28.2.14

O talentoso dr. Portas e os "homens de palha"

Na véspera da assinatura do acordo entre o PSD e o CDS para as eleições europeias, o senhor vice PM apareceu, rodeado por três estimáveis pessoas, para anunciar novo "sucesso". O décimo primeiro, para ser mais preciso, correspondente à penúltima avaliação da troika. Fora alguns aspectos de recorte puramente carnavalesco, o que fica do não dito é bem mais relevante do que foi falado sem o conhecimento prévio dos parlamentares da maioria (que, até ao momento em que escrevo, não reagiram). E o não dito - e apenas aflorado pela ministra das finanças que, por natureza, não é dada a "números" a não ser os propriamente ditos - é que só nas vascas das ditas eleições europeias, entre Abril e Maio, se conhecerão as contrapartidas austeritárias (para o ano corrente e seguintes) do décimo primeiro "sucesso". Por mais que tentem o contrário, Paulo Rangel e os candidatos do PSD e do CDS vão emergir  como os "homens de palha", os rostos a sufrágio em Maio, deste "sucesso" celebrado pelo talentoso dr. Portas que engoliu em seco, ao lado de Maria Luís Albuquerque, a previsível não redução de impostos, com ou sem "comissão" do IRS. As coisas são o que são.

«A despedida»


 


«Eduardo Lourenço disse que o congresso do PSD lhe parecia uma espécie de missa cantada. A mim, que sei pouco de missas, o que me pareceu o congresso foi uma festa de despedida. Acredito piamente que Marcelo Rebelo de Sousa resolveu lá ir por razões sentimentais, como o resto das criaturas que dirigiram aquela extraordinária agremiação desde 1985. Tanto os “chefes” como os “militantes” sentiram, e com razão, que não se tornariam a encontrar tão cedo naquele ritual. E talvez nunca mais. Vieram de certa maneira ao enterro de uma história, para eles gloriosa, que não voltará. Depois de Passos Coelho, depois de Cavaco, depois desta maioria (embora com CDS) ninguém no seu juízo pensa que o PSD pode ter genuinamente a esperança de recuperar a confiança do país. Não são só estes quatro anos de “austeridade” e a incompetência política com que o Governo executou o programa da troika. É a singular esterilidade de quase tudo quanto fez. O grande partido “reformista” não reformou coisa nenhuma. Na essência, Portugal está como estava antes, com menos dinheiro. O primeiro-ministro transformou, ou deixou transformar, o debate político numa interminável conversa em calão económico, que ninguém percebe e porque verdadeiramente ninguém se interessa. O mortal comum olha para o “ajustamento” com desespero e com medo. E, por mais que Seguro o desconsole, quer outra coisa, seja ela qual for. Não há truque, não há manha, não há justificação ou argumento que alterem este facto básico. No Coliseu, a gente do PSD encontrou entre si algum conforto. Cá fora, o país assistiu ao espectáculo com desdém. A eleição para o Parlamento Europeu e, a seguir, as legislativas irão mostrar a fraqueza do partido. É um mistério como Passos Coelho e a sua corte conseguem imaginar que “empobrecer” os portugueses, liquidar uma boa parte da classe média e tirar o futuro às gerações que tão iludidamente se “qualificaram” é uma política esquecível e perdoável. Era necessário? Acredito. Mas para cada um de nós a necessidade não aliviou nada. Sócrates não compreendeu ainda que morreu em 2010. O actual primeiro-ministro já suspeita que vai morrer em 2014 ou 2015, principalmente quando o país descobrir, com espanto e com terror, que a “austeridade” irá durar mais quinze ou vinte anos. A despedida do PSD chegou na altura certa.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


Foto: Sol

Um virtuoso

Pedro Lomba, ajudante de Poiares Maduro, concede uma entrevista ao Sol. Não é completamente má  - para ele e para o governo - apesar de Lomba não enxergar um átomo do que se passa cá fora. Claro que insiste no "compromisso", vulgo "consenso", com o PS como se tal "convergência" fosse verosímil em plena praça eleitoral que só termina nas presidenciais de 2016 - esta insistência papagaia, não séria (pelo caminho Lomba deixa cair que afinal o PS "uma vez diz uma coisa, outra vez diz outra" mas mesmo assim quer "convergir") e não sinalagmática, francamente já enjoa. Passos Coelho acreditam no poder, tantas vezes parodiante, da linguagem. E, neste lastro de paródia política autocomplacente, há coisas como "hoje em dia, do ponto de vista da eficácia e da coordenação do discurso político, da capacidade de chegar às pessoas, as melhorias são evidentes", ou "acho que o Governo está a comunicar melhor" ou ainda a criação, "já nesta legislatura", de vistos para imigrantes de elevado potencial, os chamados "vistos talento". Com os nossos "talentosos" a fugir disto, Lomba recorre ao seu melhor talento político-intelectual para defender a "situação". Faz de Cálicles, mas aqui ao serviço do pathos da dupla Passos-Portas. Um virtuoso, o nosso Pedro.

27.2.14

"Somos morte"

Um tipo vai de hospital em hospital, onde é sistematicamente recusado por três, até ir morrer a um quarto. Outro está a cumprir uma pena de prisão e é violado na cadeia por ter sido enfiado numa cela com presos que foram transferidos de outro estabelecimento prisional por causa dos antecedentes comportamentais conhecidos do "sistema". Um  filho asfixia a mãe, primeiro, e a seguir atira-a pela janela de um oitavo andar porque "precisava" do dinheiro que ela não tinha, a saber, uma das generosas pensões a rondar os duzentos euros que, de acordo com o "sistema", são imaculadas e provam a "justeza social" dos cortes nas outras. Não somos "sociedade" nem "Estado mínimo". "Somos morte", nas duas tão breves quanto certeiras palavras de Bernardo Soares.

Antes de apagar as velinhas do bolo

Como na canção idiota de antes de apagar as velinhas do bolo, hoje "cantam as nossas almas". Portugal foi "ao mercado" e os "especialistas" não deixarão de "reconhecer" que foi um "sucesso". Foi? A palavra a Viriato Soromenho-Marques. «Como é que designaríamos o comportamento de um cidadão que, incapaz de honrar um crédito pessoal a uma taxa de 3,35%, prestes a atingir a maturidade, contraísse um novo empréstimo a uma taxa de 5,11% para pagar o primeiro ("troca de dívida")? Sem dúvida, tratar-se-ia de um comportamento pouco recomendável. E como seria classificado esse comportamento se o cidadão em causa utilizasse parte do novo empréstimo (de 11-02-2014) para antecipar, parcialmente, o pagamento em 19,5 meses do primeiro empréstimo, pagando 102,89 euros por cada 100 euros de dívida ("recompra")? Seria, certamente, uma atitude temerária, pois aumenta a despesa com juros para apenas empurrar a dívida para o futuro. Pois é isso que o Governo pretende fazer hoje. O leitor pode ir ao site eletrónico do IGCP. Abra o boletim mensal de Fevereiro sobre "Dívida Pública". Na p. 2, vê que o Estado vai ter de resolver até 2016 cerca de 39 mil milhões de euros de empréstimos. Esse imenso obstáculo tem sido o pretexto para a constituição de uma volumosa "almofada" financeira. Tudo indica que o IGCP quer recomprar, hoje, uma parte de uma série de dívida a dez anos, contraída a partir de Outubro de 2005 (ver p. 3). Se o fizer, às taxas mais recentes no mercado secundário, isso significa que, para o montante que for hoje amortizado, vamos pagar mais 3,53% de juros por ano até Outubro de 2015 do que antes das duas operações financeiras supracitadas. Será isto uma gestão prudente, ditada pelo interesse nacional, ou estará o Tesouro público em risco para alimentar uma ilusão pré-eleitoral de triunfo? Será esta uma almofada que alivia o País, ou uma pedra amarrada às pernas que o atira para o fundo? Temos direito a saber a lógica com que se joga o dinheiro sonegado aos salários e às pensões. Direito a uma explicação, ou a uma beliscadela que nos acorde deste pesadelo.»

A política da promessa acabou


 


«Nesta sociedade líquida, de eleitores relapsos a quaisquer baias ideológicas e frívolos no seu intocável individualismo, os partidos sentem-se cada vez menos motivados não só para grandes definições ideológicas, mas mesmo para a simples adopção de programas e projectos muito precisos, procurando antes adaptar-se à maleabilidade da própria sociedade, num círculo que se revela pesadamente vicioso. É nisto que, em todo o Ocidente, estamos. O paradoxo, contudo, permanece. E todos os estudos de opinião revelam que a maioria dos cidadãos pensa que pior que um regime político de partidos, só um regime político... sem eles. Das três dimensões dos partidos políticos, a clubista (que é a mais tribal), a pretoriana (que vive do e para o chefe) e a cidadã (que valoriza as ideias e a sua discussão), o caminho tem-se feito sempre em prejuízo desta última, e é isso que, com toda a evidência, se vê em congressos como o do PSD do último fim de semana. É todavia no sentido inverso que é preciso trabalhar, visando a qualificação interna dos partidos, uma qualificação que os torne capazes de retomarem a sua função de instituições capazes de promoverem a oferta política com ideias, propostas e projectos, desafiando assim a própria sociedade (...). Hoje é preciso trabalhar com menos hierarquias e apostando mais no saber e no conhecimento. Até porque esse é o único modo de os políticos travarem com sucesso o grande combate que se anuncia para os próximos tempos, e que será entre o populismo e a tecnocracia, que conta já hoje tanto ou mais do que a tradicional oposição direita/esquerda. A era da política da promessa acabou, já o escrevi há tempos. Precisamos agora de partidos e de políticos que pensem no médio/longo prazo, mas também saibam improvisar com competência. Que compreendam as grandes interdependências globais, mas também saibam aproveitar - ou mesmo criar - margens de manobra para os seus países. Que expliquem aos cidadãos o que fazem, mas também consigam exigir à sociedade uma verdadeira cumplicidade na descoberta de novas vias para o futuro.»


 


M. M. Carrilho, DN

26.2.14

Nunca interrompas


 


Este antigo chefe militar não avisou o PR e o Governo do seu pedido de passagem à reforma quando ainda era CEMGFA, em 2013. Fez ele muito bem. Prova que assimilou perfeitamente os ensinamentos do Corso: «nunca interrompas o teu inimigo enquanto estiver a cometer um erro.»

25.2.14

As melhoras


 


O senhor vice PM, reputado "reformador do Estado" e estimável navegador de porta-aviões, tem salientado, e bem, que as exportações não nos têm faltado neste caminho de glória e de sucesso percorrido pelo "país melhor". A execução orçamental também revela que há outra coisa que nunca nos falta nesta salvífica aventura: o IRS. Sempre a subir como convém à nova e original "normalidade" que distingue o "país melhor" (o da mercearia contabilística) das "pessoas melhores" (que frequentam as mercearias). As melhoras.

Grandeza


 


«Pourquoi m'interrogez-vous "à present" sur Paul Éluard? Sa vraie mobilité, sa course glorieuse, durant laquelle, rare et merveilleux poète, il va enfin pouvoir distancer par le seul verbe ses bons frères de partout, vient de commencer depuis ce matin neuf heures. Nous ne pouvons plus rien pour lui et il pourra encore beaucoup pour nous. Mais il ne peut plus rien contre les dieux libres de son berceau revenus et le visage en flamme de son amour. Durant des dizaines d'années nous nous sommes rencontrés presque chaque jour avec le même impatient entrain. Puis nous avons cessé de nous retrouver. Nous nous adressions dérisoirement des livres, comme d'anciens jumeaux fendus, mais qui s'estiment, savent et communiquent doucement... Misère!»


 


"À la mort d'Éluard", René Char (1952)

Monumentos à estupidez nacional

Apesar de andar "nisto" há mais de cinco décadas, Silva Lopes não deixa de ter razão. «Disse-se “muito desiludido” por entender que a reforma levada a cabo – que o PS votou a favor – era “boa para indivíduos com acções da EDP” mas não para a economia. “Só serve para fazer transferências de rendimentos para os que têm acções de companhias rentáveis”, avaliou. E quando defendeu que “para o equilíbrio geral do país”, era essencial um “tratamento discriminatório a favor do sector transaccionável”, lembrou os investimentos feitos no passado sem qualquer ganho para o país. “O estádio de Leiria devia ser conservado tal como está enquanto monumento à estupidez nacional”, disse.»

24.2.14

Uma batalha


 


 


Nova. 

É a vida


 


Ambos - Assis e Rangel - são duas boas escolhas políticas para as europeias de Maio. O PS apresenta como cabeça de lista um seu militante social-democrata. O social-democrata que o PSD indica, por força da coligação que encabeça, é obrigado a morigerar a sua filiação a bem da "unidade" com o CDS. Em 2009, Rangel "cresceu" do partido para o país. Em 2014, preferiu "encolher" do partido para a coligação. O que favorece, pelas circunstâncias, o pequeno partido à sua direita, para usar uma expressão do dr. Barroso, em Tavira, num congresso do PSD "marcelista". E o PS, que não deixará de usar a moderação combativa de Assis para ir lá onde Rangel já não pode chegar por força do "colete tricolor" que lhe enfiaram no Coliseu. É a vida.

23.2.14

Um remédio duvidoso


 


«Com a salvação da Pátria do PSD e de Passos Coelho voltaram as pragas tradicionais da “decadência” e do “atraso”, que depressa redescobriram os vícios atávicos do português: a sabujice, a dependência, a resignação e uma espécie de sebastianismo de trazer por casa na forma obscura e longínqua do BCE. Nem falta a ditadura dos partidos do centro, nem a melancólica impotência do Presidente da República. Depois do fracasso da “modernização” democrática, virão vinte anos de vacas magras e de cinismo ou desespero. E agora o remédio é duvidoso e talvez mortal.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


Foto: Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

22.2.14

One man show


 


E Cristo desceu à Terra, vindo da Madeira, para aterrar no Coliseu. Marcelo estragou a prosápia eleitoral de Paulo Rangel que tinha acabado de ter sido "revelado" como cabeça de lista da maioria -  não exclusivamente social-democrata, como em 2009, mas como testa de ferro da previsível "cedência" de eurodeputados do PSD ao CDS em Maio - às europeias. "Obrigou" Passos Coelho a assistir, na primeira fila, à apresentação de um "programa" de uma candidatura presidencial (embrulhada, é certo, num delíquio histórico-partidário) recusada na moção que será aprovada pelos mesmos congressistas que o aplaudiram fervorosamente. De caminho, terá provocado um sorriso amarelo no "neo-barrosismo" que é agora o mais recente aliado do presidente do partido e primeiro-ministro, traduzido na ascensão de Matos Correia, nas lambuzadelas de Morais Sarmento (que, tão rapidamente como os inventou, fez desaparecer o "ano bipolar" e o "semestre negro "pós-troika)  e no regresso precoce de Miguel Relvas. Falta apenas o "momento Santana". Mas o congresso começou e acabou com Marcelo. As coisas são o que são.

Para trás

"Não deixar ninguém para trás" era um propósito original do PSD quando se lançou nas eleições de 2011. Isso passou para o programa do governo. Infelizmente não passou para a realidade. Nesse aspecto falhámos. Lamento que o primeiro-ministro substituísse esta evidência pela falácia de "um país melhor". Ou, na versão aparvalhada de Luís Montenegro, um país melhor com a vida das pessoas não melhorada. Falhámos e ninguém pede desculpa por isso. Pelo contrário, vejo as elites do PSD desfilarem na televisão ao som e fúria deste tropismo enganador como pobres figurantes num filme da malograda Shirley Temple. Nessa já longínqua primavera de 2011, uma vez dirigi-me ao presidente do PSD e afirmei-lhe que tinha a obrigação moral e política de ganhar aquelas eleições. Precisamente por causa das pessoas. Ora ao deixar-se afinal as pessoas para trás, havia pelo menos a obrigação moral e política de reconhecer o falhanço. Não é, porém, isso que se está a passar na Rua das Portas de Santo Antão. O tom geral, jubilatório e lubrificador, perpetua uma ilusão e ofende a vida das pessoas que não estão ali. Dizem que é o congresso "mais ideológico de sempre" por causa da "matriz social-democrata". Só se aludem às modernaças plataformas interactivas sobre os 40 anos da história do PSD que ornamentam o átrio do Coliseu. Mas isso é outra falácia. Porque a história do PSD, como a das pessoas, também ficou para trás.  

Portugal está "desempregado"


 


«Não há um cantinho da nossa vida que não se compare com a Europa e não há triunfo que não consista em encontrar semelhanças entre as coisas de lá e as coisas de cá. Por outro lado, os governos proclamam a nossa singularidade atlântica ou (nos casos de incurável loucura) mundial. O país balança entre um "papel" na Europa, que não encontrou, e um "papel" em Angola, no Brasil ou numa selva qualquer da África ou da Ásia, que manifestamente o excede. De qualquer maneira, como lamentava Eça, nesta apregoada época de "globalização", Portugal está "desempregado". Ninguém precisa dele e ele precisa urgentemente de sair da sua velha irrelevância. Imitando, sem imitar, claro. Como de costume e com os resultados do costume.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


Foto: Vítor Rios/Global Imagens

21.2.14

"Teses" para o Coliseu dos Recreios


 


Começa mais um, o 35º, congresso do PSD. Passa-se no Coliseu de Lisboa e, em princípio, servirá para jubilar o actual presidente do partido, o "sucesso" das suas políticas governamentais e a "nova normalidade" que mais não é do que a institucionalização definitiva da "tanga" de 2002 do venerando dr. Barroso. Em vez de Relvas, há Marco António, e mais um ou outro moço obscuro, para a intendência das pseudo "tendências" e dos lugares. Alguns ministros estão intimados a derramar sobre o "futuro", com base no extravagante passado próximo, porventura com a obrigação de mostrar a Bruxelas e ao FMI a "superioridade moral" do friso governativo doméstico presumivelmente encimado pelo fatal Crato. A cabeça, menos estimulante do que há cinco anos, do dr. Paulo Rangel será consagrada para a improvável lista conjunta das eleições europeias e decerto brindará os congressistas com uma lancinante exposição acerca das virtualidades burocráticas da política "europeia" para a paróquia. Se a social-democracia pairasse no Coliseu, a conversa seria outra. Por exemplo, Paulo Trigo Pereira aponta algumas "teses" que um congresso social-democrata (e não um rendez-vous de línguas de pau irrelevantes e reverenciais) devia discutir nesta altura:


 


«Os nossos dois problemas essenciais não estão resolvidos. O fardo da dívida pública está a aumentar e o crescimento neste ano será ainda fraco. Em 2014, o peso da dívida pública bruta no PIB deverá chegar aos 137% do PIB, (embora haverá 8,7% em depósitos), quando em em 2010 era de 94%. O défice em 2013 foi ainda excessivo.»


 


«As famílias definitivamente não saíram da crise. Em 2010 os pedidos à DECO relacionados com sobre-endividamento eram 11960 e têm vindo sempre a crescer, quase triplicando em 2013 (29214). Porém, os processos em que a DECO consegue abrir processos para renegociar a dívida junto dos bancos, cresceu até 2012, mas reduziu-se em 2013, não porque as famílias não necessitem, mas porque já não têm rendimentos suficientes para renegociar essa dívida.»  


 


«Não existe governação económica nem na UE nem na zona euro. Aquilo a que se chama 'governação económica', não são mais de um conjunto de regras e procedimentos praticamente iguais para todos os países  - o “six pack” o “two pack” ou o tratado orçamental.»


 


«A União bancária é muito importante e está avançar, mas não com a velocidade desejável. Vão ser concluídos, espera-se, dois pilares fundamentais – a supervisão e regulação europeia e os mecanismos de resolução bancária – mas faltará um muito importante, a garantia de depósitos. Este é essencial para evitar novas crises e o pânico dos agentes económicos em situações de perca de confiança, mas muito dificilmente a mutualização dos riscos dos depósitos passará  em alguns países.»


 


Como escreve Vasco Pulido Valente no Público, «nunca como hoje houve uma tão larga indiferença pelo nosso destino colectivo, ou seja, pela história e pela cultura, que nos trouxeram onde trouxeram. As causas da desgraça em que vivemos e do esquálido futuro que aí vem são vagamente distribuídas por erros que toda a gente cometeu, pela intrínseca perversidade da política ou pela maléfica influência do estrangeiro. Sobre aquilo em que Portugal se tornou no fim do século XIX e no século XX nem uma palavra. É como se o país só existisse desde 2010, a partir do fracasso da democracia e da iminência da bancarrota (...). Agora, ninguém se importa com a natureza de Portugal.» Ninguém. Muito menos os congressistas do Coliseu.


 


Adenda: Depois de escrito este post, deparo com uma entrevista do Luís Montenegro com este extraordinário oxímoro político no título: «a vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor.» Das duas, uma. Ou o Luís ignora o país em que vive, ou ignora as pessoas que vivem no país. Qualquer das hipóteses é má de mais para ser verdadeira.

20.2.14

Uma brincadeira séria


 


Ontem foi o FMI, hoje é a augusta Comissão do dr. Barroso a prometer mais fatalidades, aliás, "prometidas" de cá para lá pelo governo num silêncio público, doméstico, comprometido. Por consequência, não há "milagres" nem "sucessos" de borla para os rodízios das campanhas eleitorais irresponsavelmente em curso, isto é, narrotretas. Os suspeitos do costume - trabalhadores e  antigos trabalhadores por conta de outros, públicos ou privados - cá estarão, vivos ou cadáveres à espera de entrar em funções, para o que der e vier. Porta-aviões, afinal, só se for a brincar e da Lego.

A bordo do porta-aviões

 



 


 


«Há um antes e um depois da crise do Verão passado. Até então prevalecia uma obsessão programática que tinha fundamento, horizonte e sentido. Estava errada, a meu ver, pela razão simples de descurar uma rigorosa avaliação da realidade. Agora o que subsiste é outra coisa: um discurso que vagueia entre a propaganda e o lugar-comum, desprovido de projecto e igualmente distante da realidade nacional. Este livro de Maria João Avillez e Vítor Gaspar tem, entre outros, um inegável mérito: confronta-nos com a distância que existe entre o erro da inteligência e o erro da mediocridade. Dir-se-á que o resultado é o mesmo. Infelizmente não é: o erro da mediocridade tem sempre um especial deficit de grandeza.»


 


Francisco Assis, Público


 


 «O combate da exclusão, da perpetuação institucionalizada da desigualdade e da desigualdade social, associado à vital necessidade de mecanismos de mobilidade social, em que o estado tem um papel fundamental, são as bases de uma política alternativa em que quem governa mantém uma empatia essencial com o destino dos portugueses, mantendo um sentido de pertença e de comunidade. Exactamente o contrário do que tem acontecido, em que um discurso punitivo do viver acima das suas posses legitima uma espoliaçáo brutal de recursos dos do meio, dos de baixo . Mais do que isso - e disso o PS não fala e permite -, o afunilamento e a destruição dos canais que permitiam uma mais justa distribuição dos rendimentos, por exemplo, como o pagamento do trabalho. É que se esquece que quando se paga um salário não se está a fazer um acto de caridade que se pode encolher a seu bel-prazer, mas a retribuir trabalho e esse trabalho tem valor social e económico. Estas políticas alternativas não são nem as do PCP, nem as da extrema-esquerda, como a enorme deslocação à direita do espectro político pode levar a crer e alguns ignorantes papagueiam como acusação. São politicas na tradição social-democrata e é tal vez por isso que muitos sociais-democratas e alguns democratas cristãos têm sido mais eficazes a combater - a palavra é mesmo essa - o programa de desigualdade social assente numa hierarquia de poder, dinheiro e establishment, do que os socialistas. O que não se pode admitir é que o discurso da retoma, da recuperação económica, seja sempre apresentado como tendo como condição não haver qualquer recuperação social . É por isso que o Governo, ao mesmo tempo que mantém e justifica manter milhões de portugueses numa perspectiva de depressão social prolongada para décadas, pode considerar que tem alguma coisa para festejar.»


 


José Pacheco Pereira, Sábado


 


 «Infelizmente, como certamente vamos confirmar no próximo fim de semana com o Congresso do PSD - mas podia ser de qualquer outro partido - a situação mantém-se inalterada, o apocalipse partidário continua sem nenhum verdadeiro fim à vista. Na verdade, o que hoje é preciso é começar a olhar mais para a sociedade do que para os partidos, deixando de fazer deles os bodes expiatórios do que a sociedade não quer, ou não consegue, ver. Talvez assim se compreenda melhor porque é que, apesar de tantas e tão contundentes críticas aos partidos que temos, não aparece de facto nenhuma alternativa, ou seja, nenhum partido mais aberto, mais credível, mais inovador, mais mobilizador, mais dedicado ao bem comum, enfim, mais virtuoso. E a resposta a este impasse encontra-se na sociedade, não se encontra nos partidos.»


 


M.M.Carrilho, DN


 


 «Ao contrário do que se diz, poucas instituições conhecem a macroeconomia portuguesa tão bem como o FMI. Eles não nos visitaram três vezes - estão cá desde a primeira. Nunca saíram de Portugal, há mais de trinta anos que têm delegação fixa e tê-la-ão pelo menos mais vinte, para cuidar dos seus empréstimos. Não são senhores de preto que aterram e descolam. Eles estão. É o FMI, não o Bloco de Esquerda, que escreve: "O ajustamento externo tem sido conseguido, em larga parte, devido à compressão das importações de bens que não sejam combustíveis e, ultimamente, ao crescimento das exportações de combustíveis". É o FMI, não o PS, que prossegue: "Esta dependência (...) arrisca enfraquecer os ganhos conseguidos até à data, assim que as importações recuperarem de níveis anormalmente baixos e as unidades de refinação eventualmente esgotem a sua capacidade 'extra', ao mesmo tempo que a melhoria na exportação de serviços é vulnerável a choques à procura de turismo." (...) É um anticlímax. Oportuno. (...) A partir de meados do ano passado, o consumo privado voltou a subir, sustentando grande parte da retoma económica. Ou seja, os portugueses estoiraram parte do que haviam poupado. Isto significa que a poupança não serviu essencialmente para financiar investimentos (através de crédito bancário a empresas), mas para consumo. Olhando para os hotéis, para as vendas de "tablets" no Natal e de automóveis em Janeiro, percebe-se em quê. Há uma boa parte da nossa retoma que é cíclica. Isso não tem mal nenhum, mas ajuda a relativizar o "milagre". (....) Muitas reformas estruturais não foram feitas, começando pela anedota (já lá vamos) da reforma do Estado, que anda há mais de um ano de gaveta vazia em gaveta vazia. Perdeu-se oportunidade para reestruturar grande parte da nossa economia e a dívida pública está a um nível assustador. No final do ano passado, o Banco de Portugal surpreendeu com um relatório crédulo e optimista: a economia portuguesa, escreveu o Banco, tinha mudado para sempre. As famílias portuguesas tinham-se tornado poupadas, as empresas tinham-se tornado exportadoras, éramos um País novo. Soou mais a vontade do que a diagnóstico. Ainda desejo que o Banco de Portugal esteja certo. Mas para isso o FMI tem de estar errado. Redondamente errado. Porque o relatório que publicou hoje é paralelepipedicamente o contrário dessa crença. E logo agora que isto estava tudo a correr tão bem. PS: Finalmente, a anedota: o Governo português garantiu à troika que o guião da reforma do Estado de Paulo Portas vai transformar-se em propostas concretas em Março.»


 


Pedro Santos Guerreiro, Expresso

19.2.14

A criatura e os criadores


 


Sem lá ter estado, Vasco Graça Moura, neste pequeno texto, resume perfeitamente o "ambiente" meloso em que decorreu a apresentação do livro de Maria João Avillez com Vítor Gaspar dentro. A primeira é como que a decana dos jornalistas do regime e, talvez também não por acaso, Eduardo Lourenço - o decano dos "intelectuais" do mesmo regime e, porventura, o heterodoxo mais ortodoxo dele ao fim de tantos anos e de tantas sepulturas precoces de coevos, melhores e piores do que ele, que conheceu e com quem conviveu -, sentava-se na primeira fila à distância de dois secretários de Estado, e de um funesto Crato, do primeiro-ministro. O tom geral foi jubilatório, auto e hetero complacente - a decana justificava parte da frioleira: afinal, eram os seus amigos "transversais" que ali acudiram em grande número -, e nem Vitorino nem Gaspar destoaram. Parece que no decurso das conversas declinadas depois em entrevista-livro, Gaspar "esclareceu" muitas das "ignorâncias" da entrevistadora (auto-revelação em directo). E não sobram dedos de mãos e pés para os autores e "europeístas" citados pelo antigo comissário europeu a partir da aparente citação deles por Gaspar. Fisicamente, criatura (Passos) e criador (Gaspar) estavam frente a frente na disposição da sala. Do púlpito, Gaspar como que ergueu a espada literária de Mensagem e armou Passos em inesperado cavaleiro reformador (que fez e fará ele, o reformador, com essa espada?). Louvou-se numa frase epistolar de Isaiah Berlin sobre Chefes da qual apenas se serviu da parte que permitia arvorar o visado num putativo e milenarista salvador da pátria (mais um), nem que para tal (as primeiras frases de Berlin), e como trágica e inevitável condição para o efeito, tivesse de sacrificar os seus amigos políticos. Sem o fazer, jamais se ergueria às alturas em que Berlin, aka Gaspar, o idealizou. A maioria dos presentes decerto saiu daquele exercício de alma, e de Gaspar, lavada enquanto, no outro lado da cidade, o dr. Portas, o novo supra-Gaspar, emergia num fantasioso "porta-aviões" de exportações e a prometer mais "reformas do Estado" para Março. Ao contrário do que diz Gaspar, em Julho não era "um ministro ou o outro". São os dois, cada um "criador" à sua maneira, com o "reformador"  de permeio, e em campanha, para nos salvar ou danar.


 


Foto: Correio da Manhã

18.2.14

Parece mas não é

«Portugal emitiu recentemente dívida a 10 anos a uma taxa de juro de 5,1%. Parece um grande progresso, uma vez que a última emissão de dívida a 10 anos tinha sido em Janeiro de 2011 com uma taxa de juro de 6,716%. Parece mas não é. É que em 2011 a inflação em Portugal foi de 3,65% enquanto em 2013 não ultrapassou os 0,27%. Ora é manifesto que, com uma inflação quase a zero, uma taxa de juro de 5,1% é absolutamente insustentável. O país deveria estar por isso a preparar um programa cautelar, se não mesmo um segundo resgate. Tudo indica, no entanto, que iremos ser empurrados para uma saída limpa, pelo que o governo já está a preparar uma almofada financeira, ainda que para isso tenha de pagar estes juros incomportáveis. As razões para a saída limpa residem na falta de paciência com que os países europeus estão a encarar estes resgates. Estive na Alemanha durante a última campanha eleitoral e só vi cartazes a exigir que os gregos pagassem sozinhos as suas dívidas, ou a afirmar que os resgates do euro estavam a pôr em causa as pensões alemãs. A solidariedade europeia é neste momento inexistente e os nossos parceiros europeus não estão dispostos a entregar-nos nem mais um tostão, preferindo que sejamos largados às feras. Assim, depois de o Memorando da troika ter deixado os portugueses completamente limpos, é natural que o nosso destino colectivo só possa ser a saída limpa, com as mãos a abanar. O que espanta é que nos queiram apresentar isto como uma vitória.»


 


Luís Menezes Leitão, i

17.2.14

A nova ecologia


 


O Pedro Santana Lopes já estará esquecido da "nova esperança" dos idos de 80, do tempo em que o PSD era vivo? Ou do que o seu muito justamente idolatrado Sá Carneiro dizia da "casa" antes do famoso congresso do "Cinema Roma"? Ou das cartinhas do prof. Cavaco ao então líder e 1º ministro Balsemão, normalmente enviadas politicamente via "nova esperança"? Ou do entra e sai libérrimo de pessoas como o próprio Sá Carneiro, Mota Pinto ou o actual MNE Machete? Que "ecologia" quer PSL para o PSD? A da Coreia do Norte?

A fazer história, contando outra

«Portas irrevogavelmente ficou, Gaspar irrevogavelmente saiu. Mas se há algo que Gaspar quer deixar irrevogavelmente impresso na mente do leitor [do livro Vítor Gaspar por Maria João Avillez] (sem nunca o dizer) é que ele ganhou e Portas perdeu. Porque Maria Luís Albuquerque ficou e as políticas que ele defendeu continuaram e as políticas que o Portas que ficou no Governo queria não vingaram. O título de vice-primeiro-ministro é uma vitória de Pirro, o caso de um homem despojado do seu poder e a quem foi entregue um espelho e um palácio onde ele, paradoxalmente, aparece investido de grande poder.» (Miguel Gaspar, Público). Não é bem assim, como escreve o Miguel (o referido, até por causa do relógio, é muito dúctil com calendários eleitorais como se tem visto e se verá cada vez mais e com mais "precisão"), mas na apresentação do livro de M.J. Avillez com Vítor Gaspar, amanhã, será porventura mais interessante recensear as ausências do que as presenças.

A fazer história, contando uma

Alguns leitores ficaram enxofrados com o post anterior e, sobretudo, com o título dele. Têm razão. Andamos todos demasiado embrutecidos e anestesiados - uma coisa deriva da outra e vice-versa - com as nossas coisinhas, privadas ou públicas, para que o termo "dignidade" (usado por contraponto à falta dela no nosso quotidiano) pareça esdrúxulo, deslocado, mesmo estúpido. E ainda mais assim quando é raríssima a dignidade, evidentemente. Têm, repito, razão. Mesmo em "ambiente campanha eleitoral" (de curto e de médio prazos), haverá claramente mais dignidade em sugerir "entendimentos conjuntos" a título comemorativo dos 40 anos de Abril - mesmo vinda a sugestão de quem não gosta deles ou que cheguem embrulhados em refolhos de Joana Vasconcelos -, em saídas mais limpas do que sujas - mesmo que o preço de tamanha limpeza seja incomportável, consta, precisamente desde há 40 anos, que o dinheiro aparece sempre - e em "há mar e mar e ir e voltar" como aponta o "novo rumo" do dr. Seguro que bem pode ser tomado por um "devaneio lógico" para usar terminologia de Fernando Pessoa, um famigerado entendido em muitas coisas entre as quais as marítimas. Mais do que de dignidade, a avaliar pelos plumitivos de serviço, parece que nos encaminhamos para rebentar de felicidade, como a ceifeira do supra citado que cantava "julgando-se feliz, talvez", por altura do tempo das cerejas. Também devem ter razão. Estamos, de facto, a fazer história. Ámen.

15.2.14

Uma raríssima dignidade



Como se escreve no Público que coloca a fotografia de John Stanmayer na capa, "a imagem mostra um grupo de emigrantes africanos que, de telemóveis erguidos para o céu e à luz da Lua, tentam, a partir da costa do Djibuti, encontrar a rede somali, mais barata, para poderem falar com os familiares". Saiu na revista National Geographic e foi o Grande Prémio de 2013 do World Press Photo. Mostra, segundo o título do Público, «a dignidade dos emigrantes africanos ao luar.» Uma raríssma dignidade.

Retrato de um país "chave na mão"

«Vendem-se direitos humanos e língua portuguesa, base de licitação de 133,5 milhões de euros, depositados no Banif. Quem dá? Pás!, vendido à Guiné-Equatorial. Vende-se inocência para pequenos e grandes devedores fiscais. Bom negócio, oferta de juros e coimas. Quem quer? Arrematado: encaixe de 1,3 mil milhões de euros, desconto de 500 milhões. Siga para bingo. Promoção especial para passageiros frequentes para a Suíça: vende-se regularização de dinheiro não declarado no estrangeiro. Lavagem automática por 7,5% do valor declarado. Quantos são? Fechado: por 200 milhões de euros branqueamos 2,7 mil milhões. Técnica Jorge Jesus: limpinho, limpinho. Vendem-se monopólios. Inclui rendas excessivas. Aeroportos? Arrematado, três mil milhões, para os franceses da Vinci. Electricidade? Aqueles senhores ali a Oriente, 2,7 mil milhões. Águas, ninguém quer? Uma televisãozinha?... Vende-se salvo-conduto para entrar e circular livremente no espaço europeu. "Vistos de ouro". Custa 500 mil euros. Vem com casa incluída, muito cachet, videoporteiro, vista mar. Vendem-se Mirós. 84 quadros e uma escultura. Oportunidade única, antigo dono faliu. 36 milhões de euros e não se fala mais nisso. Saem do país pela porta do cavalo, garantimos sigilo total. Vendem-se comemorações dos 40 anos do 25 de abril. Inclui patrocínio da Assembleia da República. Bem negociado pode incluir naming de bancadas... parlamentares. Vende-se justiça. Tribunais na hora. Só para grandes investidores, dá-se preferência a estrangeiros. Vendem-se impostos baixos para empresas, inclui benefícios fiscais para grandes empresas. Só para VIP. Custo: 70 milhões de euros no primeiro ano, 220 milhões nos seguintes. Vendem-se hotéis de cinco estrelas falidos a fundos de reestruturação. Preço: um euro. Inclui dívidas a bancos, que podem ou não ser pagas. Vende-se reforma da administração local, inclui alquimia secreta que transforma 308 municípios em 308 municípios. Preço: fusão das freguesias. Chave na mão. Vende-se jogo de tabuleiro. Com as peças do programa cautelar, jogam os financeiros; com as peças da saída limpa, jogam os políticos. Possibilidade de incluir vitória eleitoral. Contra-indicação: o uso irreflectido pode afectar o financiamento do Estado. Vende-se Constituição da República, oferece-se Tribunal Constitucional. Vendem-se contratos swap, contratos de PPP, contratos de securitização de dívidas. Custo: rasgar contratos com pensionistas. Vendem-se dívidas da Madeira. Paz com Angola. Subida da idade de reforma. Vendem-se referendos. Espiral recessiva com prazo de validade ultrapassado. Vendem-se cortes nas gorduras no Estado, fundações, institutos e empresas públicas (aviso: a gerência não se responsabiliza pela sua efectiva existência). Vende-se quinquilharia, preço da chuva: guiões de reforma do Estado, reforma da Administração Pública, acordos no arco de governação, refundações e redefinição das funções do Estado. Vende-se austeridade. Custo: uma geração. Pagamento em recibos verdes. Vende-se ilusão de ultrapassagem da crise. Custo: 130% de dívida pública. Vendem-se anéis como se não fossem dedos, corpo como se não fosse a alma, palavras como se não fosse a palavra. Compra-se: submarinos, estradas vazias, bancos falidos e dívida pública cara. Sem devolução. Paz? Pás!»


 


Pedro Santos Guerreiro, Expresso

14.2.14

"A falência dos socialistas europeus"


 


«Os chamados "críticos" nem têm uma alternativa consistente a apresentar (quem?, outra vez o Costa?) nem sequer se entendem num programa mínimo entre si - o maralhal que se juntou para levar Costa em ombros, e falhou, ia dos elementos mais à esquerda aos mais à direita dentro do PS, entre os quais há divergências profundas em várias matérias. Era um entendimento forjado numa pessoa, mas não num programa. Essa mixórdia de temáticas acabou tristemente num abraço cínico e num acordo de treta entre Seguro e Costa. Agora junta-se ao coro José Sócrates, que pressiona Seguro quanto ao "posicionamento" do PS para estas eleições, revela desilusão com Hollande e diaboliza Merkel - que foi a primeira pessoa que teve direito a ver o seu PEC IV, já que em Portugal foram poucos os escolhidos. Estamos em plena história da carochinha: a submissão à senhora Merkel começou com Sócrates, apesar de Passos pôr mais enlevo na coisa. E veja-se como Merkel se coligou com os socialistas alemães sem que a política europeia mude um milímetro. Mesmo que o senhor Schulz venha a ser eleito presidente da Comissão Europeia, o que acontecerá se os socialistas tiverem muitos votos em Maio, sê-lo-á com o beneplácito de Merkel. E como os socialistas deram as mãos à direita para instituir na Europa o Tratado Orçamental - um colete-de-forças que ilegaliza as políticas socialistas -, é difícil que o bom do Schulz faça muito melhor que o José Barroso. Seguro é mau, mas toda esta discussão é "poucochinha". A outra, a que verdadeiramente interessa - a da falência dos socialistas europeus -, o partido não a quer fazer.»


 


Ana Sá Lopes, i

A derrota


 


O acordo de concertação social de 2012 - que incluía a UGT - deu lugar a outra coisa, "estatutária" e unilateral, que manipula os despedimentos a partir de uma hierarquia de "critérios" que se resumem a uma, agora sim, "mudança de paradigma". A social-democracia, representada em 2012 pelo menos por Álvaro Santos Pereira e João Proença, cedeu o seu lugar, na economia, no emprego e na concertação social, a uma outra coisa que nem sequer chega a ser democrata-cristã. O PSD sai derrotado politicamente deste processo que não mereceu a concordância dos "parceiros sociais". Pelo menos o PSD que ainda é social-democrata e que não teme os "trabalhadores".

13.2.14

Viver dentro das nossas impossibilidades

O primeiro-ministro foi ao Tramagal dizer, e cito de cor, que "estamos a caminhar para viver dentro das nossas possibilidades". O uso do plural majestático é manifestamente irónico embora, decerto, as figuras da retórica clássica não devam ser o "forte" da formação intelectual de Passos Coelho. Quem o conhece bem, disse-me outro dia que o chefe do governo se "sente" como um evangelista de "igrejas" como a IURD (salvo o devido respeito) que, uma vez recolhido o dízimo junto dos suspeitos do costume, fica como que tomado por uma "visão" escatológica em relação à sua função de pastor milenar da pátria. Depois de ter conseguido, pelo menos na semântica, mudar o sintagma "acima das nossas possibilidades" para o "dentro" delas, Passos com certeza quer significar por "dentro das nossas possibilidades" coisas como "habituem-se a viver na nova normalidade". O que, para a maior parte das pessoas, quer dizer "habituem-se a viver com as vossas novas impossibilidades". O que é certo é que esta mistificação, mais "espiritual" que política, vai fazendo o seu caminho comunicacional - o único que interessa fazer - enquanto o mais próximo candidato a sucessor deste notável evangelista, A. J. Seguro, cercado por dentro e por fora, aparenta não conseguir sair dos caminhos na floresta em que tanto se enfiou como o enfiaram. Por exemplo, hoje os juros da dívida 10 anos andam pelos 5%, o ministro da Defesa Nacional terá confessado a um general não entender "nada" de Defesa, o glorioso perdão fiscal do final do ano terá "custado" quase 500 milhões de euros em juros, coimas e derivados, os ajustes directos de 2013 terão ficado na orla do 2 mil milhões de euros, os famosos submarinos, em 300 milhões, o arbítrio da "avaliação do desempenho" passa a poder despedir democrático-cristã-livremente, mas um pensionista que receba três dígitos líquidos de rendimento já não tem dinheiro a meio do mês para poder "viver dentro das suas possibilidades"? As "novas impossibilidades" existem porque subsistem "velhas possibilidades" do tipo das indicadas que escapam ao vocabulário da promessa da felicidade "empresarial" que não entra no plural majestático do primeiro-ministro. Talvez a escultora do regime, a grande navegadora de cacilheiros Vasconcelos, consiga traduzir este "desígnio" original para os quarenta anos do "25 de Abril". Quem, melhor do que ela, poderia representar as nossas novas impossiblidades?

12.2.14

"Negros" hábitos


 


Mais ou menos na mesma altura em que se soube da expulsão de António Capucho do PSD (e de mais umas boas centenas de militantes por causa das autárquicas de Setembro), o parlamento, por unanimidade em comissão, decidiu adequadamente não discutir uma petição com cerca 180 mil assinaturas que visava remover José Sócrates do comentarismo político na RTP. É lamentável que, quarenta anos após o "25 de Abril", se continue a "valorizar" a opinião alheia como "delito de opinião" e que, no caso de Sócrates, quase duzentas mil pessoas achem normal limitar a liberdade de expressão. Em ambos os casos, estou à vontade. A eminência parda que Capucho supõe representar nunca me foi particularmente cara e presumo ser insuspeito de "socratismo". O "ponto" é diverso e mais preocupante. Em cada português, "militante" seja do que for, subsiste um lastro consciente ou inconsciente de uma Inquisição que fomos oficialmente dos últimos a extinguir já em pleno século XIX. E um bocadinho de inveja freudiano-policial, à mistura com uma pavorosa iliteracia instintual, que encontra ainda hoje farto eco no anonimato, na bufaria e no receio doentio do outro. Para além do mau gosto, perpetuar estes "negros" hábitos prova que ainda estamos longe de ser, se alguma vez lá chegarmos, uma democracia adulta.

11.2.14

A saída, como o cozido, "à portuguesa"

Fechada a emissão a 10 anos, os juros ficaram a 5.1. A Irlanda pagou 4.1 aquando da derradeira emissão de dívida, com idêntica maturidade, e com a troika em casa. Como diria o alto comissário para os refugiados, é só fazer as contas.

"O aprendiz de Maquiavel em dez lições"

«1. Inculca culpa na tua vítima. Convence-a de que é responsável pelo que lhe está a acontecer. Se o fizeres, a tua tarefa estará facilitada. Lembra-te: se aqui vítima há, és tu, cujas intenções são “incompreendidas” pelos “ingratos e invejosos”.


2. Usa palavras mágicas: pátria, empreendedorismo, sacrifício, futuro, reformas, construir, acreditar, inovação. Baralha-as numa Bimby e faz bimbices. Se conseguires dizer sem te rires algo como “Pensar e preparar o futuro do nosso país é proporcionar às gerações que nos irão suceder as ferramentas adequadas para construir um Portugal diferente, num quadro de qualidade, responsabilidade e inovação”, tens um lugar assegurado.


3. Diz que compreendes a insatisfação dos prejudicados e concordas que, sim, têm razão, mas agora não pode ser nada. Justifica-te com a burocracia, a qual és o primeiro a combater. Pede para adiarem o seu protesto, que tu próprio reconheces como justo, “houve de facto erros, a corrigir no futuro”, mas que em breve tudo se resolverá, se as pessoas tiverem “calma e paciência” e souberem “aguardar discretamente”.


4. Desvia as atenções. A forma mais prática de aliviar uma afta é martelar um dedo. Estudo de caso: há anos, um governo estava em crise com uma sucessão de demissões. Um ministro de génio (para estas coisas) marcou uma conferência de imprensa a anunciar a construção da terceira ponte lisboeta sobre o Tejo. Todos os jornalistas caíram no engodo – por malícia, naiveté ou pura cumplicidade. Aplica estes e os outros preceitos e terás a vida facilitada.


5. Usa factos. Não importa quais. E números. Muitos números. Mostra gráficos. Sê firme, mesmo que não saibas o que estás a dizer. Não te preocupes, com sorte o teu interlocutor não terá informação ou coragem para te confrontar, e o risco de seres apanhado é inferior a 1,6% (número que acabo de inventar, aliás). Quando te apresentarem factos contrários, responde que “são casos isolados”. Simplifica ao absurdo mas, se necessário, foge na direcção contrária, e diz que “a questão é demasiado complexa” para ser tratada “daquela maneira” na praça pública.


6. Chora lágrimas de crocodilo. Se não tiveres de crocodilo, chora lágrimas de raposa, de hiena, de lobo com pele de cordeiro, de rato de sacristia, de coelho à caçadora, de abutre, ou, na pior das hipóteses, de “intensa e enorme emoção”, porque tu, “pessoa razoável e pragmática”, raramente “cedes à emoção”, mas quando cedes ela é sempre intensa e enorme, porque tu és assim e “assumes” com plenitude a plenitude da plenitude.


7. Sabes que a crise tem unicamente por função baixar “o custo do trabalho”. Corrijo: também servirá para vender alguns anéis públicos, e os dedos que a eles vierem colados. Só que baixar o custo do trabalho é a prioridade. Infelizmente, não o podemos dizer desta maneira. Então mostra compaixão, geme, condói-te, solidariza-te, “compreende”. Etc. Faz como te digo e vais ver que tudo corre bem.


8. Defende e respeita a tradição. Porque a tradição é “a alma dum povo”. Lembra que, em contrapartida, para progredir é preciso “proceder a reformas necessárias”. E são sempre necessárias, essas reformas, ainda que “dolorosas”. Tu compreendes que são dolorosas, só que necessárias. Em simultâneo, tenta respeitar “as bonitas tradições do nosso povo e de nossos pais”. E nenhuma é tão bonita como o futebol.


9. Escolhe bem os funerais a que vais. Lembra-te: o morto é o menos importante, a pedra na sopa da pedra. Se te candidatas a herdeiro do trono, sê “discreto e humilde”, mas vai para a frente na fotografia. Lembra-te: quando foi confrontativo, Ronaldo perdeu; quando foi humilde, Cristiano ganhou.


10. Ignora aqueles que dizem: não mates o mensageiro. Matar a quem, senão ao mensageiro? Ignora aqueles que dizem que não se bate nos mais fracos: bater em quem, senão nos mais fracos? Nos mais fortes? Só os idiotas batem nos mais fortes. Não te armes em corajoso. Se quiseres mostrar coragem (até para desviar as atenções), empurra um bêbado ou humilha um criado.


Cumpre estas leis e poderás, pela calada, desobedecer a todas as outras. Ámen.»


 


Rui Zink, Público

A mais nobre solidão


 


À memória de Luís Seabra Duque


 


Faz hoje precisamente um ano que o agora Papa Emérito Bento XVI anunciou a sua resignação. O deplorável espectáculo do mundo entretanto agravou-se. Raztinger não ficará na história como um Papa banal nem tão-pouco como o profeta das trevas que muitos teimavam ver representado nele. Há décadas que vinha avisando a Igreja para se preparar a viver em ambiente minoritário e liberta espiritualmente do imperativo categórico da "correcção" contemporânea. Sabe que a sua sobrevivência, nestes tempos levianos e superficiais de efeito fácil, depende muito da intransigência em manter-se um olhar céptico e realista para dentro da própria Igreja, para a "condição humana" da Igreja - homens e mulheres dela, e leigos, já que ninguém é obrigado a ser cristão, muito menos católico. Como escreveu em A Luz do Mundo, «o Mal pertencerá sempre ao mistério da Igreja. Se olharmos para tudo o que os homens, e nomeadamente o clero, fizeram na Igreja, temos aí verdadeiramente uma prova de que Ele fundou a Igreja e a sustém. Se ela apenas dependesse dos homens, há muito que já teria perecido.» O Papa Emérito continua a ser, na nobre solidão do seu silêncio, uma das personagens internacionais mais estimulantes deste precário século XXI tão parco delas.

10.2.14

"Aviso de porta de livraria"


 


Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.


E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prêmio vil, mas alto e quase eterno.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata: que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n’alma.

A "Europa" e os seus medos


 


Reunidos na sua fortaleza de Bruxelas, os ministros dos negócios estrangeiros da UE estavam num estado de nervos por causa do referendo na Suíça. A porta-voz do dr. Barroso apareceu a "ameaçar" os helvéticos com a supremacia "unionista" e com a denúncia dos acordos em vigor entre a UE e a Suíça. Os cantões suíços foram chamados a pronunciar-se sobre a admissão de mais imigrantes e, consequentemente, pela fixação de quotas para esse efeito. Apesar de nas principais cidades de imigração - Genebra e Zurique - a maioria dos votantes se ter inclinado para não a limitar, o resultado global do referendo ditou o contrário. E a Suíça terá de alterar a constituição em conformidade num prazo de dois ou três anos. Não é, de facto, agradável para a "ideia de Europa" este constrangimento à livre circulação de pessoas. Mas faz igualmente parte dessa "ideia" a legitimação democrática das decisões apesar da tendência crescente para a legitimação "categórica" a partir da prevalência estatutária do eixo Berlim- Bruxelas. Com tanta auto-complacência e com tanto receio das pessoas, a "Europa" arrisca-se a uma pesada derrota nas eleições de Maio. A sra. Le Pen e os "seus", espalhados por esta Europa de Cristo, agradecem.

Um belo retrato

De acordo com os jornais, o Estado "apostou" cerca de 650 mil euros em escritórios de advocacia por causa dos "swaps", o gabinete do senhor PM "acomodou" 25 mil em "aparelhagem" telefónica, o Tesouro ("história" antiga) "investiu" 150 milhões no arquivo da RTP - embora a coisa tivesse sido levada nas contas da empresa à conta da amortização de um velho empréstimo, razão pela qual a "história" de vez em quando volta -, o Governo, segundo esse "grande vendedor de Portugal" (Pedro Reis dixit) que é o dr. Portas, não recua na "factura da sorte" que toma por uma ideia "simpática" (e que porventura o entreterá quando fechar o relógio do Caldas em Maio) e o dr. Seguro verbera o dito governo por causa do litoral devastado. Por outro lado, não há dinheiro para bolsas de investigação para os autoctónes mas o fatal dr. Lomba quer "atrair" congéneres estrangeiros a troco de "vistos Gold" do supra citado "vendedor de Portugal". Tudo junto, é um belo retrato. De uma república das bananas.

9.2.14

Um país de sacanas

 




Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glandulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.


 


 

Uma geração



Ontem, pelas nove da manhã, passou mais um programa de Ana Aranha, na antena1, da série No Limite da Dor. Era com Edmundo Pedro. Contou como  foram os seus nove anos no Tarrafal. Como foram passados esses nove anos da sua juventude no Tarrafal. A seguir, cá, meterem-no no Aljube de onde, na cela minúscula, enxergava um ponto específico da Sé que lhe permitia concentrar-se no ir e vir dos pássaros, a sua "evolução". Explicava isto tudo com um sorriso permanente, audível, no optimismo juvenil dos seus noventa e muitos anos. Isto, sim, é a "mais bem preparada geração de sempre".

Um político na Rua do Ouro




Vítor Gaspar é o primeiro dos ex-minstros do governo Passos Coelho a "explicar-se" em forma de livro, a partir de uma sequência de entrevistas com Maria João Avillez. Gaspar marcou indelevelmente o ritmo do XIX governo constitucional até ao dia 1 de Julho de 2013. Porventura antes desse dia em que apresentou formalmente a demissão, Gaspar já estaria "mentalmente" fora do barco. Nunca fora particularmente estimado pelos seus colegas nem tão pouco pelo Doutor Cavaco. "Tutelava", na prática, o primeiro-ministro a quem acabou por reconhecer não possuir "estofo" para suportar o "fardo da liderança". Traduzido para português, Gaspar "viu" que Passos Coelho precisava mais de "política", mesmo a pior, do que dele, o rosto do "enorme aumento de impostos" e da austeridade. Isto é, que, para manter as aparências, precisava de o sacrificar à politiquice de Portas. Portas foi promovido, arranjou um palácio para se instalar e anda pelo mundo atrás de empresários e dos negócios destes para aparecer na fotografia. Quanto aos pensionistas e contribuintes, públicos e privados, cujas almas ele encomendou ao Diabo a troco de pratos de pernil de porco preto que fazem sucesso em Caracas, foi-lhe cobrado moderação e silêncio complacentes salvo para impressionar totós políticos como o sr. Rajoy. Chamam a este enjoativo empadão "coordenação económica". Todavia Gaspar viu-se "vingado" no orçamento em vigor que mantém o fundamental do seu "programa" com as nuances (que ele não permitia) exigidas pelo calendário eleitoral e pelo estúpido relógio do Caldas. Terá todos os defeitos do mundo mas não é nem um oportunista nem um medíocre, duas espécies entretanto muito em voga na "zona de conforto" da maioria. Escreveu, com ironia e sem humildade, que falhou. As mesmas qualidades com que, decerto, contempla do seu gabinete da Rua do Ouro a "herança", ou a "massa falida", que persiste em nos pastorear.

8.2.14

Um pequeno terramoto para nada


 


Antes de o Bloco o "inventar", Rui Tavares tinha escrito o "pequeno livro" do terramoto de 1755. A coisa foi um "sucesso" e Tavares andou de capela em capela para promover a sua obra com a inevitável ajuda do comadrio do "meio". Tanto à esquerda como à direita, o livrinho foi incensado e Tavares passou a existir ofícialmente. O Bloco enfiou-o, presumivelmente pelo incontestável "prestígio" intelectual da criatura, como independente na sua lista para as europeias de 2009. Em princípio não seria eleito mas os resultados colocaram-no em Estrasburgo e à solta. Percebeu-se depois - o Bloco percebeu - que Tavares, afinal, não vestia outra camisola a não ser a sua. Já tinham decorrido pelo menos quatro anos desde que o homem havia adquirido o estatuto de subtil, lavrado publicamente graças à sua alegada "originalidade", e nada o impedia de o exibir lá fora contra a sua "barriga de aluguer" política. O país, evidentemente, ignora que Tavares sente encarnar a figura de mais um dos intermináveis salvadores da pátria a partir do lado esquerdino da mesma. Mas, à cautela, Tavares formou um partido com quinze (15) porta-vozes porventura para obrigar a pátria a reparar nele. Isto foi o suficiente para suscitar um tumulto irrelevante na pequena tribo das esquerdas que vagueia entre o bicéfalo Bloco, o dr. Louçã e os dissidentes fashion destes três que, tal qual Tavares, imaginam que Portugal não se safa sem o seu pernóstico "contributo". Com esta feira de pequenas vaidades urbano-depressivas, estas almas perdidas todas juntas apenas ajudam à "respeitabilidade" institucional do PC enquanto esperam por uma entrada ordeira e oportuna no PS que, vai para 40 anos, se habituou a recolher tresmalhados deste jaez. Um pequeno terramoto para nada.


 

7.2.14

O orientador e o orientado

De acordo com o semanário Sol, "Miguel Poiares Maduro vai pedir um parecer jurídico para saber se Alberto da Ponte pode ou não ser obrigado a revelar o montante pago [a Nuno Santos]. O ministro quer perceber qual o valor juridicamente mais protegido: a necessidade de transparência na prestação de contas de uma empresa pública ou uma cláusula de confidencialidade num acordo entre a empresa e um trabalhador." Assim sendo, será preciso "somar" este parecer aos custos que o antecedem. Não seria mais prático, e politicamente mais adequado, "repensar" Alberto da Ponte? Por exemplo, o que é que justificou a sua presença na Guiné Equatorial há pouco tempo? O serviço público de rádio e televisão português? "Plataformas" e "conteúdos" para a nova e inquietante "lusofonia"? Um mistério. Poiares Maduro, na qualidade de tutela "técnica" e de "orientador estratégico" de A. da Ponte, talvez tenha respostas. Mas às vezes pergunto-me se a coisa não teria ficado mais adequada nas mãos de Marques Guedes, o ministro da presidência. Aposto que a infinita tagarelice em torno da RTP, muito em redor do ego do seu presidente, já teria terminado.

Inimigos de objectos interpretáveis

Vasco Pulido Valente, no Público, não deixa de ter alguma razão quando pergunta "a que propósito andamos nós preocupados com Miró" ao mesmo tempo em que, por exemplo, "não se investe na reabilitação urbana, nem em monumentos em ruínas ou perto disso, nem em bibliotecas, nem em arquivos". Por outro lado, «em Dezembro, 99 por cento dos portugueses nunca tinha ouvido falar, nem queria ouvir falar em Miró. Na oceânica ignorância em que “a geração mais bem preparada de sempre” rejubila, isto é um pormenor sem qualquer importância. Eles não sabem nada de pintura, como de literatura, como de história; nem sequer sabem que a água ferve a 100 graus C; mas conhecem em pormenor as bandas pop com que foram criados e muito mal criados, e o que se passa dia a dia no facebook». No fundo, Miró viria juntar-se um pequeno número de pérolas a porcos por que passam algumas escassas coisas materiais e imateriais que aparentemente só interessam a "amigos de objectos interpretáveis" para recorrer a um título de Miguel Tamen. E, de facto, os tempos parecem dar razão a quem acha que estes "objectos interpretáveis", desde que representem "dinheiro chave na mão", podem ir à vida, directamente "a" mercado porque decerto contribuirão para "atenuar" os mais de cinco mil milhões de euros que a portugalhada foi forçada a enfiar no excrementício BPN. Sucede que não é pela circunstância de os quadros ficarem ou não em Portugal que se passa a "investir" na reabilitação urbana, em "monumentos em ruínas", em bibliotecas ou em arquivos com bem enuncia Pulido Valente. Nada disto é "empreendedorismo", "inovação", "excedente orçamental" ou, muito menos, uma realeza denominada "empresa" que é o orgão masturbatório por excelência de quem fala alto na praça pública e despreza, por ignorância atávica, as inúteis humanidades que, por descaso delas, "formaram" uma civilização. Nem tão pouco "dão" carros topo de gama em troco de "facturas da sorte" que mereceram dos nossos vizinhos espanhóis o condescendente epíteto de "pitorescos". Não. Nós somos velhos e relapsos "inimigos de objectos interpretáveis" e, consequentemente, como escreveu Jorge de Sena, «uma lamaceira aonde a gente só esparrinha a lama.»

6.2.14

Nem tudo foi mau



O uso da capa de um exemplar do DN indispôs a detentora do jornal com a editora do livro. Independentemente disso, a resolver porventura em outra sede, o conteúdo deste decerto contribuirá para tentar perceber o denominado PREC e o papel conspícuo de algumas pessoas "conhecidas", por exemplo, por mais "nóbeis" motivos. Muito antes do PREC, todavia, o tradutor e editor José Saramago prestou bons serviços à cultura portuguesa como Jorge de Sena atesta em carteio vário da época. Falta, pois, publicar, também em livro, a correspondência Sena-Saramago. Nem tudo foi mau.

Posição de Estado


 


Nem toda a gente sabe mas ao Ministério Público (MP) não cabe apenas a tarefa de promover a accão penal. Também - e vêm de longe estes nobres e cidadãos propósitos - lhe assistia (sob a então figura do "procurador da justiça" das Ordenações Afonsinas) procurar "bem todos os feitos da Justiça, e das Viúvas, e dos Orphãos, e miseráveis pessoas, que aa Nossa Corte vierem". No século XIX, com M. da Silveira, o procurador geral da Coroa velava "tanto nos objectos do interesse da Corôa, como nos da Fazenda Pública" e, subsequentemente, pugnava "pelos justos e bem entendidos direitos da Fazenda Pública". No dealbar do século passado, ao MP competia a "defesa da propriedade nacional", "o apoio consolador da fraqueza, o accusador terrível dos maus, a salvaguarda do interesse publico contra pretenções sempre renascentes de interesse particular". A Ditadura de 1926 apresenta-o como "representante do Estado e da sociedade e fiscal do cumprimento da lei" e o actual regime, com a sua Constituição, confere-lhe o estatuto de magistratura, ao lado da judicial, da qual se espera que "represente o Estado" e "defenda os interesses que a lei determinar". É neste lastro que devem ser entendidas as palavras de Joana Marques Vidal, a actual PGR: «Em entrevista ao jornalista da RTP, Vítor Gonçalves, Joana Marques Vidal defendeu que a colecção [Miró] é “um acervo que não deve sair do património cultural do país”. E justificou as duas acções até agora interpostas pelo MP como uma “obrigação” deste organismo». Horas antes, o senhor primeiro-ministro, para falar deste assunto, usou termos como "projecto chave na mão" (a "mão" seria a da leiloeira Christie's) como se fosse um mero funcionário (sem desprimor para estes) da Remax e não um representante politicamente qualificado do Estado português. E insistiu que a decisão de vender estava tomada e não se falava mais nisso. Ora Joana Marques Vidal, em boa hora, acabou por assumir a posição de Estado que Passos Coelho rasurou com as suas despropositadas declarações. Em poucas palavras, a PGR "explicou" ao senhor primeiro-ministro que o Estado e a defesa do interesse público não são apenas continhas de somar e subtrair. Para além disso revelou ter mundo, coisa que começo a duvidar que o senhor primeiro-ministro tenha.