31.1.14

Coisas que se pagam

Marco António Costa, que se revelou um competente secretário de Estado da Segurança Social, foi substituído por uma criatura improvável de apelido Branquinho, uma espécie de homem dos sete instrumentos da canção do Godinho. O que o homem afirmou numa comissão parlamentar compromete o governo todo a menos que o governo - o ministro e o PM - se "descomprometam" do homem. Porque a leviandade politiqueira com que abordou um assunto como as pensões - e o novo "imposto" que vai cair sobre elas só depois de "resolvido" um alegado "problemazinho" informático - seria cómica se não fosse trágica. Mas parece que entrámos em período eleitoral (o "dilema" do cautelar também entra no pacote com a complacência do PS, como explicou Manuela Ferrreira Leite) a culminar só em 2016 com a "eleição" do supra Almirante Américo Tomás do dr. Passos. Tudo coisas que, mais tarde ou mais cedo, se pagam.

A cultura ou as singularidades de uma rapariga loura

«É de voz comum dizer-se que a Direita não gosta da Cultura e que este Governo, que é de Direita, já se percebeu que não gosta da Cultura. Estes chavões estão muito próximos daqueles chavões que dizem que as mulheres loiras só têm um neurónio.»

Um ponto fulminante no escuro


 


«Com uma das mais importantes e válidas poesias que o século XX português conseguiu produzir, Jorge de Sena constitui um momento cimeiro numa linha nem sempre ascendente, ou motivante — “A poesia portuguesa é pobre de poetas”, disse em Da Poesia Portuguesa (1959). Numa luta permanente contra o óbvio e o marasmo, contra a ignorância e a pequenez, a sua obra ergueu, por entre a indiferença e a perfídia, um dos monumentos mais perduráveis da cultura portuguesa — “Se a miséria e a pobreza/ fossem o vómito que deviam ser postos em palavras,/ a imaginação possuída e vomitada que deviam ser,/ viria a liberdade por acréscimo,/ sem palavras, sem gestos, sem delíquios.” (p. 501) Uma obra que se afirma como um ponto fulminante no escuro que domina tanta da cultura portuguesa: pela sua novidade (abalo de estruturas retóricas convencionais, poderio imagético, servido pelo afinco da disciplina formal), pela força irreprimível de uma inteligência que era nervo. Cultura e vida raramente estiveram tão unidas, e não é raro que Sena se refira aos seus poemas como “vividos”. Estava tão consciente das tensões (se não das contradições) circulantes na sua obra — “Tão acusado de intelectualismo, tão adversário da chamada ‘inspiração’, nada escrevi que de uma vez não escrevesse e não considerasse escrito de uma vez para sempre” (p. 728) —, como da coesão que a sustentava — foi o próprio quem notou a “grande continuidade de inspiração, ainda que de evolutivo estilo, naturalmente, desde Perseguição a Fidelidade” (p. 735).»


 


Hugo Pinto Santos, ípsilon

O primado da primeira pessoa


 


Estive a ler a entrevista do presidente da RTP a Nuno Azinheira, publicada no suplemento televisivo do JN e do DN. Enquanto adjunto do então ministro da tutela, assisti à "ascensão" de Alberto da Ponte ao lugar de Guilherme Costa em Setembro de 2012. Depois de uma reunião sui generis em 28 de Novembro desse ano, na presença do ministro e com o Conselho de Administração da RTP, decidi solicitar ao primeiro que deixasse de acompanhar o "dossiê RTP" o que foi prontamente aceite. Nesse período, com a ajuda dos consultores jurídicos e financeiros contratados pela RTP, procurou-se uma solução que passasse por um novo modelo de gestão da casa. Guilherme Costa tinha pedido a demissão por fundamentalmente discordar da "ideia" da concessão da exploração a privados de activos da RTP. Nunca se opusera a que, por exemplo, fosse privatizado um deles e a administração chegou a trabalhar nesse cenário. Pelo contrário, Alberto da Ponte declarou-se, no mesmo período, amplamente favorável ao cenário da concessão que era o mais bem "visto" pelo gabinete do PM. Foi então que, em finais de Outubro, perante o aparente "avanço" desse cenário, o dr. Portas decidiu "intervir" directamente no "dossiê" RTP e "parar" quaisquer alterações ao modelo de gestão. Apesar de só se ter demitido a 4 de Abril de 2013, Miguel Relvas na prática "perdeu" a tutela da televisão pública nessa reunião em São Bento nos idos de Outubro de 2012. Pouco depois dá-se o "episódio Nuno Santos". Começou com o pedido de demissão do então director de informação a que se seguiu um "inquérito" interno, algumas intervenções públicas mais exaltadas de ambas as partes e um processo disciplinar com vista a despedimento com "base" em delito de opinião. O "acordo" a que a RTP e Nuno Santos chegaram no âmbito do processo judicial movido pelo segundo contra a empresa por causa do dito despedimento, impediu que, para já, se possa contar a "história" completa dessas horas, dias e meses. O mais que Alberto da Ponte refere na entrevista é que «há um tempo para falar e um tempo para o silêncio» e que «este é o tempo do silêncio», embora «a decisão tomada em Março [fosse] a decisão certa», ou seja, o despedimento sem justa causa do jornalista. Mas o acordo, continua, é a decisão certa agora. Já que ficámos (plural majestático, evidentemente) sem conhecer a "história", defendo que pelo menos se possa oportunamente conhecer os termos da transacção, quer em valores "materiais", quer "imateriais", dado que a RTP não mudou de natureza jurídico-financeira e integra o perímetro do orçamento do Estado mesmo sem indemnização compensatória. O "tom" geral da entrevista é o do primado da primeira pessoa - o do presidente da RTP mesmo face à actual tutela - de desconfiança pelas propostas desta quanto ao modelo de gestão "administrativa" dita independente que um "conselho geral" assegurará, de total desfasamento em matéria de conteúdos de serviço público (alguém sabe o que é a "portugalidade global" fora a gloriosamente representada pela fatídica bola?), de desconfiança publicamente explicitada em relação ao exercício do controlo interno que, aliás, compete em primeira linha à administração como um qualquer gestor sabe de antemão e, por consequência, um monumental silêncio sobre uma função nuclear chamada direcção geral de conteúdos. Não desesperemos. Talvez o prof. Maduro e nós devamos esperar ainda alguma coisa do homem que passou «com distinção no famoso teste da CReSAP [Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública]. E que "ficou muito contente com isso".

O não-protagonista

Se «o Presidente deve comportar-se mais como um árbitro ou moderador, movendo-se no respeito pelo papel dos partidos mas acima do plano dos partidos, evitando tornar-se numa espécie de protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político», então as coisas começam a estar facilitadas. Quer no que concerne ao não-protagonista desejado, quer quanto às "opiniões" que esse futuro não-protagonista deve exibir: certinhas, arrumadinhas, nada "erráticas" e escritas numa língua de pau reconhecível e aceitável no "meio" e pelos "nossos". Em suma, uma confirmação, uma obrigação e uma missão. E uma pena. Porque há mais marés que marinheiros.

30.1.14

A senhora, a lesma e o burro


 


«As pessoas não sabem mas a minha mãe era uma empregada de balcão e o meu pai tinha uma perna amputada. Recebíamos subsídio para pagar a renda. Dei-me conta, nestes últimos meses, a que ponto é que eu tive sorte na minha vida (...). Aquilo que eu vivi foi uma sequência de vida extraordinária que agora me leva para outro caminho (...). Agora vou levar a minha vida em frente, enriquecida com uma experiência nova.» 


 


Foto: Frank Ribery

Este país, afinal, é para quem?


 


O jornalista Mário Crespo recebeu no seu Jornal da 9 o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Bruno Maçães. Quando Maçães apareceu no novo governo de Passos Coelho, procurei "resumi-lo". Reconheci tratar-se de uma das melhores cabeças da sua geração universitária, um ironista e um experimentalista promissor que, entre outras coisas em que participou (fez aliás questão de frisar a Crespo essa "participação"), se encontra a "tentativa TSU" de Setembro de 2012 que tanto sucesso trouxe ao Governo de então onde ele era ainda apenas assessor "ideológico" do primeiro-ministro. Confrontado pelo jornalista com a "realidade" da consolidação orçamental e dos seus resultados - sobretudo com a violência dos cortes selectivos sobre determinados grupos sociais e laborais, com a canga fiscal que, só sobre as pessoas, aumentou em um ano 35,5% ou com o esbulhar "solidário" e progressivo das pensões -, quando subsistem segmentos inexplicáveis de despesa pública "interna" e "paralela" por atacar, Maçães falou, e passo a citar, de uma "revolução tranquila" prosseguida pelo dr. Passos que terá encontrado lastro em exemplos de "nova normalidade" como a Coreia do Sul, a Indonésia e a América Latina. Crespo bem tentou que o governante descodificasse tamanha "revolução" e a opacidade com que ela costuma ser descrita pelos seus plumitivos, mas Maçães vive "muito adiante" deste país que, afinal, não se sabe bem de quem ou para quem é. E não se trata de uma pergunta ou afirmação retóricas. No mesmo dia soube-se que o governo tenciona, acolitado na falácia do "mérito" (entre nós, há muito que o "mérito" quer normalmente dizer carreirismo subserviente), promover a avaliação do desempenho a primeiro critério para despedir e extinguir postos de trabalho. É a "revolução tranquila" de Maçães, um homem que confessou ter beneficado de uma coisa "boa" como a bolsa da FCT que o ajudou a estudar ciência política em Harvard. Contrariamente ao que sugere um título de um livro "politicamente correcto" lançado agora por dois estimáveis "camaradas" da Voz do Povo dos idos de 75 que se converteram ao originalíssimo "liberalismo" português (afinal com inspirações sul-coreanas e latino-americanas mais do que provenientes do adorado norte europeu), este país não será  para novos mas não é de todo para velhos ou a caminhar para lá. Como me interessa sobremaneira o presente que contém, como sempre conteve, passado e futuro nele senão não existia (e por mais que o Mário Crespo, e outros, faça as perguntas certas a pessoas que estão deliberadamente erradas), este país, afinal, é para quem?

Uma direita de imbecis e uma esquerda de idiotas

«Como há dias dizia Marcel Gauchet, parece que a classe política europeia "renunciou a pensar o que acontece e lhe acontece. Não lêem um livro há 30 anos, tem-se a impressão de que o que hoje existe é uma direita de imbecis face a uma esquerda de idiotas."»


 


M. M. Carrilho, DN

29.1.14

Diferença de tom


 


Paula Teixeira da Cruz, ministra da justiça, esteve numa entrevista na tvi24. Não vi tudo, só o final.  Como me esclarecia um amigo numa mensagem, "só a diferença de tom é uma lufada de ar fresco", "finalmente alguém normal", "uma mulher com vida própria e bem resolvida". Em suma, diz ele, "uma gaja decente".

Do "andar por aí"


 


Reparei, pela televisão, numa conferência onde interveio John Bruton, o ex-PM irlandês. O senhor explicou delicadamente que "isto" não é equivalente à situação irlandesa e vice-versa. Ou seja, deixem-se de relógios programados até ao dia 17 de Maio. Marcelo também lá estava com o "generoso" gestor Alberto da Ponte sentado na primeira fila a seu lado. Sem esquecer o "carinho" com que tem sido tratado a partir da Lapa, Marcelo recordou que é "natural" que se deixe pairar a ideia de "saída limpa", quando o dr. Portas desligar o relógio, por motivos estritamente eleitorais. Marcelo é o mais recente militante do clube "andar por aí como se não andasse". Andasse e, sobretudo, ficasse.

Um país de merda

O comum dos mortais não pode deduzir alguns dos míseros seguros que tenha para efeitos fiscais. O mesmo se diga das despesas de saúde. Já um dos nossos maiores evangelistas, grande "empreendedor" e acrisolado patriota fiscal, está assim: «a Sociedade Francisco Manuel dos Santos SGPS foi a empresa privada que recebeu mais benefícios fiscais relativos ao ano fiscal de 2012, com 79,9 milhões de euros. A empresa só é ultrapassada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), com 118,2 milhões de benefícios, a única entidade da lista publicada pelo Ministério das Finanças que ultrapassa os cem milhões de euros.» Se isto não é um país de merda, o que é que será um país de merda, terá perguntado adequadamente a Soares dos Santos quando mudou de residência fiscal?

Relice

Concordo com a Constança Cunha e Sá: não há boas ou má praxes, existe uma tremenda estupidez, totalitária, humilhante e "profissionalizada" (o "dux" de Coimbra parece meu avô), denominada praxe à qual deve ser posto um fim. Comparar estes actos de acefalia perigosa com joguinhos de pau ou de berlindes das crianças de antanho, como fez o administrador da Universidade Lusófona, ou afirmar que não é por morrerem pessoas nas estradas que se deve proibir a condução, é um sinal preocupante da relice que paira na tola de "responsáveis" por estabelecimentos tidos por "universitários". Manuel Damásio, o senhor em causa, devia ser caridosamente removido pelos seus pares de quaisquer funções no dito estabelecimento. Para bem dele e da "comunidade académica" que ele representa.

28.1.14

Proximidades


 


Parece que a RTP decidiu apascentar esse enorme D. Sebastião que está sempre para chegar numa manhã qualquer, e independentemente da meteorologia, em que se tornou o António Costa. E parece que algumas pessoas afectas à maioria governativa se "indignaram" com o exercício solipsista do edil comentador. Não têm razão. A RTP chegou ao que chegou - refiro-me apenas à televisão - porque o regime decidiu fazer dela uma das suas estátuas sem a menor preocupação pelos conteúdos de serviço público que supostamente lhe estão concessionados. O governo, por exemplo, imagina que por a ter paga "apenas" com a taxa (e só a partir deste exercício de 2014 que deve ser interessantíssimo de auditar na altura devida) e com a publicidade se exonera de responsabilidades na catástrofe. E os outros partidos satisfazem-se com o mero saber que ela está lá para o que der e vier, custe o que custar. Seja na informação - salvo raríssimas excepções -, seja no entretenimento em que é puramente mimética, em pior, da concorrência, a RTP está entregue a um descaso organizado que permite a sobrevivência de uma endogamia dirigente "transversal" ao regime todo. Se calhar o prof. Maduro é quem menos "manda" ali no meio de tanto "amiguismo", "sugestões" e "capelas". Querem-na cem por cento pública porque noutras circunstâncias haveria "filtros". E a "maioria silenciosa" que paga a taxa não opina nem chateia com perguntas incómodas nomeadamente dirigidas ao sr. dr. da Ponte. A RTP estará sempre à distância de um telefonema para quem manda, independentemente da origem ou natureza do mando. E numa factura da electricidade, perto de si.

Esparrinhar a lama

O Senhor Presidente da República - como se o Tribunal Constitucional não tivesse nada de "interessante" para fazer - remeteu para fiscalização preventiva o estúpido referendo sobre a co-adopção (as perguntas dele) aprovado há dias pelo PSD no parlamento. O Doutor Cavaco permitiu entretanto que "constasse" que ele era contra a realização do disparate. Tinha, aliás, legitimidade política - porque é disso que se trata, de uma decisão política - para o vetar imediatamente. Assim não se entende (ou entende-se na versão minimalista da sua magistratura, tão "modelar" aos olhos do primeiro-ministro que aprecia timoratos em Belém) que "estique", ao abrigo de uma juridicidade esdrúxula, essa decisão. E, muito menos, que a descarte para o Tribunal. Razão tem Jorge de Sena: «isto já não é um país em que valha a pena bater, é uma lamaceira aonde a gente só esparrinha a lama.»

27.1.14

Erro Crato

O prof. Crato acha que a estupidez dolosa é debatível. Não é. É punível.

Passos terrenos

Há muito tempo que Passos Coelho não fazia um "discurso" tão bom. O reeleito presidente do PSD, depois de apurados os votos, deu uma valente canelada no relógio demagógico do dr. Portas quando alertou para a circunstância de no dia 18 de Maio continuarmos com as mesmas restrições e constrangimentos "austeritários" da véspera. E também "suavizou" o "milagre" económico do dr. Lima ao afirmar, muito sensata e realisticamente, que não há "milagre" algum à espreita com o bonito cenário das montanhas de Davos por enquadramento. Entretanto soube-se que o inefável vice PM vai receber um prémio qualquer pelo seu glorioso contributo para as relações luso-américo-latinas. De facto, só à Venezuela, o "coordenador económico" do governo já foi quatro vezes sem que ninguém tivesse escrutinado os respectivos resultados. O dr. Passos, com esta gente e apesar dos votos e do seu acrisolado "realismo", ainda tem muito que penar.

25.1.14

Jorge de Sena







 


Dois novos livros com Jorge de Sena dentro: a junção da sua poesia publicada em vida num único volume agora intitulado "Poesia 1", organizado por Jorge Fazenda Lourenço, e a correspondência com Carlo Vittorio Cattaneo numa edição preparada por Mécia de Sena, Joana Meirim e Jorge Fazenda Lourenço, com traduções do Jorge Vaz de Carvalho. Espero ter alento para começar brevemente a escrever uma biografia de Jorge de Sena já que, quanto à "actualidade", estamos mais ou menos como no desabafo do autor de "Evidências" dirigido a Cattaneo, em 1972: "Aquilo, meu filho, é um país de filhos da puta que sempre andaram pelo mundo a fazer filhos em putas (...) E tudo, meu caro, deve ser medido por esta triste verdade, que, como estudioso de Portugal, V. deve ter sempre em mente: aquilo foi sempre um país de filhos da puta, apenas com algumas honrosas excepções, entre as quais me conto. Puta que os pariu, com perdão de algumas senhoras decentes que não tiveram culpa de dar à luz os cabrões que deram. Podre, irrecuperavelmente podre, é que aquilo é."

A França num capacete


 


Consta que alguns assessores de Hollande recomendaram que o presidente passasse a declarar-se celibatário. A avaliar pela cara do Papa quando o recebeu no Vaticano, Hollande ainda não adquiriu institucionalmente esse estatuto. Na sua vida privada, aquela com quem ninguém tem nada a ver, fê-lo hoje. Se seguir as pisadas do seu antecessor, porém, não tardará em levar a chochinha que frequenta de motorizada para o palácio presidencial. Hollande, à semelhança do nosso dr. Passos, apresentou-se com uma pessoa "normal" por contraponto à nervoseira convencida instalada antes dele. Insistiu, aliás, no termo nos debates com Sarkozy. Mas, como praticamente todas as indistintas "elites" político-partidárias que governam a Europa, do Cabo Espichel aos mais recentes aderentes da "causa" europeia, Hollande revelou-se não tanto uma personalidade "normal" quanto uma personalidade vulgar. Aparentemente ninguém o leva muito a sério em casa ou na chamada "Europa" que ele tanto jurou vir mudar.  A França há muito que vinha perdendo o estatuto de "farol" intelectual e político que a distinguiu sobretudo a partir do fim do século XVIII. Mitterrand foi o último a preservar essa "herança" imaterial talvez porque a partir de certo momento, e pelos mais variados motivos, parecia intemporal e inatingível. Mais do que qualquer outra coisa, o famoso capacete de Hollande "oculta" algo que agora não existe e que De Gaulle designava por "uma ideia da França". A senhora Le Pen agradece.

24.1.14

As custas

Segundo os jornais e as televisões, a RTP - ré num processo movido pelo seu antigo director de informação, Nuno Santos, por despedimento sem justa causa - acordou com o autor a cessação do seu contrato de trabalho antes do julgamento. O processo terminou com a RTP a "reconhecer" as qualidades profissionais e deontológicas de Nuno Santos. E com Nuno Santos a "reconhecer" que as suas declarações no parlamento terão sido mal interpretadas e que nunca quis atingir "pessoalmente" a administração da televisão pública. Ambas as partes comprometeram-se a não prestar declarações públicas sobre o acordo. Finalmente, e na sequência da cessação do contrato, a RTP indemnizará Nuno Santos num valor desconhecido salvo quanto à entidade pagadora: os contribuintes. Cabe a estes suprir o disparate alimentado pela administração de Alberto da Ponte quando moveu a Santos um processo disciplinar por alegado delito de opinião. Parafraseando Mário Claúdio, no final de Guilhermina, nunca se saberá que história esta "história" teria para contar.

Mudar


 


Tal como Marcelo persiste o melhor candidato do centro-direita a Belém - e agora tem as mãos livres para crescer do partido para o país graças ao lamentável episódio da moção e à ambiciosa nabice dos seus adversários declarados ou implícitos -, Sampaio seria, de longe, o melhor cabeça de lista do PS para as "europeias" de Maio. O que quer dizer que os dois principais dirigentes partidários precisam mudar urgentemente de explicadores. Isto antes de os respectivos partidos, e o país, decidirem mudar de dirigentes.

23.1.14

Perdidos de Deus




«De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. Têm subido a um sentido mais alto e divino do que ele balbuciou. Mas ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. O ingénuo panteísmo da Raça, que tem carinhos de espontânea frase para com as árvores e as pedras, desabrochou nele melancolicamente. Ele vem no Outono e pelo crepúsculo. Pobre de quem o compreende e ama! O sublime nele é humilde, o orgulho ingénuo, e há um sabor de infância triste no mais adulto horror do seu tédio e das suas desesperanças. Não o encontramos senão entre o desfolhar das rosas e nos jardins desertos. Os seus braços esqueceram a alegria do gesto, e o seu sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós toma parte, salvo a imaginação. Dos seus versos não se tira, felizmente, ensinamento nenhum. Roça rente a muros nocturnos a desgraça das suas emoções. Esconde-se de alheios olhos o próprio esplendor do seu desespero. Às vezes, entre o princípio e o fim de um seu verso, intercala-se um cansaço, um encolher de ombros, uma angústia ao mundo. O exército dos seus sentimentos perdeu as bandeiras numa batalha que nunca ousou travar. As suas ternuras amuadas por si próprio; as suas pequenas corridas de criança, mal-ousada, até aos portões da quinta, para retroceder, esperando que ninguém houvesse visto; as suas meditações no limiar; ...e as águas correntes no nosso ouvido; a longa convalescença febril ainda por todos os sentidos; e as tardes, os tanques da quinta, os caminhos onde o vento já não ergue a poeira, o regresso de romarias, as férias que se desmancham, tábua a tábua, e o guardar nas gavetas secretas das cartas que nunca se mandaram... A que sonhos de que Musa exilada pertenceu aquela vida de Poeta? Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos — órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus, no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.»


 


Fernando Pessoa, 1915

A revolução colossal


 


Trinta e cinco vírgula cinco - 35,5 - por cento de aumento da receita proveniente do imposto sobre o rendimento das pessoas, apenas em um ano, é uma "revolução". Colossal. 

Vivemos tempos do Diabo

1. Quando soube da criação da Cresap, escrevi um post que me valeu, na altura, uma admoestação de quem de direito. De vez em quando noto que o seu presidente concede entrevistas e que (reconheço-o sem problemas até por causa do dito post), nessas entrevistas e em alguns casos concretos que vieram a público, tem sido intelectualmente honesto quanto ao "desenvolvimento" do seu trabalho. Por isso, e por causa dos "procedimentos", não me surpreende que apareçam coisas como estas. Na abertura do último congresso do PSD, em 2012, o seu presidente e primeiro-ministro insistiu muito na "tecla" da "independência" na escolha de altos dirigentes da administração pública e derivados pela circunstância de essa escolha estar nas mãos de um "independente". Mais de um ano depois desta estranha insistência louvaminheira, procurei saber de quem é que tinha partido a "ideia" da Cresap. Pela resposta, percebi que teria sido uma "imposição" politicamente correcta do tão amado "arco da governabilidade", muito antes do extraordinário "acordo" do dr. Seguro para a "reforma do IRC". Se calhar, porém, agora se não há "consensos" para umas coisas, então o melhor mesmo é não haver para outras. E, daí, isto. Vivemos tempos do Diabo.


2. «Quando verificamos que na própria Europa a pobreza se dissemina como um vírus, percebemos que hoje não faz sentido falar de "Terceiro Mundo", porque esse é o único mundo que existe...O relatório conta-nos que 85 super-ricos possuem a riqueza correspondente à da metade mais pobre da população mundial. Isso responde à pergunta formulada por Almeida Garrett em 1846, nas Viagens na Minha Terra: "E eu pergunto aos economistas, políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?" Em 2014, um super-rico custa a miséria de 41 176 000 infelizes...» Vivemos tempos do Diabo.


3. «Não vale a pena haver ilusões sobre a existência de margens ou não margens.» Vivemos tempos do Diabo.


4. «As yields das Obrigações do Tesouro (OT) no prazo a 10 anos voltaram a subir acima dos 5% no mercado secundário. A linha foi ultrapassada às 16h, segundo dados da Investing.com. Ontem tinham fechado em 4,89%.» Vivemos tempos do Diabo.


5. O prof. Crato persiste ministro. Vivemos tempos do Diabo.

22.1.14

«Duro é ser velho»


 


Estava a ver nos telejornais o debate do orçamento rectificativo. Rectificativo para "rectificar" a "contribuição extraordinária de solidariedade" dos pensionistas e que "poupa" cerca de 90% dos reformados, "poupança" essa que é apresentada como uma extraordinária conquista (faz-me impressão que alguém se possa louvar na miséria pura ou vagamente remediada e apresentar isso como um bem social e político). Por isso, em homenagem à "vida real" - a dessas pessoas e não a imaginada, por exemplo, pela "empreendedora" e "paradigmática" dupla Lima-Crato -, vou às execradas "humanidades" buscar versos de Vitorino Nemésio que dedico à Maria Luís Albuquerque que sei que não percebe só de finanças e que não acredito que não tenha biblioteca. E que belo, da vida e da poesia, é ver este professor reformado, então com 75 anos e a menos de dois de morrer, apaixonado por Margarida Victória Borges de Sousa Jácome Correia, de 57, para escândalo póstumo da família do poeta, "coxo e doido", "corno coxo".


 


Fui hoje à Caixa, Marga, receber
A pensão de reforma.
Coxo e doido, Marga. Muito!
Duro é ser velho, e, então, de ossos a arder?
A minha tíbia engole facas.
Fui hoje à Caixa receber
O troco das pernas fracas.
E lembrei-me de ti, que eras habituée
Lá pela ordem dos trinta, dos cinquenta milhões.
Da formiga à cigarra:
(Iguais ocasiões)
- Que faisiez vous aux temps chaux,
Dit-elle à cette emprunteuse.
Lembrei-me de ti com La Fontaine,
Cigarra, claro, chanteuse.
Formiga fora uma aubaine.
Marga, é tão triste o dinheiro!
Até já o ganhas, como eu,
E andaste coxa, cheia de dores
Tu que o atiravas aos punhados
Como em batalha de flores
Estás como os reformados
À espera dos directores
Mas como ainda és bonita
E há sempre um, pronto aos favores,
Vê bem o que ele te debita
Que descontos te faz
Ê provável que insista
Sabendo-te "petite amie" de um pobre pensionista
A menina bem sabe que há certas coisas que nem mesmo um aperto
(Ai, a minha peminha!)
Cornucópia - corno coxo.»

Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga

"Estropiados por uma grafia absurda"


 


«Em que ortografia vão os nossos grandes autores ser servidos nas escolas? Serão implacavelmente desfigurados pela aplicação dessa coisa sem nome? Ou virá o Governo a tomar providências rápidas para, pelo menos em parte, remediar a situação? A crítica definitiva do Acordo Ortográfico, nos planos científico, jurídico, político e sociocultural, está feita há muito, pelo que nem sequer vale a pena retomá-la. Mas torna-se necessária uma solução que, de resto, e como Pacheco Pereira também salienta, sairá tanto mais cara ao País quanto mais tarde ela for tomada. Os custos directos e indirectos serão muito altos, mas arriscam-se a tornar-se astronómicos se se continuar a perder tempo. Trata-se de uma questão também política que, pela sua dimensão internacional, requer um particular tacto no seu tratamento e cuja solução, segundo creio, poderia ser encontrada em três planos. Em primeiro lugar, o Governo poderia negociar com os editores de livro escolar, que não são assim tantos, o abandono do esquema actual de aplicação do Acordo nas edições escolares, tendo em conta o tempo de validade dos livros e manuais existentes e o seu ritmo de substituição. Entretanto, o Governo suspenderia a aplicação do Acordo Ortográfico decretada por uma Resolução do Conselho de Ministros de ultrajante memória, determinando que, na medida do possível, se voltasse já ao sistema anterior (afinal o ainda vigente, quer se queira quer não...). Em terceiro lugar, no plano internacional, seriam desencadeadas as medidas necessárias a uma revisão imediata do Acordo Ortográfico pelos oito países de língua portuguesa (incluindo portanto Timor). Estas três dimensões do problema não terão nunca uma solução satisfatória, atendendo aos malefícios já provocados e aos que se desenham no horizonte. Mas na situação em que nos encontramos, não se pode esperar que haja muitas outras saídas possíveis e esta seria certamente uma delas. Para além dos objectivos visados no curto, no médio e no longo prazo, no plano escolar deixaríamos de ter, desde já, os nossos grandes autores barbaramente estropiados por uma grafia abstrusa. E isso, agora que o ensino do português vai mudar no ensino secundário, é de uma importância primordial.»


 


Vasco Graça Moura, DN


 


 

21.1.14

"Poderemos ter um 2014 melhor e um depois de 2014 melhor que o próprio 2014” *

«O JN pediu a 12 funcionários públicos que divulgassem os seus salários e partilhassem as suas angústias com os nossos leitores. Uma exposição pública que justifica um agradecimento.»


 


 


*Palavras inspiradas do senhor vice PM.

O exercício da "vingança"

Voltou à baila a ADSE. Francamente não consigo perceber o que é que o governo pretende: se acabar com ela por "desistência" dos beneficiários uma vez que a adesão é agora facultativa, ou acabar com ela "indirectamente", privatizando-a. De qualquer forma, o aumento da contribuição, nesta altura, é um acto de pura má-fé - juntamente com a subida da "contribuição extraordinária soviética" para as pensões -  destinado a "vingar" o "chumbo" do Tribunal Constitucional a um acto de gestão orçamental corriqueiro em nome da "consolidação" e da inexplicável teimosia com o défice indemne. Porque, ainda há meses, Paulo Macedo - e não um qualquer secretário de Estado armado em executor testamentário da referida "vingança" - afirmava que "a ADSE é um sistema em que as pessoas estão satisfeitas e é autossustentável" e que não queria acabar com ela". E, reafirmo, é o SNS que tem mais a ganhar aproximando-se de um sistema como a ADSE do que o contrário. Em suma, "o Estado poupava mais se o SNS adoptasse um regime tipo ADSE do que mantendo o "ideológico" SNS" ou inventando um "pseudo-liberalismo provinciano gemedor com o suposto "privilégio" da ADSE".

O regresso da "mão direita de Deus"


 


«Hollande revelou-se um político banal. Daqueles que mentem, deliberadamente, para ganhar eleições. Mas, desta vez, Marx não tem razão. A comédia de Hollande não repete nenhuma tragédia anterior. Pelo contrário, antecipa uma calamidade que se tornará praticamente inevitável. Hollande acabou de oferecer não só a vitória nas Europeias à Frente Nacional como escancarou as portas da Presidência a Marine Le Pen. A crise vai deslocar-se da periferia para o coração da Europa, prometendo um espectáculo de "som e fúria". Todos seremos actores. Quer queiramos quer não.»


 


V. Soromenho-Marques, DN

20.1.14

Abbado


 


Em Outubro de 1997, no Coliseu de Lisboa, Claudio Abbado dirigiu a Orquestra Filarmónica de Berlim no âmbito do ciclo "grandes orquestras". Pude vê-lo, aí, a interpretar Mahler. "Conhecia-o" bem do vinil nomeadamente do "seu" Barbeiro de Sevilha, com Tereza Berganza e Prey, do Rigoletto, com Cappuccilli e Domingo, do Simon Boccanegra com o mesmo Cappuccilli e Mirella Freni ou do famoso Macbeth, do Scala, de 1975-76 (clip). Exímio no referido Mahler, Abbado era o que se pode chamar um virtuoso, porventura na linha de Carlo Maria Giulini. Naquele outono de 1997, já lhe tinha sido diagnosticada a doença: Trabalhou, se possível com ainda maior virtuosismo e serenidade, praticamente até ao fim. Foi, sem dúvida, um dos grandes músicos deste e do século XX que, em muitos aspectos, felizmente ainda não acabou.

A figura de corpo presente


 


Na semana em que vários segmentos da população recomeçam a receber os seus salários e pensões em escudos (embora sob a forma de euros), as "fontes" governativas decerto não deixarão de salientar diariamente os valores das taxas de juro da dívida, o novo "13 de Maio" que passa para 17 e o crescente esplendor das grandes negociatas e do financismo que o dr. Passos, recandidato a presidente do PSD, assegura ao país como desígnio milenar de grande visionário. Isto é, empobrecer a classe média "remediada", no activo ou em casa, que passa a pagar mais pelo que consome (uma vez que recebe menos) e enriquecer - por via de uma praxis anti social-democrata oportunamente denunciada na autocrítica de Vítor Gaspar - o que se move na invisibilidade não escrutinável das transacções "de" mercado. O que, segundo a sua magnífica cabecinha, fará de Portugal exclusivamente um país de "empresas" e de bancos virados "para fora" - porque não é com certeza com os mortos-vivos domésticos que elas e eles podem contar para sobreviver - e com as funções de soberania e de dignidade públicas reduzidas a uma mera caricatura. Para que o desígnio não falhe, o dr. Passos necessitaria de ter como candidato a Belém um homem timorato, uma espécie de supra Doutor Cavaco pós-Julho de 2013, em pior. Daí a ênfase colocada no "perfil" a tão nobre função ornamental na sua "moção" recheada de neo-barrosismo. Quem estará, pois, disponível para fazer esta figura anunciada e ridícula de corpo presente?

19.1.14

O "indesejado"


 


Marcelo comentou a chamada "moção de estratégia" do dr. Passos na parte que alegadamente lhe diz respeito, as próximas eleições presidenciais. E considerou que Passos "considera" a sua putativa candidatura "indesejável". Pelo caminho, e fazendo uso de uma acta da reunião da direcção do PSD na qual ninguém se opôs à trapaça do referendo, acabou por sugerir que o mesmo dr. Passos e a verdade podem nem sempre coincidir: nessa unanimidade estava, à cabeça, o presidente do partido. E ainda teve tempo para questões de má educação. Passos podia ter-lhe telefonado a comunicar que não o queria em vez de permitir que o "recado" fosse passado aos jornais, como sugeriu, sorridente, o visado. Marcelo descreveu o cenário da moção de Passos no condicional. Ora Passos não conhece a conjugação condicional "se". E o país terá a infelicidade de constatar, depois do mítico "17 de Maio", que nada de substancial mudará na vida difícil das pessoas. Não há paraísos artificiais a não ser na literatura. E Marcelo não é pessoa que convenha ter-se por inimigo. Decerto que, na sua loquacidade semanal, jamais se esquecerá do qualificativo "passista", o "indesejado".

18.1.14

Grandes contemporâneos



Só, talvez, em alfarrabistas - o que "vendem" hoje as livrarias? -, com argutos escritos sobre, por exemplo, Herculano e Oliveira Martins.  E Eça, mais "incomum".

O "amanhã nunca morre" ou o regresso de Zorro


 


Só conheci Passos Coelho a uns meses de ele ganhar as eleições de Junho de 2011. Falei com ele duas vezes e só o reencontrei como primeiro-ministro, em São Bento, quando se preparava o programa do XIX Governo. Apesar de estar fora do PSD vai para dez anos, nunca me passou pela cabeça "apoiá-lo" por aqui como presidente do partido. Todavia, era ele quem estava em funções naquele mês de Junho e, por consequência, a "mudança" (neste caso de Sócrates) só podia passar por ele. Estive no último congresso do PSD, em 2012, porque pertencia ao gabinete do então ministro adjunto Miguel Relvas mas saí cedo. Aliás, Relvas começou a "deixar" o PSD e o governo nesse congresso ou, mais adequadamente, a ser "remodelável" a partir daí. Basta atentar em quem e no que se seguiu. Na realidade, Passos Coelho nunca me interessou especialmente a não ser na circunstância e no momento em que a sua "normalidade" me pareceu mais adequada para remover o "feroz" Sócrates então já exaurido. No congresso de 2012, recordo-me de a sua "moção" ter passado pela leitura de alguns assessores políticos antes de ser divulgada. Imagino que o ghost writer de 2014 seja, no essencial, o mesmo de 2012, o meu querido amigo Miguel Morgado, salvo nas "partes" mais "partidárias" e "tácticas". E desta nova moção, o que é que se retira? Desde logo que é Passos quem "domina" o  futuro da pátria no médio e, mesmo, no longo prazo. Ele veio para ficar, como o Toyota, e para nos "orientar" no pós-troika mesmo sem ter qualquer certeza do que isto será e como, salvo no que diz respeito ao puxar "liberal" da vida das pessoas para baixo e de meia dúzia de duvidosas abstracções, também "liberais", para cima. Praticamente exige ao PS que se comprometa aí por alturas de Abril na sopa turva de um "consenso" para a tal coisa indefinida que ele, Passos, quando entender (ou souber) explicará. Está-se mesmo a ver o PS, a escassas semanas das eleições europeias, a posar para o retrato com os drs. Passos e Portas. Isso permitirá inverter imediatamente o discurso por forma a apontar o dedo ao renitente PS que não se dispõe a "colaborar", e passar adiante. Porque Passos, o peticionário, continua inflexível no seu "amanhã" que ele não faz tenções que acabe em 2015. Toda a moção dá, aliás, de barato que o país não se "salva" sem o concurso da promessa da  "nova normalidade" do recandidato a presidente do PSD e, até, a "presidente" do próximo Presidente da República. Qual Zorro, quase que passa incólume pelo ano em curso, por 2015 e por 2016. Com tanto marialvismo político, oxalá não tropece.

17.1.14

Portugal em transe e a "direita"



 


Com Portugal em transe, este texto de António Araújo, no Malomil, tenta perceber "a direita portuguesa contemporânea" naquilo que o autor titula de "itinerários socioculturais" da dita cuja a partir dos anos 80. Para quem passou por alguns desses "itinerários", ou sobretudo não, indispensável.

"Quando o disparate ferve"


 


O dr. Lima, à Horta Seca, não quer bolsas para investigação "fora da vida real". O que será a "vida real" para esta pobre criatura? Será um mundo sem pessoas ou com elas descerebradas? Um mundo cibernético e marialva onde os descerebrados da "vida real" intervalam uns minutos para beber umas bejecas no "mercado"? Um mundo sem estética, sem livros (que horror), sem curiosidade cultural e científica, isto é, sem "humanidades" ou património, e apenas com "plataformas tecnológicas" onde se possa fazer cocó reciclável para exibir em feiras de "empreendedorismo e inovação" juntamente com pernil de porco? O próprio dr. Lima não estaria disposto a abdicar de si mesmo para dar lugar a uma máquina que viva no "conforto" da única "vida real" que conhece, a das "empresas", como se a sua actividade sináptica fosse meramente facultativa? Nada que espante já. Como escreve Vasco Pulido Valente no Público, «o dr. Nuno Crato apareceu numa conferência de imprensa conjunta com o dr. Pires de Lima. Nessa conferência os dois resolveram falar sobre “empreendedorismo e inovação”. Tanto um como o outro falaram com entusiasmo da colaboração entre a ciência e a economia: prometeram 50 milhões de euros, uma série de programas de utilidade duvidosa e um esforço para mandar infinitos doutorados para empresas de grande futuro. Mas, como bons burocratas que são, e nunca deixarão de ser, anunciaram também a sua coroa de glória: a criação de uma “agência interministerial” para se ocupar do assunto; o que significa evidentemente mais funcionários, mais conselheiros, mais secretárias, mais despesa e por aí fora.    Claro que, se o “presidente” ou “director” desta original loucura tiver um resto de juízo, manda ao sr. Pires de Lima e ao sr. Crato uma cartinha, aconselhando este excelentíssimo par a devolver as bolsas a quem as tirou e pedindo respeitosamente a sua demissão. Mas, como uma criatura destas não é fácil de encontrar em Portugal, só nos resta, para nos divertir, fazer listas comentadas das contradições destes cavalheiros e de Passos Coelho e Portas, que os deveriam vigiar. Verdade que o tempo não está para risotas, sobretudo num caso destes. De qualquer maneira talvez não deixasse de confortar os portugueses compreender a inteligência e a subtileza de quem os pastoreia. Quando o disparate ferve, convém estar preparado para qualquer emergência.»

16.1.14

Figura de ursos

Como costumava dizer um governante actual - que conheci quando ele ainda era vivo -, a gente esforça-se por encontrar "qualidades" nas pessoas mas a coisa acaba quase sempre por borregar. Vem isto por causa do PSD, do seu presidente e do seu grupo parlamentar face ao projecto de lei sobre a co-adopção. O que me pareceu relevante escrever na altura em que o parlamento, algum PSD incluído, aprovou na generalidade um projecto de lei adequado sobre a matéria, fi-lo aqui, aqui e aqui. Por isso, a "ideia" peregrina de um referendo juridicamente inverosímil (porque sempre fui um adepto do referendo, fico à vontade para dizer isto) apenas serve para esconder o objectivo politicamente rasca de impedir que a lei siga o seu curso. A "disciplina" inqualificável imposta pelo dr. Passos através da respectiva "cadeia hierárquica" resume-se, se for seguida, a uma figura. De ursos.

O regresso clandestino do escudo


 


No seu livro "Não há mapa cor de rosa", e em entrevistas recentes, José Medeiros Ferreira usou uma expressão feliz para a infelicidade de milhares de famílias portuguesas: o regresso clandestino do escudo. De facto, aqueles que vivem do trabalho dependente ou da sua pensão - especialmente os chamados funcionários públicos, embora os "privados", por via dos impostos, acabem por lá chegar, e os pensionistas sem distinção -, podem por estes dias constatar melancolicamente esse regresso. Basta atentar bem nos recibos de vencimentos ou de pensões, estas ainda sem a famosa "recalibragem solidária": apesar de expressos em euros são na realidade valores de há mais de quinze anos que eles evidenciam. Em Portugal, por consequência, "circulam" duas moedas na forma material de uma, sendo que a "forte" está reservada para o sistema financeiro que já começa a babar-se com as "perspectivas" pós-troika. Esta é, por exemplo, a parte não escrita da intervenção do meu caríssimo Marco António Costa a propósito do "sucesso" com a dívida, dos juros pagos e da "viragem". Ou, nas palavras do sub-director do Correio da Manhã, M. Alexandre Ganhão, da credulidade perante o "conto do vigário" quando sabemos que "elogios na boca de certa gente persiste vitupério. «É evidente para todos que Portugal está mais pobre. Não só a riqueza que conseguimos produzir é menor, como a generalidade dos cidadãos ganha hoje menos do que ganhava hà cinco anos. Assim sendo, custa perceber porque é que tanta gente nos quer emprestar dinheiro. Vejamos; colocámos dívida a cinco anos com uma taxa de 4,6% com a procura a exceder três vezes a oferta disponível. O Banco Espírito Santo (BES) que, para quem já se esqueceu, teve 381 milhões de euros de prejuízo nos primeiros nove meses de 2013, consegue fazer uma emissão obrigacionista de 750 milhões a cinco anos a uma taxa de juro de 4% (um banco com prejuízo consegue juros melhores do que um país em recuperação económica) e, finalmente, ontem mesmo uma emissão de curto prazo da República de 1,2 mil milhões, regista uma taxa de juro de 0,8% a 12 meses, a mais baixa desde 2009. Mais, o banco alemão Commerzbank, que há dois anos se queria ver livre da dívida pública portuguesa, vendendo-a aos particulares cá do burgo, já diz que “Portugal é o milagre económico da Península Ibérica”. E nós, vaidosos, vamos, outra vez, cair no conto do vigário.» (citação integral editada)


 


 


Adenda: O Senhor Presidente da República, em compensação, "espera" muito deste glorioso ano de 2014. E mais ainda deste glorioso orçamento que em Maio proporcionará, segundo as melhores previsões domésticas, um quarto ou quinto "milagre de Fátima". Que Deus, e Nossa Senhora, lhes pague que não tenho troco.

15.1.14

Um coveiro na academia

Crato constará do rodapé da "história" deste governo sobretudo como alguém que ajudou a derrubar um colega seu à conta de um "relatório" do qual nunca mais se ouviu falar. De resto, como ministro da educação e ciência é um logro e um figurante que aprecia arrastar-se atrás dos que vão à frente dele: o primeiro-ministro, por natureza, e um ou outro ministro por irrelevância (ainda hoje ornamentou uma mesinha ao lado do "empreendedor" dr. Lima). E, como professor universitário, presumo que não mereça a menor consideração da "comunidade académica", da que existe ou da por vir. Com ele, aliás, corre o sério risco de não vir de todo.

Sem mambo jambo

Aqui.

Dos "buracos" e das "humanidades"

 



 


Estava a ler esta peça do Público, sobre isto, e reparo na "preocupação" da deputada em "atenuar o buraco" com a venda em leilão dos quadros. Com o devido respeito, a deputada devia começar por tentar "atenuar" o "buraco" na cabeça dela. Logo o que não é de todo "lixo tóxico" na infâmia do BPN é que deve ser despachado a bem do "buraco" como se este lugarejo de castiços ignorantes fosse "modelar" em matéria de património e de cultura? Mas há mais, por falar em "buracos". A propósito da entrada de José Luis Arnaut no Goldman Sachs, Viriato Soromenho-Marques escreve, porventura uma imensa dose de injustiça, que «não se lhe conhece uma única ideia própria» embora o considere «um hábil perito em transformar propriedade pública em salvados.» No mesmo sentido segue Henrique Monteiro quando diz que «da seriedade de Ferro [Rodrigues] e de Álvaro [Santos Pereira] à esperteza de quem aproveita uma oportunidade política para se juntar à Goldman Sachs vai uma diferença abissal.» Estes "buracos" - culturais, instintuais ou o que quer que sejam - denotam a queda livre das "humanidades", a que alude Vasco Graça Moura (no sentido de as recuperar para a Cidade), na opinião e no sentimento públicos, hoje tão degradadas pelo "financês" rapace, apesar das «preferências de escolha das entidades patronais a diplomados que com elas tenham tido um contacto proficiente». «Porque será? Hoje temos todos a consciência de que a literatura é um instrumento do conhecimento e corresponde a um meio de funcionamento ao nível da sociedade que vai muito mais longe (...). Aos que falam da crise das humanidades e da crise da literatura, há também que saber dizer que sem crise (sem pensamento crítico) não existe qualquer futuro reflexivo, seja em que domínio do conhecimento for. A literatura é um dos mais densos lugares em que essa reflexão e essa compreensão se constroem. A literatura é algo que nos define como cidadãos reflexivos de uma cultura historicamente situada, com um património que hoje, cada vez mais, devemos aprender a valorizar, a praticar e a transformar.» 

14.1.14

Os novos "amigos de Peniche"

O sr. Rehn, número dois ou três do dr. Barroso, explicou, presumivelmente naquele retorcido inglês que babuja, que medidas como os cortes nas pensões ou algumas das privatizações foram da inteira responsabilidade, e escolha, do Governo português, «negando implicitamente que estas medidas tenham sido impostas pela troika de credores internacionais». Mais depressa se tropeça numa "linha vermelha" do que se apanha um coxo.

Miró "a" mercado


 


Tudo o que não tenha a ver com o "regresso a mercado", não interessa. Tudo o que não possa ser traduzido em Excel ou em algoritmos, não interessa. Tudo o que revele, para além de outras coisas, um certo sentimento estético da vida ou a mais pequenina possibilidade de prover ao gosto e à sensibilidade, não interessa. Um "activo" é um "activo" que é um "activo" (que o diga o banco Goldman Sachs, essa benemérita instituição, que foi contratada pela Grécia para ocultar perante terceiros a desgraça que a vitimou a seguir, e que agora, pela voz do dr. Esteves - não o de Tabacaria do Pessoa, mas o "nosso homem" no banco - "recomenda" que se prescinda por cá do "cautelar: por que será?), e Miró é um "activo" do BPN, essa coisa em forma de assim que os portugueses só podem apreciar a título "passivo", pagando-o. Barreto Xavier resume perfeitamente o exercício: "a aquisição da colecção de Joan Miró não é considerada uma prioridade no actual contexto de organização das colecções do Estado”. Mas se o BPN está "nacionalizado, nosso", então os quadros do Miró não estão? Ou Miró, nesta lógica de mercearia grossista e grosseira, não pode juntar-se aos contribuintes que sustentam o "lixo" do BPN? Não, definitivamente esta gente não de deixa impressionar pela presença de belos objectos, para usar uma expressão de Walter Pater, nem deixa que os outros, os que pagaram e pagam o "lixo BPN" se deixem impressionar. E, asssim, "as obras continuam a figurar no catálogo para o leilão de 4 de Fevereiro no site da Christie’s, não havendo mais indicações sobre o evento por parte do executivo." Vão "a" mercado.

"Um problema delicado"

Segundo o Diário de Notícias, o dr. Pedro Reis, o estimável e prestimoso presidente da AICEP está a "ponderar" se fica ou não fica à frente do organismo. Se, no fundo, o serviço público compensa sem ser para o retrato. Pelo que se sabe - pelo dr. Portas, sobretudo, o "coordenador económico" doméstico e internacional do Executivo que acumula com o de MNE em "realidade" de funções - o governo aprecia o seu desempenho. Porquê, pois, sair? Porque, segundo o jornal, "a possibilidade de Pedro Reis deixar a AlCEP, embora não seja um dado adquirido, é assumida por fonte próxima do processo, e a sua substituição encontra na remuneração um problema delicado - o presidente da AICEP ganha pouco mais de três mil euros líquidos, um valor baixo para a responsabilidade e a exposição." Quer trocar?

13.1.14

Uma aventura com Poiares Maduro


 


Lamento não concordar com o Zé Paulo Fafe. Vou fazer de conta que Poiares Maduro "está" num livro de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães. Eu escolho dois, tu escolhes outros dois e os quatro escolhem mais dois. Todos juntos escolhemos o chefe da aventura. Eu sou o governo, tu és o "conselho de opinião" da RTP e os outros são nossos "conhecidos" e "independentes". Aliás, somos todos "independentes". Depois, escolhemos a administração da aventura, salvo no que respeita à mesada para a aventura. Essa é entre mim, governo, a publicidade e os consumidores de electricidade que, gostem ou não da aventura, vão pagá-la através do aumento da factura da dita. É uma história de facto de encantar e cheia de peripécias. Vamos ver como acaba, sim?

«Já agora, onde pára o ministro das pensões?»


 


Pergunta Bagão Félix no Público que, decerto, não o viu ser muito aplaudido quando foi chamado ao palco do CDS em Oliveira do Bairro, sob o olhar embevecido do primeiro-ministro e do seu mentor de quem é agora vice presidente partidário. E a pergunta de Bagão não é meramente retórica. Vejamos. «Escreveu Jean Cocteau: Uma garrafa de vinho meio vazia está meio cheia. Mas uma meia mentira nunca será uma meia verdade . Veio-me à memória esta frase a propósito das meias mentiras e falácias que o tema pensões alimenta. Eis (apenas) algumas: 1. As pensões e salários pagos pelo Estado ultrapassam os 70% da despesa pública, logo é aí que se tem que cortar. O número está, desde logo, errado: são 42,2% (OE 2014). Quanto às pensões, quem assim faz as contas esquece-se que ao seu valor bruto há que descontar a parte das contribuições que só existem por causa daquelas. Ou seja, em vez de quase 24.000 M€ de pensões pagas (CGA + SS) há que abater a parte que financia a sua componente contributiva (cerca de 2/3 da TSU). Assim sendo, o valor que sobra representa 8,1% da despesa das Administrações Públicas. 2. Ou seja, nada de diferente do que o Estado faz quando transforma as Scut em auto-estradas com portagens, ao deduzi-las ao seu custo futuro. Como à despesa bruta das universidades se devem deduzir as propinas. E tantos outros casos. 3. Curiosamente, ninguém fala do que aconteceu antes: quando entravam mais contribuições do que se pagava em pensões. Aí o Estado não se queixava de aproveitar fundos para cobrir outros défices. 4. Outra falácia: O sistema público de pensões é insustentável. Verdade seja dita que esse risco é cada vez mais consequência do efeito duplo do desemprego (menos pagadores/mais recebedores) e muito menos do que se pensa da demografia, em parte já compensada pelo aumento gradual da idade de reforma (f. de sustentabilidade). Mas por que é que tantos sábios de ouvido falam da insustentabilidade das pensões públicas e nada dizem sobre a insustentabilidade da saúde ou da educação também pelas mesmas razões económicas e demográficas? Ou das rodovias? Ou do sistema de justiça? Ou das Forças Armadas? Etc. Será que só para as pensões o pagador dos défices tem que ser o seu pseudocausador, quase numa generalização do princípio do poluidor/pagador? 5. A CES não é um imposto , dizem. Então façam o favor de explicar o que é!... Basta de logro intelectual. E de inovações pelas quais a CES (imagine-se!) é considerada em contabilidade nacional como dedução a prestações sociais (p. 38 da Síntese de Execução Orçamental de Novembro, DGO). 6. 95% dos pensionistas da SS escapam à CES, diz-se com cândido rubor social. Nem se dá conta que é pela pior razão, ou seja, por 90% das pensões estarem abaixo dos 500 €. Seria, como num país de 50% de pobres, dizer que muita gente é poupada aos impostos. Os pobres agradecem tal desvelo. 7. A CES, além de um imposto duplo sobre o rendimento, trata de igual modo pensões contributivas e pensões-bónus sem base de descontos, não diferencia carreiras longas e nem sequer distingue idades (diminuindo o agravamento para os mais velhos) como até o fazia a convergência (chumbada) das pensões da CGA. 8. As pensões podem ser cortadas, sentenciam os mais afoitos. Então o crédito dos detentores da dívida pública é intocável e os créditos dos reformados podem ser sujeitos a todas as arbitrariedades? 9. Os pensionistas têm tido menos cortes do que os outros. Além da CES, ter-se-ão esquecido do seu (maior) aumento do IRS por fortíssima redução da dedução específica? 10. Caminhamos a passos largos para a versão refundida e dissimulada do famigerado aumento de 7% na TSU por troca com a descida da TSU das empresas. Do lado dos custos já está praticamente esgotado o mesmo efeito por via laboral e pensional, do lado dos proveitos o IRC foi já um passo significativo. 11. Com os dados com que o Governo informou o país sobre a calibrada CES, as contas são simples de fazer. O buraco era de 388 M€. Descontado o montante previsto para a ADSE, ficam por compensar 228 M€ através da CES. Considerando um valor médio de pensão dos novos atingidos (1175€ brutos), chegamos a um valor de 63 M€ tendo em conta o número 140.000 pessoas que o Governo indicou (parece-me inflacionado...). Mesmo juntando mais alguns milhões de receitas por via do agravamento dos escalões para as pensões mais elevadas, dificilmente se ultrapassam os 80 M€. Faltam 148 M, quase 0,1% do PIB (dos 0,25% que o Governo entendeu não renegociar com a troika, lembram-se?). Milagre? Descalibração ? Só para troika ver? 12. A apelidada TSU dos pensionistas prevista na carta que o PM enviou a Barroso, Draghi e Lagarde em 3/5/13 e que tinha o nome de contribuição de sustentabilidade do sistema de pensões valia 436 M€. Ora a CES terá rendido no ano que acabou cerca de 530 M€. Se acrescentarmos o que ora foi anunciado, chegaremos, em 2014, a mais de 600 M€ de CES. Afinal não nos estamos a aproximar da TSU dos pensionistas , mas a... afastar-nos. Já vai em mais 40%! 13. A ideologia punitiva sobre os mais velhos prossegue entre um muro de indiferença, um biombo de manipulação, uma ausência de reflexão colectiva e uma tecnocracia gélida. Neste momento, comparo o fácies da ministra das Finanças a anunciar estes agravamentos e as lágrimas incontidas da ministra dos Assuntos Sociais do Governo Monti em Itália quando se viu forçada a anunciar cortes sociais. A política, mesmo que dolorosa, também precisa de ter uma perspectiva afectiva para os atingidos. Já agora, onde pára o ministro das pensões? P.S.: Uma nota de ironia simbólica (admito que demagógica): no Governo há assessores de aviário , jovens promissores de 20 e poucos anos a vencer 3000€ mensais. Expliquem-nos a razão por que um pensionista paga CES e IRS e estes jovens só pagam IRS! Ética social da austeridade?»

Dos "sinais ténues" e outros "milagres"

«Portugal tem uma das mais altas percentagens de jovens que queriam prosseguir os estudos, mas não têm possibilidade de os pagar (38 por cento, cerca de 4 em cada 10), revela um inquérito patrocinado pela Comissão Europeia que é hoje apresentado em Bruxelas.»

12.1.14

Tudo bons rapazes


 


Estava a olhar para a televisão e, fora a bola, vejo em directo a chegada do presidente do PSD ao congresso do CDS. Neste, tudo correu como tem corrido há anos e anos a esta parte, salvo um curtíssimo interregno protagonizado pelo infeliz dr. Ribeiro e Castro: a "vitória" albanesa do dr. Portas. Mesmo assim, duas ou três formas de vida independente, como o Filipe Anacoreta Correia, desafiaram a imensa traquitana de clones e de infra clones de Portas em que se tornou o aborrecido CDS. Sobre os idos de Julho, Portas "explicou" a sua meia hora de "irrevogabilidade" e a sua falta de dissimulação" como não sendo nem "um capricho" nem um "enfado". Pois não. Foi uma pantomimice chantagista. Passos, enquanto espera pelo seu momento albanês, foi lá, por consequência, caucionar a pantomimice que será sua aliada, em listas conjuntas, nas europeias de Maio. E com o mesmo presumível "sucesso" que os juntou, por exemplo, nas autárquicas em Sintra e em Lisboa. Tudo bons rapazes.

11.1.14

"A verdade a que temos direito"


 


Ler o Expresso - não os colaboradores mas os "trabalhos" de alguns dos seus jornalistas da "política" - por vezes lembra o velho O Diário, ao contrário, e o seu inesquecível "lema": «a verdade a que temos direito.» E a "verdade" a que os que lá debitam sobre política nos facultam, como "direito" nosso a ela, é relativamente simples. Graças à feliz conjugação da irrevogabilidade do dr. Portas com a tenacidade do dr. Passos, dos bons negócios com vendas de dívida a juros que dobram os espanhóis, dos impostos "de solidariedade" com cortes nos rendimentos de trabalho para a eternidade (que não termina no ano 2020 do dr. Passos ou no relógio mal calibrado do Caldas) e das recandidaturas partidárias, únicas e simultaneamente de "Estado", dos citados dirigentes, qualquer amanhã cantará descansadinho e seguro. Sem o dr. Seguro, evidentemente.

10.1.14

A dignidade


 


Álvaro Santos Pereira - uma das últimas pessoas dignas e sérias que conheci nos dois anos e meio em que colaborei com o XIX Governo Constitucional - vai exercer funções de director na OCDE, ficando responsável pelas negociações com os ministros das Finanças e da Economia dos países membros. Será como que o "número dois" dos economistas da organização e foi seleccionado após um concurso internacional. Não deve nada a ninguém daqui, antes pelo contrário - recusou todas as "ofertas" mal conscenciosas de nomeação "política" que lhe foram propostas depois de 24 de Julho de 2013 (quais, o próprio um dia se quiser o dirá). É mais um emigrante - e dos "qualificados" que os deslumbrados e os palonços tanto apreciam referenciar sem reflectirem na origem do gesto - para que os farsantes oportunistas e os peralvilhos fanfarrões possam continuar por cá, contentinhos e "destacados" com os seus "sucessos" de opereta. Boa tarde e boa sorte, Álvaro.

9.1.14

A dívida come-se?

A operação com a dívida pública foi um "sucesso"? Foi. Os juros pagos por ela também foram um "sucesso"? Não. O primeiro-ministro acha que os portugueses, particularmente os pensionistas, merecem uma palavra da sua parte no dia em que isto coincide com um orçamento rectificativo mais austeritário, depois de "recalibrado" e mal explicado (o cidadão médio saberá o que quer dizer "I.A.S"?)? Não. Pelo contrário, o primeiro-ministro só sabe recorrer à língua de pau do "regresso a mercado" como se as pessoas não existissem ou apenas degustassem dívida a título de pão com manteiga.

O tempo, esse estranho escultor


 


«Como explicou Maggie Jackson no seu magnífico livro Distracted: The Erosion of Attention and the Coming Dark Age, a aceleração provoca a erosão da nossa capacidade de atenção, seja de concentração em algo, seja em relação às mudanças que ocorrem à nossa volta, seja ainda de adaptação a essas alterações. É a aceleração que multiplica simultânea e contraditoriamente todos os tipos de apelos de urgência, estropiando o tempo de reflexão indispensável à decisão esclarecida e eficaz nos domínios económico, social ou político. A aceleração dilui a percepção do tempo, condenando-nos a viver numa espécie de presente perpétuo que toma a forma de uma "actualidade" (os telejornais são um bom exemplo) em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da compreensão do seu sentido. E em que a proliferação de pontos de vista tem como principal efeito o de privar o homem contemporâneo de qualquer perspectiva consistente sobre o que quer que seja. É por isso que a urgência e a inacção acabam por combinar tão bem! São elas que impõem em todas as vertentes da vida contemporânea o curto-termismo, que é o traço que melhor define a mutação radical que ocorreu na nossa relação com o tempo, obscurecendo qualquer horizonte onde se possam instalar verdadeiros projectos de vida, individuais ou colectivos, fragilizando todos os processos de deliberação fundamentada, bloqueando a atenção à complexidade das sociedades contemporâneas e impondo-lhes um registo de instantaneidade e de imediatismo de resultados decepcionantes.»


 


M.M. Carrilho