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27.7.10

«SALAZAR NA HISTÓRIA»


Segue-se, editado por mim, o artigo de Rui Ramos publicado no Expresso (suplemento Actual) do passado sábado. Não na versão "lulizada" a que o Expresso agora se entregou (com a excepção de dois ou três articulistas), mas no português original do R. Ramos que, amavelmente, me cedeu o texto a minha instância. As fotos de Salazar datam de 1962 e foram feitas para a revista Life por Paul Schutzer.

SALAZAR NA HISTÓRIA

POR RUI RAMOS

No dia 27 de Julho, passam quarenta anos desde a morte de Salazar: tanto tempo como o que ele esteve no poder (1928-1968). Hoje, é preciso ter mais de 60 anos de idade para ter sido adulto sob o seu governo. Já lhe podemos dar a devida sepultura histórica? E como?

Os quarenta anos de governo de Salazar deixaram um rasto bibliográfico de apenas seis volumes de discursos -- Mário Soares, em apenas uma década de presidência da república, produziu dez. Salazar não falava muito. Nós, em contrapartida, falamos muito de Salazar. Um site livreiro oferece cerca de 60 livros, saídos ou reeditados nos últimos três anos, com o nome de Salazar no título. Salazar “vende”. Dedicamos-lhe mais atenção do que a qualquer outra figura histórica. Mas já é apenas isso que ele é, história?

O atraso.
Salazar foi ditador de um país rural e pobre. E nas características deste país esteve sempre a maneira mais fácil de o despachar historicamente. Eduardo Lourenço, num texto da década de 1960, chamou-lhe “camponês letrado”. De facto, quem melhor do que o filho de “pobres” de Santa Comba Dão, ex-seminarista com sotaque provinciano, que quase não viajou para fora do país, que escrevia como um frade do século XVIII e levava a vida de um pároco rural do século XIX, com governanta, quintal e galinheiro -- quem melhor do que ele para corporizar o “atraso” e carregar a respectiva culpa?

O problema está em que, se quisermos ser exactos, teremos de admitir que foi precisamente com Salazar que Portugal começou a ser menos pobre, menos analfabeto e mais europeu. É verdade que mesmo alguns salazaristas se mostraram impacientes com a sua obsessão financeira. No entanto, os seus orçamentos equilibrados e inflação baixa, se adiaram gratificações, pouparam os portugueses às crises fiscais e da balança de pagamentos que, antes dele e depois dele, destruíram riqueza e frustraram expectativas. A partir da década de 1950 e até 1974, Portugal conheceu as taxas de crescimento mais altas da sua história. A estrutura da economia portuguesa mudou. E não, Salazar não tratou apenas de conter as reivindicações dos empregados e favorecer alguns empresários. Foram os seus governos que estabeleceram os primeiros sistemas de protecção social efectivos e que conseguiram escolarizar pela primeira vez uma geração inteira.
O Estado Social em Portugal foi salazarista antes de ser democrático. Tal como a integração atlântica e europeia, começada com as adesões à OECE (1948), à NATO (1949) e à EFTA (1960). Sem estes sucessos, Salazar não teria durado. Para muitos, o salazarismo viabilizara uma transformação económica e social que outros regimes tinham proposto, mas falhado. É isso que Salazar significa -- Um instrumento brutal de modernização? Mas é um erro reduzi-lo a um fenómeno sócio-económico.



A ditadura.

Quando comparamos a ditadura salazarista com as suas contemporâneas, quer na década de 1930, quer na década de 1960, a contabilidade repressiva é modesta. Não dispôs do “gulag” de Estaline, nem do “paredón” de fuzilamento de Fidel Castro. Nunca teve mais presos políticos do que a I República (2382 no ano de 1912), e no fim tinha até muito menos (128) do que viria a haver nas prisões do PREC em 1975 (cerca de 1000).

Mas não nos devemos enganar. A ditadura de que Salazar esteve à frente desde 1932, quando assumiu a chefia do Governo, foi mesmo uma ditadura, com censura, tortura nas prisões, penas indefinidas e discriminações políticas. Pareceu “moderada”, porque, como explicou Manuel de Lucena, era meticulosamente “preventiva”. Todos em Portugal estavam à mercê do poder, sem real protecção jurídica. Num país pequeno e pobre, com um Estado centralizado e dirigista e uma sociedade civil fraca, não era difícil fomentar o respeito pelos “poderes constituídos”. Salazar não se propôs fundar, como outros ditadores, uma sociedade racialmente pura ou sem classes. Pôde assim aproveitar o efeito disciplinador das hierarquias estabelecidas. Aos eventuais revolucionários, faltou sempre as habituais massas de manobra: nem grandes populações operárias, nem camponeses sedentos de terras.

O Estado Novo era, como Salazar gostava de dizer, um regime suficientemente “forte” para não precisar de ser violento. Mas nunca houve dúvidas de que podia ser implacável. Deixou morrer três dezenas de anarquistas e comunistas no campo do Tarrafal, em Cabo Verde, entre 1936 e 1945. Perseguiu e exilou o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em 1958-1959. E pelo menos encobriu ou não investigou o assassinato do general Humberto Delgado por agentes da PIDE em 1965. Salazar fazia ideia do que tudo isto significava. Quando o ministro dos negócios estrangeiros, a 27 de Abril de 1965, lhe comunicou a descoberta do cadáver de Delgado em Espanha, Salazar disse-lhe “em tom ciciado, como se alguém na sala nos pudesse ouvir”: “este assassínio é o tipo de coisas que pode desmantelar um regime”. Foi então o salazarismo simplesmente um intervalo ditatorial da história portuguesa? A história é mais complicada.


Um mal menor.

Salazar foi o primeiro chefe de governo, desde 1834, que não era liberal ou republicano. Era um conservador de tipo tradicionalista. Ora, Portugal, antes de Salazar, não parecia um país para conservadores. As instituições tradicionais, da nobreza à igreja, tinham sido liquidadas ou reduzidas. As maiores forças políticas organizadas eram de esquerda. Salazar subiu ao poder graças à Ditadura Militar, estabelecida em 1926, mas essa ditadura só foi possível pelo colapso político das esquerdas na década de 1920, divididas pelo radicalismo jacobino, desacreditadas pelo descontrole financeiro e confundidas pelo advento do comunismo soviético. Os velhos generais republicanos e maçons que dirigiram a Ditadura Militar entre 1926 e 1932 sobreviveram no poder porque encontraram defensores determinados em jovens oficiais direitistas e aliados compreensivos no clero, mas também porque muitos liberais e republicanos acabaram por optar pela neutralidade ou encostar-se à ditadura. O que lhes trouxe Salazar?

A última impressão que deixou, a do velho de 1968, faz esquecer a primeira impressão, que explica o seu sucesso: a do jovem de 1928, o professor universitário de 39 anos, disciplinado, trabalhador, realista, que não se parecia com ninguém na classe política. Muito magro, com uma voz ciciada, o ministro das finanças não era uma figura imponente, mas fez embasbacar toda a gente com o orçamento sem défice e a moeda estável. Os portugueses votaram com o dinheiro: na década de 1930, voltaram a pô-lo no país, donde o estavam a tirar desde 1910.
Salazar propôs-se “baixar a febre politica”, ensinar os portugueses a “viver habitualmente”. O seu poder assentou na garantia que, com ele, o governo nunca tomaria opções que compelissem todo um sector dos que apoiavam a ditadura a passar à oposição. O cepticismo que o impedia de acreditar nas piedades progressistas, também o coibia de fantasiar a possibilidade de restaurações de qualquer passado. Não haveria domínio da esquerda, nem da direita, mas um equilíbrio flutuante. Teve assim geralmente a seu favor, o presidente da república, o general Carmona, isto é, a hierarquia das forças armadas. Com a guerra civil de Espanha ao lado e depois a II Guerra Mundial em todo o continente, muitos portugueses apreciaram esta paz salazarista

As linhas de confronto nunca foram tão simples como em Espanha, onde a ditadura de Franco emergiu de três anos de guerra civil. Sobre o ministro Duarte Pacheco, o próprio Salazar comentava na década de 1960: “Bastante das esquerdas, mas como tinha grande ambição de poder, adaptou-se com facilidade”. Não por acaso, o Estado Novo proporcionou pessoal a todos os partidos da nova democracia depois de 1974. E isso foi possível porque Salazar teve em seu redor católicos e monárquicos, mas também republicanos e maçons. Até o V Governo Provisório de Vasco Gonçalves, em Agosto de 1975, teve direito a um representante do Estado Novo, na pessoa do professor José Joaquim Teixeira Ribeiro, vice-primeiro ministro.

E a liberdade? Não havia saudade de partidos, de eleições, de imprensa sem censura? Acontece que como Salazar explicou num discurso de 18 de Maio de 1945, “antes de nós e por dezenas de anos --- reconhecemo-lo com tristeza – as ditaduras foram a forma corrente da vida política e vimo-las alternar-se ou suceder-se quase ininterruptamente, sob formas diversas”. Em 1945, Salazar podia confiar em que os seus ouvintes se lembrassem do tempo em que, embora houvesse vários partidos, a rotação no poder só podia ser efectuada pelo Chefe de Estado (como no tempo da monarquia constitucional, antes de 1910) ou em que as oposições eram violentamente perseguidas (como durante o domínio do Partido Republicano, depois de 1910). Nunca, antes de 1926, as eleições, envolvendo apenas eleitorados restritos e tutelados, haviam sido consideradas genuínas ou livres. Ou seja, a separação entre o Estado Novo e os regimes seus antecessores não tinha a clareza da separação entre o Estado Novo e a actual democracia.

Durante a maior parte do regime salazarista também não foi claro que uma democracia como a de hoje fosse a alternativa. Numa exposição de 30 de Maio de 1944, o líder do PCP Álvaro Cunhal reconheceu que as oposições, se vencessem, não estavam em condições de garantir mais liberdade aos seus adversários. O salazarismo não existiu no mundo “pós-histórico” de Francis Fukuyama. Mesmo no ano da morte de Salazar, em 1970, a maior parte do mundo vivia sujeita a autocracias mais ou menos violentas, a começar pela vizinha Espanha.

E havia, para a elite portuguesa, coisas mais importantes do que a liberdade. Ezequiel de Campos, deputado republicano e colaborador da Seara Nova, foi outro dos que se juntou a Salazar. Um dia, confessou ao seu amigo João Sarmento Pimentel, exilado, que sacrificara a sua “ideia de liberdade” para realizar os seus projectos de desenvolvimento. Salazar insistiu em apelar a “todos os homens, independentemente da sua origem e categoria, do seu credo religioso, de suas preferências de regime, de suas antigas filiações partidárias, para um trabalho de conjunto a bem da Nação”. Para dar cobertura a essa colaboração, o regime dispensou outras profissões de fé que não o “repúdio do comunismo” e apropriou-se eficazmente da cultura do patriotismo moderno desenvolvida por liberais e republicanos no século XIX. Utilizou a prioridade que todos atribuíam à tarefa de inverter o processo de suposta “decadência” nacional para pedir que o julgassem pelos resultados, não pelos meios. A cultura política das elites portuguesas, para quem a liberdade se tornara secundária em relação ao desenvolvimento, estava desarmada de argumentos, tanto à direita como à esquerda, perante uma ditadura bem sucedida. Significativamente, os momentos de maior contestação e incerteza do regime coincidiram com dificuldades financeiras, quando pareceu incapaz de proporcionar a prosperidade que prometia (em 1945-1949, por exemplo).



Entre 1928 e 1968, o poder de Salazar não foi sempre o mesmo, nem o pessoal que o rodeou. Mas o salazarismo conseguiu parecer, em vários épocas, simplesmente a organização das elites sociais e intelectuais portuguesas – baseadas numa administração autocrática e centralizada, secundada pela Igreja e pelas Forças Armadas, e na subalternização política da população, já praticada por todos os regimes anteriores – para administrar e desenvolver o país. É verdade que a decisão do regime se manter pela força fazia dele a via única para quem queria exercer influência ou fazer carreira. Mas contou também a habilidade de Salazar. Soube usar as máximas da Antiguidade clássica: o tirano podia ser suportável se desse ideia de que não dominava para interesse pessoal. O “bom tirano” era, em primeiro lugar, um tirano sobre si próprio. E foi assim que Salazar se apresentou – sacrificado ao bem público, privado de ócios, de prazeres, de liberdade ... Nunca ninguém contestou a sua honestidade pessoal. Ouvia muita gente. Fez do “equilíbrio de correntes” um princípio fundamental. Evitou sempre definir-se claramente em relação às questões que sabia serem fracturantes (por exemplo, a forma do regime).

Para muitos, neste contexto, o Estado Novo foi o que Marcelo Caetano disse francamente a Salazar em 1948: “um mal menor que se suporta, mas a que não se adere”. O salazarismo gerou mais colaboração agnóstica do que adesão entusiasmada ou oposição intransigente. Só que, para desespero de Caetano, Salazar comportava-se como se isso lhe bastasse.


Um equívoco.

Alguns dos líderes democráticos europeus ou americanos desculpavam Salazar, admitindo que talvez Portugal não pudesse produzir, em democracia, uma maioria anti-comunista, como os outros países da Europa ocidental. Era mesmo assim? A verdade é que, em 1975, nas primeiras eleições livres e com sufrágio universal, o país começou a provar o contrário. Mas Salazar nunca pensou recorrer à população em pé de igualdade com os seus adversários. Por um lado, como explicou em Fevereiro de 1946, a exigência de liberdade pela oposição de esquerda parecia-lhe um truque de guerra: “sabemos bem que a exigem para vencer e a dispensam para governar”. Por outro, descreu doutrinariamente das vantagens de submeter o poder à competição entre partidos num mercado eleitoral. Os interesses podiam ser representados por corporações e o bem comum melhor defendido por uma autoridade executiva independente. Anunciou ter descoberto uma fórmula política original, salvaguardando em simultâneo a direcção do Estado e a autonomia da sociedade. A verdade, porém, é que nunca acabou de instalar este regime, supostamente alternativo tanto ao comunismo russo, como à democracia liberal de tipo inglês e francês.

O salazarismo viveu de durar. Mas para durar, num século de grandes sobressaltos e deslocações súbitas e num país em mudança, nunca pôde definir-se e estabilizar-se. O tempo foi de transições rápidas. A constituição de 1933 poderia ter servido para vários regimes. E, de facto, foi servindo. Ao longo da década de 1930, perante os triunfos de Hitler e de Mussolini, Salazar fez o Estado Novo lembrar o regime fascista italiano, com milícias, saudações romanas e uma retórica “revolucionária”, embora rejeitando sempre o modelo do “Estado Totalitário” e mantendo-se aliado da Inglaterra. Durante a II Guerra Mundial, aproveitou o facto de os beligerantes terem deixado a península fora da guerra e procurou servir ambos os lados, com lucro. Em 1945, com a vitória das democracias ocidentais, aliadas à União Soviética, enalteceu o seu auxílio à causa anglo-americana, reviu leis, fez logo novas eleições, e começou a falar de “democracia”, embora “orgânica”. Conservou-se, porém, intransigente com a renascida oposição de esquerda.



Enquanto regime, o Estado Novo nunca perdeu o ar de algo inacabado e impreciso, próximo do “começo” – e, portanto, também de um possível fim. Ao longo de décadas, foi mais uma “situação” (como aliás se dizia), um governo, do que propriamente um regime. O corporativismo, por exemplo, nunca saiu completamente do papel. Tudo, de facto, se resumia à “chefia personalizada” de Salazar, que fundamentalmente conservou a estrutura de poder inicial: uma ditadura militar com um chefe de Governo civil que dirigia directamente a censura e a polícia política. Ao passar pela direcção da União Nacional na década de 1950, Marcelo Caetano descobriu que o Governo era “a única realidade política activa, apoiado no aparelho administrativo e nas polícias” (a administração expandir-se-ia de 30-40 mil funcionários na década de 1930 para cerca de 200 mil na de 1960). Adriano Moreira viu o Estado Novo como um edifício de presidências, conselhos, assembleias e outros “órgãos que não tinham funcionado nunca com responsabilidade própria, e apenas estavam apontados na Constituição”. Em 1951, no congresso de Coimbra da União Nacional, Caetano perguntou abertamente: “O Estado Novo será verdadeiramente um regime, ou não será mais do que o conjunto das condições adequadas ao exercício do Poder por um homem de excepcional capacidade governativa?”

A resposta era óbvia. Ao longo do tempo, desenvolveu-se à volta de Salazar uma espécie de vida de corte, cujas intrigas ele próprio alimentava, com o sangue frio que lhe dava a convicção da sua própria superioridade. Em Setembro de 1966, observou a Franco Nogueira que em Espanha “o Franco está fazendo uma experiência, criando um princípio de caos, para depois ter fundamento para fazer regressar tudo ao começo e à sua autoridade”. E quanto a ele próprio, “não se me dava de um bocado de caos e confusão cá dentro, acho divertido”. O poder pessoal, exercido com tanta dureza como malícia, começou a parecer a muitos o motivo egoísta da ditadura. Significativamente, nenhum dos possíveis sucessores – e portanto, potenciais rivais -- do “chefe” alguma vez escapou ao saneamento. Em 1965, numa carta particular, Caetano, uma das vítimas, concluiu: “o Dr. Salazar não queria instaurar um regime, mas sustentar um equívoco que lhe permitisse governar, dividindo”. Isto tinha uma implicação: a aglomeração de facções divididas poderia não sobreviver ao seu manipulador-em-chefe.

E o tempo começava a não lhe perdoar. A 12 de Junho de 1968, “muito pálido, esmorecido”, Salazar repetiu num conselho de ministros a exposição que fizera no do dia anterior. Nenhum dos ministros lhe chamou a atenção. Tinha então 79 anos de vida e 40 de poder. Queixava-se já muitas vezes. Em Abril de 1966, desabafara com Franco Nogueira: “Estou perdendo faculdades. Não posso trabalhar como dantes. Já não acompanho os ministérios, e os ministros fazem o que querem”. No país, a transformação económica e social, de que o regime precisou para se legitimar, fazia desaparecer a velha sociedade rural e hierarquizada. Uma população escolar em expansão (o número de estudantes universitários duplicou então) protagonizou uma ruptura geracional de valores. O Vaticano II minou o clero mais conservador. Em 1970, 75% da população tinha nascido depois da subida de Salazar ao poder: a comparação que para essa gente tinha sentido não era com os regimes anteriores, mas com outros regimes europeus. O crescimento da inflação, depois de 1965, prenunciou desequilíbrios. Tudo começava a precisar de ser refundado, como Marcelo Caetano tentou fazer depois de 1968.

Mas Salazar na década de 1960 não estava preparado para sair de cena. Inventou mesmo, com a opção de manter a administração portuguesa em África, uma última razão para o seu poder. O colonialismo não começou com Salazar. O que ele fez, aliás, foi até acabar com os seus aspectos mais bárbaros. Liberais e republicanos tinham viabilizado as colónias submetendo as populações ao trabalho forçado administrado pelo Estado. Em 1961, Salazar consentiu que Adriano Moreira pusesse fim à sujeição dos “pretitos”, como dizia. Mas decidiu que Portugal seria a excepção entre as potências coloniais europeias. Muitos opositores republicanos fizeram questão, pela primeira vez em trinta anos, de aplaudir o regime. Salazar tomou o partido da resistência à descolonização porque no caso português, com colónias pouco povoadas e subdesenvolvidas, era possível fazê-lo (foi sempre um realista). Mas acima de tudo, porque terá calculado que a “defesa do ultramar” cancelaria a perspectiva de uma “normalização” à maneira ocidental que, em 1961, perante a pressão anticolonial dos EUA, seduziu a hierarquia do exército.

O homem creditado com ter poupado o país à II Guerra Mundial envolveu-o agora no maior esforço militar de uma nação ocidental desde 1945. Salazar explorou então uma mística histórica, assente na presumida actualidade da expansão ultramarina, que levou Eduardo Lourenço a admitir que “o Portugal de Salazar foi o último que se assumiu e viveu como um destino”. Mas era o destino de um beco sem saída, que reduziu de vez o regime a um enorme castelo no ar. A guerra pôde ser feita, mas acabou por tornar-se insuportável. Por isso, o salazarismo, se bem que tivesse sido capaz de organizar uma sucessão interna em 1968, já não conseguiu, ao contrário do franquismo em Espanha, enquadrar uma transição democrática. Terminou num enorme fracasso, como acontecera aos regimes anteriores.

Numa quinta-feira de céu cinzento, a 25 de Abril de 1974, tudo foi derrubado como um cenário de papelão. Nenhum movimento político importante reivindicou, desde então, as ideias de Salazar. Em 2007, a sua vitória num concurso televisivo foi mais um sinal de iconoclastia, contra o velho antifascismo oficial, do que de saudosismo. Valem-lhe os antifascistas para o conservar ameaçadoramente “vivo”. Terá ele imaginado este fiasco final? Nos seus últimos anos de vida, entre 1968 e 1970, não lhe disseram que fora substituído no governo, mas, como notou Adriano Moreira, ele também não perguntou. Nunca quis saber o resto da história.

5.6.10

O ÓBVIO E OS OBTUSOS


«Rui Ramos, que declara francamente ser um homem de direita e que, além disso, já publicou uma obra importante, é uma criatura que a ortodoxia reinante, académica e jornalística, não engole com facilidade. Paga hoje, e pagará sempre no futuro, pelo talento, pela inteligência e pela cultura que ele tem e outros não têm. Nada de espantar, neste pequeno Portugal. A ideia de fazer dele "simpatizante" póstumo do "salazarismo" (de resto, uma alegação inteiramente falsa) não passa de uma tentativa um pouco pueril de o diminuir e salvar o jacobinismo da esquerda de um imaginário "ataque". Convém começar por dizer que nenhum dos críticos que apareceram neste jornal é especialista da I República e que alguns nem sequer nunca foram historiadores. Pela simples razão de que a mais vaga familiaridade com a ditadura do Partido Democrático de Afonso Costa e de António Maria da Silva e com a guerra civil endémica que o "5 de Outubro" (e não o "28 de Maio" ou Salazar) inaugurou em Portugal lhes mostraria que a I República não precisa que a "diabolizem". Um "estado de coisas" (porque não se pode chamar ao que então existia um verdadeiro regime) em que se matavam cidadãos pelas ruas na maior e mais santa impunidade (incluindo um primeiro-ministro) e em que grupos terroristas muitas vezes mandavam de facto no Governo não se recomenda por si próprio ao mais faccioso campeão da igualdade e do "progresso". Quanto a Salazar, é bom não esquecer o caos de onde saiu e a espécie de Europa em que viveu. A questão puramente nominalista de arrumar ou não o Estado Novo na prateleira do "fascismo" (com que tantas cabeças se consumiram) não leva a nada. Como não leva a nada contabilizar as vítimas (bastava uma) ou fingir que se mede o grau de repressão (dura, branda, dura e depois branda, e por aí fora). O essencial é tratar o Estado Novo como resultado da situação externa e interna portuguesa e não como um epifenómeno do que sucedeu em Itália, na Alemanha e, mais tarde, em Espanha. E isso Rui Ramos conseguiu - com equilíbrio e penetração. Quem não gosta que escreva uma História de Portugal como ele escreveu. Se for capaz.» Vasco Pulido Valente, Público

31.5.10

O "PROGRESSISMO" ALARVE


Gostava que o Rui Ramos respondesse a este texto (acaba por o fazer lá dentro) - como se costumava dizer - caviloso da sra. D. São José Almeida, eivado de preconceito e de "historiadores" com dor de corno porque não conseguiram escrever uma História de Portugal como a que ele coordenou. É esta a "cultura" do canastrão Alegre, não se esqueçam. Uma espécie de "progressismo" alarve, o galarim dos eternos compadres e comadres que se imaginam donos da "verdade" histórica. Porque são prosaicamente "de esquerda" e mandam genericamente na academia há trinta e tal anos onde só trocaram de partido.

1.5.10

PALAVRAS SENSATAS EM TEMPOS SOMBRIOS


As de Rui Ramos, ao i.

«O regime percebeu que não se pode identificar com um regime repressivo, antidemocrático, anti-feminista, colonialista [a 1ª República] e, por outro lado, a crise actual não dá para grandes festejos. E essa comemoração está muito longe... ninguém está a reparar.»
«Alguma coisa está errada com a História que se ensina na escola.«
«Espero francamente que José Sócrates não fique na História porque se ficar terá de ser pelas más razões. Não sei prever o ano que vem, mas neste momento aquilo a que pode ficar associado não é nada de bom. Em 2005, tentou protagonizar uma viragem, finalmente as reformas, mas pode ser lembrado como aquele primeiro-ministro que estava no governo quando o país entrou em bancarrota. Esta é uma das mais graves crises dos últimos 100 anos»
«O partido que domina o governo há 15 anos é o PS, que tentou convencer os portugueses que a despesa pública era a maneira de criar riqueza a Portugal. A economia parou e estagnou. Finalmente, todos os que estiveram no poder nos últimos anos e continuaram a linha do PS. Há ainda a responsabilidade colectiva, porque estas pessoas foram eleitas por nós. O maior problema de Portugal é o endividamento do Estado, mas também é o dos particulares, que também foi fomentado. Mas esse endividamento privado corresponde também a decisões individuais e as pessoas devem assumir as suas próprias responsabilidade.»
«Este país nunca foi, em relação aos países mais ricos da Europa, mais rico do que é hoje. Fomos sempre um país periférico pobre. Mesmo nas Descobertas e noutras alturas que identificamos na História, sempre fomos: éramos mais pobres do que a Holanda, por exemplo. Há um teste simples: fazer turismo e comparar igrejas e palácios que existem nos diferentes locais, as que há em Inglaterra, mesmo na Idade Média, e as que havia cá. Fomos sempre mais pobres. Mas sempre aspirámos a mais do que éramos.»
«Até à década de 60 tivemos uma das populações mais jovens na Europa Ocidental - disponível para arriscar, experimentar, ir fazer outras coisas. Mas nestes 40 anos tornámo-nos numa das populações mais envelhecidas da Europa, mais carregada com dívidas. Não é por acaso que somos dos países onde há mais casas por habitante e a percentagem de casa própria é a maior. Tornámo-nos velhos, sedentários e comprometidos.»
«No século XX já passámos por grandes dificuldades, por problemas maiores que este, mas sempre com a sensação de que havia recursos e capacidade e que se conseguia dar o salto e subir das dificuldades. É a primeira vez em que, para toda a gente que está vivo em Portugal, olhamos para a frente e vemos um caminho a descer independentemente das dificuldades. Historicamente, isto é uma novidade. Uma incerteza em relação aos custos e à solução, mas uma incerteza em relação à capacidade de resolver.»
«É fundamental um Presidente da República que afirme a ideia que um país tem que fazer contas. Como todos temos que fazer em nossas casas.»

15.1.10

É POUCO

Gosto muito de ler o Rui Ramos e gosto do Rui, alguém a quem, neste deserto feito de deslealdades e de bizarras metamorfoses, devo atenções pessoais. Por isso mesmo, não posso deixar de me interrogar acerca do que é que o levará a apresentar um livro de Passos Coelho que, na prática, é o panfleto de Passos Coelho no déjà vu obsessivo de presidir ao PSD. Dir-se-á que também apresentou um de Paulo Rangel. Mas o livro de Paulo Rangel retoma uma ilustre linha ensaístico-política que se perdeu desde o desaparecimento de Lucas Pires e a que poucos conseguem, mesmo tentando tenazmente, aceder. Coelho só poderia produzir uma coisa com base na única ideia política que tem na cabeça, i.e., a de mandar no PSD como um vulgar "empresário". É pouco.

19.11.09

PORTUGAL, UMA BIOGRAFIA POLÍTICA - 1

Lê-se no prefácio de Rui Ramos ao livro ali à direita: despertar «a atenção para a importância da História como meio de dar profundidade à reflexão e ao debate público sobre o país, por vezes demasiado circunscrito por uma tecnocracia «presentista», para quem Portugal parece ter começado hoje.» Para a semana, depois de lido, fica prometido um post.

7.8.09

OS LIBERAIS TAMBÉM SE ENGANAM

Gosto muito do Rui Ramos do "D. Carlos" e dos ensaios sobre história de Portugal. Também aprecio o Rui Ramos das crónicas do Público, primeiro, e agora do Correio da Manhã. Todavia, o Rui Ramos que escreve isto não é exactamente o mesmo. É mais o "ideólogo" que aparece ao lado do sr. Carrapatoso, do "Compromisso" do Beato e de Passos Coelho que ninguém, até hoje, me consegue explicar o que é que tem para além daquele sorrisinho inexpressivo e, pelos vistos, "liberal". É o que digo. Esta coisa de ser liberal dá para tudo. Até para o Rui Ramos ser e não ser a mesma coisa, como explicaria desalinhadamente Séneca.

27.1.08

A PIOLHEIRA


Sexta-feira próxima passam cem anos sobre o regicídio. D. Carlos I regressava a Lisboa. Desembarcou, cerca das 17 horas, no Cais das Colunas, meteu-se na caleche com a Rainha e os dois filhos, seguiu para a Rua do Arsenal e, na esquina com o Terreiro do Paço, os tiros traidores acabaram praticamente com a monarquia constitucional e com o liberalismo, no sentido benigno do termo. Até hoje. Dois anos depois, o "PRP" do dr. Afonso Costa tomou de assalto o Estado e reduziu a tradição liberal a uma caricatura. Écrasez l'infâme - isto é, o "rebanho" constituído pelo "povo" que ignorava e desprezava uma República erguida, no fundamental, contra o "povo" e a igreja - foi o lema do Partido Democrático do dr. Costa durante o nefasto período em que nos pastoreou a partir de Lisboa. O Estado Novo recolheu os despojos, eliminou o pior jacobinismo, cavalgou o despeito popular do interior e da tropa contra os "progressistas" do dr. Costa, e aproveitou a sementeira anti-liberal e anti-democrática da I República para instalar a sua própria. Tecnicamente o "25 de Abril" poderia ter recuperado essa tradição liberal interrompida pelos assassinos de 1 de Fevereiro de 1908. Não conseguiu. O "reformismo" de que se reclama o actual sucessor do dr. Costa, o eng. Sócrates, esbarra com uma coisa chamada país, uma notória maçada para qualquer "iluminado". Ninguém "reforma" ninguém que não aspire a ser "reformado". Muito menos em "democracia" onde o escrutínio é, na forma, total. E, sobretudo, ninguém aceita ser "reformado" por "políticas" que não lhe foram previamente anunciadas. Banalizou-se a mentira de Estado por troca com o compromisso eleitoral. Ainda ontem Sócrates prometia água no Alentejo para os próximos mil anos tal como um antigo chanceler prometeu à Alemanha um império por outros tantos. Durou doze anos esse "império", metade dos quais enfiado numa guerra planetária. Julgo que estes cem anos devem ser estudados mais como perda do que como ganho ou "progresso". Se hoje estamos mais "modernos" e menos periféricos, não o devemos tanto à política doméstica quanto à Europa. Mesmo Cavaco, quando fez o que devia ter sido feito muito antes dos anos 80 e 90, fê-lo porque já pertencíamos à União Europeia. Sem ela, nunca teríamos passado duma razoável estância balnear. Foi uma pena ter-se sacrificado um homem bom, amante da vida, liberal e patriota, praticamente para nada.

Adenda:

«Ao ler uma passagem do post do João Gonçalves, referente à efeméride do Regicídio, fui imediatamente transportado no tempo, a um já longínquo dia 27 de Abril de 1974. Dia de aniversário da minha mãe, era sempre motivo para uma grande festa que reunia toda a família e dezenas de amigos, à boa maneira laurentina. Abriam-se as portas de casa a quem aparecesse e sendo previsível a costumeira grande afluência, a minha mãe fazia os preparativos necessários, contando com a colaboração dos três filhos, do nosso pai e de outros amigos e familiares. Contudo, nessa manhã e à revelia do que era costume fazer, o meu pai resolveu ..."ir dar uma volta com o Nuno à Baixa"... De nada serviram os protestos e no que a mim diz respeito, fiquei todo satisfeito por me furtar a uma longa manhã de assistência à cozinha. Percorremos as principais avenidas de Lourenço Marques, passando à frente de quartéis, repartições e empresas do Estado. Fomos até ao palácio da Ponta Vermelha, residência oficial do governador-geral e no regresso, contornámos a praça Mouzinho de Albuquerque, onde se situava a grandiosa Câmara Municipal. As ruas da Baixa mostravam o movimento habitual e nada denunciava que algo de transcendente se havia passado dois dias antes em Lisboa. Chegando a casa e respondendo ao olhar inquisidor da minha mãe, o meu pai disse algo que jamais esquecerei: ..."16 anos de bombas e de Afonso Costa, 48 daquilo que ainda agora acabou e vai continuar tudo na mesma!"..."Na mesma? Mas como?" e continuando, sem prestar atenção, "...vamos ser corridos daqui para fora, disso não tenho qualquer dúvida, mas dentro de dez anos, parecerá que voltámos à estaca zero"... "mas afinal o que estás para aí a dizer?"... "Pois, ninguém prestou atenção. Após tantas iniquidades, aquela bandeira continua hasteada como se nada tivesse acontecido. Os símbolos são tudo para a maioria das pessoas e parece-me que lá em Lisboa, ou são muito estúpidos, ou não querem mudar nada no essencial. Era bom que as pessoas compreendessem que abrimos uma nova página e isso eles não ousaram. Que pena!"... Na sua obra biográfica sobre o rei D. Carlos, Rui Ramos fala no desabar de um mundo, o da Monarquia Constitucional, que apesar de todas as convulsões e reinício de marcha, habituou o país à normalidade da existência de vida partidária, diversidade de opiniões, apaixonados debates sobre a coisa pública. Enfim, habituou a maioria dos portugueses a um caminho que inevitavelmente encaminharia a nossa sociedade na senda daquilo a que hoje comummente chamamos velhas democracias europeias. Dois ou três minutos bastaram para que retrocedêssemos oitenta anos, para que a História fosse reescrita ao sabor dos ventos da propaganda mais ou menos oficializada. Quem perdeu fomos todos, o país como entidade muitas vezes secular e cada um que aqui quotidianamente sacrificamos um jantar fora com amigos ou uma ida ao cinema, para estarmos diante do computador, a tentar perceber o porquê destes desesperados e pouco promissores tempos que vivemos. O meu pai tinha razão e a bandeira continua a mesma. Assim, não nos podemos queixar.»

(Nuno Castelo-Branco)

11.6.07

UM PAÍS DE COSTAS


Ignoro em que estado é que isto vai - isto de impedir que o bombista e conspirador Aquilino "entre" no Panteão para se juntar a uns quantos inexplicáveis que já lá estão - todavia, e dando de barato que, se fosse vivo, estaria de certeza nesta "lista de honra", nada como voltar a recordar a má lembrança do filósofo presidente do Parlamento, o dr. Gama. Os amigos do outro dr. Costa, o Afonso, por sinal um deles Costa de apelido e o Buiça, eram íntimos do autor de "Um escritor confessa-se", as "quase memórias" de Aquilino. Em poucos minutos e numa escassez de metros, na Rua do Arsenal, os seus tiros colocaram um fim à esperança de isto poder ter sido outra coisa. Foi o que foi e é o que é, para nossa perpétua infelicidade.

25.4.07

UM LIVRO EM ABRIL


"Não há, em geral, coincidência entre o valor da actividade ou as realizações governativas e a atmosfera política. O inteligente esforço desenvolvido por D. Carlos e coroado de êxito, nos últimos anos do seu reinado, na política internacional não logrou desanuviar o ambiente e não retardou de uma hora o seu bárbaro assassínio". (AOS, Discursos, Vol. III, págs 27 e 28)

Indispensável o livrinho
"Cartas d’El-Rei D. Carlos I a João Franco Castelo Branco, seu último Presidente do Conselho", da Bertrand, com prefácio de Rui Ramos. "Muita coisa se perdeu com a morte de D. Carlos, e o fim da carreira política de João Franco. E é a consciência dessa "fatalidade" que dá a este livro um estranho fascínio: o fascínio das coisas que nunca foram, mas poderiam ter sido".

25 DE ABRIL DE 2007


Cinderela em São Bento

por Rui Ramos


"Já sabemos - dito por quem de direito - que a licenciatura de Sócrates não é o maior problema do país. Estamos ainda para saber se não é o maior problema do primeiro-ministro. Entretanto, o Governo e os seus procuradores tentam, sem excessos de subtileza, convencer-nos de que pode tornar-se um problema sério... para quem tiver o atrevimento de falar sobre o tema. É verdade que ainda não chegámos à Rússia de Putin, e que continua a ser geralmente seguro beber em restaurantes. Presumo, portanto, que ninguém arrisque mais martírio do que o de um telefonema zangado.
De resto, a campanha oficial e oficiosa contra o "golpe de Estado através da imprensa", indistintamente atribuído à vingança de um "grupo económico" ou a mais uma conspiração da "direita radical", esclareceu as regras do jogo: prosas a duvidar da mais célebre licenciatura de Portugal garantem pelo menos uma ficha de "vendido" ou "fascista".
Felizmente, não corro esse risco, porque o objectivo deste texto é dar razão ao Governo. Em tudo. Primeiro, no que diz respeito à conspiração.
Há, de facto, uma conspiração contra Sócrates. Lembro-me perfeitamente de quando começou: no dia 25 de Abril de 1974, faz hoje 33 anos. Foi nesse dia que os membros do Governo em Portugal deixaram de estar devidamente calafetados contra o "jornalismo de sarjeta" e as "campanhas orquestradas". Foi também por esses tempos que se começou a notar uma certa irreverência no modo como os cidadãos se referiam em público aos dirigentes do Estado. Para facilitar ainda mais a vida aos conspiradores, os portugueses cometeram o erro de preferir uma "democracia formal", e portanto pluralista e aberta à controvérsia. Resultado: nunca mais se pôde trabalhar em paz no governo deste país. Como todos sabem, a situação tem-se agravado. Nos piores momentos, dir-se-ia que estamos em Inglaterra ou na América. Sim, a conspiração contra Sócrates tem um nome: chama-se democracia.
Terá ele percebido isso? A prometida "regulação" do jornalismo e a descida dos seus homens, em missão "ideológica", até às empresas de comunicação social provam que percebeu. Há quem considere que Sócrates deveria ter-se conservado acima de tudo isto. De facto, ninguém lhe contestou legitimidade para governar, e nenhum outro poder (Presidente, Parlamento, tribunais) o incomoda. Mas toda a gente admite que a sua "imagem" saiu amarrotada. E só isto justifica a reacção de Sócrates.
Ele compreendeu aquilo que a maioria dos seus críticos ainda não percebeu: que o seu é um Governo de Cinderela, que não foi feito para resistir a demasiadas badaladas.
Cavaco Silva em 1985 e Guterres em 1995 surgiram com fórmulas mais ou menos novas, e perante uma economia a crescer. Passaram assim por cima das primeiras gafes e escândalos. Em 2005, Sócrates trouxe velhas "paixões" para enfrentar uma ruína. Não era um líder popular, nem a sua eleição correspondeu a uma vaga de entusiasmo. Venceu Alegre e depois Santana, porque teria sido preciso génio para falhar contra Alegre e Santana.
Os votos que lhe deram a maioria absoluta (2,5 milhões) poucos mais eram do que os que, em 1999, não deram uma maioria absoluta a Guterres (2,4 milhões). A partir dessa base, Sócrates perdeu tudo o que havia de importante para perder. Perdeu as autárquicas e os principais municípios - com 1.930.191 votos, quase o mesmo resultado (1.918.359) que, em 2001, fez Guterres desistir. E perdeu as presidenciais, com um candidato que arranjou a pior votação de todos os candidatos apoiados por governos desde 1976. Com certa habilidade, passou a viver de um equilíbrio fundamental: por um lado, deu ao PS o pasto das administrações do Estado e das empresas públicas, feitas para sossegar animais ruminantes, e ainda ofereceu às esquerdas, com a nacionalização dos abortos, uma viagem de saudade até 1911; por outro lado, satisfez as teorias daqueles que, à direita, estão convencidos de que nada como músculos de esquerda para meter na ordem funcionários e pensionistas.
Quanto tempo pode durar este ajuste? O Presidente, como lhe compete, coopera. E o eleitorado? Que acontecerá em 2009 se o país prolongar o maior período de divergência com a Europa desde há 60 anos? E se o PSD, por distracção, elege alguém com bom aspecto? Sócrates não está condenado. Mas está mais vulnerável do que a rotina dos comentários tem reconhecido.
O Governo sabe que a série de badaladas para a meia-noite pode começar assim, com os percalços de uma licenciatura. Quando os pajens voltarem a ser ratos e a carruagem uma abóbora, desta Cinderela talvez nem fique o sapatinho."

in Público, 25.4.07 (edit meu), foto: "gentileza" We have caos in the garden

20.3.07

O SR. AMARAL


O nosso sistema representativo parlamentar tem esta coisa medonha: somos representados indiscriminadamente por qualquer deputado. Apesar de eleita por aqui e por ali, a distinta deputação (por causa do "método") é "nacional" e não, como por exemplo em Inglaterra, de origem "local". É por isso que aparecem os "cabeças de lista" mais inverosímeis nos distritos mais inesperados. Há muitos, aliás, que já serviram de cabeça de cartaz em vários distritos. Veja-se o caso do "beirão" Helder Amaral, um senhor dos PP's, partido e Paulo Portas. Este "beirão" - escuta-se o que ele diz e aquilo ressuma Miguel Torga por todo o lado, não haja dúvida - desceu à cidade (ao Caldas) para se indignar com Maria José Nogueira Pinto a quem ameaçou com tribunal. A alusão final à cor da pele foi, aliás, a pérola que faltava para o número do coitadinho ser perfeito. Acontece que não foi porque, a escolher entre ele e Maria José, a opinião pública (não a dos intriguistas manhosos manipulados inteligentemente pelo P. Portas que apenas se serve deles e da sua obtusidade) obviamente não hesita. O sr. Amaral veio de Viseu como podia ter vindo da lua. Não interessa nada. É por estas e por outras que eu, republicano com cada vez mais dúvidas, lamento os fatais dois minutos da esquina do Terreiro do Paço com a Rua do Arsenal. Um homem como D. Carlos I - que tinha a coragem de ser Chefe de Estado "disto" (e bom, por sinal) e de falar "disto" como "piolheira" ou "choldra piolhosa" - só podia ser um visionário. Por isso o abateram e a RTP se prepara para o abater de novo. O tempo está de feição para "beirões" como o sr. Amaral. Força.

Adenda literária: O "melhor" D. Carlos que para aí anda (para já, só para sócios e "amigos de Peniche"), é de Rui Ramos, do Círculo de Leitores. Já li metade e apetece ir "poupando" para durar. Há parágrafos inteiros que podiam ter sido escritos hoje, sobre hoje. A piolheira continua, para pior.

5.2.07

VER E OUVIR OS OUTROS

E a propósito do post anterior, o 31 da Armada remete para um "device" que permite ver e ouvir o programa de Rui Ramos na RTP - "Portugal de..." - com Vasco Pulido Valente. Agradeço que alguém do "31" me explique como é que instalo o "device", já que "cliquei" e não vi nada.

LIBERDADE, DISSE ELE


Já disse e repito. Gosto pessoalmente do Pedro Santana Lopes. Não o vi na D. Elisa porque estive a celebrar os cinquenta anos do meu querido amigo Carlos Câmara Leme. Todavia, confio nas palavras do João Távora. Santana Lopes confundiu certamente a 1ª República com qualquer coisa parecida com uma democracia. Acontece que esses miseráveis dezasseis anos de "liberdade" a que PSL aludiu, corresponderam a uma ditadurazinha pequeno-burguesa, orientada a partir de Lisboa por um bando de verdadeiros terroristas que, uns na sua santa inocência, outros na sua gravidade totalitária, imaginaram poder tomar conta do país e, uma vez mais, "reformá-lo". Havia gente boa no meio da horda? Naturalmente. Só que os "pais" daquela República - com António José de Almeida e Afonso Costa à cabeça - nunca pretenderam verdadeiramente mudar nada de fundamental. Nem podiam. O país deles consistia em uma ou duas ruas principais de Lisboa e na intriga permanente o que, na devida altura, os perdeu para o homem que deu ao país o sossego que ele lhe pedia. Viveram pelo ódio e no desprezo intelectual pelo "povo" que nunca compreenderam, apesar de reclamarem o poder em seu nome. Leia umas coisinhas, PSL. Mal nunca faz.

1.2.07

1 DE FEVEREIRO DE 1908


Quem sabe se aqueles fatídicos dois minutos, na esquina do Terreiro do Paço com a Rua do Arsenal, não tivessem ocorrido, se não teríamos sido poupados a quase cem anos de inanidades de diversas proveniências. Os nossos gloriosos "cem anos de solidão".