31.10.09

COMO UMA DOENÇA


«Um filósofo trata uma questão como uma doença.»

Wittgenstein, Investigações Filosóficas

COMO UMA DOENÇA


«Um filósofo trata uma questão como uma doença.»

Wittgenstein, Investigações Filosóficas

NO MEIO DE NÓS

«Basta imaginar a carreira típica de um corrupto. Começou por se inscrever num partido (no PS ou no PSD, evidentemente). Ou tinha influência, própria ou da família, ou conseguiu arranjar um "protector" (um empresário, um advogado, alguém com prestígio ou com dinheiro) para se promover a presidente da concelhia ou a qualquer cargo de importância. Daí passou para a administração central, para a Câmara do sítio ou, com muita sorte, para uma empresa pública. Com o tempo chegou a uma situação em que podia "pagar" os "favores" que até ali recebera e fazer novos "favores", em que já participava como sócio. Entretanto conhecia mais gente e alargava pouco a pouco os seus "negócios". Se punha o pé fora da legalidade, punha com cuidado, bem protegido por amigos de confiança e pretextos plausíveis. Um dia, por fidelidade ao chefe, "trabalho" no partido (financiamento directo ou indirecto) e recomendação de interesses "nacionais", foi chamado ao governo: a secretário de Estado, normalmente. No governo, proibiu ou permitiu conforme lhe convinha ou lhe mandavam e convenceu outro secretário de Estado ou mesmo um ministro mais "versado" ou "ingénuo" a colaborar na sua "obra". Torcendo uma regra aqui, explorando uma ambiguidade ali, a sua reputação cresceu. Não precisava agora de se mexer. Era, como se diz no calão da tribo, um "facilitador". A iniciativa privada gostava dele, o "sector público" gostava dele, o alto funcionalismo (a quem, de quando em quando, dava uma gorjeta) gostava dele. Ninguém lhe tocava. O corrupto ascendia à respeitabilidade. E anda, por aí, no meio de nós.»

Vasco Pulido Valente, Público

NO MEIO DE NÓS

«Basta imaginar a carreira típica de um corrupto. Começou por se inscrever num partido (no PS ou no PSD, evidentemente). Ou tinha influência, própria ou da família, ou conseguiu arranjar um "protector" (um empresário, um advogado, alguém com prestígio ou com dinheiro) para se promover a presidente da concelhia ou a qualquer cargo de importância. Daí passou para a administração central, para a Câmara do sítio ou, com muita sorte, para uma empresa pública. Com o tempo chegou a uma situação em que podia "pagar" os "favores" que até ali recebera e fazer novos "favores", em que já participava como sócio. Entretanto conhecia mais gente e alargava pouco a pouco os seus "negócios". Se punha o pé fora da legalidade, punha com cuidado, bem protegido por amigos de confiança e pretextos plausíveis. Um dia, por fidelidade ao chefe, "trabalho" no partido (financiamento directo ou indirecto) e recomendação de interesses "nacionais", foi chamado ao governo: a secretário de Estado, normalmente. No governo, proibiu ou permitiu conforme lhe convinha ou lhe mandavam e convenceu outro secretário de Estado ou mesmo um ministro mais "versado" ou "ingénuo" a colaborar na sua "obra". Torcendo uma regra aqui, explorando uma ambiguidade ali, a sua reputação cresceu. Não precisava agora de se mexer. Era, como se diz no calão da tribo, um "facilitador". A iniciativa privada gostava dele, o "sector público" gostava dele, o alto funcionalismo (a quem, de quando em quando, dava uma gorjeta) gostava dele. Ninguém lhe tocava. O corrupto ascendia à respeitabilidade. E anda, por aí, no meio de nós.»

Vasco Pulido Valente, Público

A ἐποχή OU O TORNOZELO DE RONALDO


A esta hora o país deve estar em «epoché» (ἐποχή) por causa de uma coisa em Braga. Depois haverá abundante derrame no qual até espíritos normalmente lúcidos participam. Aquiles tinha um calcanhar que o condenou. Ronaldo, em compensação, tem um tornozelo que o prestigia. E Braga (este género de Braga é, aliás, todos os dias) é o sonho de qualquer Sócrates, o nosso calcanhar de Aquiles.

A ἐποχή OU O TORNOZELO DE RONALDO


A esta hora o país deve estar em «epoché» (ἐποχή) por causa de uma coisa em Braga. Depois haverá abundante derrame no qual até espíritos normalmente lúcidos participam. Aquiles tinha um calcanhar que o condenou. Ronaldo, em compensação, tem um tornozelo que o prestigia. E Braga (este género de Braga é, aliás, todos os dias) é o sonho de qualquer Sócrates, o nosso calcanhar de Aquiles.

A ACOMPANHAR

Na justiça governamental, para além do vetusto Martins, está José Magalhães - um homem que costuma encontrar Pacheco Pereira no Chiado à procura de livros em dias de desfiles do PS - e um tal Correia que foi qualquer coisa na Ordem dos Advogados. Ou que gostava de ter sido, o que vai dar no mesmo. Resta saber de que "correia de transmissão" da referida Ordem Correia provém. E por que é que foi escolhido secretário de Estado. Ao contrário do que por aí circula, não deve ter tido nada a ver com Manuel Alegre, a estátua do comendador de Sócrates. O tagarela Marinho e Pinto ainda não disse nada. O comentador Rogério Alves também não. E Júdice, o mais assumido "socrático" deles todos, muito menos. A acompanhar.

A ACOMPANHAR

Na justiça governamental, para além do vetusto Martins, está José Magalhães - um homem que costuma encontrar Pacheco Pereira no Chiado à procura de livros em dias de desfiles do PS - e um tal Correia que foi qualquer coisa na Ordem dos Advogados. Ou que gostava de ter sido, o que vai dar no mesmo. Resta saber de que "correia de transmissão" da referida Ordem Correia provém. E por que é que foi escolhido secretário de Estado. Ao contrário do que por aí circula, não deve ter tido nada a ver com Manuel Alegre, a estátua do comendador de Sócrates. O tagarela Marinho e Pinto ainda não disse nada. O comentador Rogério Alves também não. E Júdice, o mais assumido "socrático" deles todos, muito menos. A acompanhar.

POBRE EQUATORIANO

Miguel Sousa Tavares e uma catrefada de "politólogos" e "comentadores" operaram, nas semanas que antecederam as legislativas, uma espécie de suspensão do juízo sempre num sentido favorável a Sócrates. Hoje, no Expresso, o mesmo Tavares atira-se ao eleitorado que votou no PS (e no qual ele se deve incluir) e ao governo do referido Sócrates. Segundo o equatoriano comentador, o referido Sócrates rendeu-se ao sistema com este governo minoritário, ficou refém de todos e de nada e, como se isto não bastasse, varreu os seus melhores ministros - os "reformistas" - para dar lugar a meia dúzia de políticos toscos e outros tantos funcionários. Tavares, é escusado dizer, presumia que o referido Sócrates, na versão absolutista, era um genuíno reformador e um admirável governante apesar das magras "reformas". E que, agora, nesta versão do inferno, tudo irá borregar como se não estivesse a borregar desde que o Afonso bateu na mãe. Pobre equatoriano.

POBRE EQUATORIANO

Miguel Sousa Tavares e uma catrefada de "politólogos" e "comentadores" operaram, nas semanas que antecederam as legislativas, uma espécie de suspensão do juízo sempre num sentido favorável a Sócrates. Hoje, no Expresso, o mesmo Tavares atira-se ao eleitorado que votou no PS (e no qual ele se deve incluir) e ao governo do referido Sócrates. Segundo o equatoriano comentador, o referido Sócrates rendeu-se ao sistema com este governo minoritário, ficou refém de todos e de nada e, como se isto não bastasse, varreu os seus melhores ministros - os "reformistas" - para dar lugar a meia dúzia de políticos toscos e outros tantos funcionários. Tavares, é escusado dizer, presumia que o referido Sócrates, na versão absolutista, era um genuíno reformador e um admirável governante apesar das magras "reformas". E que, agora, nesta versão do inferno, tudo irá borregar como se não estivesse a borregar desde que o Afonso bateu na mãe. Pobre equatoriano.

O REFERENCIAL

Aguiar-Branco, o tal do hífen, não se mete nesta coisa de sucessões porque se considera (não se riam) um "referencial de estabilidade" por presidir (vejam lá) ao grupo parlamentar. Não é só na sucata do sr. Godinho que há sucata. A porcaria de que falava Ernani Lopes, ontem, também é isto.

O REFERENCIAL

Aguiar-Branco, o tal do hífen, não se mete nesta coisa de sucessões porque se considera (não se riam) um "referencial de estabilidade" por presidir (vejam lá) ao grupo parlamentar. Não é só na sucata do sr. Godinho que há sucata. A porcaria de que falava Ernani Lopes, ontem, também é isto.

LIVROS, ESCRITORES OU APENAS AQUILO?


«Os autores oitocentistas e novecentistas não usavam verbos nos títulos dos romances. Stendhal, Balzac, Flaubert, Zola? Zero. Dickens, Hardy, Conrad? Zero. Goethe, Thomas Mann? Nada. Dostoievski, Tolstoi? Idem. Nenhum em Eça. Em Camilo, há dois ou três entre dezenas: Onde Está a Felicidade? e O Que Fazem Mulheres. Mas Camilo está sempre perdoado. Aquilino tropeçou três vezes: no lamentável título Andam Faunos pelos Bosques, coisa do início da carreira, lá mais para a frente no aceitável O Homem Que Matou o Diabo e na excelente excepção à regra, no final da carreira, Quando os Lobos Uivam. Agustina? Zero. José Cardoso Pires, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, José Saramago? Zero. E os amaldiçoados Ferreira de Castro, Gaspar Simões, Alves Redol e Fernando Namora? Zero. Sim, Dinis Machado escreveu O Que Diz Molero, mas quando a forma verbal se segue a uma conjunção subordinativa "que" ou "quando" o verbo aceita-se melhor. Miguel Sousa Tavares escreveu qualquer coisa com David Crockett que dá vontade de deixar morrer a personagem sem mesmo começar a leitura. A minha desconfiança em Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway, vem de longe, mesmo sabendo que o filme tem Gary Cooper e Ingrid Bergman. Ainda menos gosto, à excepção da cena inicial, do filme E Tudo o Vento Levou, um épico de plástico americano. A tradução portuguesa tem mais "verbo" que o original Gone with the Wind. Que títulos com verbos são próprios de certa literatura não é um preconceito meu. Um título com verbo promete xarope. Consultei na Wikipédia os 145 títulos da espanhola Corín Tellado editados em 1972 e 1973 (sim, em apenas dois anos). Desses, 105 têm um verbo no título (72%). Em Barbara Cartland a percentagem é menor, mas facilmente encontrei dezenas. Contudo, até agora nunca tinha visto um título com dois verbos, ainda por cima com ponto de interrogação. Ia morrendo ao ler o título do novo António Lobo Antunes: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? Eu não sei que cavalos, nem nunca saberei.»

Eduardo Cintra Torres, Público

LIVROS, ESCRITORES OU APENAS AQUILO?


«Os autores oitocentistas e novecentistas não usavam verbos nos títulos dos romances. Stendhal, Balzac, Flaubert, Zola? Zero. Dickens, Hardy, Conrad? Zero. Goethe, Thomas Mann? Nada. Dostoievski, Tolstoi? Idem. Nenhum em Eça. Em Camilo, há dois ou três entre dezenas: Onde Está a Felicidade? e O Que Fazem Mulheres. Mas Camilo está sempre perdoado. Aquilino tropeçou três vezes: no lamentável título Andam Faunos pelos Bosques, coisa do início da carreira, lá mais para a frente no aceitável O Homem Que Matou o Diabo e na excelente excepção à regra, no final da carreira, Quando os Lobos Uivam. Agustina? Zero. José Cardoso Pires, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, José Saramago? Zero. E os amaldiçoados Ferreira de Castro, Gaspar Simões, Alves Redol e Fernando Namora? Zero. Sim, Dinis Machado escreveu O Que Diz Molero, mas quando a forma verbal se segue a uma conjunção subordinativa "que" ou "quando" o verbo aceita-se melhor. Miguel Sousa Tavares escreveu qualquer coisa com David Crockett que dá vontade de deixar morrer a personagem sem mesmo começar a leitura. A minha desconfiança em Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway, vem de longe, mesmo sabendo que o filme tem Gary Cooper e Ingrid Bergman. Ainda menos gosto, à excepção da cena inicial, do filme E Tudo o Vento Levou, um épico de plástico americano. A tradução portuguesa tem mais "verbo" que o original Gone with the Wind. Que títulos com verbos são próprios de certa literatura não é um preconceito meu. Um título com verbo promete xarope. Consultei na Wikipédia os 145 títulos da espanhola Corín Tellado editados em 1972 e 1973 (sim, em apenas dois anos). Desses, 105 têm um verbo no título (72%). Em Barbara Cartland a percentagem é menor, mas facilmente encontrei dezenas. Contudo, até agora nunca tinha visto um título com dois verbos, ainda por cima com ponto de interrogação. Ia morrendo ao ler o título do novo António Lobo Antunes: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? Eu não sei que cavalos, nem nunca saberei.»

Eduardo Cintra Torres, Público

JOGO DE LINGUAGEM - 4

«Mas logo ali no inicio de um post qualquer aparece a frase "o último Mia Couto". Oh pá, que lufada de ar viril me encheu os pulmões! Qualquer frase que obedeça ao esquema geral "o último [autor dos PALOP às escolha]" vibra-me com o sistema de uma maneira bastante reconfortante do ponto de vista da satisfatória pressecussão da vida.»

a causa foi modificada

JOGO DE LINGUAGEM - 4

«Mas logo ali no inicio de um post qualquer aparece a frase "o último Mia Couto". Oh pá, que lufada de ar viril me encheu os pulmões! Qualquer frase que obedeça ao esquema geral "o último [autor dos PALOP às escolha]" vibra-me com o sistema de uma maneira bastante reconfortante do ponto de vista da satisfatória pressecussão da vida.»

a causa foi modificada

A EVOLUÇÃO DA BARBA

Há sempre, no Medeiros Ferreira, uma encantadora desmesura insular. Com a mesma tranquilidade com que defendeu a terceira candidatura presidencial de Soares, agora dispõe-se argumentar a favor da de Francisco Assis. É a vantagem de o conhecer, ao Medeiros, há trinta anos quando, justamente, eu ainda me preparava para ter barba.

A EVOLUÇÃO DA BARBA

Há sempre, no Medeiros Ferreira, uma encantadora desmesura insular. Com a mesma tranquilidade com que defendeu a terceira candidatura presidencial de Soares, agora dispõe-se argumentar a favor da de Francisco Assis. É a vantagem de o conhecer, ao Medeiros, há trinta anos quando, justamente, eu ainda me preparava para ter barba.

JOGO DE LINGUAGEM - 3

Diz o roto ao nu.

JOGO DE LINGUAGEM - 3

Diz o roto ao nu.

TOPO DE GAMA


Uma das coisas que revela a nossa periferia física e mental é, por exemplo, a obsessão por carros "topo de gama". Do tráfico de influências ao marido corno que não está para se maçar e que dota a esposa com um para pastar as amigas e as crianças, toda a gente quer um "topo de gama", um carro em forma de jipe ou um jipe em forma de carro. No mais recente "caso" apelidado de "face oculta" parece que uns "altos quadros" que, afinal, são trolhas básicos reclamaram logo uns "topo de gama" para propiciarem fretes. O "topo de gama" também explica por que não vamos nunca a lado algum.

TOPO DE GAMA


Uma das coisas que revela a nossa periferia física e mental é, por exemplo, a obsessão por carros "topo de gama". Do tráfico de influências ao marido corno que não está para se maçar e que dota a esposa com um para pastar as amigas e as crianças, toda a gente quer um "topo de gama", um carro em forma de jipe ou um jipe em forma de carro. No mais recente "caso" apelidado de "face oculta" parece que uns "altos quadros" que, afinal, são trolhas básicos reclamaram logo uns "topo de gama" para propiciarem fretes. O "topo de gama" também explica por que não vamos nunca a lado algum.

30.10.09

PAPOSECOS

Um jovem amigo que ainda não distingue um escritor de um paposeco, esteve numa fila de paposecos que apreciam a ideia de que há escritores para sacar uns autógrafos ao «maior escritor castelhano de expressão portuguesa» claramente descortinado pelo Bruno: «ignorante e ronceiro, interpreta agora o «Génesis» ao pé da letra, como se estivesse a ler um panfleto do Lidl ou do Pingo Doce.»

PAPOSECOS

Um jovem amigo que ainda não distingue um escritor de um paposeco, esteve numa fila de paposecos que apreciam a ideia de que há escritores para sacar uns autógrafos ao «maior escritor castelhano de expressão portuguesa» claramente descortinado pelo Bruno: «ignorante e ronceiro, interpreta agora o «Génesis» ao pé da letra, como se estivesse a ler um panfleto do Lidl ou do Pingo Doce.»

O MESMO

O pequeno Torquemada de Tomar, Relvas, verbera os seus companheiros de partido que desejam Marcelo. Diz que são sempre os mesmos. E ele e o seu candidato profissional são o quê?

O MESMO

O pequeno Torquemada de Tomar, Relvas, verbera os seus companheiros de partido que desejam Marcelo. Diz que são sempre os mesmos. E ele e o seu candidato profissional são o quê?

GRANDES VOZES



Donizetti, Elisir d'amore. Renata Scotto, Carlo Bergonzi. Met. 1967.

GRANDES VOZES



Donizetti, Elisir d'amore. Renata Scotto, Carlo Bergonzi. Met. 1967.

SUCATA

Isto é tudo tão mau, tão incessantemente mau, que até o regime se confunde com sucata e sucata com o regime.

SUCATA

Isto é tudo tão mau, tão incessantemente mau, que até o regime se confunde com sucata e sucata com o regime.

ERRO E DADO

um equívoco - porventura generoso e generalizado - no sentido de afirmar que os partidos devem debater ideias. Se, por exemplo, o PSD tem três ou quatro candidatos à liderança, presume-se que isso "enriquece" porque proporciona o tal debate de ideias. Erro. Nenhum partido teve tempo ou propósito de debater ideias. Nunca. Tudo lhes aconteceu muito cedo e, como na frase da Duras, muito cedo na vida deles era tarde de mais. O facto de o PSD ter um "profissional em candidaturas" como P. Coelho a espalhar brasas - a única "ideia" dele (e aqui estou a torcer o conceito) esgota-se nessa palonça ambição de presidir - quer dizer isso mesmo. De Sá Carneiro a Ferreira Leite, a nenhum líder se pediu jamais uma ideia, aliás, como no PS. Soares foi tudo e o seu oposto, encostado a essa tábua rasa que é o "socialismo democrático" ou a social-democracia. Só lhe saiu a sorte grande (o PREC) e a terminação (a Europa). Pediu-se-lhes, a todos, sempre e só poder. Haver Sócrates - que começou na televisão, esse lugar privilegiado da derrota do pensamento - é o único dado. E a possibilidade de haver Marcelo, também.

ERRO E DADO

um equívoco - porventura generoso e generalizado - no sentido de afirmar que os partidos devem debater ideias. Se, por exemplo, o PSD tem três ou quatro candidatos à liderança, presume-se que isso "enriquece" porque proporciona o tal debate de ideias. Erro. Nenhum partido teve tempo ou propósito de debater ideias. Nunca. Tudo lhes aconteceu muito cedo e, como na frase da Duras, muito cedo na vida deles era tarde de mais. O facto de o PSD ter um "profissional em candidaturas" como P. Coelho a espalhar brasas - a única "ideia" dele (e aqui estou a torcer o conceito) esgota-se nessa palonça ambição de presidir - quer dizer isso mesmo. De Sá Carneiro a Ferreira Leite, a nenhum líder se pediu jamais uma ideia, aliás, como no PS. Soares foi tudo e o seu oposto, encostado a essa tábua rasa que é o "socialismo democrático" ou a social-democracia. Só lhe saiu a sorte grande (o PREC) e a terminação (a Europa). Pediu-se-lhes, a todos, sempre e só poder. Haver Sócrates - que começou na televisão, esse lugar privilegiado da derrota do pensamento - é o único dado. E a possibilidade de haver Marcelo, também.

DA PROVA


«Não seria muito mais importante sabermos o que pensam os novos ministros, quando é suposto pensarem?», pergunta um imenso perguntador com intermitências de optimismo. Não é. A prova que não é está neles mesmos ali onde estão ministros. Podia, como num jogo de cadeiras, trocar todos de lugar e o efeito era o mesmo. O mundo não muda um atómo por causa deles, logo é irrelevante saber, naqueles que a têm, o que lhes vai na cabeça.

DA PROVA


«Não seria muito mais importante sabermos o que pensam os novos ministros, quando é suposto pensarem?», pergunta um imenso perguntador com intermitências de optimismo. Não é. A prova que não é está neles mesmos ali onde estão ministros. Podia, como num jogo de cadeiras, trocar todos de lugar e o efeito era o mesmo. O mundo não muda um atómo por causa deles, logo é irrelevante saber, naqueles que a têm, o que lhes vai na cabeça.

JOGO DE LINGUAGEM - 2


«A visita ao Senhor Palomar produziu o meu contacto com uma capa do Ípsilon, em que se informa que o Valter Hugo Mãe (ao que tudo indica, um escritor) é, e passo a citar - como sabem eu nunca invento nada -, "um homem que está a morrer da escrita". Desde o "morreste-me" do José Luis Peixoto que não vomitava tanto. Mais: prometo não ler a entrevista por forma a fundamentar o meu volvo. Era só o que faltava.»

a causa foi modificada

JOGO DE LINGUAGEM - 2


«A visita ao Senhor Palomar produziu o meu contacto com uma capa do Ípsilon, em que se informa que o Valter Hugo Mãe (ao que tudo indica, um escritor) é, e passo a citar - como sabem eu nunca invento nada -, "um homem que está a morrer da escrita". Desde o "morreste-me" do José Luis Peixoto que não vomitava tanto. Mais: prometo não ler a entrevista por forma a fundamentar o meu volvo. Era só o que faltava.»

a causa foi modificada

JOGO DE LINGUAGEM

Isto chegou a um ponto tal que dois comentadores televisivos (percebo isso no jornal da meia-noite do canal onde eles comentam) - um preside à maior câmara do país e o outro é deputado - discutiram a vacinação ou não vacinação dos órgãos de soberania. Podiam ter dado logo ali o exemplo, vacinando-se um ao outro. É isso, aliás, que fazem todas as semanas como mero jogo de linguagem.

JOGO DE LINGUAGEM

Isto chegou a um ponto tal que dois comentadores televisivos (percebo isso no jornal da meia-noite do canal onde eles comentam) - um preside à maior câmara do país e o outro é deputado - discutiram a vacinação ou não vacinação dos órgãos de soberania. Podiam ter dado logo ali o exemplo, vacinando-se um ao outro. É isso, aliás, que fazem todas as semanas como mero jogo de linguagem.

A QUEM DIGO

«Pode dizer-se em certas circunstâncias: "Enquanto falava, tive a sensação de que o dizia a ti." Mas eu não diria isto, se estivesse a falar contigo.»

Wittgenstein, Investigações Filosóficas

A QUEM DIGO

«Pode dizer-se em certas circunstâncias: "Enquanto falava, tive a sensação de que o dizia a ti." Mas eu não diria isto, se estivesse a falar contigo.»

Wittgenstein, Investigações Filosóficas

29.10.09

UM POLÍTICO DECENTE


A política portuguesa tem pouca gente decente. Paulo Rangel - que deu ao PSD uma vitória eleitoral e que o tentou prestigiar enquanto líder parlamentar - é uma delas. Honrou o compromisso com o eleitorado que votou nele nas europeias contrariamente ao que sucedeu com uns quantos sacripantas que trocaram, sem hesitar, lugares eleitos por lugares escolhidos pelo chefe para eles. Descreveu na perfeição essa criatura que faz da sua obsessão com a presidência do PSD uma espécie de contrato por tempo indeterminado com gente indeterminada apesar do saco de aspirador que possui no lugar da cabeça. E reservou-se - isto digo eu que desejo essa reserva - para um tempo mais dele e dele com o país. Gosto de poucas pessoas. Gosto do Rangel.

UM POLÍTICO DECENTE


A política portuguesa tem pouca gente decente. Paulo Rangel - que deu ao PSD uma vitória eleitoral e que o tentou prestigiar enquanto líder parlamentar - é uma delas. Honrou o compromisso com o eleitorado que votou nele nas europeias contrariamente ao que sucedeu com uns quantos sacripantas que trocaram, sem hesitar, lugares eleitos por lugares escolhidos pelo chefe para eles. Descreveu na perfeição essa criatura que faz da sua obsessão com a presidência do PSD uma espécie de contrato por tempo indeterminado com gente indeterminada apesar do saco de aspirador que possui no lugar da cabeça. E reservou-se - isto digo eu que desejo essa reserva - para um tempo mais dele e dele com o país. Gosto de poucas pessoas. Gosto do Rangel.

UMA BIOGRAFIA POLÍTICA


A biografia política da foto deveria ser rapidamente traduzida para português. As sensatas declarações do seu autor - e a reacção paternalista dos nossos historiadores de serviço ao século XX e XXI, os enfatuados Rosas e Costa Pinto, que ainda nem sequer leram o livro ("com mérito e que merece todo o respeito") - acerca do seu trabalho e do objecto dele só o recomendam. «Se Salazar se transformou em presidente do Conselho foi acima de tudo porque desempenhou a missão com que foi incumbido, impondo-se aos seus rivais pela competência técnica.» Realmente incompreensível face ao critérios de "imposição" em vigor de que temos tido nos últimos dias, aliás, fartos exemplos. E, depois, há a prudência e o bom senso de Filipe Meneses, uma coisa que os nossos venerandos académicos da história contemporânea dificilmente entenderão. «É difícil um homem com 40 anos resumir, analisar e dar sentenças sobre a vida de um homem que se manteve política e intelectualmente activo até aos 79.» Chapeau.

UMA BIOGRAFIA POLÍTICA


A biografia política da foto deveria ser rapidamente traduzida para português. As sensatas declarações do seu autor - e a reacção paternalista dos nossos historiadores de serviço ao século XX e XXI, os enfatuados Rosas e Costa Pinto, que ainda nem sequer leram o livro ("com mérito e que merece todo o respeito") - acerca do seu trabalho e do objecto dele só o recomendam. «Se Salazar se transformou em presidente do Conselho foi acima de tudo porque desempenhou a missão com que foi incumbido, impondo-se aos seus rivais pela competência técnica.» Realmente incompreensível face ao critérios de "imposição" em vigor de que temos tido nos últimos dias, aliás, fartos exemplos. E, depois, há a prudência e o bom senso de Filipe Meneses, uma coisa que os nossos venerandos académicos da história contemporânea dificilmente entenderão. «É difícil um homem com 40 anos resumir, analisar e dar sentenças sobre a vida de um homem que se manteve política e intelectualmente activo até aos 79.» Chapeau.

WAGNER COMPACTO


WAGNER COMPACTO


O QUE HÁ OU O CURSO INCESSANTE DO PIOR*


Tal como Passos Coelho resume uma certa direita, esta frase resume uma certa presunção de esquerda, no fundo, coisas (Coelho e o que a frase denota) que nem sequer constituem narrativas: «as pêras marinadas em Remy Martin e pistachio estavam deliciosas.»


*Uma ideia deste cavalheiro.

O QUE HÁ OU O CURSO INCESSANTE DO PIOR*


Tal como Passos Coelho resume uma certa direita, esta frase resume uma certa presunção de esquerda, no fundo, coisas (Coelho e o que a frase denota) que nem sequer constituem narrativas: «as pêras marinadas em Remy Martin e pistachio estavam deliciosas.»


*Uma ideia deste cavalheiro.

CARA OU COROA

Corria o ano de 2001. O homem era deputado da mesma seita que governava então e que governa agora como se nunca tivesse deixado de governar. Tinha saído do comité Guterres empurrado por Sampaio a quem nunca perdoou. Estávamos numa sala da zona nova do parlamento e o assunto era a "fundação para a prevenção e segurança". Havia um inquérito sobre a utilização de uma quinta em Loures. Seria para o SEF? Seria para a dita "fundação"? Eu perguntava e Vara - era de Armando Vara que se tratava - respondia. Às tantas irritou-se e perguntou-me se não andava a perder tempo. Melhor faria, disse ele, ir investigar a aquisição do prédio onde acabou por se instalar a Inspecção-Geral da Administração Interna e o então GEPI (que tratava das instalações e equipamentos do MAI então dirigido por António Morais, um já então famoso professor de um estabelecimento dito de ensino superior entretanto encerrado). Vara já tinha sido politicamente responsabilizado pela criação da "fundação"- escrevi isso num relatório que o Expresso haveria de chamar à primeira página com um título que nada tinha a ver com conteúdo daquele ("inquérito responsabiliza Vara" quando, na verdade, as declarações posteriores de Morais é que "responsabilizaram" Vara num curioso exercício de "passa ao outro e não ao mesmo") - e, à minha proposta de um processo disciplinar ao então director do GEPI, Morais, os costumes disseram "arquive-se". Mas Vara lá seguiu o seu caminho. Do balcão da CGD de Vinhais a administrador da dita e do BCP. Independentemente do que penso de Vara, se me perguntassem se é verosímil um tipo destes "sujar-se" por dez mil euros, diria que não.

CARA OU COROA

Corria o ano de 2001. O homem era deputado da mesma seita que governava então e que governa agora como se nunca tivesse deixado de governar. Tinha saído do comité Guterres empurrado por Sampaio a quem nunca perdoou. Estávamos numa sala da zona nova do parlamento e o assunto era a "fundação para a prevenção e segurança". Havia um inquérito sobre a utilização de uma quinta em Loures. Seria para o SEF? Seria para a dita "fundação"? Eu perguntava e Vara - era de Armando Vara que se tratava - respondia. Às tantas irritou-se e perguntou-me se não andava a perder tempo. Melhor faria, disse ele, ir investigar a aquisição do prédio onde acabou por se instalar a Inspecção-Geral da Administração Interna e o então GEPI (que tratava das instalações e equipamentos do MAI então dirigido por António Morais, um já então famoso professor de um estabelecimento dito de ensino superior entretanto encerrado). Vara já tinha sido politicamente responsabilizado pela criação da "fundação"- escrevi isso num relatório que o Expresso haveria de chamar à primeira página com um título que nada tinha a ver com conteúdo daquele ("inquérito responsabiliza Vara" quando, na verdade, as declarações posteriores de Morais é que "responsabilizaram" Vara num curioso exercício de "passa ao outro e não ao mesmo") - e, à minha proposta de um processo disciplinar ao então director do GEPI, Morais, os costumes disseram "arquive-se". Mas Vara lá seguiu o seu caminho. Do balcão da CGD de Vinhais a administrador da dita e do BCP. Independentemente do que penso de Vara, se me perguntassem se é verosímil um tipo destes "sujar-se" por dez mil euros, diria que não.

28.10.09

O PADRÃO ESPECIAL


«A simulação é, claro, um caso especial de uma pessoa produzir (por exemplo) uma expressão de dor sem ter a dor. Se isto é de todo possível, por que é que tem de haver então simulação - este padrão tão especial no fio da nossa vida?»

Wittgenstein, Investigações Filosóficas

O PADRÃO ESPECIAL


«A simulação é, claro, um caso especial de uma pessoa produzir (por exemplo) uma expressão de dor sem ter a dor. Se isto é de todo possível, por que é que tem de haver então simulação - este padrão tão especial no fio da nossa vida?»

Wittgenstein, Investigações Filosóficas

NUNCA VAI

Ao comentar uma "acção de grande envergadura" sobre alegados actos de corrupção perpetrados junto da REN, o senhor conselheiro Pinto Monteiro, PGR, disse umas quantas trivialidades e rematou: "não posso ir mais além disto". Nunca vai.

NUNCA VAI

Ao comentar uma "acção de grande envergadura" sobre alegados actos de corrupção perpetrados junto da REN, o senhor conselheiro Pinto Monteiro, PGR, disse umas quantas trivialidades e rematou: "não posso ir mais além disto". Nunca vai.

QUESTÕES DE RESPEITO


O respeito pelos eleitores também se mede por coisas destas. Marcos Perestrello, o aparelhista chique do partido do governo, era há um ano vice-presidente da C.M.L, o primeiro depois de Costa. Há pouco mais de quinze dias protagonizou a candidatura do dito partido à câmara de Oeiras e foi eleito vereador. Agora é secretário de Estado da tropa ao lado do ministro S. Silva. A D. Dalila Araújo (quem?) era há um ano a governadora civil de Lisboa. Largou para ser candidata a vereadora de Costa e, como tal, foi eleita também há menos de quinze dias. É secretária de Estado de qualquer coisa. O sr. Vasco Franco, quase eterno vereador da habitação da C.M.L nos tempos de Sampaio e do Joãozinho, foi retirado ao jazigo de família para ser secretário de Estado de outra coisa qualquer. Regresso, pois, à frase inicial. Se calhar os eleitores - aqueles que votaram nisto - não merecem mais respeito do que este. Isto é, nenhum.

Adenda: Agora que o governo está completo, pode dizer-se que a Maçonaria está de parabéns. «Huzza, huzza, huzza.» (R.E.A.A)

QUESTÕES DE RESPEITO


O respeito pelos eleitores também se mede por coisas destas. Marcos Perestrello, o aparelhista chique do partido do governo, era há um ano vice-presidente da C.M.L, o primeiro depois de Costa. Há pouco mais de quinze dias protagonizou a candidatura do dito partido à câmara de Oeiras e foi eleito vereador. Agora é secretário de Estado da tropa ao lado do ministro S. Silva. A D. Dalila Araújo (quem?) era há um ano a governadora civil de Lisboa. Largou para ser candidata a vereadora de Costa e, como tal, foi eleita também há menos de quinze dias. É secretária de Estado de qualquer coisa. O sr. Vasco Franco, quase eterno vereador da habitação da C.M.L nos tempos de Sampaio e do Joãozinho, foi retirado ao jazigo de família para ser secretário de Estado de outra coisa qualquer. Regresso, pois, à frase inicial. Se calhar os eleitores - aqueles que votaram nisto - não merecem mais respeito do que este. Isto é, nenhum.

Adenda: Agora que o governo está completo, pode dizer-se que a Maçonaria está de parabéns. «Huzza, huzza, huzza.» (R.E.A.A)

O RESUMO


O prestigiado candidato profissional à liderança do PSD, Passos Coelho, já tem direito a entrevista no programa de negócios da Sic-Notícias. Et pour cause. Coelho é muito popular em certa blogosfera (e em cabeças "esclarecidas" em negócios como, por exemplo, a de Ângelo Correia), aquela que é uma espécie de longa manus dos jornais onde os seus autores debitam. Faz todo o sentido. Esses jornais debitam o que os seus donos (e os donos deles nem sempre são os que figuram na ficha técnica) querem que eles debitem. Os blogues resumem a coisa. E Passos Coelho, um testa-de-ferro, resume-os a todos.

O RESUMO


O prestigiado candidato profissional à liderança do PSD, Passos Coelho, já tem direito a entrevista no programa de negócios da Sic-Notícias. Et pour cause. Coelho é muito popular em certa blogosfera (e em cabeças "esclarecidas" em negócios como, por exemplo, a de Ângelo Correia), aquela que é uma espécie de longa manus dos jornais onde os seus autores debitam. Faz todo o sentido. Esses jornais debitam o que os seus donos (e os donos deles nem sempre são os que figuram na ficha técnica) querem que eles debitem. Os blogues resumem a coisa. E Passos Coelho, um testa-de-ferro, resume-os a todos.

UMA AVENTURA


Duas escritoras de livros infantis, Isabel Alçada e Ana Magalhães, são convidadas da D. Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, para falar dos "livros que andam a ler" no próximo dia 3 de Novembro. Alçada é o nom de plume da actual ministra da educação que, juntamente com a outra senhora, escreveu várias "aventuras" vendidas aos milhares na praça. Calhou bem (já sei que a sessão foi marcada antes de não-sei-quê, etc.). Alçada substituiu uma socióloga guerrilheira que, por fim, acabou abandonada às suas crenças. Alçada, no jargão da inefável Fenprof e da sub-Fenprof (a FNE), tem de rever (isto é, acabar com) a avaliação dos professores tal como ela foi concebida pelo governo anterior por sinal o mesmo. Alçada, mais do que da educação e dos meninos, releva dessa coisa esquisita e tola que é o "plano nacional de leitura". Alçada é afável e notoriamente simpática. A história que se vai contar dela passará muito mais por isso do que por uma "agenda". Até porque a melhor "agenda" para a educação agora é não haver "agenda" alguma ou encará-la simplesmente como mais uma aventura. Promete maravilhas.

UMA AVENTURA


Duas escritoras de livros infantis, Isabel Alçada e Ana Magalhães, são convidadas da D. Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, para falar dos "livros que andam a ler" no próximo dia 3 de Novembro. Alçada é o nom de plume da actual ministra da educação que, juntamente com a outra senhora, escreveu várias "aventuras" vendidas aos milhares na praça. Calhou bem (já sei que a sessão foi marcada antes de não-sei-quê, etc.). Alçada substituiu uma socióloga guerrilheira que, por fim, acabou abandonada às suas crenças. Alçada, no jargão da inefável Fenprof e da sub-Fenprof (a FNE), tem de rever (isto é, acabar com) a avaliação dos professores tal como ela foi concebida pelo governo anterior por sinal o mesmo. Alçada, mais do que da educação e dos meninos, releva dessa coisa esquisita e tola que é o "plano nacional de leitura". Alçada é afável e notoriamente simpática. A história que se vai contar dela passará muito mais por isso do que por uma "agenda". Até porque a melhor "agenda" para a educação agora é não haver "agenda" alguma ou encará-la simplesmente como mais uma aventura. Promete maravilhas.

27.10.09

OS INCUMBENTES

«Não podem mascarar a balbúrdia que aí vem.»

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A CULTURA COMO CORRELAÇÃO INTER-RELACIONAL DE ALAVANCAS, DE SENTIDOS LATOS E INTRÍNSECOS


Já percebi que está a ser formado na net uma espécie de rancho folclórico - de anónimos, claro - de apoio a Gabriela Canavilhas, a nova ministra da cultura. Não os quero desiludir. Um amigo enviou-me umas "reflexões sobre conceitos culturais" que a senhora divulgou nos Açores. Confesso que não consegui ler tudo. A prosa, aceitável para o actual ensino secundário, não "reflecte" sobre a cultura. Denota apenas o que vai na cabeça da autora acerca do tema. Nada que a recomende para um cargo que, antes de mais, é político. Aliás, o último que percebeu isto foi Carrilho. E o que é que vai na cabeça de Canavilhas acerca do termo "cultura" (as "reflexões" mais preciosas seguem a negro)? Por exemplo, «no sentido intrínseco, cultura são as manifestações civilizacionais que constroem o acervo estrutural do pensamento, que se reflectem na consolidação de uma sociedade esclarecida e que são a alavanca para o desenvolvimento da sensibilidade, do saber e do conhecimento, condições estas indispensáveis para o avanço das mentalidades e, por consequência, para o avanço para uma sociedade melhor sendo a cultura a preservação e a criação de valores.» Aliás, «a conotação cultura/saber remonta a desde que o homem assumiu a sua dimensão intelectual e reconheceu no conhecimento a alavanca do desenvolvimento civilizacional» porque, «quanto à associação cultura/sociedade, esta é produto das modernas antropologia e sociologia, nascidas em finais do século XIX e que sedimentam a abrangência da concepção de cultura ao espectro sociológico.» Extraordinárias alavancas. Para Canavilhas, «em qualquer delas porém, é inequívoca a sua transversalidade, a sua correlação inter-relacional e o sentido universal do conceito - aquele que define o homem na sua forma de estar no mundo e em tudo o que transporta com ele, de geração em geração.» A nossa ministra também possui, por assim dizer, uma "visão historicista" da coisa. Senão vejamos. «A natureza do objecto de arte e de culto é a sua permanência e durabilidade – a sua imortalidade advém da sua revisitação permanente ao longo dos tempos e do reconhecimento que lhes é dado da sua função de alicerces para novas criações. Afinal, em última análise, são os próprios destinatários que se encarregam de o determinar. nos tempos de hoje, a “alta cultura” (assim chamada por ter tido origem nas classes então dominantes – o clero, a nobreza, a aristocracia, os intelectuais), por oposição à denominada “baixa cultura”, oriunda do povo com transmissão oral, são ambas património cultural intrínseco reconhecível e indissociável, e sabemos bem quanto ambas devem uma à outra, porque se alimentaram reciprocamente através dos séculos.» É aqui que, segundo a ministra, entram as "interrogações". Ora reparem. «Quando tudo está incluído na mesma categoria como cultura – dos clássicos intemporais (eruditos ou tradicionais) ao rock e pop-rock mediáticos e ao cançonetismo popular, passando pelas orquestras ligeiras e cantores em play-back, do folclore para turistas às recriações históricas de rua, das expressões genuínas das nossas tradições aos desfiles etnográfico-turístico-religiosos de entretenimento colectivo, dos festivais de verão dedicados à juventude e das práticas recreativas amadoras às iniciativas profissionais institucionais - sempre com a comunicação social generalista a incluir tudo no mesmo pacote nos seus espaços culturais - , como fazer distinguir junto dos cidadãos o que é relevante para a percepção de uma estratégia de desenvolvimento cultural? E mais importante ainda, como fazer passar a mensagem aos destinatários de que nem tudo são “bens meritórios”, logo, subvencionáveis pelo erário público? E o derradeiro desafio: neste quadro, como explicar aos agentes culturais no sentido lato estas diferenças?» E como explicar à ministra da cultura o que é a cultura?

A CULTURA COMO CORRELAÇÃO INTER-RELACIONAL DE ALAVANCAS, DE SENTIDOS LATOS E INTRÍNSECOS


Já percebi que está a ser formado na net uma espécie de rancho folclórico - de anónimos, claro - de apoio a Gabriela Canavilhas, a nova ministra da cultura. Não os quero desiludir. Um amigo enviou-me umas "reflexões sobre conceitos culturais" que a senhora divulgou nos Açores. Confesso que não consegui ler tudo. A prosa, aceitável para o actual ensino secundário, não "reflecte" sobre a cultura. Denota apenas o que vai na cabeça da autora acerca do tema. Nada que a recomende para um cargo que, antes de mais, é político. Aliás, o último que percebeu isto foi Carrilho. E o que é que vai na cabeça de Canavilhas acerca do termo "cultura" (as "reflexões" mais preciosas seguem a negro)? Por exemplo, «no sentido intrínseco, cultura são as manifestações civilizacionais que constroem o acervo estrutural do pensamento, que se reflectem na consolidação de uma sociedade esclarecida e que são a alavanca para o desenvolvimento da sensibilidade, do saber e do conhecimento, condições estas indispensáveis para o avanço das mentalidades e, por consequência, para o avanço para uma sociedade melhor sendo a cultura a preservação e a criação de valores.» Aliás, «a conotação cultura/saber remonta a desde que o homem assumiu a sua dimensão intelectual e reconheceu no conhecimento a alavanca do desenvolvimento civilizacional» porque, «quanto à associação cultura/sociedade, esta é produto das modernas antropologia e sociologia, nascidas em finais do século XIX e que sedimentam a abrangência da concepção de cultura ao espectro sociológico.» Extraordinárias alavancas. Para Canavilhas, «em qualquer delas porém, é inequívoca a sua transversalidade, a sua correlação inter-relacional e o sentido universal do conceito - aquele que define o homem na sua forma de estar no mundo e em tudo o que transporta com ele, de geração em geração.» A nossa ministra também possui, por assim dizer, uma "visão historicista" da coisa. Senão vejamos. «A natureza do objecto de arte e de culto é a sua permanência e durabilidade – a sua imortalidade advém da sua revisitação permanente ao longo dos tempos e do reconhecimento que lhes é dado da sua função de alicerces para novas criações. Afinal, em última análise, são os próprios destinatários que se encarregam de o determinar. nos tempos de hoje, a “alta cultura” (assim chamada por ter tido origem nas classes então dominantes – o clero, a nobreza, a aristocracia, os intelectuais), por oposição à denominada “baixa cultura”, oriunda do povo com transmissão oral, são ambas património cultural intrínseco reconhecível e indissociável, e sabemos bem quanto ambas devem uma à outra, porque se alimentaram reciprocamente através dos séculos.» É aqui que, segundo a ministra, entram as "interrogações". Ora reparem. «Quando tudo está incluído na mesma categoria como cultura – dos clássicos intemporais (eruditos ou tradicionais) ao rock e pop-rock mediáticos e ao cançonetismo popular, passando pelas orquestras ligeiras e cantores em play-back, do folclore para turistas às recriações históricas de rua, das expressões genuínas das nossas tradições aos desfiles etnográfico-turístico-religiosos de entretenimento colectivo, dos festivais de verão dedicados à juventude e das práticas recreativas amadoras às iniciativas profissionais institucionais - sempre com a comunicação social generalista a incluir tudo no mesmo pacote nos seus espaços culturais - , como fazer distinguir junto dos cidadãos o que é relevante para a percepção de uma estratégia de desenvolvimento cultural? E mais importante ainda, como fazer passar a mensagem aos destinatários de que nem tudo são “bens meritórios”, logo, subvencionáveis pelo erário público? E o derradeiro desafio: neste quadro, como explicar aos agentes culturais no sentido lato estas diferenças?» E como explicar à ministra da cultura o que é a cultura?

QUESTÕES DE INTERPRETAÇÃO


«Il presupposto fondamentale sul quale riposa la comprensione teologica della Bibbia è l’unità della Scrittura, ed a tale presupposto corrisponde come cammino metodologico l’analogia della fede, cioè la comprensione dei singoli testi a partire dall’insieme. Il testo conciliare aggiunge un’ulteriore indicazione metodologica. Essendo la Scrittura una cosa sola a partire dall’unico popolo di Dio, che ne è stato il portatore attraverso la storia, conseguentemente leggere la Scrittura come un’unità significa leggerla a partire dal Popolo di Dio, dalla Chiesa come dal suo luogo vitale e ritenere la fede della Chiesa come la vera chiave d’interpretazione. Se l’esegesi vuole essere anche teologia, deve riconoscere che la fede della Chiesa è quella forma di “sim-patia” senza la quale la Bibbia resta un libro sigillato: la Tradizione non chiude l’accesso alla Scrittura, ma piuttosto lo apre; d’altro canto, spetta alla Chiesa, nei suoi organismi istituzionali, la parola decisiva nell’interpretazione della Scrittura. È alla Chiesa, infatti, che è affidato l’ufficio di interpretare autenticamente la parola di Dio scritta e trasmessa, esercitando la sua autorità nel nome di Gesù Cristo.»

Papa Bento XVI, Roma, 26 de Outubro de 2009

QUESTÕES DE INTERPRETAÇÃO


«Il presupposto fondamentale sul quale riposa la comprensione teologica della Bibbia è l’unità della Scrittura, ed a tale presupposto corrisponde come cammino metodologico l’analogia della fede, cioè la comprensione dei singoli testi a partire dall’insieme. Il testo conciliare aggiunge un’ulteriore indicazione metodologica. Essendo la Scrittura una cosa sola a partire dall’unico popolo di Dio, che ne è stato il portatore attraverso la storia, conseguentemente leggere la Scrittura come un’unità significa leggerla a partire dal Popolo di Dio, dalla Chiesa come dal suo luogo vitale e ritenere la fede della Chiesa come la vera chiave d’interpretazione. Se l’esegesi vuole essere anche teologia, deve riconoscere che la fede della Chiesa è quella forma di “sim-patia” senza la quale la Bibbia resta un libro sigillato: la Tradizione non chiude l’accesso alla Scrittura, ma piuttosto lo apre; d’altro canto, spetta alla Chiesa, nei suoi organismi istituzionali, la parola decisiva nell’interpretazione della Scrittura. È alla Chiesa, infatti, che è affidato l’ufficio di interpretare autenticamente la parola di Dio scritta e trasmessa, esercitando la sua autorità nel nome di Gesù Cristo.»

Papa Bento XVI, Roma, 26 de Outubro de 2009

SOLENIDADES


«No meio de tanta competência e de tanta gente séria e cheia de solenidades, acontece que o sítio já tem mais de 510 mil desempregados, um valor que nunca tinha sido atingido desde o 25 de Abril. Uma façanha que não enche de vergonha nenhum dos senhores e das senhoras que hoje vão começar a fingir que governam o sítio. É maçador estragar tanta festa e tanta excitação de tanta gente de bem com tanta desgraça. O que faz falta é mesmo distrair a malta. E para isso tudo serve. Estúpidos, saramagos e outros que tais.»

António Ribeiro Ferreira, CM

SOLENIDADES


«No meio de tanta competência e de tanta gente séria e cheia de solenidades, acontece que o sítio já tem mais de 510 mil desempregados, um valor que nunca tinha sido atingido desde o 25 de Abril. Uma façanha que não enche de vergonha nenhum dos senhores e das senhoras que hoje vão começar a fingir que governam o sítio. É maçador estragar tanta festa e tanta excitação de tanta gente de bem com tanta desgraça. O que faz falta é mesmo distrair a malta. E para isso tudo serve. Estúpidos, saramagos e outros que tais.»

António Ribeiro Ferreira, CM

26.10.09

A PERDA


Para não ser só política, estas almas vão "debater" o amor e a paixão vistos pelo lado masculino. Gabo-lhes a paciência. Ambos - o amor e a paixão - têm sido os responsáveis pelos maiores e mais sublimes desastres pessoais. Por muita literatura, por não menos literatice e por milhares de livros não lidos. Por muito crime e por muito castigo. Não se pode viver sem amar ou sem uma paixão? Já tive mais certezas sobretudo porque se perde muito tempo, muita paciência, muito amor e muita paixão nisso. E pessoas. Sobretudo pessoas.

A PERDA


Para não ser só política, estas almas vão "debater" o amor e a paixão vistos pelo lado masculino. Gabo-lhes a paciência. Ambos - o amor e a paixão - têm sido os responsáveis pelos maiores e mais sublimes desastres pessoais. Por muita literatura, por não menos literatice e por milhares de livros não lidos. Por muito crime e por muito castigo. Não se pode viver sem amar ou sem uma paixão? Já tive mais certezas sobretudo porque se perde muito tempo, muita paciência, muito amor e muita paixão nisso. E pessoas. Sobretudo pessoas.

A MINISTRA DO MEIO


De acordo com o poeta-politólogo da tendência oficial, Eduardo Pitta. Se a senhora nova directora chegou ao lugar do Lapa como o Lapa chegou lá no longínquo ano de 1998, para quê os derrames habituais dos habituais como isto fosse tudo na base de donos? A D. Canavilhas - cuja vaidade anda a ser evidenciada à náusea por tudo quanto é sítio - só tem uma de duas hipóteses. Ou lança chamas ou lança charme. Com um rosto daqueles, dá-me ideia que já optou até porque continuará a não haver dinheiro.

A MINISTRA DO MEIO


De acordo com o poeta-politólogo da tendência oficial, Eduardo Pitta. Se a senhora nova directora chegou ao lugar do Lapa como o Lapa chegou lá no longínquo ano de 1998, para quê os derrames habituais dos habituais como isto fosse tudo na base de donos? A D. Canavilhas - cuja vaidade anda a ser evidenciada à náusea por tudo quanto é sítio - só tem uma de duas hipóteses. Ou lança chamas ou lança charme. Com um rosto daqueles, dá-me ideia que já optou até porque continuará a não haver dinheiro.

DO FINGIMENTO

Que me recorde, apenas o discurso de Eanes na posse do primeiro Cavaco minoritário - com Soares de saída - serviu para bater no ceguinho, na circunstância, Soares. Depois disso só aquela originalidade protagonizada por Sampaio na posse de Lopes - tipo governo sujeito à especial vigilância da então Sua Excelência - mereceu nota. De resto, as posses servem para juramentos retóricos de fidelidades mútuas. Eu finjo que garanto a estabilidade e tu finges que governas. Está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira.

DO FINGIMENTO

Que me recorde, apenas o discurso de Eanes na posse do primeiro Cavaco minoritário - com Soares de saída - serviu para bater no ceguinho, na circunstância, Soares. Depois disso só aquela originalidade protagonizada por Sampaio na posse de Lopes - tipo governo sujeito à especial vigilância da então Sua Excelência - mereceu nota. De resto, as posses servem para juramentos retóricos de fidelidades mútuas. Eu finjo que garanto a estabilidade e tu finges que governas. Está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira.

25.10.09

OS "ESTUDOS"


Este post de Medeiros Ferreira e este de Tiago Ramalho pretendem desculpar Saramago e a sua incomensurável vaidade. Não justificam, contrariamente ao que julgam, a sua estupidez. Não notei em nenhum momento do texto de Pulido Valente* o preconceito ou o ressentimento que sempre revelam as palavras autocomplacentes do escritor. Muito menos um "pedacinho de lixo" como, sem sequer se preocupar em tentar perceber o que VPV escreveu, Ramalho sugeriu. Há muito que Saramago é pacificamente aceite pelas elites do regime - que não se confundem com a noção de elite desaparecida entre nós - como uma delas. Nem que seja a título de mero paternalismo que é uma das formas muito particulares de as nossas "elites" se referirem umas às outras. Ou de temor reverencial pelo Nobel o que denuncia o seu endémico provincianismo. Há mérito literário (valha isto o que valer) naquilo que é a entidade "Saramago-livros"? Há. Em apenas algum "Saramago-livros"? Sem dúvida. O argumento dos "estudos" vale aqui alguma coisa a não ser como tentativa de uma pífia demonstração do princípio da caridade? Não vale.

*«O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices. Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve. O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém? principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto - a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.»


OS "ESTUDOS"


Este post de Medeiros Ferreira e este de Tiago Ramalho pretendem desculpar Saramago e a sua incomensurável vaidade. Não justificam, contrariamente ao que julgam, a sua estupidez. Não notei em nenhum momento do texto de Pulido Valente* o preconceito ou o ressentimento que sempre revelam as palavras autocomplacentes do escritor. Muito menos um "pedacinho de lixo" como, sem sequer se preocupar em tentar perceber o que VPV escreveu, Ramalho sugeriu. Há muito que Saramago é pacificamente aceite pelas elites do regime - que não se confundem com a noção de elite desaparecida entre nós - como uma delas. Nem que seja a título de mero paternalismo que é uma das formas muito particulares de as nossas "elites" se referirem umas às outras. Ou de temor reverencial pelo Nobel o que denuncia o seu endémico provincianismo. Há mérito literário (valha isto o que valer) naquilo que é a entidade "Saramago-livros"? Há. Em apenas algum "Saramago-livros"? Sem dúvida. O argumento dos "estudos" vale aqui alguma coisa a não ser como tentativa de uma pífia demonstração do princípio da caridade? Não vale.

*«O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices. Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve. O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém? principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto - a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.»


COMENTO PARA O POVO


Na sua crónica de ontem no Público sobre televisões, Eduardo Cintra Torres dedicava uma coluna a Marcelo a minguar na RTP. Marcelo, mais "animal" de televisão do que os Gato, foi aos Gato apenas para dizer três coisas. A primeira, é que não está disposto a entrar no concurso de tascas que vai ser a sucessão de Ferreira Leite. A segunda, que a RTP o trata como quer, encolhendo-o, esticando-o, mudando-lhe o horário quando e como bem lhe apetece. Marcelo, segundo o próprio, faz um programa quase confidencial. E, finalmente, em jeito de concatenação das outras duas, o poder está naquilo que ele faz melhor (televisão) e não noutra coisa qualquer. O que, tudo junto, quer dizer que Marcelo usará a televisão (provavelmente outra) para continuar a fazer política e que continuar a fazer política, em "marcelês", pode ser transformar o tal concurso de tascas num restaurante em que ele seja chef de cuisine. Uma coisa é certa. Ao pé dele, aquele batalhão de comentadores tagarelas - que enchem os canais a todas as horas a botar trivialidades e conveniências - é redundante e nulo.

COMENTO PARA O POVO


Na sua crónica de ontem no Público sobre televisões, Eduardo Cintra Torres dedicava uma coluna a Marcelo a minguar na RTP. Marcelo, mais "animal" de televisão do que os Gato, foi aos Gato apenas para dizer três coisas. A primeira, é que não está disposto a entrar no concurso de tascas que vai ser a sucessão de Ferreira Leite. A segunda, que a RTP o trata como quer, encolhendo-o, esticando-o, mudando-lhe o horário quando e como bem lhe apetece. Marcelo, segundo o próprio, faz um programa quase confidencial. E, finalmente, em jeito de concatenação das outras duas, o poder está naquilo que ele faz melhor (televisão) e não noutra coisa qualquer. O que, tudo junto, quer dizer que Marcelo usará a televisão (provavelmente outra) para continuar a fazer política e que continuar a fazer política, em "marcelês", pode ser transformar o tal concurso de tascas num restaurante em que ele seja chef de cuisine. Uma coisa é certa. Ao pé dele, aquele batalhão de comentadores tagarelas - que enchem os canais a todas as horas a botar trivialidades e conveniências - é redundante e nulo.

K. DE NARCISO


O sr. Narciso, antigo soba de Matosinhos, diz-se agora alvo de um processo kafkiano aberto pela sua seita originária. Lá em cima a coisa é dirigida por um tal Sampaio que, no fundo, é tão bom e tão soba como Narciso. A desgraça de Narciso foi ter caído em desgraça como nos folhetins chineses ou do velho Kremlin. De resto, toda a sua medíocre vida política - a dele e de milhares de Narcisos espalhados pelos partidos - nunca foi mais do que um processo kafkiano cujo guião ele terá escrito e protagonizado. Até à chegada desse momento fatal em que apareceu outro Narciso mais Narciso do que ele. O que, num partido albanês, dá jeito. E assim sucessivamente.

K. DE NARCISO


O sr. Narciso, antigo soba de Matosinhos, diz-se agora alvo de um processo kafkiano aberto pela sua seita originária. Lá em cima a coisa é dirigida por um tal Sampaio que, no fundo, é tão bom e tão soba como Narciso. A desgraça de Narciso foi ter caído em desgraça como nos folhetins chineses ou do velho Kremlin. De resto, toda a sua medíocre vida política - a dele e de milhares de Narcisos espalhados pelos partidos - nunca foi mais do que um processo kafkiano cujo guião ele terá escrito e protagonizado. Até à chegada desse momento fatal em que apareceu outro Narciso mais Narciso do que ele. O que, num partido albanês, dá jeito. E assim sucessivamente.

O FREI E O ESTALINISTA

O inevitável e inimitável frei Bento Domingues, no seu artiguinho semanal, defende, a propósito de Saramago, um "confronto na afabilidade" e cita um autor para defender o estafado diálogo entre crentes e não-crentes. O nosso frei é um multiculturalista que usa, por acaso, uma veste sacerdotal. Saramago é um falso multicuralista escondido, sem ser por acaso, numas vestes estalinistas. Quer dialogar com isto?