidez dos homens. Que nunca lhe esmoreça a atenção de sentinela." Retribuo com Jorge de Sena nestes dias cínicos em que tendemos a esquecer o que é o homem e, como dizia Michaux, caímos na tentação de lhe querer bem.

«O mal não se perpetua senão no pretender-se que não existe, ou que, excessivo para a nossa delicadeza, há que deixá-lo num discreto limbo. É no silêncio e no calculado esquecimento dos delicados que o mal se apura e afina - tanto assim é, que é tradicional o amor das tiranias pelo silêncio, e que as Inquisições sempre só trouxeram à luz do dia as suas vítimas, para assassiná-las exemplarmente. Por outro lado, o que às vezes parece amor do mal é uma infinita piedade de que os "bondosos" e os "puros" se cortaram: uma compreensão e um apelo em favor de que o amor do "bem" não alimente nem justifique a monstruosidade do mal, tanto mais monstruoso quanto mais, psico-socialmente, a idealização desse "bem" o confinou a ser. [A vida] só é monstruosa, não porque algo o seja, e sim porque o repouso egoísta, a ignorância, a falsa inocência, são sempre feitas de um crescente juro de monstruosidade. Nenhum realismo o será, se recuar aflito, mas porque, aflito, não recua.»

UM CRESCENTE JURO DE MONSTRUOSIDADE


O Miguel "deu-me" como prenda um "livro" e uma bela epígrafe: "de baioneta em riste na terra de ninguém esventrada pela estupidez dos homens. Que nunca lhe esmoreça a atenção de sentinela." Retribuo com Jorge de Sena nestes dias cínicos em que tendemos a esquecer o que é o homem e, como dizia Michaux, caímos na tentação de lhe querer bem.

«O mal não se perpetua senão no pretender-se que não existe, ou que, excessivo para a nossa delicadeza, há que deixá-lo num discreto limbo. É no silêncio e no calculado esquecimento dos delicados que o mal se apura e afina - tanto assim é, que é tradicional o amor das tiranias pelo silêncio, e que as Inquisições sempre só trouxeram à luz do dia as suas vítimas, para assassiná-las exemplarmente. Por outro lado, o que às vezes parece amor do mal é uma infinita piedade de que os "bondosos" e os "puros" se cortaram: uma compreensão e um apelo em favor de que o amor do "bem" não alimente nem justifique a monstruosidade do mal, tanto mais monstruoso quanto mais, psico-socialmente, a idealização desse "bem" o confinou a ser. [A vida] só é monstruosa, não porque algo o seja, e sim porque o repouso egoísta, a ignorância, a falsa inocência, são sempre feitas de um crescente juro de monstruosidade. Nenhum realismo o será, se recuar aflito, mas porque, aflito, não recua.»

MOVIMENTOS

Serão assinaturas para a "coisa-movimento" de Manuel Alegre "ir a votos"?

MOVIMENTOS

Serão assinaturas para a "coisa-movimento" de Manuel Alegre "ir a votos"?

22.12.08

O PAPA E O "GENDER"


Bento XVI, na mensagem de Natal à Cúria de Roma, disse isto: «La fede nel Creatore è una parte essenziale del Credo cristiano, la Chiesa non può e non deve limitarsi a trasmettere ai suoi fedeli soltanto il messaggio della salvezza. Essa ha una responsabilità per il creato e deve far valere questa responsabilità anche in pubblico. E facendolo deve difendere non solo la terra, l’acqua e l’aria come doni della creazione appartenenti a tutti. Deve proteggere anche l’uomo contro la distruzione di se stesso. È necessario che ci sia qualcosa come una ecologia dell’uomo, intesa nel senso giusto. Non è una metafisica superata, se la Chiesa parla della natura dell’essere umano come uomo e donna e chiede che quest’ordine della creazione venga rispettato. Qui si tratta di fatto della fede nel Creatore e dell’ascolto del linguaggio della creazione, il cui disprezzo sarebbe un’autodistruzione dell’uomo e quindi una distruzione dell’opera stessa di Dio. Ciò che spesso viene espresso ed inteso con il termine “gender”, si risolve in definitiva nella autoemancipazione dell’uomo dal creato e dal Creatore. L’uomo vuole farsi da solo e disporre sempre ed esclusivamente da solo ciò che lo riguarda. Ma in questo modo vive contro la verità, vive contro lo Spirito creatore. Le foreste tropicali meritano, sì, la nostra protezione, ma non la merita meno l’uomo come creatura, nella quale è iscritto un messaggio che non significa contraddizione della nostra libertà, ma la sua condizione.» Todavia, as "agências" transmitiram que o Papa "comparou a heterossexualidade à protecção das florestas tropicais" e teria afirmado "que salvar a humanidade de comportamentos homossexuais ou transexuais é tão importante como salvar as florestas tropicais da destruição". Mesmo que não saibam italiano, tentem "ver as diferenças". Sobretudo na parte sublinhada. O Papa não acrescentou nenhuma "novidade" àquilo que é a posição da Igreja sobre estas matérias. A Igreja não tem de ser "correcta" e seguir os "tempos". A inversa também é verdadeira. Ratzinger não "obriga" ninguém a ser católico. O Papa fala para os católicos apostólicos romanos e não para os bites. Aliás, se não houvesse pecadores a Igreja seria esdrúxula. Não é por acaso que, na missa, se pede ao Senhor que não olhe aos nossos pecados mas sim à fé da Igreja. Ao Papa não compete fazer proselitismo, gender ou outro qualquer. Foi só isso que ele quis significar.

O PAPA E O "GENDER"


Bento XVI, na mensagem de Natal à Cúria de Roma, disse isto: «La fede nel Creatore è una parte essenziale del Credo cristiano, la Chiesa non può e non deve limitarsi a trasmettere ai suoi fedeli soltanto il messaggio della salvezza. Essa ha una responsabilità per il creato e deve far valere questa responsabilità anche in pubblico. E facendolo deve difendere non solo la terra, l’acqua e l’aria come doni della creazione appartenenti a tutti. Deve proteggere anche l’uomo contro la distruzione di se stesso. È necessario che ci sia qualcosa come una ecologia dell’uomo, intesa nel senso giusto. Non è una metafisica superata, se la Chiesa parla della natura dell’essere umano come uomo e donna e chiede che quest’ordine della creazione venga rispettato. Qui si tratta di fatto della fede nel Creatore e dell’ascolto del linguaggio della creazione, il cui disprezzo sarebbe un’autodistruzione dell’uomo e quindi una distruzione dell’opera stessa di Dio. Ciò che spesso viene espresso ed inteso con il termine “gender”, si risolve in definitiva nella autoemancipazione dell’uomo dal creato e dal Creatore. L’uomo vuole farsi da solo e disporre sempre ed esclusivamente da solo ciò che lo riguarda. Ma in questo modo vive contro la verità, vive contro lo Spirito creatore. Le foreste tropicali meritano, sì, la nostra protezione, ma non la merita meno l’uomo come creatura, nella quale è iscritto un messaggio che non significa contraddizione della nostra libertà, ma la sua condizione.» Todavia, as "agências" transmitiram que o Papa "comparou a heterossexualidade à protecção das florestas tropicais" e teria afirmado "que salvar a humanidade de comportamentos homossexuais ou transexuais é tão importante como salvar as florestas tropicais da destruição". Mesmo que não saibam italiano, tentem "ver as diferenças". Sobretudo na parte sublinhada. O Papa não acrescentou nenhuma "novidade" àquilo que é a posição da Igreja sobre estas matérias. A Igreja não tem de ser "correcta" e seguir os "tempos". A inversa também é verdadeira. Ratzinger não "obriga" ninguém a ser católico. O Papa fala para os católicos apostólicos romanos e não para os bites. Aliás, se não houvesse pecadores a Igreja seria esdrúxula. Não é por acaso que, na missa, se pede ao Senhor que não olhe aos nossos pecados mas sim à fé da Igreja. Ao Papa não compete fazer proselitismo, gender ou outro qualquer. Foi só isso que ele quis significar.