Pude assistir no São Carlos, quando havia São Carlos, à exibição da dupla do clip nesta mesma ópera de Wagner. Hofmann prodigalizava um Siegmund simultaneamente jovem e com um timbre adequado ao papel. O lugar comum é que morrem cedo aqueles que os deuses amam. Wotan amava estes dois irmãos incestuosos e, não obstante, condenou Siegmund à morte em combate. A vida encarregou-se agora do resto. É mesmo uma porcaria.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
30.11.10
PETER HOFMANN 1944-2010
Pude assistir no São Carlos, quando havia São Carlos, à exibição da dupla do clip nesta mesma ópera de Wagner. Hofmann prodigalizava um Siegmund simultaneamente jovem e com um timbre adequado ao papel. O lugar comum é que morrem cedo aqueles que os deuses amam. Wotan amava estes dois irmãos incestuosos e, não obstante, condenou Siegmund à morte em combate. A vida encarregou-se agora do resto. É mesmo uma porcaria.
PARLAMENTO LULIZADO
Jaime Gama quer levar a "lulização" da língua portuguesa ao parlamento, obrigando-o a usar o linguarejar acordográfico em 2012. Vamos ver como é que aqueles amiguinhos que se sentam no dito parlamento, alfabetizados ou não, reagem a isto. Se é que reagem.
Adenda (do Impensável): «Proponho, aproveitando este blog, que enviem um protesto a Jaime Gama. Podem fazê-lo aqui: http://www.parlamento.pt/sites/PAR/PARXLEGA/Contacto/Paginas/default.aspx Poderiam lembrá-lo de que a petição com mais de 100000 assinaturas não foi discutida em plenário, como foi recomendado pela Comissão de Ética, cultura e sociedade e que o Dr. Gama não demonstrou então qualquer pressa em promover uma real discussão sobre o "acordo:»
Adenda (do Impensável): «Proponho, aproveitando este blog, que enviem um protesto a Jaime Gama. Podem fazê-lo aqui: http://www.parlamento.pt/
Etiquetas:
acordo ortográfico,
língua portuguesa,
Parlamento
PARLAMENTO LULIZADO
Jaime Gama quer levar a "lulização" da língua portuguesa ao parlamento, obrigando-o a usar o linguarejar acordográfico em 2012. Vamos ver como é que aqueles amiguinhos que se sentam no dito parlamento, alfabetizados ou não, reagem a isto. Se é que reagem.
Adenda (do Impensável): «Proponho, aproveitando este blog, que enviem um protesto a Jaime Gama. Podem fazê-lo aqui: http://www.parlamento.pt/sites/PAR/PARXLEGA/Contacto/Paginas/default.aspx Poderiam lembrá-lo de que a petição com mais de 100000 assinaturas não foi discutida em plenário, como foi recomendado pela Comissão de Ética, cultura e sociedade e que o Dr. Gama não demonstrou então qualquer pressa em promover uma real discussão sobre o "acordo:»
Adenda (do Impensável): «Proponho, aproveitando este blog, que enviem um protesto a Jaime Gama. Podem fazê-lo aqui: http://www.parlamento.pt/
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língua portuguesa,
Parlamento
A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR ANTÓNIO

«Na comissão de Honra só Antónios somos 58.» Não é o caso "deste" António «mas para que essa caminhada fosse tranquila, abrigada pelo itinerário desenfiado, como se diz na guerra, houve muito trabalho de preparação e de protecção. Denunciando campanhas, iluminando espantalhos e estourando minas colocadas pelos adversários. Um trabalho muito arriscado, por motivo da coacção das forças inimigas, impopular, devido a opção estratégica errada, e isolado, pela ausência dos interesseiros e o habitual ostracismo que se destina aos soldados - enquanto estes não vencem e o desprezo se converte em rendição indecorosa. Agora que a vitória está próxima é, como dizia um velho professor meu, noutro tempo mais honroso, o momento dos homens da undécima hora. Homens sem carácter, com quem se pode sempre contar em épocas de poder e paz e desertam mal se prevê o sacrifício da míngua ou o fragor das batalhas. Homens que, depois dos triunfos, juram acções em combates onde nenhum soldado os viu.»
A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR ANTÓNIO

«Na comissão de Honra só Antónios somos 58.» Não é o caso "deste" António «mas para que essa caminhada fosse tranquila, abrigada pelo itinerário desenfiado, como se diz na guerra, houve muito trabalho de preparação e de protecção. Denunciando campanhas, iluminando espantalhos e estourando minas colocadas pelos adversários. Um trabalho muito arriscado, por motivo da coacção das forças inimigas, impopular, devido a opção estratégica errada, e isolado, pela ausência dos interesseiros e o habitual ostracismo que se destina aos soldados - enquanto estes não vencem e o desprezo se converte em rendição indecorosa. Agora que a vitória está próxima é, como dizia um velho professor meu, noutro tempo mais honroso, o momento dos homens da undécima hora. Homens sem carácter, com quem se pode sempre contar em épocas de poder e paz e desertam mal se prevê o sacrifício da míngua ou o fragor das batalhas. Homens que, depois dos triunfos, juram acções em combates onde nenhum soldado os viu.»
ESTADO DE NECEDADE

Para completar o "estado" em que vivemos, só faltava mesmo a opinião deste senhor. Para além de que um referendo sobre república ou monarquia dá de comer e beber a milhões de portugueses, emprego e felicidade de uma maneira geral.
ESTADO DE NECEDADE

Para completar o "estado" em que vivemos, só faltava mesmo a opinião deste senhor. Para além de que um referendo sobre república ou monarquia dá de comer e beber a milhões de portugueses, emprego e felicidade de uma maneira geral.
NÓS POR CÁ

O Banco de Portugal aconselha a banca comercial a arranjar mais e outras formas de financiamento. Aparentemente as "tradicionais" estão fartas de dar para o peditório para além de "tesas". Por outro lado, os accionistas, à partida, também não estão melhor. É um círculo vicioso? É. Roubini ainda tem muita literatura pela frente. Não por nossa causa, evidentemente. Mas porque, periféricos, pobres e inconfiáveis, sempre damos pelo menos para um gráfico ilustrativo. Ontem, na rtp, Daniel Oliveira, um arrogante corifeu do regime, exibiu um, gigantesco, provavelmente destinado a tentar apoucar Medina Carreira que está farto de demonstrar quando é que crescemos e quando é que começámos a cair sem remédio. Foi uma pulhice inconsequente e ouvida com a reverência que os Karamba regimentais sempre despertam nem que seja a título de lixo tóxico doméstico. Já faltou mais para ver quem tem infelizmente razão.
NÓS POR CÁ

O Banco de Portugal aconselha a banca comercial a arranjar mais e outras formas de financiamento. Aparentemente as "tradicionais" estão fartas de dar para o peditório para além de "tesas". Por outro lado, os accionistas, à partida, também não estão melhor. É um círculo vicioso? É. Roubini ainda tem muita literatura pela frente. Não por nossa causa, evidentemente. Mas porque, periféricos, pobres e inconfiáveis, sempre damos pelo menos para um gráfico ilustrativo. Ontem, na rtp, Daniel Oliveira, um arrogante corifeu do regime, exibiu um, gigantesco, provavelmente destinado a tentar apoucar Medina Carreira que está farto de demonstrar quando é que crescemos e quando é que começámos a cair sem remédio. Foi uma pulhice inconsequente e ouvida com a reverência que os Karamba regimentais sempre despertam nem que seja a título de lixo tóxico doméstico. Já faltou mais para ver quem tem infelizmente razão.
29.11.10
OLIVEIRINHAS
No programa Fatinha Campos Ferreira, Daniel Oliveira representa o regime e a sua língua de pau. Podia ser ele ou outro tagarela qualquer da "direita" (não é o caso do Miguel Morgado mesmo quando absurdamente concorda um bocadinho com o Oliveira) que o efeito era exactamente o mesmo. O medinho do FMI e o elogio às qualidades pátrias para nos safarem - até agora essas "qualidades" não nos safaram de coisa alguma - são deveras comoventes e Oliveira já merece uma "medalha Sócrates" que, aliás. poderá recolher junto da candidatura presidencial que apoia juntamente com aquele. Medina Carreira até agora não deixou de ter razão. É um catastrofista? Não me parece. Melhor catástrofe do que a em vigor não se conhece.
OLIVEIRINHAS
No programa Fatinha Campos Ferreira, Daniel Oliveira representa o regime e a sua língua de pau. Podia ser ele ou outro tagarela qualquer da "direita" (não é o caso do Miguel Morgado mesmo quando absurdamente concorda um bocadinho com o Oliveira) que o efeito era exactamente o mesmo. O medinho do FMI e o elogio às qualidades pátrias para nos safarem - até agora essas "qualidades" não nos safaram de coisa alguma - são deveras comoventes e Oliveira já merece uma "medalha Sócrates" que, aliás. poderá recolher junto da candidatura presidencial que apoia juntamente com aquele. Medina Carreira até agora não deixou de ter razão. É um catastrofista? Não me parece. Melhor catástrofe do que a em vigor não se conhece.
A FESTA PRIVADA DO CHIBO

"Ofereci-me" A Festa do Chibo, de Vargas Llosa, recentemente editado em livro de bolso. Pareceu-me um título (não o conteúdo, evidentemente) adequado a um "balanço" pessoal. Mas vamos já regressar ao "I am not my own subject". No Porto, o prof. Cavaco apresentou a sua comissão de honra. Fiz parte de três ou quatro, respectivamente, entre os meus 19 e 40 anos. De Eanes, de Soares e de Sampaio aquando da recandidatura de 2001 (sim, sim, podem vergastar-me à vontade). Nas de Cavaco, ironicamente, nunca estive sendo o meu voto mais fidelizado, de 85 até, espero, 2011. Mas Cavaco não precisa para nada da presença de quem o "acompanha" - no voto e não só - há um quarto de século em coisas como comissões de bonzos disto ou daquilo. Os que nunca lá estiveram (nem nas comissões, nem nos votos, nem na lealdade) é que são necessários pela "renovação". Trazem, por assim dizer, um "novo" eleitorado. Eu já dobrei décadas suficientes e, em princípio, garanto o voto sem precisar curvar-me em demasia ou exibir-me de "cristão-novo", velho ou recém-nascido.. E, para além disso, tenho o Chibo à espera.
A FESTA PRIVADA DO CHIBO

"Ofereci-me" A Festa do Chibo, de Vargas Llosa, recentemente editado em livro de bolso. Pareceu-me um título (não o conteúdo, evidentemente) adequado a um "balanço" pessoal. Mas vamos já regressar ao "I am not my own subject". No Porto, o prof. Cavaco apresentou a sua comissão de honra. Fiz parte de três ou quatro, respectivamente, entre os meus 19 e 40 anos. De Eanes, de Soares e de Sampaio aquando da recandidatura de 2001 (sim, sim, podem vergastar-me à vontade). Nas de Cavaco, ironicamente, nunca estive sendo o meu voto mais fidelizado, de 85 até, espero, 2011. Mas Cavaco não precisa para nada da presença de quem o "acompanha" - no voto e não só - há um quarto de século em coisas como comissões de bonzos disto ou daquilo. Os que nunca lá estiveram (nem nas comissões, nem nos votos, nem na lealdade) é que são necessários pela "renovação". Trazem, por assim dizer, um "novo" eleitorado. Eu já dobrei décadas suficientes e, em princípio, garanto o voto sem precisar curvar-me em demasia ou exibir-me de "cristão-novo", velho ou recém-nascido.. E, para além disso, tenho o Chibo à espera.
AOS CINQUENTA ANOS

Aos cinquenta anos sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
Se me quero patriarca, pai de família, como acabei sendo,
ou se me quero livre pelas ruas nocturnas
como quando não acabei de descobri-las
em décadas de andá-las, perseguindo
sequer o amor mas corpos, corpos, corpos.
Sou de Europa ou de América? De Portugal
ou Brasil? Desejo que toda a humanidade
seja feliz como queira, ou quero que ela morra
do cogumelo atómico prometido e possível?
Não sei. Definitivamente, não sei.
Julgas que estou deitado num leito de rosas?
— perguntava ao companheiro de tortura Cuauhtemoc(1).
Mas, mesmo destituído, preso e torturado,
ele era o Imperador, descendente dos deuses.
Eu não descendo dos deuses. O corpo dói-me,
que envelhece. O espírito dói-me de um cansaço físico.
As belezas de alma, seja de quem forem, deixaram de interessar-me.
Resta a poesia que me enoja nos outros
a não ser antigos, limpos agora do esterco
de terem vivido. E eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido. Aos 50 anos
nem sequer a raiva dos outros ainda me sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo.
Outros que tentem e descubram:
que digam ou não digam é-me indiferente.
(1) Cuauhtemoc tornou-se, em 1520, no 11º e último imperador dos Astecas, após a morte do sucessor de Montezuma II. Ambos simbolizam o fim de uma civilização, em virtude das conquistas expansionistas castelhanas de que Hernán Cortés foi um dos agentes, ao aprisioná-los.
Jorge de Sena
Jorge de Sena
AOS CINQUENTA ANOS

Aos cinquenta anos sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
Se me quero patriarca, pai de família, como acabei sendo,
ou se me quero livre pelas ruas nocturnas
como quando não acabei de descobri-las
em décadas de andá-las, perseguindo
sequer o amor mas corpos, corpos, corpos.
Sou de Europa ou de América? De Portugal
ou Brasil? Desejo que toda a humanidade
seja feliz como queira, ou quero que ela morra
do cogumelo atómico prometido e possível?
Não sei. Definitivamente, não sei.
Julgas que estou deitado num leito de rosas?
— perguntava ao companheiro de tortura Cuauhtemoc(1).
Mas, mesmo destituído, preso e torturado,
ele era o Imperador, descendente dos deuses.
Eu não descendo dos deuses. O corpo dói-me,
que envelhece. O espírito dói-me de um cansaço físico.
As belezas de alma, seja de quem forem, deixaram de interessar-me.
Resta a poesia que me enoja nos outros
a não ser antigos, limpos agora do esterco
de terem vivido. E eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido. Aos 50 anos
nem sequer a raiva dos outros ainda me sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo.
Outros que tentem e descubram:
que digam ou não digam é-me indiferente.
(1) Cuauhtemoc tornou-se, em 1520, no 11º e último imperador dos Astecas, após a morte do sucessor de Montezuma II. Ambos simbolizam o fim de uma civilização, em virtude das conquistas expansionistas castelhanas de que Hernán Cortés foi um dos agentes, ao aprisioná-los.
Jorge de Sena
Jorge de Sena
28.11.10
LOUCO?

É mesmo não entender nada de nada acerca de Pessoa chamar-lhe louco. Génio, sem dúvida, porque há deliberação. O resto aprende-se lendo. Não é citando. E o livro que Adolfo Casais Monteiro lhe dedicou ainda hoje é um grande livro sobre o dito cujo porque ambos - Pessoa e Casais - tinham essa rara intuição, cúmplice, que ferrava marteladas oportunas na douta ignorância. Não é que o autor do post seja pouco inteligente. Está é convencido que é muito.
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Adolfo Casais Monteiro,
Fernando Pessoa
LOUCO?

É mesmo não entender nada de nada acerca de Pessoa chamar-lhe louco. Génio, sem dúvida, porque há deliberação. O resto aprende-se lendo. Não é citando. E o livro que Adolfo Casais Monteiro lhe dedicou ainda hoje é um grande livro sobre o dito cujo porque ambos - Pessoa e Casais - tinham essa rara intuição, cúmplice, que ferrava marteladas oportunas na douta ignorância. Não é que o autor do post seja pouco inteligente. Está é convencido que é muito.
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Fernando Pessoa
O PORTUGALÓRIO CAMINHA PARA AS FESTAS

Esta semana o 1º ministro visita a Argentina e a Líbia, respectivamente a viúva Kirchner e o beduíno Kadafi, duas excelentes pessoas vistas à distância. E com Zapatero, outro líder mundial prenhe de credibilidade, vai "promover" a candidatura ibérica a um mundial da bola, justamente o que a Península, a caminhar rapidamente para a falência, mais precisa. Quando regressar, talvez Sócrates se ocupe da realidade antes que esta se ocupe dele. Mesmo assim irá sempre tarde. No meio disto tudo, as televisões vão organizar dez (10) debates entre candidatos presidenciais. Uns com os outros, todos com todos, dois a dois, etc., etc. Querem tudo arrumadinho antes das festas. Lá para o terceiro ou quarto debate, com sorte, o país já estará farto. Estamos a definhar. Material e moralmente. Noutro lugar qualquer a sério, as eleições presidenciais, numa hora destas, seriam um momento importante de purga nacional. A menos de dois meses delas, porém, é o que se vê. Todavia, o candidato que apoio "acredita". Esperemos que daqui a algum tempo ainda haja alguma coisa em que acreditar.
O PORTUGALÓRIO CAMINHA PARA AS FESTAS

Esta semana o 1º ministro visita a Argentina e a Líbia, respectivamente a viúva Kirchner e o beduíno Kadafi, duas excelentes pessoas vistas à distância. E com Zapatero, outro líder mundial prenhe de credibilidade, vai "promover" a candidatura ibérica a um mundial da bola, justamente o que a Península, a caminhar rapidamente para a falência, mais precisa. Quando regressar, talvez Sócrates se ocupe da realidade antes que esta se ocupe dele. Mesmo assim irá sempre tarde. No meio disto tudo, as televisões vão organizar dez (10) debates entre candidatos presidenciais. Uns com os outros, todos com todos, dois a dois, etc., etc. Querem tudo arrumadinho antes das festas. Lá para o terceiro ou quarto debate, com sorte, o país já estará farto. Estamos a definhar. Material e moralmente. Noutro lugar qualquer a sério, as eleições presidenciais, numa hora destas, seriam um momento importante de purga nacional. A menos de dois meses delas, porém, é o que se vê. Todavia, o candidato que apoio "acredita". Esperemos que daqui a algum tempo ainda haja alguma coisa em que acreditar.
27.11.10
O REELEITO MARINHO
Desgraçadamente os advogados reelegeram Marinho e Pinto seu bastonário. Da primeira vez, saudei a escolha porque julguei que o dito cujo, atípico e alheio a interesses e a negociatas, pouco dado a amabilidades, poderia alterar qualquer coisa na altiva corporação. Sucede que Marinho e Pinto se revelou um galhofeiro e inconsequente compagnon de route do 1º ministro (e da Fatinha Campos Ferreira no seu habitual espectáculo televisivo das segundas-feiras) que trocou o velho espaço de Coimbra - onde o Expresso o albergou como jornalista "correspondente" da província - pelas simpáticas instalações da Ordem ao lado do Palácio da Independência em Lisboa. Podia perfeitamente ir para o governo substituir o sr. Correia (outra vetusta luminária da Ordem) na Justiça.
O REELEITO MARINHO
Desgraçadamente os advogados reelegeram Marinho e Pinto seu bastonário. Da primeira vez, saudei a escolha porque julguei que o dito cujo, atípico e alheio a interesses e a negociatas, pouco dado a amabilidades, poderia alterar qualquer coisa na altiva corporação. Sucede que Marinho e Pinto se revelou um galhofeiro e inconsequente compagnon de route do 1º ministro (e da Fatinha Campos Ferreira no seu habitual espectáculo televisivo das segundas-feiras) que trocou o velho espaço de Coimbra - onde o Expresso o albergou como jornalista "correspondente" da província - pelas simpáticas instalações da Ordem ao lado do Palácio da Independência em Lisboa. Podia perfeitamente ir para o governo substituir o sr. Correia (outra vetusta luminária da Ordem) na Justiça.
OS NEO-OTELEIROS

Alguns leitores parecem indignados com o apoio de Belmiro de Azevedo a Cavaco. Talvez, então, seja melhor "alistarem-se" ao lado do mítico Otelo atrás do bardo Alegre para ver se aliviam. Ou de Edite Estrela, de Alfredo Barroso, de S. Silva ou da D. Alveca do Bloco. Nem todo o cortejo atrás de Cavaco é recomendável, evidentemente. Mas Cavaco, sozinho, resolve essa questão sem necessidade de equilibrismos cada vez mais desastrosos e inconsequentes como aqueles que Alegre é obrigado a fazer diariamente. E mesmo assim, repito, nem o milhão de 2006 conseguirá.
foto: Ephemera
foto: Ephemera
OS NEO-OTELEIROS

Alguns leitores parecem indignados com o apoio de Belmiro de Azevedo a Cavaco. Talvez, então, seja melhor "alistarem-se" ao lado do mítico Otelo atrás do bardo Alegre para ver se aliviam. Ou de Edite Estrela, de Alfredo Barroso, de S. Silva ou da D. Alveca do Bloco. Nem todo o cortejo atrás de Cavaco é recomendável, evidentemente. Mas Cavaco, sozinho, resolve essa questão sem necessidade de equilibrismos cada vez mais desastrosos e inconsequentes como aqueles que Alegre é obrigado a fazer diariamente. E mesmo assim, repito, nem o milhão de 2006 conseguirá.
foto: Ephemera
foto: Ephemera
CREDIBILIDADE PARA EXECUTAR OU A COLIGAÇÃO INEVITÁVEL

O OE, a pseudo tábua de salvação da pátria, foi aprovado. Quem o apresentou e aprovou não tem credibilidade política para o executar. Provavelmente quem foi complacente com a sua aprovação, mais tarde ou mais cedo, poderá ser chamado a executá-lo. Não deve ser por acaso que Passos Coelho, numa entrevista, aceita com naturalidade uma "coligação" com o FMI para o efeito e após eleições. Mesmo com esta constituição, estes poderes e esta relutância em ser protagonista, Cavaco vai voltar à política activa, de que andava arredado, depois de reeleito. Aí é que vai ser preciso apoiá-lo.
CREDIBILIDADE PARA EXECUTAR OU A COLIGAÇÃO INEVITÁVEL

O OE, a pseudo tábua de salvação da pátria, foi aprovado. Quem o apresentou e aprovou não tem credibilidade política para o executar. Provavelmente quem foi complacente com a sua aprovação, mais tarde ou mais cedo, poderá ser chamado a executá-lo. Não deve ser por acaso que Passos Coelho, numa entrevista, aceita com naturalidade uma "coligação" com o FMI para o efeito e após eleições. Mesmo com esta constituição, estes poderes e esta relutância em ser protagonista, Cavaco vai voltar à política activa, de que andava arredado, depois de reeleito. Aí é que vai ser preciso apoiá-lo.
26.11.10
BELMIRO

Belmiro de Azevedo apoia Cavaco Silva. É, nos últimos dias, o único apoio que merece destaque. Belmiro é um dos maiores empregadores do país, não vive da mesquinhice e da intriguice políticas e não é propriamente um videirinho rasteiro nem um paspalhão. Cria riqueza sem precisar de andar com a boca cheia do "empreendedorismo" dos seminários e dos congressos. Ora um tipo que dá trabalho a milhares de pessoas é um patriota não patrioteiro. Ao apoiar o actual PR revela que os próximos tempos exigem realismo e não passarinhos a soprar-nos aos ouvidos logo pela fresquinha. O resto, como diz a outra, não interessa nada.
BELMIRO

Belmiro de Azevedo apoia Cavaco Silva. É, nos últimos dias, o único apoio que merece destaque. Belmiro é um dos maiores empregadores do país, não vive da mesquinhice e da intriguice políticas e não é propriamente um videirinho rasteiro nem um paspalhão. Cria riqueza sem precisar de andar com a boca cheia do "empreendedorismo" dos seminários e dos congressos. Ora um tipo que dá trabalho a milhares de pessoas é um patriota não patrioteiro. Ao apoiar o actual PR revela que os próximos tempos exigem realismo e não passarinhos a soprar-nos aos ouvidos logo pela fresquinha. O resto, como diz a outra, não interessa nada.
CONTENTISMO PROFISSIONAL
Em que mundo vive esta alma penada da "esquerda moderna", sempre parolamente atenta à «expressão de superioridade satisfeita de que tem os paraísos por sua conta» (J. de Sena)?
CONTENTISMO PROFISSIONAL
Em que mundo vive esta alma penada da "esquerda moderna", sempre parolamente atenta à «expressão de superioridade satisfeita de que tem os paraísos por sua conta» (J. de Sena)?
MEU AMOR E TOLSTOI

Escreve Cintra Torres, a propósito da coisa "Meu Amor", emitida pela tvi, que «Meu Amor ganhou contra uma novela argentina e outra filipina.» Coisas tropicais a afins, portanto, onde continuamos a campear. Mas diz mais, no Público. Mais no sentido latino-americano em vigor. «As televisões cultas da Europa assinalaram o centenário da morte de Tolstoi passando adaptações dos seus romances e documentários sobre os seus livros, o seu retiro, a sua vida, a sua filosofia. Por cá não notei nada. Nem ao menos a presença de Tolstoi em Portugal. Nada sobre a influência, que não foi pequena, do “anarquismo cristão” de Tolstoi, quer em movimentos políticos por volta de 1900, quer na obra de autores como Raul Brandão e Afonso Lopes Vieira. Nada. Só há cultura se houver memória, e na televisão portuguesa não há memória culta, há apenas passado como faits divers. Por exemplo, a última reportagem que vi sobre o centenário da República na RTP1 referia-se durante uma hora a dois ou três padres que fizeram o seu coming out republicano depois de 1910. As relações entre o regime maçónico e a Igreja foram quase um estado de guerra, mas a RTP conseguiu resumi-las a três padres republicanos. A reportagem estava bem documentada e valeu por si, mas faltou o quadro geral da realidade. No cômputo do centenário televisivo, contribuiu indirectamente para o branqueamento e a mitificação da 1ª República.» Vá, Eduardo, contente-se com o Meu Amor (e com os republicanos seios de uma das actrizes) sob o alto patrocínio do regime todo e já goza.
MEU AMOR E TOLSTOI

Escreve Cintra Torres, a propósito da coisa "Meu Amor", emitida pela tvi, que «Meu Amor ganhou contra uma novela argentina e outra filipina.» Coisas tropicais a afins, portanto, onde continuamos a campear. Mas diz mais, no Público. Mais no sentido latino-americano em vigor. «As televisões cultas da Europa assinalaram o centenário da morte de Tolstoi passando adaptações dos seus romances e documentários sobre os seus livros, o seu retiro, a sua vida, a sua filosofia. Por cá não notei nada. Nem ao menos a presença de Tolstoi em Portugal. Nada sobre a influência, que não foi pequena, do “anarquismo cristão” de Tolstoi, quer em movimentos políticos por volta de 1900, quer na obra de autores como Raul Brandão e Afonso Lopes Vieira. Nada. Só há cultura se houver memória, e na televisão portuguesa não há memória culta, há apenas passado como faits divers. Por exemplo, a última reportagem que vi sobre o centenário da República na RTP1 referia-se durante uma hora a dois ou três padres que fizeram o seu coming out republicano depois de 1910. As relações entre o regime maçónico e a Igreja foram quase um estado de guerra, mas a RTP conseguiu resumi-las a três padres republicanos. A reportagem estava bem documentada e valeu por si, mas faltou o quadro geral da realidade. No cômputo do centenário televisivo, contribuiu indirectamente para o branqueamento e a mitificação da 1ª República.» Vá, Eduardo, contente-se com o Meu Amor (e com os republicanos seios de uma das actrizes) sob o alto patrocínio do regime todo e já goza.
UM "MOMENTO" MEU AMOR
Daqui a umas horas há um "momento governo de salvação nacional-patriótico" no parlamento com a votação final do OE. Os a favor e os complacentes encarregam-se da coisa. Alguns lavrarão breve acta de nojo, sentido ou fingido, porque a miséria instintual e moral em vigor os impeça de sair tranquilamente. O trágico-cómico da cena é que de pouco lhes servirá o glorioso "momento". Acabaremos todos fatalmente a rastejar com a diferença que eles serão os primeiros.
UM "MOMENTO" MEU AMOR
Daqui a umas horas há um "momento governo de salvação nacional-patriótico" no parlamento com a votação final do OE. Os a favor e os complacentes encarregam-se da coisa. Alguns lavrarão breve acta de nojo, sentido ou fingido, porque a miséria instintual e moral em vigor os impeça de sair tranquilamente. O trágico-cómico da cena é que de pouco lhes servirá o glorioso "momento". Acabaremos todos fatalmente a rastejar com a diferença que eles serão os primeiros.
25.11.10
«VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA»

O dr. Santana Lopes, no hebdomadário Sol, "exige" que a senhora Merkel "clarifique as suas afirmações". Imagino que a senhora Merkel comece seriamente a ponderar um fabuloso pedido de desculpas ao dr. Santana Lopes com tradução simultânea. Depois disto (e de outras coisas neste registo de pura insanidade transversal doméstica), começo seriamente a pensar se vale a pena continuar a escrever aqui ou noutro lado qualquer. Vou-me embora pra Pasárgada.
«VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA»

O dr. Santana Lopes, no hebdomadário Sol, "exige" que a senhora Merkel "clarifique as suas afirmações". Imagino que a senhora Merkel comece seriamente a ponderar um fabuloso pedido de desculpas ao dr. Santana Lopes com tradução simultânea. Depois disto (e de outras coisas neste registo de pura insanidade transversal doméstica), começo seriamente a pensar se vale a pena continuar a escrever aqui ou noutro lado qualquer. Vou-me embora pra Pasárgada.
IRONIAS E CANSAÇOS
Foi Você que pediu um Júdice na comissão de honra? Sábias palavras, as do velho presencista Régio. Há, nos olhos meus, ironias e cansaços.
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eleições presidenciais,
José Miguel Júdice
IRONIAS E CANSAÇOS
Foi Você que pediu um Júdice na comissão de honra? Sábias palavras, as do velho presencista Régio. Há, nos olhos meus, ironias e cansaços.
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José Miguel Júdice
«COMO DE VÓS ME FIO EM TUDO»

A pedido oportuno de um leitor:
COMO DE VÓS, MEU DEUS, ME FIO EM TUDO
À memória do Papa Pio XII que quis ouvir, moribundo, o “Allegretto” da Sétima Sinfonia de Beethoven
Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,
importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.
Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.
Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo.
Jorge de Sena
COMO DE VÓS, MEU DEUS, ME FIO EM TUDO
À memória do Papa Pio XII que quis ouvir, moribundo, o “Allegretto” da Sétima Sinfonia de Beethoven
Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,
importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.
Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.
Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo.
Jorge de Sena
«COMO DE VÓS ME FIO EM TUDO»

A pedido oportuno de um leitor:
COMO DE VÓS, MEU DEUS, ME FIO EM TUDO
À memória do Papa Pio XII que quis ouvir, moribundo, o “Allegretto” da Sétima Sinfonia de Beethoven
Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,
importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.
Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.
Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo.
Jorge de Sena
COMO DE VÓS, MEU DEUS, ME FIO EM TUDO
À memória do Papa Pio XII que quis ouvir, moribundo, o “Allegretto” da Sétima Sinfonia de Beethoven
Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,
importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.
Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.
Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo.
Jorge de Sena
«HOJE NÃO HÁ GOLPE»
«O tema da remodelação impõe-se - e pensar para lá dela, ainda mais. Quanto à remodelação, o que a impõe não são, apesar do que alguns infelizes fait-divers podem levar a pensar, razões de circunstância. Não, o que impõe a sua necessidade é um balanço honesto do primeiro ano desta legislatura. Sobretudo por três razões. A primeira é que a maioria relativa resvalou progressivamente, por falta de capacidade de diálogo e de negociação (e com a inegável cumplicidade da oposição), para o impasse político. Impasse que, dada a sua conjugação com a prolongada negação da evidência da crise até ao último Verão, ameaça ter consequências pesadas para o País. Como o caso da Irlanda acaba de mostrar, as evidências acabam sempre por ganhar à teimosia... A segunda é que, tendo o seu programa eleitoral (obras públicas, impostos, etc.) sido em boa parte abandonado por força das circunstâncias, o País ficou sem estratégia, política ou económica, tudo se reconduzindo casuisticamente à contabilidade corrente e à execução orçamental. Quando a austeridade sem mais se transforma no programa de governo, o desespero torna-se num generalizado sentimento nacional. A terceira é que, enquanto uma parte dos membros do Governo escolhidos mostrou pouca capacidade para a função, uma outra parte revelou grande desadequação às respectivas pastas, tendo entretanto o primeiro-ministro vindo a perder a indispensável autoridade sobre os ministros, bem como capacidade de coordenação do colectivo governamental. Estas três razões - impasse político, desorientação estratégica e desagregação governamental - apontam contudo, como é evidente, para bem mais do que uma remodelação. Elas exigem, sobretudo quando o espectro do colapso ameaça o País, um verdadeiro golpe de asa, que contrarie a letargia que tem vindo a observar-se. E esse golpe de asa passa pela capacidade de renovação de ideias (que têm de ser motivadoras), de pessoas (que têm de ser competentes) e de estratégia (que tem de ser audaz). Só assim conseguirá criar-se de novo um horizonte credível de esperança para o País: com motivação, competência e audácia. Esta tripla renovação é vital, tanto mais quanto, aos factores indicados, se junta o esgotamento da bandeira da modernidade que serviu de marca à "gestão" do PS nos últimos anos. Modernidade essa que, como se temia, acabou por se revelar pouco mais do que um slogan de ocasião, que no princípio traduzia um deslumbramento atávico perante a exuberante criatividade financeira e tecnológica, e no fim apenas parece servir para iludir a ausência de qualquer estratégia eficaz de resposta à crise. Sem essa renovação, caminhar-se-á para eleições no próximo ano. O que, é bom não esquecer, é o melhor meio de que se dispõe em democracia para ultrapassar os bloqueios políticos persistentes. Qualquer outra das soluções que mais frequentemente têm sido sugeridas (coligações com mudança de primeiro-ministro ou governo de salvação nacional) só agravaria a situação, juntando ao problema de credibilidade um outro, ainda mais grave, de legitimidade. A única alternativa a este quadro seria a da iniciativa política por parte de um presidente da República com uma legitimidade acabada de sair das urnas, no sentido de um "compromisso histórico" programático que visasse levar a legislatura até ao fim. Um tal cenário, contudo, para ser sequer plausível, teria de fazer claramente parte do debate presidencial em curso. Ora, até ao momento, nem uma palavra se ouviu a nenhum candidato nesse sentido... Repito, pois: golpe de asa ou eleições a curto prazo. E, acrescento, se a oportunidade do relançamento falhar, isso vai inexoravelmente impor - e bem mais cedo do que se tem pensado e dito - uma incontornável alternativa ao PS: a de continuar, com o statu quo, entrincheirado num balanço "impossível", sobrepondo a obsessão de durar à capacidade para governar. Ou a de optar por uma autêntica mudança ao nível dos valores, da estratégia e da liderança, que o liberte do optimismo funambular que o tem anestesiado, assumindo que não haverá novo projecto nacional sem um novo contrato social, sem uma constante valorização da competência e da deliberação na decisão política, sem uma descomplexada cultura de negociação e sem uma forte exigência de exemplaridade no exercício de funções públicas.»
Manuel Maria Carrilho (sublinhados meus)
Nota: No PREC instalou-se um hábito que ficou conhecido por boataria. Todos os dias havia um boato político e, presumivelmente, um golpe. Arnaldo Matos, ironizando com a coisa, produziu uma vez um editorial no Luta Popular intitulado "hoje não há golpe". Agora o boato, muito também por causa da política (e das mais reles disputas dentro dos partidos, agravadas quando são do governo), é essencialmente financeiro. Uma conversa telefónica entre a Sra. Merkel e o Sr. Sarkozy transformou-se, na boca de alguns (ir)responsáveis, na iminente saída de Portugal do euro e no regresso do vetusto escudo. Talvez mesmo uma outra conversa que nunca existiu entre banqueiros nacionais e um membro do governo se destinasse a preparar essa nova "zona" apenas partilhável com Cabo Verde (e vantajosa para Cabo Verde). Os mais afortunados começaram logo a perguntar onde é que hão-de colocar os "activos". Sócrates deve demonstrar publicamente que tem mão no governo. Suponho que ele sabe como é que isso se faz. Por outro lado, nem tudo o que luz é ouro mas muitas vezes é. As "notícias" são ditadas normalmente por quem as paga. É só seguir o rasto do dinheiro e das "fontes". Não há "mercados" nem comentadores inocentes.
«HOJE NÃO HÁ GOLPE»
«O tema da remodelação impõe-se - e pensar para lá dela, ainda mais. Quanto à remodelação, o que a impõe não são, apesar do que alguns infelizes fait-divers podem levar a pensar, razões de circunstância. Não, o que impõe a sua necessidade é um balanço honesto do primeiro ano desta legislatura. Sobretudo por três razões. A primeira é que a maioria relativa resvalou progressivamente, por falta de capacidade de diálogo e de negociação (e com a inegável cumplicidade da oposição), para o impasse político. Impasse que, dada a sua conjugação com a prolongada negação da evidência da crise até ao último Verão, ameaça ter consequências pesadas para o País. Como o caso da Irlanda acaba de mostrar, as evidências acabam sempre por ganhar à teimosia... A segunda é que, tendo o seu programa eleitoral (obras públicas, impostos, etc.) sido em boa parte abandonado por força das circunstâncias, o País ficou sem estratégia, política ou económica, tudo se reconduzindo casuisticamente à contabilidade corrente e à execução orçamental. Quando a austeridade sem mais se transforma no programa de governo, o desespero torna-se num generalizado sentimento nacional. A terceira é que, enquanto uma parte dos membros do Governo escolhidos mostrou pouca capacidade para a função, uma outra parte revelou grande desadequação às respectivas pastas, tendo entretanto o primeiro-ministro vindo a perder a indispensável autoridade sobre os ministros, bem como capacidade de coordenação do colectivo governamental. Estas três razões - impasse político, desorientação estratégica e desagregação governamental - apontam contudo, como é evidente, para bem mais do que uma remodelação. Elas exigem, sobretudo quando o espectro do colapso ameaça o País, um verdadeiro golpe de asa, que contrarie a letargia que tem vindo a observar-se. E esse golpe de asa passa pela capacidade de renovação de ideias (que têm de ser motivadoras), de pessoas (que têm de ser competentes) e de estratégia (que tem de ser audaz). Só assim conseguirá criar-se de novo um horizonte credível de esperança para o País: com motivação, competência e audácia. Esta tripla renovação é vital, tanto mais quanto, aos factores indicados, se junta o esgotamento da bandeira da modernidade que serviu de marca à "gestão" do PS nos últimos anos. Modernidade essa que, como se temia, acabou por se revelar pouco mais do que um slogan de ocasião, que no princípio traduzia um deslumbramento atávico perante a exuberante criatividade financeira e tecnológica, e no fim apenas parece servir para iludir a ausência de qualquer estratégia eficaz de resposta à crise. Sem essa renovação, caminhar-se-á para eleições no próximo ano. O que, é bom não esquecer, é o melhor meio de que se dispõe em democracia para ultrapassar os bloqueios políticos persistentes. Qualquer outra das soluções que mais frequentemente têm sido sugeridas (coligações com mudança de primeiro-ministro ou governo de salvação nacional) só agravaria a situação, juntando ao problema de credibilidade um outro, ainda mais grave, de legitimidade. A única alternativa a este quadro seria a da iniciativa política por parte de um presidente da República com uma legitimidade acabada de sair das urnas, no sentido de um "compromisso histórico" programático que visasse levar a legislatura até ao fim. Um tal cenário, contudo, para ser sequer plausível, teria de fazer claramente parte do debate presidencial em curso. Ora, até ao momento, nem uma palavra se ouviu a nenhum candidato nesse sentido... Repito, pois: golpe de asa ou eleições a curto prazo. E, acrescento, se a oportunidade do relançamento falhar, isso vai inexoravelmente impor - e bem mais cedo do que se tem pensado e dito - uma incontornável alternativa ao PS: a de continuar, com o statu quo, entrincheirado num balanço "impossível", sobrepondo a obsessão de durar à capacidade para governar. Ou a de optar por uma autêntica mudança ao nível dos valores, da estratégia e da liderança, que o liberte do optimismo funambular que o tem anestesiado, assumindo que não haverá novo projecto nacional sem um novo contrato social, sem uma constante valorização da competência e da deliberação na decisão política, sem uma descomplexada cultura de negociação e sem uma forte exigência de exemplaridade no exercício de funções públicas.»
Manuel Maria Carrilho (sublinhados meus)
Nota: No PREC instalou-se um hábito que ficou conhecido por boataria. Todos os dias havia um boato político e, presumivelmente, um golpe. Arnaldo Matos, ironizando com a coisa, produziu uma vez um editorial no Luta Popular intitulado "hoje não há golpe". Agora o boato, muito também por causa da política (e das mais reles disputas dentro dos partidos, agravadas quando são do governo), é essencialmente financeiro. Uma conversa telefónica entre a Sra. Merkel e o Sr. Sarkozy transformou-se, na boca de alguns (ir)responsáveis, na iminente saída de Portugal do euro e no regresso do vetusto escudo. Talvez mesmo uma outra conversa que nunca existiu entre banqueiros nacionais e um membro do governo se destinasse a preparar essa nova "zona" apenas partilhável com Cabo Verde (e vantajosa para Cabo Verde). Os mais afortunados começaram logo a perguntar onde é que hão-de colocar os "activos". Sócrates deve demonstrar publicamente que tem mão no governo. Suponho que ele sabe como é que isso se faz. Por outro lado, nem tudo o que luz é ouro mas muitas vezes é. As "notícias" são ditadas normalmente por quem as paga. É só seguir o rasto do dinheiro e das "fontes". Não há "mercados" nem comentadores inocentes.
REALISMO IRONISTA

Até o Medeiros Ferreira já trocou o "país de eventos" pelo "país de telenovelas" em que isto tudo se tornou. O que só abona o seu realismo ironista, algo que nos faz tanta falta como o dinheiro, um De Gaulle ou um Mitterrand. Isto trinta e cinco anos depois do 25 de Novembro.
REALISMO IRONISTA

Até o Medeiros Ferreira já trocou o "país de eventos" pelo "país de telenovelas" em que isto tudo se tornou. O que só abona o seu realismo ironista, algo que nos faz tanta falta como o dinheiro, um De Gaulle ou um Mitterrand. Isto trinta e cinco anos depois do 25 de Novembro.
24.11.10
PRÉDIOS, CARROS E PNEUS
Ruiu mais um prédio em Lisboa. Mas a grande preocupação da polícia municipal do edil Costa, no dia de hoje, foi a de bloquear carros a pessoas que tiveram de os conduzir para ir trabalhar. Por falar em carros, o principal dirigente da oposição camarária surge preocupado com os pneus do seu. Tudo somado, só me lembro do Tolan, ali encalhado à beira Tejo, há muitos anos. Dizia-se que não era o barco que estava de pernas para o ar mas sim nós. Ainda não nos conseguimos endireitar aqui por Lisboa.
PRÉDIOS, CARROS E PNEUS
Ruiu mais um prédio em Lisboa. Mas a grande preocupação da polícia municipal do edil Costa, no dia de hoje, foi a de bloquear carros a pessoas que tiveram de os conduzir para ir trabalhar. Por falar em carros, o principal dirigente da oposição camarária surge preocupado com os pneus do seu. Tudo somado, só me lembro do Tolan, ali encalhado à beira Tejo, há muitos anos. Dizia-se que não era o barco que estava de pernas para o ar mas sim nós. Ainda não nos conseguimos endireitar aqui por Lisboa.
CUNHAL REVISITADO

Estamos a viver tempos que convidam a que nos "fechemos" dentro de um livro. Não é, pois, por acaso que têm aparecido alguns neste blogue. Essa capacidade de isolamento, essa barreira prodigiosa contra a tagarelice, esse momento único de redescrição do mundo que a leitura ou a música conferem, foi descrita de forma lapidar por George Steiner num intitulado No castelo do Barba Azul - algumas notas para a redefinição de cultura, traduzido pela Relógio D'Água: «os livros bem-amados são a sociedade necessária e suficiente do indivíduo que lê a sós.» Recebi hoje o da foto, de Adelino Cunha, e, portanto, a frase de Steiner é deliberadamente esdrúxula a seu respeito. Nunca escondi o meu interesse pela personalidade de Álvaro Cunhal. Este livro promete-nos um "retrato pessoal e íntimo". Vou lê-lo, a sós, e com a maior atenção. Depois falamos.
Adenda (de um fiel leitor insular):«Álvaro Cunhal, quando esteve preso em Peniche, traduziu em segredo «Rei Lear», de William Shakespeare, um clássico da literatura mundial. (Hoje os nossos «intelectuais» para fazerem alguma coisa, solicitam uma licença sabática ou pedem uma «bolsa»). Quando nós hoje comparamos a dimensão cultural e intelectual de Álvaro Cunhal (ou mesmo doutros líderes politicos já desaparecidos, como Sá-Carneiro, Salgado Zenha, Palma Carlos, etc.) com as actuais «lideranças» politicas, é o mesmo comparar uma peça feita em ouro com um vulgar alguidar de plástico.»
Adenda (de um fiel leitor insular):«Álvaro Cunhal, quando esteve preso em Peniche, traduziu em segredo «Rei Lear», de William Shakespeare, um clássico da literatura mundial. (Hoje os nossos «intelectuais» para fazerem alguma coisa, solicitam uma licença sabática ou pedem uma «bolsa»). Quando nós hoje comparamos a dimensão cultural e intelectual de Álvaro Cunhal (ou mesmo doutros líderes politicos já desaparecidos, como Sá-Carneiro, Salgado Zenha, Palma Carlos, etc.) com as actuais «lideranças» politicas, é o mesmo comparar uma peça feita em ouro com um vulgar alguidar de plástico.»
CUNHAL REVISITADO

Estamos a viver tempos que convidam a que nos "fechemos" dentro de um livro. Não é, pois, por acaso que têm aparecido alguns neste blogue. Essa capacidade de isolamento, essa barreira prodigiosa contra a tagarelice, esse momento único de redescrição do mundo que a leitura ou a música conferem, foi descrita de forma lapidar por George Steiner num intitulado No castelo do Barba Azul - algumas notas para a redefinição de cultura, traduzido pela Relógio D'Água: «os livros bem-amados são a sociedade necessária e suficiente do indivíduo que lê a sós.» Recebi hoje o da foto, de Adelino Cunha, e, portanto, a frase de Steiner é deliberadamente esdrúxula a seu respeito. Nunca escondi o meu interesse pela personalidade de Álvaro Cunhal. Este livro promete-nos um "retrato pessoal e íntimo". Vou lê-lo, a sós, e com a maior atenção. Depois falamos.
Adenda (de um fiel leitor insular):«Álvaro Cunhal, quando esteve preso em Peniche, traduziu em segredo «Rei Lear», de William Shakespeare, um clássico da literatura mundial. (Hoje os nossos «intelectuais» para fazerem alguma coisa, solicitam uma licença sabática ou pedem uma «bolsa»). Quando nós hoje comparamos a dimensão cultural e intelectual de Álvaro Cunhal (ou mesmo doutros líderes politicos já desaparecidos, como Sá-Carneiro, Salgado Zenha, Palma Carlos, etc.) com as actuais «lideranças» politicas, é o mesmo comparar uma peça feita em ouro com um vulgar alguidar de plástico.»
Adenda (de um fiel leitor insular):«Álvaro Cunhal, quando esteve preso em Peniche, traduziu em segredo «Rei Lear», de William Shakespeare, um clássico da literatura mundial. (Hoje os nossos «intelectuais» para fazerem alguma coisa, solicitam uma licença sabática ou pedem uma «bolsa»). Quando nós hoje comparamos a dimensão cultural e intelectual de Álvaro Cunhal (ou mesmo doutros líderes politicos já desaparecidos, como Sá-Carneiro, Salgado Zenha, Palma Carlos, etc.) com as actuais «lideranças» politicas, é o mesmo comparar uma peça feita em ouro com um vulgar alguidar de plástico.»
OUTRA VEZ O GARGALO E A GARRAFA

Não chega, apesar da "disciplina de voto", essa rídicula mistificação que cerceia voluntariamente a função sináptica. Ausentem-se, façam-se substituir ou votem contra. Declarações para memória futura - ou consolo próprio - depois de se absterem são bravatas retóricas substitutas de lorenins para dormirem mais descansados. A vida, cá fora, não fica mais descansada com esses papéis. Assim, não julgo que haja um PSD decente e outro supostamente indecente que faz o mesmo mas sem os papelinhos da tranquilidade. Quem bebe pelo gargalo, compra a garrafa.
OUTRA VEZ O GARGALO E A GARRAFA

Não chega, apesar da "disciplina de voto", essa rídicula mistificação que cerceia voluntariamente a função sináptica. Ausentem-se, façam-se substituir ou votem contra. Declarações para memória futura - ou consolo próprio - depois de se absterem são bravatas retóricas substitutas de lorenins para dormirem mais descansados. A vida, cá fora, não fica mais descansada com esses papéis. Assim, não julgo que haja um PSD decente e outro supostamente indecente que faz o mesmo mas sem os papelinhos da tranquilidade. Quem bebe pelo gargalo, compra a garrafa.
DIFERENTES E SOZINHOS

Escrevi uma frase para a contracapa do livro da foto. É um livro mais sobre Raul Leal do que sobre Sena, mas dois ou três momentos do que dirigiu ao autor de Sodoma Divinizada bastam para considerar indispensável, para a compreensão de Jorge de Sena, a sua epistolografia édita e inédita. Fernando Pessoa, que está ser alvo (não me enganei no termo) de mais um "congresso" por ocasião do 70º aniversário da sua morte, escreveu uma defesa notável e corajosa de Raul Leal quando Leal foi enxovalhado por uns quantos peralvilhos reaccionários (também não me enganei no termo), na praça pública, por causa da dita Sodoma ("Sobre um manifesto de estudantes" e "Aviso por causa da moral"). As cartas de Leal são imediatamente anteriores à sua morte na maior das misérias quando Sena transitou daqui para o Brasil. Eram verdadeiramente, os dos anos 20 e os dos anos 50 e 60, outros tempos e outras alturas. Mas Pessoa, Sena ou Leal permanecem actuais mesmo quando esforços não foram poupados para os obscurecer ou rasurar. Recordo isto e saliento o livro porque me entristeceu ver o Chefe de Estado - cuja recandidatura apoio - emitir um comunicado nestes termos por causa desta coisa. Quando tudo é cultura, nada é cultura. E quando tudo serve para "glorificar" a pátria, então a noção de pátria não serve para nada. Fiquem, pois, com o Pessoa/Álvaro de Campos em homenagem a um Leal cuja memória, em boa hora, a Guerra&Paz resgatou. «Concluo saudando, que assim manda a tradição. Aos estudantes de Lisboa não desejo mais - porque não posso desejar melhor – de que um dia possam ter uma vida tão digna e uma alma tão alta e nobre como as do homem que tão nesciamente insultaram. A Raul Leal, não podendo prestar-lhe, nesta hora da plebe, melhor homenagem, presto-lhe esta, simples e clara, não só da minha amizade, que não tem limites, mas também da minha admiração pelo seu alto génio especulativo e metafísico, lustre, que será, da nossa grande raça. Nem creio que em minha vida, como quer que decorra, maior honra me possa caber que a presente, que é a de tê-lo por companheiro nesta aventura cultural em que coincidimos, diferentes e sozinhos, sob o chasco e o insulto da canalha.»
DIFERENTES E SOZINHOS

Escrevi uma frase para a contracapa do livro da foto. É um livro mais sobre Raul Leal do que sobre Sena, mas dois ou três momentos do que dirigiu ao autor de Sodoma Divinizada bastam para considerar indispensável, para a compreensão de Jorge de Sena, a sua epistolografia édita e inédita. Fernando Pessoa, que está ser alvo (não me enganei no termo) de mais um "congresso" por ocasião do 70º aniversário da sua morte, escreveu uma defesa notável e corajosa de Raul Leal quando Leal foi enxovalhado por uns quantos peralvilhos reaccionários (também não me enganei no termo), na praça pública, por causa da dita Sodoma ("Sobre um manifesto de estudantes" e "Aviso por causa da moral"). As cartas de Leal são imediatamente anteriores à sua morte na maior das misérias quando Sena transitou daqui para o Brasil. Eram verdadeiramente, os dos anos 20 e os dos anos 50 e 60, outros tempos e outras alturas. Mas Pessoa, Sena ou Leal permanecem actuais mesmo quando esforços não foram poupados para os obscurecer ou rasurar. Recordo isto e saliento o livro porque me entristeceu ver o Chefe de Estado - cuja recandidatura apoio - emitir um comunicado nestes termos por causa desta coisa. Quando tudo é cultura, nada é cultura. E quando tudo serve para "glorificar" a pátria, então a noção de pátria não serve para nada. Fiquem, pois, com o Pessoa/Álvaro de Campos em homenagem a um Leal cuja memória, em boa hora, a Guerra&Paz resgatou. «Concluo saudando, que assim manda a tradição. Aos estudantes de Lisboa não desejo mais - porque não posso desejar melhor – de que um dia possam ter uma vida tão digna e uma alma tão alta e nobre como as do homem que tão nesciamente insultaram. A Raul Leal, não podendo prestar-lhe, nesta hora da plebe, melhor homenagem, presto-lhe esta, simples e clara, não só da minha amizade, que não tem limites, mas também da minha admiração pelo seu alto génio especulativo e metafísico, lustre, que será, da nossa grande raça. Nem creio que em minha vida, como quer que decorra, maior honra me possa caber que a presente, que é a de tê-lo por companheiro nesta aventura cultural em que coincidimos, diferentes e sozinhos, sob o chasco e o insulto da canalha.»
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA IMPREVISIBILIDADE

O jornal Público traz uma peça falaciosa acerca dos "jovens licenciados", sem emprego e "sem perspectivas" que, nalguns casos, pretendem emigrar. Para perceber como chegámos aqui, precisamos recuar um tempinho atrás e perguntar ao famoso "sistema" (na circunstância, o académico) se as opções políticas para a formação superior foram as melhores. Marcello Caetano e, antes dele, Salazar, incentivaram a frequência de cursos médios, profissionais e profissionalizantes com que, inexplicavelmente, a revolução dita democrática acabou para desatar a parir doutores em tudo e mais alguma coisa. Qualquer barracão com meia dúzia de cadeiras virou universidade. Os meninos e as meninas deixaram de ser treinados para trabalhar e passaram a coleccionar cursos ditos universitários, mestrados e, no limite, doutoramentos. A alegada "excelência" académica não foi acompanhada de nenhum esforço de maturidade e, como me diz um amigo dessa geração pseudo-perdida, ao problema da qualificação acresce o da imaturidade que cresceu proporcionalmente com a "qualificação". O actual Chefe de Estado veio para Lisboa frequentar o então designado curso comercial. Só depois passou para a universidade. Hoje pretende-se começar a vida de cima para cima e, se possível, por cima de uma data de gente. O mito da emigração altamente qualificada, num momento em que a modernidade e a pós foram submergidas pela imprevisibilidade (no MBA de Sócrates não lhe devem ter falado nisto), é apenas isso mesmo, um mito. Cá ou alhures, é ela que manda (não são as oportunidades, velhas ou novas) e, que eu saiba, os nossos meninos e as nossas meninas não se distinguem particularmente de quem quer que seja a começar pela subtileza. Amanhã, depois da chamada greve geral, a imprevisibilidade continua. E o mundo que "criou" os Sócrates um pouco por toda a parte também. Não adianta fugir dele.
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA IMPREVISIBILIDADE

O jornal Público traz uma peça falaciosa acerca dos "jovens licenciados", sem emprego e "sem perspectivas" que, nalguns casos, pretendem emigrar. Para perceber como chegámos aqui, precisamos recuar um tempinho atrás e perguntar ao famoso "sistema" (na circunstância, o académico) se as opções políticas para a formação superior foram as melhores. Marcello Caetano e, antes dele, Salazar, incentivaram a frequência de cursos médios, profissionais e profissionalizantes com que, inexplicavelmente, a revolução dita democrática acabou para desatar a parir doutores em tudo e mais alguma coisa. Qualquer barracão com meia dúzia de cadeiras virou universidade. Os meninos e as meninas deixaram de ser treinados para trabalhar e passaram a coleccionar cursos ditos universitários, mestrados e, no limite, doutoramentos. A alegada "excelência" académica não foi acompanhada de nenhum esforço de maturidade e, como me diz um amigo dessa geração pseudo-perdida, ao problema da qualificação acresce o da imaturidade que cresceu proporcionalmente com a "qualificação". O actual Chefe de Estado veio para Lisboa frequentar o então designado curso comercial. Só depois passou para a universidade. Hoje pretende-se começar a vida de cima para cima e, se possível, por cima de uma data de gente. O mito da emigração altamente qualificada, num momento em que a modernidade e a pós foram submergidas pela imprevisibilidade (no MBA de Sócrates não lhe devem ter falado nisto), é apenas isso mesmo, um mito. Cá ou alhures, é ela que manda (não são as oportunidades, velhas ou novas) e, que eu saiba, os nossos meninos e as nossas meninas não se distinguem particularmente de quem quer que seja a começar pela subtileza. Amanhã, depois da chamada greve geral, a imprevisibilidade continua. E o mundo que "criou" os Sócrates um pouco por toda a parte também. Não adianta fugir dele.
23.11.10
O DIABO

Está nas "excepções". O PSD já terá arranjado espaço na Lapa e no parlamento para os armários para guardar os chifres com que a execução orçamental oportunamente o irá brindar?
O DIABO

Está nas "excepções". O PSD já terá arranjado espaço na Lapa e no parlamento para os armários para guardar os chifres com que a execução orçamental oportunamente o irá brindar?
HERBERTO HELDER, 80 ANOS:«CADA LENÇO QUE SE ATA A PRÓPRIA SEDA DO LENÇO O DESATA»

(...)
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço o desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre sem se ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta (...)
HERBERTO HELDER, 80 ANOS:«CADA LENÇO QUE SE ATA A PRÓPRIA SEDA DO LENÇO O DESATA»

(...)
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço o desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre sem se ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta (...)
A LACÃO O QUE É DE LACÃO?
Está-se mesmo a ver que o PSD vai já a correr dar a "lacãoniana" garantia, não está? Mesmo assim, o PSD deixou passar a despesa prevista no OE com as parcerias público-privadas cuja extinção pura e simples, e bem, o CDS sugeriu. Isto é a parte má da coisa. A boa, é a senhora Merkel ter feito constar que existe um risco excepcionalmente sério de mais países precisarem de ajuda. Com coisinhas insignificantes como as ditas parcerias e outras parvoíces aparentemente "consensuais", está-se mesmo a ver que a senhora Merkel não estava a pensar na Eslovénia ou na Eslováquia. «Os dinheiros públicos têm de ser utilizados com rigor e eficiência. Há que prestar uma atenção acrescida à relação custo-benefício dos serviços e investimentos públicos», disse ontem o PR. Mais uma vez não foi ouvido. Mas a senhora Merkel está à escuta.
A LACÃO O QUE É DE LACÃO?
Está-se mesmo a ver que o PSD vai já a correr dar a "lacãoniana" garantia, não está? Mesmo assim, o PSD deixou passar a despesa prevista no OE com as parcerias público-privadas cuja extinção pura e simples, e bem, o CDS sugeriu. Isto é a parte má da coisa. A boa, é a senhora Merkel ter feito constar que existe um risco excepcionalmente sério de mais países precisarem de ajuda. Com coisinhas insignificantes como as ditas parcerias e outras parvoíces aparentemente "consensuais", está-se mesmo a ver que a senhora Merkel não estava a pensar na Eslovénia ou na Eslováquia. «Os dinheiros públicos têm de ser utilizados com rigor e eficiência. Há que prestar uma atenção acrescida à relação custo-benefício dos serviços e investimentos públicos», disse ontem o PR. Mais uma vez não foi ouvido. Mas a senhora Merkel está à escuta.
O MURO

Manuel Alegre diz que "há um muro de silêncio" em torno da sua candidatura. Mas como, se essa candidatura é o próprio muro?
Etiquetas:
eleições presidenciais,
Manuel Alegre
O MURO

Manuel Alegre diz que "há um muro de silêncio" em torno da sua candidatura. Mas como, se essa candidatura é o próprio muro?
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Manuel Alegre
22.11.10
AS ESTÁTUAS DOS COMENDADORES
Quando é que há uma greve geral contra os drs. Carvalho da Silva e João Proença?
AS ESTÁTUAS DOS COMENDADORES
Quando é que há uma greve geral contra os drs. Carvalho da Silva e João Proença?
EXCEPÇÃO E REALIDADE

Venho da que julgo ser a primeira acção de campanha de Cavaco Silva. Foi na Universidade Católica, sob os auspícios de uma das suas associações de estudantes, da área da economia e da gestão. Perguntei para o lado, para um aluno, como é que a coisa foi preparada. Aparentemente foram enviadas mais de cem perguntas e, entre a organização da campanha e a dita associação, seleccionaram-se "blocos" de questões que, por junto, não terão ultrapassado a dúzia. O ambiente era relativamente austero, demasiado académico, pouco "político". Cavaco insistiu muito na palavra "sucesso" para um auditório que, previsivelmente, não terá grandes problemas com o "sucesso". Também disse que ninguém deve contar com ele para criar ilusões. E explicou, muito bem explicadinho, qual é o papel do PR com esta constituição (o que mais me convenceu que é preciso mudá-la de alto a baixo, sobretudo em sede de poderes presidenciais), qual é a situação financeira e económica do país e quais são os "nichos" do tal "sucesso". O maestrina Joana Carneiro exemplificou com o seu mas, com o devido respeito, a Joana Carneiro é atípica, uma excepção. Exemplar mas uma excepção. Cavaco falou para um pequeníssimo mundo atípico e excepcional e, daqui para diante, espera-o a realidade. É dessa que é preciso falar.
EXCEPÇÃO E REALIDADE

Venho da que julgo ser a primeira acção de campanha de Cavaco Silva. Foi na Universidade Católica, sob os auspícios de uma das suas associações de estudantes, da área da economia e da gestão. Perguntei para o lado, para um aluno, como é que a coisa foi preparada. Aparentemente foram enviadas mais de cem perguntas e, entre a organização da campanha e a dita associação, seleccionaram-se "blocos" de questões que, por junto, não terão ultrapassado a dúzia. O ambiente era relativamente austero, demasiado académico, pouco "político". Cavaco insistiu muito na palavra "sucesso" para um auditório que, previsivelmente, não terá grandes problemas com o "sucesso". Também disse que ninguém deve contar com ele para criar ilusões. E explicou, muito bem explicadinho, qual é o papel do PR com esta constituição (o que mais me convenceu que é preciso mudá-la de alto a baixo, sobretudo em sede de poderes presidenciais), qual é a situação financeira e económica do país e quais são os "nichos" do tal "sucesso". O maestrina Joana Carneiro exemplificou com o seu mas, com o devido respeito, a Joana Carneiro é atípica, uma excepção. Exemplar mas uma excepção. Cavaco falou para um pequeníssimo mundo atípico e excepcional e, daqui para diante, espera-o a realidade. É dessa que é preciso falar.
POR QUEM OS SINOS (DE NATAL) DOBRAM

De acordo com a mais realista contabilidade, faltam trinta e três dias para o natal. Logo a seguir há a transição de ano. Com greves, azáfamas frívolas onde se vai gastar o que se tem e não tem, feriados e pontes pelo meio, o país só retoma actividade (isto é um evidente pleonasmo) na primeira semana de Janeiro. Afortunadas nações que podem fazer tão desabridamente de conta que ainda existem. Depois não se queixem de 2011 ou do raio que os parta.
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