30.6.13

Os velhos






«Os jovens merecem uma vida, mas parece que os velhos não merecem nada. O dr. João Salgueiro sugeriu outro dia que os reformados fizessem um sindicato deles. Não percebeu, como é óbvio, a manifesta impossibilidade do exercício. A primeira praga dos velhos é o isolamento. Sem amigos, nem camaradas, porque uns morreram, ou estão doentes no hospital ou em casa, ou vivem numa miséria tão profunda que ficaram sem forças para resistir. De resto, os poucos privilegiados, a quem sobra um vestígio de energia e de indignação, perderam o lugar por excelência para se encontrarem e se organizarem: o lugar do trabalho. Aos vários governos, que nos trouxeram à presente desgraça, não escapou esta impotência essencial. E a troika, que teme distúrbios, concorda alegremente com a receita. Se um belo ano morrermos todos simultaneamente, haverá uma grande festa nas Finanças. Entretanto, se a pensão não chegar ou diminuir para além do tolerável, os velhos, tirando uma pequeníssima minoria, não conseguem, como os jovens, encontrar trabalho. Mesmo fortes, mesmo lúcidos, mesmo competentes e, às vezes, competentíssimos, ninguém os quer. Pior do que isso: no bom tempo, os velhos mereciam o respeito da generalidade da populaça. Agora, não. A deferência e a delicadeza com que eram tratados desapareceram e, no lugar delas, apareceu uma arrogância e um desprezo, uma espécie de ironia perversa que os põe firmemente à margem como se eles não tivessem também o direito de viver.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

O país das maravilhas


 


Não passaria pela cabeça de ninguém convidar uma amálgama de criaturas - entre as quais se poderão encontrar, talvez, escritores (e chamar a todos "escritores" diz bem do estado da arte do que passa por literatura portuguesa há já algum tempo) - para se dedicarem a "inventar" uma espécie de prolongamento livre de Os Maias, de Eça. Mas o facto é que passou pela cabeça de alguém no hebdomadário Expresso que, como toda a gente sabe, determina o "cânone" em matéria de funcionamento geral da nação nas suas mais distintas manifestações. Não há todavia hipálage de Eça para definir isto sem ofender ninguém, sobretudo a ilustre memória do velho "vencido da vida". É uma espécie de "construções na areia", agora que chegou o Verão, em versão supostamente mais sofisticada. E, nalguns casos, de uma alarve sofisticação. Por outro lado, e depois de muito porfiar a "comissão" destinada a "reformar" o IRC, eis que é um amável comentador de televisão, o meu estimado dr. Marques Mendes, quem afinal faz de "relator" da dita comissão antes de esta, segundo ele, entregar as conclusões a quem as pediu. Finalmente, o Presidente da República vai chamar a Belém trinta luminárias da economia nacional para, uma vez mais, discutirem o "futuro". Conviria aqui lembrar que, da academia à padaria, passando pelas instituições, pelas televisões e pelos jornais, nunca o país teve tantos "economistas" e que nunca o país, nos derradeiros anos, foi tão puxado famosamente para baixo. Isto quer dizer que a circunstância de estarmos atafulhados em "economia" de manhã à noite não provou fazer-nos muito bem. Talvez o PR lucrasse mais em ouvir outro género de cientistas sociais e, sobretudo, alguém que lhe sussurrasse para que serve a política, em democracia, em tempos como estes. Não falta, do presente, passado e futuro do regime, quem pudesse fazer isso (até podiam aparecer um ou dois economistas, não mais) sem a língua de pau do "economês" e do "financês" que parece que veio para ficar. Em suma, como dizia um personagem de Os Maias, "falhámos a vida". Mas neste país das maravilhas não sabemos, pelos vistos, falhar outra coisa.

29.6.13

Saber qualquer coisinha


 


Por falar em revistas, estou aqui com a do Expresso à minha frente. Duas entrevistas, uma entre "amigos" (a dra. Clara e o prof. Onésimo) e outra com Paulo Macedo, ministro da Saúde mas que poderia ser perfeitamente ministro de outra coisa qualquer (finanças, por exemplo) em qualquer governo. Macedo foi "meu" director-geral e nunca senti necessidade de o bajular. Se de vez em quando o "destaco" é porque aprecio o seu trabalho político (sim, o trabalho de um ministro é um trabalho político) e a forma como o pensa e o prepara. Só alguém que conhece adequadamente a realidade (sim, para desempenhar cabalmente uma função político-executiva é preciso conhecer a realidade) é que está à vontade para afirmar, sem sofismas ou complexos de capela, que "a ADSE é um sistema em que as pessoas estão satisfeitas e é autossustentável" e que não quer acabar com ela. Neste exemplo, por exemplo, o SNS tem mais a ganhar aproximando-se de um sistema como a ADSE do que o contrário. Para entender isto é preciso porém arejar a canga das "ideologias" - a do SNS e a do pseudo-liberalismo provinciano gemedor com o suposto "privilégio" da ADSE - e saber qualquer coisinha. Como Paulo Macedo.

Restaurações


 


Percorre-se jornais, revistas, entrevistas, algumas peças de televisão, artigos, fotografias, etc., e fica-se com uma sensação idêntica à de Norman Mailer - «the media is like Madame de Staël who threw her friends into the pool for the pleasure of fishing them out again.»

O último sorriso


 


Há uma edição da biografia de Marilyn Monroe, por Norman Mailer, que inclui o fundamental da derradeira sessão de fotografias com Bert Stern. Stern morreu esta semana e contava que Monroe estava feliz e bela nesse trabalho como se fosse quase o primeiro de uma série de últimos.Todavia, ainda as fotos não estavam editadas e já ela tinha desaparecido. Tudo se passou entre Julho e Agosto de 1962. Stern fotografou muita gente "famosa" mas este portfolio com Marilyn subsiste "especial". Gosto de o legendar com as palavras de Mailer, mais "realista" que Stern sobre o "sorriso" final da actriz. «Marilyn is gone. She has slipped away from us over the edge of the horizon of the last pill. No force from outside, nor any pain, has finally proved stronger than her power to weigh down upon herself. If she has possibly been strangled once, then suffocated again in the life of the orphanage, and lived to be stifled by the studio and choked by the rages of marriage, she has kept in reaction a total control over her life, which is perhaps to say that she chooses to be in control of her death, and out there somewhere in the attractions of that eternity she has heard singing in her ears from childhood, she takes the leap to leave the pain of one deadned soul for the hope of life in another, she says goodbye to that world she conquered and could not use. We will never know if that is how she went. She could as easily have blundered past the last border, blubbering in the last corner of her heart, and no voice she knew to reply.»

28.6.13

Ter em conta


 


Estive com o ministro da Economia na "universidade de Verão" do Partido Popular Europeu, no Porto, cujos principais anfitriões foram os eurodeputados Paulo Rangel e Nuno Melo. Falei um pouco com o Paulo Rangel com quem não estava há algum tempo. O Paulo protagonizou, como cabeça de lista do PSD nas "europeias" de 2009, um grande momento político para o centro-direita e para a social-democracia doméstica em pleno "socratismo". Foi igualmente um excelente líder parlamentar. É agora um eurodeputado competente, empenhado e cosmopolita. Por junto, trata-se indisputavelmente de um político nacional que vale a pena ter em conta. Talvez, para já, de novo nas "europeias" da Primavera que vem.


 


Foto: Público

27.6.13

"Não temo o juízo do futuro"


 


Estou a ler o livro de entrevistas de Jorge de Sena editado pela Guimarães, agora Babel, numa magnífica edição (embora com uma gralha aqui ou ali) preparada por Jorge Fazenda Lourenço. São trinta anos de entrevistas com destaque, talvez, para a de Abril de 1968, à revista O Tempo e o Modo que lhe dedicou um número inteiro. O que Sena afirma a propósito do chamado "meio literário" doméstico podia ser dito sobre a nossa pequenina vida pública em geral, capelista e corporativa (no sentido rasca do "corporativo", normalmente um ajuntamento de ressabiados estúpidos e anónimos), como se fosssemos todos iguais por baixo. Pois não somos, graças a Deus. Somos mais isto que o Sena descreve à distância higiénica da geografia e do nojo. «Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida [literária] portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos [que escrevem sempre um livro pior que o anterior]. O problema não está em eu me considerar muito grande - mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. (...) O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.»

O perigoso ciclo das narratretas






«Com a Europa a capitular assim - revelando maior preocupação com os seus bancos do que com os seus jovens -, não admira que por todo o lado se multipliquem sinais do grande motim anti-europeu que se prepara: é Beppe Grillo em Itália, são os alternativos do AfD na Alemanha, é o Partido para a Liberdade de Geert Wilders na Holanda, são os "Verdadeiros Finlandeses", é o UKIP de Nigel Farage, etc., etc. E no último fim de semana tivemos mais um preocupante sinal desta escalada, com a Frente Nacional de Marine Le Pen a chegar quase aos 50% dos votos nas eleições francesas de Lot-et-Garonne. Este resultado traduz uma impressionante progressão de 20%, da primeira para a segunda volta. Não admira, pois, que Marine Le Pen tenha já anunciado que as eleições europeias do próximo ano, em que as sondagens a colocam a disputar o primeiro lugar nacional, serão transformadas num referendo à permanência ou à saída da França da União Europeia. Isto promete, pois. Mas, entretanto, os responsáveis políticos europeus continuam, como se nada acontecesse, a repetir as narratretas mais estafadas, uns sobre o laxismo sulista e as virtudes nórdicas, outros sobre as irresponsabilidades nacionais, outros ainda sobre o incontornável modelo germânico... todos invocando, para justificar o torpor em que se vive, as eleições alemãs de 22 de Setembro próximo. Mas seja qual for o resultado destas eleições, o que verdadeiramente vai fazer mudar as coisas na Europa, e em particular na Zona Euro, é a inevitável entrada da Alemanha em recessão. Aí, sim, vamos assistir a muita correria, mas tudo se arrisca então a ser tarde demais.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

26.6.13

Razão apesar dele

 



 






Ontem, enquanto aguardava a chegada das minhas "amigas" Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte - elas aparecem todas as noites, por volta das 23, no Fox Life, entre a 73th e Times Square - pus-me a ver, na tvi 24, Augusto Santos Silva. Sugeriu 5 regras para uma comunicação política eficaz e substantiva. 1ª: «Cada macaco no seu galho. Não pode o Ministro dos Negócios Estrangeiros vir falar de economia ou de agricultura». 2ª: «Os galhos são diferentes. Há um primeiro-ministro, ministros e secretários de Estado. Não pode um secretário de Estado, por exemplo enquanto decorrem negociações do ministro da Educação, meter-se na seara do ministro da Educação e falar em sentido contrário. Entendam-se, há uma hierarquia no Governo». 3ª: «Convém que se fale quando se tem alguma coisa para dizer. Não há excelência da forma que consiga apagar o vazio do conteúdo». 4ª: «Quando falarem vários convém dizerem a mesma coisa, senão entram na cacofonia que é fatal para qualquer grupo ou organização, muito mais para um Governo». 5ª: «Se a má notícia expulsa a boa, convém que as más e as boas notícias não sejam dadas ao mesmo tempo, como já dizia Maquiavel». As minhas desavenças críticas profundas com ele nos idos do "socratismo" (está tudo no arquivo) autorizam-me, agora, a dar-lhe razão. Uma razão apesar dele e por causa de uma coisa simples que é o bom senso.

25.6.13

"Nem atireis vossas pérolas aos porcos"


 


«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem com o pés e, voltando-se contra vós, vos despedacem. Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas. Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram!» (Mt 7,6.12-14) Este é o Evangelho da data e, creio, explica-se por si mesmo quotidianamente. No entanto, a caminho da missa na Igreja de São Nicolau constatei que a rua com o mesmo nome persiste intransitável para peões (imagino a alegria que grassa no comércio local), exibindo uma poeira desértica bastamente desagradável. E o agente da polícia municipal colocado à entrada da rua, a do Ouro, era incapaz de informar que não valia a pena sequer tentar atravessá-la. É para isto que temos os Sá Fernandes e as Rosetas das bicicletas - e de idiotices semelhantes - quando nem para andar a pé a Baixa serve. E quer ainda o pequenino vereador ver "crescer as árvores". Ámen.

24.6.13

"Chassez le naturel, il revient au galop"

O sr. prof. Nogueira e o sr. prof. Crato acordaram que os professores "deslocados" não podem receber guia de marcha com mais de 60 km de distância. É, por asssim dizer, uma "mobilidade em classe executiva". Digo isto porque, consta, em breve trabalhadores investidos em funções públicas poderão pura e simplesmente ir pastar a vaca para casa, em apenas 10 dias (dez dias), se a "requalificação" não resultar. Juro que há dois anos, precisamente nesta altura, não estava a ajudar a escrever nada disto no Programa do Governo. "Chassez le naturel, il revient au galop."

23.6.13

A farpa no "consenso"


 


Em França, o "consenso" - essa palavra delicodoce tão para tudo quanto para nada - republicano ameaça romper-se com a emergência demasiado fulgurante de Marine Le Pen. Depois da desilusão centro-direita representada por Sarkozy, parece estar em marcha a desilusão centro-esquerda com Hollande. Para mais, Hollande ainda não encontrou (nem se sabe se a senhora deixará que ele, ou outro qualquer, encontre) o "tom" adequado para a Europa comandada por Merkel. Em 2002, entre a 1ª e 2ª volta das presidenciais, assisti em Paris, por acaso, a um desfile da Frente Nacional ainda com o pai Le Pen. O senhor falou quase três horas, em frente à Ópera, e ninguém arredou pé. Mais de dez anos depois, a filha segue a estratégia dos pequenos passos de Lenine e pode obter um resultado surpreendente nas europeias da Primavera que vem. Uma coisa dessas fatalmente obrigaria a Europa a, como diriam os nossos ensaístas de serviço, "revisitar-se" e a libertar-se forçosamente do torpor idiota que a atravessa. Às vezes há males que vêm por bem.

Da política enquanto outdoor


 


Quem chega a Cascais pela A5 depara imediatamente com três cartazes "autárquicos". Num, azul-escuro, a palavra gigantesca "Todos" traz em rodapé o nome do actual presidente da Câmara, Carlos Carreiras, e os símbolos dos partidos que o apoiam, o PSD e o CDS. Depois, vermelho-escuro, o cartaz do PS exibe a cara de João Cordeiro, o ex-tipo das farmácias, que assegura ser "o líder" que a localidade precisa. Logo a seguir, azul-claro, uma senhora, de seu nome Isabel Magalhães, "independente"e que a RTP não consentiu que fosse vista naquele extraordinário show "5 para a meia-noite" que ainda um dia há-de receber o Papa Francisco. No caminho, ainda vi "o novo presidente" de Oeiras, Paulo Vistas, outro cartaz vermelho-escuro - que presumo ser do PS mas cujo rosto principal e respectivo nome não consegui enxergar - e, por António Costa, uma coisa a verde e branco com um pequenino skyline de Lisboa com o seu castelo. Infelizmente não passei por nenhuma "nova ambição para Oeiras" onde figurasse o maravilhoso guionista M. Flores. Tudo somado, isto quer dizer que os partidos, e os "independentes" deles, vão apostar em força no velhinho outdoor. E também quer dizer que, durante cerca de 3 meses, os rostos mais improváveis vão partilhar a paisagem connosco. O que constitui uma alegria equivalente a um imenso picnicão no Terreiro do Paço, atafulhado de couves e do excelente boi barrosão. No fundo, o dia 29 de Setembro, data das eleições autárquicas, mais do que a escolha deste ou daquele rosto concreto e localizado, pode representar uma espécie de referendo nacional ao Governo. A segunda fase da legislatura, assinalada junto aos túmulos de Pedro e Inês, não começou da melhor forma - os exames, os subsídios. Ora o mês de Julho será politicamente relevante. Mas nada transpareceu dessa relevância política na passagem por Alcobaça. Cair no logro de retomar o lastro "financês" por ser o aparentemente mais fácil (refiro-me aos alegados "cortes" que terão de ser feitos em quinze dias), não augurará decerto nada de bom. E uma "reforma do Estado" não se prodigaliza entre duas viagens ao estrangeiro. Cuidado, pois, com os outdoors.

22.6.13

Uma Universidade cosmopolita


 


Não pertenço ao largo clube pernóstico que costuma tremelicar de emoção patrioteira cada vez que alguém nos distingue, da UNESCO ao festival da eurovisão, passando pelo fatal dr. Barroso na Comissão Europeia. Não me comovi com o fado, apesar da D. Amália, porque à conta disso um batalhão de pindéricos decidiu declarar-se abruptamente "fadista". Executado o prolegómeno, tranquiliza-me manifestar público apreço pela Universidade de Coimbra cuja edificação original data do século XIII. Para além disso, muito do meu curso de Direito na Católica foi ministrado por professores oriundos daquela Universidade. Francisco Lucas Pires, Mário Júlio de Almeida Costa, Carlos Mota Pinto, Antunes Varela, Ferrer Correia ou Castanheira Neves, pelo Direito, ao vivo e a cores, ou Vítor Aguiar e Silva e Aníbal Pinto de Castro, pelas Letras, em livro, bem como, na década passada, Vital Moreira e a sua pós-graduação sobre direitos humanos e democracia, aí estão para confirmar a minha amizade intelectual para com a instituição fundada por D. Dinis. Os produtos da nossa academia, em particular os de Lisboa, sempre alimentaram uma particular acrimónia com Coimbra. Presumo que os de lá façam o mesmo. É claro que não há a menor pachorra para "fitas", "tradições" ou Torgas que, por vezes, incutem os piores instintos separatistas e que dão vontade que o país termine, na prática, aos primeiros quilómetros da A1 no sentido Sul-Norte. Mas a Universidade de Coimbra que me interessa é a cosmopolita que conheci e que a UNESCO celebrou. O resto é facultativo.

Recuperar a pulsão humanista






«Quando se lê muito, e eu fui feito pela leitura e não pelo estudo - porque nunca verdadeiramente estudei no sentido escolar do termo, e não "fazia os trabalhos de casa" -, aprende-se e forma-se. Aliás, este é o cerne da educação no sentido clássico, hoje tão esquecido, o de aprender para se fazer. O livro de Werner Jaeger sobre a paideia grega era então de leitura obrigatória para qualquer aprendiz de filosofia, e explicava bem essa parte "passiva", interior, aberta às influências e às seduções, quer do pathos, quer do ethos, quer do logos. Essa formação "passiva", a que nos faz, é, pela sua natureza, caótica, depende do "monstro", que alimentamos à força dos livros, e do modo como eles atingem a vida que se tem. Mas uma vez feita, fica lá para sempre. "Passiva", aqui nada tem de negativo, mas de silêncio interior perturbado apenas pelo som da nossa voz íntima falando connosco próprios. Freud sabia o que isso era, Proust também e, lá longe, na sua fantasmática Konigsberg, Kant procurava-a como alicerce para essa "razão prática" que fundamentava tudo. Depois, a uma dada altura, dá-se a volta, e a enorme presunção adâmica que os intelectuais têm fá-los escrever. Escrever, nos anos sessenta, por esta ordem: poemas, "teoria" e romances. Hoje, a ordem está alterada: os poemas estão lá, mas com menos peso, depois ficam as escritas fáceis (e quase sempre débeis) dos blogues e Facebook, e depois romances, romances, romances. Esta ordem das coisas é para mim um mistério, como é que uma pessoa de juízo normal pensa que os pode escrever com facilidade. Nem Agustina, que é uma grande escritora, foi capaz de construir personagens, como faziam Camilo e Eça, quanto mais gente que dificilmente vive para lá da Time Out. Hoje qualquer intelectual moderno, a começar por esses paradigmas da modernidade mediática que são os jornalistas, resolve escrever romances, para aumentar a ocupação de espaço em livrarias que parecem mostruários de uma espécie de papel pintado entre o lânguido e forte com personagens evanescentes na capa. Nesse contexto, eu prefiro o genuíno, as Sandálias de Prata, da Cristina Caras Lindas. (...) Nestes dias do lixo, o desprezo pelo "humano" concreto tornou-se a regra e, de uma ponta a outra do nosso mundo quotidiano, varreu-se a preocupação humanista não só da política como de muitos outros aspectos da nossa vida. A tecnologia é usada, numa sociedade cada vez mais pobre, para criar novas exclusões. Valores civilizacionais como a privacidade e a intimidade são dissolvidos na "facilidade" do Facebook. O universo público mediatizado gera uma cultura de superficialidade e ignorância presumida. Os valores não circulam numa sociedade que vive na moda e na novidade. Todas as mediações, dificilmente construídas pela luta cultural consciente dos homens para viverem sem ser na selva, estão em crise. E a política em democracia perdeu esse sentido de melhoria da vida dos homens comuns, da "felicidade terrestre", na única vida que conta para a democracia, que é a vida na Terra e não a eterna. A demagogia que sacrifica o presente em nome de um futuro construído ao sabor dos interesses desse mesmo presente reconstrói a ideia de que a salvação está outra vez num paraíso celeste, agora prefigurado nos "nossos filhos e nos nossos netos", em nome de quem a vida das pessoas que existem, tenham um dia ou cem anos, é desprezada. Eu sei que são velhas queixas, muitas vezes repetidas. Mas talvez tenha sentido repeti-las para renovar dia a dia, ano a ano, uma pulsão humanista que, se pode não fazer uma vida melhor, pode pelo menos fazer-nos melhores.»


 


José Pacheco Pereira, Público

21.6.13

Visita a Inês


 


O Governo vai reunir-se em Alcobaça para celebrar dois anos de legislatura. O exercício inclui, julgo, uma visita ao Mosteiro. Sugiro pois que os membros do Governo passem pelo túmulo de Inês de Castro e, os que puderem, meditem seriamente sobre o "sentido" político daquilo que ali jaz. A figura da Castro é das mais emblemáticas e interessantes da nossa cultura e da nossa história. Pela primeira, falam Resende, Ferreira, Camões e até Agustina. Pela segunda, muitos e a "história" de "Inês é morta", e do post mortem, manifestamente não foi edificante. Resume-os a todos o monumental estudo (ele próprio assim o designava) de Jorge de Sena, de 1967, em torno da figura literária e histórica de Inês. Não dá tempo para ler até ao conselho de ministros até porque está esgotado há muito e nunca foi reeditado. Talvez só mesmo num alfarrabista.

O estado de apodrecimento






«Não há semana em que as vítimas da bancarrota nacional não descubram com espanto e com horror provas frescas do apodrecimento a que chegou o país: ora é a dimensão do verdadeiro custo das PPP, ora o negócio suicida dos swaps, ora guerras financeiras de que se não percebe o teor e o propósito (e que nenhum ministro desce a explicar), ora os deputados da JSD que perguntam ao sr. Crato quanto custam os sindicatos dos professores. O dr. Cavaco não é um palhaço (Deus me livre!), mas tudo indica que o país, coitado, é uma grande palhaçada.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

20.6.13

Um forte entre fracos


 


Saudei vivamente, em 2005 a eleição de Joseph Ratzinger como sucessor de Pedro. Acompanhei de perto, neste blogue, o seu pontificado. Divulguei o que me pareceu essencial da mensagem de Bento XVI. A Igreja não é um ajuntamento de prosélitos mais ou menos "optimistas" sobre o tempo  apalhaçado e vazio que corre. Pelo contrário, a Igreja não existe para agradar à maioria ou para perpetrar espectáculos de rua - existe para confirmar os seus seguidores na fé mesmo (ou sobretudo) que isso implique "viver" em minoria ou em absoluta solidão. Numa circunstância ou na outra, subsiste a comunhão espiritual que institui, como sempre instituiu, a Igreja sem qualquer necessidade de esta se parecer com um conjunto pop "globalizado". É esse o cerne da fortaleza erguida a partir da pedra que Jesus apontou a Pedro. A Sua Igreja não se confunde com uma stand up comedy. Bento XVI nunca cedeu ao populismo. A sua altiva timidez, o seu rigor teológico e filosófico, a sua fidelidade à razão eram porventura incompatíveis com o "festim nu" de uma sociedade sem rumo à vista. Deus comanda a esperança contra toda a esperança, na expressão feliz de João Paulo II, mas Ratzinger nunca alimentou ilusões ou ambiguidades em relação à natureza humana. Retirou-se do mundo quando sentiu que servia melhor a Igreja oculto dele. Não foi, como muitos tolos julgaram então, um sinal de fraqueza. Representou, antes, um sinal de uma força enorme. Oxalá o Papa Francisco consiga, um dia, estar à altura desse extraordinário sinal.

Uma explicação


 


Antes de prosseguir, uma declaração de interesses: sou um dos que não receberá o subsídio de férias em Junho. Dito isto, o Presidente da República já garantiu, pela promulgação do diploma legal respectivo, que os subsídios de férias de trabalhadores e pensionistas do sector público, que recebem valores brutos superiores a mil e cem euros, só vencem lá para Novembro, uma altura boa para ir investir algures numa outra economia onde haja Verão. Admiro-me que o Presidente - que noutras ocasiões promulgatórias menos social e economicamente constrangedoras não se privou, e bem, de acompanhar o acto de uma nota ou mensagem - não tenha anexado à promulgação uma mesmo que pequena explicação. Na antevéspera do acto, afirmou publicamente que "era costume" os ditos subsídios serem pagos em Junho. E tanto "era costume" que alguns organismos públicos já o haviam processado e pago (v.g. a CLM e muitas autarquias de várias "cores" políticas). O que quer dizer que, entre hoje e os primeiros dias da próxima semana, vão coexistir situações díspares nesta matéria: trabalhadores de serviços públicos com subsídios, trabalhadores de serviços públicos sem subsídios e trabalhadores de serviços públicos com algum subsídio. Isto para não mencionar os trabalhadores do chamado sector privado que receberão normalmente os seus subsídios de férias. Pelo menos a segurança jurídica, ou o sentimento jurídico colectivo para recorrer a um velho jargão do Direito, merecia outro tratamento.

Salva-se a tábua

D. António – Por esta salvação de todos nós…
Que salvação é essa? Num naufrágio
salva-se a tábua a que se agarram náufragos?
Flutua longamente… porque é tábua.
E sou tão frágil eu, nesta aventura,
que só por ambição ainda flutuo…


 


O Indesejado, Jorge de Sena, 1945-1951


 


 


«Subitamente descobriu-se um país de famílias “angustiadas”, de estudantes “nervosos”, de “ansiedade” por todo o lado. Um exército de psicólogos e de psiquiatras deve mobilizar-se sempre que há exames, porque os frágeis estudantes (os mesmos frágeis estudantes a quem se pode perguntar o que é que eles fazem aos professores e entre si durante todo o ano) estavam todos deprimidos.»


 


José Pacheco Pereira, Sábado

19.6.13

Na pequena noite da vida humana

Depois de um agradável fim de tarde na apresentação do livro da Bárbara Guimarães, já em casa e após o habitual momento de guerra civil do binómio homem/cão - que termina, para o segundo, com a medida de coacção mais leve, "termo de identidade e residência" -, assisto à entrevista do prof. Poiares Maduro a Judite de Sousa. Gostei de o ver falar nas "diferentes sensibilidades" que se movem no Governo, na intenção de "juntar" a administração da RTP e os seus trabalhadores (resta saber se eles se querem "juntar"), de não fomentar separações artificiais no mundo do trabalho, de se empenhar na "coordenação" política do Governo. Ainda o ministro Adjunto não tinha acabado, um zapping rápido permitiu-me dar pela presença, em directo, naquilo que viria a ser uma longuíssima hora de peroração sem interrupções ou perguntas, do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, simultaneamente em 3 canais noticiosos, na qualidade de recandidato a líder do seu partido. Confesso que não prestei a devida a atenção mas a restante deu para perceber duas ou três coisas. O dr. Portas também valoriza aquilo a que já aqui chamei várias vezes de segunda fase da legislatura (ele prefere "novo ciclo político"), menos "austeritária" e mais virada para a vida material das pessoas concretas. O dr. Portas apresentou-se como a "parede mestra" do Governo apesar de se ter "reduzido" retoricamente à sua valia eleitoral. Sem ele, a casa vai abaixo, ou seja, ele "coordena" de facto a manutenção das estruturas da casa. Finalmente, o dr. Portas, numa tradição que vem desde 1978, do velho CDS, mostrou a sua abertura ao "consenso" nem que seja para ajudar a "montar" uma outra casa. Por falar em casas, e depois deste original serão político-televisivo, regresso ao livrinho da Bárbara. Na conversa com Eduardo Prado Coelho, ele pede licença para ler "um bocadinho" de Rosa Montero, A Louca da Casa. Passo a citar. «É que os homens não são apenas mais pequenos do que os seus sonhos. São também mais pequenos do que as suas alucinações. A imaginação desgovernada é como um raio na noite. Queima, mas ilumina o mundo. Enquanto dura esse clarão deslumbrante tentamos espreitar a totalidade. Aquilo que alguns chamam Deus, e que para mim é uma baleia coberta de crustáceos. No fim de contas, talvez Rimbaud não delirasse tanto quando aspirava fundir-se com o divino. Na pequena noite da vida humana, a louca da casa acende velas."


 


Adenda: Depois, graças à famosa "honra nacional" (lembram-se de Sampaio et al em 2004?), também é uma parte de algumas das nossas caras, com vergonha nelas, que recebe a bofetada.

18.6.13

É o mínimo


 


Não conheço Silva Rodrigues de lado algum mas nunca vi questionada a sua competência à frente da gestão da CARRIS, primeiro, e, depois, da CARRIS METRO já com este Governo. Uma das "modalidades" de swaps, a "tóxica", aparentemente deitou-o abaixo. Julgo que deverá ter amplo direito ao contraditório tal como agora sofre a consequência prática do dever da responsabilidade. É o mínimo.


 

Páginas da Bárbara



Um primeiro livro de uma Amiga apresentado por um grande Amigo. Um livro de conversas "soltas" recolhidas do programa homónimo que a Bárbara dirigiu na SICN. Com gente de quem gostamos e não gostamos como é próprio de uma obra desta natureza. Alguns já cá não andam como Eduardo Prado Coelho ou José Hermano Saraiva. Mas esta é uma bela forma de eles continuarem connosco.

17.6.13

Uma correcção da prova de português


 


Contra todas as "previsões" os exames acabaram por se multiplicar como as rosas que eram pães que eram rosas milagrosas da Rainha Santa Isabel. E as percentagens também estiveram prestes a rebentar a escala dos 100% - nos exames, nas greves, no saber dos alunos. Até o latim, essa desprezada língua mãe, obteve uma assinalável comparência apesar de serem pouco mais de cem os esforçados anacrónicos no "todo nacional". No meio desta balbúrdia aparentemente calma apareceram Fernando Pessoa e o dr. Lobo Antunes que não tiveram direito nem a conferências de imprensa, nem a "associações de pais", nem a sindicatos ou, sequer, a um ministério. Um "evento" - e os protagonistas - como o de hoje tem direito a, pelo menos, uma "correcção" para o Pessoa que surpreendeu os meninos em forma de Alberto e Ricardo. Ofereço a de Cesariny porque, como escreve um leitor num comentário, preciso saciar «a imensa sede narcísea que [me] define». E, assim com assim, ficam celebrados à conta do extraordinário "estado da arte" do dia (e dos próximos que se lhe seguirão) os dez anos deste blogue que passaram na semana transacta perdidos entre o inesquecível e elvático 10 de Junho e os bons vinhos transmontanos da feira da agricultura. Boa noite, boa sorte e "pão de ló molhado em malvasia" para todos.


 


O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengão
Em não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço de heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela ao lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era quando o Aleyster Crowley aparecia.
«Iô Pan! Iô Pã!», dizia,
E era felatio para todos
e pão de ló molhado em malvasia.




Mário Cesariny de Vasconcelos, O Virgem Negra - Fernando Pessoa explicado às criancinhas naturais e estrangeiras

Cadáveres adiados que procriam


Nada fica de nada. Nada somos.


Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos


Da irrespirável treva que nos pesa


        Da húmida terra imposta.


Leis feitas, estátuas altas, odes findas -


Tudo tem cova sua. Se nós, carnes


A que um íntimo sol dá sangue, temos


        Poente, porque não elas?


O que fazemos é o que somos. Nada


Nos cria, nos governa e nos acaba.


Somos contos contando contos, cadáveres


        Adiados que procriam.


 


Ricardo Reis


16.6.13

É preciso meter explicador?


 


Segundo as contas, amanhã cerca de 74 mil alunos apresentam-se a exames de português e de latim (imagino que em latim sejam umas vagas dezenas, se tanto: se eles não dominam uma língua viva,  que saberão fazer com uma morta?). Simultaneamente está marcada uma greve de professores à vigilância dos ditos exames. O ministério da educação convocou o dobro de professores, por comparação com os examinandos, para assegurar que as provas se realizam. Por outro lado, associações de pais, psicólogos e mais meia dúzia de curiosos envolvidos no "estudo" das profundezas do ser humano, em especial, e da família, em geral, emergem de cinco em cinco minutos para sugerir "abismos", "nervosos miudinhos" e uma parafernália de "ansiedades" que a eventual não realização dos exames podem provocar na rapaziada e, sobretudo, na família da rapaziada. Foi mesmo dito por um jornal que as referidas 74 mil almas e respectivas famílias terão mobiizado os bons ofícios do PR, de metade do Governo e de um sindicalista recentemente retirado das lides. Não discuto a oportunidade da greve que é nenhuma. Mas, desde que as greves foram inventadas, não consta que alguma vez tivessem sido oportunas. Por exemplo, no âmbito dos transportes públicos, há uma greve quase dia sim dia não - que chateiam seguramente bem mais do que 74 mil pessoas, já contando com a parentela. E não me recordo de ver tanta gente preocupada ou "ansiosa" com o exercício. Ou com as "listas" que os organismos públicos têm de elaborar até meados de Julho relativas aos trabalhadores a "requalificar". Num país de mentes perversamente pequeninas e vingativas, essas "listas" devem ser escrutinadas com a maior atenção e os critérios estabelecidos com rigor, isenção e clareza. É que os exames politicamente comparados com isto são peanuts. Ou é preciso meter explicador?

15.6.13

Um programa

Confesso que, dois anos após a entrada em funções do actual Governo, não esperava uma manifestação de professores tão robusta. Também não esperava a dispersão da "mensagem" política do Governo - por exemplo, na feira da agricultura de Santarém, se o ministro dos negócios estrangeiros decidisse anunciar medidas na área da saúde ou da justiça, como fez ontem nas Necessidades em matéria de economia, ninguém notaria -, ou a emblemática frustração austeritária com epicentro na figura rigorosa e complexa que marcou indelevelmente esta primeira fase, o ministro das finanças. Com o qual, aliás, me solidarizei quando se arrependeu de não ter priorizado a reforma do Estado em vez dos impostos. Também não podia imaginar que se permitisse uma espécie de fronda, mais ou menos institucionalizada, em torno de uma categoria de trabalhadores, como os investidos em funções públicas e respectivos reformados, numa "frente" praticamente declarada única e adversária dessa batalha, muito mais do que qualquer empresa pública ou equiparada. E, sobretudo, não aprecio confundir essa batalha inglória com a "reforma" do Estado. Também teria sido bem recebido um "discurso", no sentido foucaultinano do termo, sobre a, e na, Europa em vez da trivialidade das reuniões "decisivas", sempre as derradeiras "decisivas" antes das próximas. Há, porém, avanços na frente financeira externa; alguma dessacralização inevitável do "programa de ajustamento" e da "troika"; uma atenção à concertação social que nem sempre se vê; um trabalho sério, desprovido de propaganda óbvia, na economia e na promoção verosímil do emprego numa contingência que não é apenas doméstica; na redução de encargos geracionais com rendas e ppp's; na dimimuição do número das empresas municipais e da dispersão autárquica; no "desinvestimento" nas indemnizações compensatórias na televisão e rádio públicas que obriga a empresa detentora da concessão do serviço público a mudar de vida para a preservar; na saúde, onde Paulo Macedo se revelou um estadista responsável capaz de um desempenho político noutra pasta onde possa aliar as suas valias em administração pública com o "mundo cá fora"; ou na administração interna onde a serenidade política tem frutificado. Não sou adepto de "agendas ideológicas" ou "mediáticas", nem de "primeiros, segundos e terceiros" na cotação infantil do mercado comentadeiro e do comadrio. Procuro ponderar factos e realidades. Sem se tentar perceber uns e outras, é difícil trabalhar. Não estigmatizar gratuitamente pessoas e instituições, providenciar a sua segurança, e não apenas a jurídica, promover, afinal, uma sociedade e uma democracia liberal, aberta, é o único programa que ajudei a escrever. Não desejo outro.

14.6.13

"Assertividade"








«Com mais ou menos greves, onde vi, até hoje, o ministro da Educação ser mais assertivo foi com um seu ex-colega de Governo que estava de saída.»


 


Pedro Santana Lopes, CM

Um problema de regime



«O problema português não é essencialmente de ciclo político, mas de regime. Porém, as direcções dos actuais partidos não tocam em questões de regime, embora algumas vozes internas já o façam (Rangel e Assis, para dar dois exemplos). Não é a natureza semipresidencial do sistema político a causa dos nossos males. A Constituição é demasiado extensa onde não deveria ser e omissa onde deveria. Nela, as gerações futuras estão praticamente omissas, os detalhes do sistema eleitoral são tais que algumas alterações no sentido de maior personalização do voto (possibilidade de votar nominalmente em deputados, como acontece em 23 países da União), mesmo mantendo a proporcionalidade, exigiriam uma revisão constitucional (caso da eventual adopção de um método de quota do voto único transferível). Mantém-se um artigo, anacrónico, que dá a certo tipo de cidadãos portugueses a possibilidade de estarem isentos de participar com os seus impostos nos encargos gerais da nação, por residirem nas regiões autónomas. Está ausente a figura de moção de censura construtiva que daria outra estabilidade a governos de coligação ou mesmo minoritários e que permitiria que só se deitaria abaixo um primeiro-ministro quando um candidato substituto tivesse apoio parlamentar. Uma Constituição extensa aumenta os níveis de conflitualidade política, que se agrava em tempos de crise como a em que vivemos. Após a revisão da Constituição, deveria vir logo a seguir a alteração às regras de financiamento partidário, a necessária reforma do sistema eleitoral e a reforma da governação da justiça, para torná-la efectiva e célere. Esta reforma teria mais impacto no investimento do que uma mera simplificação do IRC ou redução da sua taxa. Resolvam-se as questões de regime, e adoptem-se políticas mais inteligentes, que ficarão criadas as condições para o crescimento económico e o emprego. A falácia do "frentismo de esquerda" é considerar que o espaço político se resume à dicotomia esquerda-direita, que, sendo importante, é redutora. A defesa da necessidade de consolidação orçamental não é apenas apanágio da direita. A questão da eventual saída do euro tem uma resposta diferente consoante se seja nacionalista ou federalista, e é independentemente da postura ideológica. O assunto da co-adopção remete para a distinção entre liberais (que apoiam) e conservadores, que a rejeitam para tentar impor o seu modelo de família. Na nossa direita parlamentar, e no Governo, há alguns e algumas liberais (que aproveito para saudar) que, com a esquerda conservadora e liberal, defendem os direitos das crianças à co-adopção (este assunto merece outra crónica). O espaço político é assim pluridimensional com divisões entre esquerda e direita, nacionalistas e federalistas, liberais e conservadores, racionalistas e obscurantistas. Desta pluralidade, há quem considere que a política é uma actividade de soma zero em que o que uns ganham é à custa do que outros perdem. Nesta óptica, só pode haver conflito, ou, na melhor das hipóteses, frágeis compromissos, e os ciclos políticos são ciclos de ruptura de políticas, mas que mantêm a natureza do regime. A política deve ter dimensões de consenso, de compromisso e também de conflito. Se se achar que não há espaço para consensos mínimos, que há pouco campo para o compromisso e que só resta o conflito, o país continua sem solução (leia-se passará por situações bem piores que as actuais), haja ou não eleições. As eleições são salutares e são o cerne da democracia, mas devem ser bem preparadas pelos partidos. O país não aguentará as políticas actuais, mas também não sobreviverá a mais umas eleições apenas para mudar o pessoal político sem um projecto para o país.»


 


Paulo Trigo Pereira, Público

13.6.13

"O sol sobre as neves dos píncaros inatingíveis"


 


Com alguns anos de diferença, nasceram no dia 13 de Junho os poetas Fernando Pessoa e Joaquim Manuel Magalhães. Deste posso dizer que sou amigo e do outro também, de outra maneira. Termos como "moderno" e "contemporâneo" - talvez seja útil ler o que Eliot escreveu sobre estas coisas - podem porventura ligar-se aqui e, com eles, os termos, andar para trás e para diante a "explicar" poesia que, até hoje, ninguém tem qualquer certeza que possa explicar-se (pode ler-se Austin, Bloom ou Sena). Deixo o Joaquim para a ocasião de um novo livro de versos, se o houver. A arca do outro continua a ser amplamente explorada. Em vida, curta, fora a colaboração dispersa por revistas, versos e prosas, só Mensagem conheceu a forma em livro e um segundo prémio literário a seguir a uma chachada, de nome Romaria, escrita por um padre. Honra a Gaspar Simões que "chamou" logo a "atenção", não para Mensagem, mas para o que aí vinha. Régio falou de Pessoa como podendo ser uma espécie de "índice dos nossos tempos" quando ainda estavam a experimentar as chaves na arca. Jacinto do Prado Coelho, Casais Monteiro, o dito G. Simões, Sena, Mário Sacramento, não necessariamente por esta ordem, leram muito cedo um Pessoa "deles". Lourenço veio depois catar naquilo que chamou de "revisitação" e que é do melhor que a sua incandescente prolixidade produziu. Todas as "explicações" do mundo famosamente não chegam porque, como referiu um dos membros da "equipa Jerónimo Pizarro" - a que actualmente toma conta do establishment Pessoa -, a coisa não tem propriamente pontos de chegada e ou de partida e vice-versa. Pizarro assevera, aliás, que apenas conhecemos cerca de 20% - vinte por cento - da obra do dito cujo, e que outras gerações e novas "equipas" se sucederão à sua na gerência intelectual e física do espólio do mais famoso cliente do Martinho. Na realidade, nas belíssimas Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, Pessoa/Campos antecipa esta perplexidade, a característica maior do acervo édito e, pelos vistos, inédito.E nossa. «Nunca vi triste o meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria possível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa da morte ou de como ele a teve. Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida — das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias — que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim. Eu estava em Inglaterra. O próprio Ricardo Reis não estava em Lisboa; estava de volta no Brasil. Estava o Fernando Pessoa, mas é como se não estivesse. O Fernando Pessoa sente as coisas mas não se mexe, nem mesmo por dentro. Nada me consola de não ter estado em Lisboa nesse dia, a não ser aquela consolação que pensar no meu mestre Caeiro espontaneamente me dá. Ninguém é inconsolável ao pé da memória de Caeiro, ou dos seus versos; e a própria ideia do nada — a mais pavorosa de todas se se pensa com a sensibilidade — tem, na obra e na recordação do meu mestre querido, qualquer coisa de luminoso e de alto, como o sol sobre as neves dos píncaros inatingíveis

12.6.13

A chuva e o bom tempo

Problemas de comunicação






«A verdade é que me vou convencendo de que a maioria das pessoas não tem conserto possível.»


 


Carta de 25.11.54 de Jorge de Sena a José Régio






Há dinheiro para pagar os subsídios de férias aos trabalhadores dos organismos públicos? . Mas paga-se quando vence? Não. Porquê? Porque sim e porque não.

11.6.13

Pela palavra


 


Desgosta-me que o Governo com o qual colaboro dê lastro a coisas destas contraditadas inteligentemente no livro da foto. E acompanho estas "perguntas&respostas" porque, como escreveu Jorge de Sena em carta a José Régio, «eu contento-me sempre com apontar as contradições aparentes. A minha preocupação constante, quando escrevo, é não ferir ninguém pelo silêncio; tenho e sei como e porquê, ferido muita gente, e espero ainda ferir mais alguma: sempre, porém, pela palavra.» Pela palavra escrita em português, entre outros, por Sena e por Régio.

"Ser português"


 


Com o Henrique Monteiro. «Não tenho orgulho especial em ser português. Não vejo nisso nada de excepcional em relação a ser Chinês, Francês, Inglês, Brasileiro, Moçambicano ou Neo-Zelandês. Temos uma história comum, muitos de nós somos parentes. Isso não nos torna melhores nem piores. Nem que nos 10 de Junhem a todos! (...) Não tenho orgulho especial em sê-lo, porque não entendo que ser português nos torne melhores do que se fôssemos de outra nacionalidade - na verdade eu não fiz nada para ser português, aconteceu nascer em Portugal de pais portugueses. Outro ponto é que não pus em causa haver um dia de Portugal, mas sim o tipo de mensagem que se transmite neste dia de Portugal.» Sena disse o mesmo, de outra forma, noutro 10 de Junho em 1977: «Um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente, tanta gente como este.» E mais. «Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o “bicho da terra tão pequeno” contra o qual se encarniçam os poderes do mal.»

10.6.13

Uma desilusão

Uma das mais válidas "conquistas" institucionais do regime foi a eleição do Chefe de Estado por sufrágio directo, universal e secreto o que lhe confere o estatuto raro de único órgão de soberania unipessoal cuja legitimidade provém imediatamente do "povo". Depois do susto de Humberto Delgado, em 1958, Salazar não quis correr mais riscos e deixou a coisa por conta da então Assembleia Nacional. Ao fim de quatro experiências distintas, a actual é a que, tão inexplicável quanto persistentemente, mais questão faz em defender e praticar um mandato politicamente minimalista. Nenhum dos outros três ocupantes do cargo, mesmo após a revisão constitucional de 1982 que limitou "de direito" os poderes presidenciais, o fez "de facto". Para quem desde os dezoito anos, nos Reformadores, sustenta a liderança institucional do Presidente da República (e sempre apoiou "este" Presidente da República), é uma desilusão.


 


Adenda: Por falar em Reformadores, o Medeiros Ferreira tem, uma vez mais, toda a razão.

Camões dirige-se embaraçado aos nossos contemporâneos


 


A política, sobretudo a política enquanto história, precisa de símbolos e de gestos (até mesmo de alguns aparentemente gratuitos) para sobreviver com dignidade. Dias como o de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas devia ser um desses dias. O actual regime já vai no seu trigésimo nono 10 de Junho. Com o decurso do tempo, Camões foi ficando para trás - nos primeiro anos, com Eanes, não era assim -, as Comunidades dispersas pelo mundo mais entregues à retórica de ocasião e a si próprias como, aliás, sempre estiveram fossem elas produto do exílio político ou económico (este agora de novo a aumentar em virtude das circunstâncias), pelo que resta Portugal. Ou o que resta de Portugal para ser mais preciso. Fazia sentido ter a presidente do Brasil presente nas cerimónias oficiais de um 10 de Junho que também é dela? Fazia mas porventura a gravitas acrítica do protocolo não o permitiu embora Dilma não olvidasse, ao contrário de nós, a importância da simbologia política independentemente dos "negócios". Antes do Portugal oficial, oficioso e envergonhado de Elvas, recebeu Seguro e Mário Soares. Camões dirige-se, pois, embaraçado aos nossos contemporâneos (sempre os mesmos) pela voz de Jorge de Sena, dois símbolos maiores dessa vida tão profunda quanto tragicamente "pelo mundo em pedaços repartida".


 


Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu. E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

9.6.13

Humano, demasiado humano


 


Um amigo, muito impiedoso em relação à vida pública, viu um programa com Pedro Santana Lopes. E, por sms, escreveu: "dá quase vontade de lhe dar uma palmada no ombro - é bom tipo". O José Paulo Fafe corrobora. «Longe dos artificialismos e cinismos tão próprios de tantos que são protagonistas do nosso quotidiano e revelando uma alma própria daqueles que ainda acreditam e entendem o que os rodeia. É esse Pedro Santana Lopes que, se calhar, "assusta" todos quantos possuem da política uma visão egoísta, adulterada e oportunista.» Não vi o programa, confesso. Mas não preciso de ver porque me habituei a estimar o "humano, demasiado humano" que há no Pedro Santana Lopes. Uma estima para ficar. De palmada no ombro.

Canais e conteúdos


 


Esta semana o ministro adjunto Poiares Maduro pronunciou-se por duas vezes sobre media e, em especial, sobre os media que tutela, a RTP e a Lusa. Foi numa comisão parlamentar e numa conferência da ERC. Nesta, a que assisti, os princípios gerais que enunciou pareceram adequados e não se distinguiram particularmente dos expostos, em diversas ocasiões similares, por Miguel Relvas (afinal, o Programa do Governo é o mesmo). Quanto aos organismos em que o Estado é o único accionista (RTP) ou accionista maioritário (Lusa), o ministro adjunto insistiu na "serenidade" e aguarda que as "reestruturações" em curso correspondam a "planos" que incluam, no caso da RTP, um novo acordo de concessão de serviço público (o da Lusa, de diferente natureza, ainda foi celebrado com Relvas). A problemática do serviço público de rádio e televisão é uma questão de conteúdos como abundantemente se tem escrito ou citado neste blogue. Todavia a empresa RTP sobreleva permanentemente qualquer debate sério sobre a matéria. Poiares Maduro, mais tarde ou mais cedo, acabará por ter de enfrentar este nó górdio agora que o regime, em peso, concordou em manter a "galáxia RTP" indemne. A CAV não deixa de ser uma substituição tributária pelo que, mesmo sem indemnização compensatória, são os contribuintes que a custeiam como bem nota Eduardo Cintra Torres: «em geral, as oposições, em democracia, queixam-se do aumento de impostos, mas a portuguesa quer mais impostos para financiar a RTP só porque sim, sem ter qualquer ideia que o justifique.». Em suma, «é por causa da insatisfação generalizada com os conteúdos realmente apresentados pela RTP que se está sempre a discutir o seu "futuro": esperamos sempre que venha a fazer verdadeiro serviço público, e ficamos sempre à espera. Se o ministro não encontra maneira, com o parlamento e a sociedade, de dar a volta ao problema dos conteúdos, podemos esperar sentados, pagar a taxa sem pensar no assunto e mudar de canal.»


 


 


Adenda: Entretanto no telejornal da referida RTP, dirigido por Cristina Esteves, passou uma peça sobre a falência de quatro farmácias hospitalares, um dos muitos ex libris do eng. Sócrates que apareceu em imagens de arquivo nas inaugurações das ditas. Serviço público, por exemplo, seria Cristina Esteves aproveitar a presença do comentador José Sócrates no fim do seu telejornal e colocá-lo a comentar-se a si próprio a propósito deste tema. Uma coisa que perpetra, aliás, com notável desenvoltura.

Questões de legitimidade






«A esquerda e algumas notabilidades do PSD andam por aí a espalhar uma ideia perigosa: a ideia de que um Governo deve ser substituído quando cria um grande descontentamento público (desce nas sondagens, por exemplo, ou é vaiado a cada canto da província). Ou seja, quando perde a legitimidade de exercício. Ora, a legitimidade de exercício era precisamente o que a Ditadura invocava para justificar a sua existência e a sua longa duração. Marcelo, principalmente, insistia muito nesse ponto. Se o povo estava contente, não havia qualquer razão para mudar, nem, como é óbvio, para fazer eleições. As coisas falavam por si. Que o radicalismo resolva hoje recorrer ao mesmo tipo de argumento (embora em sentido inverso) não tranquiliza ninguém e dá uma impressão, de resto falsa, da fragilidade da lei e do Estado. Isto mostra bem como os portugueses não aceitaram, nem ainda se conseguiram adaptar a um regime representativo. Do Senhor D. João VI, por graça de Deus, rei de Portugal e do Brasil, até à remoção da tutela militar sobre a democracia, nenhum Governo foi legítimo, pela simples razão de que não tinha legitimidade de origem. O Senhor D. João VI retirava a sua directamente do Altíssimo, a democracia, depois da primeira revisão constitucional, retirava a sua do sufrágio popular e universal. Pelo meio passou uma infinidade de usurpações, de “revoluções” e de eleições falsificadas. O respeito e o “nojo” pelos políticos, que não desapareceu, começou aí: a população letrada não lhes reconhecia o menor direito de falar por ela e não ignorava o caminho de oportunismo e de sabujice que os levara ao Parlamento e ao Governo. A legitimidade de origem de Passos Coelho e de Paulo Portas não é duvidosa. Recomendar a sua expulsão pelo excelentíssimo dr. Cavaco abriria um precedente letal. Se Cavaco aceitasse esta louca lógica, dali em diante nada impediria que uma manifestação ou uma assuada chegassem para liquidar um Governo. E, se não chegassem, um tiro ou um ou outro espancamento bastariam. Pouco a pouco, o verdadeiro poder acabaria por se transferir para pequenos grupos de activistas (sem unidade ou programa), capazes de encher a Av. da Liberdade, o Rossio ou Terreiro do Paço. O Presidente ficaria reduzido a convocar eleições sobre eleições ou até a engolir o resultado do último tumulto. Não percebo por que motivo esse belo sistema beneficiaria a esquerda ou as notabilidades do PSD que hoje colaboram com ela. A seguir a Passos Coelho e a Paulo Portas seriam elas, com certeza, as vítimas designadas. Tudo se paga neste mundo.»




Vasco Pulido Valente, Público

8.6.13

Uma vantagem

Está em curso uma fronda estúpida contra Francisco José Viegas por causa de alegadamente, enquanto responsável político pelo sector da cultura, ter "autorizado" a saída do país de um quadro classificado que, por acaso, pertencia a um privado. "Especialistas" de diversas proveniências e estirpes não páram de derramar pelos jornais, e o seu sucessor já prometeu uma "investigação" para os sossegar. De quando em quando há destes acessos em torno do património cultural sobretudo se o proveito maior for, não a sua preservação real, mas sim ferver alguém em lume brandinho como é apanágio da condição trágico-burlesca da nossa terra, parafraseando Gaspar Simões. Ou Tom Sharpe, lido por Viegas. «As pessoas demasiado correctas não gostavam dele. Uma vantagem.»

O passado neste presente


 


Até o tempo deixou de ser confiável. Dantes - e este "dantes" remonta apenas a uma meia dúzia de anos - havia primavera e outono, duas estações amenas que praticamente desapareceram. Agora oscila-se entre tempo de verão ou de inverno, dentro do que antigamente era primavera ou outono, e passa-se, sem dar por isso, entre ambos em meras horas e dias. Na feira do livro, por exemplo, escondi-me ontem à tarde de uma chuva pouco branda numa tenda dita de pequenos editores onde repousavam restos mortais de antigos grandes editores como a Guimarães. Por 4,9 euros, trouxe a primeira Agustina, prefaciada por Pascoaes, a novela Mundo Fechado. Anteriormente tinha ido por meia dúzia de alfarrabistas, na prática só o que me interessa ali. Mais dez cêntimos e sobreveio a correspondência Sena-Régio, publicada em 1986 pela INCM, e que esta dá, como a muitas obras suas, por esgotada. Quando, temo, as tenha para lá escondidas (ou destruídas ou por destruir) e que pertencem a um acervo bibliográfico notável de coisas nossas. Os preços actualmente praticados pela INCM, atenta a natureza da empresa, dra. Maria Luís Albuquerque, são pornográficos. É por estas e por outras que estas palavras de Eduardo Prado Coelho - que frequento com assiduidade - se aplicam perfeitamente à "estranheza" em vigor. «Sentimos que aquilo que para nós fazia sentido deixou de fazer sentido para os outros, e que as tentativas de manter um discurso lúcido, de prazer e inteligência das coisas e da vida, parece irremediavelmente condenado por um formato obrigatório que tudo tritura e tudo desrespeita. Descobrimos que o passado não é o que deixou de existir; existe, sim, senhor, bem perto de nós: porque nós somos hoje o passado neste presente em que não nos reconhecemos.»

7.6.13

Uma questão de adultos

A anunciada greve dos professores a exames e a avaliações representa o regresso da instabilidade às escolas. Depois de nos últimos anos se ter privilegiado os "direitos" de toda a gente envolvida - alunos (que batem nos professores) , pais dos alunos (que entravam nas escolas para igualmente bater nos professores), professores, sindicatos - e desprezado a disciplina, o pilar do funcionamento de uma escola, com a consequente desautorização da figura, igualmente essencial, do professor, parecia que as coisas tinham atingido alguma moderação e algum equilíbrio. O poder político que precedeu o actual começou bem e acabou pessimamente nesta matéria. Confundiu uma classe inteira com uma nomenclatura sindical profissionalizada. Contribuiu para lesar a preeminência e a autoridade do professor na aula. Até o computador o precedia e, se fosse preciso, o anulava. Por consequência não aprecio o argumentário das "coitadinhas das criancinhas que não podem fazer exames". Não é por aí. Os professores (e os alunos) fazem parte de uma realidade mais complexa que tem a ver com a qualificação geral do país. Não pode ser resumida a uma questão de mercearia com cada um dos lados a usar o lápis que traz na orelha. Na tropa aprendia-se que há deveres e direitos e que aqueles precedem estes. Na escola também é preciso começar por aí em vez de se instaurar um novo "eduquês-financês" politiqueiro pejado de "professores coitadinhos" e de "alunos coitadinhos". É tempo de tratar isto como adultos.

Feira de inocentes






«Desde o princípio, o maior erro deste Governo foi não ajustar contas com o passado, a pretexto de que não queria perder tempo com velhas querelas. Por assim dizer, apagou a responsabilidade de toda a gente que tinha levado Portugal à situação desesperada de 2011. O nosso coração é bom e muito inclinado a não tocar no sossego e no bom nome do próximo. É um coração de ouro que não gosta de afligir ninguém. E, como não gosta, os portugueses ficaram sem saber ao certo como se acumulou a enorme dívida, soberana e outra, que nos sufoca; quem deliberadamente a fez por sua própria força e autoridade; e que espécie de razões presidiram ao exercício (corrupção? oportunismo eleitoral? incompetência? puro desleixo?). A julgar pela televisão e pelos jornais parece que um castigo do Altíssimo se abateu sobre nós para nos punir de inconfessáveis pecados. Entretanto, cai interminavelmente do céu uma chuva de números, que de resto mudam dia a dia e em que o cidadão vulgar deixou de acreditar. Durante o glorioso mandato deste Governo, os portugueses, pelo menos, conseguiram aprimorar a sua educação cívica, que se resume numa frase: não devemos confiar em nada e contar com nada. Um ministro pode perfeitamente decidir isto ou aquilo e, em meia dúzia de horas, decidir exactamente o contrário. O primeiro-ministro ora nos garante a felicidade para depois de amanhã, ora um futuro de miséria para 30 anos. Os profetas-comentadores, deliciados de se exibirem e subitamente sem excepção com uma licenciatura em Economia, discutem o extravagante dr. Gaspar, ou a iminência do apocalipse, ou a urgentíssima necessidade do “crescimento”, que se tornou um fenómeno tão mítico como um unicórnio. E nós continuamos passivos no meio desta feira de inocentes, sem a menor ideia do que nos vai suceder. Mas sem queixas. Portugal é o país da impunidade.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

6.6.13

"A tirania mediática"


 


Passei por uma conferência da ERC na Faculdade de Direito. Continua cada vez mais na ordem do dia saber-se "o que é que comunica a comunicação social" sobretudo com a multiplicação de plataformas de acesso à informação. E, mesmo com todas as perplexidades e "dificuldades" apresentadas pelos vários protagonistas na conferência, o tempo, cá e lá fora, é o da "tirania mediática". O título foi-me recomendado ontem ao almoço por um amigo bem informado e, ainda melhor, bem formado. O Carlos Magno (e não só) que aproveite a sugestão.

A língua de pau

O PS concluiu um conjunto de encontros com os outros partidos. Terminou com o PSD, sem Seguro e sem Passos Coelho. Cá fora, ambos os partidos evidenciaram as "divergências". Insanáveis, segundo o PS. Com o devido respeito, esta conversa, para além de redundante, é de chacha. Se fosse tudo ao contrário, então não haveria democracia mas antes um enorme pastelão. Há quem aprecie pastelões e salamaleques. E há quem esteja sempre pronto para apimentar qualquer pastelão e para salamaleques desde que ganhe alguma coisinha com isso. O termo técnico para esta ginástica partidária é "charneira" e o resultado, também em língua de pau, chama-se "consenso". Quem porém dita o "consenso", numa democracia liberal, é o "povo" quando vota. Não é a língua de pau. Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo.

Ver o fundo aos fundos






«Sem reflexão estratégica, com os torrenciais fundos de milhões de euros por dia, ganhou evidentemente o voluntarismo táctico, que rapidamente se entregou à orgia do betão, e que teve no cavaquismo a sua década ilusoriamente triunfante. Esqueceu-se então, de vez, o interior, os recursos naturais, o mar, a ferrovia. E esqueceu-se, mais uma vez, a massa cinzenta, a escola, a formação, a investigação, a cultura, a criatividade, a exportação, o mundo. Ganharam os lobbies, a preguiça, a corrupção e o chico-espertismo. Mas construíram-se freneticamente casas, piscinas, rotundas, pavilhões de todo o género, e imensas autoestradas. Aqui, até batemos recordes europeus e mundiais em construção de quilómetro por habitante ou por percentagem no PIB. Autoestradas que, para lá da realização mais emblemática do regime, se tornaram na verdadeira metáfora do acesso à nossa tão proclamada como vazia modernidade. E a ilusão europeia manteve-se até ao final da década passada. Só então, com os abalos da crise do euro, e com o impacto das suas consequências, é que se começou a perceber as oportunidades que entretanto se tinham perdido, e os meios que se tinham desperdiçado. E não adianta agora fingir que não se sabia. Seja por hipocrisia ou ignorância, isso só serve talvez para se tentar recuperar uma inocência que permita que tudo, no futuro, continue rigorosamente na mesma. É isso que é de temer, quando se olha para os tão reclamados novos fundos europeus (quase 28 mil milhões de euros) para o período 2014/2020, e não se conhece ainda um único projecto de envergadura.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

5.6.13

Uma introdução ao estudo do direito

Não sou propriamente fã do Tribunal Constitucional. Não por causa do que decide ou deixa de decidir mas porque me parece que a coisa ficaria bem entregue a uma secção especializada do Supremo Tribunal de Justiça. Por consequência não sou adepto da diabolizaçao do dito. Um Estado de Direito assenta na separação de poderes e na segurança jurídica, e assim sucessivamente, como até os manuais do insuspeito Prof. Marcello Caetano explicam profusamente desde o ano lectivo de 1951-52. Isto vem a propósito de uma entrevista de outro professor de direito, desta vez de Coimbra, que afirma que "as pensões não são propriedade do reformado" e que "a TSU dos pensionistas é mais justa e tem menos riscos de inconstitucionalidade". Sem pretender contrariar tão douta posição, não estou porém certo que o eminente mestre tenha em conta as consequências práticas (já nem digo políticas) destes postulados. Desde logo junto dos actuais pensionistas. Depois, dos que estão no "activo" e a descontar obrigatoriamente para a Segurança Social ou para a Caixa Geral de Aposentações - na presunção de não seguirem directamente do posto de trabalho para o jazigo. Ora o que o inisigne mestre nos ensina é que, afinal, tanto dá descontar como não descontar, sobretudo quanto ao valor descontado (ou seja, retirado ao salário com um objectivo preciso), que pode sempre "ajustar-se" com este extraordinário argumento de que não é propriedade de quem desconta, repito, obrigatoriamente. Quanto a segurança jurídica, estamos conversados. Quanto à "TSU dos pensionistas ser mais justa", deixo a avaliação da "compatibilidade" disto com opções políticas a outros. 

Comemorações


 


A única coisa que me apetece comemorar hoje são os três meses do meu cão. É um pequeno terrorista, estilo "Gremlin", diverte-se muito consigo e com os seus brinquedos, tem dificuldades em obedecer - nada que uma boa palmada não resolva -, aprecia mordiscar tudo o que aparece pela frente o que inclui dedos, braços e pernas. Em suma, é um democrata. Gosta do conflito.

4.6.13

Política precisa-se


 


Sem colocar em causa a competência técnica de quem está a tratar disso, julgo que a questão "função pública" devia ser abordada num patamar politicamente mais elevado. Porque é disso que se trata, de política. E de consequências políticas.

3.6.13

O fim abrupto do nosso mundo


 


Vinha no metro a ler o livrinho de Vila-Matas precisamente quando tudo aponta no sentido contrário a "uma vida absolutamente maravilhosa". Vale o "abraço maravilhoso" que o autor deixou no autógrafo aquando da sua passagem pela feira do livro (sim, não são apenas as sónias  e os sónios vanessos que pululam nas galáxias editoriais portuguesas, com as suas prosinhas em acordês inspiradas nas cartas da revista Maria ou numa banda desenhada rasca sobre história de Portugal, que passam por lá). É um livro de crónicas e ensaios, matéria em que Vila-Matas está à vontade como numa conversa séria ou jocosa à mesa de café de uma cidade qualquer. Lá dentro encontro este bocado de La Calle Rimbaud que me apetece reproduzir numa tradução livre, minha, porque vem a propósito do tudo com que comecei. «Envelhecer talvez tenha a sua graça, todavia também é verdade que envelhecer serve para comprovar que fizemos um caminho e que o tempo caminhou ao nosso lado; serve para comprovar que avançámos através de dunas movediças que não nos levaram mais longe que ao fim de um trajecto íntimo e que nos deixaram no começo de um deserto do qual, ao olhar para trás a tentar recuperar qualquer coisa da nossa Calle Rimbaud, apenas podemos entrever um velho caminho em que o tempo, já às portas do deserto, escreveu o fim abrupto do nosso mundo, do mundo.»

2.6.13

Assim os homens


 


Ilustra este post um livro de poemas de João Miguel Fernandes Jorge. Uso-o pela razão bem trivial que é, dos livros dele, um dos que mais gosto, na 1ª edição, de 1982, Na Regra do Jogo, com capa de João Botelho e um posfácio do Joaquim Manuel Magalhães. E uso-o porque já se percebeu que a este concreto mês de Junho, o que lhe faltar em calor e em água de mar aceitável, lhe sobrará em "actividade" ou pseudo-actividade dita política geral. Começou com o desinteresse da "maioria silenciosa" pelas anunciadas dezassete ou dezoito manifestações "contra a troika". O país que não fala está preocupado e, por consequência, recatado. Está em casa a fazer contas ou sai de casa para espairecer (e trabalhar se tiver trabalho) e não para se "mobilizar". Os chefes partidários afastam-se prudentemente do atomismo das manifestações, mesmo das mais sofisticadas como a promovida pelo dr. Soares que se destinava apenas a comprometer Seguro. Seguro anda por aí a lançar os seus candidatos autárquicos e, de caminho, tenta apropriadamente falar à nação. Até Passos Coelho, sozinho desde que Miguel Relvas saiu de cena, apareceu em momentos oficiais e em momentos de partido fora de Lisboa. Daqui a uns dias discutir-se-á o orçamento rectificativo já à espera de putativo próximo como enunciou o primeiro-ministro. Também consta que será o mês da "reforma do Estado" a qual, como lembrava Fátima Bonifácio, não é epistemologicamente equivalente a "cortes". Coisas interessantes que se possam fazer - por exemplo, Paulo Macedo ou Álvaro Santos Pereira respectivamente na saúde e na economia -  são diluídas na frivolidade, no mexerico, no "fiscalês" de ocasião e no "amiguismo" das redacções. Para celebrar o seu aniversário, o Jornal de Notícias promoveu sondagens autárquicas que divulga hoje. No que me interessa, Lisboa, Costa sem se mexer deixa a vinte pontos de distância qualquer alternativa. Se isto não se equilibrar (e não é Seara - que renegou em Sintra, sem pestanejar, o seu "número dois" e verdadeiro executivo em nome dele - quem o fará), é um vexame sem nome.  Tudo somado, e como num verso de À beira do mar de Junho, "assim os homens".

O "kitsch" de Kundera traduzido em números para português



«A Expo, essa maravilha, deixou só um novo arrabalde, longe do centro, uma ilhota de kitsch em homenagem aos seus lúcidos promotores. O Porto, onde não há tanta megalomania, em vez de um espectáculo para impressionar o próximo, constituiu uma Sociedade de Reabilitação Urbana, que se destina fundamentalmente a atrair capital privado para a dita reabilitação. E os números de que Rui Rio falou ontem na televisão mostram que a Sociedade acabou de facto por convencer o capital privado a investir centenas de milhões de euros na parte velha da cidade, criando emprego e, o que é melhor, emprego estável. Só que o Governo, desta vez na pessoa de Assunção Cristas, resolveu criar dificuldades porque achou excessivo o défice da Sociedade, sem presumivelmente perceber para o que ela servia, nem o serviço que prestava ao país. Algumas centenas de notabilidades do Porto já assinaram uma carta aberta para protestar contra esta aberração. Mas, segundo o Expresso, a sra. ministra persiste na sua política de “cortes”, que infalivelmente arrastarão outros “cortes” mais sérios e abalarão a confiança no Estado. A inteligência não abunda. A inteligência instalada bastou para construir a Expo e, com os dinheiros da Europa, 9468 quilómetros de estrada, 2353 quilómetros de via férrea, 662 edifícios para universidades e escolas e também para gastar 2 mil milhões de euros no abate de embarcações de pesca. Para mais não chega.»




Vasco Pulido Valente, Público