30.8.14

O "surpreendido"


 


António Costa tem na Câmara que virtualmente lidera uma coisa em forma de vereador chamada Sá Fernandes, mais conhecida pelo defunto "Zé que faz falta" do quase defunto Bloco. O desdito "Zé" começou a sua carreira artístico-política graças a umas inocuidades que debitou a dado momento sobre Lisboa e que entusiasmaram umas quantas notabilidades "independentes", por natureza, impressionáveis e crédulas. O Bloco abocanhou-o mas o "Zé" queria voar sozinho como é próprio das cabeças de vento. Aí o dr. Costa deu-lhe serventia de vereador para as vias, ciclovias - essa praga desenhada com os pés - e aparentemente jardins. Mas, sobretudo, anulou-o e exibiu-o na lapela como prova do "Corso" português das esquerdas que se imagina. Deixou-o, a ele e aos restantes veradores, à solta, porque, lembrou numa entrevista recente, os lisboetas que votaram nele não elegeram um presidente de Câmara mas, antes, um putativo "salvador" laico a quem sonham poder atribuir "mais responsabilidades". Sucede que o "Zé" não pode ser largado por aí como, por exemplo, o vereador do lixo, o sr. Cordeiro, que anda entretido com debates partidários em nome do seu Napoleãozinho. Não admira, pois, que Costa tenha sido "surpreendido" pela peripécia anunciada pelo "Zé" de remover dos jardins em frente aos Jerónimos os "símbolos do império" porque, diz, a câmara não pode efectuar a manutenção de arvoredo que ressume a "colonialismo" e a um "passado" que já não existe (por esta "ordem de estupidez", por que não começar pelos Jerónimos?). A mim não me "surpreende" que uma nulidade como o "Zé" se proponha a este género de disparates. Já me preocupa que António Costa se "surpreenda" com isto como se não fosse nada com ele. Candidato a quê? A primeiro-ministro? Por amor de Deus.

29.8.14

Dignidade


 


Cruzei-me com Judite de Sousa, no princípio dos anos 90, numa "passagem de ano" em casa de Manuela Moura Guedes e de José Eduardo Moniz. Moura Guedes tinha nessa altura um programa na RTP no qual uma amiga minha, a jornalista Ana Pereira da Silva, colaborava. Ela estava sozinha depois de uma separação recente, e eu sou sozinho por natureza, pelo que a gentileza da dona da casa e a amizade da Ana juntaram-nos ali por um acaso de inesperadas horas. De Judite de Sousa retive imagens de alegria, de jovialidade e de muita simpatia. Passaram mais de vinte anos e voltei a cruzar-me com a directora adjunta da informação da TVI quando o então ministro Miguel Relvas foi a Queluz para uma entrevista. De resto, limito-me a observar o seu trabalho que, agora, regressou acompanhado de uma dor impronunciável. Comoveu-me a dignidade profissional demonstrada neste regresso. Porque entrevi no olhar e nos gestos de Judite a alegria, hoje devastada pelo luto do amor, daquela longínqua passagem de ano. Todo o amor é luto do amor como escreveu Marguerite Duras. É esse amor, Judite, que "salva".

Um barrete completo


 


O orçamento rectificativo - o oitavo da saga "reformadora" do dr. Passos -  serve para o governo lavar os fígados por uns dias. Porque não tarda nada e já aí está o primeiro para 2015. Toda a gente, das esquerdas e das direitas, apresentou rectificativos. Mas este tem incorporado um "brinde": a brutal receita fiscal, 37 mil milhões de euros. O governo falhou a "reforma do Estado". O governo não consegue gerir politicamente os 134% do PIB em dívida pública porque é "torto". O governo regozija-se com uma taxa de desemprego de 14% porque a "Europa", no meio da sua proverbial impotência, acha este valor "exemplar". O governo chafurda no impasse das exportações, da balança comercial e do crescimento como um bebé numa banheira de plástico cor de rosa. Quem participou inicalmente "nisto", só pode sentir-se frustrado e irritado com esta contabilidadezinha torpe enquanto "programa" único de vida do governo. Sobretudo quando o "mérito" dela advém, como resulta do rectificativo, de terceiros: os contribuintes. Quando se diz que "não há folga" está-se a querer dizer "não esperem menos do que isto em 2015". Um barrete completo.

28.8.14

Nós e um amor de Proust


 


Ontem, no canal ARTE, passou um documentário sobre Marcel Proust e o La Recherche. Ou melhor, um documentário feito a partir de depoimentos de leitores de Proust. Para aquelas pessoas, Proust é uma presença permanente desde cedo nas suas vidas. Falavam dele, dos lugares e dos nomes na obra como se estivessem em família. Comparavam as suas experiências, a saber amorosas, com a arte de Proust e com Proust sempre a ganhar à vida como indicava Oscar Wilde. Como a circunstância de um primeiro beijo representar o primeiro passo da despedida em vez de, como frivolamente se entende, dar início a algo verdadeiramente jubilatório. As deambulações proustianas, nas vozes daqueles leitores privilegiados, carregam, na sua ironia desencantada, uma "verdade" que está para além de mera "literatura". Proust não concebeu a sua opus magnum para nos "aliviar" do quotidiano mediante longas descrições de puros movimentos, de situações imprevistas, de evocações de espaços e das deslocações físicas e anímicas das personagens neles, entre eles e entre elas. É um longo labor de aprendizagem, dele e nosso, como Deleuze explicou magnificamente. Não imagino documentário semelhante entre nós. A "identidade nacional" não passa pela presença forte de um escritor nela. Alguns, como Camões, Eça, Pessoa ou, com este regime, o Saramago, têm servido para propósitos alheios aos destes leitores do documentário francês: patrioteirismos saloios, análises "sociológicas" de 2ª classe, promoções comerciais ou regimentais, epigonismos de merda. Se arriscassem, por exemplo, coisa parecida com Pessoa ou Eça, fora dos circuitos dos seus crónicos masturbadores, o que é que deveríamos esperar? "Está à venda no Continente como o sr. Rodrigues dos Santos?", uma pergunta bem plausível. Não. Nos rostos e nas falas daqueles cidadãos franceses, mais novos ou mais velhos, homens ou mulheres, literatos ou menos literatos, estava inscrita uma coisa demasiado simples e demasiado complexa para este nosso aqui e agora que, no fundo, é um triste desde sempre: "um amor" de Proust, ou seja, "um" amor pela "palavra essencial" e pela vida tal qual ela foi, é ou vai um dia deixar simplesmente de ser.

27.8.14

O céu é o limite


 


Com quase trinta anos de serviço público (tropa incluída no tempo em que ela era viva), estas coisas deviam-me parecer mais cómicas do que trágicas (leia-se o derradeiro parágrafo com alguma da "biografia" da nova reguladora da aviação civil: «A até aqui técnica especialista para o sector aeroportuário do ministério de Pires de Lima esteve neste cargo apenas em 2013 e 2014, tendo antes sido assessora nas áreas da aviação civil na mesma tutela. Antes foi estagiária na Direcção-Geral das Actividades Económicas, professora voluntária de inglês num centro da Santa Casa da Misericórdia, consultora de uma empresa de media e técnica da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista.»). Mas ao contrário de Gil Vicente, continuo a preferir cavalo que me leve a asno que me derrube.

Ninguém falará de nós quando morrermos


 


Estava a folhear o primeiro livro de Eduardo Prado Coelho, O Reino Flutuante, quando, pela badana, reparei que teria completado setenta anos em Março último se fosse vivo. Posso não ter dado por isso mas não vi em lado algum - e, se calhar, não tinha de ver - qualquer "lembrança" dele. O que não deixa de fazer algum sentido na falta de sentido que tudo tende a levar. Anos a fio, nos jornais, nas revistas ou nas televisões, Eduardo aparecia com a frequência adequada ao seu "estatuto", praticamente isolado, do académico que preferiu prestar mais atenção ao mundo do que à academia. Naquela estonteante prolixidade, naquele entusiasmo ora álacre ora exausto, muitas vezes brilhava a "pequenina luz bruxuleante" do verso de Sena e que distingue as coisas. Nem sempre Eduardo era "justo", se o termo se pode aplicar, nessas distinções. Ou, então, errava deliberadamente nelas porque era "preciso" distinguir aquele ou aquela naquele momento, ou não distinguir aquele ou aquela a seguir. Perdia-se aqui ou ali no labirinto da facilidade do "ter de estar sempre actualizado", na prisão superficial de um quotidiano geralmente medíocre em relação ao qual ele persistia narrar um qualquer esplendor. Mas, repito, mesmo que escondida, a "pequenina luz" teimava em brilhar. Se me lembro dele é sobretudo porque muito poucos já se lembram dele. Não é possível, salvo em dois ou três casos, reter-se um nome ou sequer uma frase da multidão debitatória presente nos media actuais. Pouca "luz" tem ocasião para brilhar nesta torrente demencial de palradores e de escrevinhadores de "redacção única". Eduardo por fim escrevia todos os dias (como com certeza lia), é certo, mas separava. Esta gente não separa - que é a origem do termo "criticar" - porque não tem nada para separar ou que os separe. Ninguém falará de nós quando morrermos.


 


Foto: Luísa Ferreira

26.8.14

O regresso oficioso do escudo


 


Salvo erro por ocasião das negociações do "PAEF", o então primeiro-ministro apareceu nas televisões a dizer o que é que não constava do Programa. Hoje, o conselho de ministros extraordinário que aprovou o segundo orçamento rectificativo do ano, seguiu mais ou menos idêntica via. Sobretudo nota-se o cuidado posto em sublinhar por agora não  «haver recurso a qualquer alteração de natureza fiscal». O resto é uma conversa branca: «a revisão dos tectos orçamentais é acomodada pela evolução positiva do emprego e consequente redução da despesa com prestações e melhoria da receita fiscal e de contribuições para a segurança social, e pelo controlo das rubricas de despesa fora da despesa com pessoal.» Como escreve o Público, «o Executivo não revelou, no entanto, quais as rubricas de despesa foram abrangidas por um controlo mais apertado nem detalhou ainda o volume de receita fiscal utilizado para equilibrar as contas.» Duas coisas todavia estão praticamente asseguradas depois desta semântica débil e politicamente controlada de quem não tem mais nada a oferecer ao país a não ser vã mercearia. A primeira. é a não garantia de que não haja aumento de impostos no OE para 2015. A segunda, é a garantia de que, cada vez mais, a "acomodação" pelo lado da receita fiscal coloca a generalidade dos trabalhadores por conta de outro a receber, na prática, em escudos. Já não é o regresso clandestino do escudo de que falava o meu saudoso amigo Medeiros Ferreira. É um regresso às claras, oficioso, com a chancela de um conselho de ministros no qual o dr. Portas, o Camarlengo do governo e reputado ex-provedor do contribuinte, fez questão de vir a correr de Maputo sentar-se.


 


Foto: Pedro Nunes, Público

Despesa, a puta da República

Não há erros, não florescem obsessões, não existem incrementos negativos na economia e nas exportações, não há retraímento da balança comercial, não há impostos em barda, não há "Estado paralelo", não aumenta a dívida e os seus encargos, não falece à Europa o crescimento. Isto não é Despesa, são descasos de virgindade epistemológica. Há, por outro lado, diversas encarnações do Maligno que "explicam" praticamente tudo: o Tribunal Constitucional, os trabalhadores das administrações públicas, em particular, e todos em geral, numa palavra, a Despesa. A única. A puta da República.

24.8.14

O senhor 24%


 


Marques Mendes é um político experiente. Começou na coisa, praticamente de bibe, no governo civil de Braga. Em Lisboa foi imprescindível a Cavaco, a Marcelo e, até certo ponto, a Barroso e Passos Coelho. Teve um papel fundamental na ascensão de Fernando Nogueira à sua precária liderança do PSD entre 1995 e 1996. Conta-se que, quando este manifestou o seu desinteresse pelo lugar de Cavaco, Mendes lhe terá perguntado: "então e nós?" O resto é conhecido. Bom cacique, Mendes presidiu ao partido e acabou por o perder inesperadamente para Menezes. Daí em diante preferiu a via sacra da "influência" e dos "contactos". Quem, neste governo, não "passou" já algo a Marques Mendes? Este é o ponto. Por muito presciente que o homem seja, não "inventa". Faz, aliás, gáudio em "antecipar" agendas e decisões. Decerto não lhe ocorreu espontaneamente que a taxa normal do IVA pode passar para 24%. O ar de virgem ofendida que o dr. Passos exibiu em Valpaços é menos convincente que a fala de Marques Mendes. Até porque o seu "esclarecimento" irritado acabou por dar razão ao agora comentador. Pode não ser já mas já andam a pensar nisso, é a "moral" desta breve não história. A diferença entre um e outro é que Mendes "pensou" em voz alta o que Passos pensa entre "íntimos". Nada mais.

23.8.14

A.D.N

 



 


 


 


I
Afinal sou assim, infeliz e volúvel,
Porque minha alma guarda uma ordem diversa
De pulsões celulares ao longo do seu eixo:
Decifre-me quem saiba, — que, dispersa,
Com nome de A. D. N. aqui na cruz a deixo.

II
Nervo a pavor, fonte renal de rijo,
Cor dos meus olhos, estatura, gosto,
Quanto me importo, ó Deus, quanto me aflijo,
Tudo A. D. N. inscreve no meu rosto.

Um ticket de sonho



Numa entrevista ao Expresso - o dr. Costa queixa-se de "campanhas difamatórias" a cargo de "mercenários" de "agências de informação" o que talvez explique o recurso sistemático e sinalagmático à melhor "agência" que se pode ter, um grupo de comunicação social e o vulgo comentadeiro e jornalístico -, o presidente da CML só consegue dizer duas coisas interessantes. A primeira, quando desmitifica o abstruso conceito de "arco da governação". E a segunda, porventura a mais importante, quando "escolhe", sem aparente direito a primárias, o próximo líder do PSD: Rui Rio. Este exercício, todavia, comporta alguns riscos assinaláveis. Desde logo fragiliza qualquer putativa pretensão de Rio ao mando no PSD. Faz lembrar Mário Soares em 1985 quando anelava por um Machete ou por um Salgueiro. Saiu-lhe um Cavaco que, nessa altura, era mesmo Cavaco. Os "laranjinhas", tal como os socialistas ou outra seita partidária qualquer, não apreciam que lhes "indiquem" o chefe. Muito menos alguém que aspira a substituir o incumbente já em 2015. É evidente que o que Costa está a dizer é que Passos sai, fatalmente derrotado por ele, e segue-se-lhe Rio que, à semelhança do que fez na CML com duas ou três produções avulsas das esquerdas, ele enfiará no bolso com meia dúzia de "sempre-em-pés" do PSD que alinham com tudo o que cheire a poder. Nada disto é lisonjeador nem para Costa nem para Rio. Costa, mesmo que ganhe a Seguro, nunca obterá uma maioria absoluta pelo que ensaia meter o famoso punho esquerdo na algibeira. De momento, como se depreende do tom geral da entrevista, o "costismo" não passa de uma mera placa giratória para vingar Sócrates e o "interregno" de Seguro. Rio, por seu turno, nem sequer sabe o que é, ou quer, embora Costa lhe aponte o caminho. Um ticket de sonho, como diriam os videntes Marcelo e Pacheco.

Um "DDT" sobrevivente


 


Consta que o dr. Mexia, da edp, vai processar, ou já processou, o secretário de Estado da Energia, Artur Trindade, por causa da chamada tarifa social da electricidade. O Artur Trindade é um governante de boa-fé e um homem decente. Neste governo, como nos antecedentes, o dr. Mexia teve sempre uma "facção" com ele e um ou dois interlocutoress privilegiados. Com Passos, essa "facção" apaparicava Mexia enquanto permitia que ardessem na fogueira da vaidade do patrão da edp ministros e secretários de Estado pouco dispostos a dar mais relevância a Mexia do que a que o regime lhe tem concedido. Coitados deles. Como é do conhecimento geral, a coisa começou na demissão do antecessor de Trindade e acabou, numa "operação" politicamente mais vasta, na remoção de Álvaro Santos Pereira. Aparentemente o Artur Trindade quer defender mais os consumidores do que o dr. Mexia pretende consentir que se defendam. Porquê? Porque o dr. Mexia ainda é um dos "donos disto tudo". O Artur que se cuide.

21.8.14

Uma sugestão


 


Numa noite branda da primavera de 2011, no Nobre ao Campo Pequeno, jantava um pequeno grupo de bloggers. A "estrela" do convívio era o dr. Passos Coelho. Sentado à minha frente, o actual primeiro-ministro defendeu a frugalidade dos gabinetes governamentais. O que passava, esclareceu, por "privilegiar" o recrutamento de gente das administrações públicas face ao tradicional cortejo de "rapazes" e "raparigas", em geral desbiografados salvo em matéria partidária ou afim. "Gabinetes pequenos e funcionais", dizia. Por outro lado, e nesta "linha", pretendia combater-se o chamado "Estado paralelo". Conservo o manuscrito, a lápis, do "preâmbulo" do Programa do Governo onde isso ficou assente: fui eu que o escrevi. Na altura até tive de "explicar" ao actual secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Bruno Maçães, acabado de aterrar em Portugal, o que é que "Estado paralelo" queria dizer. Imagino que presentemente esteja supra-esclarecido sobre o tema. Mesmo assim, o Governo - este mesmo, o do "Programa" - insiste em coisas como contratar «quase 500 mil euros de serviços de assessoria externa» porque «apesar do ministério [da Defesa] ter um gabinete jurídico, a opção de recorrer ao exterior foi justificada com o facto de o contrato prever tanto assessoria financeira como jurídica». Mais. «É jurídico o grosso dos serviços externos a que o Ministério da Defesa tem recorrido. E de acordo com os dados disponibilizados publicamente pelo Estado, desde o início deste ano, aquele ministério já celebrou contratos deste tipo que podem vir a chegar ao valor de 493.624 euros. Sem concurso público, com a maioria dos casos a resultarem de ajuste directo.» Porquê? «O gabinete de imprensa do ministro da Defesa explicou que a razão para o recurso a este tipo de serviços tem que ver com a “complexidade” das matérias e o vínculo anterior aos processos.» Voltamos ao princípio da conversa. O Estado tem juristas que aprecia tratar como idiotas naturais ou complexos conforme a "natureza" deles e de quem manda neles. Paga-lhes mal para, pelos vistos, ter uma "reserva" para os grandes escritórios do regime, alguns mencionados no artigo do Público. O dr. Passos e os seus próximos não se pouparam, nas palavras e nos gestos, em demonstrar o que, afinal, "pensavam" de quem serve a função pública e aparentada. Entretanto, e a um ano do final da legislatura, o "jornalismo de investigação" podia apurar até que ponto o "desejo" inicial, manifestado naquela já longínqua primavera de 2011, se concretizou. Ou seja, quantos trabalhadores das administrações públicas estiveram afectos aos gabinetes do executivo (a começar pelo do próprio PM) e quantos estão actualmente nessas funções. Fica a sugestão.

E ele foi copiado de onde?


 


Através de uma "iniciativa" do secretário de Estado da Cultura Barreto Xavier, e a pretexto dos "direitos de autor", o governo aprovou mais uma taxa que tem contornos de novo imposto com esta original "explicação" que faz de cada um, e de todos, um "pirata" em potência: «“Não é possível saber pessoa a pessoa o que é que cada um copia”, defendeu o secretário de Estado da Cultura, respondendo às críticas sobre o facto de quem compra uma obra ter de pagar uma taxa para cobrir a hipótese de vir a copiar esse mesmo conteúdo que adquiriu. De acordo com o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, Luís Marques Guedes, o valor da receita com a lei da cópia privada ascendia em 2006 a cerca de 7 milhões de euros, ou seja, muito inferior aos 15 milhões que agora se prevê. O que, segundo Marques Guedes, se explica pela “obsolescência dos equipamentos tecnológicos que resultou numa perda de receita para os autores” e pelas novas “exigências do universo digital” nos dias de hoje. Questionado sobre o destino do montante encaixado com a aplicação da taxa, o secretário de Estado da Cultura limitou-se a dizer que a distribuição das fatias que vão para os autores e os artistas se mantém conforme já estava previsto na directiva de 2004. E acrescentou que se houver excedente, o dinheiro vai reverter para o fundo de fomento cultural “para evitar que haja desequilíbrio”. “Caso contrário, a compensação equitativa deixava de ser equitativa e passava a ser excessiva”, disse.» Uns baldes com qualquer coisa menos água pelas cabeças deles abaixo e não se perdia nada. Era, aliás, "equitativo" sem ser "excessivo".

Duche frio

«A economia está a abrandar, longe de qualquer coisa que se possa chamar retoma. Pelo contrário, os sinais são de aproximação de uma perigosa estagnação, com quebras na procura interna e nas exportações. É o duche frio, e o Governo continua a repetir a mesma lengalenga, sem vigor nem ideias para enfrentar a situação. E da União Europeia não chegam boas notícias, a estagnação é também aqui o traço geral dos dados agora divulgados pelo Eurostat, com a Itália, a França e a própria Alemanha em queda. A Itália entrou mesmo em recessão, a França ficou num crescimento zero e a Alemanha surpreendeu toda a gente, com o seu PIB a recuar 0,2%. De resto, na Alemanha o barómetro dos investidores caiu no último mês de 27 para 8 pontos, o que torna cada vez menos credível que ela continue a ser vista como a locomotiva do crescimento da União Europeia, capaz de diminuir o seu nível de dívida pública, que anda nos 94%*, ou de desemprego, que está em 11,5%. E os factores externos, com a crise russa à cabeça, não vão certamente ajudar.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN


 


*a nossa já vai gloriosamente em 134% do PIB.

20.8.14

Intimações de mortalidade


 


A bordo de um avião, Francisco decidiu aliviar-se diante dos jornalistas. Deu-lhes a entender que "isto" ("isto" é o seu pontificado) poderia durar apenas mais dois ou três anos. E que, se fosse o caso, seguiria o exemplo do seu antecessor Bento XVI e resignaria. O desprendimento de Bergoglio não deve causar estranheza. O Espírito Santo, o verdadeiro, que costuma invadir a Capela Sistina cada vez que se trata de escolher o sucessor de Pedro, "inspirou" os cardeais num sentido, digamos assim, mais pedestre. Era preciso arrumar a casa e o bispo argentino, livre de compromissos e de intimidades cortesãs, servia. Ao mesmo tempo que beijava criancinhas e autografava braços a devotos, Francisco ia tratando discretamente da intendência e, mais conspicuamente, da fé. Nesta parte, sabendo que nunca podia chegar aos calcanhares de Ratzinger ou de Wojtyła, o Papa preferiu "recuperar" o "social" da Igreja em tempos de hiper-capitalismo e de hiper-individualismo. A esquerda mundial, com a sua proverbial pequena burguesia de espírito e o seu obtuso fanatismo, viu no homem a encarnação daquilo que os seus dirigentes superficiais não conseguem "oferecer" para lá de negócios: uma "ideologia". Por exemplo, entre nós Mário Soares ainda não parou de tremelicar diante de "Sua Santidade" como dantes se inclinava face à "santidade" laica e republicana representada pelo egrégio Dr. Afonso Costa ou, agora, face ao "profeta" democrata Obama. Francisco decerto já intuiu que o oportunismo - político, económico e estético - que grassa pelo mundo inteiro se "colou" à sua iconoclastia tipicamente latino-americano. E deve estar decepcionado. Jesus, como proclama João, "venceu o mundo". Não contemporizou com ele. Francisco sabe até onde pretende ir mas não deseja ir mais além. Sente-se bem com o "povo" mesmo que não seja o "seu". Todavia não pode deixar de olhar para as "elites" globais com a incredulidade de quem contempla o abismo e o vazio. Este mundo de artistas de variedades em que tudo se tornou fere o religioso mesmo que divirta por vezes o homem. Bergoglio, até por formação e devoção, não quer que a sua simplicidade venha a confundir-se com vaidade. Deu, por isso, um tempo ao seu tempo. À sua peculiar maneira, vencerá oportunamente um mundo que, na realidade, não é o dele.


 


Foto: AFP/Getty Images

19.8.14

Inferioridades

A maioria PSD/CDS, apesar das férias parlamentares, quer convocar a correr um "plenário extraordinário" para refazer os "cortes" de acordo com o acórdão do Tribunal Constitucional. Parece que a maioria já não tem mais nada para propor ao país a não ser "ajudar" o governo na sua intendência de vistas curtas. Podemos continuar com Vergílio Ferreira. «A imbecilidade é a inferioridade humana mais razoavelmente partilhada.» Maioritária, até.

18.8.14

As "reformas estruturais"


 


Para, como ele explicou no calçadão, não afectar mais os pensionistas com a "instabilidade constitucional", o dr. Passos aparentemente já deu ordens para manter a CES pelo menos em 2015. Quanto aos trabalhadores das administrações públicas e similares, cujos rendimentos médios sofreram nos últimos quatro anos uma redução da ordem dos 20%, e de 5% em apenas um ano  (o último) - fora os impostos et al -, só mesmo depois de mortos é que muitos deles recuperarão, na prática, alguma coisa. São "marcos" a crédito do dr. Passos o qual, segundo o Sumo Vidente Marcelo, já fez o que devia fazer, ou seja, com estas e outras "reformas estruturais" já ganhou a sua estátua do comendador mesmo que não fique no ano que vem. E seja eventualmente substituído pela nova dream team tirada do pudim flan do mesmo Marcelo, Costa e Rio respectivamente por esta ordem (Marcelo terá recorrido aos pseudónimos que em tempos usava nos jornais para se "inscrever" como "simpatizante" de Costa e como detractor primitivo de Seguro?) Mas há mais "reformas estruturais" destinadas a evitar que as pessoas se "instabilizem" em demasia como esta, da excelsa cabeça do dr. Barreto Xavier, sobre a lei da cópia privada - como se os "operadores" não repercutissem nos consumidores tudo o que o possa maçar a sua farta mercearia. Por estas e por outras, por estes e por outros, como escreveu Vergílio Ferreira, «tenho um dia a começar, uma semana a começar. E é como se tivesse de erguer a pulso a vida toda e ela fosse um astro morto.»


 

17.8.14

Costa e os pombos


 


O presidente da Câmara de Lisboa, em "tempo parcial", proclamou há dias possuir uma "visão estratégica" para o PS, primeiro, e para o país, a seguir. A dita "visão" é um conjunto de banalidades de entre as quais, prudentemente, não constam demasiadas elaborações sobre as finanças públicas ou as "alianças". O dr. Costa, ao contrário do que a propaganda amiga sugere, não congrega nada: mete avulsamente no bolso meia dúzia de irrelevâncias que, só por isso, passam a ter um estatuto de "aliados". Nunca é o Bloco, o PC, o PSD ou o CDS. São criaturas espúrias que pertenceram ou pertencem àquelas agremiações e que Costa, conforme as circunstâncias, exibe a seu lado para as anular. Sabe que o país nunca lhe dará, nem a ele nem a ninguém, qualquer maioria absoluta a qual duvido possa ele sequer obter junto de militantes e simpatizantes em Setembro. Costa é um político de salão, filho do regime, que conhece o resto do país pelo telefone e de umas aparições enquanto MAI por causa dos fogos. Só agora, e porque Seguro não lhe entregou o poder de mão beijada, anda a ser "mostrado" pelos fiéis do "interior" norte e sul. Mas, dizia eu, o homem diz ter uma "visão estratégica". Ora se nem sequer tem, por exemplo, uma para tratar a praga dos pombos de Lisboa (e das malucas e dos malucos que os alimentam porcamente por todo o lado), como é que quer que se acredite nele para a pastorícia nacional? Dizia Ary dos Santos, nuns poemetos revisteiros, que "estes pombos de Lisboa, quem os conhece sou eu". Quem é que os pode apresentar ao dr. Costa?

16.8.14

Homens de mundos abolidos


 


Passei grande parte do feriado religioso a rever os sete episódios de A Toupeira - no original de Le Carré, Tinker, Tailor, Soldier, Spy -  protagonizados por Alec Guiness no papel de George Smiley. Na véspera, consolora-me no cinema (o termo é inadequado para as "histórias" de Carré porque não existe consolo algum nas suas personagens principais) com Um homem muito procurado, um dos derradeiros trabalhos de Seymour Hoffman. Smiley é um homem sem ilusões quanto à vida privada e profissional. A mulher trai-o, os colegas também. Numa conversa com um "fiel" que escolhe para o ajudar a descobrir a "toupeira", Smiley admira-se por aquele ainda não ter sido "corrido" como ele fora. "Você é uma boa pessoa, leal e discreto. Como é que não o demitiram?". Gunther/Hoffman trabalha praticamente na clandestinidade, com meia dúzia de confiáveis, para, conforme lhe tinha explicado uma hipócrita burocrata da CIA que o trairía uma segunda vez, prosaicamente "tornar o mundo um lugar melhor'. Estes grandes solitários, Smiley e Gunther, guiam-se por uma "moral" incompreendida que nem as vidas íntimas ou, muito menos, as de trabalho em geral consentem. Suportam a traição com um estoicismo simultaneamente desencantado e profissional. Smiley será bem sucedido, Gunther não. São homens de mundos abolidos. Ainda há alguns, poucos, por aí  sempre dispostos a tentar e a fracassar. E a tentar de novo e a fracassar melhor. São homens, nas palavras de Le Carré sobre Gunther/Hoffman, que circulam «à volta da Lua sete vezes por cada vez que nós o fazemos», que se perguntam, sem nunca conseguirem encontrar resposta, «em que ponto exactamente é que eu perco todo o sentido de moderação? Por que é que insisto em continuar com tudo isto quando bem lá no fundo sei que apenas pode acabar em tragédia?»

Recuar para tomar balanço


 


O dr. Passos usou expectavelmente o calçadão de Quarteira para dar início à sua campanha eleitoral. Jurou pela "ética", pelo "nojo" em relação à promiscuidade entre a política e "os negócios" e prometeu aos pensionistas não os voltar a maçar, pelo menos até às eleições, com a "reforma da segurança social" (como se tivesse produzido uma) já que os ditos cujos não podem estar sujeitos - disse ele sem se rir - a uma permanente "incerteza" (perpetrada por ele) jurídico-constitucional. Votou ao desprezo aquela "gente" (sic) que não o deixa "mudar" a pátria em paz e sossego o que presumivelmente deve incluir os juízes do TC, a oposição e os "velhos do Restelo" (esta é do Marco António) que teimam em não enxergar a beatitude salvífica do exercício geral. Um editorial viu nestas facécias um Passos "desistente". É não entender uma molécula da peça. Como passava a vida a dizer um seu antigo muito próximo colaborador (e, em certa medida, "criador"), "só recuo para ganhar balanço". Ora o dr. Passos é desta "escola" em refinado. Se sugeriu, pela enésima vez, um "acordo" ao PS sobre a segurança social antes das eleições, é porque sabe que não o vai ter e que pode explorar isso a seu crédito. Se sossega os reformados, e outras espécies que não "contribuem" para a "mudança", é porque algures arranjará uma via "indirecta" para "aquela gente" que o atrapalha não julgar que ele brinca em serviço ou em eleições. Tudo isto pode ser lido, por exemplo, no Portugal Contemporâneo, do Oliveira Martins, com as devidas adaptações: não há militares com "aspirações" (aliás, não há militares), os "pares" do "reino" são outros, embora não menos rapaces e analfabetos, e a presunção redentora do "chefe" provisório é idêntica. Para o ano há mais.


 


foto LUÍS FORRA/LUSA

14.8.14

Pegar ou largar

Enquanto pude - e, acreditem, pude muito pouco ou nada -, "recomendei" a quem de direito (até por escrito) que se suscitasse preferencialmente a fiscalização preventiva das normas orçamentais. Era manifesto desde o primeiro momento que a execução do PAEF (e a sua supra-execução pelo governo) podia não ser sempre "compatível" com a Constituição. Invariavelmente o "pensamento único", "profundo", que prevalecia no "eixo Terreiro do Paço - São Bento" considerava isto uma extravagância absurda. Este verão, todavia, o governo mudou de opinião e "exigiu" ao Doutor Cavaco que, até ao final da legislatura, os principais diplomas passem pelo crivo preventivo do Constitucional. Os sucessivos pronunciamentos do Tribunal revelam que o grosso das "medidas PAEF" passaram ao contrário do que se quis fazer crer. Sempre mais polémicos, por visarem directamente a ponderação que as pessoas têm de fazer nas suas vidas com um mínimo de segurança jurídica e de previsibilidade económica, os "cortes" dirigidos aos pensionistas e aos trabalhadores do Estado provocaram sempre um razoável tumulto político na relação da maioria com o TC. Porque, na verdade, desde os idos de Sócrates (que agora Passos pretende recuperar para se "vingar" do último "corte" falhado) que estes dois "segmentos" são tratados como vulgares prostitutas para efeitos de rendimento, respectivamente "reformadas" e ainda "no activo", sem ir aqui qualquer acrimónia judicativa sobre tão nobre profissão que tanto porfia pela harmonia social e o equilíbrio familiar. Nem uns nem os outros sabem, vai para quatro anos, com o que é que podem contam no dia do vencimento da sua pensão ou do seu salário. Independentemente do que o Tribunal Constitucional decidir, é esta a "marca" que persistirá mês após mês, ano após ano: mais ou menos, menos ou mais, tira e põe, põe e tira sem nenhuma explicação entendível com escolaridade a partir da antiga 4ª classe. É só pegar ou largar.

Os "videntes televisivos" e a democracia


 


Vistos por Manuel Maria Carrilho. «O espaço público português está minado por excentricidades que a Europa não tolera, mas a que Portugal parece resignado. Como se tivesse perdido sensibilidade em relação ao seu carácter democraticamente devastador. Porque é na informação e no comentário que se constroem e destroem os factos, os projectos e os protagonistas políticos, decisivos para a vitalidade e qualidade da nossa vida colectiva. O seu poder é portanto imenso, e a sua responsabilidade devia ser do mesmo gabarito - mas não é! (...) André Macedo acerta em cheio quando diz que "a cama do poder mudou-se para o quarto poder". Mas também podia ter lembrado Stuart Mill, que escreveu que a democracia é sempre um combate contra os "interesses sinistros" que desprezam o bem público. E que o combate continua.»

13.8.14

O triunfo do calçadão?

Crato - sempre essa fatalidade ambulante - prepara-se para "cortar" 14 milhões no financiamento público às universidades. O que dá um péssimo "tom" para o que se deve esperar do orçamento para 2015. A troika teoricamente já saiu de Portugal mas Portugal ainda não saiu do "espírito" da troika. O desinvestimento na qualificação acabou por se transformar numa opção política "de fundo" curiosamente caucionada por um professor universitário. Passos arranca para o derradeiro ano do seu mandato no calçadão de Quarteira. Foi aí que começou, há quatro anos, era apenas presidente do PSD. Se persistir em apoucar a política em prol do financês, e das vénias serviçais ao eixo Berlim-Bruxelas, suponho que não irá muito longe em 2015. Da mesma forma se insistir em figuras politicamente caricatas como Crato, uma das imensas decepções da legislatura. Mas num país de "clowns sem miolo" tudo é possível, até mesmo trocar de novo o calçadão pelos pavões de São Bento. A indiferença é tanta que o efeito anestesiante, a par com o receio do "ainda pior" ou do "ainda mais nulo", pode render. Até a bola regressou atempadamente, com as suas grandezas e misérias, para ajudar a este desgraçado folclore. Descontados os Cratos da sua corte, não é lúcido subestimar Passos porque nunca se deve sobrestimar o "povo". As lérias do dr. Costa, só igualáveis à sua lata, vieram mesmo a calhar. Estão, de facto, muito bem uns para os outros.

12.8.14

Uma gota

Leio nos jornais que "Portugal perdeu meio milhão de jovens". Dito assim, suscita-se uma série de dúvidas. Perdeu como? Morreram em alguma catástrofe natural? Andam embarcados entre o norte de África e a costa italiana? Mudaram-se para a Nigéria ou para a Libéria? Na dúvida, fui ler as 22 páginas do INE. Trata-se da faixa etária compreendida entre os 15 e os 29 anos e reportam-se à última década. Poucos nascimentos, ou nenhuns, em alguns concelhos há uma data de tempo, concomitantemente com o envelhecimento da população, explicam o fundamental da coisa. Pelas contas do INE, emigraram nos últimos anos à volta de 26 mil destes jovens mas, em compensação, entraram mais de cem mil, na maioria de nacionalidades brasileira, cabo-verdiana e romena. Alguns borrifaram-se para os "estudos" e, dos que estudaram "superiormente", uns integram o lote que saiu e outros o lote do desemprego ou do emprego temporário. Tendem a não casar - como se casar fosse obrigatório - e a ficar até mais tarde na casa dos pais ou, nalguns casos "desviantes" devidamente apontados, nos antigos "reformatórios". É pena o relatório não mencionar, por exemplo, os países onde os jovens emigrados "mais qualificados de sempre" aterraram. De certeza que, salvo um ou outro que acredita estupidamente na salvação do homem, não viajaram para o "corno de África", o Iraque ou a faixa de Gaza. Cada vez que ouço na rádio um jovem "emigrado", invariavelmente fala-me a partir da Europa - da Inglaterra, muitos -, da América do Norte e do Sul ou de algum país dito emergente onde o capitalismo "democrático" floresce como cogumelos venenosos. A terem saudades de alguma coisa é da comida e, mais remotamente, dos amigos e da família com quem afinal podem contactar facilmente pela via electrónica. Não tenho um átomo de pena desta geração e destes jovens: a "solidariedade intergeracional" é uma falácia. Os que cá ficam, novos ou velhos, podem até morrer de amargura e da penúria dos fundos de segurança social, privada ou pública, que estes jovens emigrados estão-se nas tintas. Serão "exemplares" mas acima de tudo para si próprios. Uma maneira interessante de "celebrar" esta trupe "mais qualificada de sempre" era escrever um livrinho (logo agora que está em moda escrever livros a pretexto da "crise") sobre o destino dos filhos e das filhas das "elites" nacionais na faixa do estudo do INE e com mais uns anitos, até aos 35. Dificilmente os iremos encontrar nas filas do IEFP, agarrados a um PC a enviar currículos sobre currículos para a estratosfera, a caminho de um call center ou num comboio ou barco da periferia para Lisboa para pastar melancolicamente a vaca. Num país a "perder-se" todos os dias, o meio milhão de jovens numa década é uma gota. Até pode ser de sangue, mas não deixa de ser uma gota.

Robin Williams


 


Quando ouvi num noticiário da rádio o modo da morte do actor Robin Williams, lembrei-me imediatamente de outro Williams, Tennessee, que saiu daqui da mesma maneira. Robin era talvez mais conhecido pelos seus papéis ditos cómicos, como A Gaiola das Loucas ou Mrs. Doubtfire. Mas nas interpretações ditas dramáticas, Williams foi extraordinário - no solitário empregado de uma loja de fotografias que "vivia" por interpostas imagens de famílias que exalavam a felicidade que ele apenas podia recriar na sua imaginação depois da revelados os rolos, no improvável assassino numa remota cidadezinha no Canadá onde o sol nunca se punha ou no professor do premonitório "clube dos poetas mortos". Pessoas como Robin ou Tennessee pertenciam àquela noite do mundo da qual nunca conseguiram sair nem sequer pelo efeito histriónico da representação. É-lhes insuportável encarar até ao fim o espectáculo patético da vida mesmo que, em momentos fulgurantes, tenham conseguido fazer do espectáculo uma vida. Parece que aquele sorrriso escondia, afinal, uma dor profunda e uma impossibilidade vital. Diz-se que há duas coisas que o homem não consegue encarar de frente: o sol e a morte. É falso. Há seres maravilhosos, como Robin ou Tennessee, "o pássaro glorioso" de Gore Vidal, que tiveram a coragem de os enfrentar. Porque um não vai sem a outra. Não adianta explicar.

11.8.14

Uma "ideia" de Forças Armadas


 


A lenta e metódica dissolução das Forças Armadas - sentidas pelas pessoas e valorizadas pelas elites enquanto elemento indissociável da coesão nacional e não como um mero part-time bem remunerado no estrangeiro - começou com o fim do serviço militar obrigatório. O "25 de Abril", por exemplo, só foi realizável porque existia o SMO. As FA's emanavam da sociedade e eram como que "renovadas", independentemente do quadro permanente, pelas sucessivas incorporações. Para além de o chamado "processo de Bolonha" ter precipitado precocemente muitos jovens na "vida material" (sobretudo no lado negro dela, o desemprego), o não cumprimento do serviço militar obrigatório não os ajudou em nada a uma melhor compreensão e aceitação da realidade. A política, na sua incansável estupidez corporativa transversal, passou a tratar as FA's como mais uma extravagância que é preciso amputar cegamente sem as levar em demasiada conta. A submissão ao poder político democrático, uma imposição constitucional, tem-se sobretudo traduzido num lastro de necedade legislativa no qual cada senhor que se segue na Avenida da Ilha da Madeira pretende deixar a sua "marca", geralmente uma nódoa. Até muito recentemente não ouvíamos militares prestigiados dizerem o que dizem das várias tutelas. Aguiar-Branco não ia certamente destoar de um caminho sem regresso comum ao chamado "arco da governação". Até porque demonstra ter talento político para pouquíssimas coisas. Quando se "candidatou" à liderança do PSD, em 2010, foi uma outra candidatura que lhe providenciou as assinaturas: o homem, aliás, não está ministro por acaso. Nunca tive, nem terei, uma concepção patrioteira destas coisas. Mas deve haver um mínimo de sentido decente de Estado pelo qual também passa uma "ideia" de Forças Armadas. E não há.

10.8.14

Cão não como nós



Eu gostava de ter um alto destino de poeta,
Daqueles cuja tristeza agrava os adolescentes
E as raparigas que os lêem quando eles já são tão leves
que passam a tarde numa estrela,
A força do calor na bica de uma fonte
E a noite no mar ou no risco dos pirilampos.

Assim, gloriosos mas sem porta a que se bata;
Abstractos mas vivos;
Rarefeitos mas com o hálito nebuloso nas narinas dos animais,
Insinuado nos lenços das mulheres belas, cheios de lágrimas,
Misturado às ervas grossas da chuva
E indispensável aos heróis que vão rasgar no céu, enfim, o último sulco!

Ser a vida e não ter já vida ‑ era um destino.

Depois, dar a minha Mãe a glória de me ter tido;
A meu Pai, vendado de terra, um halo da minha luz; e tocar tudo,
Onde eu houvesse estado, de uma sagração natural; ‑
Não digo como as Virgens Aparecidas,
Que tornam imbecis e radiosos os pastorinhos,
Mas como certo orvalho de que me lembro, em pequeno – Para lá da janela a luz cortada por chuva,
E uma prima que amei, a rir, molhada, chegando;
Mar ao fundo.

Tudo isto, e vontade de dormir, também em pequenino,
E logo uma mão de mulher pronta a fingir de asa aberta,
E preguiça,
Impressão de morrer do primeiro desgosto de amor
E de ir, vogando, num negrume que afinal é toda a luz que nos fica
Desse amor forrado de desgosto,
Como as estrelas encobertas,
Que, depois de girar a nuvem, mostram como estão altas:

Tudo isto seria aquele poeta que não sou,
Feito graça e memória,
Separado de mim e do meu bafo individualmente podre,
Livre das minhas pretensões e desta noite carcomida
Pelo meu ser voraz que se explora e ilumina.

Mas não. Do canto necessário
Para me diluir em som e no ar que o guardasse
(Como o nervo do degolado alonga em tremor seu pasmo)
Não chego a soltar senão uma vaga nota,
E a noite faz muito bem em vergar uma gruta sem ecos
No  meu buraco vil de bicho harmonioso.

Deixarei, estampada pelo silêncio definitivo,
A ramagem fremente dos meus dedos num pouco de terra
Estranho fóssil!





Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso

Duas maleitas

1. «Para o dr. Costa, a democracia é, em mais do que um sentido, um cheque em branco. E a confiança é ilimitada. Só isto explica que o dr. Costa ignore orgulhosamente as funções que deveria desempenhar em benefício da campanha interna do PS. Um dia, se o deixarem, tratará de trocar "outras responsabilidades" pelas responsabilidades que bem entender, leia-se trocar a salvação da pátria pelo empenho em afundá-la com rapidez. A começar pelos lisboetas, já toda a gente percebeu que o dr. Costa não é brilhante. Convinha perceber-se que esse filho da leviandade e da ambição é capaz de ser perigoso. E perigos temos que cheguem, obrigadinho.»


2. «Dez mil professores foram sujeitos a uma prova de avaliação de conhecimentos. A maioria considerou a prova "básica" e "ridícula". Quase dois terços cometeram erros de ortografia, além de erros de pontuação e sintaxe. Uma percentagem indeterminada (e o sr. Nogueira do sindicato) atribuiu os erros ao Acordo Ortográfico. Contas feitas, apenas 10% dos erros se deveram a alterações na grafia. Uma federação sindical (a Fenprof) acha que a prova serve "para denegrir a imagem dos professores, achincalhá-los publicamente e, dessa forma, contribuir para a degradação da sua imagem social". Permito-me discordar. Quem sai denegrido, achincalhado e degradado de tudo isto é o Ministério da Educação, que acaba por aprovar cerca de 85% dos candidatos, muitos dos quais se preparam para leccionar através de variantes da língua que só existem nas respectivas cabeças. Trata-se, claro, da "geração mais qualificada de sempre". Suponho que a menos qualificada comunicasse por rabiscos em cavernas. E mesmo assim enganava-se a soletrar.»


 


Alberto Gonçalves, DN

9.8.14

Um regime "Zé Guilherme"

O Correio da Manhã - e uma secção do Expresso para a parte "lúdica" - conta a "história" de "Zé Guilherme", o construtor civil da Amadora que conquistou o coração das "elites" portuguesas da aquém e de além mar. A maior parte dos "conquistados" são nomes que só estranharíamos se não integrassem os "conhecimentos" desta veneranda figura. Foi a prebenda de 14 milhões ao dr. Salgado - os avoengos Espírito Santo Silva devem andar arrepiados nas respectivas tumbas com as aventuras deste insigne rebento - que celebrizou o "Zé Guilherme", na altura precisado de uma "apresentação" no Futungo de Belas. Mas, num regime como o nosso, basta puxar pelo fio à meada e uma vasta porção do mesmo fica imediatamente com as cuecas à mostra. Salazar nunca se meteu em coisas parecidas mas permitiu que alguns dos dele se metessem desde que não comprometessem o regime. Pelo contrário, os nossos democratas comprometem-se às escâncaras e comprometem um regime inteiro. O "Zé Guilherme" serve-se deles como do betão, dos tijolos e dos cães de caça. Está certo.

Ninguém diria


 


Fora a parte relativa às presidenciais - em que encara com normalidade a hipótese de várias candidaturas livres oriundas da "direita"-, Luìs Montenegro, o líder parlamentar do PSD, reabre, com uma entrevista ao Expresso, a delibarada hostilidade da maioria perante o Tribunal Constitucional. Isto porque na próxima semana o Tribunal decide as "contribuições" e os "cortes" respectivamente aos pensionistas e aos trabalhadores do Estado. Vai, porém, mais longe sugerindo que, em caso de "chumbo", a legislatura pode não chegar ao fim. Montenegro não fala sozinho até porque não é exactamente um monumento de subtileza política. É uma excelente criatura mas, desde que deixou de ser "monotorizado" politicamente por Miguel Relvas, deve ter sido "convertido" à guarda pretoriano-evangélica do dr. Passos. Seria interessante, por exemplo, saber se o dr. Magalhães, o homólogo de Montenegro no CDS, pensa desta mesma maneira puramente chantagista. "O TC foi bom há uns dias, o TC pode deixar de ser bom daqui a alguns dias se não fizer o que nós queremos. E, se não fizer, até nos podemos ir embora". É este o edificante "pensamento" do dr. Montenegro que se limita a reproduzir uma "doxa" passista demasiado requentada. Não existe um átomo de grandeza política nesta mesquinhice. Agora que a maioria parecia estar a portar-se menos mal, que, por causa do golpe do dr. Costa no PS, até aparecia beneficiada nos estudos de opinião uma vez terminado o PAEF, Montenegro foi mandado ao armário fantasmagórico da "coordenação política" do governo para tirar o armamento pesado e apontá-lo ao TC. Como escrevia Paulo Portas em 1988, no Independente (citado pelo mesmo Expresso) aquando de uma "fita" semelhante  protagonizada pelo Doutor Cavaco Silva, «uma maioria absoluta não é uma licença ilimitada de poder.» Ninguém diria.

8.8.14

A "homenagem"

Segundo uma "breve" no Correio da Manhã, o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) apoiou com 7 mil e quinhentos euros um "torneio" de futebol infantil denominado "Dr. António Costa" organizado por um clube com sede perto de Lisboa. A justificação - não sei se do IPDJ se do clube - consiste em "homenagear" o referido António Costa, «autarca de Lisboa, agora candidato a líder do PS». O dr. Emídio Guerreiro, o secretário de Estado do Desporto e Juventude, praticamente na clandestinidade desde que tomou posse, por interpostos IPDJ e futebol infantil, será "simpatizante" de Costa? Uma coisa é dar um subsídio, outra diferente é acompanhar o subsídio de uma "homenagem" nas presentes circunstâncias do homenageado. O que é que falta? Sentar o dr. Costa numa bicicleta a cinco metros da meta final da Volta a Portugal?

Nem toda a gente está pronta para o close up




 


O "verão" é propenso à inutilidade informativa salvo em casos de emergência como os banquinhos bom e mau ou o ébola. Por isso os jornais e as revistas gastam páginas e páginas com beautiful people. Quer com aqueles e aquelas em efectividade de funções, vitais ou não vitais, quer com aqueles e aquelas que declinam irreversivelmente. E que não têm ninguém que caridosamente lhes explique que o tempo passa. Isto é particularmente aflitivo no caso de algumas "vedetas" femininas. As cãs nos homens, reais ou disfarçadas por uma cor comum a uma data de gente, são porventura mais aceitáveis. Por outro lado, debitam menos para esses jornais e revistas salvo uma meia dúzia de casos muito precisos e facilmente identificáveis pela paloncice crassa. Com as mulheres a "concorrência" é mais dura e mais cruel. É fácil entrar nos "entas" mas é impossível, por mais que se disfarce, sair deles. Ora quem vive da "imagem" acaba por ir perdendo "competitividade" à medida que o tempo e as espertinhas menos "adiantadas" avançam. A exposição nos jornais e nas revistas, às tantas, passa a ter um efeito inversamente proporcional ao desejado. Talvez por isso, e algo perversamente, esses "meios" insistem em "expor": a vida privada, a pública, a real, a imaginada e, por fim (um fim sem final), os restos mortais de ambas. Dizia-se que Madame de Staël se divertia a atirar os amigos para dentro de água só pelo prazer de os tirar de lá. O pior é quando eles ou elas já não conseguem sair.

«Patriotismo»



«Menino, sabes o que é a Pátria?”, perguntava o Livro da Terceira Classe; mas depois não ficou para ouvir a resposta. A resposta que qualquer menino lhe teria dado é a de que a pátria é a causa daquilo que identificamos como patriotismo. Como definir, no entanto, ‘patriotismo’? A teoria quase unanimemente aceite é a de que o patriotismo é uma série de convicções ou actividades que se propagam pela atmosfera, e que impregnam os habitantes de uma determinada área geográfica. Tem porém defeitos. À ideia de um conjunto de pessoas acreditarem nas mesmas coisas porque vivem no mesmo sítio falta sempre a explicação do modo como um sítio pode causar uma convicção. Se um sítio causasse uma convicção, todos os que nele vivessem acreditariam nas mesmas frases e possivelmente fariam as mesmas coisas. Esta noção é falsa. Um poeta romano observou que é doce e decente morrer pela pátria; mas se todos os romanos tivessem acreditado no que é decente e doce a queda do Império Romano teria tido lugar muito mais cedo, causada por excesso de patriotismo e falta de romanos. E nessa altura a sobrevivência do Império Romano terá sido causada por falta de patriotismo. Uma ideia a meu ver melhor de patriotismo é defini-lo como equivalente da lista daquilo que cada pessoa não está disposta a fazer em relação ao que identifica como pátria, pelo menos em circunstâncias normais. Tais listas variam muito. Para alguns incluem a recusa de decisões momentosas como vender a cidade do Porto ou comprar fruta importada. No meu caso, é a ideia de mudar de nacionalidade que acho inimaginável. Aos devotos da Terceira Classe o meu patriotismo parece de menos; como para o Rei Lear, tudo o que não seja lacrimoso lhes é suspeito. Os raros não-devotos, no entanto, invocam o argumento mais sério de que as nossas experiências e memórias são independentes da nossa nacionalidade: e, claro, são. A não ser num sentido trivial, poderia ser quem mais ou menos sou se o meu passaporte fosse outro. Acontece porém que não é invulgar que o passaporte que temos faça parte do conteúdo das experiências e memórias que nos acontecem. O facto será trivial: mas tal não significa que nos seja indiferente. Talvez por essa razão uma mudança de passaporte seja para mim uma possibilidade ociosa, como uma liposucção ou uma ida ao Brasil: só em circunstâncias muito extremas é que a encararia. Fosse eu um menino filosoficamente inclinado teria respondido ao Livro da Terceira Classe, e com firmeza, que tinha uma ideia do que era a pátria. Mas depois não tinha ficado para a discussão.»


7.8.14

Um grande escritor sobre um grande actor



«Philip estava sempre a avaliar tudo em profundidade. Era uma tarefa dolorosa e extenuante, e que provavelmente no fim o condenou à desgraça. O mundo era demasiado brilhante para que ele o conseguisse suportar. Ele tinha que desactivar os seus olhos ou ser fascinado até à morte. Tal como Chatterton, circulou à volta da Lua sete vezes por cada vez que nós o fazemos, e cada vez que se ia embora nunca tínhamos a certeza se iria regressar, o que, creio eu, é algo que alguém disse acerca do poeta alemão Holderlin: sempre que saía da sala, receávamos que seria a última vez que o víamos. E se isto parece algo que podemos dizer agora que sabemos o que lhe aconteceu, não é o caso. Philip estava a consumir-se mesmo em frente dos nossos olhos. Ninguém conseguiria viver àquele ritmo e aguentar toda a corrida, e em alguns surpreendentes assomos de intimidade percebia-se a necessidade que ele sentia de que nós o soubéssemos (...). Agora é difícil escrever com distanciamento sobre a forma como Philip interpretou um homem de meia-idade desesperado e fora de controlo, ou a maneira como definiu o percurso de autodestruição da sua personagem (...). Philip teve que ter esse diálogo consigo próprio, e deve ter sido um diálogo bem mórbido, recheado de questões como: Em que ponto exactamente é que eu perco todo o sentido de moderação? Por que é que insisto em continuar com tudo isto quando bem lá no fundo sei que apenas pode acabar em tragédia? Mas a tragédia atraiu Bachmann como uma luz dos afundadores, e também atraiu Philip. Havia um problema com as pronúncias. Temos tido excelentes actores alemães que falam inglês com acento alemão. A opinião geral, não necessariamente de forma muito sensata, era de que Philip também deveria fazer o mesmo. Após os primeiros minutos a ouvi-lo, pensei “credo”. Nenhum alemão que eu conhecesse falava inglês daquela maneira. Fazia uma coisa com boca, uma espécie de beicinho. Parecia que estava a beijar as suas falas, e não tanto a dizê-las. Depois, de forma gradual, fez aquilo que só os grandes actores conseguem fazer. Fez da sua voz a única voz autêntica, a solitária, a estranha, aquela de que dependíamos no meio de todas as outras. E de cada vez que ela deixava o cenário, como acontecia com aquele grande actor, ficávamos à espera do seu regresso com impaciência e crescente desconforto. Vamos ter que esperar muito tempo até surgir um novo Philip.»


A vida é tramada


 


O dr. Lima abandonou por uns instantes o remanso estival - e aquele que tem caracterizado o seu papel como ministro da economia - para zurzir de viva voz nos "inexplicáveis" comportamentos dos "Beses" e dos "PTs". Os termos são dele que, em relação à PT, até "perdeu as ilusões". Lima intuiu, ou alguém por ele, que estes velhos donos do regime (entre outros que, por sua vez, usam alguma da "elite" político-partidária do "arco" como intermediária a título de vulgares moços de recados avençados) já prejudicam mais do que ajudam a desgraçada economia nacional. O incessante festival "cada cavadela sua minhoca", de facto, não contribui para "tirar" isto do austeritarismo em que vegetamos, contentes da vida por aqui ou ali engordar umas décimas ou diminui-las como no caso do desemprego. Estas ainda tão recentemente respeitáveis visitas dos corredores do poder, fosse ele qual fosse, não são agora bem vindas. A vida é tramada.

Um novo regime de moralidade

«O clamor de indignação que tem percorrido o País com o caso BES/GES é um clamor que nasce de um sentimento de justificada injustiça provocado pela crescente percepção da desigualdade com que se trata o povo e os seus aflitivos problemas, por um lado, e as elites financeiras e as suas delinquentes astúcias, por outro lado. Esta indignação decorre do imperativo de igualdade, que é o grande mote político da nossa época (...). O problema hoje complica-se porque, ao contrário da igualdade, o igualitarismo se tornou nos nossos dias, e de um modo tão subtil como eficaz, um dos melhores cúmplices do financismo reinante. São ambos sintomas de uma decomposição que alastra no Ocidente, que vive sob o império de uma ideologia nova, que combina as ilusões do igualitarismo com os excessos do financismo, como se de um novo regime de moralidade se tratasse, marcado pela polarização exclusiva do presente e por uma prioridade total dos interesses privados sobre o bem comum.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

6.8.14

Marilyn, 5 de Agosto de 1962



 


Na morte de Marilyn

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decidia dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou


 


Ruy Belo

Presidente ou relações públicas?


 


«“Confirmo que, na sequência de uma conversa com o Dr. Miguel de Sousa, perguntei ao Dr. Cunha Vaz se queria/podia apoiar profissionalmente o o senhor Dr. Miguel de Sousa. Respondeu que não iria fazer campanha nenhuma, mas, se fizesse, faria a do amigo (Sr. Dr. Cunha e Silva), mensagem que transmiti ao senhor Dr. Miguel de Sousa”, esclarece Alberto da Ponte. O também director da RTP, não quis manifestar a sua opinião sobre a questão: “Não posso, não devo nem quero opinar seja o que for sobre o que for sobre o assunto.” Questionado sobre como via o envolvimento do seu nome na polémica que envolve Cunha Vaz, pela candidatura de Cunha e Silva, e Miguel de Sousa, respondeu: “Quanto ao uso do meu nome, preferia que não tivesse sido feito, mas como a minha intervenção foi a título pessoal, não lhe dou especial relevo.” O nome do administrador da RTP foi revelado por Miguel de Sousa numa resposta pública a Cunha Vaz, em que chama mentiroso a este por ter afirmado que Miguel de Sousa o havia tentado contratar. Genericamente, Alberto da Ponte afirma. “Não valorizo por demais as questões, pois elas prendem-se com uma campanha política que tem o valor que tem.”» A peripécia relatada pelo Notícias da Madeira só interessa aos intervenientes. Salvo na parte em que aparece o presidente da televisão pública na "qualidade" improvável de RP da CV&A para a campanha interna do PSD/Madeira. Não terá mais nada para fazer? Alberto da Ponte, como tenho escrito repetidamente, foi um dos grandes erros políticos da tutela Miguel Relvas para o qual chamei a atenção em sede própria. Não vai aqui nada de pessoal. Apenas a preocupação relativamente a uma casa que, depois de a ter conhecido melhor, respeito. Da Ponte pode ser um excelente gestor, uma óptima pessoa e um grande amigo do seu amigo e vice-versa. Mas isso não "faz" dele necessariamente um bom presidente de uma televisão pública. A RTP, os seus trabalhadores, jornalistas e não jornalistas, merecem melhor. E os pagadores da taxa do audiovisual também.