O PS, a braços com algum desvario doméstico por causa das presidenciais, decidiu, através da "concelhia" de Lisboa, retirar a confiança política a Carrilho e ao seu número dois na Câmara de Lisboa por aparentemente terem votado qualquer coisa ao lado do PC. Veio depois Miguel Coelho, uma piéce de resistance da dita concelhia dizer que não, que afinal era só o número dois que ficava privado da sua sublime "confiança". Na AR, por causa do Orçamento, o mesmo PS indignou-se (mais uma indignação) contra o deputado faltoso Manuel Alegre o qual, por sua vez, se indignou com a indignação do seu partido. E atirou-lhes as sondagens à cara. Esta trapalhada paroquial não vai acabar bem. E acabará bem pior se, a 22 de Janeiro, o candidato "oficial" aparecer em terceiro lugar, coisa em que, apesar de tudo, não acredito. O que é espantoso no meio de tudo isto é que, ao contrário do que eu julgava, Sócrates deixou-se irritar e pôs-se a falar por causa de Manuel Alegre, alguém cuja irrelevância política não devia ser salientada pelo primeiro-ministro. Se ele o faz e se Soares já berra com o partido, isso significa que começaram a intuir a trapalhada em que se meteram todos por causa das presidenciais. Não tarda nada - e, para isso, convém atentar na entrevista de Soares a Judite de Sousa - o candidato "oficial" desatará a "descolar" do colo do partido, enquanto o partido lho quer manter a todo o custo, fazendo-lhe o favor de "chatear", a torto e a direito, o outro socialista candidato. É útil manter uma prudente distância destas zangas caseiras. E, por outro lado, prestar mais atenção a outras coisas. A avaliar pelo que se lê pelo que se ouve, parece que é isso que o país anda tranquilamente a fazer.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
30.11.05
TUDO EM FAMÍLIA
O PS, a braços com algum desvario doméstico por causa das presidenciais, decidiu, através da "concelhia" de Lisboa, retirar a confiança política a Carrilho e ao seu número dois na Câmara de Lisboa por aparentemente terem votado qualquer coisa ao lado do PC. Veio depois Miguel Coelho, uma piéce de resistance da dita concelhia dizer que não, que afinal era só o número dois que ficava privado da sua sublime "confiança". Na AR, por causa do Orçamento, o mesmo PS indignou-se (mais uma indignação) contra o deputado faltoso Manuel Alegre o qual, por sua vez, se indignou com a indignação do seu partido. E atirou-lhes as sondagens à cara. Esta trapalhada paroquial não vai acabar bem. E acabará bem pior se, a 22 de Janeiro, o candidato "oficial" aparecer em terceiro lugar, coisa em que, apesar de tudo, não acredito. O que é espantoso no meio de tudo isto é que, ao contrário do que eu julgava, Sócrates deixou-se irritar e pôs-se a falar por causa de Manuel Alegre, alguém cuja irrelevância política não devia ser salientada pelo primeiro-ministro. Se ele o faz e se Soares já berra com o partido, isso significa que começaram a intuir a trapalhada em que se meteram todos por causa das presidenciais. Não tarda nada - e, para isso, convém atentar na entrevista de Soares a Judite de Sousa - o candidato "oficial" desatará a "descolar" do colo do partido, enquanto o partido lho quer manter a todo o custo, fazendo-lhe o favor de "chatear", a torto e a direito, o outro socialista candidato. É útil manter uma prudente distância destas zangas caseiras. E, por outro lado, prestar mais atenção a outras coisas. A avaliar pelo que se lê pelo que se ouve, parece que é isso que o país anda tranquilamente a fazer.
MOMENTO RARO

Eu teria para aí uns dezasseis anos quando Fernando Pessoa entrou definitivamente na minha vida. Acabara-se a fase dos poetas parnasianos, com Pessanha à cabeça. Nas fotocópias distribuídas pela professora, para ilustrar a nova matéria, figurava o nome de Alberto Caeiro. Teoricamente o mais "simples" dos heterónimos, Caeiro, o "mestre" dos olhos azuis, escondia o resto. Aos poucos, Pessoa chegava pela sua própria voz e, sobretudo, pela do genial e febril "engenheiro de máquinas", Álvaro de Campos. Bernardo Soares viria muito mais tarde. A descoberta de Fernando Pessoa equivale a um murro no estômago. Não é possível, a não ser por pura iliteracia, ficar indiferente ao mínimo verso do homem. Eu digo "homem" com esforço, apesar de sabermos da sua errância por Lisboa, do seu emprego, dos seus "amigos". Na realidade, Pessoa, como tal, pouco existiu, naquele sentido frívolo que costumamos dar ao termo "viver". De certa maneira, não o podia fazer já que apenas "viveu" nesse lugar de abismo e de realidade que era a letra dos seus versos. Já fui mais "pessoano" do que sou hoje. Tive o privilégio de falar pessoalmente, uma tarde inteira na sua casa, com João Gaspar Simões, por ocasião dos cinquenta anos da morte de Pessoa. Li os livros de Prado Coelho, Lind, Eduardo Lourenço e Casais Monteiro. Quis, nessa altura, "perceber". Não sei se alguém o conseguirá alguma vez plenamente. Muitas vezes pego na belissima edição da Aguilar e escolho o acaso de um verso. "Todo o cais é uma saudade de pedra", por exemplo. Como escreveu Eduardo Lourenço em 1952, "muitos homens tiveram saudades e viram cais, mas temos razões para chamar momento raro a esse em que uma consciência de poeta arrancou do mundo das palavras portuguesas esta espécie de inscrição de estela imortal, que depois dele todos temos guardado em algum sítio, todos, os que viajaram e os que só na alma viajam". Em setenta anos, Pessoa permanece como uma espécie de cometa trágico que, do alto da sua inexpugnável solidão, nos ilumina. "Pessoa limitou-se a sentir e a pensar o existente, bem ou mal não interessa, e a compreender que uma consciência está sempre aquém e além de todas as coisas, jamais coincidente com a existência delas. E mesmo com a existência em geral. Fê-lo como nunca ninguém o tinha feito. Nem Antero. Mas com isso o extraordinário poeta do "lado ausente de todas as coisas" não "serviu" ninguém. Serviu a sua inviolável solidão e pediu aos outros que cercassem a deles de altos mutos. Não cremos (Pessoa é muito complexo) que a sua poesia seja alheia a outros gestos igualmente últimos do homem: o apelo da fraternidade, da esperança, do amor. Se assim for, significa que é limitado e nada mais. Há homens (houve sempre e pessoalmente desejamos que a sua raça estéril e altiva nunca mais acabe) que não são capazes de olhar até ao fim o espectáculo do mundo e da história tendo aí a palavra "esperança". Homens do Inferno, se acreditarmos em Dante. Fernando Pessoa talvez tivesse sido um deles. E porque não devia sê-lo?"
MOMENTO RARO

Eu teria para aí uns dezasseis anos quando Fernando Pessoa entrou definitivamente na minha vida. Acabara-se a fase dos poetas parnasianos, com Pessanha à cabeça. Nas fotocópias distribuídas pela professora, para ilustrar a nova matéria, figurava o nome de Alberto Caeiro. Teoricamente o mais "simples" dos heterónimos, Caeiro, o "mestre" dos olhos azuis, escondia o resto. Aos poucos, Pessoa chegava pela sua própria voz e, sobretudo, pela do genial e febril "engenheiro de máquinas", Álvaro de Campos. Bernardo Soares viria muito mais tarde. A descoberta de Fernando Pessoa equivale a um murro no estômago. Não é possível, a não ser por pura iliteracia, ficar indiferente ao mínimo verso do homem. Eu digo "homem" com esforço, apesar de sabermos da sua errância por Lisboa, do seu emprego, dos seus "amigos". Na realidade, Pessoa, como tal, pouco existiu, naquele sentido frívolo que costumamos dar ao termo "viver". De certa maneira, não o podia fazer já que apenas "viveu" nesse lugar de abismo e de realidade que era a letra dos seus versos. Já fui mais "pessoano" do que sou hoje. Tive o privilégio de falar pessoalmente, uma tarde inteira na sua casa, com João Gaspar Simões, por ocasião dos cinquenta anos da morte de Pessoa. Li os livros de Prado Coelho, Lind, Eduardo Lourenço e Casais Monteiro. Quis, nessa altura, "perceber". Não sei se alguém o conseguirá alguma vez plenamente. Muitas vezes pego na belissima edição da Aguilar e escolho o acaso de um verso. "Todo o cais é uma saudade de pedra", por exemplo. Como escreveu Eduardo Lourenço em 1952, "muitos homens tiveram saudades e viram cais, mas temos razões para chamar momento raro a esse em que uma consciência de poeta arrancou do mundo das palavras portuguesas esta espécie de inscrição de estela imortal, que depois dele todos temos guardado em algum sítio, todos, os que viajaram e os que só na alma viajam". Em setenta anos, Pessoa permanece como uma espécie de cometa trágico que, do alto da sua inexpugnável solidão, nos ilumina. "Pessoa limitou-se a sentir e a pensar o existente, bem ou mal não interessa, e a compreender que uma consciência está sempre aquém e além de todas as coisas, jamais coincidente com a existência delas. E mesmo com a existência em geral. Fê-lo como nunca ninguém o tinha feito. Nem Antero. Mas com isso o extraordinário poeta do "lado ausente de todas as coisas" não "serviu" ninguém. Serviu a sua inviolável solidão e pediu aos outros que cercassem a deles de altos mutos. Não cremos (Pessoa é muito complexo) que a sua poesia seja alheia a outros gestos igualmente últimos do homem: o apelo da fraternidade, da esperança, do amor. Se assim for, significa que é limitado e nada mais. Há homens (houve sempre e pessoalmente desejamos que a sua raça estéril e altiva nunca mais acabe) que não são capazes de olhar até ao fim o espectáculo do mundo e da história tendo aí a palavra "esperança". Homens do Inferno, se acreditarmos em Dante. Fernando Pessoa talvez tivesse sido um deles. E porque não devia sê-lo?"
29.11.05
DO VERDADEIRO MANUEL ALEGRE ÀS "INDIGNAÇÕES"
1. Leio no Diário de Notícias o texto sobre a apresentação da candidatura de Manuel João Vieira a Belém. Tem graça, tal como o "candidato" tem graça. Também li Joana Amaral Dias, "indignada" com Cavaco e com o ministério da Educação (ME) por causa dos crucifixos. Quanto ao primeiro, a Joana leva a "indignação" ao ponto de ligar a cruz ao Calvário, ou seja, a Cavaco, o qual, à conta de ter proferido duas trivialidades (que o país é maioritariamente católico e que não lhe parece que seja uma prioridade do ME este episódio, coisa que a própria ministra também acha), não tem "perfil" para ser PR.
2. Vamos entrar numa pequena crise de "indignações" generalizadas. Até eu provavelmente vou aderir. O João Morgado Fernandes (JMF) - um jornalista relativamente atípico, na medida em que escreve e pensa bem ( e quem sou eu para o julgar...) - indignou-se comigo. Julgo que o fez duplamente. Por causa de eu ter ido "buscar" uma citação de Rodrigo Moita de Deus (presumo que se deve tratar de um perigoso "reaccionário" das bandas do CDS/PP ou do "neoliberalismo") a propósito das cruzes e, seguramente, por eu ter criticado os "critérios" editoriais do DN em matéria de eleições presidenciais. Pois, meu caro JMF, fi-lo apenas em resposta à "indignação" de Medeiros Ferreira por causa do Público e para demonstrar que, se quisermos, podemos passar a vida de "indignação" em "indignação", tipo jogos florais democráticos, laicos e republicanos. Acontece que eu tenho simultaneamente a vantagem e a desvantagem de não ser jornalista. Posso, se me apetecer, ser tendencioso. Faço parte da chamada "opinião pública" e não tanto da "opinião que se publica". Esta, estando no seu perfeito direito de não gostar de a ou de b, ou de gostar mais de c ou de d, tem que ter um pouco mais de cuidado com o que escreve, independentemente de se "indignar" ou de se "curvar".
3. Finalmente, meu caro JMF, fala-me de "debates" em Portugal e de "graçolas incendiárias e analfabetas". Será que JMF incluiria neste grupo das "graçolas incendiárias e analfabetas" a de Medeiros Ferreira que viu Cavaco "imediatamente abraçado ao crucifixo"? Tirando o mato e a caramunha, descanse que nada se "incendeia" verdadeiramente neste país e Você, como bom jornalista, devia ser o primeiro a saber isso. Existem, é certo, meia dúzia de pessoas que "fingem" alimentar "polémicas" entre si a propósito de banalidades. Em França, por exemplo, quando Chirac colocou o respeitável busto da República à porta das escolas, em nome do laicismo, viu-se o que aconteceu. Apesar de tudo, a França, mesmo quando não é levada a sério, leva-se a sério, o que faz toda a diferença para a paróquia. Nós, quando nos começamos a levar a sério, mesmo (ou sobretudo) com a Constituição debaixo do braço, resvalamos imediatamente para um híbrido entre a comédia e a tragédia. É o que dá termos um país inundado de juristas (como eu, mas estou a milhas de ser fanático) e de proto-juristas. E como eu sei que o JMF é um bom leitor, recomendo-lhe Henry Miller e o seu Viragem aos Oitenta (Fenda), que até pode ser lido como uma sublime homenagem a um candidato presidencial, já que foi por aí que comecei (e agora estou a falar a sério): "quem se leva a sério está condenado."
DO VERDADEIRO MANUEL ALEGRE ÀS "INDIGNAÇÕES"
1. Leio no Diário de Notícias o texto sobre a apresentação da candidatura de Manuel João Vieira a Belém. Tem graça, tal como o "candidato" tem graça. Também li Joana Amaral Dias, "indignada" com Cavaco e com o ministério da Educação (ME) por causa dos crucifixos. Quanto ao primeiro, a Joana leva a "indignação" ao ponto de ligar a cruz ao Calvário, ou seja, a Cavaco, o qual, à conta de ter proferido duas trivialidades (que o país é maioritariamente católico e que não lhe parece que seja uma prioridade do ME este episódio, coisa que a própria ministra também acha), não tem "perfil" para ser PR.
2. Vamos entrar numa pequena crise de "indignações" generalizadas. Até eu provavelmente vou aderir. O João Morgado Fernandes (JMF) - um jornalista relativamente atípico, na medida em que escreve e pensa bem ( e quem sou eu para o julgar...) - indignou-se comigo. Julgo que o fez duplamente. Por causa de eu ter ido "buscar" uma citação de Rodrigo Moita de Deus (presumo que se deve tratar de um perigoso "reaccionário" das bandas do CDS/PP ou do "neoliberalismo") a propósito das cruzes e, seguramente, por eu ter criticado os "critérios" editoriais do DN em matéria de eleições presidenciais. Pois, meu caro JMF, fi-lo apenas em resposta à "indignação" de Medeiros Ferreira por causa do Público e para demonstrar que, se quisermos, podemos passar a vida de "indignação" em "indignação", tipo jogos florais democráticos, laicos e republicanos. Acontece que eu tenho simultaneamente a vantagem e a desvantagem de não ser jornalista. Posso, se me apetecer, ser tendencioso. Faço parte da chamada "opinião pública" e não tanto da "opinião que se publica". Esta, estando no seu perfeito direito de não gostar de a ou de b, ou de gostar mais de c ou de d, tem que ter um pouco mais de cuidado com o que escreve, independentemente de se "indignar" ou de se "curvar".
3. Finalmente, meu caro JMF, fala-me de "debates" em Portugal e de "graçolas incendiárias e analfabetas". Será que JMF incluiria neste grupo das "graçolas incendiárias e analfabetas" a de Medeiros Ferreira que viu Cavaco "imediatamente abraçado ao crucifixo"? Tirando o mato e a caramunha, descanse que nada se "incendeia" verdadeiramente neste país e Você, como bom jornalista, devia ser o primeiro a saber isso. Existem, é certo, meia dúzia de pessoas que "fingem" alimentar "polémicas" entre si a propósito de banalidades. Em França, por exemplo, quando Chirac colocou o respeitável busto da República à porta das escolas, em nome do laicismo, viu-se o que aconteceu. Apesar de tudo, a França, mesmo quando não é levada a sério, leva-se a sério, o que faz toda a diferença para a paróquia. Nós, quando nos começamos a levar a sério, mesmo (ou sobretudo) com a Constituição debaixo do braço, resvalamos imediatamente para um híbrido entre a comédia e a tragédia. É o que dá termos um país inundado de juristas (como eu, mas estou a milhas de ser fanático) e de proto-juristas. E como eu sei que o JMF é um bom leitor, recomendo-lhe Henry Miller e o seu Viragem aos Oitenta (Fenda), que até pode ser lido como uma sublime homenagem a um candidato presidencial, já que foi por aí que comecei (e agora estou a falar a sério): "quem se leva a sério está condenado."
28.11.05
LEITURAS
O Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, também já foi lido aqui. É, convenhamos, uma leitura "forte" das famosas memórias. Porém, vale a pena ler e discutir. Sobre o "tira e pôe" dos crucifixos nas salas de aula, para já subscrevo esta sucinta opinião de Rodrigo Moita de Deus: "Não há razão nenhuma para existirem crucifixos pendurados nas salas de aula. Não há razão nenhuma para o assunto ser prioridade do ministério da educação." O Rui Costa Pinto chama a atenção para umas breves palavrinhas do candidato Mário Soares, em Santarém. Falaram-lhe de "dossiês" e ele remeteu para mais tarde uma "opinião" em matéria de energia. Será que é desta vez que Soares vai dizer o que pensa, por exemplo, de Pina Moura, o mais soturno dos "socratistas"? Finalmente, no militante Bicho Carpinteiro, Medeiros Ferreira interroga-se sobre os critérios editoriais do Público em matéria de presidenciais. Já agora, eu também me interrogo sobre os de António José Teixeira - que eu não tinha por cortesão - e dos seus auxiliares, no Diário de Notícias.
LEITURAS
O Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, também já foi lido aqui. É, convenhamos, uma leitura "forte" das famosas memórias. Porém, vale a pena ler e discutir. Sobre o "tira e pôe" dos crucifixos nas salas de aula, para já subscrevo esta sucinta opinião de Rodrigo Moita de Deus: "Não há razão nenhuma para existirem crucifixos pendurados nas salas de aula. Não há razão nenhuma para o assunto ser prioridade do ministério da educação." O Rui Costa Pinto chama a atenção para umas breves palavrinhas do candidato Mário Soares, em Santarém. Falaram-lhe de "dossiês" e ele remeteu para mais tarde uma "opinião" em matéria de energia. Será que é desta vez que Soares vai dizer o que pensa, por exemplo, de Pina Moura, o mais soturno dos "socratistas"? Finalmente, no militante Bicho Carpinteiro, Medeiros Ferreira interroga-se sobre os critérios editoriais do Público em matéria de presidenciais. Já agora, eu também me interrogo sobre os de António José Teixeira - que eu não tinha por cortesão - e dos seus auxiliares, no Diário de Notícias.
NA MESMA
Segundo o Correio da Manhã, via Portugal Diário, o sr. director geral dos impostos - que acumula com a "eficaz" e "eficiente" função de "relações públicas" da sua direcção geral, num raro exemplo que bem podia ser seguido por tantos colegas seus -, está a preparar-se para dar cumprimento, em 2006, à extraordinária "orientação" do governo que manda divulgar publicamente o nome dos contribuintes faltosos, empresas ou indivíduos. Estarão abrangidas cerca de oitocentas mil criaturas o que corresponde a mais de três milhões de processos de execução fiscal. Eu deploro que, por causa da impotência do famoso "sistema", se recorra à bufaria. Não é por muito "expôr" o infractor ao "povo" que ele passa a pagar. Pelo contrário. Entre nós, país de ressabiados e de invejosos, a expiação pública tende a converter em heróis - sobretudo os falhados de "luxo", como são quase todos os grandes não pagadores de impostos - entidades que, por princípio e por decência, deviam ser olhados como puros bandidos. O "povo", na sua remediada ignorância de pequeno ou médio contribuinte, tem, no fundo, pena de não poder agir assim. O "sistema", ao arrepio do que apregoa, vive dos "tótós" que não podem fugir aos deveres fiscais e à sua iníqua propaganda. Esta "medida" ressuma apenas demagogia. Finge-se que se "muda" qualquer coisa - e logo pelo pior dos lados, a delação - para que o essencial fique na mesma.
NA MESMA
Segundo o Correio da Manhã, via Portugal Diário, o sr. director geral dos impostos - que acumula com a "eficaz" e "eficiente" função de "relações públicas" da sua direcção geral, num raro exemplo que bem podia ser seguido por tantos colegas seus -, está a preparar-se para dar cumprimento, em 2006, à extraordinária "orientação" do governo que manda divulgar publicamente o nome dos contribuintes faltosos, empresas ou indivíduos. Estarão abrangidas cerca de oitocentas mil criaturas o que corresponde a mais de três milhões de processos de execução fiscal. Eu deploro que, por causa da impotência do famoso "sistema", se recorra à bufaria. Não é por muito "expôr" o infractor ao "povo" que ele passa a pagar. Pelo contrário. Entre nós, país de ressabiados e de invejosos, a expiação pública tende a converter em heróis - sobretudo os falhados de "luxo", como são quase todos os grandes não pagadores de impostos - entidades que, por princípio e por decência, deviam ser olhados como puros bandidos. O "povo", na sua remediada ignorância de pequeno ou médio contribuinte, tem, no fundo, pena de não poder agir assim. O "sistema", ao arrepio do que apregoa, vive dos "tótós" que não podem fugir aos deveres fiscais e à sua iníqua propaganda. Esta "medida" ressuma apenas demagogia. Finge-se que se "muda" qualquer coisa - e logo pelo pior dos lados, a delação - para que o essencial fique na mesma.
27.11.05
À PRIMEIRA
Depois de uma primeira fase excessivamente tagarela, o dr. Mário Soares serenou vagamente nos últimos dias. Parece que o partido e um ou outro estratega aconselharam recato. Para não perder de todo o registo habitual, Soares passou a falar do que verdadeiramente lhe interessa - Cavaco - através de imagens e de metáforas. Já elogiou o "silêncio", a pretexto da obra de Graça Morais, e a notável inteligência dos golfinhos, sem esquecer os pinguins. Para não perder o pé na matéria e porventura convencido de que é e de que está melhor do que Soares para "bater" Cavaco, Alegre decidiu colocar o ex-primeiro-ministro na sua campanha. Não percebe - também não tem ninguém que lhe explique - que o dr. Soares agradece a gentileza. Finalmente a graçola anti-Cavaco do dia veio de Jerónimo de Sousa. Esteve "inquieto" todo o fim de semana por causa da perspectiva da vitória da "reacção" e brindou o adversário da "direita" com uma maravilhosa "pérola". Cavaco é, na opinião do subtil político de Pires Coxe, um "macaco sábio". Quer Soares, quer Alegre devem ter-se roído de inveja por não se terem lembrado do preciosismo. Descendo agora à terra, verifiquei que Cavaco, o tal "macaco", andou pelas ruas com muita gente por perto. E que se proferia, com insistência, uma palavra sábia. À primeira.
À PRIMEIRA
Depois de uma primeira fase excessivamente tagarela, o dr. Mário Soares serenou vagamente nos últimos dias. Parece que o partido e um ou outro estratega aconselharam recato. Para não perder de todo o registo habitual, Soares passou a falar do que verdadeiramente lhe interessa - Cavaco - através de imagens e de metáforas. Já elogiou o "silêncio", a pretexto da obra de Graça Morais, e a notável inteligência dos golfinhos, sem esquecer os pinguins. Para não perder o pé na matéria e porventura convencido de que é e de que está melhor do que Soares para "bater" Cavaco, Alegre decidiu colocar o ex-primeiro-ministro na sua campanha. Não percebe - também não tem ninguém que lhe explique - que o dr. Soares agradece a gentileza. Finalmente a graçola anti-Cavaco do dia veio de Jerónimo de Sousa. Esteve "inquieto" todo o fim de semana por causa da perspectiva da vitória da "reacção" e brindou o adversário da "direita" com uma maravilhosa "pérola". Cavaco é, na opinião do subtil político de Pires Coxe, um "macaco sábio". Quer Soares, quer Alegre devem ter-se roído de inveja por não se terem lembrado do preciosismo. Descendo agora à terra, verifiquei que Cavaco, o tal "macaco", andou pelas ruas com muita gente por perto. E que se proferia, com insistência, uma palavra sábia. À primeira.
26.11.05
MENA E A SUA BICICLETA

Estive a ler o Bilhete de Identidade de Maria Filomena Mónica. Sou um confesso admirador da prosa escorreita e cruel da autora. Acho que lhe li todas as colectâneas de ensaios dos últimos anos e a, até agora, opus magnum, a biografia do Eça. MFM deverá ter lido, por gosto e por dever de ofício, dezenas de biografias escritas na língua de Sua Majestade e, muito provavelmente, alguma "memorabilia" auto-biográfica. Para além disso, "viveu" em Inglaterra e passa lá vastos períodos todos os anos. Nesse sentido, Mónica, mais do que se sentir, supôe-se mesmo "inglesa". É por isso que a revisitação que faz da sua vida neste livro - apesar de quase tudo nessa vida ser tão "português" e tão "meridional" - esconde a constante pena de ter fatalmente de olhar o mundo e o país a partir das ruas estreitas de Lisboa. Ao contrário de Rui Ramos, a quem a autora deu o livro a ler previamente, conforme nos informa na "introdução", eu não fiquei embasbacado com a sua leitura. MFM intercala o relato da sua privada existência com notas sobre a "agenda" daqueles dias e anos para não pensarmos que ela estava apenas envolvida, por ser extremamante bela e, para a época, ferozmente inteligente, com rapazes despretenciosos, ocos e bonitos do eixo Lisboa-Cascais ou, mais tarde, dos meios "intelectuais" de Lisboa a Oxford. A iconoclastia afectiva, sexual e profissional de Filomena Mónica, bem escrita como sempre, não justifica o arraial publicitário que a tem acompanhado. Francamente não o merece. A este Bilhete preferirei sempre o Eça ou, por exemplo, as magníficas "Visitas ao Poder". Eu percebo que os elementos "novidade" e "exposição", sobretudo por virem de uma mulher onde o loiro do cabelo e a beleza convergem com a inteligência objectiva da criatura, impressionem. Mónica fica certamente encantadora a pedalar a sua bicicleta em Oxford ou a acompanhar as excitações dos primeiros dias da Revolução ao lado de Vasco Pulido Valente. Porém, e como escrevia no DN o Pedro Lomba, uma autobiografia também tem de ser literatura. E este Bilhete, malgré lui, não é.
Adenda: João Pedro George, no Esplanar, já se referiu por duas vezes a este "tema", com links para "observações" de diferente teor. E anda a ler o livro.
MENA E A SUA BICICLETA

Estive a ler o Bilhete de Identidade de Maria Filomena Mónica. Sou um confesso admirador da prosa escorreita e cruel da autora. Acho que lhe li todas as colectâneas de ensaios dos últimos anos e a, até agora, opus magnum, a biografia do Eça. MFM deverá ter lido, por gosto e por dever de ofício, dezenas de biografias escritas na língua de Sua Majestade e, muito provavelmente, alguma "memorabilia" auto-biográfica. Para além disso, "viveu" em Inglaterra e passa lá vastos períodos todos os anos. Nesse sentido, Mónica, mais do que se sentir, supôe-se mesmo "inglesa". É por isso que a revisitação que faz da sua vida neste livro - apesar de quase tudo nessa vida ser tão "português" e tão "meridional" - esconde a constante pena de ter fatalmente de olhar o mundo e o país a partir das ruas estreitas de Lisboa. Ao contrário de Rui Ramos, a quem a autora deu o livro a ler previamente, conforme nos informa na "introdução", eu não fiquei embasbacado com a sua leitura. MFM intercala o relato da sua privada existência com notas sobre a "agenda" daqueles dias e anos para não pensarmos que ela estava apenas envolvida, por ser extremamante bela e, para a época, ferozmente inteligente, com rapazes despretenciosos, ocos e bonitos do eixo Lisboa-Cascais ou, mais tarde, dos meios "intelectuais" de Lisboa a Oxford. A iconoclastia afectiva, sexual e profissional de Filomena Mónica, bem escrita como sempre, não justifica o arraial publicitário que a tem acompanhado. Francamente não o merece. A este Bilhete preferirei sempre o Eça ou, por exemplo, as magníficas "Visitas ao Poder". Eu percebo que os elementos "novidade" e "exposição", sobretudo por virem de uma mulher onde o loiro do cabelo e a beleza convergem com a inteligência objectiva da criatura, impressionem. Mónica fica certamente encantadora a pedalar a sua bicicleta em Oxford ou a acompanhar as excitações dos primeiros dias da Revolução ao lado de Vasco Pulido Valente. Porém, e como escrevia no DN o Pedro Lomba, uma autobiografia também tem de ser literatura. E este Bilhete, malgré lui, não é.
Adenda: João Pedro George, no Esplanar, já se referiu por duas vezes a este "tema", com links para "observações" de diferente teor. E anda a ler o livro.
25.11.05
TRINTA ANOS

Em política, como em quase tudo o mais, a memória é curtíssima. E trinta anos, à velocidade a que tudo agora acontece, é uma eternidade. Em 25 de Novembro de 1975, a coragem moral, política e física - tudo coisas "de carácter" que vão desaparecendo - de um punhado de "civis" e de "militares" evitou o pior, ou seja, uma "guerra civil" original, em versão portuguesa. Antes desse dia, no "terreno" e em constante combate, Mário Soares e o Partido Socialista (à altura, um enorme "albergue" de sinceros democratas e de curiosos oportunistas, depois revelados) fizeram o indispensável, como nunca é demais relembrar. A 25, quando a aventura militar se declarou, de mãos dadas com a extrema-esquerda e a complacência estratégica do dr. Cunhal - que se retirou no momento adequado-, emergiu um homem desconhecido, de ar duro e sombrio, com os olhos escondidos nuns permanentes óculos escuros. Liderou com sucesso o "contra-golpe" e impôs-se, de seguida, como chefe incontestado de um exército desfeito, primeiro pela guerra, depois pelas brincadeiras de 74 e 75. Ramalho Eanes foi porventura a criatura que mais poder concentrou nas suas mãos, em Portugal, depois da "revolução". Eleito presidente, em 1976, uns escassos sete meses após a sua aparição na conturbada política nacional, era igualmente CEMGFA, comandante supremo e presidente do Conselho da Revolução. Nada disso impediu, antes pelo contrário, que voltasse a disciplina à tropa e que a democracia se institucionalizasse. Apesar das hesitações e das ambiguidades, sempre respeitei Ramalho Eanes. A ele, como no plano "civil" a Mário Soares, devemos o lance de termos passado a viver a liberdade em segurança.
TRINTA ANOS

Em política, como em quase tudo o mais, a memória é curtíssima. E trinta anos, à velocidade a que tudo agora acontece, é uma eternidade. Em 25 de Novembro de 1975, a coragem moral, política e física - tudo coisas "de carácter" que vão desaparecendo - de um punhado de "civis" e de "militares" evitou o pior, ou seja, uma "guerra civil" original, em versão portuguesa. Antes desse dia, no "terreno" e em constante combate, Mário Soares e o Partido Socialista (à altura, um enorme "albergue" de sinceros democratas e de curiosos oportunistas, depois revelados) fizeram o indispensável, como nunca é demais relembrar. A 25, quando a aventura militar se declarou, de mãos dadas com a extrema-esquerda e a complacência estratégica do dr. Cunhal - que se retirou no momento adequado-, emergiu um homem desconhecido, de ar duro e sombrio, com os olhos escondidos nuns permanentes óculos escuros. Liderou com sucesso o "contra-golpe" e impôs-se, de seguida, como chefe incontestado de um exército desfeito, primeiro pela guerra, depois pelas brincadeiras de 74 e 75. Ramalho Eanes foi porventura a criatura que mais poder concentrou nas suas mãos, em Portugal, depois da "revolução". Eleito presidente, em 1976, uns escassos sete meses após a sua aparição na conturbada política nacional, era igualmente CEMGFA, comandante supremo e presidente do Conselho da Revolução. Nada disso impediu, antes pelo contrário, que voltasse a disciplina à tropa e que a democracia se institucionalizasse. Apesar das hesitações e das ambiguidades, sempre respeitei Ramalho Eanes. A ele, como no plano "civil" a Mário Soares, devemos o lance de termos passado a viver a liberdade em segurança.
24.11.05
O RESSABIADO
Medeiros Ferreira, sempre atento aos movimentos de qualquer insignificante milícia "anti-Cavaco", decidiu elogiar Miguel Cadilhe, o ex-excelente ministro das Finanças de Cavaco Silva do final dos anos oitenta. Nem o pormenor de a sua entrevista à Visão corresponder à simples manifestação de um mero caprichismo regionalista, aliado ao mais puro desforço ressabiado, incomodou o ilustre membro da comissão política de M. Soares, que o aproveitou de imediato em prol da sua privada cruzada. Ou seja, Cadilhe junta-se a MF, a M. Soares e a Jerónimo de Sousa como mais um homem da brigada que "não dorme" descansada. Esta preocupante insónia que atacou subitamente tanto espírito clarividente das "esquerdas", captura o primeiro incauto. É evidente que Cadilhe sofre de um mal muito comum em Portugal e que me dispenso de nomear. Pode, até, apesar da forma desajeitada e retorcida como se costuma exprimir politicamente, estar a pensar no PSD. Não seria inédito. Pelos vistos, e por enquanto, tem apenas a opinião a saldo.
O RESSABIADO
Medeiros Ferreira, sempre atento aos movimentos de qualquer insignificante milícia "anti-Cavaco", decidiu elogiar Miguel Cadilhe, o ex-excelente ministro das Finanças de Cavaco Silva do final dos anos oitenta. Nem o pormenor de a sua entrevista à Visão corresponder à simples manifestação de um mero caprichismo regionalista, aliado ao mais puro desforço ressabiado, incomodou o ilustre membro da comissão política de M. Soares, que o aproveitou de imediato em prol da sua privada cruzada. Ou seja, Cadilhe junta-se a MF, a M. Soares e a Jerónimo de Sousa como mais um homem da brigada que "não dorme" descansada. Esta preocupante insónia que atacou subitamente tanto espírito clarividente das "esquerdas", captura o primeiro incauto. É evidente que Cadilhe sofre de um mal muito comum em Portugal e que me dispenso de nomear. Pode, até, apesar da forma desajeitada e retorcida como se costuma exprimir politicamente, estar a pensar no PSD. Não seria inédito. Pelos vistos, e por enquanto, tem apenas a opinião a saldo.
"TRABALHAI E PERSEVERAI"
Vale o que vale, sobretudo, para o "trabalho" no sentido indicado. Ou esta, que também vale o que vale: "Cavaco Silva mantém uma confortável vantagem sobre os principais adversários, mas ficou mais longe de ganhar na primeira volta. O candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS tinha em Outubro 48,8% dos votos e tem agora 44%, sem contar com os indecisos." Mesmo asssim, continua esta, "a haver uma segunda volta, Cavaco Silva tem por enquanto uma margem suficiente para um triunfo folgado, uma vez que soma 65 por cento das intenções de voto, com Mário Soares a somar 13 por cento e Alegre a ficar com oito". Aguardemos pela explicação disto tudo no Margens de Erro . Entretanto, "Trabalhai e Perseverai", como se diz na Maçonaria.
"TRABALHAI E PERSEVERAI"
Vale o que vale, sobretudo, para o "trabalho" no sentido indicado. Ou esta, que também vale o que vale: "Cavaco Silva mantém uma confortável vantagem sobre os principais adversários, mas ficou mais longe de ganhar na primeira volta. O candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS tinha em Outubro 48,8% dos votos e tem agora 44%, sem contar com os indecisos." Mesmo asssim, continua esta, "a haver uma segunda volta, Cavaco Silva tem por enquanto uma margem suficiente para um triunfo folgado, uma vez que soma 65 por cento das intenções de voto, com Mário Soares a somar 13 por cento e Alegre a ficar com oito". Aguardemos pela explicação disto tudo no Margens de Erro . Entretanto, "Trabalhai e Perseverai", como se diz na Maçonaria.
LIVROS
Esteve para vir, mas não veio. Didier Eribon, jornalista-filósofo, autor de uma conhecida biografia de Michel Foucault, traduzida cá pelos Livros do Brasil, foi anunciado como participante num colóquio que decorre no Instituto Franco-Português dedicado aos trinta anos da obra Vigiar e Punir (Surveiller et Punir) de Foucault. Faria bem a muitos juristas e a candidatos a juristas, especialmente aos que seguem a magistratura judicial ou a outra, ler este e outros livros de Foucault, em vez das monótonas sebentas/livros produzidos pelos "intelectuais" do direito penal português ou estrangeiro. Eribon é também autor de um livro de 1999 que se intitula Réflexions sur la Question Gay (Fayard) o qual, nestes "debates" tão recorrentes em torno da "evidência" da sexualidade , pode suscitar outras reflexões para além das triviais. LIVROS
Esteve para vir, mas não veio. Didier Eribon, jornalista-filósofo, autor de uma conhecida biografia de Michel Foucault, traduzida cá pelos Livros do Brasil, foi anunciado como participante num colóquio que decorre no Instituto Franco-Português dedicado aos trinta anos da obra Vigiar e Punir (Surveiller et Punir) de Foucault. Faria bem a muitos juristas e a candidatos a juristas, especialmente aos que seguem a magistratura judicial ou a outra, ler este e outros livros de Foucault, em vez das monótonas sebentas/livros produzidos pelos "intelectuais" do direito penal português ou estrangeiro. Eribon é também autor de um livro de 1999 que se intitula Réflexions sur la Question Gay (Fayard) o qual, nestes "debates" tão recorrentes em torno da "evidência" da sexualidade , pode suscitar outras reflexões para além das triviais. 23.11.05
POR ESTAS E POR OUTRAS
Esta coisa de alegados aviões da CIA "trespassarem" o imaculado espaço aéreo nacional, com terroristas lá dentro, é deveras preocupante. Não se percebe, porém, se a preocupação é com os terroristas ou com os aviões. É por estes e por outros patéticos motivos que os dois sujeitos mais "pequeninos" da figura reproduzida ali em cima (sondagem) não devem passar significativamente dali.
POR ESTAS E POR OUTRAS
Esta coisa de alegados aviões da CIA "trespassarem" o imaculado espaço aéreo nacional, com terroristas lá dentro, é deveras preocupante. Não se percebe, porém, se a preocupação é com os terroristas ou com os aviões. É por estes e por outros patéticos motivos que os dois sujeitos mais "pequeninos" da figura reproduzida ali em cima (sondagem) não devem passar significativamente dali.
A VINDA À RUA
Cavaco Silva vai falar no American Club de Lisboa. Depois do Brasil, trata-se da sua primeira "aparição" esta semana, uma vez que a entrevista ao Público, embora "conte", é outra coisa. Desconheço o que se rumina na comissão política da candidatura onde abundam ilustres académicos. Nem sei sequer se a "estratégia", até mais ver, passa por o candidato ter apenas uma ou duas "intervenções" semanais. Pacheco Pereira também é um "académico". Por sinal, e apesar do seu gosto pela astronomia, costuma ter os pés muito bem assentes na terra. Ao pensar nisto, lembrei-me de um post seu no Pulo do Lobo e que reproduzo de seguida sem mais comentários. "Para ganhar na primeira volta, tendo-se as sondagens como indicativo, a vinda de Cavaco Silva à rua é essencial. Só o contacto na rua com muitos milhares de pessoas vai dar o impulso final de mobilização para um esforço muito difícil. Porque vai sempre ser difícil ganhar as eleições na primeira volta. É possível, mas é difícil. Pode parecer um contra-senso arcaico este método, no momento em que cada passagem na televisão parece atingir muitas mais pessoas do que qualquer comício. Não é de comícios que falo, mas da vinda à rua, ao local ao mesmo tempo máximo e mínimo do "espaço público", onde só se entra quando muito do que se tem a dizer já foi ouvido. Se for bem recebido nas janelas e varandas, e a habitual comitiva preparada dos fiéis se dissolver na multidão, então está tudo a correr bem. Vamos ver se a meteorologia ajuda. Uma campanha para os 51% não é a mesma coisa que uma campanha para os 20%, por isso é natural que as lógicas de campanha não sejam sobreponíveis. Já se deveria ter percebido que Cavaco Silva fará a dele, não a dos outros."
A VINDA À RUA
Cavaco Silva vai falar no American Club de Lisboa. Depois do Brasil, trata-se da sua primeira "aparição" esta semana, uma vez que a entrevista ao Público, embora "conte", é outra coisa. Desconheço o que se rumina na comissão política da candidatura onde abundam ilustres académicos. Nem sei sequer se a "estratégia", até mais ver, passa por o candidato ter apenas uma ou duas "intervenções" semanais. Pacheco Pereira também é um "académico". Por sinal, e apesar do seu gosto pela astronomia, costuma ter os pés muito bem assentes na terra. Ao pensar nisto, lembrei-me de um post seu no Pulo do Lobo e que reproduzo de seguida sem mais comentários. "Para ganhar na primeira volta, tendo-se as sondagens como indicativo, a vinda de Cavaco Silva à rua é essencial. Só o contacto na rua com muitos milhares de pessoas vai dar o impulso final de mobilização para um esforço muito difícil. Porque vai sempre ser difícil ganhar as eleições na primeira volta. É possível, mas é difícil. Pode parecer um contra-senso arcaico este método, no momento em que cada passagem na televisão parece atingir muitas mais pessoas do que qualquer comício. Não é de comícios que falo, mas da vinda à rua, ao local ao mesmo tempo máximo e mínimo do "espaço público", onde só se entra quando muito do que se tem a dizer já foi ouvido. Se for bem recebido nas janelas e varandas, e a habitual comitiva preparada dos fiéis se dissolver na multidão, então está tudo a correr bem. Vamos ver se a meteorologia ajuda. Uma campanha para os 51% não é a mesma coisa que uma campanha para os 20%, por isso é natural que as lógicas de campanha não sejam sobreponíveis. Já se deveria ter percebido que Cavaco Silva fará a dele, não a dos outros."
22.11.05
"O DINHEIRO APARECE SEMPRE"
Com pompa e circunstância, o ministro Mário Lino apresentou a "obra" do regime. Não é a primeira, nem será seguramente a última. Já tinha havido a Expo 98 - uma versão circense de "obra" de regime - e o Euro 2004, a mais descarada apoteose do betão. Lino, muito naturalmente, escudou-se nos "estudos" favoráveis à construção de um novo aeroporto na Ota, da mesma forma que podia ter recorrido a outros tantos desfavoráveis à dita. Desculpou-se com a circunstância de tudo "já vir de trás" o que é, aliás, uma "moda" recorrente nestas ocasiões. Tirando os fãs incondicionais, não vislumbrei grandes entusiasmos. Para a plateia empresarial e dos "negócios", Lino fingiu que a coisa é mesmo importante e indispensável. Os espectadores limitaram-se a fingir - porque lhes convém - que acreditavam. O trivial. A "obra" veio aparentemente para ficar e para durar. Acabará, se for avante, por custar aos contribuintes muito mais do que o estimado nos "estudos" financeiros, como é da praxe. E, em matéria de "impacto ambiental", não hão-de faltar prosélitos dispostos a assinar em baixo. O extraordinário disto tudo são, salvo erro, os quatrocentos milhões de euros que Lino vai "investir" na Portela pré-defunta - nesta perspectiva obreirista -, incluindo a eventual "extensão" do Metro até lá. Haverá porventura nisto tudo uma lógica misteriosa que a minha incredulidade ignorante não deixa entrever. Como dizia outro dia o dr. Mário Soares, reputado especialista em contas, "o dinheiro aparece sempre". Parece que, afinal, tem razão.
"O DINHEIRO APARECE SEMPRE"
Com pompa e circunstância, o ministro Mário Lino apresentou a "obra" do regime. Não é a primeira, nem será seguramente a última. Já tinha havido a Expo 98 - uma versão circense de "obra" de regime - e o Euro 2004, a mais descarada apoteose do betão. Lino, muito naturalmente, escudou-se nos "estudos" favoráveis à construção de um novo aeroporto na Ota, da mesma forma que podia ter recorrido a outros tantos desfavoráveis à dita. Desculpou-se com a circunstância de tudo "já vir de trás" o que é, aliás, uma "moda" recorrente nestas ocasiões. Tirando os fãs incondicionais, não vislumbrei grandes entusiasmos. Para a plateia empresarial e dos "negócios", Lino fingiu que a coisa é mesmo importante e indispensável. Os espectadores limitaram-se a fingir - porque lhes convém - que acreditavam. O trivial. A "obra" veio aparentemente para ficar e para durar. Acabará, se for avante, por custar aos contribuintes muito mais do que o estimado nos "estudos" financeiros, como é da praxe. E, em matéria de "impacto ambiental", não hão-de faltar prosélitos dispostos a assinar em baixo. O extraordinário disto tudo são, salvo erro, os quatrocentos milhões de euros que Lino vai "investir" na Portela pré-defunta - nesta perspectiva obreirista -, incluindo a eventual "extensão" do Metro até lá. Haverá porventura nisto tudo uma lógica misteriosa que a minha incredulidade ignorante não deixa entrever. Como dizia outro dia o dr. Mário Soares, reputado especialista em contas, "o dinheiro aparece sempre". Parece que, afinal, tem razão.
A "HONRA NACIONAL" REVISITADA - 2
Por Sérgio Figueiredo. "Durão Barroso, chefe de Governo português, teve um arranque tão promissor como José Barroso, presidente da Comissão Europeia. Depois murchou. Foi «certinho». Nem cometeu crimes de lesa-pátria, nem deslumbrou. Ou seja, não esteve à altura dos desafios – e isso podemos afirmar com certeza. O que, por fim, nos coloca na derradeira questão: o país beneficiou? Sim, porque não perdeu um grande Governo. Não, se Barroso continuar a presidir a Europa como governou Portugal."
A "HONRA NACIONAL" REVISITADA - 2
Por Sérgio Figueiredo. "Durão Barroso, chefe de Governo português, teve um arranque tão promissor como José Barroso, presidente da Comissão Europeia. Depois murchou. Foi «certinho». Nem cometeu crimes de lesa-pátria, nem deslumbrou. Ou seja, não esteve à altura dos desafios – e isso podemos afirmar com certeza. O que, por fim, nos coloca na derradeira questão: o país beneficiou? Sim, porque não perdeu um grande Governo. Não, se Barroso continuar a presidir a Europa como governou Portugal."
POLÍCIA CONSTITUCIONAL
Não, não sou eu que o digo. É um dos mais insuspeitos anti-cavaquistas que eu conheço. Porém, diz bem: "cá está a polícia constitucional a dissecar o pseudo-presidencialismo da entrevista de Cavaco Silva ao Público."
POLÍCIA CONSTITUCIONAL
Não, não sou eu que o digo. É um dos mais insuspeitos anti-cavaquistas que eu conheço. Porém, diz bem: "cá está a polícia constitucional a dissecar o pseudo-presidencialismo da entrevista de Cavaco Silva ao Público."
A "HUBRIS" SOCIALISTA
Manuel Alegre, alguém que cultiva um tipo de vaidade diferente da de Soares, decidiu remoer a questão das escolhas presidenciais do PS. E contou a uma rádio a sua versão dos encontros e desencontros que determinaram o avanço final do ex-presidente. No fundo, Alegre veio confirmar o que já se sabia: a imposição da soberana vontade do fundador ao partido por causa de Cavaco Silva. Entre o fundador e Alegre, Sócrates não pôde hesitar. Soares detesta que lhe falem disto e remete sempre para o PS qualquer explicação. O reconhecimento de que se tratou de uma quarta ou quinta escolha, para mais imposta, não cabe manifestamente no seu imenso umbigo. De nada vale, no entanto, a Alegre a tentativa de arranjar por aqui um pretexto "fratricida" que o "vitimize". Sócrates não lhe liga nenhuma. E Soares, a seu tempo, encarregar-se-á de o desfazer. O primeiro-ministro, aliás, terá alguma dificuldade em abandonar os lugares-comuns que tem proferido sobre Soares ou em andar de braço dado com ele pelas ruas. Quando era candidato a secretário-geral do partido, há apenas ano e meio, Sócrates (e bem) teve de responder ao então apoiante de uma candidatura adversária irrelevante, dizendo que "os guardiões do templo da ortodoxia fazem o papel ridiculo de conservadores de um museu que ninguém visita". Sócrates, entretanto, já deve ter aprendido que não se deve cuspir para o ar. A "hubris" socialista, em matéria presidencial, ainda mal começou.
A "HUBRIS" SOCIALISTA
Manuel Alegre, alguém que cultiva um tipo de vaidade diferente da de Soares, decidiu remoer a questão das escolhas presidenciais do PS. E contou a uma rádio a sua versão dos encontros e desencontros que determinaram o avanço final do ex-presidente. No fundo, Alegre veio confirmar o que já se sabia: a imposição da soberana vontade do fundador ao partido por causa de Cavaco Silva. Entre o fundador e Alegre, Sócrates não pôde hesitar. Soares detesta que lhe falem disto e remete sempre para o PS qualquer explicação. O reconhecimento de que se tratou de uma quarta ou quinta escolha, para mais imposta, não cabe manifestamente no seu imenso umbigo. De nada vale, no entanto, a Alegre a tentativa de arranjar por aqui um pretexto "fratricida" que o "vitimize". Sócrates não lhe liga nenhuma. E Soares, a seu tempo, encarregar-se-á de o desfazer. O primeiro-ministro, aliás, terá alguma dificuldade em abandonar os lugares-comuns que tem proferido sobre Soares ou em andar de braço dado com ele pelas ruas. Quando era candidato a secretário-geral do partido, há apenas ano e meio, Sócrates (e bem) teve de responder ao então apoiante de uma candidatura adversária irrelevante, dizendo que "os guardiões do templo da ortodoxia fazem o papel ridiculo de conservadores de um museu que ninguém visita". Sócrates, entretanto, já deve ter aprendido que não se deve cuspir para o ar. A "hubris" socialista, em matéria presidencial, ainda mal começou.
LIMBO

Há quarenta e dois anos, neste dia, um bonito casal americano, nada convencional, chegava a Dallas. Era a última viagem de John Kennedy. Mais tarde nesse dia, Jacqueline, com o fato saia-e-casaco cor-de-rosa ainda manchado do sangue do seu marido, regressou à capital noutro avião onde Johnson jurou ser fiel ao cargo de presidente dos Estados Unidos. Camelot terminava aí. Gore Vidal, vagamente "aparentado" a Jackie, conta que, uma vez, numa festa onde estava com Tennessee Williams, passou por eles o jovem senador J.F. Kennedy, cuja visão inspirou ao dramaturgo o seguinte comentário: "que belo traseiro!". Noutro texto, Vidal corrobora uma outra pequena "história" ventilada por um agente dos Serviços Secretos que acompanhava Kennedy. Nela, Jack está dentro de uma banheira que usava como terapia para as suas costas doentes, e fazia amor com uma ilustre desconhecida. No momento crucial, pediu à moça para meter a cabeça completamente dentro da água, já que - consta- tal situação provoca determinados espasmos na zona erógena feminina que, por sua vez, aumentam razoavelmente o prazer viril. John Kennedy tinha tudo para ser bem sucedido. Como Oliver Stone fez dizer a Nixon no filme homónimo, JFK representava o que os americanos gostariam de ser, e ele, Nixon, o que eles eram na realidade. Jack era novo, bonito, sexy - como diríamos hoje -, libertino, inteligente e rico. Levou para a Casa Branca o glamour e a alegria trágica da sua vida pessoal - a oficial e a outra - , ao lado de uma jovem e bela primeira-dama, com um par de filhos belos e fotogénicos. Foi o primeiro político a explorar inteligentemente as vantagens da imagem televisiva. Partilhou com os americanos e com o mundo inteiro os seus mil e tal dias de presidência, de tal forma que, depois dos disparos fatais de Dallas, uma sensação de orfandade objectiva percorreu o globo, como nunca antes tinha acontecido. Mesmo as suspeitas de ligações perigosas e corruptas, supostamente alimentadas a partir do pai para a promoção política do promissor herdeiro, nunca chegaram verdadeiramente a manchar a lenda. Como que num limbo, a imagem sorridente de JFK ficou para sempre cristalizada nos milhares de álbuns fotográficos que o imortalizaram. É por isso que nunca o conseguimos imaginar velho.
LIMBO

Há quarenta e dois anos, neste dia, um bonito casal americano, nada convencional, chegava a Dallas. Era a última viagem de John Kennedy. Mais tarde nesse dia, Jacqueline, com o fato saia-e-casaco cor-de-rosa ainda manchado do sangue do seu marido, regressou à capital noutro avião onde Johnson jurou ser fiel ao cargo de presidente dos Estados Unidos. Camelot terminava aí. Gore Vidal, vagamente "aparentado" a Jackie, conta que, uma vez, numa festa onde estava com Tennessee Williams, passou por eles o jovem senador J.F. Kennedy, cuja visão inspirou ao dramaturgo o seguinte comentário: "que belo traseiro!". Noutro texto, Vidal corrobora uma outra pequena "história" ventilada por um agente dos Serviços Secretos que acompanhava Kennedy. Nela, Jack está dentro de uma banheira que usava como terapia para as suas costas doentes, e fazia amor com uma ilustre desconhecida. No momento crucial, pediu à moça para meter a cabeça completamente dentro da água, já que - consta- tal situação provoca determinados espasmos na zona erógena feminina que, por sua vez, aumentam razoavelmente o prazer viril. John Kennedy tinha tudo para ser bem sucedido. Como Oliver Stone fez dizer a Nixon no filme homónimo, JFK representava o que os americanos gostariam de ser, e ele, Nixon, o que eles eram na realidade. Jack era novo, bonito, sexy - como diríamos hoje -, libertino, inteligente e rico. Levou para a Casa Branca o glamour e a alegria trágica da sua vida pessoal - a oficial e a outra - , ao lado de uma jovem e bela primeira-dama, com um par de filhos belos e fotogénicos. Foi o primeiro político a explorar inteligentemente as vantagens da imagem televisiva. Partilhou com os americanos e com o mundo inteiro os seus mil e tal dias de presidência, de tal forma que, depois dos disparos fatais de Dallas, uma sensação de orfandade objectiva percorreu o globo, como nunca antes tinha acontecido. Mesmo as suspeitas de ligações perigosas e corruptas, supostamente alimentadas a partir do pai para a promoção política do promissor herdeiro, nunca chegaram verdadeiramente a manchar a lenda. Como que num limbo, a imagem sorridente de JFK ficou para sempre cristalizada nos milhares de álbuns fotográficos que o imortalizaram. É por isso que nunca o conseguimos imaginar velho.
20.11.05
INTIMAÇÕES
Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o génio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros. Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles. Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e bovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.
Giovanni Papini, Relatório Sobre os Homens, Livros do Brasil
INTIMAÇÕES
Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o génio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros. Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles. Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e bovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.
Giovanni Papini, Relatório Sobre os Homens, Livros do Brasil
O SEXO E A CIDADE
Corre pela blogosfera -alguma- um pequeno "debate" em torno da sexualidade. O pretexto aparente é o "caso" das meninas amantes de Gaia. Sobre esta matéria, a sexualidade, recomenda-se recato. "Não te metas na vida alheia se não quiseres lá ficar", é uma excelente metáfora literária, inventada por Almada Negreiros em "Nome de Guerra" para "fechar" a discussão. Pasolini, por exemplo, dizia que havia apenas "uma" sexualidade cuja manifestação prática se podia traduzir em hetero, homo ou bissexualidade. E Gore Vidal passa a vida a explicar que não existe propriamente heterossexualidade ou homossexualidade, mas antes actos hetero ou homossexuais, eventualmente, até, praticados pela mesma pessoa. A apetência por mulheres, por homens ou por ambos resolve-se normalmente entre quatro paredes. Incomoda-me tanto a exibição pública da "homossexualidade" como da "heterossexualidade". Sou contra quaisquer associativismos segregadores, sejam eles adeptos histéricos da velha Shirley Bassey ou da associação das famílias numerosas. Desconfio, por igual, das "paradas" com manifestantes vestidos de branco e com muitas criancinhas pela mão, como dos desfiles "religiosos" das "drag-queens" do Barreiro. Dito isto, acho que ninguém - homem ou mulher, adolescente ou púbere - pode ser aborrecido por causa do uso, unívoco ou múltiplo, que entende dar aos respectivos órgãos sexuais, aí compreendendo a boca e as mãozinhas, dentro de portas que até podem ser as de um automóvel. Em suma, nesta, como noutras matérias, devemos seguir o conselho de Menandro: "nada te aconteceu de facto enquanto não te importares muito com o ocorrido".
Adenda: Ler os excelentes e últimos posts de Henrique Raposo, em O Acidental, em torno da "questão".
O SEXO E A CIDADE
Corre pela blogosfera -alguma- um pequeno "debate" em torno da sexualidade. O pretexto aparente é o "caso" das meninas amantes de Gaia. Sobre esta matéria, a sexualidade, recomenda-se recato. "Não te metas na vida alheia se não quiseres lá ficar", é uma excelente metáfora literária, inventada por Almada Negreiros em "Nome de Guerra" para "fechar" a discussão. Pasolini, por exemplo, dizia que havia apenas "uma" sexualidade cuja manifestação prática se podia traduzir em hetero, homo ou bissexualidade. E Gore Vidal passa a vida a explicar que não existe propriamente heterossexualidade ou homossexualidade, mas antes actos hetero ou homossexuais, eventualmente, até, praticados pela mesma pessoa. A apetência por mulheres, por homens ou por ambos resolve-se normalmente entre quatro paredes. Incomoda-me tanto a exibição pública da "homossexualidade" como da "heterossexualidade". Sou contra quaisquer associativismos segregadores, sejam eles adeptos histéricos da velha Shirley Bassey ou da associação das famílias numerosas. Desconfio, por igual, das "paradas" com manifestantes vestidos de branco e com muitas criancinhas pela mão, como dos desfiles "religiosos" das "drag-queens" do Barreiro. Dito isto, acho que ninguém - homem ou mulher, adolescente ou púbere - pode ser aborrecido por causa do uso, unívoco ou múltiplo, que entende dar aos respectivos órgãos sexuais, aí compreendendo a boca e as mãozinhas, dentro de portas que até podem ser as de um automóvel. Em suma, nesta, como noutras matérias, devemos seguir o conselho de Menandro: "nada te aconteceu de facto enquanto não te importares muito com o ocorrido".
Adenda: Ler os excelentes e últimos posts de Henrique Raposo, em O Acidental, em torno da "questão".
ARISTOCRATAS
1. Na sua prosa entre o sibilino e o académico - provavelmente uma característica forte dos políticos açorianos -, Mário Mesquita "analisa" no Público (sem link), apesar de advertir que não tem "competência para (se) aventurar em análises psicológicas", "o sorriso amarelo de Cavaco". O ilustre membro da comissão política da candidatura de Mário Soares desenvolve uma "tese" muito simples. O sorriso "contrafeito" ou "amarelo" de Cavaco - ou, naquilo a que, "na crueza anglo-saxónica", Mesquita apelida mais impressivamente de "sorriso-come-merda", "eat shit smile" - explicar-se-ia pela notória aversão do candidato aos "mecanismos" da democracia, a saber, a opinião pública, a opinião que se publica e as campanhas eleitorais com o seu cortejo de "debates" e de multidões expectantes. Apesar de "ir à frente", Cavaco "parece tão infeliz" porque - e é isto que, no fundo, Mesquita quer dizer - não tem "pedigree" democrático.
2. Dito por outras palavras, Cavaco não é um "aristocrata" da democracia, como escreve, na última página do mesmo Público, Vasco Pulido Valente, num acesso ternurento para com o "velho leão". E vai mais longe. "É bom que exista" Soares por causa da putativa entrega da República a um "autoritário vazio" (sic).
3. Esta adjectivação, sobretudo por vir de quem vem, demonstra (e VPV, especialmente, não se cansa de o fazer três vezes por semana) que estes trinta anos de democracia "capturaram" meia dúzia de lugares-comuns e de "personalidades" representativas desses lugares-comuns, o que faz com que Cavaco, por exemplo, apesar de ter sido primeiro-ministro maioritário durante dez anos, seja visto como um "estranho" a esse pequeno-grande "mundo" da democracia "consensualizada", aquilo a que, depreciativamente mas com razão, VPV tem chamado de "regime". Cavaco, não sendo nem um jacobino, nem um "burguês" e, muito menos, um homem "culto" aos olhos da "teoria comunicacional" vulgarizada, será sempre um fracasso mesmo (e sobretudo) enquanto ganhador. Pelo contrário, Soares conseguirá emergir dos escombros da sua "melancólica campanha", que "lhe corre mal e não se endireita" (VPV), como um símbolo a preservar, tipo jarrão Ming da democracia e da república.
4. VPV acaba por reconhecer que Soares vem a estas eleições representar um "mundo que nós perdemos", para utilizar o título de um historiador inglês. E curva-se respeitosamente perante esse exercício ("é bom que ele exista"). Nada disto, por muito comovente que seja, explica politicamente a "necessidade" da sua candidatura. Reduzi-lo a uma função ornamental democrática, a crer na prosa destes dois ilustres cronistas, é pouco para Soares. É por isso que ele vagueia, nesta campanha, à sombra do "plebeu" que, mesmo com um sorriso "come merda" (Mesquita dixit), é o verdadeiro aristocrata destas eleições.
ARISTOCRATAS
1. Na sua prosa entre o sibilino e o académico - provavelmente uma característica forte dos políticos açorianos -, Mário Mesquita "analisa" no Público (sem link), apesar de advertir que não tem "competência para (se) aventurar em análises psicológicas", "o sorriso amarelo de Cavaco". O ilustre membro da comissão política da candidatura de Mário Soares desenvolve uma "tese" muito simples. O sorriso "contrafeito" ou "amarelo" de Cavaco - ou, naquilo a que, "na crueza anglo-saxónica", Mesquita apelida mais impressivamente de "sorriso-come-merda", "eat shit smile" - explicar-se-ia pela notória aversão do candidato aos "mecanismos" da democracia, a saber, a opinião pública, a opinião que se publica e as campanhas eleitorais com o seu cortejo de "debates" e de multidões expectantes. Apesar de "ir à frente", Cavaco "parece tão infeliz" porque - e é isto que, no fundo, Mesquita quer dizer - não tem "pedigree" democrático.
2. Dito por outras palavras, Cavaco não é um "aristocrata" da democracia, como escreve, na última página do mesmo Público, Vasco Pulido Valente, num acesso ternurento para com o "velho leão". E vai mais longe. "É bom que exista" Soares por causa da putativa entrega da República a um "autoritário vazio" (sic).
3. Esta adjectivação, sobretudo por vir de quem vem, demonstra (e VPV, especialmente, não se cansa de o fazer três vezes por semana) que estes trinta anos de democracia "capturaram" meia dúzia de lugares-comuns e de "personalidades" representativas desses lugares-comuns, o que faz com que Cavaco, por exemplo, apesar de ter sido primeiro-ministro maioritário durante dez anos, seja visto como um "estranho" a esse pequeno-grande "mundo" da democracia "consensualizada", aquilo a que, depreciativamente mas com razão, VPV tem chamado de "regime". Cavaco, não sendo nem um jacobino, nem um "burguês" e, muito menos, um homem "culto" aos olhos da "teoria comunicacional" vulgarizada, será sempre um fracasso mesmo (e sobretudo) enquanto ganhador. Pelo contrário, Soares conseguirá emergir dos escombros da sua "melancólica campanha", que "lhe corre mal e não se endireita" (VPV), como um símbolo a preservar, tipo jarrão Ming da democracia e da república.
4. VPV acaba por reconhecer que Soares vem a estas eleições representar um "mundo que nós perdemos", para utilizar o título de um historiador inglês. E curva-se respeitosamente perante esse exercício ("é bom que ele exista"). Nada disto, por muito comovente que seja, explica politicamente a "necessidade" da sua candidatura. Reduzi-lo a uma função ornamental democrática, a crer na prosa destes dois ilustres cronistas, é pouco para Soares. É por isso que ele vagueia, nesta campanha, à sombra do "plebeu" que, mesmo com um sorriso "come merda" (Mesquita dixit), é o verdadeiro aristocrata destas eleições.
LER
No Minha Rica Casinha, Alegre Soariza-se. É uma das "tarefas" do "reality show" "quem-consegue-dizer-mais-mal-de-cavaco-silva-até-22-de-janeiro". É compreensível. Alegre tinha partido ligeiramente atrasado no "concurso". Só que, à medida que se for "soarizando", Alegre vai perdendo. Entre uma cópia e um original, não se costuma hesitar. E, de Francisco José Viegas, por causa disto, "Ainda os beijos na escola"
LER
No Minha Rica Casinha, Alegre Soariza-se. É uma das "tarefas" do "reality show" "quem-consegue-dizer-mais-mal-de-cavaco-silva-até-22-de-janeiro". É compreensível. Alegre tinha partido ligeiramente atrasado no "concurso". Só que, à medida que se for "soarizando", Alegre vai perdendo. Entre uma cópia e um original, não se costuma hesitar. E, de Francisco José Viegas, por causa disto, "Ainda os beijos na escola"
19.11.05
A "HONRA NACIONAL" REVISITADA
Um ano depois, como é vista esta "honra nacional" lá fora? JOSÉ MANUEL BARROSO, president of the European Commission, is Europe's whipping boy du jour. Quant à José Manuel Barroso, il est largement critiqué. On lui reproche sa faiblesse par rapport aux gouvernements des Vingt-Cinq, son incapacité à remettre la Commission au centre du jeu, sa vision d'une Europe a minima sans volonté ni ambition. APRÈS UN AN AU POUVOIR, la Commission Barroso n'a pas réussi à redresser son image à Bruxelles. Au contraire. équipe «sans envergure», «politiquement incohérente», «trop soumise» aux gouvernements ou au monde des «affaires» : telles sont les critiques les plus fréquentes adressées par les milieux communautaires à l'exécutif européen. (...) Libéral un jour, «social» le lendemain, entretenant volontiers la confusion des genres, José Manuel Barroso déstabilise ses interlocuteurs. «Je suis un centriste réformateur», insiste-t-il, en privé, sans que personne ne sache vraiment ce que cela signifie.
A "HONRA NACIONAL" REVISITADA
Um ano depois, como é vista esta "honra nacional" lá fora? JOSÉ MANUEL BARROSO, president of the European Commission, is Europe's whipping boy du jour. Quant à José Manuel Barroso, il est largement critiqué. On lui reproche sa faiblesse par rapport aux gouvernements des Vingt-Cinq, son incapacité à remettre la Commission au centre du jeu, sa vision d'une Europe a minima sans volonté ni ambition. APRÈS UN AN AU POUVOIR, la Commission Barroso n'a pas réussi à redresser son image à Bruxelles. Au contraire. équipe «sans envergure», «politiquement incohérente», «trop soumise» aux gouvernements ou au monde des «affaires» : telles sont les critiques les plus fréquentes adressées par les milieux communautaires à l'exécutif européen. (...) Libéral un jour, «social» le lendemain, entretenant volontiers la confusion des genres, José Manuel Barroso déstabilise ses interlocuteurs. «Je suis un centriste réformateur», insiste-t-il, en privé, sans que personne ne sache vraiment ce que cela signifie.
A CIDADE E O PILAR
Ao tentar perceber os "desenvolvimentos" em torno do "caso" das duas alunas de Gaia que provocou "erecções escandalizadas" para todos os gostos, nos media e nos blogues, reparo em dois posts que sintetizam brilhantemente o que penso sobre o assunto. O primeiro é de Francisco José Viegas e o segundo é de Eduardo Pitta. Não é preciso dizer mais nada.
A CIDADE E O PILAR
Ao tentar perceber os "desenvolvimentos" em torno do "caso" das duas alunas de Gaia que provocou "erecções escandalizadas" para todos os gostos, nos media e nos blogues, reparo em dois posts que sintetizam brilhantemente o que penso sobre o assunto. O primeiro é de Francisco José Viegas e o segundo é de Eduardo Pitta. Não é preciso dizer mais nada.
18.11.05
A DOR
A Fenda reeditou o último livro de Ernesto Sampaio, Fernanda, dedicado à (sua) memória da actriz Fernanda Alves, sua mulher por mais de quarenta anos. É um livro cruel e belo sobre a dor da perda e sobre a impossibilidade de poder continuar. Mais do que a impossibilidade, o não haver qualquer sentido ou vontade em continuar. Sampaio desapareceria um ano depois da morte da Fernanda, e Mário Cesariny escreveu na ocasião que "é a uníca pessoa que conheço que morreu de amor". "Para se viver no presente, e para que esse presente contenha alguns germes de futuro, é preciso esquecer. Não digo perder a memória, mas seleccioná-la, distanciá-la, acomodá-la à necessidade que todos temos de saborear o presente, de manter indemnes as posssibilidades de novos começos. Mas quando a memória nos cai em cima como um dilúvio, quando o passado nos submerge e afoga, estamos perdidos. Sobrevivemos entre sombras, somos almas penadas, entregues ao desespero e à cólera. Vivemos no inferno, pois o inferno é a ausência de quem amamos. É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão." A DOR
A Fenda reeditou o último livro de Ernesto Sampaio, Fernanda, dedicado à (sua) memória da actriz Fernanda Alves, sua mulher por mais de quarenta anos. É um livro cruel e belo sobre a dor da perda e sobre a impossibilidade de poder continuar. Mais do que a impossibilidade, o não haver qualquer sentido ou vontade em continuar. Sampaio desapareceria um ano depois da morte da Fernanda, e Mário Cesariny escreveu na ocasião que "é a uníca pessoa que conheço que morreu de amor". "Para se viver no presente, e para que esse presente contenha alguns germes de futuro, é preciso esquecer. Não digo perder a memória, mas seleccioná-la, distanciá-la, acomodá-la à necessidade que todos temos de saborear o presente, de manter indemnes as posssibilidades de novos começos. Mas quando a memória nos cai em cima como um dilúvio, quando o passado nos submerge e afoga, estamos perdidos. Sobrevivemos entre sombras, somos almas penadas, entregues ao desespero e à cólera. Vivemos no inferno, pois o inferno é a ausência de quem amamos. É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão." HOMEM COM OPINIÕES
Esta semana, pelos mais desvairados motivos, vários prosélitos recorreram a Vasco Pulido Valente. Fosse por causa do dr. Soares, fosse por causa do dr. Cavaco, Pulido Valente foi invocado alternadamente como "apoiante" e "crítico" do primeiro e, com maior constância, como impiedoso "desmistificador" do segundo. Até VPV, por fim, recorreu a ele mesmo. Pela natureza das coisas, a começar pela dele, Pulido Valente não pode "gostar" do dr. Cavaco, pese a circunstância de achar que ele deve ganhar. Numa prosa reproduzida na Grande Loja, VPV opina sobre o "homem sem opiniões" que supostamente seria Cavaco Silva. O "mote" é a entrevista da TVI que eu, numa escala de 0 a 20, classificaria com um 12/13. Já pouca gente se deve lembrar dela mas, por exemplo, não custava nada ao dr. Cavaco ter admitido que a dissolução do Parlamento foi correcta e que a emergência do austero Sócrates não fez mal a ninguém. O eleitorado da "direita" sabe isso perfeitamente e não era por lho ouvir de viva voz que ia agora fugir, indignado com a evidência. Quanto ao resto, Cavaco fez bem em evitar a pequena peripécia e em centrar a sua "mensagem" como "pré-presidente", a concorrer para os 51%, como disse Pacheco Pereira na SIC Notícias, e não em masssajar o ego de oponentes que concorrem para os 20 ou para os 30, ou, de resto, para defenderem "territórios". Para não destoar e a benefício de inventário, eu também recorro a VPV, a um VPL de 19 de Julho de 1991, em O Independente, a título meramente ilustrativo de uma "opinião" como outra qualquer. "Os inimigos do dr. Cavaco nunca perceberam que a obstinação dele o punha firmemente no centro das coisas e os podia coagir, como coagiu, a tomá-lo como único ponto de referência. Cavaco sabia o que queria; os inimigos de Cavaco limitavam-se a saber que não queriam Cavaco."
HOMEM COM OPINIÕES
Esta semana, pelos mais desvairados motivos, vários prosélitos recorreram a Vasco Pulido Valente. Fosse por causa do dr. Soares, fosse por causa do dr. Cavaco, Pulido Valente foi invocado alternadamente como "apoiante" e "crítico" do primeiro e, com maior constância, como impiedoso "desmistificador" do segundo. Até VPV, por fim, recorreu a ele mesmo. Pela natureza das coisas, a começar pela dele, Pulido Valente não pode "gostar" do dr. Cavaco, pese a circunstância de achar que ele deve ganhar. Numa prosa reproduzida na Grande Loja, VPV opina sobre o "homem sem opiniões" que supostamente seria Cavaco Silva. O "mote" é a entrevista da TVI que eu, numa escala de 0 a 20, classificaria com um 12/13. Já pouca gente se deve lembrar dela mas, por exemplo, não custava nada ao dr. Cavaco ter admitido que a dissolução do Parlamento foi correcta e que a emergência do austero Sócrates não fez mal a ninguém. O eleitorado da "direita" sabe isso perfeitamente e não era por lho ouvir de viva voz que ia agora fugir, indignado com a evidência. Quanto ao resto, Cavaco fez bem em evitar a pequena peripécia e em centrar a sua "mensagem" como "pré-presidente", a concorrer para os 51%, como disse Pacheco Pereira na SIC Notícias, e não em masssajar o ego de oponentes que concorrem para os 20 ou para os 30, ou, de resto, para defenderem "territórios". Para não destoar e a benefício de inventário, eu também recorro a VPV, a um VPL de 19 de Julho de 1991, em O Independente, a título meramente ilustrativo de uma "opinião" como outra qualquer. "Os inimigos do dr. Cavaco nunca perceberam que a obstinação dele o punha firmemente no centro das coisas e os podia coagir, como coagiu, a tomá-lo como único ponto de referência. Cavaco sabia o que queria; os inimigos de Cavaco limitavam-se a saber que não queriam Cavaco."
AFINAL...
fala e até tem opinião. "O que é persuasivo é o carácter de quem fala e não a sua linguagem." (Menandro)
AFINAL...
fala e até tem opinião. "O que é persuasivo é o carácter de quem fala e não a sua linguagem." (Menandro)
17.11.05
CRITÉRIOS JORNALÍSTICOS-2
...vistos por Pacheco Pereira:
"Quando, muitas vezes, alguns jornalistas fazem, irritados, a pergunta retórica de quando é que "protegeram" Soares, uma das respostas está dada hoje. Soares entrou numa campanha quase de insulto pessoal, fazendo a psicanálise do seu adversário, a quem chama "complexado", ou melhor ainda, dizendo que é "complexado com ele próprio". Todo o discurso de Soares é de uma insuportável jactância e arrogância pessoal, política, mas também cultural e social. Não é muito distinto do ataque que o Independente em tempos fez a Macário Correia por ser filho de pobres. Soares não é um analista, não é um comentador, é um candidato a Presidente da República, a dita "mais alta magistratura da nação". Ora ainda não vi um único editorial de protesto contra quem está claramente a baixar o nível da campanha, editorial a que não escaparia qualquer outra personagem da política se não fosse Soares. Ou então terá o seu editorial crítico quando se encontrar qualquer coisa que permita um exercício salomónico, que, como é costume, protege o principal prevaricador. É verdade que Soares não tem tido boa imprensa ao contrário de Cavaco, mas a sua campanha também tem sido tão má que não espanta. Mas continua a beneficiar de uma enorme complacência.
E nos jornais vê-se também como um dos grandes méritos da discreta campanha de Alegre tem a ver com o que disse acima. Alegre fala de igual para igual com Soares, e não lhe reconhece um átomo da superioridade que Soares pensa que tem. Pode por isso responder com elegância ao "mau gosto" de Soares, como fez a propósito do boletim clínico que este anda a prometer exibir."
CRITÉRIOS JORNALÍSTICOS-2
...vistos por Pacheco Pereira:
"Quando, muitas vezes, alguns jornalistas fazem, irritados, a pergunta retórica de quando é que "protegeram" Soares, uma das respostas está dada hoje. Soares entrou numa campanha quase de insulto pessoal, fazendo a psicanálise do seu adversário, a quem chama "complexado", ou melhor ainda, dizendo que é "complexado com ele próprio". Todo o discurso de Soares é de uma insuportável jactância e arrogância pessoal, política, mas também cultural e social. Não é muito distinto do ataque que o Independente em tempos fez a Macário Correia por ser filho de pobres. Soares não é um analista, não é um comentador, é um candidato a Presidente da República, a dita "mais alta magistratura da nação". Ora ainda não vi um único editorial de protesto contra quem está claramente a baixar o nível da campanha, editorial a que não escaparia qualquer outra personagem da política se não fosse Soares. Ou então terá o seu editorial crítico quando se encontrar qualquer coisa que permita um exercício salomónico, que, como é costume, protege o principal prevaricador. É verdade que Soares não tem tido boa imprensa ao contrário de Cavaco, mas a sua campanha também tem sido tão má que não espanta. Mas continua a beneficiar de uma enorme complacência.
E nos jornais vê-se também como um dos grandes méritos da discreta campanha de Alegre tem a ver com o que disse acima. Alegre fala de igual para igual com Soares, e não lhe reconhece um átomo da superioridade que Soares pensa que tem. Pode por isso responder com elegância ao "mau gosto" de Soares, como fez a propósito do boletim clínico que este anda a prometer exibir."
CRITÉRIOS JORNALÍSTICOS-1
vistos por António Ribeiro Ferreira:
"Porque será que a comunicação social escrita e falada deixou cair no mais profundo dos silêncios a entrevista de Cavaco Silva? Nem editoriais, nem análises, nem comentários. Falam de tudo e de mais alguma coisa e nada sobre o candidato natural de Loulé. Muito estranho, muito estranho mesmo. Olhem que neste sítio as pessoas ainda não são castigadas por terem opinião. Ainda. A vidinha está difícil, mas vá lá, ao menos disfarcem. Leiam a blogosfera e vejam o debate que vai por aqui."
CRITÉRIOS JORNALÍSTICOS-1
vistos por António Ribeiro Ferreira:
"Porque será que a comunicação social escrita e falada deixou cair no mais profundo dos silêncios a entrevista de Cavaco Silva? Nem editoriais, nem análises, nem comentários. Falam de tudo e de mais alguma coisa e nada sobre o candidato natural de Loulé. Muito estranho, muito estranho mesmo. Olhem que neste sítio as pessoas ainda não são castigadas por terem opinião. Ainda. A vidinha está difícil, mas vá lá, ao menos disfarcem. Leiam a blogosfera e vejam o debate que vai por aqui."
16.11.05
O SUPRA LOUÇÃ
Espera-se de um antigo chefe de Estado, mesmo que deste país desgraçado, um módico de gravitas. Soares, sem nunca ter tido necessidade de abdicar da sua essência, soube mantê-la até decidir impingir-se ao PS como candidato presidencial. Nos seus comentários e nas suas posições sobre a vida pública, manifestados aqui e ali ao longo dos anos, essa gravitas sobressaía e Soares era ouvido. Aliás, até à emergência de Barroso, fazia questão em frisar que, por ter sido o que foi, não gostava de se pronunciar acerca das "nossas coisas". O aparecimento de Bush e a saída provisória de cena dos seus compagnons de route, colocaram-no irreversivelmente na destrambelhada rota actual. Tudo piorou a partir de Agosto. O "moderado" de 86 e dos anos noventa deu lugar a este indefinível supra-Louçã em que Soares se transformou de forma quase patológica. A "tirada do dia" - mais uma para ver se Cavaco Silva lhe presta alguma atenção -, para além de vir na linha "psicanalítica" da imediatamente anterior, é, ainda por cima, mal educada. Dizer de outro candidato que ele é "complexado", deixa para trás qualquer argumentário mais "delicado" do líder do BE, cuja pretensão presidencial parece tê-lo provisoriamente serenado. A inominável arrogância e a insuportável mesquinhez de Soares estão a fazer dele o candidato mais obsessivamente preconceituoso destas eleições. Onde estava a gravitas serena que nos habituámos a admirar, ficou uma espécie de arrivismo gratuito, mais adequado a uma candidatura marginal. É poucochinho e é paupérrimo.
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